No sábado retrasado faleceu Rubem Alves, um dos grandes e mais respeitados escritores brasileiros. Apesar de ser seu sobrinho-neto, confesso que tenho pouca intimidade com as obras dele. O que conheço de seu pensamento vem da leitura que fiz de seus artigos e das palestras e entrevistas às quais assisti, especialmente sobre educação. Sempre me admirei de suas propostas para a educação. Suas opiniões nesse assunto sempre me pareceram muito válidas e coerentes. Coincidência ou não, estudei minha vida inteira em uma escola alternativa, daquelas que seguem os modelos de Piaget e Paulo Freire, muito em sintonia com as propostas que o próprio Rubem fazia.
Graças a isso, cresci sem saber direito o que era o “modelo tradicional” de escola que ele e os professores de minha escola tanto criticavam. Passei minha infância e adolescência inteira ouvindo que a escola deve ser um lugar que desperta o senso crítico, que o aluno deve ser sujeito do aprendizado, que o professor deve auxiliar o aluno a chegar ao conhecimento por conta própria e que a escola deve preparar para a vida, e não para o vestibular. Acho que isso explica o tremendo enfado com que sempre aturei as aulas da licenciatura nos dois últimos semestres. As matérias da FaE (Faculdade de Educação) nunca foram para mim nada mais do que um interminável e insuportável repeteco de tudo aquilo que eu havia ouvido na escola a vida toda. Cada disciplina parecia uma eterna compilação de truísmos iguaizinhos aos que eu havia visto nas outras disciplinas, só que com palavras diferentes. Não por acaso, várias vezes pensei seriamente em desistir da licenciatura, com medo de não aguentar aquela monotonia até o fim.
Bom, mas eu não estou aqui para falar da FaE, que já me consumiu tempo o bastante.
Apesar de conhecer muito pouco da obra de Rubem Alves, lembro-me bem de uma das últimas entrevistas que ele concedeu, quando já estava bem debilitado, em um documentário que a TV Câmara fez sobre sua vida. Em determinado momento do documentário ele afirma que um dos maiores erros que alguém poderia cometer seria voltar, após muitos anos, a um local marcante de sua infância e juventude com a esperança de matar as saudades. Isso porque quase sempre voltamos àquele lugar esperando reencontrá-lo tal como ele era antes. Esquecemo-nos de que esse lugar mudou, nós mudamos, as pessoas com quem convivemos nele mudaram (ou sequer estão mais ali). Como resultado, tudo o que encontramos é um local estranho, que pouco ou em nada nos lembra daquele espaço que esperávamos reencontrar.
Pois há apenas um mês atrás eu tive essa experiência monumental de voltar a um lugar que marcou minha juventude. 10 anos depois de ter colocado meus pés na Malásia pela primeira vez, aproveitei as férias da Copa do Mundo e uma passagem barata e resolvi retornar à minha segunda terra natal, onde passei 12 dos mais marcantes meses da minha vida. A Malásia foi minha primeira experiência internacional e minha primeira experiência de longa duração longe da família. Logo em minha primeira viagem internacional fui bater em terras tão longínquas para ficar não 1 ou 5 meses, mas um ano!
Era o que eu mais queria: retornar a esse país no qual eu havia crescido e aprendido tanto. Mais do que visitar outros países, mais do que conhecer outros lugares, o que eu sempre quis mesmo foi retornar àquela jovem monarquia do Sudeste Asiático que eu já havia aprendido a amar como se fosse o meu próprio país. Tudo que aconteceu comigo desde o fim da minha adolescência girou em torno disso: meus relacionamentos, meus estudos, minha vida acadêmica e profissional. De uma forma ou de outra, todas as decisões e experiências, decepções e triunfos, tudo que me aconteceu desde meu retorno ao Brasil em junho de 2005 sempre remeteu ao meu aprendizado na Malásia. Correndo o risco de uma comparação grosseira, diria que esse intercâmbio foi, para mim, o mesmo que a Revolução Francesa foi para a história ocidental.
“Mas o que tem nessa Malásia que te deixa assim, Marcelo? Quero conhecer esse país também!”, muitos devem querer me perguntar. Pois eu respondo: não há nada de especial. Vocês podem visitar o país, pode até ser que gostem. Mas o que me atrai tanto nele é a lembrança que guardo dele até hoje. Graças a isso, toda visita que eu eventualmente fizer àquele país sempre terá um significado especial, totalmente diferente da que outras pessoas terão.
No momento em que coloquei os pés na Malásia pela segunda vez, simplesmente não consegui acreditar. Desde que voltei ao Brasil sonhei tantas vezes que estava voltando pra Malásia que, quando se tornou realidade, fiquei até desconfiado. E confesso que até o segundo ou terceiro dia, continuei desconfiado, sem acreditar que aquilo estava acontecendo. Ao pegar o trem expresso do aeroporto até a estação central de Kuala Lumpur, derretia-me vendo aquelas paisagens típicas: as mesquitas, os templos hindus, as plantações de óleo de palma... Apesar de estar tão distante de casa, poucas vezes na vida me senti tão em casa quanto nas minhas primeiras horas na Malásia. Parecia até que eu estava voltando pra casa depois de alguns anos viajando pelo Brasil.
Pegando o trem da estação de Kuala Lumpur para Klang, sofri de algo que ainda não sei bem o que é. Creio que saudades antecipadas. Havia acabado de chegar ao país, mas quase morri de desgosto ao pensar que teria de deixa-lo após duas breves semanas. Via as estações de trem no quadro e me contagiava de nostalgia. Eram as mesmas estações de 10 anos atrás. O trem, porém, havia mudado: os vagões eram mais modernos e bonitos, e havia até vagões especiais para mulheres – que, curiosamente, não eram isolados dos vagões normais. Quando o trem parou na primeira estação e as portas se abriram, eu, bem posicionado em frente delas, senti aquele ar quente de mormaço e aquele cheiro de curry pela primeira vez em muito tempo, vindo bem em cima de mim. Fui tomado por uma felicidade inexplicável. Perguntei a mim mesmo: “O que é que eu tinha na cabeça quando deixei esse país?”.
O trem seguiu em frente. Em menos de uma hora estava em Klang, a cidade onde havia vivido e onde iria ficar novamente. Desci carregando minha mala e, antes de mais nada, fiz questão de tirar aquela selfie em frente à placa da estação – não podia faltar. Peguei o táxi até a casa da família que havia me hospedado nos primeiros meses de meu intercâmbio, e que iria me hospedar novamente. No caminho, fui vendo todas aquelas paisagens às quais me acostumara: o palácio do sultão, os restaurantes de comida indiana, o hospital Tengku Ampuan Rahimah e, enfim, a casa onde havia morado. Logo que apontei no jardim, a primeira coisa que ouvi deles foi: “Mas você não mudou nada, hein?”. Ouvi a mesma frase de quase todos que reencontrei, além de uma outra, ainda mais frequente: “Mas justo agora que todo mundo quer estar no Brasil para ver a copa você resolve vir para a Malásia?!”.
A Malásia é composta por basicamente três etnias: malaios, chineses e indianos. Lá, porém, não houve a atuação decisiva do sangue lusitano para “amolecer” a rigidez das divisões raciais e fazer emergir a miscigenação tão celebrada por Gilberto Freyre. O país é praticamente formado por três países dentro de um só. Essa família na qual fiquei era uma rara exceção: a mãe era malaia, muçulmana, e o pai indiano, convertido ao islamismo antes de se casar com ela. Eles tinham duas filhas. Nenhuma delas usava o véu há dez anos atrás. Agora, porém, a mais nova estava usando.
Após tomar um lanche com eles, fui tomar um banho. Na Malásia é costume encher o balde e tomar banho de caneca. Eu estava suado e cansado da viagem. Quando derramei a primeira caneca de água gelada sobre mim, novamente fui tomado por uma euforia indescritível. A única coisa em que conseguia pensar era: “Nunca mais! Nunca mais saio daqui...! Quero passar a eternidade aqui!”.
Lá estava eu, no mesmo quarto, no mesmo banheiro que eu havia usado dez anos antes. Eles estavam exatamente da forma como eu os havia deixado. Parecia até que estavam ali a me esperar, pacientemente, por todos esses anos.
Mas nem tudo estava igual. Notei que essa família estava bem mais religiosa do que da última vez. Eles passavam quase o dia todo assistindo a um canal islâmico na TV a cabo que transmitia orações, sermões e discussões em torno de história religiosa e do Alcorão. Em certos momentos do dia todo mundo desaparecia, recolhendo-se aos seus respectivos quartos: era o momento da oração para Meca. Parecia que todo mundo havia sido abduzido. A casa, muito escura por causa da pequena quantidade de janelas, ficava vazia e sombria. Nesses momentos eu aproveitava para andar pelas salas, observando tudo cuidadosamente, matando saudade de cada espaço. Mas pouco tempo depois todos reapareciam e nós comíamos!
Aliás, na minha primeira noite de volta à Malásia, tive um dos melhores jantares da minha vida. Uma das coisas da qual mais senti falta no país foi, sem dúvida, a comida. Passei os últimos nove anos de minha vida imaginando quando eu iria comer aquela comida de novo. No meu primeiro jantar, comi o famoso nasi lemak, um dos pratos tradicionais: arroz, pepino, frango e anchovas num molho vermelho muito, mas muito apimentado. Uma delícia! Comi com gosto, como em uma tentativa de matar toda a minha saudade. A pimenta desceu ardendo até meu estômago. Meus olhos lacrimejavam de dor e alegria ao mesmo tempo. Aliás, em meus primeiros dias eu comi tanta coisa e com tanta tenacidade, que tive uma dor de intestino infernal. Por um ou dois dias achei que ia explodir. A comida malásia é tão apimentada e saborosa, que agora que voltei ao Brasil tenho sérios problemas para me reacostumar. Tudo parece tão sem-graça e insípido, que muitas vezes parece que estou comendo e não estou me satisfazendo.
Mas – pimentas e comidas à parte –, quem não gostaria de voltar a ser adolescente com a maturidade que se tem hoje?! Pois esse sempre foi meu maior fetiche com a Malásia. Quando estive lá pela primeira vez era apenas um menino imaturo de 16 anos. Tinha medo de vestibulares e de meninas, era profundamente inseguro e estava sempre disposto a acreditar em quase tudo que me dissessem. Isso me impediu e muito de aproveitar plenamente meu intercâmbio. Mas desde então, quantas coisas me aconteceram! E eu estava de volta àquele lugar, com a maturidade que esses anos todos haviam me conferido. Meus amigos foram unânimes em dizer que eu não mudara fisicamente. Mas, por dentro, só eu tinha consciência do quanto minha cabeça havia mudado. Reconciliar-me com a Malásia: essa era minha meta.
Porém, como disse meu finado tio-avô: aquele lugar de nossa juventude nem sempre está lá inteiro, para nós. Se eu não havia mudado fisicamente, quase todos os meus amigos haviam mudado muito, e não só fisicamente. Um deles, que na escola tinha fama de ser rebelde, está trabalhando em um jornal pró-governo e é um ferrenho crítico da oposição. Outro, que vivia às voltas com sua família por ser homossexual e se deprimia cada vez mais por conta disso, agora é um feliz engenheiro químico trabalhando para as Petronas; ele tem um namorado estável, está financiando uma casa com o próprio dinheiro e, graças à sua independência financeira, já não teme tanto as escaramuças com seus familiares. Outro está trabalhando para uma organização do governo inglês, e viaja pelo mundo todo a trabalho (em uma dessas muitas viagens ele acabou conhecendo um amigo meu daqui de BH; mundo pequeno, não?!). Outro trabalha com plantações de óleo de palma sustentáveis e propôs que eu o ajudasse em um novo negócio de intercâmbio entre frutas brasileiras e malásias. Outro trabalhava em um cassino nas terras altas no interior do país – o único cassino legalizado na Malásia. Já um outro, que não encontrei dessa vez, havia virado traficante de drogas (profissão que dá pena de morte na Malásia), segundo me contou meu amigo que trabalha no jornal pró-governo.
Voltei também à escola na qual havia estudado. Era uma La Salle, escola fundada por missionários ingleses que tem sedes também aqui no Brasil. Visitei a cantina (tomei café da manhã lá), entrei nas salas de aula, relembrei o que fiz e o que vivenciei em cada parte daquele ambiente. Mas a cada passo que dava sentia um vazio danado por saber que aqueles tempos nunca vão voltar. Olhando pelo lado positivo, dei uma baita sorte de aparecer na escola justo num sábado em que estava acontecendo um evento esportivo. Fiquei feliz de encontrar uma grande parte de minhas ex-professoras lá – inclusive a de história! Uma delas me abraçou tão forte quando me viu que por um momento me esqueci que estava na Malásia. Todas ficaram surpresas de saber que eu também havia me tornado professor. Uma delas até me desencorajou de brincadeira, mas com um fundo de seriedade, dizendo pra eu mudar de ideia enquanto era tempo, já que ser professor é muito desgastante.
Outra coisa que havia mudado muito em minha cidade: eu não me sentia mais um alienígena. Há dez anos atrás, para onde ia todos me olhavam com estranheza. Agora, graças à globalização, ocidentais não são mais estranhos à população de Klang. Mas veja bem: Klang é uma cidade nos arredores da capital, região mais internacionalizada. Quando viajei para Kota Bharu, no nordeste do país, aí sim me senti na Malásia de verdade. O estado de Kelantan, do qual Kota Bharu é a capital, é meio que um pedaço do Oriente Médio no Sudeste Asiático. Quase toda a população é malaia/muçulmana, as placas e outdoors são escritos em alfabeto latino e arábico, os shoppings centers não têm cinemas e sexta-feira é feriado, dia santo para o islã. Apesar de ser a capital do estado, Kota Bharu tem ares muito mais provincianos do que urbanos. Parece até uma pequena vila que está começando a se tornar uma cidade média. Num dos shoppings da cidade, descobri que existe uma versão malaia daquela música do Cristiano Araújo (ou seria do Michel Teló? O sertanejo universitário é cheio de dissidências e disputas), "Bara bere". Vocês podem conferia-la nesse link: http://www.youtube.com/watch?v=iqEAKaIqhBc
Visitei o mercado central de Kota Bharu, onde se vendem comidas típicas e artesanato. Esse mercado é famoso por ter apenas vendedoras do sexo feminino. Lá comprovei o quanto é importante saber falar malaio se se quer visitar o país. Quase nenhum estrangeiro que visita ou mora na Malásia aprende malaio, haja vista que grande parte da população do país fala inglês - pelo menos no entorno da capital. Assim, os malaios ficam muito admirados ao verem um estrangeiro, sobretudo ocidental, falando malaio. Tanto que a moça de uma barraca fez desconto para mim em alguns produtos e até me deixou levar um a mais de graça. Isso sem falar que dava pra entender um pouco quando cochichavam sobre mim em voz alta. Fiquei surpreso com minha capacidade de ainda lembrar o malaio mesmo após tantos anos sem praticar.
Em Kota Bharu fiquei hospedado na casa de um casal aposentado que a alugava para turistas. Ambos eram muito amáveis. O dono da casa era mais quieto, mas a mulher era muito culta e amigável. Ela dizia ter uma imensa admiração pelo Lula e pela Dilma, especialmente tendo em vista as torturas pelas quais havia passado e a sua capacidade de se superar e virar presidente. Também afirmou que gostou muito de mim, e que iria orar para que Allah tocasse meu coração e eu me convertesse ao islamismo. E antes que você venha tirar conclusões precipitadas: essa foi a única vez que um muçulmano me sugeriu mudar de religião. Em geral, eles são extremamente respeitosos quanto à sua fé, seja lá qual for. Porém, a dona da pousada disse que havia gostado muito de mim, e que não iria ficar tentando me converter, mas que achava que eu tinha todas as características de um bom muçulmano. Quando eles me levaram ao aeroporto, ela me disse para lhe escrever um e-mail, caso tivesse tomado a decisão de me converter. E disse também que da próxima vez que me hospedasse lá, não precisaria pagar. Fiquei desconcertado com tanta cortesia. Não fiz nada além de agradecê-la muito, e prometer que iria pensar nas suas palavras.
Kelantan era um pedaço da Malásia que eu não havia visitado da primeira vez, mas confesso que foi uma de minhas melhores experiências naquele país. Em Klang, sempre tive muito mais contato com indianos e chineses, vindo a conhecer pouco a cultura malaia, que é, de fato, a que mais me fascinou. O islã chegou à Malásia no século XV, e a mistura entre elementos da cultura malaia pré-islâmica e elementos da cultura árabe-muçulmana gestou uma civilização e uma história sem pares. Algo digno de admiração e muito estudo.
Dois dias após voltar de Kota Bharu foi a vez de conhecer Cingapura, uma pequena ilha ao sul da Península Malaia que fez parte da Malásia entre 1963 e 1965, mas depois se separou. Se Kelantan é um pedaço do Oriente Médio, Cingapura é um pedaço da Europa na Malásia. Todas as placas em inglês (mas também em chinês, malaio e tâmil), transporte público de primeira, ruas limpinhas e um monte de atrações turísticas, como parques temáticos, safáris e coisas do tipo. Enfim, Cingapura é a Disneylândia do Sudeste Asiático.
Eu, porém, fiquei hospedado em um hostel numa área não muito nobre dessa cidade-Estado. Era a região de Geylang, área famosa por concentrar inúmeras casas de prostituição, que é legalizada no país. Quando chegava do centro da cidade à noite e passava perto das casas, os recrutadores logo me abordavam: “Hey, Mr. John, Mr. John, come! I have girl for you!” (embora o significado da palavra “girl” fosse meio ambíguo naquele contexto). Enquanto aqui no Brasil chamamos os estrangeiros de gringos, em Cingapura eles chamam os ocidentais de Mr. John, talvez por nos associarem automaticamente aos americanos. Já na Malásia, curiosamente eles chamam os ocidentais de Mat Salleh (abreviação de Datu Muhammad Salleh), um rebelde de Bornéu que liderou uma rebelião contra o domínio britânico no século XIX. É como se os peruanos resolvessem chamar os espanhóis de Tupac Amaru ou os haitianos chamar os franceses de Toussaint Louverture.
Voltando de Cingapura, faltava apenas um dia para meu retorno ao Brasil. Foi com extremo pesar que desci no aeroporto internacional de Kuala Lumpur para abandonar a Malásia pela segunda vez. Enquanto aguardava para embarcar, vi algo que nunca havia visto nem em um ano na Malásia: um judeu. Ele estava sentado mexendo no laptop, provavelmente aguardando seu voo. Aliás, uma curiosa combinação entre a vitória alemã na Copa e as ofensivas israelenses em Gaza gerou uma onda de antissemitismo e de apologia ao nazismo na Malásia que acabou transbordando para o Facebook. Houve casos de personalidades políticas e artísticas do país postando frases de apoio a Hitler e ao nazismo. Mesmo um amigo meu muçulmano trocou sua foto de capa do Facebook por uma foto de Hitler, ao lado de uma suástica.
O governo da Malásia não reconhece o Estado de Israel e é um grande apoiador da causa palestina. Tanto que, até há pouco tempo atrás, cidadãos da Malásia eram proibidos de voltar ao país caso seu passaporte tivesse um carimbo israelense. Creio que é justamente a ausência de contatos com judeus um dos responsáveis por deixar tantos malaios alheios ao que foi o nazismo e o holocausto, levando-os a essas demonstrações bizarras.
Quando estava me dirigindo ao portão de embarque e apresentei meu passaporte ao policial, ele leu meu sobrenome e brincou: “Alves de Paula Lima... Not Gustavo Lima, huh?”. Apenas ri e disse: “Oh, even here that guy is famous?”. E foi com essa conversa pitoresca que concluí minha segunda experiência na Malásia.
Ao fim e ao cabo, Rubem Alves tinha razão: quando voltamos a um lugar após muito tempo, ele não é mais o mesmo. Mas às vezes ele pode ser ainda melhor do que da primeira vez em que estivemos, especialmente quando aqueles a quem reencontramos mudaram para melhor. Especialmente quando nós mesmos mudamos para melhor. E me arrisco a dizer que aproveitei mais a Malásia nessas breves duas semanas do que em todos os 12 meses que perambulei por lá.
Voltei triste, mas feliz: havia me reconciliado com a Malásia.
"Quem quiser fale mal da literatura. Quanto a mim, direi que devo a ela minha salvação. Venho da rua oprimido, escrevo dez linhas, torno-me olímpico" (Cyro dos Anjos, "O amanuense Belmiro", 1937).
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quarta-feira, 30 de julho de 2014
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Do consenso ao crepúsculo: meus 26 anos - parte 1
Certa vez li, em algum lugar, que precisamos pensar se a criança que nós fomos um dia teria orgulho de nós se nos visse hoje. No meu caso creio que essa resposta seria negativa. Se eu, aos 9 ou 10 anos de idade, soubesse que no futuro eu viraria um professor de história, acho que cairia duro no chão, tamanha a amargura da qual seria tomado. Mas isso não importa. Até porque também não tenho lá muito orgulho da criança que eu fui. Creio que nossas expectativas e nossos conhecimentos vão mudando ao longo dos anos, de modo que aquilo que para nós era uma prioridade passa a ser superficial e vice-versa.
Nasci em um dia 29 de janeiro do ano de 1988. Sou daquela feliz geração que não temeu o holocausto nuclear da Guerra Fria nem viveu a inflação. A União Soviética sempre foi tão distante de minha realidade quanto a Alemanha nazista, e a Ditadura Militar tão distante quanto o Estado Novo. Parece que nasci em um mundo e em um país já prontos, aconchegantes, com tudo arrumadinho para que eu já fosse chegando e me acomodando. Vivi meus primeiros anos em um país democrático, com eleições regulares; era novo demais para entender a inflação e os escândalos do governo Collor. Quando comecei a me entender por gente, essas pendências já haviam sido resolvidas.
Ruim de matemática que sempre fui, fiquei aliviado quando, aos seis anos de idade, me deparei com uma nova moeda, com menos zeros, menos números e, consequentemente, mais fácil de calcular (fiquei tão desacostumado com vários zeros nas notas que, há uns anos atrás, ao visitar a Hungria, enfrentei sérios problemas ao lidar com o dinheiro de lá). Creio que a única lembrança que tenho da inflação foi passear com minha avó pelo supermercado lá pelos idos de 1992 ou 1993 e ver os funcionários remarcando preços compulsivamente. Minha avó reclamava: “olha aí, todo dia os preços aumentam!”.
Vivi em um mundo sem o Muro de Berlim, sem Brejnevs e Gorbachevs; nasci sob a égide do consenso de Washington, que nos assegurava que dali pra frente tudo ia ser diferente. Com tanta placidez e tranquilidade, nem parecia que somente alguns anos me separavam da era dos extremos, com suas bombas, ditaduras, guerras e revoluções.
Graças a tudo isso, estudar história sempre me pareceu um exercício de penosa imaginação. Era difícil entender que aquele mundo tranquilo e pacífico no qual eu vivia já havia sido, há poucos anos atrás, tomado por tanto ódio e sangue quanto os livros e documentários insistiam em dizer. Não poucas vezes me peguei pensando, ao longo dos 1990, por que eu não via tanques de guerra nas ruas, por que eu não via bombas caindo na minha cidade, por que todo mundo podia falar o que quisesse sem ser preso, por que os políticos de então eram tão diferentes daqueles carrancudos de farda que haviam dominado grande parte da cena política do século XX.
Uma das lembranças mais remotas que tenho da minha infância é a de assistir ao noticiário do Jornal Nacional sobre a Guerra do Golfo, em janeiro de 1991. É claro que não entendia nada daquilo tudo, mas me lembro que o nome “Saddam Hussein” ficou marcado na minha cabeça, embora eu só soubesse pronunciar “Sadão Mussein”. Como não sabia direito o que aquela expressão significava, dei o nome de “Sadão Mussein” a todos os soldadinhos de plástico que eu tinha. Também me recordo vagamente do noticiário do Jornal Nacional de 1992 acompanhando a crise no governo Collor. Tanto é que por muitos e muitos anos, até minha adolescência, sempre que se falava em “Fernando Collor” a primeira imagem que me vinha à cabeça era a do William Bonner. Demorou um pouco até que meu inconsciente pudesse separar as duas pessoas – ainda que a imagem da Rede Globo e de Fernando Collor sejam eternamente inseparáveis.
Lembro-me da primeira nota de real que ganhei. Era aquela de um real, que hoje nem existe mais. Foi dada pelo meu avô no dia do jogo Brasil X EUA na Copa de 1994. Aliás, acho que minhas primeiras lembranças mais marcantes datam de exatos 20 anos atrás, quando da realização da Copa do Mundo nos Estados Unidos. Essa foi a primeira Copa à qual assisti, ainda que com meus seis anos de idade eu não pudesse entender muito bem o funcionamento do torneio. De alguns jogos eu me lembro bem (Brasil X Camarões, Brasil X Suécia, Brasil X EUA, Brasil X Holanda, Brasil X Itália e até Alemanha X Coreia do Sul!). No entanto, sempre achei jogos de futebol (assim como filmes) muito longos e cansativos, de maneira que em muitos desses jogos eu preferi me ausentar da sala de televisão na maior parte do tempo para ir fazer outras coisas.
E por falar em copa, nas três primeiras copas que acompanhei, vi o Brasil chegar a três finais seguidas e vencer duas delas. Sempre achei que as partidas de futebol fossem como os filmes, nos quais o bem sempre vence no final – sendo que no futebol o “bem” seria a seleção brasileira. Coincidência ou não, o Brasil venceu em 1994, e eu sinceramente não saberia calcular o tamanho do trauma que eu teria se o Brasil tivesse perdido. Acho que ver o Brasil perdendo um jogo equivaleria a ver um super-herói morrendo e o filme terminando com a vitória do vilão. É o tipo de coisa que eu acho que jamais conseguiria processar direito. Mas, felizmente, eram os anos 1990: tudo ia bem, tudo dava certo. Na minha cabeça de menino, tudo só podia dar certo, não havia outra alternativa. E da mesma forma que eu demorei a entender que o Brasil havia vivido a maior parte de sua história sob regimes repressores, também demorei a entender que o Brasil havia perdido todas as copas nos últimos 24 anos. Não conseguia compreender como meus pais, tios e avós assistiam a uma Copa do Mundo sem o Brasil ser campeão ou finalista.
Aos oito anos de idade, assistindo a um programa na TV, fiquei conhecendo uma das figuras mais aterrorizantes de minha infância. Seu nome era Nostradamus: um francês que fazia previsões sobre o fim do mundo. Estávamos no ano de 1996, e à medida que o ano de 2000 se aproximava, os ânimos se agitavam em várias partes do globo, anunciando o fim do mundo, catástrofes naturais e todo tipo de tragédias. Por alguns momentos eu tive uma pequena amostra do que meus antepassados deveriam ter vivido nos tempos do holocausto nuclear. Conversando sobre isso com minha avó um dia, ela me disse que eu não precisava me preocupar, pois esses assuntos eram coisa de gente grande. Obviamente não fiquei convencido por essa resposta, afinal de contas, eu sabia que se o mundo fosse acabar iria acabar pra todos: adultos e crianças.
Aos nove anos, comecei a me interessar por religiões. Por algum motivo, o cristianismo não me atraía, principalmente o catolicismo. Achava o ambiente da igreja católica extremamente pesado. Morria de medo de imagens de santos e a figura do Cristo crucificado e ensanguentado me causava mal-estar. Foi então que comecei com meus planos de me tornar um monge budista. Não me lembro bem o que me levou a interessar-me pelo budismo. Parecia que a tranquilidade dos ensinamentos budistas contrastava com as inúmeras pragas, guerras e castigos que pululavam nas páginas da Bíblia. A placidez dos monges e dos mosteiros figurava para mim como um refúgio diante da dureza das palavras do pastor (cheias de reprovação e pessimismo), e também diante dos cultos da igreja, marcados por uma cantoria insuportável.
Vindo de uma família protestante por parte de pai, é claro que minha nova ambição não teve uma recepção nada amigável. Entre meus amigos também a recepção não foi das melhores: muitos deles diziam que eu não iria chegar a lugar nenhum com isso. Um colega meu de judô à época me ironizou, dizendo que ele iria ser médico e ganhar muito dinheiro, e iria comprar uma moto Suzuki, sendo que eu não iria ter dinheiro algum, pois ia ser monge, e monges vivem de esmola. Outros tantos apenas se limitavam a dizer que monges não podiam namorar, e que por isso eu ia passar a vida toda sozinho. Desnecessário dizer que essas pataquadas nunca abalaram minha confiança, afinal de contas, casar-me e ter carros importados nunca foram prioridades para mim durante minha infância. Do outro lado da família, meus planos foram recebidos com um pouco mais de entusiasmo, especialmente pelo meu tio-avô, o escritor – e ex-pastor – Rubem Alves que, inclusive, até me presenteou com algumas fotos e reportagens sobre Sidarta Gautama.
Aos dez anos vi minha segunda Copa do Mundo. Foi nessa Copa que aprendi que as partidas de futebol não são como os filmes de ação, mas sim como a vida: às vezes o vilão vence no final. E, enquanto eu via as imagens da multidão em polvorosa no Stade de France após o jogo da final, aprendi que não existem vilões no mundo, apenas heróis. O problema é que quase todos os heróis estão ocupados demais tentando acusar uns aos outros de vilões, de modo que não lhes resta tempo para salvar o mundo.
Não sei ao certo se foi antes, depois ou mais ou menos simultaneamente aos tristes eventos de julho de 1998 que eu comecei a ensaiar um arremedo de insurreição contra aquele mundo arrumadinho e aconchegante do pós-89 no qual eu havia crescido. Sob o influxo das imagens da final da Copa do Mundo, comecei a enxergar com outros olhos os heróis e os vilões da minha infância. Crescendo sob a sombra do consenso de Washington, havia aprendido que os americanos e europeus eram os bons, e que o resto do mundo estava dividido entre aqueles que eram inimigos dos europeus e americanos, e aqueles que deveriam ser gratos aos europeus e americanos por tê-los livrado desses inimigos. Acontece que, em dezembro daquele mesmo ano de 1998, o então presidente dos Estados Unidos Bill Clinton mandou bombardear o Iraque em pleno Ramadan, acusando Saddam Hussein de não cooperar com os inspetores de armas da ONU. Foi a operação “Raposa do Deserto”.
Atônito, eu assistia, pela TV, às imagens que chegavam dos bombardeios. Os sons das bombas se misturavam aos alto-falantes das mesquitas que chamavam os fiéis para as orações e compunham uma melodia infernal. Diante daquilo tudo, eu sentia raiva. Raiva dos Estados Unidos por bombardearem um país à revelia de tudo e de todos. Raiva por saber que muitas pessoas inocentes morriam sob aquelas bombas. Raiva por perceber que, no confortável mundo pós-89, os Estados Unidos podiam fazer o que bem entendessem, como bem entendessem, pois não havia ninguém de peso para impedi-los. Pelo visto, o exército norte-americano não era tão bonzinho quanto os filmes da Sessão da Tarde nos queriam fazer acreditar. Perguntei ao meu pai, revoltado, por que o Iraque não contra-atacava, e ele disse que os iraquianos não tinham poder de fogo para tal. Fui tomado por um sentimento de impotência. Viver sob o consenso de Washington foi se tornando cada vez mais penoso. Os iraquianos não eram vilões, como a mídia tentava mostrar, assim como também não eram vilões os índios dos filmes de faroeste. Os vilões eram justamente aqueles que sempre venciam no final dos filmes.
A partir de então, sempre que brincava com meus soldadinhos de plástico, traçava enredos nos quais os Estados Unidos eram fragorosamente bombardeados, como que em uma vingança pelo que haviam feito com outros países. Entre os alvos preferidos estavam a Casa Branca, o Pentágono e o Capitólio. Lembro-me até de ter começado a escrever uma história na qual uma coalização de países árabes se unia para atacar os Estados Unidos, mas meu projeto não foi adiante. Penso que essas eram as melhores formas que eu tinha de externar minha indignação com tudo aquilo. Guardo até hoje um infográfico que a Folha de São Paulo publicou à época sobre esse episódio. O infográfico trazia um mapa do Iraque com as regiões atacadas e duas bandeiras – a iraquiana e a norte-americana, esta última rabiscada por mim em um momento de desgosto.
No ano seguinte, em 1999, Saddam Hussein saiu de cena para dar lugar a Slobodan Milosevic, ditador sérvio acusado de cometer atrocidades contra minorias étnicas no Kosovo. E novamente os Estados Unidos tomaram as rédeas da situação, bombardeando a Iugoslávia com o apoio da OTAN e despertando a ira de Rússia e China, além da minha própria. Novamente me veio aquele sentimento de impotência, enquanto os jornais noticiavam todos os dias novas mortes de civis sob os ataques das forças da OTAN. Mais do que nunca, os norte-americanos me davam asco, nojo, repulsa. Tomado por um anti-americanismo pueril, comecei a hostilizar tudo o que viesse daquele país – e isso bem no auge das boy bands! Detestava os Backstreetboys, o N’Sync, as Spice Girls (afinal, a Inglaterra era cúmplice dos bombardeios no Iraque e no Kosovo), não só pela sua música, mas também porque eles eram símbolos do imperialismo cultural norte-americano. Ridicularizava minhas colegas de escola que ouviam essas bandas. Foi com muito custo que, nessa mesma época, meus pais conseguiram me matricular num curso de inglês, de onde eu certamente teria pedido para sair, não fosse a extrema facilidade que encontrei no aprendizado desse idioma.
Mas o tempo passou, o ano 2000 passou (para o meu alívio!) e chegou o ano de 2001. Nunca vou me esquecer de duas cenas nesse ano. A primeira delas foi um vídeo exibido pelo Jornal Nacional em fins de agosto ou princípios de setembro no qual o famoso terrorista saudita Osama bin Laden ameaçava os Estados Unidos. A segunda delas foi aquilo que, acredita-se, tenha sido a concretização dessa ameaça: os ataques de 11 de setembro de 2001.
Acho que essa foi uma das datas mais marcantes da minha vida. Minhas brincadeiras de soldadinhos, bombardeiros e tanques de guerra de plástico se tornavam reais bem em frente aos meus olhos. Os ataques aos Estados Unidos que eu tanto ensaiara com meus pequenos exércitos e pelos quais eu sempre torcia, para vingar sérvios e iraquianos, se concretizavam nas imagens que eram exaustivamente repetidas em literalmente todas as redes de televisão naquele momento. Não soube bem como reagir àquilo tudo num primeiro momento. Só fiz questão de memorizar detalhadamente tudo naquele dia: o que eu tinha feito, qual era meu dever de casa, quais tinham sido minhas aulas de manhã – tudo para, um dia no futuro, poder contar a alguém: “no dia 11 de setembro de 2001 eu fiz...”. Nunca, em toda a minha vida, eu tinha tido tanta consciência de estar vivendo um momento histórico.
Não vivi a era dos extremos, mas vi o que nenhuma outra pessoa que viveu naqueles anos jamais havia visto: os Estados Unidos sendo atacados em seu próprio território. E o mundo do consenso de Washington desabava ali, à minha frente, junto com as torres do World Trade Center. Era o crepúsculo dos deuses do século XXI. Antes mesmo que eu ouvisse qualquer jornalista especular sobre a autoria dos ataques, eu já dizia para mim mesmo, com toda a certeza, quem era o suspeito número um. Era ele, só podia ser ele: o mesmo responsável pelos ataques às embaixadas norte-americanas na Tanzânia e no Quênia em agosto de 1998; o mesmo responsável pelo vídeo que, há poucas semanas atrás, mostrava terroristas em campos de treinamento no Afeganistão e emitia mensagens de ódio ao “grande satã”.
Curiosamente, o caderno internacional da Folha de São Paulo daquele dia 11 de setembro trazia uma notícia sobre o assassinato de Ahmad Shah Massoud, o líder da resistência afegã ao Talibã. Fiz questão de guardar a edição do dia 12 de setembro, que trazia estampada uma enorme foto do World Trade Center em chamas e o seguinte chamado: “EUA sofrem maior ataque da história”. Tenho essa edição até hoje, mas dessa vez me abstive de vandalizar a bandeira americana.
Confesso que me senti parcialmente responsável por aqueles ataques. Foram tantos anos praguejando contra os Estados Unidos e brincando de ataques ao Pentágono e ao Capitólio, que eu não consegui acompanhar aquelas imagens sem um pingo de culpa. Senti-me como um cachorro que, correndo incansavelmente atrás de um carro, fica sem saber o que fazer quando o carro finalmente para. Eis que os símbolos do poder do país que eu mais odiava no mundo haviam sido atacados: os Estados Unidos passaram de agressores a agredidos, “colheram o que plantaram”, como eu mesmo disse à época. Mas não: eu não estava feliz.
Enquanto bombas caíam sobre o Afeganistão, o ano de 2001 passava e chegava o ano de 2002. Havia mais uma Copa do Mundo pela frente. Precavido pela Copa de 1998, assisti aos jogos com um pouco mais de cautela, pois havia aprendido que nem sempre as copas acabam bem. 2002 deve ter sido a Copa mais feliz que já vi, não só porque o Brasil venceu, mas também porque seleções até então pouco tradicionais conseguiram um desempenho notável em detrimento das seleções mais badaladas: o Senegal bateu a França, a Coreia do Sul eliminou Itália e Espanha. Lembro-me que fiquei fascinado pela seleção turca, que por duas vezes enfrentou o Brasil e por duas vezes quase venceu. 2002 havia sido, na Copa do Mundo, o que 2001 fora na geopolítica: os algozes viraram vítimas, e vice-versa.
E o impacto dos eventos de 11 de setembro continuava a se fazer sentir sobre mim como nunca. Como não tivesse muitas pessoas para conversar sobre o assunto na vida real, recorri ao único mecanismo pelo qual poderia externar minhas angústias e convicções: a internet. Antes do Facebook, do Orkut e de quaisquer outras redes sociais surgirem, a melhor alternativa para quem gostava de debates eram os fóruns. E havia-os dos mais variados assuntos. Inscrevi-me certa vez num fórum sobre história, que reunia, principalmente, pessoas de esquerda. Esse fórum saiu do ar por algumas vezes, até que um belo dia ele saiu do ar definitivamente. Os antigos membros dele construíram outro fórum em outro endereço. Com o tempo, porém, esse fórum foi ficando cada vez menos movimentado, até praticamente implodir por inanição. Foi quando descobri um outro: o fórum comunismo.com.br, muito mais movimentado. Diferente dos anteriores, porém, o comunismo.com era uma verdadeira Floresta Amazônica de posições ideológicas. Foi nesses fóruns que comecei a conhecer os posicionamentos políticos, a entender as diferenças entre a direita e a esquerda e a me comportar em uma discussão. O único problema é que no comunismo.com, mais do que debatedores sérios, o que mais se viam eram caricaturas. Os membros de esquerda eram, quase todos, stalinistas, maoístas e defensores da Coreia do Norte e do domínio chinês sobre o Tibet e Taiwan. A direita, por sua vez, reunia desde os entusiastas de Pinochet e da Ditadura Militar Brasileira até os sionistas fanáticos pró-Israel e defensores da família, da Igreja e da propriedade privada. E um ou outro nazifascista sempre ficava perdido em meio ao tiroteio. O mais engraçado nos debates é que direita e esquerda, capitalistas e comunistas, rejeitavam a paternidade do fascismo. Ambas brigavam entre si enfurecidamente, uma empurrando para a outra a responsabilidade por aquele rebento bastardo.
Tendo em vista que esses foram meus primeiros contatos com o debate político-ideológico, até hoje a visão que tenho da direita e da esquerda é mais ou menos marcada por tais estereótipos. Acho que vai demorar um pouco até desvaneçam essas visões caricaturais inculcadas na minha cabeça.
Em 2003, aos 15, candidatei-me a uma vaga no programa de intercâmbio de jovens do Rotary Club. Conseguindo o primeiro lugar na classificação, pude escolher o país, e optei pela Malásia. Poderia ter ido ainda para as Filipinas, o Canadá, os Estados Unidos, a Alemanha ou Austrália, mas não me arrependi de minha escolha. Duas coisas especialmente curiosas aconteceram ao longo de minha seleção para intercâmbio. A primeira delas foi que, em um dos primeiros processos seletivos que fiz para intercâmbio, a redação consistia de uma carta. Tínhamos que imaginar como seria nossa primeira carta enviada aos nossos pais no Brasil após um mês de intercâmbio nos Estados Unidos. Acontece que eu não queria fazer intercâmbio naquele maldito país imperialista, de modo que fiquei um bom tempo pensando o que eu escreveria naquela redação. Acho engraçado como eles já partem do pressuposto de que todo mundo quer fazer intercâmbio nos Estados Unidos.
O que me leva ao segundo fato curioso. Quando passei no processo seletivo (na minha terceira tentativa, se bem me lembro), o Rotary Club dos Estados Unidos haviam exigido que eles só admitiriam o intercambista que tivesse passado em primeiro lugar na seleção. Ah, os Estados Unidos! Sempre exigentes, sempre arrogantes, sempre pretensiosos... Até hoje me pergunto: como será que os rotarianos daqui do Brasil explicaram aos seus colegas norte-americanos que o primeiro colocado tinha escolhido a Malásia, e não os Estados Unidos? Depois de todos aqueles anos vendo bombas norte-americanas caindo sobre o Iraque e o Kosovo, acho que isso foi o mais perto que já cheguei de uma vingança.
Nasci em um dia 29 de janeiro do ano de 1988. Sou daquela feliz geração que não temeu o holocausto nuclear da Guerra Fria nem viveu a inflação. A União Soviética sempre foi tão distante de minha realidade quanto a Alemanha nazista, e a Ditadura Militar tão distante quanto o Estado Novo. Parece que nasci em um mundo e em um país já prontos, aconchegantes, com tudo arrumadinho para que eu já fosse chegando e me acomodando. Vivi meus primeiros anos em um país democrático, com eleições regulares; era novo demais para entender a inflação e os escândalos do governo Collor. Quando comecei a me entender por gente, essas pendências já haviam sido resolvidas.
Ruim de matemática que sempre fui, fiquei aliviado quando, aos seis anos de idade, me deparei com uma nova moeda, com menos zeros, menos números e, consequentemente, mais fácil de calcular (fiquei tão desacostumado com vários zeros nas notas que, há uns anos atrás, ao visitar a Hungria, enfrentei sérios problemas ao lidar com o dinheiro de lá). Creio que a única lembrança que tenho da inflação foi passear com minha avó pelo supermercado lá pelos idos de 1992 ou 1993 e ver os funcionários remarcando preços compulsivamente. Minha avó reclamava: “olha aí, todo dia os preços aumentam!”.
Vivi em um mundo sem o Muro de Berlim, sem Brejnevs e Gorbachevs; nasci sob a égide do consenso de Washington, que nos assegurava que dali pra frente tudo ia ser diferente. Com tanta placidez e tranquilidade, nem parecia que somente alguns anos me separavam da era dos extremos, com suas bombas, ditaduras, guerras e revoluções.
Graças a tudo isso, estudar história sempre me pareceu um exercício de penosa imaginação. Era difícil entender que aquele mundo tranquilo e pacífico no qual eu vivia já havia sido, há poucos anos atrás, tomado por tanto ódio e sangue quanto os livros e documentários insistiam em dizer. Não poucas vezes me peguei pensando, ao longo dos 1990, por que eu não via tanques de guerra nas ruas, por que eu não via bombas caindo na minha cidade, por que todo mundo podia falar o que quisesse sem ser preso, por que os políticos de então eram tão diferentes daqueles carrancudos de farda que haviam dominado grande parte da cena política do século XX.
Uma das lembranças mais remotas que tenho da minha infância é a de assistir ao noticiário do Jornal Nacional sobre a Guerra do Golfo, em janeiro de 1991. É claro que não entendia nada daquilo tudo, mas me lembro que o nome “Saddam Hussein” ficou marcado na minha cabeça, embora eu só soubesse pronunciar “Sadão Mussein”. Como não sabia direito o que aquela expressão significava, dei o nome de “Sadão Mussein” a todos os soldadinhos de plástico que eu tinha. Também me recordo vagamente do noticiário do Jornal Nacional de 1992 acompanhando a crise no governo Collor. Tanto é que por muitos e muitos anos, até minha adolescência, sempre que se falava em “Fernando Collor” a primeira imagem que me vinha à cabeça era a do William Bonner. Demorou um pouco até que meu inconsciente pudesse separar as duas pessoas – ainda que a imagem da Rede Globo e de Fernando Collor sejam eternamente inseparáveis.
Lembro-me da primeira nota de real que ganhei. Era aquela de um real, que hoje nem existe mais. Foi dada pelo meu avô no dia do jogo Brasil X EUA na Copa de 1994. Aliás, acho que minhas primeiras lembranças mais marcantes datam de exatos 20 anos atrás, quando da realização da Copa do Mundo nos Estados Unidos. Essa foi a primeira Copa à qual assisti, ainda que com meus seis anos de idade eu não pudesse entender muito bem o funcionamento do torneio. De alguns jogos eu me lembro bem (Brasil X Camarões, Brasil X Suécia, Brasil X EUA, Brasil X Holanda, Brasil X Itália e até Alemanha X Coreia do Sul!). No entanto, sempre achei jogos de futebol (assim como filmes) muito longos e cansativos, de maneira que em muitos desses jogos eu preferi me ausentar da sala de televisão na maior parte do tempo para ir fazer outras coisas.
E por falar em copa, nas três primeiras copas que acompanhei, vi o Brasil chegar a três finais seguidas e vencer duas delas. Sempre achei que as partidas de futebol fossem como os filmes, nos quais o bem sempre vence no final – sendo que no futebol o “bem” seria a seleção brasileira. Coincidência ou não, o Brasil venceu em 1994, e eu sinceramente não saberia calcular o tamanho do trauma que eu teria se o Brasil tivesse perdido. Acho que ver o Brasil perdendo um jogo equivaleria a ver um super-herói morrendo e o filme terminando com a vitória do vilão. É o tipo de coisa que eu acho que jamais conseguiria processar direito. Mas, felizmente, eram os anos 1990: tudo ia bem, tudo dava certo. Na minha cabeça de menino, tudo só podia dar certo, não havia outra alternativa. E da mesma forma que eu demorei a entender que o Brasil havia vivido a maior parte de sua história sob regimes repressores, também demorei a entender que o Brasil havia perdido todas as copas nos últimos 24 anos. Não conseguia compreender como meus pais, tios e avós assistiam a uma Copa do Mundo sem o Brasil ser campeão ou finalista.
Aos oito anos de idade, assistindo a um programa na TV, fiquei conhecendo uma das figuras mais aterrorizantes de minha infância. Seu nome era Nostradamus: um francês que fazia previsões sobre o fim do mundo. Estávamos no ano de 1996, e à medida que o ano de 2000 se aproximava, os ânimos se agitavam em várias partes do globo, anunciando o fim do mundo, catástrofes naturais e todo tipo de tragédias. Por alguns momentos eu tive uma pequena amostra do que meus antepassados deveriam ter vivido nos tempos do holocausto nuclear. Conversando sobre isso com minha avó um dia, ela me disse que eu não precisava me preocupar, pois esses assuntos eram coisa de gente grande. Obviamente não fiquei convencido por essa resposta, afinal de contas, eu sabia que se o mundo fosse acabar iria acabar pra todos: adultos e crianças.
Aos nove anos, comecei a me interessar por religiões. Por algum motivo, o cristianismo não me atraía, principalmente o catolicismo. Achava o ambiente da igreja católica extremamente pesado. Morria de medo de imagens de santos e a figura do Cristo crucificado e ensanguentado me causava mal-estar. Foi então que comecei com meus planos de me tornar um monge budista. Não me lembro bem o que me levou a interessar-me pelo budismo. Parecia que a tranquilidade dos ensinamentos budistas contrastava com as inúmeras pragas, guerras e castigos que pululavam nas páginas da Bíblia. A placidez dos monges e dos mosteiros figurava para mim como um refúgio diante da dureza das palavras do pastor (cheias de reprovação e pessimismo), e também diante dos cultos da igreja, marcados por uma cantoria insuportável.
Vindo de uma família protestante por parte de pai, é claro que minha nova ambição não teve uma recepção nada amigável. Entre meus amigos também a recepção não foi das melhores: muitos deles diziam que eu não iria chegar a lugar nenhum com isso. Um colega meu de judô à época me ironizou, dizendo que ele iria ser médico e ganhar muito dinheiro, e iria comprar uma moto Suzuki, sendo que eu não iria ter dinheiro algum, pois ia ser monge, e monges vivem de esmola. Outros tantos apenas se limitavam a dizer que monges não podiam namorar, e que por isso eu ia passar a vida toda sozinho. Desnecessário dizer que essas pataquadas nunca abalaram minha confiança, afinal de contas, casar-me e ter carros importados nunca foram prioridades para mim durante minha infância. Do outro lado da família, meus planos foram recebidos com um pouco mais de entusiasmo, especialmente pelo meu tio-avô, o escritor – e ex-pastor – Rubem Alves que, inclusive, até me presenteou com algumas fotos e reportagens sobre Sidarta Gautama.
Aos dez anos vi minha segunda Copa do Mundo. Foi nessa Copa que aprendi que as partidas de futebol não são como os filmes de ação, mas sim como a vida: às vezes o vilão vence no final. E, enquanto eu via as imagens da multidão em polvorosa no Stade de France após o jogo da final, aprendi que não existem vilões no mundo, apenas heróis. O problema é que quase todos os heróis estão ocupados demais tentando acusar uns aos outros de vilões, de modo que não lhes resta tempo para salvar o mundo.
Não sei ao certo se foi antes, depois ou mais ou menos simultaneamente aos tristes eventos de julho de 1998 que eu comecei a ensaiar um arremedo de insurreição contra aquele mundo arrumadinho e aconchegante do pós-89 no qual eu havia crescido. Sob o influxo das imagens da final da Copa do Mundo, comecei a enxergar com outros olhos os heróis e os vilões da minha infância. Crescendo sob a sombra do consenso de Washington, havia aprendido que os americanos e europeus eram os bons, e que o resto do mundo estava dividido entre aqueles que eram inimigos dos europeus e americanos, e aqueles que deveriam ser gratos aos europeus e americanos por tê-los livrado desses inimigos. Acontece que, em dezembro daquele mesmo ano de 1998, o então presidente dos Estados Unidos Bill Clinton mandou bombardear o Iraque em pleno Ramadan, acusando Saddam Hussein de não cooperar com os inspetores de armas da ONU. Foi a operação “Raposa do Deserto”.
Atônito, eu assistia, pela TV, às imagens que chegavam dos bombardeios. Os sons das bombas se misturavam aos alto-falantes das mesquitas que chamavam os fiéis para as orações e compunham uma melodia infernal. Diante daquilo tudo, eu sentia raiva. Raiva dos Estados Unidos por bombardearem um país à revelia de tudo e de todos. Raiva por saber que muitas pessoas inocentes morriam sob aquelas bombas. Raiva por perceber que, no confortável mundo pós-89, os Estados Unidos podiam fazer o que bem entendessem, como bem entendessem, pois não havia ninguém de peso para impedi-los. Pelo visto, o exército norte-americano não era tão bonzinho quanto os filmes da Sessão da Tarde nos queriam fazer acreditar. Perguntei ao meu pai, revoltado, por que o Iraque não contra-atacava, e ele disse que os iraquianos não tinham poder de fogo para tal. Fui tomado por um sentimento de impotência. Viver sob o consenso de Washington foi se tornando cada vez mais penoso. Os iraquianos não eram vilões, como a mídia tentava mostrar, assim como também não eram vilões os índios dos filmes de faroeste. Os vilões eram justamente aqueles que sempre venciam no final dos filmes.
A partir de então, sempre que brincava com meus soldadinhos de plástico, traçava enredos nos quais os Estados Unidos eram fragorosamente bombardeados, como que em uma vingança pelo que haviam feito com outros países. Entre os alvos preferidos estavam a Casa Branca, o Pentágono e o Capitólio. Lembro-me até de ter começado a escrever uma história na qual uma coalização de países árabes se unia para atacar os Estados Unidos, mas meu projeto não foi adiante. Penso que essas eram as melhores formas que eu tinha de externar minha indignação com tudo aquilo. Guardo até hoje um infográfico que a Folha de São Paulo publicou à época sobre esse episódio. O infográfico trazia um mapa do Iraque com as regiões atacadas e duas bandeiras – a iraquiana e a norte-americana, esta última rabiscada por mim em um momento de desgosto.
No ano seguinte, em 1999, Saddam Hussein saiu de cena para dar lugar a Slobodan Milosevic, ditador sérvio acusado de cometer atrocidades contra minorias étnicas no Kosovo. E novamente os Estados Unidos tomaram as rédeas da situação, bombardeando a Iugoslávia com o apoio da OTAN e despertando a ira de Rússia e China, além da minha própria. Novamente me veio aquele sentimento de impotência, enquanto os jornais noticiavam todos os dias novas mortes de civis sob os ataques das forças da OTAN. Mais do que nunca, os norte-americanos me davam asco, nojo, repulsa. Tomado por um anti-americanismo pueril, comecei a hostilizar tudo o que viesse daquele país – e isso bem no auge das boy bands! Detestava os Backstreetboys, o N’Sync, as Spice Girls (afinal, a Inglaterra era cúmplice dos bombardeios no Iraque e no Kosovo), não só pela sua música, mas também porque eles eram símbolos do imperialismo cultural norte-americano. Ridicularizava minhas colegas de escola que ouviam essas bandas. Foi com muito custo que, nessa mesma época, meus pais conseguiram me matricular num curso de inglês, de onde eu certamente teria pedido para sair, não fosse a extrema facilidade que encontrei no aprendizado desse idioma.
Mas o tempo passou, o ano 2000 passou (para o meu alívio!) e chegou o ano de 2001. Nunca vou me esquecer de duas cenas nesse ano. A primeira delas foi um vídeo exibido pelo Jornal Nacional em fins de agosto ou princípios de setembro no qual o famoso terrorista saudita Osama bin Laden ameaçava os Estados Unidos. A segunda delas foi aquilo que, acredita-se, tenha sido a concretização dessa ameaça: os ataques de 11 de setembro de 2001.
Acho que essa foi uma das datas mais marcantes da minha vida. Minhas brincadeiras de soldadinhos, bombardeiros e tanques de guerra de plástico se tornavam reais bem em frente aos meus olhos. Os ataques aos Estados Unidos que eu tanto ensaiara com meus pequenos exércitos e pelos quais eu sempre torcia, para vingar sérvios e iraquianos, se concretizavam nas imagens que eram exaustivamente repetidas em literalmente todas as redes de televisão naquele momento. Não soube bem como reagir àquilo tudo num primeiro momento. Só fiz questão de memorizar detalhadamente tudo naquele dia: o que eu tinha feito, qual era meu dever de casa, quais tinham sido minhas aulas de manhã – tudo para, um dia no futuro, poder contar a alguém: “no dia 11 de setembro de 2001 eu fiz...”. Nunca, em toda a minha vida, eu tinha tido tanta consciência de estar vivendo um momento histórico.
Não vivi a era dos extremos, mas vi o que nenhuma outra pessoa que viveu naqueles anos jamais havia visto: os Estados Unidos sendo atacados em seu próprio território. E o mundo do consenso de Washington desabava ali, à minha frente, junto com as torres do World Trade Center. Era o crepúsculo dos deuses do século XXI. Antes mesmo que eu ouvisse qualquer jornalista especular sobre a autoria dos ataques, eu já dizia para mim mesmo, com toda a certeza, quem era o suspeito número um. Era ele, só podia ser ele: o mesmo responsável pelos ataques às embaixadas norte-americanas na Tanzânia e no Quênia em agosto de 1998; o mesmo responsável pelo vídeo que, há poucas semanas atrás, mostrava terroristas em campos de treinamento no Afeganistão e emitia mensagens de ódio ao “grande satã”.
Curiosamente, o caderno internacional da Folha de São Paulo daquele dia 11 de setembro trazia uma notícia sobre o assassinato de Ahmad Shah Massoud, o líder da resistência afegã ao Talibã. Fiz questão de guardar a edição do dia 12 de setembro, que trazia estampada uma enorme foto do World Trade Center em chamas e o seguinte chamado: “EUA sofrem maior ataque da história”. Tenho essa edição até hoje, mas dessa vez me abstive de vandalizar a bandeira americana.
Confesso que me senti parcialmente responsável por aqueles ataques. Foram tantos anos praguejando contra os Estados Unidos e brincando de ataques ao Pentágono e ao Capitólio, que eu não consegui acompanhar aquelas imagens sem um pingo de culpa. Senti-me como um cachorro que, correndo incansavelmente atrás de um carro, fica sem saber o que fazer quando o carro finalmente para. Eis que os símbolos do poder do país que eu mais odiava no mundo haviam sido atacados: os Estados Unidos passaram de agressores a agredidos, “colheram o que plantaram”, como eu mesmo disse à época. Mas não: eu não estava feliz.
Enquanto bombas caíam sobre o Afeganistão, o ano de 2001 passava e chegava o ano de 2002. Havia mais uma Copa do Mundo pela frente. Precavido pela Copa de 1998, assisti aos jogos com um pouco mais de cautela, pois havia aprendido que nem sempre as copas acabam bem. 2002 deve ter sido a Copa mais feliz que já vi, não só porque o Brasil venceu, mas também porque seleções até então pouco tradicionais conseguiram um desempenho notável em detrimento das seleções mais badaladas: o Senegal bateu a França, a Coreia do Sul eliminou Itália e Espanha. Lembro-me que fiquei fascinado pela seleção turca, que por duas vezes enfrentou o Brasil e por duas vezes quase venceu. 2002 havia sido, na Copa do Mundo, o que 2001 fora na geopolítica: os algozes viraram vítimas, e vice-versa.
E o impacto dos eventos de 11 de setembro continuava a se fazer sentir sobre mim como nunca. Como não tivesse muitas pessoas para conversar sobre o assunto na vida real, recorri ao único mecanismo pelo qual poderia externar minhas angústias e convicções: a internet. Antes do Facebook, do Orkut e de quaisquer outras redes sociais surgirem, a melhor alternativa para quem gostava de debates eram os fóruns. E havia-os dos mais variados assuntos. Inscrevi-me certa vez num fórum sobre história, que reunia, principalmente, pessoas de esquerda. Esse fórum saiu do ar por algumas vezes, até que um belo dia ele saiu do ar definitivamente. Os antigos membros dele construíram outro fórum em outro endereço. Com o tempo, porém, esse fórum foi ficando cada vez menos movimentado, até praticamente implodir por inanição. Foi quando descobri um outro: o fórum comunismo.com.br, muito mais movimentado. Diferente dos anteriores, porém, o comunismo.com era uma verdadeira Floresta Amazônica de posições ideológicas. Foi nesses fóruns que comecei a conhecer os posicionamentos políticos, a entender as diferenças entre a direita e a esquerda e a me comportar em uma discussão. O único problema é que no comunismo.com, mais do que debatedores sérios, o que mais se viam eram caricaturas. Os membros de esquerda eram, quase todos, stalinistas, maoístas e defensores da Coreia do Norte e do domínio chinês sobre o Tibet e Taiwan. A direita, por sua vez, reunia desde os entusiastas de Pinochet e da Ditadura Militar Brasileira até os sionistas fanáticos pró-Israel e defensores da família, da Igreja e da propriedade privada. E um ou outro nazifascista sempre ficava perdido em meio ao tiroteio. O mais engraçado nos debates é que direita e esquerda, capitalistas e comunistas, rejeitavam a paternidade do fascismo. Ambas brigavam entre si enfurecidamente, uma empurrando para a outra a responsabilidade por aquele rebento bastardo.
Tendo em vista que esses foram meus primeiros contatos com o debate político-ideológico, até hoje a visão que tenho da direita e da esquerda é mais ou menos marcada por tais estereótipos. Acho que vai demorar um pouco até desvaneçam essas visões caricaturais inculcadas na minha cabeça.
Em 2003, aos 15, candidatei-me a uma vaga no programa de intercâmbio de jovens do Rotary Club. Conseguindo o primeiro lugar na classificação, pude escolher o país, e optei pela Malásia. Poderia ter ido ainda para as Filipinas, o Canadá, os Estados Unidos, a Alemanha ou Austrália, mas não me arrependi de minha escolha. Duas coisas especialmente curiosas aconteceram ao longo de minha seleção para intercâmbio. A primeira delas foi que, em um dos primeiros processos seletivos que fiz para intercâmbio, a redação consistia de uma carta. Tínhamos que imaginar como seria nossa primeira carta enviada aos nossos pais no Brasil após um mês de intercâmbio nos Estados Unidos. Acontece que eu não queria fazer intercâmbio naquele maldito país imperialista, de modo que fiquei um bom tempo pensando o que eu escreveria naquela redação. Acho engraçado como eles já partem do pressuposto de que todo mundo quer fazer intercâmbio nos Estados Unidos.
O que me leva ao segundo fato curioso. Quando passei no processo seletivo (na minha terceira tentativa, se bem me lembro), o Rotary Club dos Estados Unidos haviam exigido que eles só admitiriam o intercambista que tivesse passado em primeiro lugar na seleção. Ah, os Estados Unidos! Sempre exigentes, sempre arrogantes, sempre pretensiosos... Até hoje me pergunto: como será que os rotarianos daqui do Brasil explicaram aos seus colegas norte-americanos que o primeiro colocado tinha escolhido a Malásia, e não os Estados Unidos? Depois de todos aqueles anos vendo bombas norte-americanas caindo sobre o Iraque e o Kosovo, acho que isso foi o mais perto que já cheguei de uma vingança.
Do consenso ao crepúsculo: meus 26 anos - parte 2
Não há espaço suficiente aqui para relatar meus doze meses (junho 2004-junho 2005) vivendo nesse distante país (já o fiz de forma mais detalhada nos posts “Páginas de combate – I e II”). Apenas faço questão de dizer, a todos aqueles que acham que foi uma experiência incrível em um país exótico, recheada de estranhamentos e choques culturais: vocês não poderiam estar mais enganados. Passei minha juventude lendo sobre Cristóvão Colombo, Marco Polo e Vasco da Gama, que em suas viagens se deparavam com o fantástico e o desconhecido... Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que os “nativos” da Malásia viam futebol inglês, ouviam música pop americana e adoravam filmes de Hollywood. Minha esperança de um dia sentir o que os grandes navegantes do passado sentiram foi totalmente frustrada. Acho que essa foi a melhor aula de globalização que eu jamais terei na vida.
Nesses doze meses, vivi com seis famílias diferentes. Em uma delas havia um senhor cujo nome já não me lembro, mas que era um dos principais intelectuais que criticavam o regime político do país. Em outra família havia o Dr. Xavier Jayakumar, que, além de rotariano, era uma importante liderança de um dos principais partidos de oposição no país, o Keadilan Rakyat. Soube, por conversas paralelas, que ele já havia sido preso algumas vezes por participar de manifestações contra o governo. A Malásia é governada pela mesma coalização política desde a sua independência em 1957, sendo que organismos como a Anistia Internacional, a Transparência Internacional e os Direitos Humanos fazem constantes denúncias de abuso de poder, fraudes eleitorais e perseguições políticas – nada que abale a confiança das tradicionais elites políticas do país.
Lembro-me bem que participei de alguns encontros e manifestações organizados pelos partidos de oposição, contrariando orientações que foram dadas a todos os intercambistas no começo de nosso intercâmbio. Eles nos diziam que a política na Malásia era algo complexo e perigoso, e que, para o nosso próprio bem, deveríamos nos abster de penetrar nesses meios. Mas nada disso conseguiu me segurar. Aos poucos fui ficando fatigado por aquele país que se mostrou tão mais ocidentalizado do que eu esperava, e eu queria mais emoções. Com o Dr. Xavier, frequentei eventos de grandes dimensões, onde tive contato, ainda que rápido, com importantes figuras da oposição política malaia, como Anwar Ibrahim e sua esposa (com quem, inclusive, tirei uma foto). O mais curioso é que, nas conferências dos partidos de oposição, havia desde partidos de extrema-esquerda até partidos fundamentalistas islâmicos, passando por agremiações liberal-democráticas. Todos unidos apenas na oposição ao status quo, mas com propostas bastante diferentes. Era quase como se, aqui no Brasil, o PSOL e o DEM fizessem conferências conjuntas, unidos apenas pela oposição ao governo do PT. Nesses encontros, observei cenas pitorescas, como a de um jovem com camisa do Che Guevara e boina com estrela vermelha, de um lado, e um senhor barbudo com um turbante islâmico, do outro. Passava horas imaginando se e como tudo aquilo poderia um dia dar certo.
Mas um dia esse meu atrevimento quase me custou caro. Como já disse: os casos de perseguição e até de tortura a membros da oposição política no país são graves. Acontece que um dia viajamos de Klang (cidade onde morei) até Temerluh, no interior do país, para participar de um desses encontros. Fui com o Dr. Xavier e alguns de seus correligionários. Voltamos no mesmo dia, já quando a noite caía, e o Dr. Xavier dirigia muito rápido, pois sua esposa o pedira para que não chegasse muito tarde. No meio da rodovia nosso carro foi parado em um posto policial. Um guarda se aproximou e alertou-o de que os radares na rodovia haviam detectado sua alta velocidade. Ele tentou se explicar, dizendo que precisava chegar cedo em casa. Conversa vai, conversa vem, o policial olhou a carroceria da caminhonete e viu as bandeiras dos partidos de oposição lá atrás. Então perguntou-lhe se ele estava voltando de alguma manifestação da oposição, ao que o Dr. Xavier confirmou que sim. Naquele momento, um clima pesado pairou no local. Todos no carro pareciam pensar exatamente a mesma coisa: “isso não vai acabar bem”. E realmente, era uma situação que tinha tudo para não ter final feliz. A polícia da Malásia é fortemente ligada ao governo, sendo um dos seus principais instrumentos de repressão. Isso sem mencionar o fato de que ela é tida como uma das mais violentas do mundo, conforme a esposa do Dr. Xavier me contou. Ela também havia me contado de inúmeros casos de maus-tratos de policiais contra pessoas ligadas à oposição.
E justo quando nada parecia poder piorar, eu me lembrei de um detalhe: havia esquecido meu passaporte em casa. Estava sem nenhuma documentação comigo naquele momento. Se o policial olhasse para o banco de trás e visse que havia ali um estrangeiro, certamente ele iria implicar. Se o establishment malaio não tolerava ameaças ao status quo, imagine então intromissões de estrangeiros? O que pensaria o policial ao ver um ocidental dentro de um carro que retornava de um evento organizado pela oposição? Qualquer regime autoritário ou totalitário tem horror à mais discreta manifestação de contestação. Mas a ideia de que estrangeiros possam estar por trás dos movimentos de oposição lhes-é dramaticamente insuportável. Basta ver como os nazistas denunciavam o “bolchevo-judaísmo” soviético, ou os maoístas acusavam os intelectuais de agirem mancomunados com o imperialismo ocidental.
Não sei se o guarda notou a minha presença ali. Só sei que, num determinado momento daquela conversa que deve ter durado no máximo dois minutos (mas que me pareceu uma eternidade), o policial falou, em inglês: “but I will release you (mas eu vou deixa-los ir)”. Essa frase foi tão inesperada que o Dr. Xavier até riu, como se acreditasse que o policial estivesse fazendo chacota. Estávamos já tão acostumados com a ideia de que o tempo iria se fechar para nós, que nem acreditamos quando ouvimos aquela frase. O policial se despediu dizendo algo do tipo: “você está com pressa, vai com calma, não precisa correr”. E um silêncio sepulcral tomou conta do veículo por alguns instantes. Misto de alívio e medo.
Os próprios habitantes da Malásia não pareciam, de modo geral, demonstrar muito interesse por política – pelo menos até abril de 2013. Poucos meses antes da nossa “primavera brasileira”, a Malásia foi tomada por intensas manifestações que partiam, sobretudo, da juventude. Tais manifestações ocorreram durante as eleições e acusavam o Barisan Nasional (coligação governista) de manipular os resultados das eleições por meio de fraudes, como urnas que chegavam às seções eleitorais carregadas de votos e concessões de títulos de eleitor para trabalhadores estrangeiros que eram pagos para votarem no candidato da situação.
Talvez por influência das experiências com a política malaia, e também incentivado por meu interesse precedente por história e política, quando voltei ao Brasil comecei a dar meus primeiros passos no movimento estudantil secundarista. Esse envolvimento só aumentou quando entrei na universidade. Não preciso dizer que grande parte dos encontros estudantis eram regados a muita bebida, maconha e festas, além de todas as ocorrências subsequentes. Marxistas, trotskistas, stalinistas, maoístas, socialdemocratas e toda a sorte de posicionamentos políticos se manifestavam e se conflitavam nesses eventos, verdadeiros zoológicos ideológicos. Lembro-me, por exemplo, no Congresso da UNE em Brasília em julho de 2007, de ver a juventude do então recém-renomeado DEM (ex-PFL) chegando à UnB meio desconfortável, meio esquisita, completamente deslocada diante daquele monte de bandeiras vermelhas.
Um ano mais tarde, fui a um encontro de partidos marxista-leninistas na UERJ. Ficamos alojados em um ginásio na Escola de Educação Física, e nunca me esquecerei de quando um dos militantes solicitou que o espaço do ginásio fosse dividido em dois: de um lado os homens, do outro as mulheres. Quem diria: nem um encontro de partidos marxista-leninistas consegue escapar à velha segregação sexual tão típica da sociedade burguesa... Durante o dia, ouvíamos discursos, palestras e palavras de ordem clamando pelo socialismo e atacando a hipocrisia dos valores morais de nossa sociedade capitalista, que não respeita as minorias e promove a desigualdade social e de gênero. À noite, como em um acampamento bíblico, dormíamos todos separados, homens e mulheres, perpetuando aqueles mesmos valores conservadores.
Sempre fui um mero observador nesses encontros, abstendo-me de tomar parte ativamente na sua organização e realização. Conversando com uma das militantes ali presentes, soube que muitas lideranças desses movimentos desencorajavam seus militantes a manterem relações afetivas durante esses encontros, sob a alegação de que tais relacionamentos desviariam o foco principal do evento, que era contribuir para a revolução socialista. Assim, sempre que ela se envolvia com alguém em um encontro, ela se “confessava” com os líderes, afirmando que reconhecia seu erro, mas admitindo que muitas vezes a “carne” era mais forte e acabava conduzindo a esse tipo de ação.
Após anos e anos de rusgas com militantes virtuais de direita, eu finalmente entendia o que eles queriam dizer quando afirmavam que o marxismo muitas vezes subia à cabeça de certas pessoas e acabava virando um credo.
Apesar de todo esse envolvimento com o movimento estudantil, com o tempo percebi que eu nunca levei jeito para a coisa. Detestava passar em salas de aula para dar recados sobre eleições, não tinha preparo emocional para discutir cara a cara com rivais (já que toda a minha experiência em discussões políticas se resumia a fóruns na internet) e não me sentia confortável empurrando panfletos para as pessoas em dias de eleição. Com o tempo, fui me afastando desse meio, muito embora eu admire bastante as pessoas que têm disposição para permanecer nele.
Apesar desses percalços, a vida universitária para mim significou, acima de tudo, uma coisa: liberdade. Em contraposição ao ambiente escolar, onde tínhamos toda uma rígida rotina de disciplinas e conteúdos que dificilmente contribuiriam para a minha vida e para a minha formação, a universidade sempre foi, para mim, um lugar de autonomia. Sei que a quase totalidade de meus colegas da UFMG irá rir dessas palavras, mas eu asseguro que nunca consegui partilhar do ódio que muitos deles sentem pelo ambiente acadêmico, em especial pela FAFICH. E o apreço que sinto pelo ambiente universitário tornou-se ainda maior desde que comecei a trabalhar em um colégio/cursinho pré-vestibular. À medida que eu ia passando mais tempo no colégio e menos tempo na universidade, me sentia cada vez mais sufocado. As exigências dos processos seletivos abafam nossa capacidade de questionamento e de discussão. Ao invés de gastar as tardes na universidade estudando, lendo, me informando e debatendo, passei a gastá-las em uma sala, auxiliando os alunos e alunas a marcarem o X no lugar correto.
Falem o que quiserem da universidade e de seus inúmeros defeitos: diante da escola, ela continua sendo um espaço de autonomia, de independência, onde eu posso me levantar e dizer que não concordo com este ou aquele ponto de vista. Nas escolas e cursinhos, há uma apostila e há os professores, e, como um monitor, meu discurso precisa se conformar ao discurso deles. Não posso dizer que essa ou aquela informação do material didático está errada, pois os alunos são ensinados a cultuar o livro de história como uma escritura sagrada. Não posso nem arriscar um pequeno palpite que coloque em xeque suas informações. “Como assim o livro está errado? Como assim o professor está errado?”, perguntam-se os alunos, atônitos. Entre a palavra das sagradas escrituras e a palavra do professor, de um lado, e a palavra de um reles monitor, do outro, é fácil descobrir qual percurso o aluno vai traçar. Estamos formando pessoas aptas a acreditar piamente em tudo aquilo que é dito por uma pessoa que se dirige a uma multidão do alto de uma pequena plataforma, e a desconfiar de tudo aquilo que é dito por uma pessoa em pé de igualdade.
É óbvio que eu não quero aqui desqualificar o trabalho dos professores do colégio ou do cursinho – longe disso. O que eu quero desqualificar é essa noção do ensino de história como uma mera ferramenta para a busca de respostas certas. Os pré-vestibulandos estão cada dia mais ávidos por achar as respostas corretas, mas cada dia menos capazes de fazer as perguntas adequadas. Por isso temos debates escabrosos, do tipo: “você é a favor ou contra o aborto?” ou “você é a favor ou contra a redução da maioridade penal”, quando, na verdade, as perguntas deveriam ser “por que as mulheres abortam?” e “por que menores de 18 anos praticam crimes?”. Os alunos não conseguem perceber que quem tem o monopólio das perguntas tem o monopólio do debate. Acostumados a lidarem com as perguntas como fórmulas preconcebidas e não passíveis de debate, nossos jovens se digladiam na busca das respostas corretas para as perguntas erradas.
Foi na universidade que tive a oportunidade de ingressar em minha segunda e última experiência internacional. Ela se deu em outubro de 2011, após ser aprovado para o programa de mobilidade internacional acadêmica da UFMG. Passei cinco meses na Alemanha, estudando na Universidade de Augsburg, experiência que já relatei exaustivamente nos meus posts “Confissões de Augsburg”. Não sei como comentar minha experiência na Alemanha sem incorrer em clichês cansativos, do tipo “é um lindo país”, “a universidade é fantástica”, “a biblioteca é incrível” e “as aulas são extremamente produtivas”. Isso sem mencionar o inefável prazer de estudar no frio, em comparação com o calor do verão brasileiro que me deixa modorrento. Não fiz muitos amigos na Alemanha. Aliás, posso contar nos dedos de uma mão o número de amigos alemães que fiz. É muito difícil ser uma pessoa calada e querer socializar num país onde todo mundo é quase igual a você. Ainda assim, não posso deixar de ressaltar que nutri profundo apreço por todos os professores com os quais tive aula. Gostaria de ter mantido mais contato com eles; gostaria de encontra-los de novo, algum dia, em algum congresso, quem sabe.
Os meses que se seguiram ao meu retorno da Alemanha, em fevereiro de 2012, não apresentaram nada de novo. Voltar do intercâmbio é sempre uma tarefa difícil, mas, dessa vez, foi ainda pior do que da primeira vez. Não consigo me livrar de uma nostalgia boba dos tempos de intercambista, das viagens feitas e das experiências que somente terras estrangeiras poderão te proporcionar. Talvez porque eu saiba que ainda vai levar muito tempo até que eu volte a viver tais experiências.
Ao fim de 2012, as profecias do fim do mundo voltaram, desta vez prometendo a catástrofe para o dia 21 de dezembro. Curiosamente, não consegui sentir tanto medo como eu havia sentido quando criança. Depois que eu descobri os vestibulares, as seleções para mestrado e as entrevistas para emprego, a ideia do fim do mundo deixou de me assustar. Acredito que a idade de um ser humano pode ser medida de acordo com seus medos. Meus primeiros medos eram de fantasmas no meu quarto enquanto dormia. Meus segundos medos foram as previsões do fim do mundo. Meus medos atuais envolvem crises econômicas e desemprego.
Em 2013, aconteceu a única coisa que me deixou tão ou ainda mais impressionado que os ataques de 11 de setembro. Ao longo da Copa das Confederações, os brasileiros saíram às ruas para protestar contra os excessivos gastos da Copa do Mundo e exigir que igual atenção fosse dada a outros setores, como educação e saúde. Diante de tantas pessoas, tantas faixas e cartazes com os mais diferentes jargões e demandas, acho que essa é a definição mais genérica que posso dar à dita “primavera brasileira”. Demorei dias, talvez semanas, para acreditar nas cenas que via na televisão. Cidades inteiras paralisadas por protestos, desde as mais importantes do país até aquelas do interior. E eu, que vivi os pacíficos anos 1990 para depois surfar na onda de otimismo do início dos anos 2000, finalmente compreendi como nunca o que meus livros de história diziam sobre a tumultuada vida política de nosso país até o ano de 1985. Não que eu nunca tivesse participado de manifestações de rua antes. Fi-lo por várias vezes, mas, naquela época, manifestar-se ainda era visto com hostilidade pela mídia e, principalmente, pelos motoristas que ficavam presos no trânsito. A partir do momento em que os barbudos de blusas e bandeiras vermelhas perderam o monopólio dos protestos, estes viraram a menina dos olhos da opinião pública.
Não conseguiria fazer aqui mais julgamentos a respeito das manifestações de junho de 2013, até porque considero-as incompletas. Nesse ano acontecerá a Copa do Mundo propriamente dita, e tudo indica que os protestos irão continuar e se intensificar. Talvez esse seja o crepúsculo dos deuses para a minha geração, desacostumada à inflação e às crises políticas e econômicas. A uma fragorosa derrota da seleção brasileira na Copa do Mundo, seguir-se-á um abalo econômico sem precedentes, decorrente dos gastos com o evento, engendrando mais manifestações, mais descontentamento e trazendo, com força, tudo aquilo que os anos 1990 pareciam ter sepultado. As imagens das Copas de 1994 e 2002, do otimismo do Plano Real e das benesses do governo Lula ficarão para trás, e abrir-se-á um novo perigo negro na nossa história.
Não temo tanto por minha geração, mas por aqueles que nasceram um pouco mais tarde, na segunda metade dos anos 1990, cujas infâncias coincidiram com o Plano Real e cujas adolescências coincidiram com o governo Lula. Os famosos rolezeiros, que tanto pânico e horror têm trazido aos shoppings do nosso país (pelo menos de acordo com a mídia), são parcela dessa geração. Acostumados com o crédito fácil e desfrutando do ápice do crescimento brasileiro, muitos desses jovens encarariam uma crise econômica com mais espanto do que se se deparassem com um disco-voador ou uma mula-sem-cabeça. Seria o crepúsculo da nova classe média; o crepúsculo dos rolezinhos. Experiência análoga à da geração que nasceu no conforto da era de ouro dos anos 1950 e teve sua adolescência fraturada pelas crises de 1970 e 1980, de onde foram paridas as mais escabrosas experiências políticas, como skinheads e neonazistas.
De 1988 a 2014, do consenso de Washington ao crepúsculo dos rolezinhos, da Copa de 1994 à Copa de 2014: assim se desenrolou minha vida até aqui. De um aspirante a monge budista a um ingênuo anti-americanista fã de Saddam Hussein, Slobodan Milosevic e Osama bin Laden, passando por militante-observador do movimento estudantil até um desconfiado historiador que tem muito mais dúvidas do que certezas, percorri vários caminhos e tive várias experiências. Talvez a criança que eu fui nunca tenha orgulho do adulto que ela virou, mas ainda tenho fé que o adulto que sou hoje terá muito orgulho do idoso em que me transformarei daqui a alguns anos.
Nesses doze meses, vivi com seis famílias diferentes. Em uma delas havia um senhor cujo nome já não me lembro, mas que era um dos principais intelectuais que criticavam o regime político do país. Em outra família havia o Dr. Xavier Jayakumar, que, além de rotariano, era uma importante liderança de um dos principais partidos de oposição no país, o Keadilan Rakyat. Soube, por conversas paralelas, que ele já havia sido preso algumas vezes por participar de manifestações contra o governo. A Malásia é governada pela mesma coalização política desde a sua independência em 1957, sendo que organismos como a Anistia Internacional, a Transparência Internacional e os Direitos Humanos fazem constantes denúncias de abuso de poder, fraudes eleitorais e perseguições políticas – nada que abale a confiança das tradicionais elites políticas do país.
Lembro-me bem que participei de alguns encontros e manifestações organizados pelos partidos de oposição, contrariando orientações que foram dadas a todos os intercambistas no começo de nosso intercâmbio. Eles nos diziam que a política na Malásia era algo complexo e perigoso, e que, para o nosso próprio bem, deveríamos nos abster de penetrar nesses meios. Mas nada disso conseguiu me segurar. Aos poucos fui ficando fatigado por aquele país que se mostrou tão mais ocidentalizado do que eu esperava, e eu queria mais emoções. Com o Dr. Xavier, frequentei eventos de grandes dimensões, onde tive contato, ainda que rápido, com importantes figuras da oposição política malaia, como Anwar Ibrahim e sua esposa (com quem, inclusive, tirei uma foto). O mais curioso é que, nas conferências dos partidos de oposição, havia desde partidos de extrema-esquerda até partidos fundamentalistas islâmicos, passando por agremiações liberal-democráticas. Todos unidos apenas na oposição ao status quo, mas com propostas bastante diferentes. Era quase como se, aqui no Brasil, o PSOL e o DEM fizessem conferências conjuntas, unidos apenas pela oposição ao governo do PT. Nesses encontros, observei cenas pitorescas, como a de um jovem com camisa do Che Guevara e boina com estrela vermelha, de um lado, e um senhor barbudo com um turbante islâmico, do outro. Passava horas imaginando se e como tudo aquilo poderia um dia dar certo.
Mas um dia esse meu atrevimento quase me custou caro. Como já disse: os casos de perseguição e até de tortura a membros da oposição política no país são graves. Acontece que um dia viajamos de Klang (cidade onde morei) até Temerluh, no interior do país, para participar de um desses encontros. Fui com o Dr. Xavier e alguns de seus correligionários. Voltamos no mesmo dia, já quando a noite caía, e o Dr. Xavier dirigia muito rápido, pois sua esposa o pedira para que não chegasse muito tarde. No meio da rodovia nosso carro foi parado em um posto policial. Um guarda se aproximou e alertou-o de que os radares na rodovia haviam detectado sua alta velocidade. Ele tentou se explicar, dizendo que precisava chegar cedo em casa. Conversa vai, conversa vem, o policial olhou a carroceria da caminhonete e viu as bandeiras dos partidos de oposição lá atrás. Então perguntou-lhe se ele estava voltando de alguma manifestação da oposição, ao que o Dr. Xavier confirmou que sim. Naquele momento, um clima pesado pairou no local. Todos no carro pareciam pensar exatamente a mesma coisa: “isso não vai acabar bem”. E realmente, era uma situação que tinha tudo para não ter final feliz. A polícia da Malásia é fortemente ligada ao governo, sendo um dos seus principais instrumentos de repressão. Isso sem mencionar o fato de que ela é tida como uma das mais violentas do mundo, conforme a esposa do Dr. Xavier me contou. Ela também havia me contado de inúmeros casos de maus-tratos de policiais contra pessoas ligadas à oposição.
E justo quando nada parecia poder piorar, eu me lembrei de um detalhe: havia esquecido meu passaporte em casa. Estava sem nenhuma documentação comigo naquele momento. Se o policial olhasse para o banco de trás e visse que havia ali um estrangeiro, certamente ele iria implicar. Se o establishment malaio não tolerava ameaças ao status quo, imagine então intromissões de estrangeiros? O que pensaria o policial ao ver um ocidental dentro de um carro que retornava de um evento organizado pela oposição? Qualquer regime autoritário ou totalitário tem horror à mais discreta manifestação de contestação. Mas a ideia de que estrangeiros possam estar por trás dos movimentos de oposição lhes-é dramaticamente insuportável. Basta ver como os nazistas denunciavam o “bolchevo-judaísmo” soviético, ou os maoístas acusavam os intelectuais de agirem mancomunados com o imperialismo ocidental.
Não sei se o guarda notou a minha presença ali. Só sei que, num determinado momento daquela conversa que deve ter durado no máximo dois minutos (mas que me pareceu uma eternidade), o policial falou, em inglês: “but I will release you (mas eu vou deixa-los ir)”. Essa frase foi tão inesperada que o Dr. Xavier até riu, como se acreditasse que o policial estivesse fazendo chacota. Estávamos já tão acostumados com a ideia de que o tempo iria se fechar para nós, que nem acreditamos quando ouvimos aquela frase. O policial se despediu dizendo algo do tipo: “você está com pressa, vai com calma, não precisa correr”. E um silêncio sepulcral tomou conta do veículo por alguns instantes. Misto de alívio e medo.
Os próprios habitantes da Malásia não pareciam, de modo geral, demonstrar muito interesse por política – pelo menos até abril de 2013. Poucos meses antes da nossa “primavera brasileira”, a Malásia foi tomada por intensas manifestações que partiam, sobretudo, da juventude. Tais manifestações ocorreram durante as eleições e acusavam o Barisan Nasional (coligação governista) de manipular os resultados das eleições por meio de fraudes, como urnas que chegavam às seções eleitorais carregadas de votos e concessões de títulos de eleitor para trabalhadores estrangeiros que eram pagos para votarem no candidato da situação.
Talvez por influência das experiências com a política malaia, e também incentivado por meu interesse precedente por história e política, quando voltei ao Brasil comecei a dar meus primeiros passos no movimento estudantil secundarista. Esse envolvimento só aumentou quando entrei na universidade. Não preciso dizer que grande parte dos encontros estudantis eram regados a muita bebida, maconha e festas, além de todas as ocorrências subsequentes. Marxistas, trotskistas, stalinistas, maoístas, socialdemocratas e toda a sorte de posicionamentos políticos se manifestavam e se conflitavam nesses eventos, verdadeiros zoológicos ideológicos. Lembro-me, por exemplo, no Congresso da UNE em Brasília em julho de 2007, de ver a juventude do então recém-renomeado DEM (ex-PFL) chegando à UnB meio desconfortável, meio esquisita, completamente deslocada diante daquele monte de bandeiras vermelhas.
Um ano mais tarde, fui a um encontro de partidos marxista-leninistas na UERJ. Ficamos alojados em um ginásio na Escola de Educação Física, e nunca me esquecerei de quando um dos militantes solicitou que o espaço do ginásio fosse dividido em dois: de um lado os homens, do outro as mulheres. Quem diria: nem um encontro de partidos marxista-leninistas consegue escapar à velha segregação sexual tão típica da sociedade burguesa... Durante o dia, ouvíamos discursos, palestras e palavras de ordem clamando pelo socialismo e atacando a hipocrisia dos valores morais de nossa sociedade capitalista, que não respeita as minorias e promove a desigualdade social e de gênero. À noite, como em um acampamento bíblico, dormíamos todos separados, homens e mulheres, perpetuando aqueles mesmos valores conservadores.
Sempre fui um mero observador nesses encontros, abstendo-me de tomar parte ativamente na sua organização e realização. Conversando com uma das militantes ali presentes, soube que muitas lideranças desses movimentos desencorajavam seus militantes a manterem relações afetivas durante esses encontros, sob a alegação de que tais relacionamentos desviariam o foco principal do evento, que era contribuir para a revolução socialista. Assim, sempre que ela se envolvia com alguém em um encontro, ela se “confessava” com os líderes, afirmando que reconhecia seu erro, mas admitindo que muitas vezes a “carne” era mais forte e acabava conduzindo a esse tipo de ação.
Após anos e anos de rusgas com militantes virtuais de direita, eu finalmente entendia o que eles queriam dizer quando afirmavam que o marxismo muitas vezes subia à cabeça de certas pessoas e acabava virando um credo.
Apesar de todo esse envolvimento com o movimento estudantil, com o tempo percebi que eu nunca levei jeito para a coisa. Detestava passar em salas de aula para dar recados sobre eleições, não tinha preparo emocional para discutir cara a cara com rivais (já que toda a minha experiência em discussões políticas se resumia a fóruns na internet) e não me sentia confortável empurrando panfletos para as pessoas em dias de eleição. Com o tempo, fui me afastando desse meio, muito embora eu admire bastante as pessoas que têm disposição para permanecer nele.
Apesar desses percalços, a vida universitária para mim significou, acima de tudo, uma coisa: liberdade. Em contraposição ao ambiente escolar, onde tínhamos toda uma rígida rotina de disciplinas e conteúdos que dificilmente contribuiriam para a minha vida e para a minha formação, a universidade sempre foi, para mim, um lugar de autonomia. Sei que a quase totalidade de meus colegas da UFMG irá rir dessas palavras, mas eu asseguro que nunca consegui partilhar do ódio que muitos deles sentem pelo ambiente acadêmico, em especial pela FAFICH. E o apreço que sinto pelo ambiente universitário tornou-se ainda maior desde que comecei a trabalhar em um colégio/cursinho pré-vestibular. À medida que eu ia passando mais tempo no colégio e menos tempo na universidade, me sentia cada vez mais sufocado. As exigências dos processos seletivos abafam nossa capacidade de questionamento e de discussão. Ao invés de gastar as tardes na universidade estudando, lendo, me informando e debatendo, passei a gastá-las em uma sala, auxiliando os alunos e alunas a marcarem o X no lugar correto.
Falem o que quiserem da universidade e de seus inúmeros defeitos: diante da escola, ela continua sendo um espaço de autonomia, de independência, onde eu posso me levantar e dizer que não concordo com este ou aquele ponto de vista. Nas escolas e cursinhos, há uma apostila e há os professores, e, como um monitor, meu discurso precisa se conformar ao discurso deles. Não posso dizer que essa ou aquela informação do material didático está errada, pois os alunos são ensinados a cultuar o livro de história como uma escritura sagrada. Não posso nem arriscar um pequeno palpite que coloque em xeque suas informações. “Como assim o livro está errado? Como assim o professor está errado?”, perguntam-se os alunos, atônitos. Entre a palavra das sagradas escrituras e a palavra do professor, de um lado, e a palavra de um reles monitor, do outro, é fácil descobrir qual percurso o aluno vai traçar. Estamos formando pessoas aptas a acreditar piamente em tudo aquilo que é dito por uma pessoa que se dirige a uma multidão do alto de uma pequena plataforma, e a desconfiar de tudo aquilo que é dito por uma pessoa em pé de igualdade.
É óbvio que eu não quero aqui desqualificar o trabalho dos professores do colégio ou do cursinho – longe disso. O que eu quero desqualificar é essa noção do ensino de história como uma mera ferramenta para a busca de respostas certas. Os pré-vestibulandos estão cada dia mais ávidos por achar as respostas corretas, mas cada dia menos capazes de fazer as perguntas adequadas. Por isso temos debates escabrosos, do tipo: “você é a favor ou contra o aborto?” ou “você é a favor ou contra a redução da maioridade penal”, quando, na verdade, as perguntas deveriam ser “por que as mulheres abortam?” e “por que menores de 18 anos praticam crimes?”. Os alunos não conseguem perceber que quem tem o monopólio das perguntas tem o monopólio do debate. Acostumados a lidarem com as perguntas como fórmulas preconcebidas e não passíveis de debate, nossos jovens se digladiam na busca das respostas corretas para as perguntas erradas.
Foi na universidade que tive a oportunidade de ingressar em minha segunda e última experiência internacional. Ela se deu em outubro de 2011, após ser aprovado para o programa de mobilidade internacional acadêmica da UFMG. Passei cinco meses na Alemanha, estudando na Universidade de Augsburg, experiência que já relatei exaustivamente nos meus posts “Confissões de Augsburg”. Não sei como comentar minha experiência na Alemanha sem incorrer em clichês cansativos, do tipo “é um lindo país”, “a universidade é fantástica”, “a biblioteca é incrível” e “as aulas são extremamente produtivas”. Isso sem mencionar o inefável prazer de estudar no frio, em comparação com o calor do verão brasileiro que me deixa modorrento. Não fiz muitos amigos na Alemanha. Aliás, posso contar nos dedos de uma mão o número de amigos alemães que fiz. É muito difícil ser uma pessoa calada e querer socializar num país onde todo mundo é quase igual a você. Ainda assim, não posso deixar de ressaltar que nutri profundo apreço por todos os professores com os quais tive aula. Gostaria de ter mantido mais contato com eles; gostaria de encontra-los de novo, algum dia, em algum congresso, quem sabe.
Os meses que se seguiram ao meu retorno da Alemanha, em fevereiro de 2012, não apresentaram nada de novo. Voltar do intercâmbio é sempre uma tarefa difícil, mas, dessa vez, foi ainda pior do que da primeira vez. Não consigo me livrar de uma nostalgia boba dos tempos de intercambista, das viagens feitas e das experiências que somente terras estrangeiras poderão te proporcionar. Talvez porque eu saiba que ainda vai levar muito tempo até que eu volte a viver tais experiências.
Ao fim de 2012, as profecias do fim do mundo voltaram, desta vez prometendo a catástrofe para o dia 21 de dezembro. Curiosamente, não consegui sentir tanto medo como eu havia sentido quando criança. Depois que eu descobri os vestibulares, as seleções para mestrado e as entrevistas para emprego, a ideia do fim do mundo deixou de me assustar. Acredito que a idade de um ser humano pode ser medida de acordo com seus medos. Meus primeiros medos eram de fantasmas no meu quarto enquanto dormia. Meus segundos medos foram as previsões do fim do mundo. Meus medos atuais envolvem crises econômicas e desemprego.
Em 2013, aconteceu a única coisa que me deixou tão ou ainda mais impressionado que os ataques de 11 de setembro. Ao longo da Copa das Confederações, os brasileiros saíram às ruas para protestar contra os excessivos gastos da Copa do Mundo e exigir que igual atenção fosse dada a outros setores, como educação e saúde. Diante de tantas pessoas, tantas faixas e cartazes com os mais diferentes jargões e demandas, acho que essa é a definição mais genérica que posso dar à dita “primavera brasileira”. Demorei dias, talvez semanas, para acreditar nas cenas que via na televisão. Cidades inteiras paralisadas por protestos, desde as mais importantes do país até aquelas do interior. E eu, que vivi os pacíficos anos 1990 para depois surfar na onda de otimismo do início dos anos 2000, finalmente compreendi como nunca o que meus livros de história diziam sobre a tumultuada vida política de nosso país até o ano de 1985. Não que eu nunca tivesse participado de manifestações de rua antes. Fi-lo por várias vezes, mas, naquela época, manifestar-se ainda era visto com hostilidade pela mídia e, principalmente, pelos motoristas que ficavam presos no trânsito. A partir do momento em que os barbudos de blusas e bandeiras vermelhas perderam o monopólio dos protestos, estes viraram a menina dos olhos da opinião pública.
Não conseguiria fazer aqui mais julgamentos a respeito das manifestações de junho de 2013, até porque considero-as incompletas. Nesse ano acontecerá a Copa do Mundo propriamente dita, e tudo indica que os protestos irão continuar e se intensificar. Talvez esse seja o crepúsculo dos deuses para a minha geração, desacostumada à inflação e às crises políticas e econômicas. A uma fragorosa derrota da seleção brasileira na Copa do Mundo, seguir-se-á um abalo econômico sem precedentes, decorrente dos gastos com o evento, engendrando mais manifestações, mais descontentamento e trazendo, com força, tudo aquilo que os anos 1990 pareciam ter sepultado. As imagens das Copas de 1994 e 2002, do otimismo do Plano Real e das benesses do governo Lula ficarão para trás, e abrir-se-á um novo perigo negro na nossa história.
Não temo tanto por minha geração, mas por aqueles que nasceram um pouco mais tarde, na segunda metade dos anos 1990, cujas infâncias coincidiram com o Plano Real e cujas adolescências coincidiram com o governo Lula. Os famosos rolezeiros, que tanto pânico e horror têm trazido aos shoppings do nosso país (pelo menos de acordo com a mídia), são parcela dessa geração. Acostumados com o crédito fácil e desfrutando do ápice do crescimento brasileiro, muitos desses jovens encarariam uma crise econômica com mais espanto do que se se deparassem com um disco-voador ou uma mula-sem-cabeça. Seria o crepúsculo da nova classe média; o crepúsculo dos rolezinhos. Experiência análoga à da geração que nasceu no conforto da era de ouro dos anos 1950 e teve sua adolescência fraturada pelas crises de 1970 e 1980, de onde foram paridas as mais escabrosas experiências políticas, como skinheads e neonazistas.
De 1988 a 2014, do consenso de Washington ao crepúsculo dos rolezinhos, da Copa de 1994 à Copa de 2014: assim se desenrolou minha vida até aqui. De um aspirante a monge budista a um ingênuo anti-americanista fã de Saddam Hussein, Slobodan Milosevic e Osama bin Laden, passando por militante-observador do movimento estudantil até um desconfiado historiador que tem muito mais dúvidas do que certezas, percorri vários caminhos e tive várias experiências. Talvez a criança que eu fui nunca tenha orgulho do adulto que ela virou, mas ainda tenho fé que o adulto que sou hoje terá muito orgulho do idoso em que me transformarei daqui a alguns anos.
sábado, 4 de janeiro de 2014
Caio, o estudante de cursinho politizado
Caio é um jovem estudante de 18 anos de idade de Belo Horizonte. Ele se formou no ensino médio em uma excelente escola particular no fim de 2012 e tentou vestibular para medicina. Infelizmente, sua pontuação no ENEM não foi boa o suficiente. Agora ele é um aluno assíduo de um dos melhores cursinhos da cidade.
Caio passa quase todos os dias no cursinho. Assiste a todas as aulas que pode, anota tudo que consegue, pergunta tudo o que não sabe e até o que sabe. Caio não pode se dar ao luxo de fracassar novamente em sua empreitada, pois esse sempre foi o seu maior sonho: ser médico igual a seus pais. Ele acredita que seu curso de medicina lhe dará o conforto financeiro e a satisfação profissional que ele espera.
Caio só usa roupas de marca: Hollister, Abercombie, e tudo o mais que os homens na moda estiverem usando, sempre combinando com uma bermuda também da moda, em cujo bolso ele traz seu iPhone fabricado com mão de obra escrava chinesa. Seu porte físico de atleta, sua barba sempre por fazer e seu cabelo com gel completam o visual.
A jornada de Caio no cursinho começa cedo. No turno da manhã ele assiste às aulas. No intervalo, vai comer na cantina. Conversando com sua amiga, Caio resmunga impropérios contra o professor de química, dizendo que ele não domina o conteúdo direito, pois precisa consultar suas anotações durante a aula. Diz ainda que professor de cursinho tem que saber toda a matéria de cor, que não pode ficar inseguro nem fraquejar, e que professor assim é despreparado. Por isso, Caio nunca confia em seu professor de química.
Menos confiável ainda é o professor de história. Enquanto os outros professores passam fórmulas feitas, ensinam macetes, bolam truques e toda sorte de artimanhas para que os alunos não esqueçam o conteúdo na hora da prova, o professor de história fica se perdendo em reflexões fúteis e contorcendo-se em discursos complexos que não ajudam em nada pra passar no vestibular. A amiga de Caio argumenta de forma conciliadora, afirmando que o professor de história só está tentando fazer os alunos pensarem por si mesmos. Mas Caio retruca com seu azedume característico, alegando que aquele professor é marxista – igual a todos os professores de história formados na UFMG. Caio não quer reflexões ideologicamente fundadas em uma doutrina que matou milhões de pessoas, ele quer apenas as respostas certas para entrar no seu curso de medicina.
Caio já é um rapaz politizado desde seus tempos de ensino médio. Não raras vezes o jovem se meteu em quiproquós homéricos com seus professores e colegas esquerdistas nas aulas de Revolução Russa e Ditadura Militar. Aliás, quando o Brasil foi escolhido para sediar a Copa do Mundo, Caio bateu boca com seus colegas de escola que, alienados pela doutrinação marxista do MEC, apontavam para os vários inconvenientes sociais e econômicos da realização desse evento no Brasil. Caio contra argumentava que a Copa é uma excelente oportunidade para o crescimento, pois todo país que sedia o evento experimenta uma série de melhorias estruturais. “Só mesmo um bando de esquerdistas cegos pelo marxismo poderia ser contra a realização de uma Copa em seu país”, pensava.
Caio se interessa pela carreira de médico, mas também ama história. Ele complementa o conteúdo do cursinho com aquilo que lê nos guias politicamente incorretos de história que ele ganhou de aniversário de seus pais. Caio tem a coleção completa: os guias politicamente incorretos da história do Brasil, da América Latina e do mundo, e está pensando em comprar o da filosofia. Ele costuma levar um dos guias para ler no cursinho no intervalo entre seus estudos. Com os guias politicamente incorretos, Caio aprendeu que todos os seus professores de história mentiram para ele ao longo do ensino médio e continuam mentindo no cursinho. Lendo-os atentamente a fim de assimilar cada parágrafo, o futuro médico vai aos poucos depurando seu espírito do lixo marxista que tentaram lhe empurrar.
Caio não se deixa levar por tudo que seus professores e monitores de história dizem. Sempre que recebe alguma informação no cursinho, ele corre para seu guia incorreto para ver se é verdade. Não raro, quando estuda em grupo, Caio perde a paciência com seus colegas, alegando que suas opiniões estão erradas porque não batem com as do seu guia. Por fim, acusa-os de estarem se cegando com a doutrinação marxista em sala de aula. Seu professor de história já pediu a ele para buscar informações em outros livros, sites e revistas, mas Caio se recusa. Não quer correr o risco de cair em novas armações marxistas por aí. Assim, ele se agarra ao seu guia como a pedra de salvação diante de tantos meios de informação que querem enganá-lo.
Apesar de tudo, Caio não se considera um conservador. Para Caio, direita e esquerda são tudo a mesma coisa. Ele se considera um apolítico, pois diz que a política é suja, que os partidos políticos são sujos e que todas as instituições políticas são corruptas. Caio acha que o congresso e o senado devem ser fechados, que todos os partidos devem acabar e que deve haver uma grande renovação no cenário político nacional.
A princípio, Caio é um tipo simpático. Porém, graças a esses contratempos em sala de aula ele acaba espantando as pessoas ao seu redor. Mas Caio não se importa. Ele não está ali para se divertir ou para fazer amigos, apenas para passar em medicina. No elevador, na cantina, na sala de aula, onde quer que esteja, é muito raro não ver Caio de cara amarrada, preocupado com seus estudos, irritado com as aulas e professores que ele considera “muito fraquinhos” ou "muito marxistas".
Apesar de sua ortodoxia politicamente incorreta, Caio não é religioso. Isso porque ele aprendeu nas aulas de biologia que Deus não existe. Caio também não tem paciência para futebol. Apesar de sua família ser majoritariamente atleticana, ele raramente acompanha os jogos. Seu grande prazer sempre foi jogar handball, mas agora teve de parar para se dedicar integralmente aos estudos.
Caio é contra cotas de qualquer tipo, pois diz que os negros e pobres não são inferiores a ninguém e, por isso, têm condições de competir em pé de igualdade com qualquer um. Ele também fica iracundo ao saber dos programas do governo para aumentar o número de vagas nas universidades públicas. Para Caio, isso atenta contra os princípios mais básicos da meritocracia. A universidade federal é só para quem pode, e não para quem quer. Aumentar vagas pode contribuir para reduzir o nível da instituição e, consequentemente, manchar o diploma de Caio.
Quando vieram as manifestações de junho de 2013, Caio ouviu o chamado das ruas. Mesmo tendo pilhas de fórmulas a decorar e macetes para aprender, Caio abriu mão de seus estudos por um tempo e saiu às ruas com seus amigos vestindo verde e amarelo. E como não ficava ensandecido o rapaz ao ver movimentos sociais e pessoas ligadas a agremiações políticas protestando ao seu lado... "Todos oportunistas e egoístas", afirma Caio, porque lutam por interesses particulares. Para ele, a única bandeira permitida nas manifestações deveria ser a bandeira do Brasil, pois era mais democrática e representava todos. Por isso ele era sempre o primeiro a puxar os gritos de “aqui não tem partido!” e “abaixa essa bandeira!”. Seus cartazes não ficavam por menos: “foda-se a Copa!”, “não quero dinheiro pra Copa, quero dinheiro pra saúde e educação!” e “enfia a Copa no cu!”. Caio acha um absurdo um governo dar tanta atenção à Copa e deixar de lado outros problemas urgentes, como saúde, educação, moradia, transporte e violência.
Caio acabou de fazer ENEM e dessa vez está confiante em sua nota! Nem isso, porém, consegue dar um jeito na cara torta de nosso futuro médico. Ele teme que, quando entrar na faculdade, terá de assistir aulas junto com uma leva de alunos despreparados que se beneficiaram com a expansão das vagas. Caio não quer ver a qualidade de seu curso de medicina decrescer vertiginosamente. Além do mais, para a infelicidade de Caio, os gritos que ele deu nas ruas foram ouvidos pelas autoridades: o governo decidiu contratar médicos estrangeiros a fim de suprir as áreas do país mais carentes de profissionais de saúde. Caio acha isso tudo um tremendo absurdo, pois esses médicos estarão recebendo salários parcos e roubarão o seu emprego quando ele estiver formado. Isso sem contar no absurdo ainda maior de a vinda desses médicos estar financiando a ditadura cubana.
Após mais um dia de cursinho, Caio volta para casa de ônibus remoendo suas amarguras. No caminho, uma pequena movimentação na rua atrapalha o trânsito: são jovens se manifestando por melhores condições de moradia para famílias carentes de Belo Horizonte. Caio ridiculariza: “Bando de desocupados! Ficam bloqueando o espaço público em nome de interesses privados”. Percebendo que o caminho para casa será longo, ele se acomoda na cadeira e começa a ouvir música em seu iPhone sonhando com o dia que terá seu próprio carro e não precisará depender de transporte coletivo.
Caio passa quase todos os dias no cursinho. Assiste a todas as aulas que pode, anota tudo que consegue, pergunta tudo o que não sabe e até o que sabe. Caio não pode se dar ao luxo de fracassar novamente em sua empreitada, pois esse sempre foi o seu maior sonho: ser médico igual a seus pais. Ele acredita que seu curso de medicina lhe dará o conforto financeiro e a satisfação profissional que ele espera.
Caio só usa roupas de marca: Hollister, Abercombie, e tudo o mais que os homens na moda estiverem usando, sempre combinando com uma bermuda também da moda, em cujo bolso ele traz seu iPhone fabricado com mão de obra escrava chinesa. Seu porte físico de atleta, sua barba sempre por fazer e seu cabelo com gel completam o visual.
A jornada de Caio no cursinho começa cedo. No turno da manhã ele assiste às aulas. No intervalo, vai comer na cantina. Conversando com sua amiga, Caio resmunga impropérios contra o professor de química, dizendo que ele não domina o conteúdo direito, pois precisa consultar suas anotações durante a aula. Diz ainda que professor de cursinho tem que saber toda a matéria de cor, que não pode ficar inseguro nem fraquejar, e que professor assim é despreparado. Por isso, Caio nunca confia em seu professor de química.
Menos confiável ainda é o professor de história. Enquanto os outros professores passam fórmulas feitas, ensinam macetes, bolam truques e toda sorte de artimanhas para que os alunos não esqueçam o conteúdo na hora da prova, o professor de história fica se perdendo em reflexões fúteis e contorcendo-se em discursos complexos que não ajudam em nada pra passar no vestibular. A amiga de Caio argumenta de forma conciliadora, afirmando que o professor de história só está tentando fazer os alunos pensarem por si mesmos. Mas Caio retruca com seu azedume característico, alegando que aquele professor é marxista – igual a todos os professores de história formados na UFMG. Caio não quer reflexões ideologicamente fundadas em uma doutrina que matou milhões de pessoas, ele quer apenas as respostas certas para entrar no seu curso de medicina.
Caio já é um rapaz politizado desde seus tempos de ensino médio. Não raras vezes o jovem se meteu em quiproquós homéricos com seus professores e colegas esquerdistas nas aulas de Revolução Russa e Ditadura Militar. Aliás, quando o Brasil foi escolhido para sediar a Copa do Mundo, Caio bateu boca com seus colegas de escola que, alienados pela doutrinação marxista do MEC, apontavam para os vários inconvenientes sociais e econômicos da realização desse evento no Brasil. Caio contra argumentava que a Copa é uma excelente oportunidade para o crescimento, pois todo país que sedia o evento experimenta uma série de melhorias estruturais. “Só mesmo um bando de esquerdistas cegos pelo marxismo poderia ser contra a realização de uma Copa em seu país”, pensava.
Caio se interessa pela carreira de médico, mas também ama história. Ele complementa o conteúdo do cursinho com aquilo que lê nos guias politicamente incorretos de história que ele ganhou de aniversário de seus pais. Caio tem a coleção completa: os guias politicamente incorretos da história do Brasil, da América Latina e do mundo, e está pensando em comprar o da filosofia. Ele costuma levar um dos guias para ler no cursinho no intervalo entre seus estudos. Com os guias politicamente incorretos, Caio aprendeu que todos os seus professores de história mentiram para ele ao longo do ensino médio e continuam mentindo no cursinho. Lendo-os atentamente a fim de assimilar cada parágrafo, o futuro médico vai aos poucos depurando seu espírito do lixo marxista que tentaram lhe empurrar.
Caio não se deixa levar por tudo que seus professores e monitores de história dizem. Sempre que recebe alguma informação no cursinho, ele corre para seu guia incorreto para ver se é verdade. Não raro, quando estuda em grupo, Caio perde a paciência com seus colegas, alegando que suas opiniões estão erradas porque não batem com as do seu guia. Por fim, acusa-os de estarem se cegando com a doutrinação marxista em sala de aula. Seu professor de história já pediu a ele para buscar informações em outros livros, sites e revistas, mas Caio se recusa. Não quer correr o risco de cair em novas armações marxistas por aí. Assim, ele se agarra ao seu guia como a pedra de salvação diante de tantos meios de informação que querem enganá-lo.
Apesar de tudo, Caio não se considera um conservador. Para Caio, direita e esquerda são tudo a mesma coisa. Ele se considera um apolítico, pois diz que a política é suja, que os partidos políticos são sujos e que todas as instituições políticas são corruptas. Caio acha que o congresso e o senado devem ser fechados, que todos os partidos devem acabar e que deve haver uma grande renovação no cenário político nacional.
A princípio, Caio é um tipo simpático. Porém, graças a esses contratempos em sala de aula ele acaba espantando as pessoas ao seu redor. Mas Caio não se importa. Ele não está ali para se divertir ou para fazer amigos, apenas para passar em medicina. No elevador, na cantina, na sala de aula, onde quer que esteja, é muito raro não ver Caio de cara amarrada, preocupado com seus estudos, irritado com as aulas e professores que ele considera “muito fraquinhos” ou "muito marxistas".
Apesar de sua ortodoxia politicamente incorreta, Caio não é religioso. Isso porque ele aprendeu nas aulas de biologia que Deus não existe. Caio também não tem paciência para futebol. Apesar de sua família ser majoritariamente atleticana, ele raramente acompanha os jogos. Seu grande prazer sempre foi jogar handball, mas agora teve de parar para se dedicar integralmente aos estudos.
Caio é contra cotas de qualquer tipo, pois diz que os negros e pobres não são inferiores a ninguém e, por isso, têm condições de competir em pé de igualdade com qualquer um. Ele também fica iracundo ao saber dos programas do governo para aumentar o número de vagas nas universidades públicas. Para Caio, isso atenta contra os princípios mais básicos da meritocracia. A universidade federal é só para quem pode, e não para quem quer. Aumentar vagas pode contribuir para reduzir o nível da instituição e, consequentemente, manchar o diploma de Caio.
Quando vieram as manifestações de junho de 2013, Caio ouviu o chamado das ruas. Mesmo tendo pilhas de fórmulas a decorar e macetes para aprender, Caio abriu mão de seus estudos por um tempo e saiu às ruas com seus amigos vestindo verde e amarelo. E como não ficava ensandecido o rapaz ao ver movimentos sociais e pessoas ligadas a agremiações políticas protestando ao seu lado... "Todos oportunistas e egoístas", afirma Caio, porque lutam por interesses particulares. Para ele, a única bandeira permitida nas manifestações deveria ser a bandeira do Brasil, pois era mais democrática e representava todos. Por isso ele era sempre o primeiro a puxar os gritos de “aqui não tem partido!” e “abaixa essa bandeira!”. Seus cartazes não ficavam por menos: “foda-se a Copa!”, “não quero dinheiro pra Copa, quero dinheiro pra saúde e educação!” e “enfia a Copa no cu!”. Caio acha um absurdo um governo dar tanta atenção à Copa e deixar de lado outros problemas urgentes, como saúde, educação, moradia, transporte e violência.
Caio acabou de fazer ENEM e dessa vez está confiante em sua nota! Nem isso, porém, consegue dar um jeito na cara torta de nosso futuro médico. Ele teme que, quando entrar na faculdade, terá de assistir aulas junto com uma leva de alunos despreparados que se beneficiaram com a expansão das vagas. Caio não quer ver a qualidade de seu curso de medicina decrescer vertiginosamente. Além do mais, para a infelicidade de Caio, os gritos que ele deu nas ruas foram ouvidos pelas autoridades: o governo decidiu contratar médicos estrangeiros a fim de suprir as áreas do país mais carentes de profissionais de saúde. Caio acha isso tudo um tremendo absurdo, pois esses médicos estarão recebendo salários parcos e roubarão o seu emprego quando ele estiver formado. Isso sem contar no absurdo ainda maior de a vinda desses médicos estar financiando a ditadura cubana.
Após mais um dia de cursinho, Caio volta para casa de ônibus remoendo suas amarguras. No caminho, uma pequena movimentação na rua atrapalha o trânsito: são jovens se manifestando por melhores condições de moradia para famílias carentes de Belo Horizonte. Caio ridiculariza: “Bando de desocupados! Ficam bloqueando o espaço público em nome de interesses privados”. Percebendo que o caminho para casa será longo, ele se acomoda na cadeira e começa a ouvir música em seu iPhone sonhando com o dia que terá seu próprio carro e não precisará depender de transporte coletivo.
domingo, 28 de julho de 2013
O curioso ano de 2013
Normalmente, fazemos a retrospectiva de um ano quando ele já está chegando ao fim. Entretanto, nesse ano de 2013 têm borbulhado tantos acontecimentos marcantes que eu simplesmente não consegui esperar até que ele acabasse. É possível que ao fim do ano seja necessário rever algumas de minhas conclusões precipitadas, mas isso não é um problema.
Pra começo de conversa, 2013 fechou um ciclo em minha vida, pois no último dia 9 de julho concluí minha graduação. Esse ciclo não começou em 2009, quando iniciei o curso de História, nem tampouco em 2007, quando comecei a minha longa e indecisa peregrinação pelo mundo acadêmico. Esse ciclo começou há exatos dez anos, no triste ano de 2003, quando ingressei no primeiro ano do ensino médio.
A verdade é que minha vida desde 2003 foi de incertezas: sempre soube mais ou menos qual caminho eu queria seguir, embora esse “mais ou menos” persistisse com a força de cem Hércules por todos esses anos. Passei nos dois vestibulares que tentei para dois cursos diferentes. Fiz um curso. Tranquei. Fiz o outro. Tranquei. Voltei ao primeiro. Tranquei novamente. Percebi que não era nada daquilo o que eu queria e prestei vestibular para História. Iniciei minha trajetória no curso em 2009, mas foi resolver uma indecisão para outra logo surgir: pra que área da História migrar? Foi a pergunta que me acompanhou ao longo de quase todo o curso. E só depois de defender minha monografia consegui me sentir seguro diante dela. Era a primeira vez, em dez anos, que eu podia afirmar, confiante, que eu sabia qual caminho queria trilhar.
Mas você sabe o que é escrever uma monografia? No meu caso, foi um exercício de intelecto e medo ao mesmo tempo. Em meu trabalho, dediquei-me a estudar a forma pela qual o Sr. Gustavo Barroso (importante liderança do integralismo brasileiro) analisava a ascensão do fascismo no mundo entre guerras. Ao longo de meus estudos, pude perceber que, para o dito autor, o fascismo seria o “espírito do século XX”, de modo que a ascensão do fascismo em diversas partes do mundo constituía, para ele, quase uma primavera, a ponto de ele proclamar: “nacionalistas de todos os países, uni-vos!”.
Pois bem. Alguns meses depois de começar a redigir meu trabalho, nossa cidade foi pega de surpresa pela divulgação de fotos de um trote na Faculdade de Direito da UFMG. Em uma delas, um aluno segurava uma caloura “fantasiada” de escrava com uma corrente presa ao seu pescoço. Em outra foto, três alunos faziam a saudação nazista enquanto um calouro estava amarrado a uma pilastra. Pra dizer a verdade, tais fotos não me chocaram tanto, até porque sempre soube que acontecem coisas bem piores em trotes de outras universidades e que, por isso mesmo, nem ao menos são fotografadas. Mas, aos poucos, diversos sites foram divulgando informações acerca de um dos alunos, apontando-o como membro de uma organização nacionalista de extrema-direita de inspiração fascista. Vi que o dito rapaz admirava Hitler, ridicularizava quem acreditava no Holocausto e até tecia elogios a importantes líderes fascistas, como Sir Oswald Mosley, líder fascista inglês. E eu, na minha santa ingenuidade, achando que Gustavo Barroso era uma figura caricata de uma espécie cujos principais exemplares haviam se esgotado nos anos 1930, fui obrigado a olhar para meu próprio trabalho de um modo diferente. A princípio, o que me motivou a escrever minha monografia foi ver o quanto o fascismo era louvado até mesmo no Brasil, em contraste com os dias de hoje, nos quais o termo “fascista” virou sinônimo de “truculento” e “repugnante”. Após o famigerado evento na vetusta casa, percebi que meu trabalho era bem mais atual do que eu julgava.
Os eventos da Faculdade de Direito foram uma bomba atômica sobre todos aqueles que haviam se acostumado a traçar uma fronteira entre a universidade e o resto da sociedade, associando esta à barbárie e aquela à civilização. De repente, todos percebemos, estupefatos, que os bárbaros estavam entre nós. Os bárbaros não eram os “vagabundos” sustentados pelo Bolsa Família, os “oportunistas” que ingressavam na universidade por meio de cotas nem os moradores de rua que nos assediavam pedindo esmolas. Os bárbaros haviam penetrado a “elite intelectual” do país e estavam ali mesmo, ao nosso lado, dentro dos muros da universidade, puxando calouros por correntes, prendendo seus colegas a pilastras e se orgulhando disso tudo. Roma havia caído e ninguém percebera!
Mas as coisas não pararam por aí. Pouco tempo depois dos trotes, veio à tona outra foto na internet: um skinhead neonazista enforcava um morador de rua em plena luz do dia na Praça da Savassi. “BH pirou!”, comentou um amigo de um amigo meu no Facebook. Foi isso mesmo o que pensei: BH pirou. Sempre achei que neonazistas fossem um fenômeno restrito ao estado de São Paulo e ao sul do país. Nunca tinha ouvido falar desses elementos por aqui. Fuçando pela internet, vi outras fotos de outros neonazistas de BH. Em uma delas, uma frase que me trespassou como uma estaca: “Belo Horizonte é fascista!”. Confesso que fiquei atordoado ao ler essa máxima. Consumiu-me, de súbito, um medo horrendo de que ela estivesse certa. E novamente eu olhava para minha monografia com um pé atrás, temendo pelas palavras que eu mesmo escrevia. Foi com profundo pesar que precisei admitir que a crença no “fascismo redentor” talvez não fosse mero passadismo. Pelo visto, os “ecos da Giovinezza” não haviam repercutido apenas no espaço, mas também no tempo.
Como fomos descobrir depois, o neonazista da Savassi conhecia o fascista do Direito, mas detestava-o. Chamava-o de “nazi-nerd”, ridicularizando-o por ser alheio à “realidade das ruas”. Aliás, acho que isso é inerente mesmo ao fascismo: uma arrogância tremenda que te faz desprezar tudo e todos que não são exatamente iguais a você, mesmo quando eles se esforçam por sê-lo. Voltemos nossos olhares ao Sr. Gustavo Barroso, sobre quem escrevi. Por maior admirador que ele fosse de Hitler e de sua política, não acho difícil visualizar um desfecho alternativo para a Segunda Guerra no qual tropas nazistas, após tomarem as colônias francesas e inglesas no Caribe, invadissem o Brasil desembarcando nos “verdes mares bravios” do Ceará, pisoteando o solo no qual o pobre integralista havia crescido.
E pra fechar com pompa o primeiro semestre desse estranho e curioso ano, no mês de junho nosso país foi sacudido por ondas de protestos de rua engrossados por aquela mesma juventude que todos acusavam de “acomodada”. A reação imediata da mídia foi desacreditar o movimento. Num segundo momento, quando viram que não ia ter jeito, decidiram aturá-lo. Por fim, criou-se um mantra repetido à exaustão em quase todos os telejornais na hora de noticiar as manifestações de rua. Segundo esse mantra, todo protesto começa pacífico, sem violência, democrático, lindo, maravilhoso, jubiloso, uma gracinha... até o momento em que uma minoria mascarada se infiltra e avacalha tudo. E eu, que já participava de manifestações de rua antes de ser modinha (i.e., antes de ser elogiado pela mídia), aos poucos fui me deparando com a curiosa cena de vários amigos no Facebook demonstrando todo o seu apoio às manifestações – aqueles mesmo amigos que me olhavam com desdém quando eu saía às ruas para protestar há anos atrás. Mas não posso fazer nada, não é? Se a mídia falou que os protestos são legítimos, então todo mundo protesta. Errado era eu de fazer isso antes de a mídia aprovar.
Acontece que aquelas pessoas que saíam às ruas não eram exatamente as mesmas que saíam antes de virar modinha. Havia muita gente nova, que nunca tinha estado ali. Aos poucos, começou a se falar em uma “primavera brasileira”. Meu Facebook nunca esteve tão esquizofrênico como naqueles dias: meus amigos de direita postavam mensagens alarmistas que davam como certo um terrível golpe comunista; meus amigos de esquerda arrancavam os cabelos de medo de um iminente golpe militar. Aliás, se existisse Facebook nos anos 1960, acho que ele estaria desse mesmo jeito na madrugada do dia 31 de março de 1964.
Não só esquizofrênico, o Facebook também estava estranho – tão estranho que quase não o reconheci. Por pelo menos duas semanas seguidas haviam desaparecido daquela rede social os homéricos quebra-paus entre torcedores rivais, as mais batidas mensagens de autoajuda, as fotos de baladas e de comida. Só se falava no “gigante acordado” que saía às ruas sedento por mudanças. Os telejornais do fim da tarde, acostumados a noticiar chacinas, estupros e tantas outras atrocidades, também mudaram: só se mostravam os protestos, nada mais. A sensação que tive naquelas duas semanas foi a de que o tempo estava suspenso, a normalidade fora cancelada. E eu não conseguia fazer nada direito; não conseguia terminar minha monografia, não me concentrava no trabalho e não conseguia sequer comer. Chegava em casa e ia direto para a internet acompanhar o caminhar dos protestos de rua. Com os olhos vidrados na televisão e no notebook, assistia ao desenrolar de todas aquelas passeatas sem acreditar direito que aquilo tudo era real. Foram dias eletrizantes, como eu raramente presenciara. Todas as noites eu ia dormir pilhado e custava a pegar no sono. Foram duas semanas quase mágicas para nosso país, embora não poucas vezes eu tenha me angustiado ao temer por meus amigos que estavam nas ruas, especialmente diante das informações desencontradas que circulavam pela internet.
Infelizmente, não pude participar de forma mais ativa da “primavera brasileira” porque outra primavera me preocupava: a “primavera fascista” dos anos 1930, da qual minha monografia tratava. Não obstante, das poucas vezes em que estive presente, pude notar algumas ocorrências até então inéditas para mim. Uma delas era a hostilidade quase doentia a todos os manifestantes ligados a partidos. Segundo algumas correntes internas de manifestantes, ali não havia partido, de modo que só bandeiras nacionais deveriam ser permitidas. Outro fenômeno frequente eram as palavras de ordem contra as cotas e programas sociais do governo, além dos clamores por um grande salvador da pátria que pudesse retirá-la do mar de lama no qual ela se afogava. Em suma: sem partidos, sem divisões, a nação acima de tudo, a espera por um grande líder. Não foi sem estarrecimento que percebi que aquela primavera começava a se parecer cada vez mais com a primavera que eu estudava.
E assim caminhou o primeiro semestre desse ano de 2013: o fascista do direito, o neonazista da Savassi, os ultranacionalistas das manifestações e eu, às voltas com minha monografia, que deveria tratar do passado, mas dialogava cada vez mais com o presente.
Mas um dia a Copa das Confederações acabou, as manifestações arrefeceram e a normalidade foi restabelecida. Voltou a rotina, voltaram as mensagens de autoajuda no Facebook e voltaram os acontecimentos sangrentos nos jornais do fim da tarde. A Copa das Confederações acabara, mas a Libertadores não. E aqueles que usavam as redes sociais para vibrar com os gols do Galo eram muitas vezes os mesmos que tachavam de “alienados” os usuários que haviam comemorado os gols do Neymar e do Fred na seleção brasileira. As manifestações não cessaram por completo, elas só deixaram de ser o centro das atenções. Mesmo com o fim da "primavera brasileira", tivemos eventos como a concentração de pessoas em frente à casa de Cabral, no Rio, e as ocupações da Câmara Municipal e da Prefeitura de Belo Horizonte. A diferença é que agora os manifestantes voltaram a ser os "vagabundos" que sempre tinham sido antes de o "gigante" acordar. Acabaram-se as regalias. Acabou a bajulação da mídia e a simpatia da opinião pública, acabou o consentimento dos motoristas presos no engarrafamento dizendo que "aquilo tudo é por uma boa causa", acabou o pessoal acenando das janelas dos prédios em apoio aos manifestantes. Se os filhos da classe média saem às ruas para protestar contra a FIFA e a corrupção, tudo bem. Agora, protestar contra o despejo de famílias carentes e exigir a revisão dos contratos com as empresas transportadoras já é vandalismo. Mas agora não adianta mais reclamar. Ano que vem tem Copa do Mundo, e quem sabe aí os protestos de rua recuperam o seu glamour.
Pra começo de conversa, 2013 fechou um ciclo em minha vida, pois no último dia 9 de julho concluí minha graduação. Esse ciclo não começou em 2009, quando iniciei o curso de História, nem tampouco em 2007, quando comecei a minha longa e indecisa peregrinação pelo mundo acadêmico. Esse ciclo começou há exatos dez anos, no triste ano de 2003, quando ingressei no primeiro ano do ensino médio.
A verdade é que minha vida desde 2003 foi de incertezas: sempre soube mais ou menos qual caminho eu queria seguir, embora esse “mais ou menos” persistisse com a força de cem Hércules por todos esses anos. Passei nos dois vestibulares que tentei para dois cursos diferentes. Fiz um curso. Tranquei. Fiz o outro. Tranquei. Voltei ao primeiro. Tranquei novamente. Percebi que não era nada daquilo o que eu queria e prestei vestibular para História. Iniciei minha trajetória no curso em 2009, mas foi resolver uma indecisão para outra logo surgir: pra que área da História migrar? Foi a pergunta que me acompanhou ao longo de quase todo o curso. E só depois de defender minha monografia consegui me sentir seguro diante dela. Era a primeira vez, em dez anos, que eu podia afirmar, confiante, que eu sabia qual caminho queria trilhar.
Mas você sabe o que é escrever uma monografia? No meu caso, foi um exercício de intelecto e medo ao mesmo tempo. Em meu trabalho, dediquei-me a estudar a forma pela qual o Sr. Gustavo Barroso (importante liderança do integralismo brasileiro) analisava a ascensão do fascismo no mundo entre guerras. Ao longo de meus estudos, pude perceber que, para o dito autor, o fascismo seria o “espírito do século XX”, de modo que a ascensão do fascismo em diversas partes do mundo constituía, para ele, quase uma primavera, a ponto de ele proclamar: “nacionalistas de todos os países, uni-vos!”.
Pois bem. Alguns meses depois de começar a redigir meu trabalho, nossa cidade foi pega de surpresa pela divulgação de fotos de um trote na Faculdade de Direito da UFMG. Em uma delas, um aluno segurava uma caloura “fantasiada” de escrava com uma corrente presa ao seu pescoço. Em outra foto, três alunos faziam a saudação nazista enquanto um calouro estava amarrado a uma pilastra. Pra dizer a verdade, tais fotos não me chocaram tanto, até porque sempre soube que acontecem coisas bem piores em trotes de outras universidades e que, por isso mesmo, nem ao menos são fotografadas. Mas, aos poucos, diversos sites foram divulgando informações acerca de um dos alunos, apontando-o como membro de uma organização nacionalista de extrema-direita de inspiração fascista. Vi que o dito rapaz admirava Hitler, ridicularizava quem acreditava no Holocausto e até tecia elogios a importantes líderes fascistas, como Sir Oswald Mosley, líder fascista inglês. E eu, na minha santa ingenuidade, achando que Gustavo Barroso era uma figura caricata de uma espécie cujos principais exemplares haviam se esgotado nos anos 1930, fui obrigado a olhar para meu próprio trabalho de um modo diferente. A princípio, o que me motivou a escrever minha monografia foi ver o quanto o fascismo era louvado até mesmo no Brasil, em contraste com os dias de hoje, nos quais o termo “fascista” virou sinônimo de “truculento” e “repugnante”. Após o famigerado evento na vetusta casa, percebi que meu trabalho era bem mais atual do que eu julgava.
Os eventos da Faculdade de Direito foram uma bomba atômica sobre todos aqueles que haviam se acostumado a traçar uma fronteira entre a universidade e o resto da sociedade, associando esta à barbárie e aquela à civilização. De repente, todos percebemos, estupefatos, que os bárbaros estavam entre nós. Os bárbaros não eram os “vagabundos” sustentados pelo Bolsa Família, os “oportunistas” que ingressavam na universidade por meio de cotas nem os moradores de rua que nos assediavam pedindo esmolas. Os bárbaros haviam penetrado a “elite intelectual” do país e estavam ali mesmo, ao nosso lado, dentro dos muros da universidade, puxando calouros por correntes, prendendo seus colegas a pilastras e se orgulhando disso tudo. Roma havia caído e ninguém percebera!
Mas as coisas não pararam por aí. Pouco tempo depois dos trotes, veio à tona outra foto na internet: um skinhead neonazista enforcava um morador de rua em plena luz do dia na Praça da Savassi. “BH pirou!”, comentou um amigo de um amigo meu no Facebook. Foi isso mesmo o que pensei: BH pirou. Sempre achei que neonazistas fossem um fenômeno restrito ao estado de São Paulo e ao sul do país. Nunca tinha ouvido falar desses elementos por aqui. Fuçando pela internet, vi outras fotos de outros neonazistas de BH. Em uma delas, uma frase que me trespassou como uma estaca: “Belo Horizonte é fascista!”. Confesso que fiquei atordoado ao ler essa máxima. Consumiu-me, de súbito, um medo horrendo de que ela estivesse certa. E novamente eu olhava para minha monografia com um pé atrás, temendo pelas palavras que eu mesmo escrevia. Foi com profundo pesar que precisei admitir que a crença no “fascismo redentor” talvez não fosse mero passadismo. Pelo visto, os “ecos da Giovinezza” não haviam repercutido apenas no espaço, mas também no tempo.
Como fomos descobrir depois, o neonazista da Savassi conhecia o fascista do Direito, mas detestava-o. Chamava-o de “nazi-nerd”, ridicularizando-o por ser alheio à “realidade das ruas”. Aliás, acho que isso é inerente mesmo ao fascismo: uma arrogância tremenda que te faz desprezar tudo e todos que não são exatamente iguais a você, mesmo quando eles se esforçam por sê-lo. Voltemos nossos olhares ao Sr. Gustavo Barroso, sobre quem escrevi. Por maior admirador que ele fosse de Hitler e de sua política, não acho difícil visualizar um desfecho alternativo para a Segunda Guerra no qual tropas nazistas, após tomarem as colônias francesas e inglesas no Caribe, invadissem o Brasil desembarcando nos “verdes mares bravios” do Ceará, pisoteando o solo no qual o pobre integralista havia crescido.
E pra fechar com pompa o primeiro semestre desse estranho e curioso ano, no mês de junho nosso país foi sacudido por ondas de protestos de rua engrossados por aquela mesma juventude que todos acusavam de “acomodada”. A reação imediata da mídia foi desacreditar o movimento. Num segundo momento, quando viram que não ia ter jeito, decidiram aturá-lo. Por fim, criou-se um mantra repetido à exaustão em quase todos os telejornais na hora de noticiar as manifestações de rua. Segundo esse mantra, todo protesto começa pacífico, sem violência, democrático, lindo, maravilhoso, jubiloso, uma gracinha... até o momento em que uma minoria mascarada se infiltra e avacalha tudo. E eu, que já participava de manifestações de rua antes de ser modinha (i.e., antes de ser elogiado pela mídia), aos poucos fui me deparando com a curiosa cena de vários amigos no Facebook demonstrando todo o seu apoio às manifestações – aqueles mesmo amigos que me olhavam com desdém quando eu saía às ruas para protestar há anos atrás. Mas não posso fazer nada, não é? Se a mídia falou que os protestos são legítimos, então todo mundo protesta. Errado era eu de fazer isso antes de a mídia aprovar.
Acontece que aquelas pessoas que saíam às ruas não eram exatamente as mesmas que saíam antes de virar modinha. Havia muita gente nova, que nunca tinha estado ali. Aos poucos, começou a se falar em uma “primavera brasileira”. Meu Facebook nunca esteve tão esquizofrênico como naqueles dias: meus amigos de direita postavam mensagens alarmistas que davam como certo um terrível golpe comunista; meus amigos de esquerda arrancavam os cabelos de medo de um iminente golpe militar. Aliás, se existisse Facebook nos anos 1960, acho que ele estaria desse mesmo jeito na madrugada do dia 31 de março de 1964.
Não só esquizofrênico, o Facebook também estava estranho – tão estranho que quase não o reconheci. Por pelo menos duas semanas seguidas haviam desaparecido daquela rede social os homéricos quebra-paus entre torcedores rivais, as mais batidas mensagens de autoajuda, as fotos de baladas e de comida. Só se falava no “gigante acordado” que saía às ruas sedento por mudanças. Os telejornais do fim da tarde, acostumados a noticiar chacinas, estupros e tantas outras atrocidades, também mudaram: só se mostravam os protestos, nada mais. A sensação que tive naquelas duas semanas foi a de que o tempo estava suspenso, a normalidade fora cancelada. E eu não conseguia fazer nada direito; não conseguia terminar minha monografia, não me concentrava no trabalho e não conseguia sequer comer. Chegava em casa e ia direto para a internet acompanhar o caminhar dos protestos de rua. Com os olhos vidrados na televisão e no notebook, assistia ao desenrolar de todas aquelas passeatas sem acreditar direito que aquilo tudo era real. Foram dias eletrizantes, como eu raramente presenciara. Todas as noites eu ia dormir pilhado e custava a pegar no sono. Foram duas semanas quase mágicas para nosso país, embora não poucas vezes eu tenha me angustiado ao temer por meus amigos que estavam nas ruas, especialmente diante das informações desencontradas que circulavam pela internet.
Infelizmente, não pude participar de forma mais ativa da “primavera brasileira” porque outra primavera me preocupava: a “primavera fascista” dos anos 1930, da qual minha monografia tratava. Não obstante, das poucas vezes em que estive presente, pude notar algumas ocorrências até então inéditas para mim. Uma delas era a hostilidade quase doentia a todos os manifestantes ligados a partidos. Segundo algumas correntes internas de manifestantes, ali não havia partido, de modo que só bandeiras nacionais deveriam ser permitidas. Outro fenômeno frequente eram as palavras de ordem contra as cotas e programas sociais do governo, além dos clamores por um grande salvador da pátria que pudesse retirá-la do mar de lama no qual ela se afogava. Em suma: sem partidos, sem divisões, a nação acima de tudo, a espera por um grande líder. Não foi sem estarrecimento que percebi que aquela primavera começava a se parecer cada vez mais com a primavera que eu estudava.
E assim caminhou o primeiro semestre desse ano de 2013: o fascista do direito, o neonazista da Savassi, os ultranacionalistas das manifestações e eu, às voltas com minha monografia, que deveria tratar do passado, mas dialogava cada vez mais com o presente.
Mas um dia a Copa das Confederações acabou, as manifestações arrefeceram e a normalidade foi restabelecida. Voltou a rotina, voltaram as mensagens de autoajuda no Facebook e voltaram os acontecimentos sangrentos nos jornais do fim da tarde. A Copa das Confederações acabara, mas a Libertadores não. E aqueles que usavam as redes sociais para vibrar com os gols do Galo eram muitas vezes os mesmos que tachavam de “alienados” os usuários que haviam comemorado os gols do Neymar e do Fred na seleção brasileira. As manifestações não cessaram por completo, elas só deixaram de ser o centro das atenções. Mesmo com o fim da "primavera brasileira", tivemos eventos como a concentração de pessoas em frente à casa de Cabral, no Rio, e as ocupações da Câmara Municipal e da Prefeitura de Belo Horizonte. A diferença é que agora os manifestantes voltaram a ser os "vagabundos" que sempre tinham sido antes de o "gigante" acordar. Acabaram-se as regalias. Acabou a bajulação da mídia e a simpatia da opinião pública, acabou o consentimento dos motoristas presos no engarrafamento dizendo que "aquilo tudo é por uma boa causa", acabou o pessoal acenando das janelas dos prédios em apoio aos manifestantes. Se os filhos da classe média saem às ruas para protestar contra a FIFA e a corrupção, tudo bem. Agora, protestar contra o despejo de famílias carentes e exigir a revisão dos contratos com as empresas transportadoras já é vandalismo. Mas agora não adianta mais reclamar. Ano que vem tem Copa do Mundo, e quem sabe aí os protestos de rua recuperam o seu glamour.
quinta-feira, 18 de abril de 2013
A lenda das tribos do sol e da lua
Em um recôndito local do continente americano, habitavam vários índios em aldeamentos em meio à mata densa. Todos esses indígenas viviam em um estado latente de conflito que, de tempos em tempos, acabava se concretizando. Acontece que esses nativos estavam fortemente divididos entre as tribos que adoravam o sol e as tribos adoravam a lua, o que alimentava uma rivalidade cada vez mais acirrada entre ambos os lados. Os conflitos entre os adoradores do sol e os adoradores da lua irrompiam bruscamente sempre que um fenômeno natural recorrente era presenciado pelos indígenas: quando a lua saía e o sol surgia, os adoradores do sol entravam em êxtase, cantavam louvores ao seu astro e atiravam humilhantes zombarias aos adoradores da lua, caçoando da fraqueza de seu ídolo, que se retirara; entretanto, era só o sol sair e dar espaço à lua que os adoradores desta iniciavam sua marcha triunfante entre as aldeias e as florestas, cantando a supremacia de seu ídolo e atazanando os adoradores do sol.
Com isso, adoradores do sol e adoradores da lua nunca viviam em paz. O período que se seguia ao triunfo do sol era marcado, quase sempre, por festividades nas quais seus adoradores agradeciam ao seu astro pela bondade, pela misericórdia e pelas bonanças trazidas. O período posterior ao triunfo da lua presenciava rituais, danças e as mais diversas e alegres manifestações por parte de seus seguidores, que se embriagavam exaltando o seu deus. Cada um dos grupos nutria a esperança de que um dia seu ídolo despontaria no céu e por lá ficaria por toda a eternidade, sem jamais permitir o retorno do outro. Entretanto, isso nunca ocorria. O sonho de um sol eterno ou de uma lua eterna, por algum capricho do destino, nunca era concretizado, embora nossos nativos nunca perdessem a esperança de algum dia presenciá-lo.
Num belo dia, em uma das muitas aparições do sol, seus adoradores saíram cantando vivas e louvores ao astro, exaltando sua superioridade sobre a lua, cantando suas virtudes e expressando suas mais sinceras esperanças de que, dali por diante, o sol nunca mais morreria. Mas eis que estavam enganados: após algum tempo, o sol saiu, a lua entrou e seus adoradores, ainda guardando as mágoas recentes de sua humilhação, voltaram com todo o vapor à ativa e disseram que os adoradores do sol estavam enganados, pois, como bem se podia ver pelo céu, era a lua quem predominava. Os adoradores da lua triunfaram e vingaram-se esplendidamente dos adoradores do sol, cujas esperanças já estavam quase acabando... Até que novamente o sol saiu!
De imediato, os adoradores do sol que se prostravam no chão diante dos impropérios dos servos da lua se levantaram, deram vivas ao seu astro que voltava triunfante e contemplaram os seus inimigos se prostrando no chão novamente. Os adoradores da lua choravam, se angustiavam, imploravam pelo seu deus e juravam vingança contra os servos do sol tão logo a lua retornasse. O retorno da lua não tardou. Aos poucos o sol se retirou de cena, a lua se impôs e os seus discípulos deram vivas a ela, novamente submetendo os adoradores do sol a humilhantes provocações.
Os adoradores do sol juravam que a lua era inferior, maléfica, ameaçadora e digna de nunca mais ocupar o espaço celeste. Eles sentiam imenso prazer em sacrificar animais e até outros homens em honra ao sol, mas sempre se lamentavam após esses sacrifícios, pois sabiam que nunca tinham feito o suficiente para proporcionar ao sol aquilo que ele merecia. “Blasfêmia!”, diziam os adoradores da lua. A lua, para eles, era imensamente superior, sem sombra de dúvidas, e tal superioridade era tão evidente que nem demandava comparações.
Se o sol estava no céu, seus adoradores, cheios de certezas e orgulho, proclamavam que “Sim, o sol sempre foi o melhor, ele sempre sobrepujou a lua, e, ao fim e ao cabo, o sol sempre vence!”. Mas era só a lua chegar, espantando o sol, que os adoradores da lua dirigiam-se aos adoradores do sol: “Como têm coragem de cantar as glórias de um astro tão decrépito como o sol?! Foi só a lua surgir que ele humildemente lhe cedeu espaço, sem nem questionar! Longa vida à lua!”.
Até que um dia o sol não saiu, pois nuvens espessas e escuras encobriam o céu e impediam todos os habitantes das aldeias de enxergarem-no. Regozijaram-se os servos da lua: “Seu astro os abandonou! Graças ao meu amor à lua não preciso me curvar diante de um deus que se esconde de seus servos!”. A lua não estava no céu, mas seus fieis estavam radiantes: o sol fora vencido pelas nuvens! Seu contentamento era tão grande quanto o dos adoradores do sol quando, em uma noite escura, perceberam que a lua também não sairia, bloqueada que estava pelas mesmas nuvens. Foi a vez dos adoradores do sol novamente se regozijarem e cantarem louvores às nuvens, por terem derrotado a lua desprezível. Os adoradores da lua caçoavam dos adoradores do sol, acusando-os de adorarem justamente as mesmas nuvens que haviam bloqueado o sol. Mas os servos do sol eram surdos a tais chacotas, e diziam-se grandes admiradores das nuvens graças ao serviço por elas prestado. Mas após um tempo o céu clareou, o sol não veio, encoberto pelas nuvens, e novamente os adoradores do sol se humilharam, traídos pelas nuvens. Aos adoradores da lua restaram o júbilo, as alegrias e os cantos – não mais à lua, mas às nuvens.
Até que em um dado momento todos se preocuparam. Os adoradores do sol começaram a fazer grandes fogueiras, pois acreditavam que assim atrairiam o sol de volta, no que foram copiados pelos adoradores da lua. A fogueira em prol do sol crescia muito, mas sempre era ultrapassada pela fogueira em homenagem à lua. A disputa entre as duas fogueiras se tornou crucial: quem fizesse a maior fogueira conquistaria seu deus de volta. Teve início uma ânsia desenfreada por se fazerem fogueiras altas, largas, vistosas e luminosas. Tudo o que havia para se lançar na fogueira para aumentar o fogo era lançado. E assim as fogueiras cresciam a olhos vistos, dia após dia.
As nuvens que encobriam o céu aos poucos iam saindo, mas os bravos indígenas não se davam conta: a fumaça de suas monstruosas fogueiras ia subindo e encobrindo o sol e a lua, deixando seus servos cada vez mais angustiados. Os adoradores do sol subiram no monte mais alto que encontraram para tentar puxar o sol de volta de onde ele havia se escondido, mas sem sucesso. Gritaram, por muito tempo gritaram, mas o sol não respondeu. Por fim, atiraram flechas contra o sol para se vingarem de sua desfeita, gritando-lhe impropérios e acusando-o de traidor.
Os adoradores da lua se riram quando seus rivais desceram do monte, ridicularizando sua situação. Porém, quando questionados “E onde está sua lua?!”, não tiveram uma boa resposta. Organizaram apenas uma expedição a outro monte, de onde tentaram – primeiro de forma humilde, depois insistente e por fim enfurecida – convencer a lua a reaparecer. Tudo em vão. A lua não lhes respondeu e eles desceram à terra igualmente frustrados, sob a zombaria dos adoradores do sol. Enquanto isso, as fogueiras ardiam sem cessar, cada vez mais, cada dia mais forte.
O sol não mais apareceu. A lua tampouco. Os adoradores do primeiro juraram que ele estava embrenhado em uma luta de morte contra a lua, e que retornaria após vencê-la. Os adoradores da lua retrucavam, dizendo que a lua estava seduzindo o sol para depois lança-lo em uma armadilha. Esperaram pacientemente, e nenhum dos deuses ressurgiu das nuvens espessas. O tempo passou, e a paciência de nossos leais índios também. Não demorou a surgirem acusações de que a lua era a culpada pelas nuvens, e de que ela havia se valido da energia de seus muitos servos para dominar o céu e tornar tudo obscuro. Mas também se acusava o sol de ter se valido dos sacrifícios de seus servos para cegar a todos os nativos, até o ponto em que eles não mais conseguiam ver ninguém, sol ou lua. “É mentira!”, diziam os servos do sol. “É a pura verdade!”, redarguiam os adoradores da lua.
As fogueiras se alastraram: queimaram árvores, plantações, malocas, animais e pessoas. Poucos escaparam do incêndio, e aqueles que o fizeram, fugiram para bem longe dali. Sem ninguém para alimentá-lo, o fogo cessou, as nuvens lentamente se desfizeram e o sol e a lua voltaram: brilhantes como nunca, indiferentes como nunca a tudo o que acontecia lá embaixo.
Com isso, adoradores do sol e adoradores da lua nunca viviam em paz. O período que se seguia ao triunfo do sol era marcado, quase sempre, por festividades nas quais seus adoradores agradeciam ao seu astro pela bondade, pela misericórdia e pelas bonanças trazidas. O período posterior ao triunfo da lua presenciava rituais, danças e as mais diversas e alegres manifestações por parte de seus seguidores, que se embriagavam exaltando o seu deus. Cada um dos grupos nutria a esperança de que um dia seu ídolo despontaria no céu e por lá ficaria por toda a eternidade, sem jamais permitir o retorno do outro. Entretanto, isso nunca ocorria. O sonho de um sol eterno ou de uma lua eterna, por algum capricho do destino, nunca era concretizado, embora nossos nativos nunca perdessem a esperança de algum dia presenciá-lo.
Num belo dia, em uma das muitas aparições do sol, seus adoradores saíram cantando vivas e louvores ao astro, exaltando sua superioridade sobre a lua, cantando suas virtudes e expressando suas mais sinceras esperanças de que, dali por diante, o sol nunca mais morreria. Mas eis que estavam enganados: após algum tempo, o sol saiu, a lua entrou e seus adoradores, ainda guardando as mágoas recentes de sua humilhação, voltaram com todo o vapor à ativa e disseram que os adoradores do sol estavam enganados, pois, como bem se podia ver pelo céu, era a lua quem predominava. Os adoradores da lua triunfaram e vingaram-se esplendidamente dos adoradores do sol, cujas esperanças já estavam quase acabando... Até que novamente o sol saiu!
De imediato, os adoradores do sol que se prostravam no chão diante dos impropérios dos servos da lua se levantaram, deram vivas ao seu astro que voltava triunfante e contemplaram os seus inimigos se prostrando no chão novamente. Os adoradores da lua choravam, se angustiavam, imploravam pelo seu deus e juravam vingança contra os servos do sol tão logo a lua retornasse. O retorno da lua não tardou. Aos poucos o sol se retirou de cena, a lua se impôs e os seus discípulos deram vivas a ela, novamente submetendo os adoradores do sol a humilhantes provocações.
Os adoradores do sol juravam que a lua era inferior, maléfica, ameaçadora e digna de nunca mais ocupar o espaço celeste. Eles sentiam imenso prazer em sacrificar animais e até outros homens em honra ao sol, mas sempre se lamentavam após esses sacrifícios, pois sabiam que nunca tinham feito o suficiente para proporcionar ao sol aquilo que ele merecia. “Blasfêmia!”, diziam os adoradores da lua. A lua, para eles, era imensamente superior, sem sombra de dúvidas, e tal superioridade era tão evidente que nem demandava comparações.
Se o sol estava no céu, seus adoradores, cheios de certezas e orgulho, proclamavam que “Sim, o sol sempre foi o melhor, ele sempre sobrepujou a lua, e, ao fim e ao cabo, o sol sempre vence!”. Mas era só a lua chegar, espantando o sol, que os adoradores da lua dirigiam-se aos adoradores do sol: “Como têm coragem de cantar as glórias de um astro tão decrépito como o sol?! Foi só a lua surgir que ele humildemente lhe cedeu espaço, sem nem questionar! Longa vida à lua!”.
Até que um dia o sol não saiu, pois nuvens espessas e escuras encobriam o céu e impediam todos os habitantes das aldeias de enxergarem-no. Regozijaram-se os servos da lua: “Seu astro os abandonou! Graças ao meu amor à lua não preciso me curvar diante de um deus que se esconde de seus servos!”. A lua não estava no céu, mas seus fieis estavam radiantes: o sol fora vencido pelas nuvens! Seu contentamento era tão grande quanto o dos adoradores do sol quando, em uma noite escura, perceberam que a lua também não sairia, bloqueada que estava pelas mesmas nuvens. Foi a vez dos adoradores do sol novamente se regozijarem e cantarem louvores às nuvens, por terem derrotado a lua desprezível. Os adoradores da lua caçoavam dos adoradores do sol, acusando-os de adorarem justamente as mesmas nuvens que haviam bloqueado o sol. Mas os servos do sol eram surdos a tais chacotas, e diziam-se grandes admiradores das nuvens graças ao serviço por elas prestado. Mas após um tempo o céu clareou, o sol não veio, encoberto pelas nuvens, e novamente os adoradores do sol se humilharam, traídos pelas nuvens. Aos adoradores da lua restaram o júbilo, as alegrias e os cantos – não mais à lua, mas às nuvens.
Até que em um dado momento todos se preocuparam. Os adoradores do sol começaram a fazer grandes fogueiras, pois acreditavam que assim atrairiam o sol de volta, no que foram copiados pelos adoradores da lua. A fogueira em prol do sol crescia muito, mas sempre era ultrapassada pela fogueira em homenagem à lua. A disputa entre as duas fogueiras se tornou crucial: quem fizesse a maior fogueira conquistaria seu deus de volta. Teve início uma ânsia desenfreada por se fazerem fogueiras altas, largas, vistosas e luminosas. Tudo o que havia para se lançar na fogueira para aumentar o fogo era lançado. E assim as fogueiras cresciam a olhos vistos, dia após dia.
As nuvens que encobriam o céu aos poucos iam saindo, mas os bravos indígenas não se davam conta: a fumaça de suas monstruosas fogueiras ia subindo e encobrindo o sol e a lua, deixando seus servos cada vez mais angustiados. Os adoradores do sol subiram no monte mais alto que encontraram para tentar puxar o sol de volta de onde ele havia se escondido, mas sem sucesso. Gritaram, por muito tempo gritaram, mas o sol não respondeu. Por fim, atiraram flechas contra o sol para se vingarem de sua desfeita, gritando-lhe impropérios e acusando-o de traidor.
Os adoradores da lua se riram quando seus rivais desceram do monte, ridicularizando sua situação. Porém, quando questionados “E onde está sua lua?!”, não tiveram uma boa resposta. Organizaram apenas uma expedição a outro monte, de onde tentaram – primeiro de forma humilde, depois insistente e por fim enfurecida – convencer a lua a reaparecer. Tudo em vão. A lua não lhes respondeu e eles desceram à terra igualmente frustrados, sob a zombaria dos adoradores do sol. Enquanto isso, as fogueiras ardiam sem cessar, cada vez mais, cada dia mais forte.
O sol não mais apareceu. A lua tampouco. Os adoradores do primeiro juraram que ele estava embrenhado em uma luta de morte contra a lua, e que retornaria após vencê-la. Os adoradores da lua retrucavam, dizendo que a lua estava seduzindo o sol para depois lança-lo em uma armadilha. Esperaram pacientemente, e nenhum dos deuses ressurgiu das nuvens espessas. O tempo passou, e a paciência de nossos leais índios também. Não demorou a surgirem acusações de que a lua era a culpada pelas nuvens, e de que ela havia se valido da energia de seus muitos servos para dominar o céu e tornar tudo obscuro. Mas também se acusava o sol de ter se valido dos sacrifícios de seus servos para cegar a todos os nativos, até o ponto em que eles não mais conseguiam ver ninguém, sol ou lua. “É mentira!”, diziam os servos do sol. “É a pura verdade!”, redarguiam os adoradores da lua.
As fogueiras se alastraram: queimaram árvores, plantações, malocas, animais e pessoas. Poucos escaparam do incêndio, e aqueles que o fizeram, fugiram para bem longe dali. Sem ninguém para alimentá-lo, o fogo cessou, as nuvens lentamente se desfizeram e o sol e a lua voltaram: brilhantes como nunca, indiferentes como nunca a tudo o que acontecia lá embaixo.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Páginas de combate - parte II
O constrangedor evento que protagonizei em presença de alguns estudantes malásios, narrado no meu último texto (Páginas de combate, parte 1), é mera ilustração de algo que se vê naquele país com uma frequência incômoda: uma ingênua hipocrisia que chega a beirar as raias do descalabro. Sempre desconfie de estudantes da Malásia que se dizem flexíveis e com mente aberta para todos os temas, pois todas aquelas mentes se fecham mais rápido do que um esfíncter tão logo entram em contato com a palavra “sexo”. Desconfie mais ainda quando eles (os malásios, estudantes ou não, quem quer que seja) vierem te importunar com uma conversa marrenta sobre “diferentes raças vivendo em harmonia num mesmo país”.
Historicamente, os territórios que posteriormente comporiam a Malásia foram ocupados por basicamente três grupos étnicos: os malaios, naturais da região e culturalmente próximos dos indonésios; os indianos, responsáveis por introduzir o islamismo no país e, mais tarde, importante força de trabalho na extração de látex ao longo do começo do século XX; e os chineses, que desde tempos imemoriais eram assíduos comerciantes naquela região.
A propaganda oficial veiculada pelo governo – e comprada em massa por grande parte da opinião pública – é a de que a Malásia é uma réplica da ONU, onde diferentes raças convivem pacificamente e amigavelmente em um mesmo território. O orgulho que eles possuem de ser um país multirracial é tão grande que não raras vezes eu fui surpreendido com perguntas do tipo: “por que o Ronaldinho Gaúcho é negro e você é branco?”, ou ainda “por que você não tem cabelo encaracolado como os demais brasileiros?”. Ou seja: na cabeça de um malásio, todos os países do mundo são monorraciais, menos eles mesmos. Por isso acho que ficam em choque ao saber que têm países no mundo formados, como eles, por mais de uma etnia. Sempre busquei explicar, portanto, que o Brasil tinha sido constituído, assim como a Malásia, por três “raças” (europeus, índios e africanos), a fim de esclarecê-los sobre os motivos de eu ser tão diferente daqueles jogadores brasileiros que eles viam no futebol europeu.
A questão é que, diferente do Brasil, na Malásia a miscigenação não foi a regra. Somente nos últimos anos têm sido mais frequentes os casamentos inter-raciais, e não podia ser diferente. Por mais que o governo insista à exaustão em vender a imagem de um país no qual indianos, chineses e malaios (ou, se preferirem, cristãos, muçulmanos, hindus e budistas) vivem na mais completa paz, é só você ter uma pequena conversa em particular com um chinês para ele lhe dizer o quanto odeia os malaios. Ou então com um indiano, pra que ele lhe diga o quanto odeia os chineses. E por aí vai. Lá, temos um exemplo clássico de racismo institucionalizado. Os malaios, por serem maioria e deterem o poder político, gozam de uma série de privilégios: têm cotas nas universidades, acesso mais fácil a cargos públicos e preços mais baixos na hora de comprar terrenos. Os chineses são o segundo grupo étnico mais numeroso e, embora tenham menos influência política, são relativamente mais prósperos economicamente. Por fim, os indianos são a minoria da população, não gozando de poder político nem econômico significativos. Lembro-me bem de quando contei a dois indianos que eu queria estudar para ser diplomata, e eles responderam rindo, dizendo que eles, como indianos na Malásia, jamais poderiam sonhar com isso, pois tais cargos eram reservados só para os malaios.
O resultado desse estado de coisas é um diz-que-me-diz de proporções astronômicas, no qual chineses e indianos acusam malaios de serem preguiçosos porque já têm tudo na mão, chineses zombam de indianos por serem sujos, pobres e escuros (juro que já ouvi isso) e indianos acusam chineses de serem interesseiros e materialistas, só pensando no dinheiro. Esse show de baixarias não acontece em público, visto que todo malásio aparentemente nasce educado a não falar na cara esse tipo de coisa. Quando os estrangeiros como eu chegam é que eles aproveitam para abrir o berreiro. Um amigo chinês me disse uma vez que os malaios são o grande problema do país, e um outro, também chinês, afirmou com segurança que os malaios e indianos têm inveja dos chineses porque eles têm pele branca. Isso sem falar num outro amigo meu, chinês evangélico, que havia me passado o ICQ (lembrem-se que meu intercâmbio foi em 2004-2005!) de vários colegas dele e me assegurado que eu não precisava me preocupar porque todas aquelas pessoas que ele havia me apresentado eram cristãs. Parece que os atritos étnicos e religiosos são tão grandes que eles automaticamente assumem que os estrangeiros que aportam no país estão dispostos a participar deles.
Sendo assim, se um dia estiver na Malásia e vierem te dizer que lá todas as raças convivem em harmonia, faça como se estivesse conversando com um homem que se diz Napoleão: apenas incline a cabeça e concorde com tudo. Não há motivos para discutir porque, nesse ponto, eles nunca dão o braço a torcer. Acho que o sonho dos potentados locais é que Gilberto Freyre nasça malaio na próxima encarnação. Para todo espírito que resolver questionar a democracia racial na Malásia sempre existirá um malásio para dizer: “we are Malaysians; we are open-minded”. E eu já experimentei na pele o que significa ser mente aberta na terra das Petronas (vide minha experiência com os estudantes descolados).
Como todo brasileiro, não fui poupado das perguntas sobre futebol – assunto que eu nunca dominei com maestria, tanto no falar como no jogar (e naquela época menos ainda). Tudo o que se sabe na Malásia sobre o Brasil é que muitos jogadores daqui jogavam em clubes europeus. Parece que eles imaginam o Brasil como uma grande linha de montagem de jogadores de futebol destinados à exportação, e que todos os brasileiros, mesmo os que não eram exportados, eram exímios jogadores de futebol. Os malásios, de fato, amam futebol, e acompanham com fervor o campeonato inglês. Para eles, a Inglaterra é a grande referência no futebol mundial. Por isso frequentemente alguns colegas de escola me perguntavam por que jogadores consagrados como Ronaldo e Ronaldinho não atuavam no futebol inglês (pergunta essa que nunca consegui responder com muita segurança). Perguntavam-me também se eu conhecia algum jogador de futebol brasileiro, se eu já os havia visto jogar ao vivo ou se eu falava a mesma língua que eles. Isso sem mencionar as vezes em que me perguntaram por que o Brasil não estava participando da Euro-2004.
Outra visão interessante que alguns malásios tinham do Brasil acabou me pegando desprevenido. Por muito tempo o Brasil foi conhecido como o “celeiro do mundo”. Na Malásia, porém, ele é hoje conhecido não só como o “estádio do mundo”, como já vimos, mas também como a “boate do mundo”. Uma ou outra vez, quando notou meu jeito mais reservado e quieto de ser, alguém se surpreendeu, alegando pensar que os brasileiros eram pessoas felizes, animadas e festeiras. Também nunca tive uma boa resposta para essas perguntas, embora hoje eu pudesse pensar em milhares de boas respostas. Eu poderia responder: “eu também pensava que a Malásia era um país muçulmano onde todos se voltavam para Meca cinco vezes ao dia, mas cheguei aqui e vi igrejas evangélicas e Mcdonalds”; ou então “eu também pensava que na Malásia todas as raças viviam em paz, como vocês mesmos dizem”; ou ainda “o Brasil tem 180 milhões de habitantes; se cada um desses 180 milhões de habitantes fosse festeiro como você diz, nosso país seria uma eterna micareta”. No entanto, boas respostas como essas nunca me vieram à mente no momento oportuno.
Estádios e mesquitas! Enquanto meus colegas de sala se interessavam por futebol, eu me interessava pelo islamismo. Eles me perguntavam sobre a seleção brasileira, sobre o desempenho dos jogadores brasileiros na Europa, sobre minha opinião acerca da Premier League, e eu lhes perguntava sobre as mesquitas, sobre a vigência da lei islâmica no país (a sharia) e sobre a laicidade ou não do Estado na Malásia. No final das contas, nem eu nem eles tínhamos respostas satisfatórias uns para os outros. É duro fazer intercâmbio em um mundo globalizado!
Em relação à escola, os estudantes da Malásia escolhem, a partir do penúltimo ano, o rumo que querem tomar: ciências exatas ou humanidades. Dependendo do lado para o qual você quer se encaminhar, muda a grade curricular. A princípio fiquei na turma de humanidades. Contudo, na Malásia quem escolhe a área de humanas não costuma ser bem visto pela sociedade. Quando eu perguntava às pessoas sobre a possibilidade de escolherem esse rumo, sempre me respondiam: “Mas... se você for pra área de humanas o máximo que você conseguirá na vida é ser um advogado”. Perdi as contas de quantas vezes escutei essa resposta inusitada. Sendo assim, as turmas de humanas eram maculadas em toda a escola, ganhando a fama de serem os maiores redutos de baderneiros e marginais. Como eu não iria me formar naquela escola – e como sempre tive um ódio mortal pelas ciências exatas – escolhi ficar na turma de humanas mesmo, até porque a carga horária lá era menor e eles saíam mais cedo.
Depois de um tempo, temendo pela minha segurança, a dona da casa na qual me hospedei intercedeu junto à escola para que eu mudasse para a turma das exatas, onde a gente supostamente era mais ordeira. Concordei, pois para mim pouca diferença havia. Interessei-me especialmente pelos livros didáticos de história. Um colega meu, conhecido por todos como um comunista convicto, me apontou uma série de incongruências neles. Ele disse que havia duas figuras míticas na história malaia – Hang Tuah e Hang Jebat, se bem me lembro – que figuravam nesses livros como personagens reais. Folheando os livros, vi também a figura de Mat Salleh, um grande nacionalista malaio conhecido pela sua profunda xenofobia (tanto que, ironicamente, a expressão Mat Salleh é uma forma coloquial e até pejorativa de se chamar os estrangeiros na Malásia, assim como “gringo” no Brasil). Pode ter sido falta de atenção minha, mas os livros didáticos pareciam tratar muito pouco da história europeia e de eventos como a Revolução Industrial ou a Revolução Francesa. Mesmo a Idade Média europeia era ignorada, prevalecendo o estudo do islamismo e da cultura árabe. Além disso, à medida que as séries iam avançando, o estudo de história se fechava mais na história da Malásia, ao invés de se expandir para a história geral.
Conheci muita gente na escola, embora não mantenha contato frequente e regular com nenhum em especial. Uma das pessoas que me vêm à mente agora, além daquelas já citadas no primeiro texto, foi um rapaz chinês com o qual conversava vez ou outra, mas que com o tempo fui conhecendo melhor. Quando já estava mais íntimo dele, descobri que tinha uma penca de problemas familiares, sofria de baixa autoestima e era muito zombado pelos colegas de sala. Disse-me ele que queria muito conhecer uma mulher e se casar, mas que se achava feio e que nenhuma mulher olhava pra ele. E foi numa dessas conversas sobre mulheres que ele me confessou que lá no fundo sentia raiva de pessoas como eu, que atraem os olhares femininos. Respondi que não sabia sobre o que ele estava falando, visto que em toda a minha vida eu nunca havia sequer beijado alguém. Então ele me disse que quando saíamos, muitas meninas olhavam pra mim, ao que respondi que isso era natural, já que eu, como estrangeiro, era fisicamente diferente dos demais. Foi aí que ele se empolgou e me perguntou se caso ele viesse para o Brasil, as meninas também o olhariam assim. Não soube o que responder, pra variar. Apenas disse a ele pra ter calma, que ele iria achar alguém logo.
Esse é só mais um exemplo do que eu já escrevi. Quem leu o primeiro texto sobre minha experiência na Malásia sabe bem de meus infortúnios na hora de fazer amizades naquele país. E caso você tenha acompanhado minhas confissões de Augsburg, entenderá que essa é uma das principais razões pelas quais resolvi passar meu intercâmbio na Europa recluso. Não queria adicionar à minha coleção mais tipos exóticos. De gente estranha na minha vida já basta eu.
Historicamente, os territórios que posteriormente comporiam a Malásia foram ocupados por basicamente três grupos étnicos: os malaios, naturais da região e culturalmente próximos dos indonésios; os indianos, responsáveis por introduzir o islamismo no país e, mais tarde, importante força de trabalho na extração de látex ao longo do começo do século XX; e os chineses, que desde tempos imemoriais eram assíduos comerciantes naquela região.
A propaganda oficial veiculada pelo governo – e comprada em massa por grande parte da opinião pública – é a de que a Malásia é uma réplica da ONU, onde diferentes raças convivem pacificamente e amigavelmente em um mesmo território. O orgulho que eles possuem de ser um país multirracial é tão grande que não raras vezes eu fui surpreendido com perguntas do tipo: “por que o Ronaldinho Gaúcho é negro e você é branco?”, ou ainda “por que você não tem cabelo encaracolado como os demais brasileiros?”. Ou seja: na cabeça de um malásio, todos os países do mundo são monorraciais, menos eles mesmos. Por isso acho que ficam em choque ao saber que têm países no mundo formados, como eles, por mais de uma etnia. Sempre busquei explicar, portanto, que o Brasil tinha sido constituído, assim como a Malásia, por três “raças” (europeus, índios e africanos), a fim de esclarecê-los sobre os motivos de eu ser tão diferente daqueles jogadores brasileiros que eles viam no futebol europeu.
A questão é que, diferente do Brasil, na Malásia a miscigenação não foi a regra. Somente nos últimos anos têm sido mais frequentes os casamentos inter-raciais, e não podia ser diferente. Por mais que o governo insista à exaustão em vender a imagem de um país no qual indianos, chineses e malaios (ou, se preferirem, cristãos, muçulmanos, hindus e budistas) vivem na mais completa paz, é só você ter uma pequena conversa em particular com um chinês para ele lhe dizer o quanto odeia os malaios. Ou então com um indiano, pra que ele lhe diga o quanto odeia os chineses. E por aí vai. Lá, temos um exemplo clássico de racismo institucionalizado. Os malaios, por serem maioria e deterem o poder político, gozam de uma série de privilégios: têm cotas nas universidades, acesso mais fácil a cargos públicos e preços mais baixos na hora de comprar terrenos. Os chineses são o segundo grupo étnico mais numeroso e, embora tenham menos influência política, são relativamente mais prósperos economicamente. Por fim, os indianos são a minoria da população, não gozando de poder político nem econômico significativos. Lembro-me bem de quando contei a dois indianos que eu queria estudar para ser diplomata, e eles responderam rindo, dizendo que eles, como indianos na Malásia, jamais poderiam sonhar com isso, pois tais cargos eram reservados só para os malaios.
O resultado desse estado de coisas é um diz-que-me-diz de proporções astronômicas, no qual chineses e indianos acusam malaios de serem preguiçosos porque já têm tudo na mão, chineses zombam de indianos por serem sujos, pobres e escuros (juro que já ouvi isso) e indianos acusam chineses de serem interesseiros e materialistas, só pensando no dinheiro. Esse show de baixarias não acontece em público, visto que todo malásio aparentemente nasce educado a não falar na cara esse tipo de coisa. Quando os estrangeiros como eu chegam é que eles aproveitam para abrir o berreiro. Um amigo chinês me disse uma vez que os malaios são o grande problema do país, e um outro, também chinês, afirmou com segurança que os malaios e indianos têm inveja dos chineses porque eles têm pele branca. Isso sem falar num outro amigo meu, chinês evangélico, que havia me passado o ICQ (lembrem-se que meu intercâmbio foi em 2004-2005!) de vários colegas dele e me assegurado que eu não precisava me preocupar porque todas aquelas pessoas que ele havia me apresentado eram cristãs. Parece que os atritos étnicos e religiosos são tão grandes que eles automaticamente assumem que os estrangeiros que aportam no país estão dispostos a participar deles.
Sendo assim, se um dia estiver na Malásia e vierem te dizer que lá todas as raças convivem em harmonia, faça como se estivesse conversando com um homem que se diz Napoleão: apenas incline a cabeça e concorde com tudo. Não há motivos para discutir porque, nesse ponto, eles nunca dão o braço a torcer. Acho que o sonho dos potentados locais é que Gilberto Freyre nasça malaio na próxima encarnação. Para todo espírito que resolver questionar a democracia racial na Malásia sempre existirá um malásio para dizer: “we are Malaysians; we are open-minded”. E eu já experimentei na pele o que significa ser mente aberta na terra das Petronas (vide minha experiência com os estudantes descolados).
Como todo brasileiro, não fui poupado das perguntas sobre futebol – assunto que eu nunca dominei com maestria, tanto no falar como no jogar (e naquela época menos ainda). Tudo o que se sabe na Malásia sobre o Brasil é que muitos jogadores daqui jogavam em clubes europeus. Parece que eles imaginam o Brasil como uma grande linha de montagem de jogadores de futebol destinados à exportação, e que todos os brasileiros, mesmo os que não eram exportados, eram exímios jogadores de futebol. Os malásios, de fato, amam futebol, e acompanham com fervor o campeonato inglês. Para eles, a Inglaterra é a grande referência no futebol mundial. Por isso frequentemente alguns colegas de escola me perguntavam por que jogadores consagrados como Ronaldo e Ronaldinho não atuavam no futebol inglês (pergunta essa que nunca consegui responder com muita segurança). Perguntavam-me também se eu conhecia algum jogador de futebol brasileiro, se eu já os havia visto jogar ao vivo ou se eu falava a mesma língua que eles. Isso sem mencionar as vezes em que me perguntaram por que o Brasil não estava participando da Euro-2004.
Outra visão interessante que alguns malásios tinham do Brasil acabou me pegando desprevenido. Por muito tempo o Brasil foi conhecido como o “celeiro do mundo”. Na Malásia, porém, ele é hoje conhecido não só como o “estádio do mundo”, como já vimos, mas também como a “boate do mundo”. Uma ou outra vez, quando notou meu jeito mais reservado e quieto de ser, alguém se surpreendeu, alegando pensar que os brasileiros eram pessoas felizes, animadas e festeiras. Também nunca tive uma boa resposta para essas perguntas, embora hoje eu pudesse pensar em milhares de boas respostas. Eu poderia responder: “eu também pensava que a Malásia era um país muçulmano onde todos se voltavam para Meca cinco vezes ao dia, mas cheguei aqui e vi igrejas evangélicas e Mcdonalds”; ou então “eu também pensava que na Malásia todas as raças viviam em paz, como vocês mesmos dizem”; ou ainda “o Brasil tem 180 milhões de habitantes; se cada um desses 180 milhões de habitantes fosse festeiro como você diz, nosso país seria uma eterna micareta”. No entanto, boas respostas como essas nunca me vieram à mente no momento oportuno.
Estádios e mesquitas! Enquanto meus colegas de sala se interessavam por futebol, eu me interessava pelo islamismo. Eles me perguntavam sobre a seleção brasileira, sobre o desempenho dos jogadores brasileiros na Europa, sobre minha opinião acerca da Premier League, e eu lhes perguntava sobre as mesquitas, sobre a vigência da lei islâmica no país (a sharia) e sobre a laicidade ou não do Estado na Malásia. No final das contas, nem eu nem eles tínhamos respostas satisfatórias uns para os outros. É duro fazer intercâmbio em um mundo globalizado!
Em relação à escola, os estudantes da Malásia escolhem, a partir do penúltimo ano, o rumo que querem tomar: ciências exatas ou humanidades. Dependendo do lado para o qual você quer se encaminhar, muda a grade curricular. A princípio fiquei na turma de humanidades. Contudo, na Malásia quem escolhe a área de humanas não costuma ser bem visto pela sociedade. Quando eu perguntava às pessoas sobre a possibilidade de escolherem esse rumo, sempre me respondiam: “Mas... se você for pra área de humanas o máximo que você conseguirá na vida é ser um advogado”. Perdi as contas de quantas vezes escutei essa resposta inusitada. Sendo assim, as turmas de humanas eram maculadas em toda a escola, ganhando a fama de serem os maiores redutos de baderneiros e marginais. Como eu não iria me formar naquela escola – e como sempre tive um ódio mortal pelas ciências exatas – escolhi ficar na turma de humanas mesmo, até porque a carga horária lá era menor e eles saíam mais cedo.
Depois de um tempo, temendo pela minha segurança, a dona da casa na qual me hospedei intercedeu junto à escola para que eu mudasse para a turma das exatas, onde a gente supostamente era mais ordeira. Concordei, pois para mim pouca diferença havia. Interessei-me especialmente pelos livros didáticos de história. Um colega meu, conhecido por todos como um comunista convicto, me apontou uma série de incongruências neles. Ele disse que havia duas figuras míticas na história malaia – Hang Tuah e Hang Jebat, se bem me lembro – que figuravam nesses livros como personagens reais. Folheando os livros, vi também a figura de Mat Salleh, um grande nacionalista malaio conhecido pela sua profunda xenofobia (tanto que, ironicamente, a expressão Mat Salleh é uma forma coloquial e até pejorativa de se chamar os estrangeiros na Malásia, assim como “gringo” no Brasil). Pode ter sido falta de atenção minha, mas os livros didáticos pareciam tratar muito pouco da história europeia e de eventos como a Revolução Industrial ou a Revolução Francesa. Mesmo a Idade Média europeia era ignorada, prevalecendo o estudo do islamismo e da cultura árabe. Além disso, à medida que as séries iam avançando, o estudo de história se fechava mais na história da Malásia, ao invés de se expandir para a história geral.
Conheci muita gente na escola, embora não mantenha contato frequente e regular com nenhum em especial. Uma das pessoas que me vêm à mente agora, além daquelas já citadas no primeiro texto, foi um rapaz chinês com o qual conversava vez ou outra, mas que com o tempo fui conhecendo melhor. Quando já estava mais íntimo dele, descobri que tinha uma penca de problemas familiares, sofria de baixa autoestima e era muito zombado pelos colegas de sala. Disse-me ele que queria muito conhecer uma mulher e se casar, mas que se achava feio e que nenhuma mulher olhava pra ele. E foi numa dessas conversas sobre mulheres que ele me confessou que lá no fundo sentia raiva de pessoas como eu, que atraem os olhares femininos. Respondi que não sabia sobre o que ele estava falando, visto que em toda a minha vida eu nunca havia sequer beijado alguém. Então ele me disse que quando saíamos, muitas meninas olhavam pra mim, ao que respondi que isso era natural, já que eu, como estrangeiro, era fisicamente diferente dos demais. Foi aí que ele se empolgou e me perguntou se caso ele viesse para o Brasil, as meninas também o olhariam assim. Não soube o que responder, pra variar. Apenas disse a ele pra ter calma, que ele iria achar alguém logo.
Esse é só mais um exemplo do que eu já escrevi. Quem leu o primeiro texto sobre minha experiência na Malásia sabe bem de meus infortúnios na hora de fazer amizades naquele país. E caso você tenha acompanhado minhas confissões de Augsburg, entenderá que essa é uma das principais razões pelas quais resolvi passar meu intercâmbio na Europa recluso. Não queria adicionar à minha coleção mais tipos exóticos. De gente estranha na minha vida já basta eu.
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