No sábado retrasado faleceu Rubem Alves, um dos grandes e mais respeitados escritores brasileiros. Apesar de ser seu sobrinho-neto, confesso que tenho pouca intimidade com as obras dele. O que conheço de seu pensamento vem da leitura que fiz de seus artigos e das palestras e entrevistas às quais assisti, especialmente sobre educação. Sempre me admirei de suas propostas para a educação. Suas opiniões nesse assunto sempre me pareceram muito válidas e coerentes. Coincidência ou não, estudei minha vida inteira em uma escola alternativa, daquelas que seguem os modelos de Piaget e Paulo Freire, muito em sintonia com as propostas que o próprio Rubem fazia.
Graças a isso, cresci sem saber direito o que era o “modelo tradicional” de escola que ele e os professores de minha escola tanto criticavam. Passei minha infância e adolescência inteira ouvindo que a escola deve ser um lugar que desperta o senso crítico, que o aluno deve ser sujeito do aprendizado, que o professor deve auxiliar o aluno a chegar ao conhecimento por conta própria e que a escola deve preparar para a vida, e não para o vestibular. Acho que isso explica o tremendo enfado com que sempre aturei as aulas da licenciatura nos dois últimos semestres. As matérias da FaE (Faculdade de Educação) nunca foram para mim nada mais do que um interminável e insuportável repeteco de tudo aquilo que eu havia ouvido na escola a vida toda. Cada disciplina parecia uma eterna compilação de truísmos iguaizinhos aos que eu havia visto nas outras disciplinas, só que com palavras diferentes. Não por acaso, várias vezes pensei seriamente em desistir da licenciatura, com medo de não aguentar aquela monotonia até o fim.
Bom, mas eu não estou aqui para falar da FaE, que já me consumiu tempo o bastante.
Apesar de conhecer muito pouco da obra de Rubem Alves, lembro-me bem de uma das últimas entrevistas que ele concedeu, quando já estava bem debilitado, em um documentário que a TV Câmara fez sobre sua vida. Em determinado momento do documentário ele afirma que um dos maiores erros que alguém poderia cometer seria voltar, após muitos anos, a um local marcante de sua infância e juventude com a esperança de matar as saudades. Isso porque quase sempre voltamos àquele lugar esperando reencontrá-lo tal como ele era antes. Esquecemo-nos de que esse lugar mudou, nós mudamos, as pessoas com quem convivemos nele mudaram (ou sequer estão mais ali). Como resultado, tudo o que encontramos é um local estranho, que pouco ou em nada nos lembra daquele espaço que esperávamos reencontrar.
Pois há apenas um mês atrás eu tive essa experiência monumental de voltar a um lugar que marcou minha juventude. 10 anos depois de ter colocado meus pés na Malásia pela primeira vez, aproveitei as férias da Copa do Mundo e uma passagem barata e resolvi retornar à minha segunda terra natal, onde passei 12 dos mais marcantes meses da minha vida. A Malásia foi minha primeira experiência internacional e minha primeira experiência de longa duração longe da família. Logo em minha primeira viagem internacional fui bater em terras tão longínquas para ficar não 1 ou 5 meses, mas um ano!
Era o que eu mais queria: retornar a esse país no qual eu havia crescido e aprendido tanto. Mais do que visitar outros países, mais do que conhecer outros lugares, o que eu sempre quis mesmo foi retornar àquela jovem monarquia do Sudeste Asiático que eu já havia aprendido a amar como se fosse o meu próprio país. Tudo que aconteceu comigo desde o fim da minha adolescência girou em torno disso: meus relacionamentos, meus estudos, minha vida acadêmica e profissional. De uma forma ou de outra, todas as decisões e experiências, decepções e triunfos, tudo que me aconteceu desde meu retorno ao Brasil em junho de 2005 sempre remeteu ao meu aprendizado na Malásia. Correndo o risco de uma comparação grosseira, diria que esse intercâmbio foi, para mim, o mesmo que a Revolução Francesa foi para a história ocidental.
“Mas o que tem nessa Malásia que te deixa assim, Marcelo? Quero conhecer esse país também!”, muitos devem querer me perguntar. Pois eu respondo: não há nada de especial. Vocês podem visitar o país, pode até ser que gostem. Mas o que me atrai tanto nele é a lembrança que guardo dele até hoje. Graças a isso, toda visita que eu eventualmente fizer àquele país sempre terá um significado especial, totalmente diferente da que outras pessoas terão.
No momento em que coloquei os pés na Malásia pela segunda vez, simplesmente não consegui acreditar. Desde que voltei ao Brasil sonhei tantas vezes que estava voltando pra Malásia que, quando se tornou realidade, fiquei até desconfiado. E confesso que até o segundo ou terceiro dia, continuei desconfiado, sem acreditar que aquilo estava acontecendo. Ao pegar o trem expresso do aeroporto até a estação central de Kuala Lumpur, derretia-me vendo aquelas paisagens típicas: as mesquitas, os templos hindus, as plantações de óleo de palma... Apesar de estar tão distante de casa, poucas vezes na vida me senti tão em casa quanto nas minhas primeiras horas na Malásia. Parecia até que eu estava voltando pra casa depois de alguns anos viajando pelo Brasil.
Pegando o trem da estação de Kuala Lumpur para Klang, sofri de algo que ainda não sei bem o que é. Creio que saudades antecipadas. Havia acabado de chegar ao país, mas quase morri de desgosto ao pensar que teria de deixa-lo após duas breves semanas. Via as estações de trem no quadro e me contagiava de nostalgia. Eram as mesmas estações de 10 anos atrás. O trem, porém, havia mudado: os vagões eram mais modernos e bonitos, e havia até vagões especiais para mulheres – que, curiosamente, não eram isolados dos vagões normais. Quando o trem parou na primeira estação e as portas se abriram, eu, bem posicionado em frente delas, senti aquele ar quente de mormaço e aquele cheiro de curry pela primeira vez em muito tempo, vindo bem em cima de mim. Fui tomado por uma felicidade inexplicável. Perguntei a mim mesmo: “O que é que eu tinha na cabeça quando deixei esse país?”.
O trem seguiu em frente. Em menos de uma hora estava em Klang, a cidade onde havia vivido e onde iria ficar novamente. Desci carregando minha mala e, antes de mais nada, fiz questão de tirar aquela selfie em frente à placa da estação – não podia faltar. Peguei o táxi até a casa da família que havia me hospedado nos primeiros meses de meu intercâmbio, e que iria me hospedar novamente. No caminho, fui vendo todas aquelas paisagens às quais me acostumara: o palácio do sultão, os restaurantes de comida indiana, o hospital Tengku Ampuan Rahimah e, enfim, a casa onde havia morado. Logo que apontei no jardim, a primeira coisa que ouvi deles foi: “Mas você não mudou nada, hein?”. Ouvi a mesma frase de quase todos que reencontrei, além de uma outra, ainda mais frequente: “Mas justo agora que todo mundo quer estar no Brasil para ver a copa você resolve vir para a Malásia?!”.
A Malásia é composta por basicamente três etnias: malaios, chineses e indianos. Lá, porém, não houve a atuação decisiva do sangue lusitano para “amolecer” a rigidez das divisões raciais e fazer emergir a miscigenação tão celebrada por Gilberto Freyre. O país é praticamente formado por três países dentro de um só. Essa família na qual fiquei era uma rara exceção: a mãe era malaia, muçulmana, e o pai indiano, convertido ao islamismo antes de se casar com ela. Eles tinham duas filhas. Nenhuma delas usava o véu há dez anos atrás. Agora, porém, a mais nova estava usando.
Após tomar um lanche com eles, fui tomar um banho. Na Malásia é costume encher o balde e tomar banho de caneca. Eu estava suado e cansado da viagem. Quando derramei a primeira caneca de água gelada sobre mim, novamente fui tomado por uma euforia indescritível. A única coisa em que conseguia pensar era: “Nunca mais! Nunca mais saio daqui...! Quero passar a eternidade aqui!”.
Lá estava eu, no mesmo quarto, no mesmo banheiro que eu havia usado dez anos antes. Eles estavam exatamente da forma como eu os havia deixado. Parecia até que estavam ali a me esperar, pacientemente, por todos esses anos.
Mas nem tudo estava igual. Notei que essa família estava bem mais religiosa do que da última vez. Eles passavam quase o dia todo assistindo a um canal islâmico na TV a cabo que transmitia orações, sermões e discussões em torno de história religiosa e do Alcorão. Em certos momentos do dia todo mundo desaparecia, recolhendo-se aos seus respectivos quartos: era o momento da oração para Meca. Parecia que todo mundo havia sido abduzido. A casa, muito escura por causa da pequena quantidade de janelas, ficava vazia e sombria. Nesses momentos eu aproveitava para andar pelas salas, observando tudo cuidadosamente, matando saudade de cada espaço. Mas pouco tempo depois todos reapareciam e nós comíamos!
Aliás, na minha primeira noite de volta à Malásia, tive um dos melhores jantares da minha vida. Uma das coisas da qual mais senti falta no país foi, sem dúvida, a comida. Passei os últimos nove anos de minha vida imaginando quando eu iria comer aquela comida de novo. No meu primeiro jantar, comi o famoso nasi lemak, um dos pratos tradicionais: arroz, pepino, frango e anchovas num molho vermelho muito, mas muito apimentado. Uma delícia! Comi com gosto, como em uma tentativa de matar toda a minha saudade. A pimenta desceu ardendo até meu estômago. Meus olhos lacrimejavam de dor e alegria ao mesmo tempo. Aliás, em meus primeiros dias eu comi tanta coisa e com tanta tenacidade, que tive uma dor de intestino infernal. Por um ou dois dias achei que ia explodir. A comida malásia é tão apimentada e saborosa, que agora que voltei ao Brasil tenho sérios problemas para me reacostumar. Tudo parece tão sem-graça e insípido, que muitas vezes parece que estou comendo e não estou me satisfazendo.
Mas – pimentas e comidas à parte –, quem não gostaria de voltar a ser adolescente com a maturidade que se tem hoje?! Pois esse sempre foi meu maior fetiche com a Malásia. Quando estive lá pela primeira vez era apenas um menino imaturo de 16 anos. Tinha medo de vestibulares e de meninas, era profundamente inseguro e estava sempre disposto a acreditar em quase tudo que me dissessem. Isso me impediu e muito de aproveitar plenamente meu intercâmbio. Mas desde então, quantas coisas me aconteceram! E eu estava de volta àquele lugar, com a maturidade que esses anos todos haviam me conferido. Meus amigos foram unânimes em dizer que eu não mudara fisicamente. Mas, por dentro, só eu tinha consciência do quanto minha cabeça havia mudado. Reconciliar-me com a Malásia: essa era minha meta.
Porém, como disse meu finado tio-avô: aquele lugar de nossa juventude nem sempre está lá inteiro, para nós. Se eu não havia mudado fisicamente, quase todos os meus amigos haviam mudado muito, e não só fisicamente. Um deles, que na escola tinha fama de ser rebelde, está trabalhando em um jornal pró-governo e é um ferrenho crítico da oposição. Outro, que vivia às voltas com sua família por ser homossexual e se deprimia cada vez mais por conta disso, agora é um feliz engenheiro químico trabalhando para as Petronas; ele tem um namorado estável, está financiando uma casa com o próprio dinheiro e, graças à sua independência financeira, já não teme tanto as escaramuças com seus familiares. Outro está trabalhando para uma organização do governo inglês, e viaja pelo mundo todo a trabalho (em uma dessas muitas viagens ele acabou conhecendo um amigo meu daqui de BH; mundo pequeno, não?!). Outro trabalha com plantações de óleo de palma sustentáveis e propôs que eu o ajudasse em um novo negócio de intercâmbio entre frutas brasileiras e malásias. Outro trabalhava em um cassino nas terras altas no interior do país – o único cassino legalizado na Malásia. Já um outro, que não encontrei dessa vez, havia virado traficante de drogas (profissão que dá pena de morte na Malásia), segundo me contou meu amigo que trabalha no jornal pró-governo.
Voltei também à escola na qual havia estudado. Era uma La Salle, escola fundada por missionários ingleses que tem sedes também aqui no Brasil. Visitei a cantina (tomei café da manhã lá), entrei nas salas de aula, relembrei o que fiz e o que vivenciei em cada parte daquele ambiente. Mas a cada passo que dava sentia um vazio danado por saber que aqueles tempos nunca vão voltar. Olhando pelo lado positivo, dei uma baita sorte de aparecer na escola justo num sábado em que estava acontecendo um evento esportivo. Fiquei feliz de encontrar uma grande parte de minhas ex-professoras lá – inclusive a de história! Uma delas me abraçou tão forte quando me viu que por um momento me esqueci que estava na Malásia. Todas ficaram surpresas de saber que eu também havia me tornado professor. Uma delas até me desencorajou de brincadeira, mas com um fundo de seriedade, dizendo pra eu mudar de ideia enquanto era tempo, já que ser professor é muito desgastante.
Outra coisa que havia mudado muito em minha cidade: eu não me sentia mais um alienígena. Há dez anos atrás, para onde ia todos me olhavam com estranheza. Agora, graças à globalização, ocidentais não são mais estranhos à população de Klang. Mas veja bem: Klang é uma cidade nos arredores da capital, região mais internacionalizada. Quando viajei para Kota Bharu, no nordeste do país, aí sim me senti na Malásia de verdade. O estado de Kelantan, do qual Kota Bharu é a capital, é meio que um pedaço do Oriente Médio no Sudeste Asiático. Quase toda a população é malaia/muçulmana, as placas e outdoors são escritos em alfabeto latino e arábico, os shoppings centers não têm cinemas e sexta-feira é feriado, dia santo para o islã. Apesar de ser a capital do estado, Kota Bharu tem ares muito mais provincianos do que urbanos. Parece até uma pequena vila que está começando a se tornar uma cidade média. Num dos shoppings da cidade, descobri que existe uma versão malaia daquela música do Cristiano Araújo (ou seria do Michel Teló? O sertanejo universitário é cheio de dissidências e disputas), "Bara bere". Vocês podem conferia-la nesse link: http://www.youtube.com/watch?v=iqEAKaIqhBc
Visitei o mercado central de Kota Bharu, onde se vendem comidas típicas e artesanato. Esse mercado é famoso por ter apenas vendedoras do sexo feminino. Lá comprovei o quanto é importante saber falar malaio se se quer visitar o país. Quase nenhum estrangeiro que visita ou mora na Malásia aprende malaio, haja vista que grande parte da população do país fala inglês - pelo menos no entorno da capital. Assim, os malaios ficam muito admirados ao verem um estrangeiro, sobretudo ocidental, falando malaio. Tanto que a moça de uma barraca fez desconto para mim em alguns produtos e até me deixou levar um a mais de graça. Isso sem falar que dava pra entender um pouco quando cochichavam sobre mim em voz alta. Fiquei surpreso com minha capacidade de ainda lembrar o malaio mesmo após tantos anos sem praticar.
Em Kota Bharu fiquei hospedado na casa de um casal aposentado que a alugava para turistas. Ambos eram muito amáveis. O dono da casa era mais quieto, mas a mulher era muito culta e amigável. Ela dizia ter uma imensa admiração pelo Lula e pela Dilma, especialmente tendo em vista as torturas pelas quais havia passado e a sua capacidade de se superar e virar presidente. Também afirmou que gostou muito de mim, e que iria orar para que Allah tocasse meu coração e eu me convertesse ao islamismo. E antes que você venha tirar conclusões precipitadas: essa foi a única vez que um muçulmano me sugeriu mudar de religião. Em geral, eles são extremamente respeitosos quanto à sua fé, seja lá qual for. Porém, a dona da pousada disse que havia gostado muito de mim, e que não iria ficar tentando me converter, mas que achava que eu tinha todas as características de um bom muçulmano. Quando eles me levaram ao aeroporto, ela me disse para lhe escrever um e-mail, caso tivesse tomado a decisão de me converter. E disse também que da próxima vez que me hospedasse lá, não precisaria pagar. Fiquei desconcertado com tanta cortesia. Não fiz nada além de agradecê-la muito, e prometer que iria pensar nas suas palavras.
Kelantan era um pedaço da Malásia que eu não havia visitado da primeira vez, mas confesso que foi uma de minhas melhores experiências naquele país. Em Klang, sempre tive muito mais contato com indianos e chineses, vindo a conhecer pouco a cultura malaia, que é, de fato, a que mais me fascinou. O islã chegou à Malásia no século XV, e a mistura entre elementos da cultura malaia pré-islâmica e elementos da cultura árabe-muçulmana gestou uma civilização e uma história sem pares. Algo digno de admiração e muito estudo.
Dois dias após voltar de Kota Bharu foi a vez de conhecer Cingapura, uma pequena ilha ao sul da Península Malaia que fez parte da Malásia entre 1963 e 1965, mas depois se separou. Se Kelantan é um pedaço do Oriente Médio, Cingapura é um pedaço da Europa na Malásia. Todas as placas em inglês (mas também em chinês, malaio e tâmil), transporte público de primeira, ruas limpinhas e um monte de atrações turísticas, como parques temáticos, safáris e coisas do tipo. Enfim, Cingapura é a Disneylândia do Sudeste Asiático.
Eu, porém, fiquei hospedado em um hostel numa área não muito nobre dessa cidade-Estado. Era a região de Geylang, área famosa por concentrar inúmeras casas de prostituição, que é legalizada no país. Quando chegava do centro da cidade à noite e passava perto das casas, os recrutadores logo me abordavam: “Hey, Mr. John, Mr. John, come! I have girl for you!” (embora o significado da palavra “girl” fosse meio ambíguo naquele contexto). Enquanto aqui no Brasil chamamos os estrangeiros de gringos, em Cingapura eles chamam os ocidentais de Mr. John, talvez por nos associarem automaticamente aos americanos. Já na Malásia, curiosamente eles chamam os ocidentais de Mat Salleh (abreviação de Datu Muhammad Salleh), um rebelde de Bornéu que liderou uma rebelião contra o domínio britânico no século XIX. É como se os peruanos resolvessem chamar os espanhóis de Tupac Amaru ou os haitianos chamar os franceses de Toussaint Louverture.
Voltando de Cingapura, faltava apenas um dia para meu retorno ao Brasil. Foi com extremo pesar que desci no aeroporto internacional de Kuala Lumpur para abandonar a Malásia pela segunda vez. Enquanto aguardava para embarcar, vi algo que nunca havia visto nem em um ano na Malásia: um judeu. Ele estava sentado mexendo no laptop, provavelmente aguardando seu voo. Aliás, uma curiosa combinação entre a vitória alemã na Copa e as ofensivas israelenses em Gaza gerou uma onda de antissemitismo e de apologia ao nazismo na Malásia que acabou transbordando para o Facebook. Houve casos de personalidades políticas e artísticas do país postando frases de apoio a Hitler e ao nazismo. Mesmo um amigo meu muçulmano trocou sua foto de capa do Facebook por uma foto de Hitler, ao lado de uma suástica.
O governo da Malásia não reconhece o Estado de Israel e é um grande apoiador da causa palestina. Tanto que, até há pouco tempo atrás, cidadãos da Malásia eram proibidos de voltar ao país caso seu passaporte tivesse um carimbo israelense. Creio que é justamente a ausência de contatos com judeus um dos responsáveis por deixar tantos malaios alheios ao que foi o nazismo e o holocausto, levando-os a essas demonstrações bizarras.
Quando estava me dirigindo ao portão de embarque e apresentei meu passaporte ao policial, ele leu meu sobrenome e brincou: “Alves de Paula Lima... Not Gustavo Lima, huh?”. Apenas ri e disse: “Oh, even here that guy is famous?”. E foi com essa conversa pitoresca que concluí minha segunda experiência na Malásia.
Ao fim e ao cabo, Rubem Alves tinha razão: quando voltamos a um lugar após muito tempo, ele não é mais o mesmo. Mas às vezes ele pode ser ainda melhor do que da primeira vez em que estivemos, especialmente quando aqueles a quem reencontramos mudaram para melhor. Especialmente quando nós mesmos mudamos para melhor. E me arrisco a dizer que aproveitei mais a Malásia nessas breves duas semanas do que em todos os 12 meses que perambulei por lá.
Voltei triste, mas feliz: havia me reconciliado com a Malásia.
"Quem quiser fale mal da literatura. Quanto a mim, direi que devo a ela minha salvação. Venho da rua oprimido, escrevo dez linhas, torno-me olímpico" (Cyro dos Anjos, "O amanuense Belmiro", 1937).
Visualizações de página do mês passado
Mostrando postagens com marcador Páginas de combate. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Páginas de combate. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 30 de julho de 2014
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Páginas de combate - parte II
O constrangedor evento que protagonizei em presença de alguns estudantes malásios, narrado no meu último texto (Páginas de combate, parte 1), é mera ilustração de algo que se vê naquele país com uma frequência incômoda: uma ingênua hipocrisia que chega a beirar as raias do descalabro. Sempre desconfie de estudantes da Malásia que se dizem flexíveis e com mente aberta para todos os temas, pois todas aquelas mentes se fecham mais rápido do que um esfíncter tão logo entram em contato com a palavra “sexo”. Desconfie mais ainda quando eles (os malásios, estudantes ou não, quem quer que seja) vierem te importunar com uma conversa marrenta sobre “diferentes raças vivendo em harmonia num mesmo país”.
Historicamente, os territórios que posteriormente comporiam a Malásia foram ocupados por basicamente três grupos étnicos: os malaios, naturais da região e culturalmente próximos dos indonésios; os indianos, responsáveis por introduzir o islamismo no país e, mais tarde, importante força de trabalho na extração de látex ao longo do começo do século XX; e os chineses, que desde tempos imemoriais eram assíduos comerciantes naquela região.
A propaganda oficial veiculada pelo governo – e comprada em massa por grande parte da opinião pública – é a de que a Malásia é uma réplica da ONU, onde diferentes raças convivem pacificamente e amigavelmente em um mesmo território. O orgulho que eles possuem de ser um país multirracial é tão grande que não raras vezes eu fui surpreendido com perguntas do tipo: “por que o Ronaldinho Gaúcho é negro e você é branco?”, ou ainda “por que você não tem cabelo encaracolado como os demais brasileiros?”. Ou seja: na cabeça de um malásio, todos os países do mundo são monorraciais, menos eles mesmos. Por isso acho que ficam em choque ao saber que têm países no mundo formados, como eles, por mais de uma etnia. Sempre busquei explicar, portanto, que o Brasil tinha sido constituído, assim como a Malásia, por três “raças” (europeus, índios e africanos), a fim de esclarecê-los sobre os motivos de eu ser tão diferente daqueles jogadores brasileiros que eles viam no futebol europeu.
A questão é que, diferente do Brasil, na Malásia a miscigenação não foi a regra. Somente nos últimos anos têm sido mais frequentes os casamentos inter-raciais, e não podia ser diferente. Por mais que o governo insista à exaustão em vender a imagem de um país no qual indianos, chineses e malaios (ou, se preferirem, cristãos, muçulmanos, hindus e budistas) vivem na mais completa paz, é só você ter uma pequena conversa em particular com um chinês para ele lhe dizer o quanto odeia os malaios. Ou então com um indiano, pra que ele lhe diga o quanto odeia os chineses. E por aí vai. Lá, temos um exemplo clássico de racismo institucionalizado. Os malaios, por serem maioria e deterem o poder político, gozam de uma série de privilégios: têm cotas nas universidades, acesso mais fácil a cargos públicos e preços mais baixos na hora de comprar terrenos. Os chineses são o segundo grupo étnico mais numeroso e, embora tenham menos influência política, são relativamente mais prósperos economicamente. Por fim, os indianos são a minoria da população, não gozando de poder político nem econômico significativos. Lembro-me bem de quando contei a dois indianos que eu queria estudar para ser diplomata, e eles responderam rindo, dizendo que eles, como indianos na Malásia, jamais poderiam sonhar com isso, pois tais cargos eram reservados só para os malaios.
O resultado desse estado de coisas é um diz-que-me-diz de proporções astronômicas, no qual chineses e indianos acusam malaios de serem preguiçosos porque já têm tudo na mão, chineses zombam de indianos por serem sujos, pobres e escuros (juro que já ouvi isso) e indianos acusam chineses de serem interesseiros e materialistas, só pensando no dinheiro. Esse show de baixarias não acontece em público, visto que todo malásio aparentemente nasce educado a não falar na cara esse tipo de coisa. Quando os estrangeiros como eu chegam é que eles aproveitam para abrir o berreiro. Um amigo chinês me disse uma vez que os malaios são o grande problema do país, e um outro, também chinês, afirmou com segurança que os malaios e indianos têm inveja dos chineses porque eles têm pele branca. Isso sem falar num outro amigo meu, chinês evangélico, que havia me passado o ICQ (lembrem-se que meu intercâmbio foi em 2004-2005!) de vários colegas dele e me assegurado que eu não precisava me preocupar porque todas aquelas pessoas que ele havia me apresentado eram cristãs. Parece que os atritos étnicos e religiosos são tão grandes que eles automaticamente assumem que os estrangeiros que aportam no país estão dispostos a participar deles.
Sendo assim, se um dia estiver na Malásia e vierem te dizer que lá todas as raças convivem em harmonia, faça como se estivesse conversando com um homem que se diz Napoleão: apenas incline a cabeça e concorde com tudo. Não há motivos para discutir porque, nesse ponto, eles nunca dão o braço a torcer. Acho que o sonho dos potentados locais é que Gilberto Freyre nasça malaio na próxima encarnação. Para todo espírito que resolver questionar a democracia racial na Malásia sempre existirá um malásio para dizer: “we are Malaysians; we are open-minded”. E eu já experimentei na pele o que significa ser mente aberta na terra das Petronas (vide minha experiência com os estudantes descolados).
Como todo brasileiro, não fui poupado das perguntas sobre futebol – assunto que eu nunca dominei com maestria, tanto no falar como no jogar (e naquela época menos ainda). Tudo o que se sabe na Malásia sobre o Brasil é que muitos jogadores daqui jogavam em clubes europeus. Parece que eles imaginam o Brasil como uma grande linha de montagem de jogadores de futebol destinados à exportação, e que todos os brasileiros, mesmo os que não eram exportados, eram exímios jogadores de futebol. Os malásios, de fato, amam futebol, e acompanham com fervor o campeonato inglês. Para eles, a Inglaterra é a grande referência no futebol mundial. Por isso frequentemente alguns colegas de escola me perguntavam por que jogadores consagrados como Ronaldo e Ronaldinho não atuavam no futebol inglês (pergunta essa que nunca consegui responder com muita segurança). Perguntavam-me também se eu conhecia algum jogador de futebol brasileiro, se eu já os havia visto jogar ao vivo ou se eu falava a mesma língua que eles. Isso sem mencionar as vezes em que me perguntaram por que o Brasil não estava participando da Euro-2004.
Outra visão interessante que alguns malásios tinham do Brasil acabou me pegando desprevenido. Por muito tempo o Brasil foi conhecido como o “celeiro do mundo”. Na Malásia, porém, ele é hoje conhecido não só como o “estádio do mundo”, como já vimos, mas também como a “boate do mundo”. Uma ou outra vez, quando notou meu jeito mais reservado e quieto de ser, alguém se surpreendeu, alegando pensar que os brasileiros eram pessoas felizes, animadas e festeiras. Também nunca tive uma boa resposta para essas perguntas, embora hoje eu pudesse pensar em milhares de boas respostas. Eu poderia responder: “eu também pensava que a Malásia era um país muçulmano onde todos se voltavam para Meca cinco vezes ao dia, mas cheguei aqui e vi igrejas evangélicas e Mcdonalds”; ou então “eu também pensava que na Malásia todas as raças viviam em paz, como vocês mesmos dizem”; ou ainda “o Brasil tem 180 milhões de habitantes; se cada um desses 180 milhões de habitantes fosse festeiro como você diz, nosso país seria uma eterna micareta”. No entanto, boas respostas como essas nunca me vieram à mente no momento oportuno.
Estádios e mesquitas! Enquanto meus colegas de sala se interessavam por futebol, eu me interessava pelo islamismo. Eles me perguntavam sobre a seleção brasileira, sobre o desempenho dos jogadores brasileiros na Europa, sobre minha opinião acerca da Premier League, e eu lhes perguntava sobre as mesquitas, sobre a vigência da lei islâmica no país (a sharia) e sobre a laicidade ou não do Estado na Malásia. No final das contas, nem eu nem eles tínhamos respostas satisfatórias uns para os outros. É duro fazer intercâmbio em um mundo globalizado!
Em relação à escola, os estudantes da Malásia escolhem, a partir do penúltimo ano, o rumo que querem tomar: ciências exatas ou humanidades. Dependendo do lado para o qual você quer se encaminhar, muda a grade curricular. A princípio fiquei na turma de humanidades. Contudo, na Malásia quem escolhe a área de humanas não costuma ser bem visto pela sociedade. Quando eu perguntava às pessoas sobre a possibilidade de escolherem esse rumo, sempre me respondiam: “Mas... se você for pra área de humanas o máximo que você conseguirá na vida é ser um advogado”. Perdi as contas de quantas vezes escutei essa resposta inusitada. Sendo assim, as turmas de humanas eram maculadas em toda a escola, ganhando a fama de serem os maiores redutos de baderneiros e marginais. Como eu não iria me formar naquela escola – e como sempre tive um ódio mortal pelas ciências exatas – escolhi ficar na turma de humanas mesmo, até porque a carga horária lá era menor e eles saíam mais cedo.
Depois de um tempo, temendo pela minha segurança, a dona da casa na qual me hospedei intercedeu junto à escola para que eu mudasse para a turma das exatas, onde a gente supostamente era mais ordeira. Concordei, pois para mim pouca diferença havia. Interessei-me especialmente pelos livros didáticos de história. Um colega meu, conhecido por todos como um comunista convicto, me apontou uma série de incongruências neles. Ele disse que havia duas figuras míticas na história malaia – Hang Tuah e Hang Jebat, se bem me lembro – que figuravam nesses livros como personagens reais. Folheando os livros, vi também a figura de Mat Salleh, um grande nacionalista malaio conhecido pela sua profunda xenofobia (tanto que, ironicamente, a expressão Mat Salleh é uma forma coloquial e até pejorativa de se chamar os estrangeiros na Malásia, assim como “gringo” no Brasil). Pode ter sido falta de atenção minha, mas os livros didáticos pareciam tratar muito pouco da história europeia e de eventos como a Revolução Industrial ou a Revolução Francesa. Mesmo a Idade Média europeia era ignorada, prevalecendo o estudo do islamismo e da cultura árabe. Além disso, à medida que as séries iam avançando, o estudo de história se fechava mais na história da Malásia, ao invés de se expandir para a história geral.
Conheci muita gente na escola, embora não mantenha contato frequente e regular com nenhum em especial. Uma das pessoas que me vêm à mente agora, além daquelas já citadas no primeiro texto, foi um rapaz chinês com o qual conversava vez ou outra, mas que com o tempo fui conhecendo melhor. Quando já estava mais íntimo dele, descobri que tinha uma penca de problemas familiares, sofria de baixa autoestima e era muito zombado pelos colegas de sala. Disse-me ele que queria muito conhecer uma mulher e se casar, mas que se achava feio e que nenhuma mulher olhava pra ele. E foi numa dessas conversas sobre mulheres que ele me confessou que lá no fundo sentia raiva de pessoas como eu, que atraem os olhares femininos. Respondi que não sabia sobre o que ele estava falando, visto que em toda a minha vida eu nunca havia sequer beijado alguém. Então ele me disse que quando saíamos, muitas meninas olhavam pra mim, ao que respondi que isso era natural, já que eu, como estrangeiro, era fisicamente diferente dos demais. Foi aí que ele se empolgou e me perguntou se caso ele viesse para o Brasil, as meninas também o olhariam assim. Não soube o que responder, pra variar. Apenas disse a ele pra ter calma, que ele iria achar alguém logo.
Esse é só mais um exemplo do que eu já escrevi. Quem leu o primeiro texto sobre minha experiência na Malásia sabe bem de meus infortúnios na hora de fazer amizades naquele país. E caso você tenha acompanhado minhas confissões de Augsburg, entenderá que essa é uma das principais razões pelas quais resolvi passar meu intercâmbio na Europa recluso. Não queria adicionar à minha coleção mais tipos exóticos. De gente estranha na minha vida já basta eu.
Historicamente, os territórios que posteriormente comporiam a Malásia foram ocupados por basicamente três grupos étnicos: os malaios, naturais da região e culturalmente próximos dos indonésios; os indianos, responsáveis por introduzir o islamismo no país e, mais tarde, importante força de trabalho na extração de látex ao longo do começo do século XX; e os chineses, que desde tempos imemoriais eram assíduos comerciantes naquela região.
A propaganda oficial veiculada pelo governo – e comprada em massa por grande parte da opinião pública – é a de que a Malásia é uma réplica da ONU, onde diferentes raças convivem pacificamente e amigavelmente em um mesmo território. O orgulho que eles possuem de ser um país multirracial é tão grande que não raras vezes eu fui surpreendido com perguntas do tipo: “por que o Ronaldinho Gaúcho é negro e você é branco?”, ou ainda “por que você não tem cabelo encaracolado como os demais brasileiros?”. Ou seja: na cabeça de um malásio, todos os países do mundo são monorraciais, menos eles mesmos. Por isso acho que ficam em choque ao saber que têm países no mundo formados, como eles, por mais de uma etnia. Sempre busquei explicar, portanto, que o Brasil tinha sido constituído, assim como a Malásia, por três “raças” (europeus, índios e africanos), a fim de esclarecê-los sobre os motivos de eu ser tão diferente daqueles jogadores brasileiros que eles viam no futebol europeu.
A questão é que, diferente do Brasil, na Malásia a miscigenação não foi a regra. Somente nos últimos anos têm sido mais frequentes os casamentos inter-raciais, e não podia ser diferente. Por mais que o governo insista à exaustão em vender a imagem de um país no qual indianos, chineses e malaios (ou, se preferirem, cristãos, muçulmanos, hindus e budistas) vivem na mais completa paz, é só você ter uma pequena conversa em particular com um chinês para ele lhe dizer o quanto odeia os malaios. Ou então com um indiano, pra que ele lhe diga o quanto odeia os chineses. E por aí vai. Lá, temos um exemplo clássico de racismo institucionalizado. Os malaios, por serem maioria e deterem o poder político, gozam de uma série de privilégios: têm cotas nas universidades, acesso mais fácil a cargos públicos e preços mais baixos na hora de comprar terrenos. Os chineses são o segundo grupo étnico mais numeroso e, embora tenham menos influência política, são relativamente mais prósperos economicamente. Por fim, os indianos são a minoria da população, não gozando de poder político nem econômico significativos. Lembro-me bem de quando contei a dois indianos que eu queria estudar para ser diplomata, e eles responderam rindo, dizendo que eles, como indianos na Malásia, jamais poderiam sonhar com isso, pois tais cargos eram reservados só para os malaios.
O resultado desse estado de coisas é um diz-que-me-diz de proporções astronômicas, no qual chineses e indianos acusam malaios de serem preguiçosos porque já têm tudo na mão, chineses zombam de indianos por serem sujos, pobres e escuros (juro que já ouvi isso) e indianos acusam chineses de serem interesseiros e materialistas, só pensando no dinheiro. Esse show de baixarias não acontece em público, visto que todo malásio aparentemente nasce educado a não falar na cara esse tipo de coisa. Quando os estrangeiros como eu chegam é que eles aproveitam para abrir o berreiro. Um amigo chinês me disse uma vez que os malaios são o grande problema do país, e um outro, também chinês, afirmou com segurança que os malaios e indianos têm inveja dos chineses porque eles têm pele branca. Isso sem falar num outro amigo meu, chinês evangélico, que havia me passado o ICQ (lembrem-se que meu intercâmbio foi em 2004-2005!) de vários colegas dele e me assegurado que eu não precisava me preocupar porque todas aquelas pessoas que ele havia me apresentado eram cristãs. Parece que os atritos étnicos e religiosos são tão grandes que eles automaticamente assumem que os estrangeiros que aportam no país estão dispostos a participar deles.
Sendo assim, se um dia estiver na Malásia e vierem te dizer que lá todas as raças convivem em harmonia, faça como se estivesse conversando com um homem que se diz Napoleão: apenas incline a cabeça e concorde com tudo. Não há motivos para discutir porque, nesse ponto, eles nunca dão o braço a torcer. Acho que o sonho dos potentados locais é que Gilberto Freyre nasça malaio na próxima encarnação. Para todo espírito que resolver questionar a democracia racial na Malásia sempre existirá um malásio para dizer: “we are Malaysians; we are open-minded”. E eu já experimentei na pele o que significa ser mente aberta na terra das Petronas (vide minha experiência com os estudantes descolados).
Como todo brasileiro, não fui poupado das perguntas sobre futebol – assunto que eu nunca dominei com maestria, tanto no falar como no jogar (e naquela época menos ainda). Tudo o que se sabe na Malásia sobre o Brasil é que muitos jogadores daqui jogavam em clubes europeus. Parece que eles imaginam o Brasil como uma grande linha de montagem de jogadores de futebol destinados à exportação, e que todos os brasileiros, mesmo os que não eram exportados, eram exímios jogadores de futebol. Os malásios, de fato, amam futebol, e acompanham com fervor o campeonato inglês. Para eles, a Inglaterra é a grande referência no futebol mundial. Por isso frequentemente alguns colegas de escola me perguntavam por que jogadores consagrados como Ronaldo e Ronaldinho não atuavam no futebol inglês (pergunta essa que nunca consegui responder com muita segurança). Perguntavam-me também se eu conhecia algum jogador de futebol brasileiro, se eu já os havia visto jogar ao vivo ou se eu falava a mesma língua que eles. Isso sem mencionar as vezes em que me perguntaram por que o Brasil não estava participando da Euro-2004.
Outra visão interessante que alguns malásios tinham do Brasil acabou me pegando desprevenido. Por muito tempo o Brasil foi conhecido como o “celeiro do mundo”. Na Malásia, porém, ele é hoje conhecido não só como o “estádio do mundo”, como já vimos, mas também como a “boate do mundo”. Uma ou outra vez, quando notou meu jeito mais reservado e quieto de ser, alguém se surpreendeu, alegando pensar que os brasileiros eram pessoas felizes, animadas e festeiras. Também nunca tive uma boa resposta para essas perguntas, embora hoje eu pudesse pensar em milhares de boas respostas. Eu poderia responder: “eu também pensava que a Malásia era um país muçulmano onde todos se voltavam para Meca cinco vezes ao dia, mas cheguei aqui e vi igrejas evangélicas e Mcdonalds”; ou então “eu também pensava que na Malásia todas as raças viviam em paz, como vocês mesmos dizem”; ou ainda “o Brasil tem 180 milhões de habitantes; se cada um desses 180 milhões de habitantes fosse festeiro como você diz, nosso país seria uma eterna micareta”. No entanto, boas respostas como essas nunca me vieram à mente no momento oportuno.
Estádios e mesquitas! Enquanto meus colegas de sala se interessavam por futebol, eu me interessava pelo islamismo. Eles me perguntavam sobre a seleção brasileira, sobre o desempenho dos jogadores brasileiros na Europa, sobre minha opinião acerca da Premier League, e eu lhes perguntava sobre as mesquitas, sobre a vigência da lei islâmica no país (a sharia) e sobre a laicidade ou não do Estado na Malásia. No final das contas, nem eu nem eles tínhamos respostas satisfatórias uns para os outros. É duro fazer intercâmbio em um mundo globalizado!
Em relação à escola, os estudantes da Malásia escolhem, a partir do penúltimo ano, o rumo que querem tomar: ciências exatas ou humanidades. Dependendo do lado para o qual você quer se encaminhar, muda a grade curricular. A princípio fiquei na turma de humanidades. Contudo, na Malásia quem escolhe a área de humanas não costuma ser bem visto pela sociedade. Quando eu perguntava às pessoas sobre a possibilidade de escolherem esse rumo, sempre me respondiam: “Mas... se você for pra área de humanas o máximo que você conseguirá na vida é ser um advogado”. Perdi as contas de quantas vezes escutei essa resposta inusitada. Sendo assim, as turmas de humanas eram maculadas em toda a escola, ganhando a fama de serem os maiores redutos de baderneiros e marginais. Como eu não iria me formar naquela escola – e como sempre tive um ódio mortal pelas ciências exatas – escolhi ficar na turma de humanas mesmo, até porque a carga horária lá era menor e eles saíam mais cedo.
Depois de um tempo, temendo pela minha segurança, a dona da casa na qual me hospedei intercedeu junto à escola para que eu mudasse para a turma das exatas, onde a gente supostamente era mais ordeira. Concordei, pois para mim pouca diferença havia. Interessei-me especialmente pelos livros didáticos de história. Um colega meu, conhecido por todos como um comunista convicto, me apontou uma série de incongruências neles. Ele disse que havia duas figuras míticas na história malaia – Hang Tuah e Hang Jebat, se bem me lembro – que figuravam nesses livros como personagens reais. Folheando os livros, vi também a figura de Mat Salleh, um grande nacionalista malaio conhecido pela sua profunda xenofobia (tanto que, ironicamente, a expressão Mat Salleh é uma forma coloquial e até pejorativa de se chamar os estrangeiros na Malásia, assim como “gringo” no Brasil). Pode ter sido falta de atenção minha, mas os livros didáticos pareciam tratar muito pouco da história europeia e de eventos como a Revolução Industrial ou a Revolução Francesa. Mesmo a Idade Média europeia era ignorada, prevalecendo o estudo do islamismo e da cultura árabe. Além disso, à medida que as séries iam avançando, o estudo de história se fechava mais na história da Malásia, ao invés de se expandir para a história geral.
Conheci muita gente na escola, embora não mantenha contato frequente e regular com nenhum em especial. Uma das pessoas que me vêm à mente agora, além daquelas já citadas no primeiro texto, foi um rapaz chinês com o qual conversava vez ou outra, mas que com o tempo fui conhecendo melhor. Quando já estava mais íntimo dele, descobri que tinha uma penca de problemas familiares, sofria de baixa autoestima e era muito zombado pelos colegas de sala. Disse-me ele que queria muito conhecer uma mulher e se casar, mas que se achava feio e que nenhuma mulher olhava pra ele. E foi numa dessas conversas sobre mulheres que ele me confessou que lá no fundo sentia raiva de pessoas como eu, que atraem os olhares femininos. Respondi que não sabia sobre o que ele estava falando, visto que em toda a minha vida eu nunca havia sequer beijado alguém. Então ele me disse que quando saíamos, muitas meninas olhavam pra mim, ao que respondi que isso era natural, já que eu, como estrangeiro, era fisicamente diferente dos demais. Foi aí que ele se empolgou e me perguntou se caso ele viesse para o Brasil, as meninas também o olhariam assim. Não soube o que responder, pra variar. Apenas disse a ele pra ter calma, que ele iria achar alguém logo.
Esse é só mais um exemplo do que eu já escrevi. Quem leu o primeiro texto sobre minha experiência na Malásia sabe bem de meus infortúnios na hora de fazer amizades naquele país. E caso você tenha acompanhado minhas confissões de Augsburg, entenderá que essa é uma das principais razões pelas quais resolvi passar meu intercâmbio na Europa recluso. Não queria adicionar à minha coleção mais tipos exóticos. De gente estranha na minha vida já basta eu.
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Páginas de combate - parte I
O homem que não enfrenta seus demônios está fadado a conviver com eles. Porém, o homem que enfrenta seus demônios e é derrotado está fadado a ser escravo deles.
Hoje vou começar a lhes contar algo fascinante – pelo menos para mim. Algo que nem todo mundo que me conhece sabe, e mesmo aqueles que sabem não sabem muito. Falarei de uma experiência inigualável de quando eu tinha 16 anos de idade. Ela durou um ano, mas nunca havia refletido de maneira mais detida a respeito. Falarei dos doze meses em que morei na Malásia, uma jovem monarquia no Sudeste Asiático.
Por que resolvi enfrentar meus demônios depois de tanto tempo? Porque não seria justo deixa-los de lado. Foram apenas cinco os meses que passei na Alemanha, e não obstante fiz quase uma cobertura jornalística acerca deles. Por outro lado, foram doze meses na Malásia, os quais deixaram como herança somente algumas poucas anotações em cadernos, todas elas tão enfadonhas que nem eu tenho paciência de relê-las.
Do dia 15 de junho de 2004 até o dia 13 de junho de 2005 experimentei os dias mais intensos, conturbados, confusos e edificantes de minha vida. Dificilmente qualquer outra experiência terá tanto impacto na minha vida como essa. E é justamente por ter sido algo tão marcante que acho tão difícil descrevê-lo. Aliás, estou escrevendo mais de 7 anos depois do ocorrido: de lá pra cá, muita coisa mesmo aconteceu, o suficiente pra mudar minhas visões e opiniões acerca do que vivenciei. Não pretendo esgotar o assunto nesse texto; precisarei de outros tantos para dar conta do assunto. Também não pretendo fazer uma narrativa rigidamente cronológica dos fatos, até porque já nem me recordo direito da sequência de tudo. Buscarei ir postando aquilo de que me lembrar ao longo do tempo.
Duas das perguntas mais frequentes que ouço sempre que toco no assunto: “e como é a Malásia?” e “mas... por que Malásia?”. A primeira é vaga demais pra ser levada a sério, além de extremamente pouco criativa. A segunda é mais instigante, mas também tenho preguiça de respondê-la. Digamos apenas que minha viagem à Malásia foi parte de um programa de intercâmbio internacional de jovens do Rotary Club, ao qual meu pai pertencia à época. Poderia ter escolhido os EUA, a Alemanha, as Filipinas, o Canadá e a Austrália, mas preferi a Malásia – embora as Filipinas também tenham cativado minha atenção.
Assim que cheguei à Malásia, tão logo botei os pés fora do aeroporto, senti uma onda de calor infernal me atacando. Só tinha experimentado sensação igual uma vez na vida, seis anos antes, quando desci do ônibus em Porto Seguro. Mas dessa vez o calor era maior, sem falar que eu estava de terno e gravata (uma das muitas insensatezes do Rotary Club) e há dois dias viajando e sem tomar banho.
A primeira casa em que fiquei foi de um casal “mestiço”: um indiano casado com uma malaia (Dr. Shaari e Dona Nooriah, respectivamente), embora casamentos mistos na Malásia sejam bastante raros de se ver. Eles tinham duas filhas: uma um pouco mais velha, e outra um pouco mais nova do que eu. Em poucos dias, me avisaram que em breve eu estaria indo à escola. Não me disseram muito sobre ela, apenas que era um colégio masculino e que os meninos de lá tinham fama de serem baderneiros. Nos meus primeiros dias por lá, ocupei-me com um dicionário “inglês-malaio, malaio-inglês” que achei na minha casa. Com ele aprendi várias palavras, e aos poucos fui me familiarizando com o idioma malaio.
Logo no meu primeiro dia na Malásia, Dr. Shaari me chamou pra uma conversa antes de dormir. Me disse que eu precisava ter cuidado, pois Klang (a cidade onde morava) era muito perigosa. Segundo ele, lá eram muito comuns as gangues de imigrantes indonésios que iam pra Malásia em busca de melhores condições de vida. Além disso, me orientou a ser especialmente cauteloso na escola. Ele disse pra eu ter cuidado com muitos estudantes de origem indiana, pois muitos deles eram más companhias, formavam gangues e gostavam de arrumar encrenca. Posteriormente, D. Nooriah também me orientou nesse sentido, dizendo que era preciso ter cuidado com os indianos. A princípio fiquei confuso: como poderia um indiano e a esposa de um indiano me orientar a ter cuidado com os indianos? Só fui compreender melhor oito anos depois, já no curso de história, quando descobri que havia brasileiros no começo do século XX que abominavam a mestiçagem e tudo o mais que não fosse puramente europeu. Mas essa é uma outra história.
Meus primeiros dias na Malásia foram dedicados a conhecer melhor a cidade onde eu morava. De carro, D. Nooriah me levou para vários lugares, mostrou-me a escola onde eu estudaria, a prefeitura, as praças e os melhores restaurantes. Me disse que eu me parecia com o ator de uma novela colombiana que passava todas as tardes na TV aberta e que cativava os telespectadores de todo o país, principalmente as mulheres. O nome dele na novela era Antônio. Quando assistíamos à novela juntos, ela me perguntava se eu conseguia entender o que eles falavam, e se era a mesma língua que se falava no Brasil.
Meu primeiro dia na escola foi memorável. Estudei na La Salle – uma escola que, só depois fui descobrir, tinha unidades até no Brasil. Na Malásia ela fora fundada por missionários ingleses, por isso era uma escola só para meninos. A recepção foi calorosa, principalmente por parte dos alunos. Não era comum ver estrangeiros em Klang, muito menos na escola e muito menos ocidentais. Minha primeira aula foi na biblioteca da escola. Lá fui bombardeado com milhões de perguntas sobre mim e sobre o Brasil. Achei um atlas bem completo, abri na página que mostrava mapas regionais do Brasil e apontei para a cidade de onde eu vinha – Lavras.
No primeiro dia de aula muita gente veio falar comigo. Um deles foi uma das criaturas mais insuportáveis que já conheci naquele país: um menino chinês que me convidava para ir à igreja dele. Ao longo de minha estadia, experimentei diversas situações embaraçosas com essa figura: sempre que ele me perguntava o que eu havia feito no final de semana e eu dizia que havia visitado algum templo budista ou algum templo hindu, ele se horrorizava. Ele me dizia que eu era cristão e que não podia ficar indo a esses lugares porque era pecado. Até quando eu disse a ele que tinha ido à igreja católica ele se indignou, dizendo pra eu não fazer mais aquilo – segundo ele, eu só podia ir à igreja evangélica. Isso sem falar no dia em que, na hora do lanche, ele me viu na cantina comendo com as mãos (algo bastante comum na Malásia, principalmente entre os malaios e indianos). Nesse dia ele novamente me chamou a atenção, dizendo que apenas os hindus e muçulmanos comem com as mãos, e que eu não podia comer com as mãos porque no Ocidente só se come com talher. Pois vejam só isso! Quer dizer então que após séculos e séculos “civilizando” os povos ditos inferiores, o homem ocidental chegou a um ponto no qual se vê necessitado do auxílio de um chinês para se civilizar? Talvez seja isso mesmo... O homem ocidental depositou tanta “civilização” sobre os demais homens que agora ele a recebe de volta, seja como uma forma de agradecimento, seja como uma forma de troco. Interessante que esse mesmo rapaz chinês ainda me causou outro constrangimento, dessa vez quando conversávamos na internet. Eu disse a ele que havia comprado um celular, e quando lhe passei o número ele ficou enfurecido. Disse que eu fiz besteira de comprar um celular, que eu devia ter falado com ele porque o amigo dele vendia celulares muito bons e muito mais baratos, e que eu havia jogado fora meu dinheiro com aquela compra... Não tive outra ação a não ser gentilmente pedir-lhe desculpas pelo meu erro crasso. Dado o tanto que ele lamentou por eu não ter comprado o celular do “amigo” dele, só pude concluir que ele ganharia uma parcela generosa na venda do equipamento. Afinal de contas, o malásio de origem chinesa era tão ocidentalmente civilizado que conseguiu assimilar até mesmo a ânsia mercantilista por lucro dos primeiros mercadores lusitanos que atracaram na China.
Mas essa foi só uma das muitas amizades estranhas que fiz nesse estranho país.
Como fiz intercâmbio pelo Rotary, eu era quase que naturalmente obrigado a participar de todos os eventos relacionados a essa instituição, principalmente as reuniões nos Interact Clubes das várias escolas (Interact é algo tipo o Rotary, mas para jovens, e as principais escolas de Klang tinham um). Em um desses muitos eventos, os membros do Interact de uma escola que eu visitava começaram a me sabatinar durante uma conversa bem informal na sede deles. Conversa vai, conversa vem, surge uma pergunta crucial: “Mas então, Marcelo... Você já disse o que admira na Malásia. Agora diga-nos: o que não te agradou aqui?” Fiquei sem jeito. Não sabia o que falar nem como falar. Eles perceberam meu desconforto e pediram que eu não me preocupasse, pois eles tinham a mente bem aberta e não ligariam de ouvir quaisquer críticas que eu tivesse a fazer. “Pois bem...” pensei eu ingenuamente, “se é assim, serei sincero”. Disse-lhes então que eu havia ficado desconfortável com o fato de a Malásia ser um país com uma sociedade bem diferente da brasileira, e que por isso não me sentia livre para falar de certos assuntos que no Brasil eu falaria com mais desenvoltura, como política, religião, sexo e outros temas mais delicados. A palavra “sexo” ecoou de forma macabra no recinto. De repente, todos aqueles jovens “de mente bem aberta” ficaram desconcertados, sem jeito e sem ação. Uma menina apenas se resumiu a dizer “Então... geralmente nós não falamos sobre sexo...”. Eu também fiquei sem ação. Não me lembro direito como tudo isso acabou. Só sei que trocamos e-mails e números de celular ao fim da reunião, e um dos presentes, um rapaz indiano, meio que se compadeceu de mim. Poucos dias depois recebia um e-mail dele perguntando se eu queria ser o melhor amigo dele. Achei melhor não responder, afinal de contas, nunca alguém me havia perguntado isso. Ele também me disse que se quisesse falar sobre sexo com ele, ele não teria problemas com isso. Aliás, acredite ou não, ele até me mandou alguns links de sites pornográficos, talvez com a finalidade de suscitar argumentos para nossas futuras discussões. Só sei que, depois dessa parei de responder os e-mails dele, não porque tivesse medo ou vergonha, mas única e simplesmente porque não sabia o que escrever.
Tive outra experiência desagradável quando perguntado acerca do que eu não havia gostado na Malásia, mas falarei sobre ela em outra postagem. No final das contas, ficou a lição: se te perguntarem do que você não gosta da Malásia, apenas fale do calor insuportável e encerre a discussão. Todos eles acharão lindo e ao fim você não arranjará um amigo que confunde falar sobre sexo com assistir pornografia.
Hoje vou começar a lhes contar algo fascinante – pelo menos para mim. Algo que nem todo mundo que me conhece sabe, e mesmo aqueles que sabem não sabem muito. Falarei de uma experiência inigualável de quando eu tinha 16 anos de idade. Ela durou um ano, mas nunca havia refletido de maneira mais detida a respeito. Falarei dos doze meses em que morei na Malásia, uma jovem monarquia no Sudeste Asiático.
Por que resolvi enfrentar meus demônios depois de tanto tempo? Porque não seria justo deixa-los de lado. Foram apenas cinco os meses que passei na Alemanha, e não obstante fiz quase uma cobertura jornalística acerca deles. Por outro lado, foram doze meses na Malásia, os quais deixaram como herança somente algumas poucas anotações em cadernos, todas elas tão enfadonhas que nem eu tenho paciência de relê-las.
Do dia 15 de junho de 2004 até o dia 13 de junho de 2005 experimentei os dias mais intensos, conturbados, confusos e edificantes de minha vida. Dificilmente qualquer outra experiência terá tanto impacto na minha vida como essa. E é justamente por ter sido algo tão marcante que acho tão difícil descrevê-lo. Aliás, estou escrevendo mais de 7 anos depois do ocorrido: de lá pra cá, muita coisa mesmo aconteceu, o suficiente pra mudar minhas visões e opiniões acerca do que vivenciei. Não pretendo esgotar o assunto nesse texto; precisarei de outros tantos para dar conta do assunto. Também não pretendo fazer uma narrativa rigidamente cronológica dos fatos, até porque já nem me recordo direito da sequência de tudo. Buscarei ir postando aquilo de que me lembrar ao longo do tempo.
Duas das perguntas mais frequentes que ouço sempre que toco no assunto: “e como é a Malásia?” e “mas... por que Malásia?”. A primeira é vaga demais pra ser levada a sério, além de extremamente pouco criativa. A segunda é mais instigante, mas também tenho preguiça de respondê-la. Digamos apenas que minha viagem à Malásia foi parte de um programa de intercâmbio internacional de jovens do Rotary Club, ao qual meu pai pertencia à época. Poderia ter escolhido os EUA, a Alemanha, as Filipinas, o Canadá e a Austrália, mas preferi a Malásia – embora as Filipinas também tenham cativado minha atenção.
Assim que cheguei à Malásia, tão logo botei os pés fora do aeroporto, senti uma onda de calor infernal me atacando. Só tinha experimentado sensação igual uma vez na vida, seis anos antes, quando desci do ônibus em Porto Seguro. Mas dessa vez o calor era maior, sem falar que eu estava de terno e gravata (uma das muitas insensatezes do Rotary Club) e há dois dias viajando e sem tomar banho.
A primeira casa em que fiquei foi de um casal “mestiço”: um indiano casado com uma malaia (Dr. Shaari e Dona Nooriah, respectivamente), embora casamentos mistos na Malásia sejam bastante raros de se ver. Eles tinham duas filhas: uma um pouco mais velha, e outra um pouco mais nova do que eu. Em poucos dias, me avisaram que em breve eu estaria indo à escola. Não me disseram muito sobre ela, apenas que era um colégio masculino e que os meninos de lá tinham fama de serem baderneiros. Nos meus primeiros dias por lá, ocupei-me com um dicionário “inglês-malaio, malaio-inglês” que achei na minha casa. Com ele aprendi várias palavras, e aos poucos fui me familiarizando com o idioma malaio.
Logo no meu primeiro dia na Malásia, Dr. Shaari me chamou pra uma conversa antes de dormir. Me disse que eu precisava ter cuidado, pois Klang (a cidade onde morava) era muito perigosa. Segundo ele, lá eram muito comuns as gangues de imigrantes indonésios que iam pra Malásia em busca de melhores condições de vida. Além disso, me orientou a ser especialmente cauteloso na escola. Ele disse pra eu ter cuidado com muitos estudantes de origem indiana, pois muitos deles eram más companhias, formavam gangues e gostavam de arrumar encrenca. Posteriormente, D. Nooriah também me orientou nesse sentido, dizendo que era preciso ter cuidado com os indianos. A princípio fiquei confuso: como poderia um indiano e a esposa de um indiano me orientar a ter cuidado com os indianos? Só fui compreender melhor oito anos depois, já no curso de história, quando descobri que havia brasileiros no começo do século XX que abominavam a mestiçagem e tudo o mais que não fosse puramente europeu. Mas essa é uma outra história.
Meus primeiros dias na Malásia foram dedicados a conhecer melhor a cidade onde eu morava. De carro, D. Nooriah me levou para vários lugares, mostrou-me a escola onde eu estudaria, a prefeitura, as praças e os melhores restaurantes. Me disse que eu me parecia com o ator de uma novela colombiana que passava todas as tardes na TV aberta e que cativava os telespectadores de todo o país, principalmente as mulheres. O nome dele na novela era Antônio. Quando assistíamos à novela juntos, ela me perguntava se eu conseguia entender o que eles falavam, e se era a mesma língua que se falava no Brasil.
Meu primeiro dia na escola foi memorável. Estudei na La Salle – uma escola que, só depois fui descobrir, tinha unidades até no Brasil. Na Malásia ela fora fundada por missionários ingleses, por isso era uma escola só para meninos. A recepção foi calorosa, principalmente por parte dos alunos. Não era comum ver estrangeiros em Klang, muito menos na escola e muito menos ocidentais. Minha primeira aula foi na biblioteca da escola. Lá fui bombardeado com milhões de perguntas sobre mim e sobre o Brasil. Achei um atlas bem completo, abri na página que mostrava mapas regionais do Brasil e apontei para a cidade de onde eu vinha – Lavras.
No primeiro dia de aula muita gente veio falar comigo. Um deles foi uma das criaturas mais insuportáveis que já conheci naquele país: um menino chinês que me convidava para ir à igreja dele. Ao longo de minha estadia, experimentei diversas situações embaraçosas com essa figura: sempre que ele me perguntava o que eu havia feito no final de semana e eu dizia que havia visitado algum templo budista ou algum templo hindu, ele se horrorizava. Ele me dizia que eu era cristão e que não podia ficar indo a esses lugares porque era pecado. Até quando eu disse a ele que tinha ido à igreja católica ele se indignou, dizendo pra eu não fazer mais aquilo – segundo ele, eu só podia ir à igreja evangélica. Isso sem falar no dia em que, na hora do lanche, ele me viu na cantina comendo com as mãos (algo bastante comum na Malásia, principalmente entre os malaios e indianos). Nesse dia ele novamente me chamou a atenção, dizendo que apenas os hindus e muçulmanos comem com as mãos, e que eu não podia comer com as mãos porque no Ocidente só se come com talher. Pois vejam só isso! Quer dizer então que após séculos e séculos “civilizando” os povos ditos inferiores, o homem ocidental chegou a um ponto no qual se vê necessitado do auxílio de um chinês para se civilizar? Talvez seja isso mesmo... O homem ocidental depositou tanta “civilização” sobre os demais homens que agora ele a recebe de volta, seja como uma forma de agradecimento, seja como uma forma de troco. Interessante que esse mesmo rapaz chinês ainda me causou outro constrangimento, dessa vez quando conversávamos na internet. Eu disse a ele que havia comprado um celular, e quando lhe passei o número ele ficou enfurecido. Disse que eu fiz besteira de comprar um celular, que eu devia ter falado com ele porque o amigo dele vendia celulares muito bons e muito mais baratos, e que eu havia jogado fora meu dinheiro com aquela compra... Não tive outra ação a não ser gentilmente pedir-lhe desculpas pelo meu erro crasso. Dado o tanto que ele lamentou por eu não ter comprado o celular do “amigo” dele, só pude concluir que ele ganharia uma parcela generosa na venda do equipamento. Afinal de contas, o malásio de origem chinesa era tão ocidentalmente civilizado que conseguiu assimilar até mesmo a ânsia mercantilista por lucro dos primeiros mercadores lusitanos que atracaram na China.
Mas essa foi só uma das muitas amizades estranhas que fiz nesse estranho país.
Como fiz intercâmbio pelo Rotary, eu era quase que naturalmente obrigado a participar de todos os eventos relacionados a essa instituição, principalmente as reuniões nos Interact Clubes das várias escolas (Interact é algo tipo o Rotary, mas para jovens, e as principais escolas de Klang tinham um). Em um desses muitos eventos, os membros do Interact de uma escola que eu visitava começaram a me sabatinar durante uma conversa bem informal na sede deles. Conversa vai, conversa vem, surge uma pergunta crucial: “Mas então, Marcelo... Você já disse o que admira na Malásia. Agora diga-nos: o que não te agradou aqui?” Fiquei sem jeito. Não sabia o que falar nem como falar. Eles perceberam meu desconforto e pediram que eu não me preocupasse, pois eles tinham a mente bem aberta e não ligariam de ouvir quaisquer críticas que eu tivesse a fazer. “Pois bem...” pensei eu ingenuamente, “se é assim, serei sincero”. Disse-lhes então que eu havia ficado desconfortável com o fato de a Malásia ser um país com uma sociedade bem diferente da brasileira, e que por isso não me sentia livre para falar de certos assuntos que no Brasil eu falaria com mais desenvoltura, como política, religião, sexo e outros temas mais delicados. A palavra “sexo” ecoou de forma macabra no recinto. De repente, todos aqueles jovens “de mente bem aberta” ficaram desconcertados, sem jeito e sem ação. Uma menina apenas se resumiu a dizer “Então... geralmente nós não falamos sobre sexo...”. Eu também fiquei sem ação. Não me lembro direito como tudo isso acabou. Só sei que trocamos e-mails e números de celular ao fim da reunião, e um dos presentes, um rapaz indiano, meio que se compadeceu de mim. Poucos dias depois recebia um e-mail dele perguntando se eu queria ser o melhor amigo dele. Achei melhor não responder, afinal de contas, nunca alguém me havia perguntado isso. Ele também me disse que se quisesse falar sobre sexo com ele, ele não teria problemas com isso. Aliás, acredite ou não, ele até me mandou alguns links de sites pornográficos, talvez com a finalidade de suscitar argumentos para nossas futuras discussões. Só sei que, depois dessa parei de responder os e-mails dele, não porque tivesse medo ou vergonha, mas única e simplesmente porque não sabia o que escrever.
Tive outra experiência desagradável quando perguntado acerca do que eu não havia gostado na Malásia, mas falarei sobre ela em outra postagem. No final das contas, ficou a lição: se te perguntarem do que você não gosta da Malásia, apenas fale do calor insuportável e encerre a discussão. Todos eles acharão lindo e ao fim você não arranjará um amigo que confunde falar sobre sexo com assistir pornografia.
Assinar:
Postagens (Atom)