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sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Da casa engraçada à USP - Meus 28 anos

Hoje, 29 de janeiro de 2016, completo 28 anos de idade.

Durante muito tempo, aniversários significaram para mim uma época para comemorar e ganhar presentes. Hoje, por outro lado, vejo o aniversário como um momento para recordar. Recordar e escrever. Principalmente tendo em vista que me encontro em uma fase da vida na qual tenho verdadeiro horror de estar em qualquer lugar ou evento no qual eu seja o centro das atenções. Daí minhas comemorações de aniversário tornarem-se cada vez mais escassas e discretas.

Neste ano de 2016, queria escrever um texto nos moldes do que escrevi em 2014, em ocasião dos meus 26 anos. Infelizmente não consegui. Aquele continua sendo um dos mais brilhantes resumos que já fiz de minha vida até o momento. Mesmo assim não me dei por vencido e resolvi escrever este outro texto, comentando experiências e reflexões que me esqueci de mencionar há dois anos atrás e reafirmando outras tantas.

Como bom historiador, sei que a história que se narra está articulada à história que se vive. A forma como o homem do Renascimento via o mundo medieval dizia muito mais sobre o próprio período renascentista do que sobre a Idade Média. De forma análoga, a leitura que os integralistas brasileiros faziam do Brasil colonial, se nos serve como ótima fonte de informação sobre o pensamento político brasileiro dos anos 1930, pouco nos diz sobre o período colonial de fato.

Também como todo historiador, sei que a história é feita de recortes, de seleções. Jogar luz sobre este ou aquele evento histórico implica deixar no escuro outras tantas passagens. É impossível abocanhar toda a história de uma só tacada. A história é como um imenso e interminável mosaico do qual o historiador sempre conseguirá captar apenas alguns dos quadros. Cabe ao historiador, portanto, a elevada responsabilidade de escolher cuidadosamente quais quadros receberão luz alta e quais ficarão em luz baixa, bem como justificar os motivos para essas escolhas.

É por isso que, apesar de concordar com a iniciativa, acho tão problemática a lei que torna obrigatório o ensino de história da África nas escolas brasileiras (Lei Nº 10.639 de 9 de janeiro de 2003). Não a lei em si, mas a forma como ela vem sendo aplicada. Em um vasto livro didático, totalmente dividido de acordo com os padrões temporais europeus (Antiguidade, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea), eis que surge, não mais que de repente, um capítulo anômalo, enfiado às pressas no meio dos demais apenas para cumprir a lei, intitulado “História da África”.

Em que consiste?

Em milhares de anos da história de um dos mais vastos e diversificados continentes do planeta. Resume-se, neste humilde capítulo, uma extensão temporal e cultural tão ou mais abrangente do que aquela dedicada ao continente europeu ao longo de todo o livro didático. O aluno, até então imerso em uma visão eurocêntrica da história, de repente se depara com um capítulo intitulado “História da África”. É como se de dentro do livro pulasse alguém e dissesse: “Interrompemos nossa programação para dizer a você, em conformidade com a lei 10.639, que existem alguns povos exóticos num continente estranho que merecem a sua atenção; dentro de instantes voltaremos à nossa programação normal”.

Isso mesmo: “à nossa programação normal”. A História Europeia é a normal. Reforça-se, portanto, justamente o estereótipo que a referida lei – creio eu – quer destruir: a do estranhamento em relação à África e às suas populações.

Pior do que isso. Da forma como a lei vem sendo implementada, apela-se à identificação, um dos recursos mais eficientes de exercício do poder simbólico. Sabe por que nunca veremos um capítulo de livro didático intitulado “História Europeia”? Porque não é necessário dizer que aquele capítulo se trata da história do continente europeu – isso já está implícito. Não é necessário identificar que falamos da Europa quando falamos em “Idade Média” ou em “Período Contemporâneo”, pois estamos usando como parâmetros marcos temporais europeus.

Ou seja: o simples fato de precisarmos identificar um capítulo como sendo de história africana já demonstra que a História da África permanece, para pegar uma expressão emprestada a Bourdieu, um “excluído no interior”. Ela está inserida, mas em condições diferentes (i. e. inferiores) às dos demais. Fazendo uma analogia tosca, mas ainda assim válida: já pararam para pensar por que os sites norte-americanos dispensam o .us no final e só os endereços dos demais países devem identificar a procedência (brasileiros levam o .br, os japoneses o .jp e assim por diante)? Ou já pararam para pensar por que, na Alemanha nazista, apenas os judeus – mas nunca os ditos “arianos” – precisavam andar com uma estrela costurada à roupa para se identificarem?

Mas isso é assunto para outra discussão.

Baseando-me nessas duas constatações – 1. A história que se faz é indissociável da história que se vive e 2. A história é feita de recortes e seleções – buscarei aqui ressaltar não apenas quaisquer memórias que eu tiver de minha vida, mas aquelas que, por um motivo ou outro, me tocam mais fundo até os dias de hoje.

Acredito que uma das lembranças mais antigas que tenho é uma que data dos meus três ou quatro anos de idade, na escola. A professora colocou para tocar, num disco de vinil, aquela música do Vinícius de Moraes: “Era uma casa / Muito engraçada / Não tinha teto / Não tinha nada...”. Depois, pediu para que nós desenhássemos, numa folha de papel, a casa à qual a música fazia referência. Adorava desenhar. Pensei então em começar pelo piso, mas aí lembrei que a casa não tinha chão. Então pensei em começar pelas paredes, mas me lembrei que ela também não tinha parede. Foi aí que decidi começar pelo teto, para em seguida me lembrar que ela também não tinha teto. Só então percebi que não havia jeito de desenhar a bendita casa, já que ela “não tinha teto / não tinha nada”. Acho que essa foi uma das primeiras frustrações da minha vida. Mas como eu não podia contrariar os desígnios da professora, acabei desenhando uma casa toda torta, mas com as paredes, portas e teto, em flagrante contraste com o que a música propunha.

Mais de vinte anos se passaram e até hoje ainda não consigo imaginar uma maneira de desenhar a referida casa. Há quem diga que ela se resumisse a um amontoado de telhas, portas e janelas jogadas sobre um terreno baldio. Mas um amontoado de telhas, portas e janelas por si só não constitui uma casa. O que constitui a casa é a forma como esses elementos interagem. Olhando para trás, acho curioso como uma professora pode propor isso a seus alunos. Como ela pode tocar uma música que fala de uma casa tão enigmática, tão abstrata, e ainda esperar que seus jovens alunos consigam representar essa casa por meio de um desenho.

Com o passar dos anos, fui percebendo que a postura de minha professora da pré-escola não era um caso assim tão isolado quanto eu supunha. Ela apenas expressa um traço marcante de nosso sistema educacional. Querem que representemos, com um desenho numa folha de rascunho, uma casa que não pode ser concebida nem na imaginação. De forma análoga, querem que interpretemos um poema de extrema complexidade, escrito por um autor na penúria, tuberculoso e farto de desilusões amorosas (provavelmente nem ele mesmo sabia o que estava dizendo ao escrever tais linhas); querem que expliquemos as causas da Segunda Guerra Mundial (como se isso fosse algo tão tranquilo como apontar pra que lado fica a padaria mais próxima); querem que analisemos a rivalidade Israel-Palestina. E tudo em míseras 5 ou 10 linhas, como se questões de extrema complexidade, que há anos vêm sendo trabalhadas, coubessem em espaço tão exíguo.

Meu empenho descomunal em desenhar a casa engraçada de Vinícius de Moraes não se perpetuou ao longo de minha infância na escola. Nos primeiros anos, fui um aluno relapso e desinteressado. Odiava a escola mais que tudo e não conseguia entender como havia políticos que faziam campanha na televisão propondo construir mais escolas. Quando, em uma de minhas muitas desventuras em sala de aula, a diretora veio conversar comigo para dar uns puxões de orelha, entre um esporro e outro ela me disse que havia meninos que não frequentavam a escola, que ficavam à toa na rua ou ajudando o pai na roça, e perguntou se eu queria ser como eles. Na hora senti uma inveja corrosiva desses tais meninos. “Devem ser os meninos mais felizes do mundo!”, eu pensei.

Curiosamente, muitos e muitos anos depois, quando já trabalhava de monitor no Bernoulli, uma aluna a quem atendi comentou que em Esparta devia ser melhor ser pobre do que ser da elite, já que apenas os meninos da elite se submetiam a um sistema educacional ferrenho e militarmente conduzido, ao passo que os meninos mais pobres não tinham essa obrigação. Disse então a ela que, enquanto ela estava enfurnada naquele cursinho estudando loucamente para passar em medicina, milhares de meninos da periferia estavam jogando bola na rua ou empinando pipa, e perguntei qual dos dois ela preferia ser.

A fim de tornar a escola menos insuportável, tentava achar válvulas de escape. Então eu ria, brincava fazia piadinhas... Tudo para fugir daquela realidade intragável. Na minha escola, o castigo para os alunos travessos costumava ser ficar sem recreio. No meu caso, o índice de reincidência era tão alto que minha professora resolveu simplificar e me deixou de castigo no atacado: um mês inteiro sem recreio. Um mês para um adulto passa num piscar de olhos, mas para uma criança impaciente de apenas sete anos era quase como um semestre inteiro. Era angustiante ir todos os dias para a aula sabendo que eu não poderia brincar na hora do recreio, especialmente tendo em vista que o recreio era uma das poucas coisas que ainda salvavam o ambiente escolar. Tanto que, quando um parente distante certa vez veio nos visitar e me perguntou o que eu mais gostava na escola, respondi, sem titubear: “a hora do lanche, a hora do recreio e a hora de ir embora”. E de fato, era isso mesmo. Não estava brincando e não entendi quando começaram a rir de minha resposta.

Passado um mês de minha reclusão, quando finalmente pude voltar a respirar a liberdade do recreio, minha alegria durou pouco. Na volta para a sala de aula aprontei mais alguma palhaçadinha da qual nem me recordo mais. Foi o suficiente para minha professora me presentear com mais um longo mês sem recreio. Dois meses seguidos sem recreio. Até hoje me lembro bem de como ela rabiscava o calendário com caneta hidrocor para marcar direitinho minha “pena”.

Não me lembro de ter ficado sem recreio por tanto tempo assim novamente. Minha aversão à escola, porém, não mudou muito, principalmente às aulas de matemática. Não consigo me esquecer de como eu ficava pilhado tentando resolver problemas incompreensíveis. Entre uma pausa e outra, quando eu já me dava por vencido, olhava para as fotos das pessoas nas revistas. Homens bem-sucedidos, mulheres ricas, atores, cantores, pilotos e esportistas... Será que todos passaram pelo que passei? Será que todos eles tiveram que resolver aquelas equações infernais para chegar aonde chegaram? Será que se eu resolvesse as malditas equações eu chegaria ao mesmo lugar em que eles estavam? Ou será que já era tarde demais para mim?

Acredite ou não, esses questionamentos me perseguiram até o ensino médio, quando se tornaram ainda mais provocativos.

Outra lembrança igualmente curiosa da minha infância foi de uma colônia de férias à qual fui com apenas oito anos de idade. A colônia foi sediada em uma fazenda aqui perto de Lavras, não me lembro exatamente onde. Foi amplamente divulgada em todas as escolas da cidade, de modo que reuniu uma meninada vasta, dos sete aos doze anos de idade.

Não consigo me esquecer de uma cena que se passou no primeiro dia, logo que chegamos à fazenda. Uma horda de uns trinta ou quarenta meninos e meninas saiu do ônibus com um ímpeto fervoroso, correndo pelo pátio que ficava logo à frente de uma velha casa na qual iríamos dormir. Uns brincavam, outros brigavam, outros conversavam alegremente e outros faziam piadas. Eu, porém, seja por timidez, seja por minha vasta experiência de dois meses seguidos sem recreio, contentei-me em ficar sentado em um banco de madeira observando tudo aquilo.

Passado um tempo, um dos monitores da colônia sentou ao meu lado. Era um jovem de seus dezoito ou dezenove anos de idade, provavelmente ávido por fazer um dinheiro extra pra financiar a viagem de janeiro porque não tinha passado no vestibular e ficou de mal com a família. Perguntou-me por que eu estava tão quieto ali no canto, sem interagir com ninguém. Não me recordo bem de minha resposta, mas lembro muito bem da tréplica dele: “Isso aqui é uma colônia de férias, você tem que se divertir!”. Disse mais uma ou outra coisa que nem me lembro mais. Quando percebeu que eu não iria mudar, levantou-se e foi embora.

Não consigo pensar nessa cena sem esboçar pelo menos uma risadinha interna, mas na época não achei a menor graça. Aliás, acho que esse é um dos traços mais marcantes do amadurecimento: rir de coisas que outrora nos deixaram confusos, nervosos ou angustiados. E penso que quanto mais cedo rimos dessas situações, mais rápido estamos amadurecendo.

A verdade é que eu me senti envergonhado e culpado com a frase do jovem monitor. Todo mundo se divertindo e eu lá, parado, contemplativo, imóvel. Todo mundo se divertindo, só eu que não. Senti como se estivesse sendo um fardo, um inconveniente. Ou, melhor ainda, como se estivesse usando um produto da maneira errada. “Isso aqui é uma colônia de férias, você tem que se divertir!” soava quase como “Isso aqui é um cacto, você tem que jogar pouca água!”, “Isso aqui é um carro manual, você tem que ficar atento às marchas!” ou “Isso aqui é uma panela de teflon, você não pode raspar o garfo!”.

A colônia servia para se divertir e eu não estava me divertindo. Que lástima!

Da mesma forma que a casa engraçada, esse episódio ainda mexe bastante comigo até os dias de hoje. Quantas vezes não vemos uma pessoa e, do alto de nossa arrogância, julgamo-la doente, deprimida ou problemática, ignorando que nós mesmos podemos estar muito mais necessitados de ajuda do que ela? Quantas vezes, em meio a uma festa onde todo mundo canta e dança, olhamos para aquela pessoa sentada e julgamo-la antissocial. Quantas vezes descobrimos uma pessoa que não bebe, não fuma e não usa drogas, e julgamos que ela tem que começar a beber, fumar ou usar drogas para se sentir bem. Quantas vezes vemos uma pessoa com um comportamento peculiar, porém inofensivo, ou com preocupações que nos são incompreensíveis e julgamos que ela precisa de um psicólogo. Quantas vezes vemos uma lésbica e julgamos que ela só é assim porque ainda não encontrou o homem certo (o mesmo podendo ser dito sobre os gays). E tudo por quê? Apenas porque nenhuma dessas pessoas corresponde a nossas expectativas. Porque nenhuma delas se diverte da forma como nós nos divertimos. Porque se eu só sei me divertir bebendo e fumando então fulano deve ser extremamente infeliz, já que não bebe nem fuma. Porque se eu só consigo sentir prazer com pessoas do sexo oposto, então gays e lésbicas devem ter uma vida sexual miserável, já que não transam com o sexo oposto.

Pobres de todos eles.

É costume, hoje, dizer que vivemos em uma sociedade doente. Eu acrescentaria ainda: vivemos numa sociedade doente na qual todos acreditam ser médicos. Ou melhor: vivemos numa sociedade na qual todos irão fazer o possível e o impossível para te convencer de que você está doente e de que eles detêm a cura.

Até o momento em que o jovem monitor sentou-se ao meu lado eu estava me sentindo perfeitamente bem, fazendo aquilo que eu fazia melhor: sentar e observar. Depois daquele breve diálogo, senti-me perturbado. E o que é pior: sem necessidade alguma. Não culpo o rapaz: estava apenas fazendo seu trabalho. Mas cenas desse tipo se tornariam recorrentes na minha vida. Sempre que digo que não bebo acabo travando o mesmo diálogo, independente da pessoa com quem estiver tratando. Daria até pra fazer um pequeno roteiro: “Você não bebe? Sério? Nada? Tá tomando remédio? É por questões religiosas? Nunca Provou? Ah, mas você tem que ir bebendo aos poucos que com o tempo você acostuma. Precisa começar com umas bebidas de leve e depois vai evoluindo. No começo eu também não gostava”. Simplesmente não cabe na cabeça de certas pessoas que não gostar de álcool não é nem nunca foi nenhuma patologia que precise ser curada em doses homeopáticas. Que não gostar de álcool é tão comum como não gostar de bife de fígado ou de dobradinha (que eu, aliás, amo!).

Mas se vamos falar de memórias que ainda são atuais, por que não falar do PT?

Tendo nascido em 1988, passei a parte mais significativa da infância nos anos 1990. Já em fins da década, presenciei com assombro e desgosto a ascensão do PT. Não entendia muito de política, mas sabia que detestava o PT. Achava a retórica de Lula e dos militantes do partido bombástica e soberba. Sempre tive especial aversão a qualquer tipo de pessoa que se apresentasse como portador da verdade absoluta e que se achasse superior aos demais, e era exatamente assim que meus olhos de menino enxergavam os petistas. Era tudo muito gritado, muito fanático, muito espalhafatoso para mim.

Aliás, guardo até hoje comigo uma carta que escrevi na escola simulando ser um brasileiro vivendo num Brasil governado pelo PT no ainda longínquo ano de 2025. Redigi-a em 2000, quando o país ainda vivia sob o segundo mandato de FHC. O autor fictício da carta relatava coisas horrendas, como “a situação econômica aqui no Brasil está à beira da estaca zero”, “somos uma ditadura”, “estamos pior que Cuba”, “acabamos de sair de uma guerra com o Equador” e “Estamos sob uma perfeita ditadura e somos rondados por generais militares”.

Ditadura petista misturada com ditadura militar! Só mesmo na imaginação fértil de um garoto de doze anos para os mais horrendos temores da classe média brasileira andarem de mãos dadas com os sonhos dessa mesma classe média. Às vezes penso em publicar essa carta na íntegra em meu blog, mas sempre que começo a lê-la caio em risadas e dou pra trás de tanta vergonha que sinto. Aliás, na carta não há qualquer referência explícita ao PT. A professora pediu para tirar esse trecho porque o texto seria lido em público e poderia gerar insatisfação em simpatizantes do PT que pudessem estar na plateia. Ainda bem que isso se deu em 2000, pois se fosse hoje seria chamado de doutrinação marxista. Aliás, ainda bem que fui uma criança naquela época e não agora. Não é nem um pouco difícil imaginar essa minha cartinha da sexta série fazendo coro com a verborragia antipetista Made in Facebook. Seja lá como for, eu sim posso bater a mão no peito e dizer que já era antipetista way before it was cool.

Apesar dessa peripécia literária, nunca fui um ardoroso anticomunista em momento algum da minha juventude. Por vezes cheguei mesmo a considerar o comunismo algo salutar e necessário. E isso não porque conhecesse a fundo o ideário comunista, mas porque tendia a enxergar o mundo como uma grande sala de aula na qual os países capitalistas eram os alunos descolados e populares (pelos quais nutria repulsa) e os países comunistas eram os alunos rejeitados (pelos quais sentia mais afeição, apesar de nunca ter sido um no sentido estrito do termo).

Mas nem só de dilemas bizarros foi feita minha infância. Ela também foi marcada por horas a fio na frente da televisão assistindo à finada TV Manchete. Ficava de olhos vidrados na programação matinal porque adorava os seriados japoneses de Live Action, mais conhecidos como Tokusatsus. Jaspion, Jiraya, Jiban, Changeman, Flashman, Kamen Rider, Cybercops, Winspector e Solbrain eram alguns dos principais seriados de vinte ou trinta minutos que exibiam aventuras de super-heróis japoneses defendendo a Terra de forças malignas.

Atribuo a minha fiel audiência à emissora dos irmãos Bloch o fato de desde cedo nutrir profunda admiração pela cultura japonesa e, posteriormente, pela cultura oriental como um todo. Por muito tempo tive um respeito egípcio por chineses, coreanos e japoneses, enxergando-os como seres superiores. Quando passava férias em São Paulo observava-os admirado, como se esperasse que a qualquer momento fossem fazer ou dizer algo surpreendente, tal como nos seriados aos quais eu assistia. Passava horas em frente ao espelho puxando meus olhos com os dedos na ingênua esperança de me parecer com meus heróis. Lembro-me até de, certa vez, ter pedido a minha mãe para fazer uma cirurgia nos olhos para que ficassem esticados, iguais aos dos orientais.

Tamanha foi minha surpresa quando, visitando o Oriente pela primeira vez, durante meu intercâmbio na Malásia entre 2004 e 2005, me dei conta de que a recíproca era verdadeira, isto é: que também os orientais tomavam os ocidentais por superiores. Não por acaso, notava que alguns deles tinham um respeito excessivo por mim. Alguns temiam se aproximar e conversar e outros tantos tinham uma expectativa surreal em relação a mim, tão grande quanto aquela que eu nutria pelos japoneses de São Paulo.

Minhas aventuras e desventuras na Malásia estão narradas nos posts com a tag “Páginas de Combate”, bem como no meu outro texto de aniversário (“Do Consenso ao Crepúsculo – meus 26 anos – Parte II”). Limito-me aqui a expor apenas um episódio que acredito não ter comentado em outras partes e que é bastante ilustrativo desse lugar que os ocidentais ocupam no imaginário malásio.

É muito comum, entre estudantes das escolas da Malásia, torneios de debates, tanto em malaio como em inglês. Em uma sala de aula, duas mesas são colocadas frente a frente com três debatedores de cada escola em cada um dos lados. Na hora, sorteia-se um tema com uma pergunta acerca daquele tema. Sorteia-se também a posição que cada grupo deve defender: contrário ou favorável. Cabe aos alunos, ao longo de extensas exposições, defender os pontos de vista de seus grupos e rebater os argumentos adversários. E cabe a um grupo de professores avaliadores dar o parecer sobre quem venceu.

Pois fui convidado para assistir a uma dessas competições em uma escola de uma cidade não muito longe de Klang, onde eu morei. Na hora de as equipes participantes se registrarem, um de meus colegas me pediu para que os acompanhasse para fazer o registro. Respondi que isso não era necessário, já que era apenas mero espectador, ao que ele prontamente respondeu: “Eu sei, mas você precisa vir conosco para fazer o registro de nossa equipe, pois quando as outras equipes te virem acharão que tem um ocidental na nossa turma e se sentirão intimidadas”.

Atendi ao pedido sorridente, sem saber direito lidar com aquilo porque nunca havia experimentado situação semelhante – e espero nunca mais experimentar. Como já era de se esperar, a estratégia não funcionou e a equipe de minha escola perdeu.

Foi só então que percebi que a estratégia de puxar os olhos era completamente inútil e até prejudicial. Quem gosta do Oriente e de orientais deve ser o mais ocidental possível a fim de conquistar sua admiração. Lembro-me da cena de um filme bem antigo (“Minha doce gueixa” ou “Minha querida gueixa”) no qual um diretor de cinema ou de teatro norte-americano viaja para o Japão a fim de procurar por uma gueixa para sua mais nova produção. Foram-lhe apresentadas algumas japonesas de inglês impecável que sabiam cantar, dançar, improvisar e atuar, tudo no melhor estilo rockabilly norte-americano dos anos 1950. Mulheres modernas, ocidentalizadas e que orgulhavam-se de sê-lo. O diretor agradeceu a presença delas, mas depois que se foram mostrou-se profundamente decepcionado. Ele não queria japonesas de estilo americano, queria japonesas tradicionais, queria uma gueixa que se comportasse exatamente como as gueixas de séculos atrás.

Parece ser esse um dos grandes dilemas do mundo globalizado: orientais querendo ser ocidentais para se sentirem integrados aos valores com os quais são sistematicamente bombardeados pela mídia (cremes para embranquecimento da pele são um sucesso de vendas na Malásia, por exemplo); por outro, ocidentais embriagados de cosmopolitismo procurando orientais que ainda preservem as raízes de sua cultura. É um jogo de soma zero: os orientais não compreendem por que cargas d’água homens brancos querem saber de ritos milenares ancestrais que nem eles mesmos conhecem direito, e os ocidentais se estranham ao verem orientais imitando o American Way of Life. No final das contas, todos se frustram e ninguém se entende. Não se trata mais, como nos velhos tempos, de minha cultura contra sua cultura. Trata-se de eu tentando me inserir no seu universo cultural e você tentando se inserir no meu universo cultural quando, na verdade, a minha expectativa é que você fosse fiel às suas tradições e vice-versa.

Demorei a entender esses novos conflitos do mundo globalizado. Se os tivesse compreendido com antecedência, penso que minha estadia na Malásia teria sido muito menos conflituosa. Enquanto meus colegas me bombardeavam com perguntas sobre Ronaldo no Real Madri, o carnaval carioca e o apetite sexual das mulheres brasileiras, eu lhes devolvia perguntas sobre peregrinação em Meca, deuses hindus e literatura chinesa.

Meu intercâmbio na Malásia foi, sem sombra de dúvida, o período de minha via no qual mais amadureci. Após um ano em terras longínquas, foi a vez de voltar ao Brasil. Chega de utopias orientais, de visitar templos budistas, rezar em templos hindus e admirar mesquitas. Era hora de encarar a realidade; era hora de encarar o vestibular. Após duas escolhas malsucedidas de cursos – dois períodos de Relações Internacionais intercalados por um período de Ciências Sociais no meio – finalmente me encontrei no curso de História. E aqui novamente apareceu – e continua aparecendo às pencas – toda uma nova horda de supostos médicos tentando me convencer de que estou doente. De que não tenho nada a ganhar num curso repleto de gays, lésbicas, maconheiros, doutrinadores comunistas e ciclistas. Não se trata, é claro, de pessoas que dizem isso explicitamente, com todas as palavras. Não. Ninguém mais se prestaria a esse ridículo nos dias de hoje. Trata-se sim de todo um arsenal de chavões, valores e ideias difundidos pelos mais variados meios (TV, internet, memes, redes sociais, conversas pessoais e via Whatsapp, etc.) que dia após dia tentam, numa insistência religiosa, convencer-me de que eu não devo cursar História, depender do transporte público e usar roupas sóbrias, mas sim cursar Engenharia, me matar para comprar um bom carro e usar roupas de marca, tudo a fim de perpetuar a espécie (“pegar mulher”, no jargão popular).

Não. Todo esse aparato belicoso nunca me abalou, ao contrário do que podem pensar. Se os exponho aqui nesse texto não é para me queixar deles. Não escrevo para lamentar. Se os exponho aqui é unicamente para medir o seu ridículo. Para mostrar a mim mesmo, de forma clara, que não é coisa digna de ser levada a sério.

Entrei na universidade pela primeira vez em 2007, sedento por participar de movimento estudantil, manifestações, eleições de DA e DCE. Foram precisos poucos meses na universidade para perceber que aquela definitivamente não era minha praia. Passar em salas dando recados, debates de chapas, distribuição de panfletos para campanha e organização de protestos de rua eram atividades que me enfastiavam e me desgastavam facilmente. Apesar de ter cursado no mínimo um período em três cursos de humanidades (dois deles na UFMG), nunca tive sequer um professor que pudesse se encaixar no tipo ideal de “doutrinador comunista do MEC”. Aliás, lembro-me apenas de dois professores que exerceram, de forma sistemática, em suas aulas, aquilo que os escandalosos de plantão atribuem aos professores comunistas. Um deles foi um professor de Introdução à Economia, no primeiro período do curso de Ciências Sociais, extremamente cruel na hora de atribuir notas a qualquer aluno que não se mostrasse ardoroso defensor do liberalismo econômico nas provas, além de nos entupir até a testa com leituras de autores alinhados com essa posição. O outro foi um professor do curso de História que subtraía generosos pontos de qualquer aluno que, de alguma forma, falasse mal da monarquia brasileira em seus trabalhos, bem como das figuras proeminentes do Império. Essa foi, portanto, a única doutrinação que tive no ensino superior: um neoliberal e um monarquista.

Foi preciso chegar até o mestrado na USP para finalmente encontrar um professor que exercesse a tal doutrinação comunista tão alardeada nos dias de hoje. E foi com muita satisfação que lá cheguei, não só pela satisfação de estudar na USP e dar continuidade aos meus estudos em História, mas também pelo prazer mudar de ares. Após sete anos (com duas interrupções de um semestre cada) vivendo na provinciana Belo Horizonte, mudar-me para a cosmopolita São Paulo teve um efeito libertador. Parece até que me reencontrei com meus velhos heróis de infância: os poderosos orientais. Eles estão por toda a parte! E por mais que há muito tempo eu já não os cultue com a devoção de antes, é sempre bastante nostálgico passear por uma cidade na qual passei algumas boas férias durante a minha infância.

Hoje, no limiar dos 28 anos de idade, confesso que não tenho muitas ambições quanto as que eu tinha na infância. E isso não por ter desanimado da vida ou não confiar em meu potencial, mas simplesmente porque percebi que preciso de muito menos para ser feliz. Não quero mais ter olhos puxados, apesar de ainda nutrir imensa simpatia pelo Extremo Oriente e principalmente pelas pessoas de lá. Não é à toa que, em meu segundo intercâmbio, na Alemanha (2011-2012), fiz mais amizades com coreana(o)s do que com alemães. Também não quero mais viajar o mundo e conhecer países porque descobri que detesto aeroportos e morro de medo de viajar de avião.

Meu sonho maior, neste momento, é tornar-me um professor de História em alguma universidade pública de qualquer lugar do país. Nada mais que isso. Alguns podem até achar esse sonho demasiadamente pretensioso. Quantas vezes ao longo da minha trajetória ouvi, vindo das mais diversas pessoas, que ser professor universitário é para poucos, que isso é muito difícil, que é um meio muito hostil e que apenas poucos conseguem. Nunca entendi se as pessoas emitiam esses alertas para desanimar os futuros candidatos ou apenas pelo prazer de serem inconvenientes. A verdade é que eles nunca me abalaram, e nem há motivos para tal. Há várias universidades no Brasil que necessitam do trabalho de professores de História. Então, por que não eu? Por que passar a vida me conformando em fazer aquilo que não quero enquanto vejo pessoas iguais a mim, com a mesma formação, as mesmas oportunidades e as mesmas capacidades que eu, sendo aprovadas em concursos nos quais tenho plenas capacidades de passar? É preciso uma mentalidade muito tacanha para pensar de outra forma.

É isso o que quero pra mim nesse momento. Não quero ser famoso. Aliás, já fico assombrado só de pensar na possibilidade de ser famoso, seja por maus ou por bons motivos. Como já disse: tenho pânico de ser o centro das atenções. A única fama à qual eu poderia almejar hoje é uma fama póstuma. Aliás, creio que seja esse o motivo principal que me leva a escrever: a possibilidade de me perpetuar de alguma forma, uma vez que não quero ter filhos e que o futuro não parece muito promissor para árvores. Escrevo para que, daqui a uns cem ou duzentos anos, alguém – de preferência um historiador despreocupado – possa acessar meus textos, seja lá de que maneira for, e pensar: “Olha! Então é assim que vivia um brasileiro no começo do século XXI... Eram essas as aflições e angústias de um homem do começo do século... Era assim que se escrevia no ano de 2016...”.

Se um dia isso acontecer, nem que seja no formato de uma simples nota de rodapé, onde quer que eu me encontre, me sentirei mais célebre do que o mais cultuado jogador de futebol da história das copas.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Do consenso ao crepúsculo: meus 26 anos - parte 1

Certa vez li, em algum lugar, que precisamos pensar se a criança que nós fomos um dia teria orgulho de nós se nos visse hoje. No meu caso creio que essa resposta seria negativa. Se eu, aos 9 ou 10 anos de idade, soubesse que no futuro eu viraria um professor de história, acho que cairia duro no chão, tamanha a amargura da qual seria tomado. Mas isso não importa. Até porque também não tenho lá muito orgulho da criança que eu fui. Creio que nossas expectativas e nossos conhecimentos vão mudando ao longo dos anos, de modo que aquilo que para nós era uma prioridade passa a ser superficial e vice-versa.

Nasci em um dia 29 de janeiro do ano de 1988. Sou daquela feliz geração que não temeu o holocausto nuclear da Guerra Fria nem viveu a inflação. A União Soviética sempre foi tão distante de minha realidade quanto a Alemanha nazista, e a Ditadura Militar tão distante quanto o Estado Novo. Parece que nasci em um mundo e em um país já prontos, aconchegantes, com tudo arrumadinho para que eu já fosse chegando e me acomodando. Vivi meus primeiros anos em um país democrático, com eleições regulares; era novo demais para entender a inflação e os escândalos do governo Collor. Quando comecei a me entender por gente, essas pendências já haviam sido resolvidas.

Ruim de matemática que sempre fui, fiquei aliviado quando, aos seis anos de idade, me deparei com uma nova moeda, com menos zeros, menos números e, consequentemente, mais fácil de calcular (fiquei tão desacostumado com vários zeros nas notas que, há uns anos atrás, ao visitar a Hungria, enfrentei sérios problemas ao lidar com o dinheiro de lá). Creio que a única lembrança que tenho da inflação foi passear com minha avó pelo supermercado lá pelos idos de 1992 ou 1993 e ver os funcionários remarcando preços compulsivamente. Minha avó reclamava: “olha aí, todo dia os preços aumentam!”.

Vivi em um mundo sem o Muro de Berlim, sem Brejnevs e Gorbachevs; nasci sob a égide do consenso de Washington, que nos assegurava que dali pra frente tudo ia ser diferente. Com tanta placidez e tranquilidade, nem parecia que somente alguns anos me separavam da era dos extremos, com suas bombas, ditaduras, guerras e revoluções.

Graças a tudo isso, estudar história sempre me pareceu um exercício de penosa imaginação. Era difícil entender que aquele mundo tranquilo e pacífico no qual eu vivia já havia sido, há poucos anos atrás, tomado por tanto ódio e sangue quanto os livros e documentários insistiam em dizer. Não poucas vezes me peguei pensando, ao longo dos 1990, por que eu não via tanques de guerra nas ruas, por que eu não via bombas caindo na minha cidade, por que todo mundo podia falar o que quisesse sem ser preso, por que os políticos de então eram tão diferentes daqueles carrancudos de farda que haviam dominado grande parte da cena política do século XX.

Uma das lembranças mais remotas que tenho da minha infância é a de assistir ao noticiário do Jornal Nacional sobre a Guerra do Golfo, em janeiro de 1991. É claro que não entendia nada daquilo tudo, mas me lembro que o nome “Saddam Hussein” ficou marcado na minha cabeça, embora eu só soubesse pronunciar “Sadão Mussein”. Como não sabia direito o que aquela expressão significava, dei o nome de “Sadão Mussein” a todos os soldadinhos de plástico que eu tinha. Também me recordo vagamente do noticiário do Jornal Nacional de 1992 acompanhando a crise no governo Collor. Tanto é que por muitos e muitos anos, até minha adolescência, sempre que se falava em “Fernando Collor” a primeira imagem que me vinha à cabeça era a do William Bonner. Demorou um pouco até que meu inconsciente pudesse separar as duas pessoas – ainda que a imagem da Rede Globo e de Fernando Collor sejam eternamente inseparáveis.

Lembro-me da primeira nota de real que ganhei. Era aquela de um real, que hoje nem existe mais. Foi dada pelo meu avô no dia do jogo Brasil X EUA na Copa de 1994. Aliás, acho que minhas primeiras lembranças mais marcantes datam de exatos 20 anos atrás, quando da realização da Copa do Mundo nos Estados Unidos. Essa foi a primeira Copa à qual assisti, ainda que com meus seis anos de idade eu não pudesse entender muito bem o funcionamento do torneio. De alguns jogos eu me lembro bem (Brasil X Camarões, Brasil X Suécia, Brasil X EUA, Brasil X Holanda, Brasil X Itália e até Alemanha X Coreia do Sul!). No entanto, sempre achei jogos de futebol (assim como filmes) muito longos e cansativos, de maneira que em muitos desses jogos eu preferi me ausentar da sala de televisão na maior parte do tempo para ir fazer outras coisas.

E por falar em copa, nas três primeiras copas que acompanhei, vi o Brasil chegar a três finais seguidas e vencer duas delas. Sempre achei que as partidas de futebol fossem como os filmes, nos quais o bem sempre vence no final – sendo que no futebol o “bem” seria a seleção brasileira. Coincidência ou não, o Brasil venceu em 1994, e eu sinceramente não saberia calcular o tamanho do trauma que eu teria se o Brasil tivesse perdido. Acho que ver o Brasil perdendo um jogo equivaleria a ver um super-herói morrendo e o filme terminando com a vitória do vilão. É o tipo de coisa que eu acho que jamais conseguiria processar direito. Mas, felizmente, eram os anos 1990: tudo ia bem, tudo dava certo. Na minha cabeça de menino, tudo só podia dar certo, não havia outra alternativa. E da mesma forma que eu demorei a entender que o Brasil havia vivido a maior parte de sua história sob regimes repressores, também demorei a entender que o Brasil havia perdido todas as copas nos últimos 24 anos. Não conseguia compreender como meus pais, tios e avós assistiam a uma Copa do Mundo sem o Brasil ser campeão ou finalista.

Aos oito anos de idade, assistindo a um programa na TV, fiquei conhecendo uma das figuras mais aterrorizantes de minha infância. Seu nome era Nostradamus: um francês que fazia previsões sobre o fim do mundo. Estávamos no ano de 1996, e à medida que o ano de 2000 se aproximava, os ânimos se agitavam em várias partes do globo, anunciando o fim do mundo, catástrofes naturais e todo tipo de tragédias. Por alguns momentos eu tive uma pequena amostra do que meus antepassados deveriam ter vivido nos tempos do holocausto nuclear. Conversando sobre isso com minha avó um dia, ela me disse que eu não precisava me preocupar, pois esses assuntos eram coisa de gente grande. Obviamente não fiquei convencido por essa resposta, afinal de contas, eu sabia que se o mundo fosse acabar iria acabar pra todos: adultos e crianças.

Aos nove anos, comecei a me interessar por religiões. Por algum motivo, o cristianismo não me atraía, principalmente o catolicismo. Achava o ambiente da igreja católica extremamente pesado. Morria de medo de imagens de santos e a figura do Cristo crucificado e ensanguentado me causava mal-estar. Foi então que comecei com meus planos de me tornar um monge budista. Não me lembro bem o que me levou a interessar-me pelo budismo. Parecia que a tranquilidade dos ensinamentos budistas contrastava com as inúmeras pragas, guerras e castigos que pululavam nas páginas da Bíblia. A placidez dos monges e dos mosteiros figurava para mim como um refúgio diante da dureza das palavras do pastor (cheias de reprovação e pessimismo), e também diante dos cultos da igreja, marcados por uma cantoria insuportável.

Vindo de uma família protestante por parte de pai, é claro que minha nova ambição não teve uma recepção nada amigável. Entre meus amigos também a recepção não foi das melhores: muitos deles diziam que eu não iria chegar a lugar nenhum com isso. Um colega meu de judô à época me ironizou, dizendo que ele iria ser médico e ganhar muito dinheiro, e iria comprar uma moto Suzuki, sendo que eu não iria ter dinheiro algum, pois ia ser monge, e monges vivem de esmola. Outros tantos apenas se limitavam a dizer que monges não podiam namorar, e que por isso eu ia passar a vida toda sozinho. Desnecessário dizer que essas pataquadas nunca abalaram minha confiança, afinal de contas, casar-me e ter carros importados nunca foram prioridades para mim durante minha infância. Do outro lado da família, meus planos foram recebidos com um pouco mais de entusiasmo, especialmente pelo meu tio-avô, o escritor – e ex-pastor – Rubem Alves que, inclusive, até me presenteou com algumas fotos e reportagens sobre Sidarta Gautama.

Aos dez anos vi minha segunda Copa do Mundo. Foi nessa Copa que aprendi que as partidas de futebol não são como os filmes de ação, mas sim como a vida: às vezes o vilão vence no final. E, enquanto eu via as imagens da multidão em polvorosa no Stade de France após o jogo da final, aprendi que não existem vilões no mundo, apenas heróis. O problema é que quase todos os heróis estão ocupados demais tentando acusar uns aos outros de vilões, de modo que não lhes resta tempo para salvar o mundo.

Não sei ao certo se foi antes, depois ou mais ou menos simultaneamente aos tristes eventos de julho de 1998 que eu comecei a ensaiar um arremedo de insurreição contra aquele mundo arrumadinho e aconchegante do pós-89 no qual eu havia crescido. Sob o influxo das imagens da final da Copa do Mundo, comecei a enxergar com outros olhos os heróis e os vilões da minha infância. Crescendo sob a sombra do consenso de Washington, havia aprendido que os americanos e europeus eram os bons, e que o resto do mundo estava dividido entre aqueles que eram inimigos dos europeus e americanos, e aqueles que deveriam ser gratos aos europeus e americanos por tê-los livrado desses inimigos. Acontece que, em dezembro daquele mesmo ano de 1998, o então presidente dos Estados Unidos Bill Clinton mandou bombardear o Iraque em pleno Ramadan, acusando Saddam Hussein de não cooperar com os inspetores de armas da ONU. Foi a operação “Raposa do Deserto”.

Atônito, eu assistia, pela TV, às imagens que chegavam dos bombardeios. Os sons das bombas se misturavam aos alto-falantes das mesquitas que chamavam os fiéis para as orações e compunham uma melodia infernal. Diante daquilo tudo, eu sentia raiva. Raiva dos Estados Unidos por bombardearem um país à revelia de tudo e de todos. Raiva por saber que muitas pessoas inocentes morriam sob aquelas bombas. Raiva por perceber que, no confortável mundo pós-89, os Estados Unidos podiam fazer o que bem entendessem, como bem entendessem, pois não havia ninguém de peso para impedi-los. Pelo visto, o exército norte-americano não era tão bonzinho quanto os filmes da Sessão da Tarde nos queriam fazer acreditar. Perguntei ao meu pai, revoltado, por que o Iraque não contra-atacava, e ele disse que os iraquianos não tinham poder de fogo para tal. Fui tomado por um sentimento de impotência. Viver sob o consenso de Washington foi se tornando cada vez mais penoso. Os iraquianos não eram vilões, como a mídia tentava mostrar, assim como também não eram vilões os índios dos filmes de faroeste. Os vilões eram justamente aqueles que sempre venciam no final dos filmes.

A partir de então, sempre que brincava com meus soldadinhos de plástico, traçava enredos nos quais os Estados Unidos eram fragorosamente bombardeados, como que em uma vingança pelo que haviam feito com outros países. Entre os alvos preferidos estavam a Casa Branca, o Pentágono e o Capitólio. Lembro-me até de ter começado a escrever uma história na qual uma coalização de países árabes se unia para atacar os Estados Unidos, mas meu projeto não foi adiante. Penso que essas eram as melhores formas que eu tinha de externar minha indignação com tudo aquilo. Guardo até hoje um infográfico que a Folha de São Paulo publicou à época sobre esse episódio. O infográfico trazia um mapa do Iraque com as regiões atacadas e duas bandeiras – a iraquiana e a norte-americana, esta última rabiscada por mim em um momento de desgosto.

No ano seguinte, em 1999, Saddam Hussein saiu de cena para dar lugar a Slobodan Milosevic, ditador sérvio acusado de cometer atrocidades contra minorias étnicas no Kosovo. E novamente os Estados Unidos tomaram as rédeas da situação, bombardeando a Iugoslávia com o apoio da OTAN e despertando a ira de Rússia e China, além da minha própria. Novamente me veio aquele sentimento de impotência, enquanto os jornais noticiavam todos os dias novas mortes de civis sob os ataques das forças da OTAN. Mais do que nunca, os norte-americanos me davam asco, nojo, repulsa. Tomado por um anti-americanismo pueril, comecei a hostilizar tudo o que viesse daquele país – e isso bem no auge das boy bands! Detestava os Backstreetboys, o N’Sync, as Spice Girls (afinal, a Inglaterra era cúmplice dos bombardeios no Iraque e no Kosovo), não só pela sua música, mas também porque eles eram símbolos do imperialismo cultural norte-americano. Ridicularizava minhas colegas de escola que ouviam essas bandas. Foi com muito custo que, nessa mesma época, meus pais conseguiram me matricular num curso de inglês, de onde eu certamente teria pedido para sair, não fosse a extrema facilidade que encontrei no aprendizado desse idioma.

Mas o tempo passou, o ano 2000 passou (para o meu alívio!) e chegou o ano de 2001. Nunca vou me esquecer de duas cenas nesse ano. A primeira delas foi um vídeo exibido pelo Jornal Nacional em fins de agosto ou princípios de setembro no qual o famoso terrorista saudita Osama bin Laden ameaçava os Estados Unidos. A segunda delas foi aquilo que, acredita-se, tenha sido a concretização dessa ameaça: os ataques de 11 de setembro de 2001.

Acho que essa foi uma das datas mais marcantes da minha vida. Minhas brincadeiras de soldadinhos, bombardeiros e tanques de guerra de plástico se tornavam reais bem em frente aos meus olhos. Os ataques aos Estados Unidos que eu tanto ensaiara com meus pequenos exércitos e pelos quais eu sempre torcia, para vingar sérvios e iraquianos, se concretizavam nas imagens que eram exaustivamente repetidas em literalmente todas as redes de televisão naquele momento. Não soube bem como reagir àquilo tudo num primeiro momento. Só fiz questão de memorizar detalhadamente tudo naquele dia: o que eu tinha feito, qual era meu dever de casa, quais tinham sido minhas aulas de manhã – tudo para, um dia no futuro, poder contar a alguém: “no dia 11 de setembro de 2001 eu fiz...”. Nunca, em toda a minha vida, eu tinha tido tanta consciência de estar vivendo um momento histórico.

Não vivi a era dos extremos, mas vi o que nenhuma outra pessoa que viveu naqueles anos jamais havia visto: os Estados Unidos sendo atacados em seu próprio território. E o mundo do consenso de Washington desabava ali, à minha frente, junto com as torres do World Trade Center. Era o crepúsculo dos deuses do século XXI. Antes mesmo que eu ouvisse qualquer jornalista especular sobre a autoria dos ataques, eu já dizia para mim mesmo, com toda a certeza, quem era o suspeito número um. Era ele, só podia ser ele: o mesmo responsável pelos ataques às embaixadas norte-americanas na Tanzânia e no Quênia em agosto de 1998; o mesmo responsável pelo vídeo que, há poucas semanas atrás, mostrava terroristas em campos de treinamento no Afeganistão e emitia mensagens de ódio ao “grande satã”.

Curiosamente, o caderno internacional da Folha de São Paulo daquele dia 11 de setembro trazia uma notícia sobre o assassinato de Ahmad Shah Massoud, o líder da resistência afegã ao Talibã. Fiz questão de guardar a edição do dia 12 de setembro, que trazia estampada uma enorme foto do World Trade Center em chamas e o seguinte chamado: “EUA sofrem maior ataque da história”. Tenho essa edição até hoje, mas dessa vez me abstive de vandalizar a bandeira americana.

Confesso que me senti parcialmente responsável por aqueles ataques. Foram tantos anos praguejando contra os Estados Unidos e brincando de ataques ao Pentágono e ao Capitólio, que eu não consegui acompanhar aquelas imagens sem um pingo de culpa. Senti-me como um cachorro que, correndo incansavelmente atrás de um carro, fica sem saber o que fazer quando o carro finalmente para. Eis que os símbolos do poder do país que eu mais odiava no mundo haviam sido atacados: os Estados Unidos passaram de agressores a agredidos, “colheram o que plantaram”, como eu mesmo disse à época. Mas não: eu não estava feliz.

Enquanto bombas caíam sobre o Afeganistão, o ano de 2001 passava e chegava o ano de 2002. Havia mais uma Copa do Mundo pela frente. Precavido pela Copa de 1998, assisti aos jogos com um pouco mais de cautela, pois havia aprendido que nem sempre as copas acabam bem. 2002 deve ter sido a Copa mais feliz que já vi, não só porque o Brasil venceu, mas também porque seleções até então pouco tradicionais conseguiram um desempenho notável em detrimento das seleções mais badaladas: o Senegal bateu a França, a Coreia do Sul eliminou Itália e Espanha. Lembro-me que fiquei fascinado pela seleção turca, que por duas vezes enfrentou o Brasil e por duas vezes quase venceu. 2002 havia sido, na Copa do Mundo, o que 2001 fora na geopolítica: os algozes viraram vítimas, e vice-versa.

E o impacto dos eventos de 11 de setembro continuava a se fazer sentir sobre mim como nunca. Como não tivesse muitas pessoas para conversar sobre o assunto na vida real, recorri ao único mecanismo pelo qual poderia externar minhas angústias e convicções: a internet. Antes do Facebook, do Orkut e de quaisquer outras redes sociais surgirem, a melhor alternativa para quem gostava de debates eram os fóruns. E havia-os dos mais variados assuntos. Inscrevi-me certa vez num fórum sobre história, que reunia, principalmente, pessoas de esquerda. Esse fórum saiu do ar por algumas vezes, até que um belo dia ele saiu do ar definitivamente. Os antigos membros dele construíram outro fórum em outro endereço. Com o tempo, porém, esse fórum foi ficando cada vez menos movimentado, até praticamente implodir por inanição. Foi quando descobri um outro: o fórum comunismo.com.br, muito mais movimentado. Diferente dos anteriores, porém, o comunismo.com era uma verdadeira Floresta Amazônica de posições ideológicas. Foi nesses fóruns que comecei a conhecer os posicionamentos políticos, a entender as diferenças entre a direita e a esquerda e a me comportar em uma discussão. O único problema é que no comunismo.com, mais do que debatedores sérios, o que mais se viam eram caricaturas. Os membros de esquerda eram, quase todos, stalinistas, maoístas e defensores da Coreia do Norte e do domínio chinês sobre o Tibet e Taiwan. A direita, por sua vez, reunia desde os entusiastas de Pinochet e da Ditadura Militar Brasileira até os sionistas fanáticos pró-Israel e defensores da família, da Igreja e da propriedade privada. E um ou outro nazifascista sempre ficava perdido em meio ao tiroteio. O mais engraçado nos debates é que direita e esquerda, capitalistas e comunistas, rejeitavam a paternidade do fascismo. Ambas brigavam entre si enfurecidamente, uma empurrando para a outra a responsabilidade por aquele rebento bastardo.

Tendo em vista que esses foram meus primeiros contatos com o debate político-ideológico, até hoje a visão que tenho da direita e da esquerda é mais ou menos marcada por tais estereótipos. Acho que vai demorar um pouco até desvaneçam essas visões caricaturais inculcadas na minha cabeça.

Em 2003, aos 15, candidatei-me a uma vaga no programa de intercâmbio de jovens do Rotary Club. Conseguindo o primeiro lugar na classificação, pude escolher o país, e optei pela Malásia. Poderia ter ido ainda para as Filipinas, o Canadá, os Estados Unidos, a Alemanha ou Austrália, mas não me arrependi de minha escolha. Duas coisas especialmente curiosas aconteceram ao longo de minha seleção para intercâmbio. A primeira delas foi que, em um dos primeiros processos seletivos que fiz para intercâmbio, a redação consistia de uma carta. Tínhamos que imaginar como seria nossa primeira carta enviada aos nossos pais no Brasil após um mês de intercâmbio nos Estados Unidos. Acontece que eu não queria fazer intercâmbio naquele maldito país imperialista, de modo que fiquei um bom tempo pensando o que eu escreveria naquela redação. Acho engraçado como eles já partem do pressuposto de que todo mundo quer fazer intercâmbio nos Estados Unidos.

O que me leva ao segundo fato curioso. Quando passei no processo seletivo (na minha terceira tentativa, se bem me lembro), o Rotary Club dos Estados Unidos haviam exigido que eles só admitiriam o intercambista que tivesse passado em primeiro lugar na seleção. Ah, os Estados Unidos! Sempre exigentes, sempre arrogantes, sempre pretensiosos... Até hoje me pergunto: como será que os rotarianos daqui do Brasil explicaram aos seus colegas norte-americanos que o primeiro colocado tinha escolhido a Malásia, e não os Estados Unidos? Depois de todos aqueles anos vendo bombas norte-americanas caindo sobre o Iraque e o Kosovo, acho que isso foi o mais perto que já cheguei de uma vingança.

Do consenso ao crepúsculo: meus 26 anos - parte 2

Não há espaço suficiente aqui para relatar meus doze meses (junho 2004-junho 2005) vivendo nesse distante país (já o fiz de forma mais detalhada nos posts “Páginas de combate – I e II”). Apenas faço questão de dizer, a todos aqueles que acham que foi uma experiência incrível em um país exótico, recheada de estranhamentos e choques culturais: vocês não poderiam estar mais enganados. Passei minha juventude lendo sobre Cristóvão Colombo, Marco Polo e Vasco da Gama, que em suas viagens se deparavam com o fantástico e o desconhecido... Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que os “nativos” da Malásia viam futebol inglês, ouviam música pop americana e adoravam filmes de Hollywood. Minha esperança de um dia sentir o que os grandes navegantes do passado sentiram foi totalmente frustrada. Acho que essa foi a melhor aula de globalização que eu jamais terei na vida.

Nesses doze meses, vivi com seis famílias diferentes. Em uma delas havia um senhor cujo nome já não me lembro, mas que era um dos principais intelectuais que criticavam o regime político do país. Em outra família havia o Dr. Xavier Jayakumar, que, além de rotariano, era uma importante liderança de um dos principais partidos de oposição no país, o Keadilan Rakyat. Soube, por conversas paralelas, que ele já havia sido preso algumas vezes por participar de manifestações contra o governo. A Malásia é governada pela mesma coalização política desde a sua independência em 1957, sendo que organismos como a Anistia Internacional, a Transparência Internacional e os Direitos Humanos fazem constantes denúncias de abuso de poder, fraudes eleitorais e perseguições políticas – nada que abale a confiança das tradicionais elites políticas do país.

Lembro-me bem que participei de alguns encontros e manifestações organizados pelos partidos de oposição, contrariando orientações que foram dadas a todos os intercambistas no começo de nosso intercâmbio. Eles nos diziam que a política na Malásia era algo complexo e perigoso, e que, para o nosso próprio bem, deveríamos nos abster de penetrar nesses meios. Mas nada disso conseguiu me segurar. Aos poucos fui ficando fatigado por aquele país que se mostrou tão mais ocidentalizado do que eu esperava, e eu queria mais emoções. Com o Dr. Xavier, frequentei eventos de grandes dimensões, onde tive contato, ainda que rápido, com importantes figuras da oposição política malaia, como Anwar Ibrahim e sua esposa (com quem, inclusive, tirei uma foto). O mais curioso é que, nas conferências dos partidos de oposição, havia desde partidos de extrema-esquerda até partidos fundamentalistas islâmicos, passando por agremiações liberal-democráticas. Todos unidos apenas na oposição ao status quo, mas com propostas bastante diferentes. Era quase como se, aqui no Brasil, o PSOL e o DEM fizessem conferências conjuntas, unidos apenas pela oposição ao governo do PT. Nesses encontros, observei cenas pitorescas, como a de um jovem com camisa do Che Guevara e boina com estrela vermelha, de um lado, e um senhor barbudo com um turbante islâmico, do outro. Passava horas imaginando se e como tudo aquilo poderia um dia dar certo.

Mas um dia esse meu atrevimento quase me custou caro. Como já disse: os casos de perseguição e até de tortura a membros da oposição política no país são graves. Acontece que um dia viajamos de Klang (cidade onde morei) até Temerluh, no interior do país, para participar de um desses encontros. Fui com o Dr. Xavier e alguns de seus correligionários. Voltamos no mesmo dia, já quando a noite caía, e o Dr. Xavier dirigia muito rápido, pois sua esposa o pedira para que não chegasse muito tarde. No meio da rodovia nosso carro foi parado em um posto policial. Um guarda se aproximou e alertou-o de que os radares na rodovia haviam detectado sua alta velocidade. Ele tentou se explicar, dizendo que precisava chegar cedo em casa. Conversa vai, conversa vem, o policial olhou a carroceria da caminhonete e viu as bandeiras dos partidos de oposição lá atrás. Então perguntou-lhe se ele estava voltando de alguma manifestação da oposição, ao que o Dr. Xavier confirmou que sim. Naquele momento, um clima pesado pairou no local. Todos no carro pareciam pensar exatamente a mesma coisa: “isso não vai acabar bem”. E realmente, era uma situação que tinha tudo para não ter final feliz. A polícia da Malásia é fortemente ligada ao governo, sendo um dos seus principais instrumentos de repressão. Isso sem mencionar o fato de que ela é tida como uma das mais violentas do mundo, conforme a esposa do Dr. Xavier me contou. Ela também havia me contado de inúmeros casos de maus-tratos de policiais contra pessoas ligadas à oposição.

E justo quando nada parecia poder piorar, eu me lembrei de um detalhe: havia esquecido meu passaporte em casa. Estava sem nenhuma documentação comigo naquele momento. Se o policial olhasse para o banco de trás e visse que havia ali um estrangeiro, certamente ele iria implicar. Se o establishment malaio não tolerava ameaças ao status quo, imagine então intromissões de estrangeiros? O que pensaria o policial ao ver um ocidental dentro de um carro que retornava de um evento organizado pela oposição? Qualquer regime autoritário ou totalitário tem horror à mais discreta manifestação de contestação. Mas a ideia de que estrangeiros possam estar por trás dos movimentos de oposição lhes-é dramaticamente insuportável. Basta ver como os nazistas denunciavam o “bolchevo-judaísmo” soviético, ou os maoístas acusavam os intelectuais de agirem mancomunados com o imperialismo ocidental.

Não sei se o guarda notou a minha presença ali. Só sei que, num determinado momento daquela conversa que deve ter durado no máximo dois minutos (mas que me pareceu uma eternidade), o policial falou, em inglês: “but I will release you (mas eu vou deixa-los ir)”. Essa frase foi tão inesperada que o Dr. Xavier até riu, como se acreditasse que o policial estivesse fazendo chacota. Estávamos já tão acostumados com a ideia de que o tempo iria se fechar para nós, que nem acreditamos quando ouvimos aquela frase. O policial se despediu dizendo algo do tipo: “você está com pressa, vai com calma, não precisa correr”. E um silêncio sepulcral tomou conta do veículo por alguns instantes. Misto de alívio e medo.

Os próprios habitantes da Malásia não pareciam, de modo geral, demonstrar muito interesse por política – pelo menos até abril de 2013. Poucos meses antes da nossa “primavera brasileira”, a Malásia foi tomada por intensas manifestações que partiam, sobretudo, da juventude. Tais manifestações ocorreram durante as eleições e acusavam o Barisan Nasional (coligação governista) de manipular os resultados das eleições por meio de fraudes, como urnas que chegavam às seções eleitorais carregadas de votos e concessões de títulos de eleitor para trabalhadores estrangeiros que eram pagos para votarem no candidato da situação.

Talvez por influência das experiências com a política malaia, e também incentivado por meu interesse precedente por história e política, quando voltei ao Brasil comecei a dar meus primeiros passos no movimento estudantil secundarista. Esse envolvimento só aumentou quando entrei na universidade. Não preciso dizer que grande parte dos encontros estudantis eram regados a muita bebida, maconha e festas, além de todas as ocorrências subsequentes. Marxistas, trotskistas, stalinistas, maoístas, socialdemocratas e toda a sorte de posicionamentos políticos se manifestavam e se conflitavam nesses eventos, verdadeiros zoológicos ideológicos. Lembro-me, por exemplo, no Congresso da UNE em Brasília em julho de 2007, de ver a juventude do então recém-renomeado DEM (ex-PFL) chegando à UnB meio desconfortável, meio esquisita, completamente deslocada diante daquele monte de bandeiras vermelhas.

Um ano mais tarde, fui a um encontro de partidos marxista-leninistas na UERJ. Ficamos alojados em um ginásio na Escola de Educação Física, e nunca me esquecerei de quando um dos militantes solicitou que o espaço do ginásio fosse dividido em dois: de um lado os homens, do outro as mulheres. Quem diria: nem um encontro de partidos marxista-leninistas consegue escapar à velha segregação sexual tão típica da sociedade burguesa... Durante o dia, ouvíamos discursos, palestras e palavras de ordem clamando pelo socialismo e atacando a hipocrisia dos valores morais de nossa sociedade capitalista, que não respeita as minorias e promove a desigualdade social e de gênero. À noite, como em um acampamento bíblico, dormíamos todos separados, homens e mulheres, perpetuando aqueles mesmos valores conservadores.

Sempre fui um mero observador nesses encontros, abstendo-me de tomar parte ativamente na sua organização e realização. Conversando com uma das militantes ali presentes, soube que muitas lideranças desses movimentos desencorajavam seus militantes a manterem relações afetivas durante esses encontros, sob a alegação de que tais relacionamentos desviariam o foco principal do evento, que era contribuir para a revolução socialista. Assim, sempre que ela se envolvia com alguém em um encontro, ela se “confessava” com os líderes, afirmando que reconhecia seu erro, mas admitindo que muitas vezes a “carne” era mais forte e acabava conduzindo a esse tipo de ação.

Após anos e anos de rusgas com militantes virtuais de direita, eu finalmente entendia o que eles queriam dizer quando afirmavam que o marxismo muitas vezes subia à cabeça de certas pessoas e acabava virando um credo.

Apesar de todo esse envolvimento com o movimento estudantil, com o tempo percebi que eu nunca levei jeito para a coisa. Detestava passar em salas de aula para dar recados sobre eleições, não tinha preparo emocional para discutir cara a cara com rivais (já que toda a minha experiência em discussões políticas se resumia a fóruns na internet) e não me sentia confortável empurrando panfletos para as pessoas em dias de eleição. Com o tempo, fui me afastando desse meio, muito embora eu admire bastante as pessoas que têm disposição para permanecer nele.

Apesar desses percalços, a vida universitária para mim significou, acima de tudo, uma coisa: liberdade. Em contraposição ao ambiente escolar, onde tínhamos toda uma rígida rotina de disciplinas e conteúdos que dificilmente contribuiriam para a minha vida e para a minha formação, a universidade sempre foi, para mim, um lugar de autonomia. Sei que a quase totalidade de meus colegas da UFMG irá rir dessas palavras, mas eu asseguro que nunca consegui partilhar do ódio que muitos deles sentem pelo ambiente acadêmico, em especial pela FAFICH. E o apreço que sinto pelo ambiente universitário tornou-se ainda maior desde que comecei a trabalhar em um colégio/cursinho pré-vestibular. À medida que eu ia passando mais tempo no colégio e menos tempo na universidade, me sentia cada vez mais sufocado. As exigências dos processos seletivos abafam nossa capacidade de questionamento e de discussão. Ao invés de gastar as tardes na universidade estudando, lendo, me informando e debatendo, passei a gastá-las em uma sala, auxiliando os alunos e alunas a marcarem o X no lugar correto.

Falem o que quiserem da universidade e de seus inúmeros defeitos: diante da escola, ela continua sendo um espaço de autonomia, de independência, onde eu posso me levantar e dizer que não concordo com este ou aquele ponto de vista. Nas escolas e cursinhos, há uma apostila e há os professores, e, como um monitor, meu discurso precisa se conformar ao discurso deles. Não posso dizer que essa ou aquela informação do material didático está errada, pois os alunos são ensinados a cultuar o livro de história como uma escritura sagrada. Não posso nem arriscar um pequeno palpite que coloque em xeque suas informações. “Como assim o livro está errado? Como assim o professor está errado?”, perguntam-se os alunos, atônitos. Entre a palavra das sagradas escrituras e a palavra do professor, de um lado, e a palavra de um reles monitor, do outro, é fácil descobrir qual percurso o aluno vai traçar. Estamos formando pessoas aptas a acreditar piamente em tudo aquilo que é dito por uma pessoa que se dirige a uma multidão do alto de uma pequena plataforma, e a desconfiar de tudo aquilo que é dito por uma pessoa em pé de igualdade.

É óbvio que eu não quero aqui desqualificar o trabalho dos professores do colégio ou do cursinho – longe disso. O que eu quero desqualificar é essa noção do ensino de história como uma mera ferramenta para a busca de respostas certas. Os pré-vestibulandos estão cada dia mais ávidos por achar as respostas corretas, mas cada dia menos capazes de fazer as perguntas adequadas. Por isso temos debates escabrosos, do tipo: “você é a favor ou contra o aborto?” ou “você é a favor ou contra a redução da maioridade penal”, quando, na verdade, as perguntas deveriam ser “por que as mulheres abortam?” e “por que menores de 18 anos praticam crimes?”. Os alunos não conseguem perceber que quem tem o monopólio das perguntas tem o monopólio do debate. Acostumados a lidarem com as perguntas como fórmulas preconcebidas e não passíveis de debate, nossos jovens se digladiam na busca das respostas corretas para as perguntas erradas.

Foi na universidade que tive a oportunidade de ingressar em minha segunda e última experiência internacional. Ela se deu em outubro de 2011, após ser aprovado para o programa de mobilidade internacional acadêmica da UFMG. Passei cinco meses na Alemanha, estudando na Universidade de Augsburg, experiência que já relatei exaustivamente nos meus posts “Confissões de Augsburg”. Não sei como comentar minha experiência na Alemanha sem incorrer em clichês cansativos, do tipo “é um lindo país”, “a universidade é fantástica”, “a biblioteca é incrível” e “as aulas são extremamente produtivas”. Isso sem mencionar o inefável prazer de estudar no frio, em comparação com o calor do verão brasileiro que me deixa modorrento. Não fiz muitos amigos na Alemanha. Aliás, posso contar nos dedos de uma mão o número de amigos alemães que fiz. É muito difícil ser uma pessoa calada e querer socializar num país onde todo mundo é quase igual a você. Ainda assim, não posso deixar de ressaltar que nutri profundo apreço por todos os professores com os quais tive aula. Gostaria de ter mantido mais contato com eles; gostaria de encontra-los de novo, algum dia, em algum congresso, quem sabe.

Os meses que se seguiram ao meu retorno da Alemanha, em fevereiro de 2012, não apresentaram nada de novo. Voltar do intercâmbio é sempre uma tarefa difícil, mas, dessa vez, foi ainda pior do que da primeira vez. Não consigo me livrar de uma nostalgia boba dos tempos de intercambista, das viagens feitas e das experiências que somente terras estrangeiras poderão te proporcionar. Talvez porque eu saiba que ainda vai levar muito tempo até que eu volte a viver tais experiências.

Ao fim de 2012, as profecias do fim do mundo voltaram, desta vez prometendo a catástrofe para o dia 21 de dezembro. Curiosamente, não consegui sentir tanto medo como eu havia sentido quando criança. Depois que eu descobri os vestibulares, as seleções para mestrado e as entrevistas para emprego, a ideia do fim do mundo deixou de me assustar. Acredito que a idade de um ser humano pode ser medida de acordo com seus medos. Meus primeiros medos eram de fantasmas no meu quarto enquanto dormia. Meus segundos medos foram as previsões do fim do mundo. Meus medos atuais envolvem crises econômicas e desemprego.

Em 2013, aconteceu a única coisa que me deixou tão ou ainda mais impressionado que os ataques de 11 de setembro. Ao longo da Copa das Confederações, os brasileiros saíram às ruas para protestar contra os excessivos gastos da Copa do Mundo e exigir que igual atenção fosse dada a outros setores, como educação e saúde. Diante de tantas pessoas, tantas faixas e cartazes com os mais diferentes jargões e demandas, acho que essa é a definição mais genérica que posso dar à dita “primavera brasileira”. Demorei dias, talvez semanas, para acreditar nas cenas que via na televisão. Cidades inteiras paralisadas por protestos, desde as mais importantes do país até aquelas do interior. E eu, que vivi os pacíficos anos 1990 para depois surfar na onda de otimismo do início dos anos 2000, finalmente compreendi como nunca o que meus livros de história diziam sobre a tumultuada vida política de nosso país até o ano de 1985. Não que eu nunca tivesse participado de manifestações de rua antes. Fi-lo por várias vezes, mas, naquela época, manifestar-se ainda era visto com hostilidade pela mídia e, principalmente, pelos motoristas que ficavam presos no trânsito. A partir do momento em que os barbudos de blusas e bandeiras vermelhas perderam o monopólio dos protestos, estes viraram a menina dos olhos da opinião pública.

Não conseguiria fazer aqui mais julgamentos a respeito das manifestações de junho de 2013, até porque considero-as incompletas. Nesse ano acontecerá a Copa do Mundo propriamente dita, e tudo indica que os protestos irão continuar e se intensificar. Talvez esse seja o crepúsculo dos deuses para a minha geração, desacostumada à inflação e às crises políticas e econômicas. A uma fragorosa derrota da seleção brasileira na Copa do Mundo, seguir-se-á um abalo econômico sem precedentes, decorrente dos gastos com o evento, engendrando mais manifestações, mais descontentamento e trazendo, com força, tudo aquilo que os anos 1990 pareciam ter sepultado. As imagens das Copas de 1994 e 2002, do otimismo do Plano Real e das benesses do governo Lula ficarão para trás, e abrir-se-á um novo perigo negro na nossa história.

Não temo tanto por minha geração, mas por aqueles que nasceram um pouco mais tarde, na segunda metade dos anos 1990, cujas infâncias coincidiram com o Plano Real e cujas adolescências coincidiram com o governo Lula. Os famosos rolezeiros, que tanto pânico e horror têm trazido aos shoppings do nosso país (pelo menos de acordo com a mídia), são parcela dessa geração. Acostumados com o crédito fácil e desfrutando do ápice do crescimento brasileiro, muitos desses jovens encarariam uma crise econômica com mais espanto do que se se deparassem com um disco-voador ou uma mula-sem-cabeça. Seria o crepúsculo da nova classe média; o crepúsculo dos rolezinhos. Experiência análoga à da geração que nasceu no conforto da era de ouro dos anos 1950 e teve sua adolescência fraturada pelas crises de 1970 e 1980, de onde foram paridas as mais escabrosas experiências políticas, como skinheads e neonazistas.

De 1988 a 2014, do consenso de Washington ao crepúsculo dos rolezinhos, da Copa de 1994 à Copa de 2014: assim se desenrolou minha vida até aqui. De um aspirante a monge budista a um ingênuo anti-americanista fã de Saddam Hussein, Slobodan Milosevic e Osama bin Laden, passando por militante-observador do movimento estudantil até um desconfiado historiador que tem muito mais dúvidas do que certezas, percorri vários caminhos e tive várias experiências. Talvez a criança que eu fui nunca tenha orgulho do adulto que ela virou, mas ainda tenho fé que o adulto que sou hoje terá muito orgulho do idoso em que me transformarei daqui a alguns anos.