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quarta-feira, 15 de abril de 2020

Diários de quarentena - 15 de abril de 2020

Em 1935, o acadêmico norte-americano Harold Lasswell escreveu que uma das maiores esperanças para a compreensão entre os povos seria o advento de uma ameaça global que colocasse o mundo inteiro em perigo.

Tal ameaça não viria de um ditador megalomaníaco com ambições expansionistas, mas da natureza. Certamente alguma pandemia letal. Ao ameaçar igualmente todos os seres humanos, independente de crenças ou ideologias políticas, tal pandemia exigiria a união de todos os países em prol de um objetivo comum. Colocar preferências políticas ou rivalidades históricas acima desta luta condenaria a humanidade. 

O livro de Lasswell - "World Politics and Personal Insecurity" - faz parte de minha lista de leituras para o doutorado. Quando o li, em janeiro ou fevereiro deste ano, quase tomei nota destes trechos. Infelizmente, achei que não seriam relevantes para minha tese e ignorei-os. Nem mesmo a epidemia de covid-19, que já grassava pela China naqueles meses, me convenceu a copiá-los. Afinal de contas, naquele momento o vírus ainda parecia uma ameaça distante. 

O mundo do entre guerras em que Lasswell escreveu tais linhas era propício a tudo, menos à união. 

Com Hitler na Alemanha e Mussolini na Itália, a Europa estava em lua de mel com o fascismo. A União Soviética controlada pelos bolcheviques, por um lado, e as democracias liberais (Estados Unidos, Reino Unido e França), por outro, formavam os outros polos desta complexa configuração de poder. Mas no mar de incertezas do período entre guerras, Lasswell não via a esperança para a paz mundial em instituições nem em chancelarias. Caberia a algum vírus ou bactéria letal a nobre e diplomática tarefa de obrigar a humanidade a optar entre a união e o extermínio. 

Como bem disse nosso exausto ministro da saúde hoje, ao anunciar sua saída iminente: "O vírus não negocia com ninguém. Não negociou com o Trump, não vai negociar com nenhum governo".

Quando a disciplina de Relações Internacionais se arrastava em calorosas discussões entre o pessimismo dos realistas e o idealismo dos liberais, Lasswell demonstrava grande sensibilidade para temas considerados de menor grandeza pelos analistas internacionais. Cultura, identidades, ideias, conceitos e aspirações: ao valorizar esses domínios, o autor antecipava preocupações que só entrariam no rol da disciplina de Relações Internacionais nos anos 1980. 

Por outro lado, os prospectos de Lasswell para a união mundial não vingaram.

"O vírus faz parte de um plano maligno da China!" - grita um.

"O vírus não passa de uma gripezinha!" - vocifera outro (não raro, o mesmo que proferiu a primeira frase!).

"O vírus vem sepultar a ordem neoliberal!" - conclui apressadamente um terceiro.

"O vírus marca o início do mundo pós-Ocidental!" - reflete o quarto.

O mundo não deu as mãos para combater o vírus, e dificilmente o fará. A batalha de narrativas que se cristaliza ao redor dos recentes eventos nos mostra que Lasswell subestimou Aristóteles. Animais políticos que somos, nunca perdemos a oportunidade de politizar até mesmo uma pandemia. 

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Diários de quarentena - 7 de abril de 2020


No final de 2016, em minha segunda passagem pela Alemanha, combinei de me encontrar com um amigo em um bar.

Enquanto aguardava por ele, pedi à balconista uma Coca-Cola. Seja pelo barulho ambiente, por um erro de pronúncia ou mesmo pela incredulidade da atendente ao ver que alguém em um ambiente daquele consumiria algo não-alcoólico, ela acabou me trazendo uma cerveja Corona. Antes mesmo que eu pudesse comunicar o equívoco ela já abriu a tampa, forçando-me assim a me contentar com a cerveja mesmo odiando bebidas alcoólicas. Custei a beber metade da garrafa. Quando fomos embora, o resto que não consegui tomar já estava quente.

Resignei-me àquela Corona calado, assim como me resigno ao atual.

Quando se vive em quarentena, tudo que vem de fora dos muros de sua casa é um intruso. O jornal do dia, as compras encomendadas, o ovo de páscoa pedido no aplicativo, os boletos para pagar: tudo que cruza o batente do portão é um potencial portador do temido vírus espreitando a melhor oportunidade para te atacar.

Na noite de domingo para segunda sonhei, pela segunda vez desde a quarentena, que eu era condenado por um crime que não cometi. Uma menina que nunca vi na vida me acusou de agredi-la quando eu tinha onze anos de idade, pelo que fui sentenciado a 20 ou 30 anos de cadeia. No primeiro sonho fui condenado à morte. O lugar de minha execução era nada menos que a cozinha de minha casa. O oficial de justiça ainda me deixou escolher entre o enforcamento ou a decapitação – sugeriu o enforcamento, alegando ser indolor.

Lembro-me de ter me angustiado muito mais no segundo sonho do que no primeiro, e nisto não há nada de surpreendente. É muito mais fácil se imaginar morto do que se imaginar recluso em uma cela por 30 longos anos.   

Em algum dia entre os dois sonhos tive outro sonho no qual eu também era injustiçado.

Sonhei que morava em uma república em Belo Horizonte, e em dado momento uma das meninas com quem morava entrou comendo um pedaço de pão e tomando um copo de café. Com uma naturalidade desconcertante, minha colega de apê pediu que eu pagasse pelo seu lanche lá na padaria. Diante de minha visível incompreensão, ela retrucou (erroneamente) que eu não contribuía com nada na casa: não fazia compras e não limpava as áreas comuns, de modo que pagar pelo seu café e pelo seu pão seria uma forma de me redimir pela minha negligência.

Não sou bom em interpretar sonhos, mas creio que estes não sejam tão difíceis. Enquanto passo a quarentena no conforto de casa, muitos se expõem – seja porque precisam trabalhar, seja porque sequer tenham uma casa. Talvez até a tenham, mas sem qualquer conforto. Fazer-me injustiçado por alguns momentos é a ingênua estratégia que o inconsciente achou para tentar reparar as injustiças da vida real.

Ser historiador é fazer uma incursão por todas as misérias humanas enquanto se pergunta (com medo da resposta) se você também viverá o suficiente para presenciar alguma.

Entro em sala de aula, dou bom dia aos meus alunos, falo sobre pestes, guerras, fomes, crises e medo com a frieza de um perito a analisar um cadáver. O alarme soa e eu me vou, não sem antes me desculpar por não ter conseguido terminar o conteúdo. Mas não faz mal. Na próxima aula haverá tempo de sobra para continuar falando de mortos e injustiçados com a serenidade que só o distanciamento temporal me permite. Até que um belo dia o horror se abate sobre meu próprio tempo, e eu sinto raiva de saber que daqui a 500 anos haverá um professor de História narrando minha desgraça com a mesma serenidade e leveza com que eu narrava a dos outros.

domingo, 5 de abril de 2020

Diários da quarentena - 4 de abril de 2020

O muro de minha casa é o túmulo da imprensa nacional.

É muito alto e muito próximo do telhado. Resta ao pobre jornaleiro, todas as manhãs, calcular muito bem onde arremessar o jornal para que ele caia exatamente no pequeno espaço que existe entre o muro e o telhado – o que nem sempre acontece. Hoje avistei um desses jornais que jaziam no alto do muro e empurrei-o de lá com uma vassoura. Pensei: vou recolhê-lo e logo depois lavar bem as mãos.

Nem foi preciso. O jornal era de outubro de 2019, quando o vírus sequer passeava pelo nosso país, nem mesmo pelo noticiário internacional.

O jornal, já roto e maltratado pela ação do sol e da chuva, era inofensivo. Contemplei-o por alguns instantes com um misto de nostalgia e inveja. Afinal, era como se ele viesse de outra época, de uma época feliz: sem Covid-19, sem toques de recolher, sem eventos esportivos suspensos nem ruas vazias. Em menos de um mês essa pandemia virou nossas vidas do avesso com enorme violência. Hoje olhamos para poucos meses atrás com o mesmo saudosismo enviesado com que um idoso se lembra de sua infância.

Não havia uma só notícia boa na primeira página, a única pela qual passei os olhos. Uma delas anunciava um artigo de opinião: “Reinações de Jairzinho”. Dizia que o presidente se elegera como excêntrico e continuaria pagando de excêntrico sabe Deus até quando. Outro artigo de opinião alertava para a direita democrática, esclarecida e tolerante que se vendeu para o terraplanismo olavista ao apoiar [Jairzinho] Bolsonaro.

Mas nem o circo lamentável da política me impediu de sentir saudades. Saudades de quando nosso maior problema era Jairzinho (não que hoje ele não seja mais). Mais saudades ainda de quando a classe média pseudomoralista venerava Joaquim Barbosa em lugar do “capitão”.

Hoje recusei, pela segunda ou terceira vez, um boteco virtual com amigos. Têm certas coisas na vida que ou se faz direito, ou não se faz. Se chegamos ao ponto de ter que marcar confraternizações por videoconferência, então já não há mais motivo para confraternização. Falou-se o dia inteiro na “Live do Jorge e Mateus” no YouTube: uma noite inteira de músicas que nos fazem lembrar os tempos de faculdade. Também recusei. Já tive minha dose diária de nostalgia ao encontrar o jornal de outubro de 2019.

O jornal também me contemplava, mas com pena. Ele cumprira sua função: noticiara os eventos daquele dia de outubro de 2019 com maestria invejável. Se não foi lido, não era culpa sua. Ele nada tinha a ver com o jornaleiro que não acertou o vão entre o muro e a telha, nem tampouco com o pedreiro que projetou um muro tão alto. Do fundo de suas páginas rasgadas e desbotadas, o jornal me olhava com um olhar inquiridor: e você, cumprirá a sua função?

Não soube o que responder, mas fiz a minha parte. Joguei o jornal na reciclagem como quem envia uma carta para o futuro. Façamos nossos votos para que dentro em breve aquelas mesmas folhas, redivivas, estejam anunciando o aniversário do fim da pandemia, e não um aumento exponencial no número de casos.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Balcanizando II - Uma semana em Belgrado

A viagem de trem de Ljubljana (Eslovênia) até Belgrado (Sérvia) é longa. Cerca de onze horas. O trem também não é dos melhores: sujo, velho, desconfortável e barulhento. Mas é um dos poucos lugares dos Bálcãs onde ainda se têm ferrovias operando.

Para se chegar à Sérvia é preciso antes passar pela Croácia. É impressionante ver como a fronteira entre a Croácia e a Sérvia divide mundos tão diferentes. Atravessá-la é mais do que deixar um país para trás. É deixar a União Europeia para trás. É quase como deixar a Europa como a conhecemos para penetrar outra Europa, bem diferente daquela sobre a qual estamos habituados a ouvir.

Duas coisas nos fazem perceber que deixamos a Croácia e adentramos a Sérvia. As pichações deixam de ser no alfabeto latino e passam a ser em cirílico (ainda que o alfabeto latino também seja usado na Sérvia), e o lado sérvio é bem mais pobre. Nota-se isso pelas casas humildes, pela infraestrutura precária das cidades e pelos vários grupos de refugiados, muitos dos quais se aquecendo em fogueiras espalhadas de canto a canto.

Cruzamos a fronteira às quatro e quarenta da tarde.

A primeira cidade depois da fronteira é a pequena Šid. A única coisa que movimentava a simplória estação era um grupo de cerca de 60 ou 70 jovens, muitos deles portando mochilas do Alto Comissariado da ONU para Refugiados. A grande maioria tinha feições semíticas ou da Ásia Central. Sírios, iraquianos, iranianos, afegãos, paquistaneses... Muitos entravam e saíam freneticamente do prédio, enquanto outros comiam e outros apenas ficavam parados observando tudo. Os funcionários da ferrovia também pareciam inquietos tentando lidar com aquela situação toda. Aos poucos, os refugiados foram entrando e ocupando os assentos do último vagão do trem, perto do qual eu também me achava.

À medida que os refugiados entravam, a tensão no ar se elevava. Era visível, claramente visível, nos olhos dos serbo-croatas que lá estavam, um misto de horror, medo, ódio e desespero. Muitos se levantaram e foram sentar mais adiante, bem longe daquelas figuras estranhas que roubavam o sossego da viagem. O funcionário do trem chegou para colocar ordem na casa. Gritava em sérvio e fazia movimentos com os braços, como se quisesse dizer: “Mais pra trás! Mais pra trás!”. Ele parecia querer confiná-los todos ao último vagão, impedindo que eles cruzassem a linha divisória.

O problema é que eram muitos refugiados, e quanto mais eles ingressavam, mais espaço ocupavam, mais serbo-croatas se levantavam e mais o impaciente funcionário voltava ao local para repetir suas desesperadas tentativas de frear a “expansão” dos novos passageiros.

E a tensão no ar se elevava.

Eu observava aquilo tudo com apreensão, nervosismo, mas também curiosidade. Curiosidade que me fez ficar ali, parado. Confesso que por vezes me passou na cabeça a ideia de também me levantar e sentar-me mais à frente. Mas fiquei. Poucas vezes na minha vida estive em um ambiente tão carregado de tensão. Nem os debates de chapas para o DCE da UFMG, nem as acaloradas discussões do CAHIS, nem os vestibulares que prestei... Nada do que eu havia experimentado se assemelhava àquilo.

Lembrei-me de uma vez, há exatos dez anos, quando ainda cursava Ciências Sociais. Subimos no ônibus em BH após um churrasco da turma. Junto estava um colega nosso, completamente bêbado, que precisou ser carregado. Um dos passageiros se divertia com a situação: “Se acender um isqueiro aqui o ônibus explode!”, numa referência à quantidade de álcool ingerida pelo rapaz.

A cena parecia se repetir. Um mísero fósforo que se acendesse ali naquele vagão parecia o suficiente para mandar tudo pelos ares. Observava aquela cena com um interesse fora do comum, imaginando como aquilo acabaria e também como eu descreveria aquilo para as gerações posteriores.

Em um determinado momento, um dos refugiados audaciosamente abandonou seu reduto e começou a circular pelos outros vagões, olhando de lado a lado entre os assentos. Os poucos passageiros que haviam permanecido se sentiram ultrajados com a ousadia do jovem, que não parecia se intimidar.

No final, tudo o que ele queria era uma tomada para carregar seu celular. Alguém lhe disse que ele poderia fazê-lo no banheiro, o único lugar do trem que possuía tomada.

No ápice da tensão, com o trem já em movimento, um jovem croata resolveu abrir sua mochila, tirar uma garrafa de cerveja e oferecê-la ao referido refugiado. Em menos de um minuto, toda aquela tensão que carregava o ambiente se desfez com uma simplicidade ridícula. A frase “quebrar o gelo” nunca fez tanto sentido como naquela ocasião.

Os dois conversavam amigavelmente em inglês. O jovem era um refugiado afegão que tentava entrar na Itália. Enquanto o jovem croata conversava com o rapaz, seus familiares (que também haviam olhado para os refugiados com uma hostilidade feroz) aos poucos começaram a se interessar pela situação. Uma mulher que parecia ser a mãe do rapaz veio me perguntar algo em croata (provavelmente querendo saber se eu entendia o conteúdo da conversa dos dois). Respondi, em tom embaraçado e em inglês, que eu não falava croata. Ela deu um breve sorriso desconcertada e voltou a se sentar.

Mas não demorou até que os pais do menino croata se envolvessem na conversa. A mãe do garoto (uma das que havia olhado com horror para os incômodos passageiros) se sensibilizou a tal ponto que até distribuiu uma bandeja de doces para os refugiados que permaneceram sentados. Conversa vai, conversa vem, uma das mulheres que acompanhavam o rapaz croata (imagino que era sua tia) fez uma interessante confissão: ela também já havia sido uma refugiada, nos anos 1990, durante a guerra civil da Iugoslávia. É impressionante a capacidade que o ser humano tem de passar por uma situação de vulnerabilidade, superar essa condição e, logo depois, hostilizar alguém que está passando exatamente pela mesma situação. Quase como se não tivéssemos absolutamente nada com aquilo.

Com o tempo, reuni um pouco de coragem e comecei a conversar com o jovem afegão também. Ele me contou que era a quinta vez que falhava no intento de entrar na União Europeia. A Sérvia era passagem estratégica, já que fazia fronteira com a Croácia, país-membro da UE. Tinha planos de trabalhar em algum restaurante na Itália para poder enviar dinheiro a seus familiares no Afeganistão. Ele me mostrou fotos de seu pai já bem doente, sua mulher e sua filhinha pequena. Falando com desembaraço e tranquilidade, o afegão ainda me confessou que não sabia a própria idade ao certo, pois não tinha documentos de seu nascimento, o que dificultava ainda mais seu acesso à UE. Acreditava que tinha cerca de 32 anos. Mostrou-me também fotos dos certificados que ele ganhou da OTAN pelos serviços prestados na luta contra o Talibã. Ele me contou que operava escavadeiras que ajudavam a resgatar veículos americanos que caíam nas montanhas, além de também fornecer a localização de guerrilheiros talibãs. Perdeu as contas de quantas vezes recebeu telefonemas anônimos ameaçando ele e sua família de morte. E isso tudo pra que? Para chegar à Europa e ser chamado de terrorista.

Ele não tinha medo. Falava com uma resignação quase sobrenatural: “só Deus pode tirar a minha vida”. Repetia essa frase quase como um mantra sempre que perguntado dos perigos que rondavam sua vida: seu pai doente, sua filha, sua família ameaçada, a truculência dos policiais europeus (a polícia búlgara havia quebrado seu braço uma vez)... Nada lhe abalava a confiança.

O trem chegou à estação de Belgrado no comecinho da noite. Todos desceram, e eu desci junto com o rapaz afegão. Paramos e continuamos conversando por algum tempo. Seus amigos continuaram andando e o chamavam a todo o momento. Ele me disse que iriam dormir em um setor da estação, mas que ele não queria dormir mais lá porque fazia muito frio. Continuou repetindo seu mantra: “só Deus pode me tirar a vida”, e nos despedimos.

A partir de então, cada um tomou seu rumo. Ele em busca de um chão minimamente confortável para passar a noite e eu em busca de meu hostel. Ele temendo os policiais. Eu, temendo ser assaltado no caminho (já era noite). Ele, esperançoso de finalmente sair da Sérvia e atingir a terra da promissão: a União Europeia. Eu, empolgado de conhecer um país tão diferente. Dois mundos tão diferentes, duas situações tão antagônicas, duas vidas brevemente unidas por uma viagem de trem.

O jovem croata que estava no trem ficou espantado de saber que eu era brasileiro e que estava na Sérvia a turismo. No final das contas, ele deu a todos uma ótima lição. Muitas vezes, a melhor diplomacia é o álcool.

Quando ainda estava na Eslovênia, recebi um e-mail avisando que o hostel originalmente reservado em Belgrado estava com um problema de falta de água, e me oferecendo uma cama em outro hostel, do mesmo dono. Aceitei, pois estava com preguiça de procurar outro lugar para ficar. Fui da estação até o hostel a pé. O local era meio sujo e pouco organizado, mas era barato e por isso não reclamei. Entre os hóspedes, apenas homens. Cerca de 15 a 20 hóspedes. Todos homens, e nenhum parecia estar ali a turismo. Poucos falavam inglês.

Meus colegas de quarto eram quase todos do norte da África: marroquinos, tunisianos, argelinos... Logo que cheguei, um tunisiano que não falava inglês tentou se comunicar comigo. Mostrou-me alguns clipes de rappers tunisianos e franceses estilo ostentação que ele gostava de ouvir. Esse rapaz se mostraria um tipo curioso. Não saía do hostel e raramente saía da cama. Quando eu acordava cedinho para passear ele estava lá, deitado. Quando eu voltava, já à noite, lá estava ele novamente. Posteriormente ele protagonizaria uma situação bastante delicada.

Logo na minha primeira noite em Belgrado, enquanto caminhava por um calçadão central, fui abordado por um imigrante sírio clamando por dinheiro para ajudar sua filha bebê que passava necessidades. Recusei em um primeiro momento. Porém, a lembrança daqueles refugiados com quem compartilhei algumas boas horas de viagem me fez mudar de ideia, retornar ao local e oferecer algum dinheiro ao rapaz.

Minha primeira noite naquele hostel foi um lixo. Dormi cedo, pois estava bem exausto da viagem. Por pouco não me lembrei que aquela noite era o primeiro jogo da final da Copa do Brasil: Atlético X Grêmio. Dei graças a Deus de não estar no Brasil e principalmente em Minas. Não queria ter que aturar cornetas e foguetes. Mas isso teve seu preço. Às 01:30 da madrugada, acordei com o recepcionista do hostel gritando escandalosamente ao telefone. Ele xingava, esbravejava, e fazia isso andando de um lado ao outro, como se quisesse que todos ali escutassem seu show. A única coisa que consegui entender da conversa é que seu interlocutor se chamava Natasha, pois ele constantemente repetia: “Natasha! Natasha!”, antes de disparar nova artilharia.

Custei a dormir novamente. Fiquei matutando o que era pior: aquela mala sem alça berrando ou o foguetório e buzinaço do Barro Preto em dia de jogo decisivo.

E ainda vivenciaria outro problema naquele hostel (além do principal, que contarei mais adiante). Eu dormia na cama de baixo de um beliche, pois detesto dormir na parte de cima. Porém, logo depois chegou um hóspede que se alojou na parte de cima. Era um homem alto, levemente gordo, que fazia o beliche todo ranger sempre que se mexia. Tentei conversar com ele, perguntando se ele não gostaria de ficar embaixo, já que lhe causaria menos transtornos, pois era difícil para ele escalar até o alto. Mas ele falava muito mal o inglês e se manteve irredutível na decisão de permanecer em seu lugar original. E eu permaneci ouvindo aquele rangido insuportável toda vez que ele se mexia.

Belgrado, a capital sérvia, é uma cidade em que se respira política por todos os cantos. Até as lojas de souvenirs são politizadas. Bandeiras sérvias, bonecos e camisas de Vladimir Putin, canecas e jaquetas com motivos nacionalistas... A Sérvia como a conhecemos hoje nada mais é do que o último remanescente da antiga Iugoslávia, um país formado entre os anos 1920 e 1930 que reunia diversas repúblicas. No começo dos anos 1990, com o fim da Guerra Fria e o colapso do mundo comunista, teve início o processo de “balcanização”: a Iugoslávia começou a se dissolver, pois várias repúblicas proclamavam sua independência, em um processo mais ou menos similar ao que acontecia na União Soviética. A Eslovênia foi a primeira a se separar, ainda em 1991, em um processo relativamente pacífico. A Macedônia, mais ao sul, também se separou de forma pacífica. Porém, duas outras repúblicas conquistaram sua independência sob preços altíssimos: Croácia e Bósnia-Herzegovina. Isso se deu porque, nesses locais, havia uma elevada presença de sérvios, que era a etnia que controlava a Iugoslávia. Os sérvios que viviam na Croácia e na Bósnia-Herzegovina não suportavam a ideia de ter que viver sob outro governo.

Em 2003, a Iugoslávia deixa de existir oficialmente e passa a se chamar Sérvia e Montenegro, as duas únicas repúblicas que haviam restado. Em 2006, Montenegro declara sua independência por meio de um plebiscito e em 2008 foi a vez do Kosovo, uma região de população albanesa, se declarar independente da Sérvia.

A cena cultural em Belgrado também é bastante forte. Em todos os lugares se veem galerias de arte, teatros e ateliês. A cidade transpira história em cada monumento ás vítimas de alguma das várias guerras que assolaram a região, em cada memorial, em cada ruína dos prédios bombardeados pela OTAN em 1999. Naquele ano, os sérvios promoveram uma carnificina para impedir que a região do Kosovo se separasse. Em frente ao parlamento (um dos mais belos prédios da cidade), havia uma extensa faixa pedindo justiça, com as fotos de todos os sérvios vitimados pelos bombardeios da OTAN e pelos confrontos com as forças albanesas. Um dos passeios turísticos que peguei passava pelos bunkers usados para se proteger das bombas nazistas e terminava em uma adega com uma degustação de vinhos. Como não bebo álcool, aproveitei a experiência bem menos que os demais.

Mas o lugar mais fascinante é, sem dúvidas, o museu histórico da cidade, onde se acha o mausoléu do marechal Josip Broz Tito, que governou a Iugoslávia entre 1945 e 1980. Tito converteu-se em uma das mais populares lideranças socialistas, além de ser um ícone na luta dos países não-alinhados. Nos países da ex-Iugoslávia não é diferente. Tito é venerado entre os sérvios, que ainda exibem fotos suas em estabelecimentos comerciais. Apesar do carinho e da admiração que nutrem pelo seu antigo líder, a maioria dos sérvios não parece ser favorável ao retorno do socialismo. O discurso mais recorrente é o da resignação: Tito foi e sempre será um mito, o socialismo foi bom enquanto durou, mas já não serve mais. O importante agora é abrir os mercados e ganhar dinheiro.

A cada história da guerra que nosso jovem guia turístico contava da guerra no Kosovo, eu me lembrava de mim mesmo naquela época. Daquele distante ano de 1999, quando eu, do alto dos meus onze anos, abominava os Estados Unidos em todos os sentidos e com todas as minhas forças, desde o bombardeio ao Iraque em 1998. E extravasava meu ódio de diversas maneiras – uma delas, praguejando contra as boy bands americanas que estouravam na época. Lembro-me de ler nos jornais o quanto os mísseis da OTAN erravam seus alvos. Um deles chegou mesmo a atingir a embaixada chinesa, desencadeando verdadeira crise diplomática. E a Rússia, em seus últimos e gloriosos dias de Boris Yeltsin, ameaçando retaliar. Lembrava-me de meu ódio a Bill Clinton e às potências ocidentais – isso porque eu ainda não conhecia Bush e Trump! Mas também do meu choque ao ver as atrocidades cometidas pelos sérvios contra os albaneses. Na época minha avó até achou, no jornal, uma foto de um grupo de refugiados que tinha uma criança parecida comigo quando pequeno, inclusive até com uma jaquetinha vermelha igualzinha à que eu tinha.

Em uma de minhas muitas andanças pela cidade, visitei o prédio da universidade de Belgrado. Passeei pelos corredores das humanidades, tentei desvendar, nos murais de recados, o conteúdo da grade curricular do curso de História. E foi observando esses murais de recados que eu descobri que exatamente naquela noite estava acontecendo uma palestra com o historiador britânico Albert Hourani, autor do livro “Uma História dos Povos Árabes”. Tirei uma foto do anúncio e tentei achar desesperadamente o local. Do lado de fora do prédio se formava uma fila monstruosa para assistir a algum evento. Temi que pudesse ser a palestra de Hourani. Pedi informações a uma jovem que ajudava a organizar a fila. Ela me indicou em que direção ficava o prédio da palestra que eu pretendia assistir. Infelizmente, tão logo entrei e me sentei no auditório, foram menos de cinco minutos até que a palestra se encerrasse.

Uma pena.

De volta ao hostel, minha estadia estava ficando insustentável. Não gostava das pessoas, do ambiente, muito menos da máquina de lavar que era antiquíssima, custava a lavar e parecia que ia queimar minhas meias. Uma vez até suspeitei que um pé de meia meu que eu deixei secando na cama havia sumido. Perguntei ao tunisiano da cama ao lado se sele sabia de alguma coisa e ele acusou o rapaz que dormia na parte de cima do meu beliche. Senti raiva. Parece que existe alguma força do universo que age constantemente no sentido de separar meus pés de meia, mas era a primeira vez que essa força se materializava em uma pessoa.

Posteriormente, acabei descobrindo que na verdade não faltava nenhum par – eu que havia contado errado. Ou talvez faltasse, mas o sujeito que o subtraíra resolveu devolvê-lo sabe-se lá por qual motivo.

Em uma noite, após uma longuíssima andança, cheguei exausto ao hostel. Nem bem cheguei, fomos surpreendidos por batidas na porta. O homem dizia, em inglês: “police, open up!”. Era a temida polícia sérvia. O policial entrou em nosso quarto. Era um recinto mal iluminado, com a janela fechada por causa do inverno. Por isso ele adentrou nosso quarto com uma lanterninha e um olhar inquiridor. Poucas vezes na minha vida me senti como um criminoso – essa foi uma delas.

A autoridade pediu os passaportes de todos. Fiquei tão transtornado com a situação que custei a me lembrar de onde havia deixado o documento. Demorou um pouco até eu me dar conta que o rapaz tunisiano no beliche ao lado havia se escondido sorrateiramente sob as cobertas tão logo ouviu o policial bater à porta. E escondido ele permaneceu durante toda a abordagem. O policial também não o notou e, para a sorte dele, sua cama ficava numa posição relativamente discreta do quarto que não levantou suspeitas. Quem olhasse naquela direção veria apenas lençóis e cobertas desarrumados.

Após uma breve revista pelos outros quartos, o policial trocou algumas palavras com outros hóspedes, perguntou quem era o dono do estabelecimento (o sujeito da recepção não estava naquele momento) e depois devolveu nossos passaportes com relativa simpatia.

No dia seguinte, acordei decidido a sair de lá o quanto antes. Nesse mesmo dia, havia marcado um passeio turístico a Novi Saad, cidade do norte da Sérvia, na província de Vojvodina. Fomos eu, o guia, o motorista do carro e três turistas israelenses de meia-idade com as quais ainda mantenho certo contato até hoje. No caminho passamos por um mosteiro ortodoxo em meio às montanhas, bem como por um enorme monumento em homenagem aos partizans iugoslavos que morreram na resistência contra os nazistas. Em Novi Saad, comemos uma comida deliciosa e conversamos bastante. Sentar à mesa com um sérvio e três israelenses é uma experiência fascinante. Todos eles tinham lembranças de guerras para contar. Todos eles narravam suas experiências de usar máscaras de gás e se esconder em abrigos após o soar do alarme, e isso com a naturalidade de quem conta uma visita ao museu ou uma ida ao cinema.

Na volta para Belgrado, paramos em uma cidade minúscula e adivinhem! Mais uma degustação de vinhos... Dessa vez na casa de uma família que cultivava uvas já há muitas gerações. Na frente da casa, duas crianças brincavam com pistolas de plástico. Quem nos atendeu foi uma linda jovem de 24 anos que, como descobriríamos mais tarde, era a mãe dos meninos. Pedi para o guia turístico explicar a ela que eu bebia pouco por não gostar de álcool, e não porque o vinho não me agradasse. Não quis ser descortês. Ainda tivemos tempo para passear pela cidadezinha, que mais parecia uma cidade do interior de Minas: um colégio antigo, uma pracinha com coreto e uma igreja. Depois da missa, todos se reuniam na praça.

No caminho de volta para Belgrado, as turistas israelenses me contaram mais sobre Israel. Disseram que, por ser um país ainda jovem, todo israelense tem uma ascendência estrangeira. Uma delas era descendente de russos, outra de romenos e outra de marroquinos. Quando contei a elas sobre meu trabalho de mestrado, ficaram surpresas de saber que existia antissemitismo no Brasil nos anos 1930. E também ficaram surpresas ao saber que duas das mais importantes celebridades da TV brasileira (Silvio Santos e William Boner) eram judias.

Uma vez em Belgrado, o guia turístico se compadeceu de mim e me indicou um bom hostel não longe dali. Até ajudou-me a carregar minhas coisas até lá. O ambiente era mais limpo, a equipe mais agradável e os hóspedes mais amigáveis.

Minha estadia na Sérvia durou quase uma semana. Uma das semanas mais intensas de minha vida. A Guerra do Kosovo ainda estava tão gravada na minha memória que era quase como visitar algum cenário de minha infância. À exceção da Malásia e talvez do Paraguai, não acho que criei com qualquer outro país um laço tão grande quanto o que criei com a Sérvia. E devo dizer que até hoje nutro profundo carinho por aquela terra. Imaginar aqueles prédios por onde passei, aquelas pessoas com quem conversei, aquelas praças em que descansei e aqueles restaurantes em que comi, todos debaixo de bomba, é aterrador. Acho que uma das coisas boas de viajar é isso: aprendemos a ter empatia. Acho que não teria coragem de mandar bombardear Belgrado se eu fosse um estadista.

Em meu último dia na Sérvia precisei levantar bem cedo para outra longa viagem de trem, desta vez até Sofia, na Bulgária. Antes de partir, olhei rapidamente meu celular. Uma notícia me chocou: relatos de que o avião com a equipe da Chapecoense havia caído na Colômbia. Sem maiores detalhes.

Cheguei à estação com pouquíssimos minutos de folga para pegar o trem. Passaria a viagem inteira pensando naquele desastre aéreo. No caminho até a Bulgária, paramos na estação de Niš, cidade-natal do famoso imperador romano Constantino.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Balcanizando - Parte I: Na terra dos poetas

Era um domingo frio do outono de 2016 quando acordei bem cedo, já com as malas todas prontas e a roupa preparada para a viagem. Um dia antes havia comprado um pequeno livro introdutório sobre a história dos Bálcãs em alemão: “Geschichte des Balkans”, de Edgar Hösch.

Estava de volta à Alemanha desde o princípio de outubro, mas queria mais. Queria conhecer tudo aquilo que não tivera a oportunidade de conhecer da primeira vez em que estive por aqui. O meu destino era certo antes mesmo de deixar o Brasil: os Bálcãs. Aquela parte do mundo que frequentou assiduamente a pauta de todos os telejornais ao longo dos anos 1990, mas que, desde que se pacificou, já não aparece muito na mídia – ao menos não na mídia brasileira, embora as telenovelas brasileiras fossem uma constante por lá.

E por que justo os Bálcãs? Talvez porque ninguém que eu conheça tenha ido lá. Ou talvez pela própria fascinação de ver de perto países que, durante a minha infância, estiveram no epicentro da geopolítica mundial. Os conflitos de grande envergadura, as ameaças nucleares e os grandes ditadores dos quais o século XX foi profícuo nunca fizeram parte da minha realidade. Nasci em 1988, quando o mundo já estava quase se encaixando nos eixos (não que isso seja algo bom), quando a “História” já havia chegado ao fim (dá-lhe, Fukuyama!), na tênue fronteira entre os séculos XX e XXI. Conforme deixei claro em meu texto de janeiro de 2014 (“Do Consenso ao Crepúsculo”, http://hiperativo-categorico.blogspot.de/2014_01_01_archive.html), a Cortina de Ferro sempre fora, para mim, uma realidade tão distante quanto a Alemanha nazista; a Guerra Fria era tão pouco contemporânea minha como a Segunda ou a Primeira Guerras. De maneira que as guerras nos Bálcãs que desencadearam a desintegração da Iugoslávia nos anos 1990 eram o mais próximo que cheguei de entender o que era viver em um mundo em conflito.

Recordo-me bem de uma prova de História Contemporânea que fiz em 2012. Uma das questões afirmava que este momento em que estamos é o momento propício para o historiador começar a abordar o nacionalismo. Isso porque em um pós-89 cada vez mais marcado pela globalização, a nação e o Estado já não teriam mais o significado que possuíam nos séculos XIX e XX. Só em um contexto no qual as grandes empresas sobrepujavam as nações é que o nacionalismo poderia ser um objeto de quem estuda o passado. O historiador, como a coruja, só levanta voo quando todos já adormeceram.

Em plena desintegração do bloco socialista e triunfo do capitalismo, os Bálcãs ainda carregavam uma forte carga de século XX (nacionalismos, guerras, massacres, etc.) quando as águas do século XXI já tocavam os pés do restante do mundo ocidental.

Tragicamente, entretanto, em uma era de Putins, Trumps e Bolsonaros, tem sido mais fácil pensar que nós é que nos precipitamos em achar que o século XXI seria muito diferente. Ele não será.

O caminho de Munique até Ljubljana, na Eslovênia, foi maravilhoso. O trem cruzou a fronteira com a Áustria passando por paisagens de tirar o fôlego, até parar em Villach, a última cidade austríaca antes da fronteira eslovena. A ferrovia que unia dos dois países estava passando por reformas, então tivemos que pegar um ônibus. A paisagem eslovena não deixava por menos: grandes vales e montanhas cobertos por uma neblina que fazia lembrar aqueles contos de fadas. Cheguei exausto à estação de ônibus de Ljubljana – cansaço da viagem e de ter acordado tão cedo. Com bastante custo encontrei minha acomodação: um simpático hostel, bem pequeno e meio escondido, mas muito limpo e aconchegante.

A Eslovênia mais parece uma cidade do interior de Minas do que propriamente um país. Com pouco mais de dois milhões de habitantes, foi o primeiro país a se separar da Iugoslávia, em princípios da década de 1990. Diferente das outras repúblicas iugoslavas, a secessão da Eslovênia se deu de forma relativamente pacífica. E essa paz parece se desdobrar de diversas maneiras. "Ljubljana" significa "a amada". Na praça central de Ljubljana domina a estátua de um grande poeta nacional: France Preseren. Conforme deixou claro a guia turística, “nós, eslovenos, não celebramos os guerreiros, e sim os poetas; enquanto na maioria das capitais europeias você encontrará o monumento de um monarca ou guerreiro empunhando uma arma, aqui na Eslovênia você encontra um poeta segurando um livro”. Acima do poeta, uma musa com os seios descobertos. Tiveram que posicionar esse monumento estrategicamente atrás de uma árvore, pois os fiéis que deixavam a igreja depois da missa reclamavam de ter que encarar uma figura nua em plena praça.

Em minha primeira noite no país resolvi visitar o Metelkova Mesto, um famoso centro cultural underground. Quem me sugeriu foi o próprio funcionário do hostel. Disse que era pra eu não ter medo, pois, apesar de ser um lugar um pouco sombrio, era seguro.

Não consigo achar uma definição melhor para o Metelkova Mesto do que a FAFICH ou a FFLCH eslovena. Talvez até uma Rua Augusta, embora sem o mesmo glamour e com muito menos gente (ainda mais em baixa temporada). Em alguns pontos também me lembrou o Beco do Batman em São Paulo. Trata-se de um quarteirão relativamente afastado do centro da cidade, com algumas construções antigas nas quais funcionam bares alternativos. O local é repleto de exemplares de arte de rua: grafite, pichações e esculturas de sucata. Confesso que adentrei o ambiente com um pouco de medo. Estava tudo meio escuro, pois já era final de tarde. Aquilo tudo parecia um terreno abandonado. Algumas poucas pessoas estavam do lado de fora fumando ou bebendo. Na frente de uma das casas, mais iluminada, duas jovens conversavam. Resolvi entrar nessa. Lá dentro, um chão bem sujo, várias portas fechadas e mais trabalhos artísticos.

De uma dessas portas fechadas vinha um barulho de pessoas cantando, conversando e eventualmente batendo palmas. Devo ter ficado entre cinco e dez minutos refletindo se eu deveria ou não entrar. Chegava, me aproximava, tentava escutar melhor o que se passava, mas sempre acabava recuando. Fiquei com medo de interromper alguma reunião, alguma solenidade, algum evento particular. Mas ao mesmo tempo pensava que, se fosse algo tão restrito assim, haveria alguém para controlar a entrada. E não havia.

Cansei de pensar. Me deu vontade de ir ao banheiro. No frio, como não suamos ou suamos pouco, o líquido sempre insiste em sair por outros meios. O banheiro era quase tão sujo e grafitado quanto o da FAFICH. Tinha vários adesivos sobre prevenção de DST’s e orgulho LGBTT. Naquele momento, alguém abriu a porta do recinto de onde vinham os barulhos. Fiz minhas necessidades e tomei coragem para entrar.

Lá dentro, uma pequena sala muito escura. Um balcão cheio de guloseimas e bebidas, e bastante gente em pé e sentada. Não demorou para perceber que era um evento da comunidade LGBTT. Havia muitos casais de gays e lésbicas, além de transgêneros. O evento consistia em um recital de músicas e poemas (alguns em inglês) sobre as lutas diárias de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros diante dos preconceitos diários. Infelizmente, dada a lotação do local, fiquei em um ponto que não me permitia ver o palco. Imagino que devo ter ficado lá por uns dez ou quinze minutos, depois dos quais resolvi sair e retornar ao hostel.

Acho que naquela mesma noite, antes ou depois de visitar o centro cultural, fui abordado, enquanto comia na praça, por um jovem de uns vinte e poucos anos. Perguntou-me se eu gostava de rock, disse que era de uma banda de rock estoniana independente chamada “Illumenium” e que estavam fazendo um tour pela Europa para arrecadar fundos. Disse ainda que sua banda não dependia de patrocinadores e já havia tocado em vários países. Resolvi comprar um CD para ajudá-los, pois ele foi muito simpático e demonstrou bastante confiança nas suas palavras. Contei-lhe que queria muito visitar a Estônia e as demais repúblicas do Báltico, ao que ele respondeu: “you’re always welcome!”.

Ao longo de minha estadia em Ljubljana, ainda seria abordado várias vezes pelos outros membros da banda.

Em minhas andanças pelos becos, ruas e vielas daquela simpática capital, acabei conhecendo Martina, uma estudante de Letras da Universidade de Ljubljana – mesma universidade onde estudaram figuras tão díspares como o filósofo marxista Slavoj Zizek e a atual primeira-dama dos Estados Unidos, Ivana Trump. Martina me contou que o funcionalismo público esloveno é uma grande família, no sentido mais estrito do termo. Não há concursos públicos para nenhum cargo e a única maneira de ingressar é tendo contatos lá dentro. Ela inclusive disse que chegou a trabalhar em repartições nas quais todos os funcionários tinham o mesmo sobrenome. Como o país é muito pequeno e tem muito pouca gente, o funcionalismo acaba ficando restrito a uns poucos círculos de familiares e amigos. O fato de o homem cordial narrado em “Raízes do Brasil” não ser um monopólio brasileiro realmente não me surpreendeu. O que me surpreendeu foi tê-lo encontrado na Eslovênia.

Minha longa experiência no Sudeste Asiático me fez concluir que a Malásia ainda precisa encontrar seu Gilberto Freyre. Um país com três raças, que, apesar de conviverem harmonicamente (ao menos segundo o discurso oficial), praticamente não se misturam, precisa ter seu “Casagrande e Senzala”. De forma análoga, a Eslovênia precisa encontrar seu Sérgio Buarque de Holanda.

Martina ainda me falou sobre os poetas eslovenos do século XIX. Nesse quesito, a semelhança com o Brasil salta ainda mais à vista do que no caso do funcionalismo público. Aquele famoso roteiro de viver na boemia – estudar Direito – apaixonar-se por uma mulher mais rica – compor versos a ela sabendo que nunca iria conquistá-la – morrer pobre, de tuberculose, antes dos 35, também era seguido à risca pelos poetas românticos eslovenos. Inclusive, a alguns metros da estátua de France Preseren, em uma casa não muito distante, está o busto da amada que ele tanto desejou. Se você observar bem, ambos estão se olhando.

Em meu segundo ou terceiro dia na Eslovênia, o hostel em que estava recebeu uma leva de jovens ucranianos que pareciam ter no máximo 16 anos. Era uma equipe de judô que estava competindo num ginásio não muito longe dali. Impossível não lembrar-me dos meus tempos de judoca, das viagens que fazíamos, do quão tormentosa era nossa rotina. Dormir no chão frio de uma escola em pleno mês de junho, acordar cedo pra passar quarenta minutos na fila, esperando pra tomar banho gelado num banheiro que quase sempre alagava. Isso sem contar o assédio dos alunos veteranos sobre os mais jovens, ameaçando passar trotes ou fazendo piadas de duplo-sentido que nossa tenra idade não nos permitia entender. Que inveja das mulheres da equipe! Enquanto nós dormíamos em 30, elas eram no máximo quatro ou cinco, em uma sala tão grande como a nossa, além de ter o banheiro só pra elas. E quão sortudos eram aqueles judocas ucranianos de poderem se alojar em um lugar tão aconchegante durante suas competições!

Em meu último dia na Eslovênia resolvi fazer uma breve viagem à vizinha Croácia. Peguei o trem bem cedo para Zagreb, capital croata. Cerca de duas horas e meia de viagem, podendo ser um pouco mais, a depender da rigidez da imigração. Quando o trem para na fronteira, as polícias de ambos os países entram e vão pedindo os documentos de todos os passageiros. Alguma coisa em mim não pareceu bem aos olhos da policial croata. Olhou meu passaporte com um interesse incomum, como um comerciante que recebe uma nota falsa. Perguntou-me de onde eu vinha, para onde eu ia, o que ia fazer em Zagreb, se eu tinha acomodação reservada. Pediu para abrir minha mochila. Olhou meu caderninho de anotações, perguntou o que estava escrito. Respondi que eram os locais em Zagreb que eu queria visitar. Tornou a folhear meu passaporte. Perguntou se eu tinha mais bagagem, ao que respondi negativamente. Depois dessa revista completa, a jovem guarda devolveu meu passaporte e foi em busca de outra presa.

Aquilo foi um aviso: “Você não está mais na Europa Ocidental, você está nos Bálcãs!”. Me lembrou até aquela passagem do filme “Avatar”: “You are not in Kansas anymore, you are on Pandora!”. E isso porque a Croácia – assim como a Eslovênia – ainda faz parte da União Europeia. Depois que o trem seguiu viagem, me veio um aperto no coração: “Sérvia!”. No imaginário internético (memes, vídeos, páginas de Facebook), a Sérvia é sempre associada a um nacionalismo ferrenho, a militares fortes e bravos, ávidos por se lançarem sobre o primeiro estrangeiro desavisado que ousar avançar sobre suas fronteiras.

Mas a Sérvia era assunto para depois. Após uma viagem tranquila em um trem um tanto antigo – possivelmente alguma relíquia da ex-Iugoslávia comunista –, passei um dia agradabilíssimo em Zagreb após trocar meus euros por kunas, a moeda local. Voltei para Ljubljana naquela noite exausto. No dia seguinte, seguiria viagem para a Sérvia.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

No princípio, eram os mosquitos

São duas e quinze da manhã de um verão como outro qualquer.

Horácio acorda abanando a mão esquerda, ainda meio sonolento, tentando capturar um dos vários mosquitos que o azucrinam. Todo verão é a mesma história: os mosquitos se reúnem em massa nas redondezas da casa de Horácio, aproveitando a fartura de locais para se reproduzirem e alimentarem. Horácio não os suporta, nunca os suportou. E com verões cada vez mais quentes e infestações cada vez maiores, seu ódio cresce mais e mais.

- Já não durmo mais – diz Horácio a Cléber, o balconista da padaria, na manhã seguinte.

- É a mosquitada de novo?

- Sempre eles.

Antes mesmo dos idos de janeiro, Horácio não sabia mais o que fazer. Não dormia direito, em consequência não trabalhava direito e não se relacionava direito. Não demorou muito até que ele cultivasse verdadeiro ódio dos pequenos animais, declarando-lhes uma guerra de morte.

Chegava em casa exausto do trabalho todos os dias, mas não dava o braço a torcer. Matava todos os mosquitos que apareciam. Com o jornal, com um livro, com a raquete, com as duas mãos e às vezes até com uma, caso a outra estivesse ocupada.

Cada dia era uma luta nova, vários mosquitos mortos e a sensação do dever cumprido. Faltavam poucos minutos para as duas da madrugada quando Horácio finalmente caía na cama, exausto de tanto matar mosquitos. No dia seguinte, o ciclo se repetia.

Os dias, que sempre foram iguais para Horácio, tornavam-se mais iguais do que nunca. O ódio lhe subira à cabeça. Nada o tiraria de lá.

Dias havia em que ele saía do trabalho mais cedo na esperança de que o elemento surpresa poderia conspirar a seu favor. Aos poucos, Horácio foi perdendo sua civilidade, deixando-se dominar por comportamentos animalescos. Corria pela casa derrubando enfeites e mobília atrás dos mosquitos. Dava gritos de alegria a cada corpo dilacerado que via na parede ou em suas mãos, mas também urrava de ódio a cada mosquito que lhe escapava, perseguindo-o com ainda mais brutalidade.

Bastava ver mosquitos ou ouvir o zunido ao seu redor que ele salivava de raiva. Sentia nojo, repulsa, asco daquelas pequenas criaturas que o infernizavam.

- Canalhas! Canalhas! – gritava, erguendo e balançando o braço, sempre que os mosquitos lhe escapavam pela janela. Voltem aqui! Lutem como homens!

Traçava planos mirabolantes para surpreendê-los atrás da geladeira, embaixo do filtro ou na porta menor do guarda-roupas. Discutia, consigo mesmo, estratégias de ação. Bolava fugas e contra-ataques infalíveis, ou nem tanto. Declamava discursos de ódio abominando seus inimigos e conclamando à luta:

- Essas criaturas abjetas sem decoro não podem prosseguir em sua ação dissolvente, caftinizando-nos! Cumpre esvurmá-los. Urge escorraçá-los, vapuleá-los, zurzi-los, vergalha-los, zupá-los, azorraga-los, vergastá-los, taganteá-los, chicoteá-los, relhá-los!

Imaginava complôs que explicassem a origem de tamanha repugnância em forma de vida. Dizia que foram enviados por seu colega de trabalho invejoso. Depois mudava de ideia e afirmava categoricamente que eram obra de sua ex-namorada. Depois, desiludido, repetia consigo mesmo que aquilo não era possível, pois que sua ex já não pensava mais nele. Os mosquitos eram, isso sim, obra daquela mulher com quem tivera um caso no ano passado e que lhe trouxera mil desgostos.

E a cada novo desafeto que fazia, Horácio achava uma maneira de enquadrá-los: o açougueiro que subiu o preço da carne; o novo chefe que o perseguia no serviço; a vizinha de trás que caçoava de seus ataques nervosos; o sobrinho do carteiro que urinava no batente da porta.

- Sim... Foram eles! Foram todos eles! Em conluio ou separadamente! Não há outra explicação!

As horas de sono, cada vez mais exíguas, tornaram-se quase inexistentes. A batalha contra os mosquitos exigia vigília constante. Horácio chegava para trabalhar todos os dias com os olhos vermelhos de raiva e sono. Quase não se comunicava com os colegas de repartição. Usava o intervalo para cochilar e sonhar que exterminava mais mosquitos.

Cléber, percebendo o nível a que chegara o ódio e a paranoia do freguês, demitira-se do emprego na padaria e começara a vender artigos para combater mosquitos: raquetes eletrizadas, velas de citronela, repelentes naturais e industrializados, incensos milagrosos e sprays importados.

Artigos para matar mosquitos! Que dádiva.

Horácio tornou-se seu freguês número um. Toda semana fazia uma limpa na loja, que ficava estrategicamente localizada a poucos metros de sua casa. Chorava de emoção ao ver a eficiência com que as raquetes eletrizadas exterminavam vários mosquitos de uma só vez:

- Máquinas de matar formidáveis! – declarava, orgulhoso.

Cléber ganhava, no novo serviço, quase o triplo do que ganhava na padaria. A ambição de Horácio não conhecia limites. No auge de sua loucura, gastava mais da metade de seu orçamento com produtos para exterminar mosquitos. A cada semana Cléber vinha com uma novidade:

- Raquetes eletrizadas, seu Horácio!

- Já tenho, Cléber! Você mesmo me vendeu.

- Não essas. Essas são eletrizadas de outra forma.

- Como?

- Mais potência. E têm menos espaços na tela, tá vendo? Nem os miudinhos escapam.

- Bom! E o que mais?

- Esse spray importado da Groenlândia... Mata quatro vezes mais que o nacional!

- E desde quando há mosquitos na Groenlândia, Cléber?!

- Ora, Horácio... Já não os têm por causa desse spray!

- Fala sério?

- Seguramente.

- Levo cinco.

- E o novo repelente natural?

- À base de que?

- Um óleo extraído da seiva de uma árvore raríssima. Só tem na Guiana.

- Funciona?

- Alguma vez já ouviu um cidadão da Guiana reclamando de mosquitos?

- Não, mas também nunca conheci guianense algum.

- E se conhecesse certamente ele não reclamaria.

- Certo. Mas levo apenas três.

- E a tela especial de assar mosquitos que chegou ontem? Não quer ser o primeiro a levar?

- Mas o spray e a raquete já não servem para isso?

- Claro, homem! Mas enquanto a raquete dá choque e o spray envenena, essa tela queima lentamente. Dá até pra ver a agonia do mosquito se contorcendo!

- Hum... Jura?! – Horácio revirava os olhos de prazer ao imaginar a cena.

- Palavra! Não vai perder essa, vai?

- Não, levarei uma para testar.

- Perfeito.

Nair, o agente de saúde do bairro e velho amigo de Horácio, com quem mantinha longas conversas na padaria todas as manhãs, prometeu visitá-lo no final de semana para ver como poderia solucionar o problema dos mosquitos. Encontrou, batendo à porta de Horácio, o aguerrido Cléber. Estava com um incenso novo que fazia os mosquitos explodirem em pleno voo.

- Quando vários mosquitos explodem juntos parece até uma mini-queima de fogos! – caçoou o vendedor com Nair.

Horácio saiu à janela, convidou-os a entrarem e ofereceu café. Dispensou a oferta de Cléber – já não tinha mais dinheiro – e ouviu Nair com atenção:

- É só lacrar a caixa d’água e eliminar os recipientes que acumulam água no seu quintal que os mosquitos desaparecem – garantiu o experiente agente de saúde. Lacro a caixa d’água hoje e na segunda volto para eliminar os criadouros de larva no jardim. Há também um pé de romã no terreno ao lado que precisa ser podado. As romãs atraem muito esses mosquitinhos, sabe? Algumas delas acabam caindo aqui no seu quintal.

- Perfeitamente! – concordou Horácio.

Não demoraram mais que meia hora na casa de Horácio. Na segunda, conforme o prometido, Nair voltara à casa do amigo para ajudá-lo a retirar os recipientes com água, bem como limpar os restos de romã espalhados no seu quintal e podar o pé de romã ao lado. Após um mês e meio sem mosquitos em casa, Horácio começou a surtar.

- Onde estão? Onde estão? Sei que estão aí sim... Estão preparando um ataque surpresa quando eu estiver desprevenido. Onde estão?! Saiam, covardes! Saiam!

Não entrava em sua cabeça que aquelas criaturas repugnantes haviam simplesmente sumido. Já não se contentava em ter os mosquitos longe. Não! Era necessário matá-los. Era necessário dilacerá-los. Precisava exterminar todos, um por um, seja com as mãos, com as raquetes, com o spray ou com qualquer outra ferramenta mirabolante que o velho Cléber tivesse a lhe oferecer. Tamanha repugnância não podia ficar impune.

- Eu quero vê-los mortos! Todos eles, sem exceção! – salivava de ódio Horácio enquanto procurava desesperadamente pelos mosquitos. Na ausência destes, atacava uma pluma que se soltava, uma folha que caía, um restinho de poeira que se erguia no ar... Qualquer coisa que tivesse a mínima chance de ser um mosquito.

Não mais contente do que Horácio estava Cléber, que via as vendas caindo vertiginosamente. Seu grande freguês simplesmente o abandonara. Fazia quase dois meses que Horácio não dava mais as caras no estabelecimento. Situação preocupante. Foi quando se lembrou do que dissera o Nair: as romãs atraíam os mosquitos. Resolveu então comprar algumas romãs no hortifrúti para espalhar seus restos ao redor da casa de Horácio na calada da noite, sem ninguém suspeitar. Uma vez espalhadas as romãs, os mosquitos voltariam e seus lucros também.

Mas Nair visitava Horácio quase diariamente a fim de assegurar que o amigo estivesse seguindo fielmente as recomendações. E sempre que via os restos de romãs espalhados pelo pátio jogava-os no lixo, não sem antes dar uma bela bronca em Horácio, que jurava não ter conhecimento da origem das frutas.

O arranca-rabo silencioso entre Cléber e Nair se desenrolou por dias e mais dias: Nair pacientemente jogava fora todos os restos de romã que Cléber espalhara na noite anterior, mas Cléber nunca dava o braço a torcer. Pelo bem de seu negócio. Não demorou muito até que Clóvis, velho amigo de Cléber e colega de balcão na padaria, se demitisse do emprego de balconista e abrisse um hortifrúti bem ao lado da loja de Cléber. Era farto o hortifrúti de Clóvis: maçãs, laranjas, abacaxis, mamões, bananas e – especialidade da casa – romãs.

Romãs! Que dádiva.

Cléber tornou-se seu freguês mais assíduo. Quanto mais Nair limpava o terreno de Horácio, mais Cléber comprava de Clóvis. Nesse ritmo, não demorou muito até que os mosquitos voltassem a infernizar Horácio – e que este último voltasse a comprar de Cléber.

O pobre Horácio estava no auge da obsessão anti-mosquitos. Já destruíra quase metade da mobília de casa em suas caçadas. Chegou a ficar nove dias seguidos sem aparecer, mas pouco se importou quando foi demitido. Já não colocava o trabalho como prioridade na sua vida. Assegurar a integridade de seu lar contra a ameaça entomológica era muito mais importante. A perigosa combinação entre desemprego e compras cada vez mais frequentes no Cléber logo endividou Horácio. E foi nesse momento que, ao lado do hortifrúti de Clóvis abriu a filial de uma agência de empréstimos. Era daquelas que apareciam a todo o momento fazendo propaganda em programas de auditório. “Sem consulta ao SPC! Sem consulta ao SERASA! Sem consignado! Sem frescura e sem dor de cabeça: só dinheiro!”.

Dinheiro fácil! Que dádiva.

Seu gerente era Cláudio, um discreto frequentador da mesma padaria na qual Horácio tomava café e na qual Cléber e Clóvis trabalhavam antes de se tornarem empreendedores. Horácio foi seu primeiro cliente. Em menos de um mês já devia à agência mais do que nunca antes havia devido em toda a sua existência.

E assim se processavam as coisas naquele miolo da cidade. Para cada problema o seu ator, e para cada ator o seu papel. Os mosquitos atacavam Horácio, que se endividava com a agência de empréstimos para comprar do Cléber, além de pedir ajuda a Nair, que descartava os restos de romã, fazendo Cléber comprar de Clóvis.

Foi quando, numa manhã de sábado, Nair passou mal logo após tomar seu habitual café da manhã na padaria. Foram cinco dias acamado até vir a óbito, para a tristeza da esposa, dona de casa, e das duas filhas. A história nunca ficou muito bem esclarecida, apenas para alguns poucos. O quadro de Horácio, por sua vez, só piorava: tanto o financeiro como o psiquiátrico. Ele sequer chorou a morte de Nair. Pelo contrário: passara a suspeitar que o falecido amigo também estava por trás dos mosquitos. Todos aqueles conselhos de gastar menos energia matando mosquitos e mais energia limpando o quintal o deixaram com o pé atrás:

- Pois como não irei gastar minha energia exterminando esses crápulas?! São eles a culpa da minha insônia, foram eles os culpados pela minha demissão, são eles que aparecem para zunir no meu ouvido irritantemente justo quando quero dormir, e são eles que me deixam todo empolado de coceiras. Só mesmo um dementado como o Nair pra ficar passando a mão na cabeça de mosquito. Pois que o diabo o carregue!

Com Nair misteriosamente fora do caminho, Cléber lucrava como nunca, pois os mosquitos atacavam como nunca e já não gastava tanto como antes para repôr as romãs. Cada dia um novo produto mais mortal aparecia em sua venda, seduzindo o pobre Horácio em sua cruzada ensandecida contra o exército em miniatura.

Os lucros eram tão fabulosos que Cléber convidou o amigo Clóvis para comemorar. Foi uma noite inteira de muita bebida, cigarro e conversa jogada fora. Altas horas da noite, já embebedado de cerveja, vodca e licor, Cléber foi surpreendido por Clóvis, igualmente bêbado, a lhe apontar uma arma. Gelou de medo o pobre comerciante:

- Clóvis, que porra é essa? Abaixa essa arma!

- Tudo sua culpa, Cléber! Tudo sua culpa! – repetia Clóvis, balançando levemente a cabeça em sinal de reprovação.

- Culpa minha o que, estais louco? Abaixa essa arma! Você tá bêbado! Vamos... Vamos que te levo em casa.

Mas Clóvis o afastou de um só movimento, mirando com dificuldade na testa do amigo:

- Já não tenho o que dar de comer para minhas filhas. Já não consigo pagar minhas contas. Os gastos com cartão de crédito, já não consigo saldá-los. Estou quebrado, Cléber! Quebrado! E a culpa é toda sua!

Cléber ficava cada vez mais confuso. E Clóvis seguia com seu gesto de reprovação:

- Você acha que ninguém sabe, Cléber? Você acha que ninguém sabe que o malandro da padaria que envenenou Nair recebeu ordens suas? Você acha que ninguém sabe que o dinheiro torrado pelo Horácio com você pagou a bala que matou o Nair? Você acha?!

Cléber, até então amedrontado, retomou a compostura e tentou se justificar:

- Ao diabo, Clóvis! Você bem sabia que com aquele sacripanta no caminho meu negócio ia pro brejo. Se eu deixasse o sujeito vivo, em pouco tempo já não ia haver mais mosquito pra infernizar o Horácio! Você via o tanto de romãs que ele jogava no lixo a cada vez que visitava o infeliz? Até das mais bem escondidinhas o filho da mãe conseguia dar cabo.

- Não se faça de desentendido! Você quis se livrar do Nair, mas bem lá no fundo o que queria mesmo era se livrar de mim. Sem o Nair no caminho eram menos romãs no seu orçamento, mais lucro pra você e menos vendas pra mim. Acha que eu não percebi?!

- Hã?! – Cléber finalmente se tocava do que estava acontecendo ali.

- Pois agora é a minha vez de me livrar de você.

Um estrondo rasgou a noite. Assim como a morte de Nair, a de Cléber nunca foi muito bem esclarecida, exceto para alguns poucos. Clóvis tentou adquirir a loja de artigos contra mosquitos que pertencia a Cléber, mas foi em vão. As dívidas contraídas no período de fartura não o deixaram prosseguir em seu intento inicial. Desesperado, logo precisou recorrer aos empréstimos de Cláudio. Foi falar pessoalmente com ele, quase ao final do expediente, na esperança de que seus laços de amizade o fizessem conseguir um empréstimo em condições mais vantajosas. Cláudio o recebeu muito bem. Entre um café aqui e uma piada ali, a noite caiu, a agência se esvaziou e ambos se viram a sós lá dentro. Foi quando Cláudio abandonou as cortesias e abriu o jogo. Levantou-se da mesa, dirigiu-se à janela, acendeu um cigarro e emendou a seguinte ladainha, enquanto contemplava o horizonte:

- No princípio, eram os mosquitos. Ah... Os mosquitos! Os mosquitos que atrapalhavam Horácio, que pediu ajuda a Nair, que atrapalhou Cléber, que matou Nair, que ajudava Clóvis, que matou Cléber, com quem se endividava Horácio, que pedia dinheiro emprestado a Cláudio, mas que agora, com Cléber morto, já não pede mais. Pobre Cláudio! Onde encontrarei outro Horácio de quem arrancar o couro? Pobre Clóvis! Já não tem mais amigos, só dívidas.

O corpo de Clóvis só seria encontrado na noite seguinte, nos arrabaldes da cidade. O caso também nunca foi devidamente esclarecido, exceto entre alguns círculos restritos. Em pouco tempo, Cláudio adquiriu os estabelecimentos de Cléber e Clóvis. Daí em diante, era ele quem fornecia os equipamentos para matar os mosquitos, era ele quem distribuía a romã no pátio de Horácio e era ele quem fornecia os empréstimos para Horácio continuar levando a cabo sua heroica e destemida cruzada.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Da casa engraçada à USP - Meus 28 anos

Hoje, 29 de janeiro de 2016, completo 28 anos de idade.

Durante muito tempo, aniversários significaram para mim uma época para comemorar e ganhar presentes. Hoje, por outro lado, vejo o aniversário como um momento para recordar. Recordar e escrever. Principalmente tendo em vista que me encontro em uma fase da vida na qual tenho verdadeiro horror de estar em qualquer lugar ou evento no qual eu seja o centro das atenções. Daí minhas comemorações de aniversário tornarem-se cada vez mais escassas e discretas.

Neste ano de 2016, queria escrever um texto nos moldes do que escrevi em 2014, em ocasião dos meus 26 anos. Infelizmente não consegui. Aquele continua sendo um dos mais brilhantes resumos que já fiz de minha vida até o momento. Mesmo assim não me dei por vencido e resolvi escrever este outro texto, comentando experiências e reflexões que me esqueci de mencionar há dois anos atrás e reafirmando outras tantas.

Como bom historiador, sei que a história que se narra está articulada à história que se vive. A forma como o homem do Renascimento via o mundo medieval dizia muito mais sobre o próprio período renascentista do que sobre a Idade Média. De forma análoga, a leitura que os integralistas brasileiros faziam do Brasil colonial, se nos serve como ótima fonte de informação sobre o pensamento político brasileiro dos anos 1930, pouco nos diz sobre o período colonial de fato.

Também como todo historiador, sei que a história é feita de recortes, de seleções. Jogar luz sobre este ou aquele evento histórico implica deixar no escuro outras tantas passagens. É impossível abocanhar toda a história de uma só tacada. A história é como um imenso e interminável mosaico do qual o historiador sempre conseguirá captar apenas alguns dos quadros. Cabe ao historiador, portanto, a elevada responsabilidade de escolher cuidadosamente quais quadros receberão luz alta e quais ficarão em luz baixa, bem como justificar os motivos para essas escolhas.

É por isso que, apesar de concordar com a iniciativa, acho tão problemática a lei que torna obrigatório o ensino de história da África nas escolas brasileiras (Lei Nº 10.639 de 9 de janeiro de 2003). Não a lei em si, mas a forma como ela vem sendo aplicada. Em um vasto livro didático, totalmente dividido de acordo com os padrões temporais europeus (Antiguidade, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea), eis que surge, não mais que de repente, um capítulo anômalo, enfiado às pressas no meio dos demais apenas para cumprir a lei, intitulado “História da África”.

Em que consiste?

Em milhares de anos da história de um dos mais vastos e diversificados continentes do planeta. Resume-se, neste humilde capítulo, uma extensão temporal e cultural tão ou mais abrangente do que aquela dedicada ao continente europeu ao longo de todo o livro didático. O aluno, até então imerso em uma visão eurocêntrica da história, de repente se depara com um capítulo intitulado “História da África”. É como se de dentro do livro pulasse alguém e dissesse: “Interrompemos nossa programação para dizer a você, em conformidade com a lei 10.639, que existem alguns povos exóticos num continente estranho que merecem a sua atenção; dentro de instantes voltaremos à nossa programação normal”.

Isso mesmo: “à nossa programação normal”. A História Europeia é a normal. Reforça-se, portanto, justamente o estereótipo que a referida lei – creio eu – quer destruir: a do estranhamento em relação à África e às suas populações.

Pior do que isso. Da forma como a lei vem sendo implementada, apela-se à identificação, um dos recursos mais eficientes de exercício do poder simbólico. Sabe por que nunca veremos um capítulo de livro didático intitulado “História Europeia”? Porque não é necessário dizer que aquele capítulo se trata da história do continente europeu – isso já está implícito. Não é necessário identificar que falamos da Europa quando falamos em “Idade Média” ou em “Período Contemporâneo”, pois estamos usando como parâmetros marcos temporais europeus.

Ou seja: o simples fato de precisarmos identificar um capítulo como sendo de história africana já demonstra que a História da África permanece, para pegar uma expressão emprestada a Bourdieu, um “excluído no interior”. Ela está inserida, mas em condições diferentes (i. e. inferiores) às dos demais. Fazendo uma analogia tosca, mas ainda assim válida: já pararam para pensar por que os sites norte-americanos dispensam o .us no final e só os endereços dos demais países devem identificar a procedência (brasileiros levam o .br, os japoneses o .jp e assim por diante)? Ou já pararam para pensar por que, na Alemanha nazista, apenas os judeus – mas nunca os ditos “arianos” – precisavam andar com uma estrela costurada à roupa para se identificarem?

Mas isso é assunto para outra discussão.

Baseando-me nessas duas constatações – 1. A história que se faz é indissociável da história que se vive e 2. A história é feita de recortes e seleções – buscarei aqui ressaltar não apenas quaisquer memórias que eu tiver de minha vida, mas aquelas que, por um motivo ou outro, me tocam mais fundo até os dias de hoje.

Acredito que uma das lembranças mais antigas que tenho é uma que data dos meus três ou quatro anos de idade, na escola. A professora colocou para tocar, num disco de vinil, aquela música do Vinícius de Moraes: “Era uma casa / Muito engraçada / Não tinha teto / Não tinha nada...”. Depois, pediu para que nós desenhássemos, numa folha de papel, a casa à qual a música fazia referência. Adorava desenhar. Pensei então em começar pelo piso, mas aí lembrei que a casa não tinha chão. Então pensei em começar pelas paredes, mas me lembrei que ela também não tinha parede. Foi aí que decidi começar pelo teto, para em seguida me lembrar que ela também não tinha teto. Só então percebi que não havia jeito de desenhar a bendita casa, já que ela “não tinha teto / não tinha nada”. Acho que essa foi uma das primeiras frustrações da minha vida. Mas como eu não podia contrariar os desígnios da professora, acabei desenhando uma casa toda torta, mas com as paredes, portas e teto, em flagrante contraste com o que a música propunha.

Mais de vinte anos se passaram e até hoje ainda não consigo imaginar uma maneira de desenhar a referida casa. Há quem diga que ela se resumisse a um amontoado de telhas, portas e janelas jogadas sobre um terreno baldio. Mas um amontoado de telhas, portas e janelas por si só não constitui uma casa. O que constitui a casa é a forma como esses elementos interagem. Olhando para trás, acho curioso como uma professora pode propor isso a seus alunos. Como ela pode tocar uma música que fala de uma casa tão enigmática, tão abstrata, e ainda esperar que seus jovens alunos consigam representar essa casa por meio de um desenho.

Com o passar dos anos, fui percebendo que a postura de minha professora da pré-escola não era um caso assim tão isolado quanto eu supunha. Ela apenas expressa um traço marcante de nosso sistema educacional. Querem que representemos, com um desenho numa folha de rascunho, uma casa que não pode ser concebida nem na imaginação. De forma análoga, querem que interpretemos um poema de extrema complexidade, escrito por um autor na penúria, tuberculoso e farto de desilusões amorosas (provavelmente nem ele mesmo sabia o que estava dizendo ao escrever tais linhas); querem que expliquemos as causas da Segunda Guerra Mundial (como se isso fosse algo tão tranquilo como apontar pra que lado fica a padaria mais próxima); querem que analisemos a rivalidade Israel-Palestina. E tudo em míseras 5 ou 10 linhas, como se questões de extrema complexidade, que há anos vêm sendo trabalhadas, coubessem em espaço tão exíguo.

Meu empenho descomunal em desenhar a casa engraçada de Vinícius de Moraes não se perpetuou ao longo de minha infância na escola. Nos primeiros anos, fui um aluno relapso e desinteressado. Odiava a escola mais que tudo e não conseguia entender como havia políticos que faziam campanha na televisão propondo construir mais escolas. Quando, em uma de minhas muitas desventuras em sala de aula, a diretora veio conversar comigo para dar uns puxões de orelha, entre um esporro e outro ela me disse que havia meninos que não frequentavam a escola, que ficavam à toa na rua ou ajudando o pai na roça, e perguntou se eu queria ser como eles. Na hora senti uma inveja corrosiva desses tais meninos. “Devem ser os meninos mais felizes do mundo!”, eu pensei.

Curiosamente, muitos e muitos anos depois, quando já trabalhava de monitor no Bernoulli, uma aluna a quem atendi comentou que em Esparta devia ser melhor ser pobre do que ser da elite, já que apenas os meninos da elite se submetiam a um sistema educacional ferrenho e militarmente conduzido, ao passo que os meninos mais pobres não tinham essa obrigação. Disse então a ela que, enquanto ela estava enfurnada naquele cursinho estudando loucamente para passar em medicina, milhares de meninos da periferia estavam jogando bola na rua ou empinando pipa, e perguntei qual dos dois ela preferia ser.

A fim de tornar a escola menos insuportável, tentava achar válvulas de escape. Então eu ria, brincava fazia piadinhas... Tudo para fugir daquela realidade intragável. Na minha escola, o castigo para os alunos travessos costumava ser ficar sem recreio. No meu caso, o índice de reincidência era tão alto que minha professora resolveu simplificar e me deixou de castigo no atacado: um mês inteiro sem recreio. Um mês para um adulto passa num piscar de olhos, mas para uma criança impaciente de apenas sete anos era quase como um semestre inteiro. Era angustiante ir todos os dias para a aula sabendo que eu não poderia brincar na hora do recreio, especialmente tendo em vista que o recreio era uma das poucas coisas que ainda salvavam o ambiente escolar. Tanto que, quando um parente distante certa vez veio nos visitar e me perguntou o que eu mais gostava na escola, respondi, sem titubear: “a hora do lanche, a hora do recreio e a hora de ir embora”. E de fato, era isso mesmo. Não estava brincando e não entendi quando começaram a rir de minha resposta.

Passado um mês de minha reclusão, quando finalmente pude voltar a respirar a liberdade do recreio, minha alegria durou pouco. Na volta para a sala de aula aprontei mais alguma palhaçadinha da qual nem me recordo mais. Foi o suficiente para minha professora me presentear com mais um longo mês sem recreio. Dois meses seguidos sem recreio. Até hoje me lembro bem de como ela rabiscava o calendário com caneta hidrocor para marcar direitinho minha “pena”.

Não me lembro de ter ficado sem recreio por tanto tempo assim novamente. Minha aversão à escola, porém, não mudou muito, principalmente às aulas de matemática. Não consigo me esquecer de como eu ficava pilhado tentando resolver problemas incompreensíveis. Entre uma pausa e outra, quando eu já me dava por vencido, olhava para as fotos das pessoas nas revistas. Homens bem-sucedidos, mulheres ricas, atores, cantores, pilotos e esportistas... Será que todos passaram pelo que passei? Será que todos eles tiveram que resolver aquelas equações infernais para chegar aonde chegaram? Será que se eu resolvesse as malditas equações eu chegaria ao mesmo lugar em que eles estavam? Ou será que já era tarde demais para mim?

Acredite ou não, esses questionamentos me perseguiram até o ensino médio, quando se tornaram ainda mais provocativos.

Outra lembrança igualmente curiosa da minha infância foi de uma colônia de férias à qual fui com apenas oito anos de idade. A colônia foi sediada em uma fazenda aqui perto de Lavras, não me lembro exatamente onde. Foi amplamente divulgada em todas as escolas da cidade, de modo que reuniu uma meninada vasta, dos sete aos doze anos de idade.

Não consigo me esquecer de uma cena que se passou no primeiro dia, logo que chegamos à fazenda. Uma horda de uns trinta ou quarenta meninos e meninas saiu do ônibus com um ímpeto fervoroso, correndo pelo pátio que ficava logo à frente de uma velha casa na qual iríamos dormir. Uns brincavam, outros brigavam, outros conversavam alegremente e outros faziam piadas. Eu, porém, seja por timidez, seja por minha vasta experiência de dois meses seguidos sem recreio, contentei-me em ficar sentado em um banco de madeira observando tudo aquilo.

Passado um tempo, um dos monitores da colônia sentou ao meu lado. Era um jovem de seus dezoito ou dezenove anos de idade, provavelmente ávido por fazer um dinheiro extra pra financiar a viagem de janeiro porque não tinha passado no vestibular e ficou de mal com a família. Perguntou-me por que eu estava tão quieto ali no canto, sem interagir com ninguém. Não me recordo bem de minha resposta, mas lembro muito bem da tréplica dele: “Isso aqui é uma colônia de férias, você tem que se divertir!”. Disse mais uma ou outra coisa que nem me lembro mais. Quando percebeu que eu não iria mudar, levantou-se e foi embora.

Não consigo pensar nessa cena sem esboçar pelo menos uma risadinha interna, mas na época não achei a menor graça. Aliás, acho que esse é um dos traços mais marcantes do amadurecimento: rir de coisas que outrora nos deixaram confusos, nervosos ou angustiados. E penso que quanto mais cedo rimos dessas situações, mais rápido estamos amadurecendo.

A verdade é que eu me senti envergonhado e culpado com a frase do jovem monitor. Todo mundo se divertindo e eu lá, parado, contemplativo, imóvel. Todo mundo se divertindo, só eu que não. Senti como se estivesse sendo um fardo, um inconveniente. Ou, melhor ainda, como se estivesse usando um produto da maneira errada. “Isso aqui é uma colônia de férias, você tem que se divertir!” soava quase como “Isso aqui é um cacto, você tem que jogar pouca água!”, “Isso aqui é um carro manual, você tem que ficar atento às marchas!” ou “Isso aqui é uma panela de teflon, você não pode raspar o garfo!”.

A colônia servia para se divertir e eu não estava me divertindo. Que lástima!

Da mesma forma que a casa engraçada, esse episódio ainda mexe bastante comigo até os dias de hoje. Quantas vezes não vemos uma pessoa e, do alto de nossa arrogância, julgamo-la doente, deprimida ou problemática, ignorando que nós mesmos podemos estar muito mais necessitados de ajuda do que ela? Quantas vezes, em meio a uma festa onde todo mundo canta e dança, olhamos para aquela pessoa sentada e julgamo-la antissocial. Quantas vezes descobrimos uma pessoa que não bebe, não fuma e não usa drogas, e julgamos que ela tem que começar a beber, fumar ou usar drogas para se sentir bem. Quantas vezes vemos uma pessoa com um comportamento peculiar, porém inofensivo, ou com preocupações que nos são incompreensíveis e julgamos que ela precisa de um psicólogo. Quantas vezes vemos uma lésbica e julgamos que ela só é assim porque ainda não encontrou o homem certo (o mesmo podendo ser dito sobre os gays). E tudo por quê? Apenas porque nenhuma dessas pessoas corresponde a nossas expectativas. Porque nenhuma delas se diverte da forma como nós nos divertimos. Porque se eu só sei me divertir bebendo e fumando então fulano deve ser extremamente infeliz, já que não bebe nem fuma. Porque se eu só consigo sentir prazer com pessoas do sexo oposto, então gays e lésbicas devem ter uma vida sexual miserável, já que não transam com o sexo oposto.

Pobres de todos eles.

É costume, hoje, dizer que vivemos em uma sociedade doente. Eu acrescentaria ainda: vivemos numa sociedade doente na qual todos acreditam ser médicos. Ou melhor: vivemos numa sociedade na qual todos irão fazer o possível e o impossível para te convencer de que você está doente e de que eles detêm a cura.

Até o momento em que o jovem monitor sentou-se ao meu lado eu estava me sentindo perfeitamente bem, fazendo aquilo que eu fazia melhor: sentar e observar. Depois daquele breve diálogo, senti-me perturbado. E o que é pior: sem necessidade alguma. Não culpo o rapaz: estava apenas fazendo seu trabalho. Mas cenas desse tipo se tornariam recorrentes na minha vida. Sempre que digo que não bebo acabo travando o mesmo diálogo, independente da pessoa com quem estiver tratando. Daria até pra fazer um pequeno roteiro: “Você não bebe? Sério? Nada? Tá tomando remédio? É por questões religiosas? Nunca Provou? Ah, mas você tem que ir bebendo aos poucos que com o tempo você acostuma. Precisa começar com umas bebidas de leve e depois vai evoluindo. No começo eu também não gostava”. Simplesmente não cabe na cabeça de certas pessoas que não gostar de álcool não é nem nunca foi nenhuma patologia que precise ser curada em doses homeopáticas. Que não gostar de álcool é tão comum como não gostar de bife de fígado ou de dobradinha (que eu, aliás, amo!).

Mas se vamos falar de memórias que ainda são atuais, por que não falar do PT?

Tendo nascido em 1988, passei a parte mais significativa da infância nos anos 1990. Já em fins da década, presenciei com assombro e desgosto a ascensão do PT. Não entendia muito de política, mas sabia que detestava o PT. Achava a retórica de Lula e dos militantes do partido bombástica e soberba. Sempre tive especial aversão a qualquer tipo de pessoa que se apresentasse como portador da verdade absoluta e que se achasse superior aos demais, e era exatamente assim que meus olhos de menino enxergavam os petistas. Era tudo muito gritado, muito fanático, muito espalhafatoso para mim.

Aliás, guardo até hoje comigo uma carta que escrevi na escola simulando ser um brasileiro vivendo num Brasil governado pelo PT no ainda longínquo ano de 2025. Redigi-a em 2000, quando o país ainda vivia sob o segundo mandato de FHC. O autor fictício da carta relatava coisas horrendas, como “a situação econômica aqui no Brasil está à beira da estaca zero”, “somos uma ditadura”, “estamos pior que Cuba”, “acabamos de sair de uma guerra com o Equador” e “Estamos sob uma perfeita ditadura e somos rondados por generais militares”.

Ditadura petista misturada com ditadura militar! Só mesmo na imaginação fértil de um garoto de doze anos para os mais horrendos temores da classe média brasileira andarem de mãos dadas com os sonhos dessa mesma classe média. Às vezes penso em publicar essa carta na íntegra em meu blog, mas sempre que começo a lê-la caio em risadas e dou pra trás de tanta vergonha que sinto. Aliás, na carta não há qualquer referência explícita ao PT. A professora pediu para tirar esse trecho porque o texto seria lido em público e poderia gerar insatisfação em simpatizantes do PT que pudessem estar na plateia. Ainda bem que isso se deu em 2000, pois se fosse hoje seria chamado de doutrinação marxista. Aliás, ainda bem que fui uma criança naquela época e não agora. Não é nem um pouco difícil imaginar essa minha cartinha da sexta série fazendo coro com a verborragia antipetista Made in Facebook. Seja lá como for, eu sim posso bater a mão no peito e dizer que já era antipetista way before it was cool.

Apesar dessa peripécia literária, nunca fui um ardoroso anticomunista em momento algum da minha juventude. Por vezes cheguei mesmo a considerar o comunismo algo salutar e necessário. E isso não porque conhecesse a fundo o ideário comunista, mas porque tendia a enxergar o mundo como uma grande sala de aula na qual os países capitalistas eram os alunos descolados e populares (pelos quais nutria repulsa) e os países comunistas eram os alunos rejeitados (pelos quais sentia mais afeição, apesar de nunca ter sido um no sentido estrito do termo).

Mas nem só de dilemas bizarros foi feita minha infância. Ela também foi marcada por horas a fio na frente da televisão assistindo à finada TV Manchete. Ficava de olhos vidrados na programação matinal porque adorava os seriados japoneses de Live Action, mais conhecidos como Tokusatsus. Jaspion, Jiraya, Jiban, Changeman, Flashman, Kamen Rider, Cybercops, Winspector e Solbrain eram alguns dos principais seriados de vinte ou trinta minutos que exibiam aventuras de super-heróis japoneses defendendo a Terra de forças malignas.

Atribuo a minha fiel audiência à emissora dos irmãos Bloch o fato de desde cedo nutrir profunda admiração pela cultura japonesa e, posteriormente, pela cultura oriental como um todo. Por muito tempo tive um respeito egípcio por chineses, coreanos e japoneses, enxergando-os como seres superiores. Quando passava férias em São Paulo observava-os admirado, como se esperasse que a qualquer momento fossem fazer ou dizer algo surpreendente, tal como nos seriados aos quais eu assistia. Passava horas em frente ao espelho puxando meus olhos com os dedos na ingênua esperança de me parecer com meus heróis. Lembro-me até de, certa vez, ter pedido a minha mãe para fazer uma cirurgia nos olhos para que ficassem esticados, iguais aos dos orientais.

Tamanha foi minha surpresa quando, visitando o Oriente pela primeira vez, durante meu intercâmbio na Malásia entre 2004 e 2005, me dei conta de que a recíproca era verdadeira, isto é: que também os orientais tomavam os ocidentais por superiores. Não por acaso, notava que alguns deles tinham um respeito excessivo por mim. Alguns temiam se aproximar e conversar e outros tantos tinham uma expectativa surreal em relação a mim, tão grande quanto aquela que eu nutria pelos japoneses de São Paulo.

Minhas aventuras e desventuras na Malásia estão narradas nos posts com a tag “Páginas de Combate”, bem como no meu outro texto de aniversário (“Do Consenso ao Crepúsculo – meus 26 anos – Parte II”). Limito-me aqui a expor apenas um episódio que acredito não ter comentado em outras partes e que é bastante ilustrativo desse lugar que os ocidentais ocupam no imaginário malásio.

É muito comum, entre estudantes das escolas da Malásia, torneios de debates, tanto em malaio como em inglês. Em uma sala de aula, duas mesas são colocadas frente a frente com três debatedores de cada escola em cada um dos lados. Na hora, sorteia-se um tema com uma pergunta acerca daquele tema. Sorteia-se também a posição que cada grupo deve defender: contrário ou favorável. Cabe aos alunos, ao longo de extensas exposições, defender os pontos de vista de seus grupos e rebater os argumentos adversários. E cabe a um grupo de professores avaliadores dar o parecer sobre quem venceu.

Pois fui convidado para assistir a uma dessas competições em uma escola de uma cidade não muito longe de Klang, onde eu morei. Na hora de as equipes participantes se registrarem, um de meus colegas me pediu para que os acompanhasse para fazer o registro. Respondi que isso não era necessário, já que era apenas mero espectador, ao que ele prontamente respondeu: “Eu sei, mas você precisa vir conosco para fazer o registro de nossa equipe, pois quando as outras equipes te virem acharão que tem um ocidental na nossa turma e se sentirão intimidadas”.

Atendi ao pedido sorridente, sem saber direito lidar com aquilo porque nunca havia experimentado situação semelhante – e espero nunca mais experimentar. Como já era de se esperar, a estratégia não funcionou e a equipe de minha escola perdeu.

Foi só então que percebi que a estratégia de puxar os olhos era completamente inútil e até prejudicial. Quem gosta do Oriente e de orientais deve ser o mais ocidental possível a fim de conquistar sua admiração. Lembro-me da cena de um filme bem antigo (“Minha doce gueixa” ou “Minha querida gueixa”) no qual um diretor de cinema ou de teatro norte-americano viaja para o Japão a fim de procurar por uma gueixa para sua mais nova produção. Foram-lhe apresentadas algumas japonesas de inglês impecável que sabiam cantar, dançar, improvisar e atuar, tudo no melhor estilo rockabilly norte-americano dos anos 1950. Mulheres modernas, ocidentalizadas e que orgulhavam-se de sê-lo. O diretor agradeceu a presença delas, mas depois que se foram mostrou-se profundamente decepcionado. Ele não queria japonesas de estilo americano, queria japonesas tradicionais, queria uma gueixa que se comportasse exatamente como as gueixas de séculos atrás.

Parece ser esse um dos grandes dilemas do mundo globalizado: orientais querendo ser ocidentais para se sentirem integrados aos valores com os quais são sistematicamente bombardeados pela mídia (cremes para embranquecimento da pele são um sucesso de vendas na Malásia, por exemplo); por outro, ocidentais embriagados de cosmopolitismo procurando orientais que ainda preservem as raízes de sua cultura. É um jogo de soma zero: os orientais não compreendem por que cargas d’água homens brancos querem saber de ritos milenares ancestrais que nem eles mesmos conhecem direito, e os ocidentais se estranham ao verem orientais imitando o American Way of Life. No final das contas, todos se frustram e ninguém se entende. Não se trata mais, como nos velhos tempos, de minha cultura contra sua cultura. Trata-se de eu tentando me inserir no seu universo cultural e você tentando se inserir no meu universo cultural quando, na verdade, a minha expectativa é que você fosse fiel às suas tradições e vice-versa.

Demorei a entender esses novos conflitos do mundo globalizado. Se os tivesse compreendido com antecedência, penso que minha estadia na Malásia teria sido muito menos conflituosa. Enquanto meus colegas me bombardeavam com perguntas sobre Ronaldo no Real Madri, o carnaval carioca e o apetite sexual das mulheres brasileiras, eu lhes devolvia perguntas sobre peregrinação em Meca, deuses hindus e literatura chinesa.

Meu intercâmbio na Malásia foi, sem sombra de dúvida, o período de minha via no qual mais amadureci. Após um ano em terras longínquas, foi a vez de voltar ao Brasil. Chega de utopias orientais, de visitar templos budistas, rezar em templos hindus e admirar mesquitas. Era hora de encarar a realidade; era hora de encarar o vestibular. Após duas escolhas malsucedidas de cursos – dois períodos de Relações Internacionais intercalados por um período de Ciências Sociais no meio – finalmente me encontrei no curso de História. E aqui novamente apareceu – e continua aparecendo às pencas – toda uma nova horda de supostos médicos tentando me convencer de que estou doente. De que não tenho nada a ganhar num curso repleto de gays, lésbicas, maconheiros, doutrinadores comunistas e ciclistas. Não se trata, é claro, de pessoas que dizem isso explicitamente, com todas as palavras. Não. Ninguém mais se prestaria a esse ridículo nos dias de hoje. Trata-se sim de todo um arsenal de chavões, valores e ideias difundidos pelos mais variados meios (TV, internet, memes, redes sociais, conversas pessoais e via Whatsapp, etc.) que dia após dia tentam, numa insistência religiosa, convencer-me de que eu não devo cursar História, depender do transporte público e usar roupas sóbrias, mas sim cursar Engenharia, me matar para comprar um bom carro e usar roupas de marca, tudo a fim de perpetuar a espécie (“pegar mulher”, no jargão popular).

Não. Todo esse aparato belicoso nunca me abalou, ao contrário do que podem pensar. Se os exponho aqui nesse texto não é para me queixar deles. Não escrevo para lamentar. Se os exponho aqui é unicamente para medir o seu ridículo. Para mostrar a mim mesmo, de forma clara, que não é coisa digna de ser levada a sério.

Entrei na universidade pela primeira vez em 2007, sedento por participar de movimento estudantil, manifestações, eleições de DA e DCE. Foram precisos poucos meses na universidade para perceber que aquela definitivamente não era minha praia. Passar em salas dando recados, debates de chapas, distribuição de panfletos para campanha e organização de protestos de rua eram atividades que me enfastiavam e me desgastavam facilmente. Apesar de ter cursado no mínimo um período em três cursos de humanidades (dois deles na UFMG), nunca tive sequer um professor que pudesse se encaixar no tipo ideal de “doutrinador comunista do MEC”. Aliás, lembro-me apenas de dois professores que exerceram, de forma sistemática, em suas aulas, aquilo que os escandalosos de plantão atribuem aos professores comunistas. Um deles foi um professor de Introdução à Economia, no primeiro período do curso de Ciências Sociais, extremamente cruel na hora de atribuir notas a qualquer aluno que não se mostrasse ardoroso defensor do liberalismo econômico nas provas, além de nos entupir até a testa com leituras de autores alinhados com essa posição. O outro foi um professor do curso de História que subtraía generosos pontos de qualquer aluno que, de alguma forma, falasse mal da monarquia brasileira em seus trabalhos, bem como das figuras proeminentes do Império. Essa foi, portanto, a única doutrinação que tive no ensino superior: um neoliberal e um monarquista.

Foi preciso chegar até o mestrado na USP para finalmente encontrar um professor que exercesse a tal doutrinação comunista tão alardeada nos dias de hoje. E foi com muita satisfação que lá cheguei, não só pela satisfação de estudar na USP e dar continuidade aos meus estudos em História, mas também pelo prazer mudar de ares. Após sete anos (com duas interrupções de um semestre cada) vivendo na provinciana Belo Horizonte, mudar-me para a cosmopolita São Paulo teve um efeito libertador. Parece até que me reencontrei com meus velhos heróis de infância: os poderosos orientais. Eles estão por toda a parte! E por mais que há muito tempo eu já não os cultue com a devoção de antes, é sempre bastante nostálgico passear por uma cidade na qual passei algumas boas férias durante a minha infância.

Hoje, no limiar dos 28 anos de idade, confesso que não tenho muitas ambições quanto as que eu tinha na infância. E isso não por ter desanimado da vida ou não confiar em meu potencial, mas simplesmente porque percebi que preciso de muito menos para ser feliz. Não quero mais ter olhos puxados, apesar de ainda nutrir imensa simpatia pelo Extremo Oriente e principalmente pelas pessoas de lá. Não é à toa que, em meu segundo intercâmbio, na Alemanha (2011-2012), fiz mais amizades com coreana(o)s do que com alemães. Também não quero mais viajar o mundo e conhecer países porque descobri que detesto aeroportos e morro de medo de viajar de avião.

Meu sonho maior, neste momento, é tornar-me um professor de História em alguma universidade pública de qualquer lugar do país. Nada mais que isso. Alguns podem até achar esse sonho demasiadamente pretensioso. Quantas vezes ao longo da minha trajetória ouvi, vindo das mais diversas pessoas, que ser professor universitário é para poucos, que isso é muito difícil, que é um meio muito hostil e que apenas poucos conseguem. Nunca entendi se as pessoas emitiam esses alertas para desanimar os futuros candidatos ou apenas pelo prazer de serem inconvenientes. A verdade é que eles nunca me abalaram, e nem há motivos para tal. Há várias universidades no Brasil que necessitam do trabalho de professores de História. Então, por que não eu? Por que passar a vida me conformando em fazer aquilo que não quero enquanto vejo pessoas iguais a mim, com a mesma formação, as mesmas oportunidades e as mesmas capacidades que eu, sendo aprovadas em concursos nos quais tenho plenas capacidades de passar? É preciso uma mentalidade muito tacanha para pensar de outra forma.

É isso o que quero pra mim nesse momento. Não quero ser famoso. Aliás, já fico assombrado só de pensar na possibilidade de ser famoso, seja por maus ou por bons motivos. Como já disse: tenho pânico de ser o centro das atenções. A única fama à qual eu poderia almejar hoje é uma fama póstuma. Aliás, creio que seja esse o motivo principal que me leva a escrever: a possibilidade de me perpetuar de alguma forma, uma vez que não quero ter filhos e que o futuro não parece muito promissor para árvores. Escrevo para que, daqui a uns cem ou duzentos anos, alguém – de preferência um historiador despreocupado – possa acessar meus textos, seja lá de que maneira for, e pensar: “Olha! Então é assim que vivia um brasileiro no começo do século XXI... Eram essas as aflições e angústias de um homem do começo do século... Era assim que se escrevia no ano de 2016...”.

Se um dia isso acontecer, nem que seja no formato de uma simples nota de rodapé, onde quer que eu me encontre, me sentirei mais célebre do que o mais cultuado jogador de futebol da história das copas.