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sábado, 4 de fevereiro de 2017

Balcanizando - Parte I: Na terra dos poetas

Era um domingo frio do outono de 2016 quando acordei bem cedo, já com as malas todas prontas e a roupa preparada para a viagem. Um dia antes havia comprado um pequeno livro introdutório sobre a história dos Bálcãs em alemão: “Geschichte des Balkans”, de Edgar Hösch.

Estava de volta à Alemanha desde o princípio de outubro, mas queria mais. Queria conhecer tudo aquilo que não tivera a oportunidade de conhecer da primeira vez em que estive por aqui. O meu destino era certo antes mesmo de deixar o Brasil: os Bálcãs. Aquela parte do mundo que frequentou assiduamente a pauta de todos os telejornais ao longo dos anos 1990, mas que, desde que se pacificou, já não aparece muito na mídia – ao menos não na mídia brasileira, embora as telenovelas brasileiras fossem uma constante por lá.

E por que justo os Bálcãs? Talvez porque ninguém que eu conheça tenha ido lá. Ou talvez pela própria fascinação de ver de perto países que, durante a minha infância, estiveram no epicentro da geopolítica mundial. Os conflitos de grande envergadura, as ameaças nucleares e os grandes ditadores dos quais o século XX foi profícuo nunca fizeram parte da minha realidade. Nasci em 1988, quando o mundo já estava quase se encaixando nos eixos (não que isso seja algo bom), quando a “História” já havia chegado ao fim (dá-lhe, Fukuyama!), na tênue fronteira entre os séculos XX e XXI. Conforme deixei claro em meu texto de janeiro de 2014 (“Do Consenso ao Crepúsculo”, http://hiperativo-categorico.blogspot.de/2014_01_01_archive.html), a Cortina de Ferro sempre fora, para mim, uma realidade tão distante quanto a Alemanha nazista; a Guerra Fria era tão pouco contemporânea minha como a Segunda ou a Primeira Guerras. De maneira que as guerras nos Bálcãs que desencadearam a desintegração da Iugoslávia nos anos 1990 eram o mais próximo que cheguei de entender o que era viver em um mundo em conflito.

Recordo-me bem de uma prova de História Contemporânea que fiz em 2012. Uma das questões afirmava que este momento em que estamos é o momento propício para o historiador começar a abordar o nacionalismo. Isso porque em um pós-89 cada vez mais marcado pela globalização, a nação e o Estado já não teriam mais o significado que possuíam nos séculos XIX e XX. Só em um contexto no qual as grandes empresas sobrepujavam as nações é que o nacionalismo poderia ser um objeto de quem estuda o passado. O historiador, como a coruja, só levanta voo quando todos já adormeceram.

Em plena desintegração do bloco socialista e triunfo do capitalismo, os Bálcãs ainda carregavam uma forte carga de século XX (nacionalismos, guerras, massacres, etc.) quando as águas do século XXI já tocavam os pés do restante do mundo ocidental.

Tragicamente, entretanto, em uma era de Putins, Trumps e Bolsonaros, tem sido mais fácil pensar que nós é que nos precipitamos em achar que o século XXI seria muito diferente. Ele não será.

O caminho de Munique até Ljubljana, na Eslovênia, foi maravilhoso. O trem cruzou a fronteira com a Áustria passando por paisagens de tirar o fôlego, até parar em Villach, a última cidade austríaca antes da fronteira eslovena. A ferrovia que unia dos dois países estava passando por reformas, então tivemos que pegar um ônibus. A paisagem eslovena não deixava por menos: grandes vales e montanhas cobertos por uma neblina que fazia lembrar aqueles contos de fadas. Cheguei exausto à estação de ônibus de Ljubljana – cansaço da viagem e de ter acordado tão cedo. Com bastante custo encontrei minha acomodação: um simpático hostel, bem pequeno e meio escondido, mas muito limpo e aconchegante.

A Eslovênia mais parece uma cidade do interior de Minas do que propriamente um país. Com pouco mais de dois milhões de habitantes, foi o primeiro país a se separar da Iugoslávia, em princípios da década de 1990. Diferente das outras repúblicas iugoslavas, a secessão da Eslovênia se deu de forma relativamente pacífica. E essa paz parece se desdobrar de diversas maneiras. "Ljubljana" significa "a amada". Na praça central de Ljubljana domina a estátua de um grande poeta nacional: France Preseren. Conforme deixou claro a guia turística, “nós, eslovenos, não celebramos os guerreiros, e sim os poetas; enquanto na maioria das capitais europeias você encontrará o monumento de um monarca ou guerreiro empunhando uma arma, aqui na Eslovênia você encontra um poeta segurando um livro”. Acima do poeta, uma musa com os seios descobertos. Tiveram que posicionar esse monumento estrategicamente atrás de uma árvore, pois os fiéis que deixavam a igreja depois da missa reclamavam de ter que encarar uma figura nua em plena praça.

Em minha primeira noite no país resolvi visitar o Metelkova Mesto, um famoso centro cultural underground. Quem me sugeriu foi o próprio funcionário do hostel. Disse que era pra eu não ter medo, pois, apesar de ser um lugar um pouco sombrio, era seguro.

Não consigo achar uma definição melhor para o Metelkova Mesto do que a FAFICH ou a FFLCH eslovena. Talvez até uma Rua Augusta, embora sem o mesmo glamour e com muito menos gente (ainda mais em baixa temporada). Em alguns pontos também me lembrou o Beco do Batman em São Paulo. Trata-se de um quarteirão relativamente afastado do centro da cidade, com algumas construções antigas nas quais funcionam bares alternativos. O local é repleto de exemplares de arte de rua: grafite, pichações e esculturas de sucata. Confesso que adentrei o ambiente com um pouco de medo. Estava tudo meio escuro, pois já era final de tarde. Aquilo tudo parecia um terreno abandonado. Algumas poucas pessoas estavam do lado de fora fumando ou bebendo. Na frente de uma das casas, mais iluminada, duas jovens conversavam. Resolvi entrar nessa. Lá dentro, um chão bem sujo, várias portas fechadas e mais trabalhos artísticos.

De uma dessas portas fechadas vinha um barulho de pessoas cantando, conversando e eventualmente batendo palmas. Devo ter ficado entre cinco e dez minutos refletindo se eu deveria ou não entrar. Chegava, me aproximava, tentava escutar melhor o que se passava, mas sempre acabava recuando. Fiquei com medo de interromper alguma reunião, alguma solenidade, algum evento particular. Mas ao mesmo tempo pensava que, se fosse algo tão restrito assim, haveria alguém para controlar a entrada. E não havia.

Cansei de pensar. Me deu vontade de ir ao banheiro. No frio, como não suamos ou suamos pouco, o líquido sempre insiste em sair por outros meios. O banheiro era quase tão sujo e grafitado quanto o da FAFICH. Tinha vários adesivos sobre prevenção de DST’s e orgulho LGBTT. Naquele momento, alguém abriu a porta do recinto de onde vinham os barulhos. Fiz minhas necessidades e tomei coragem para entrar.

Lá dentro, uma pequena sala muito escura. Um balcão cheio de guloseimas e bebidas, e bastante gente em pé e sentada. Não demorou para perceber que era um evento da comunidade LGBTT. Havia muitos casais de gays e lésbicas, além de transgêneros. O evento consistia em um recital de músicas e poemas (alguns em inglês) sobre as lutas diárias de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros diante dos preconceitos diários. Infelizmente, dada a lotação do local, fiquei em um ponto que não me permitia ver o palco. Imagino que devo ter ficado lá por uns dez ou quinze minutos, depois dos quais resolvi sair e retornar ao hostel.

Acho que naquela mesma noite, antes ou depois de visitar o centro cultural, fui abordado, enquanto comia na praça, por um jovem de uns vinte e poucos anos. Perguntou-me se eu gostava de rock, disse que era de uma banda de rock estoniana independente chamada “Illumenium” e que estavam fazendo um tour pela Europa para arrecadar fundos. Disse ainda que sua banda não dependia de patrocinadores e já havia tocado em vários países. Resolvi comprar um CD para ajudá-los, pois ele foi muito simpático e demonstrou bastante confiança nas suas palavras. Contei-lhe que queria muito visitar a Estônia e as demais repúblicas do Báltico, ao que ele respondeu: “you’re always welcome!”.

Ao longo de minha estadia em Ljubljana, ainda seria abordado várias vezes pelos outros membros da banda.

Em minhas andanças pelos becos, ruas e vielas daquela simpática capital, acabei conhecendo Martina, uma estudante de Letras da Universidade de Ljubljana – mesma universidade onde estudaram figuras tão díspares como o filósofo marxista Slavoj Zizek e a atual primeira-dama dos Estados Unidos, Ivana Trump. Martina me contou que o funcionalismo público esloveno é uma grande família, no sentido mais estrito do termo. Não há concursos públicos para nenhum cargo e a única maneira de ingressar é tendo contatos lá dentro. Ela inclusive disse que chegou a trabalhar em repartições nas quais todos os funcionários tinham o mesmo sobrenome. Como o país é muito pequeno e tem muito pouca gente, o funcionalismo acaba ficando restrito a uns poucos círculos de familiares e amigos. O fato de o homem cordial narrado em “Raízes do Brasil” não ser um monopólio brasileiro realmente não me surpreendeu. O que me surpreendeu foi tê-lo encontrado na Eslovênia.

Minha longa experiência no Sudeste Asiático me fez concluir que a Malásia ainda precisa encontrar seu Gilberto Freyre. Um país com três raças, que, apesar de conviverem harmonicamente (ao menos segundo o discurso oficial), praticamente não se misturam, precisa ter seu “Casagrande e Senzala”. De forma análoga, a Eslovênia precisa encontrar seu Sérgio Buarque de Holanda.

Martina ainda me falou sobre os poetas eslovenos do século XIX. Nesse quesito, a semelhança com o Brasil salta ainda mais à vista do que no caso do funcionalismo público. Aquele famoso roteiro de viver na boemia – estudar Direito – apaixonar-se por uma mulher mais rica – compor versos a ela sabendo que nunca iria conquistá-la – morrer pobre, de tuberculose, antes dos 35, também era seguido à risca pelos poetas românticos eslovenos. Inclusive, a alguns metros da estátua de France Preseren, em uma casa não muito distante, está o busto da amada que ele tanto desejou. Se você observar bem, ambos estão se olhando.

Em meu segundo ou terceiro dia na Eslovênia, o hostel em que estava recebeu uma leva de jovens ucranianos que pareciam ter no máximo 16 anos. Era uma equipe de judô que estava competindo num ginásio não muito longe dali. Impossível não lembrar-me dos meus tempos de judoca, das viagens que fazíamos, do quão tormentosa era nossa rotina. Dormir no chão frio de uma escola em pleno mês de junho, acordar cedo pra passar quarenta minutos na fila, esperando pra tomar banho gelado num banheiro que quase sempre alagava. Isso sem contar o assédio dos alunos veteranos sobre os mais jovens, ameaçando passar trotes ou fazendo piadas de duplo-sentido que nossa tenra idade não nos permitia entender. Que inveja das mulheres da equipe! Enquanto nós dormíamos em 30, elas eram no máximo quatro ou cinco, em uma sala tão grande como a nossa, além de ter o banheiro só pra elas. E quão sortudos eram aqueles judocas ucranianos de poderem se alojar em um lugar tão aconchegante durante suas competições!

Em meu último dia na Eslovênia resolvi fazer uma breve viagem à vizinha Croácia. Peguei o trem bem cedo para Zagreb, capital croata. Cerca de duas horas e meia de viagem, podendo ser um pouco mais, a depender da rigidez da imigração. Quando o trem para na fronteira, as polícias de ambos os países entram e vão pedindo os documentos de todos os passageiros. Alguma coisa em mim não pareceu bem aos olhos da policial croata. Olhou meu passaporte com um interesse incomum, como um comerciante que recebe uma nota falsa. Perguntou-me de onde eu vinha, para onde eu ia, o que ia fazer em Zagreb, se eu tinha acomodação reservada. Pediu para abrir minha mochila. Olhou meu caderninho de anotações, perguntou o que estava escrito. Respondi que eram os locais em Zagreb que eu queria visitar. Tornou a folhear meu passaporte. Perguntou se eu tinha mais bagagem, ao que respondi negativamente. Depois dessa revista completa, a jovem guarda devolveu meu passaporte e foi em busca de outra presa.

Aquilo foi um aviso: “Você não está mais na Europa Ocidental, você está nos Bálcãs!”. Me lembrou até aquela passagem do filme “Avatar”: “You are not in Kansas anymore, you are on Pandora!”. E isso porque a Croácia – assim como a Eslovênia – ainda faz parte da União Europeia. Depois que o trem seguiu viagem, me veio um aperto no coração: “Sérvia!”. No imaginário internético (memes, vídeos, páginas de Facebook), a Sérvia é sempre associada a um nacionalismo ferrenho, a militares fortes e bravos, ávidos por se lançarem sobre o primeiro estrangeiro desavisado que ousar avançar sobre suas fronteiras.

Mas a Sérvia era assunto para depois. Após uma viagem tranquila em um trem um tanto antigo – possivelmente alguma relíquia da ex-Iugoslávia comunista –, passei um dia agradabilíssimo em Zagreb após trocar meus euros por kunas, a moeda local. Voltei para Ljubljana naquela noite exausto. No dia seguinte, seguiria viagem para a Sérvia.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

No princípio, eram os mosquitos

São duas e quinze da manhã de um verão como outro qualquer.

Horácio acorda abanando a mão esquerda, ainda meio sonolento, tentando capturar um dos vários mosquitos que o azucrinam. Todo verão é a mesma história: os mosquitos se reúnem em massa nas redondezas da casa de Horácio, aproveitando a fartura de locais para se reproduzirem e alimentarem. Horácio não os suporta, nunca os suportou. E com verões cada vez mais quentes e infestações cada vez maiores, seu ódio cresce mais e mais.

- Já não durmo mais – diz Horácio a Cléber, o balconista da padaria, na manhã seguinte.

- É a mosquitada de novo?

- Sempre eles.

Antes mesmo dos idos de janeiro, Horácio não sabia mais o que fazer. Não dormia direito, em consequência não trabalhava direito e não se relacionava direito. Não demorou muito até que ele cultivasse verdadeiro ódio dos pequenos animais, declarando-lhes uma guerra de morte.

Chegava em casa exausto do trabalho todos os dias, mas não dava o braço a torcer. Matava todos os mosquitos que apareciam. Com o jornal, com um livro, com a raquete, com as duas mãos e às vezes até com uma, caso a outra estivesse ocupada.

Cada dia era uma luta nova, vários mosquitos mortos e a sensação do dever cumprido. Faltavam poucos minutos para as duas da madrugada quando Horácio finalmente caía na cama, exausto de tanto matar mosquitos. No dia seguinte, o ciclo se repetia.

Os dias, que sempre foram iguais para Horácio, tornavam-se mais iguais do que nunca. O ódio lhe subira à cabeça. Nada o tiraria de lá.

Dias havia em que ele saía do trabalho mais cedo na esperança de que o elemento surpresa poderia conspirar a seu favor. Aos poucos, Horácio foi perdendo sua civilidade, deixando-se dominar por comportamentos animalescos. Corria pela casa derrubando enfeites e mobília atrás dos mosquitos. Dava gritos de alegria a cada corpo dilacerado que via na parede ou em suas mãos, mas também urrava de ódio a cada mosquito que lhe escapava, perseguindo-o com ainda mais brutalidade.

Bastava ver mosquitos ou ouvir o zunido ao seu redor que ele salivava de raiva. Sentia nojo, repulsa, asco daquelas pequenas criaturas que o infernizavam.

- Canalhas! Canalhas! – gritava, erguendo e balançando o braço, sempre que os mosquitos lhe escapavam pela janela. Voltem aqui! Lutem como homens!

Traçava planos mirabolantes para surpreendê-los atrás da geladeira, embaixo do filtro ou na porta menor do guarda-roupas. Discutia, consigo mesmo, estratégias de ação. Bolava fugas e contra-ataques infalíveis, ou nem tanto. Declamava discursos de ódio abominando seus inimigos e conclamando à luta:

- Essas criaturas abjetas sem decoro não podem prosseguir em sua ação dissolvente, caftinizando-nos! Cumpre esvurmá-los. Urge escorraçá-los, vapuleá-los, zurzi-los, vergalha-los, zupá-los, azorraga-los, vergastá-los, taganteá-los, chicoteá-los, relhá-los!

Imaginava complôs que explicassem a origem de tamanha repugnância em forma de vida. Dizia que foram enviados por seu colega de trabalho invejoso. Depois mudava de ideia e afirmava categoricamente que eram obra de sua ex-namorada. Depois, desiludido, repetia consigo mesmo que aquilo não era possível, pois que sua ex já não pensava mais nele. Os mosquitos eram, isso sim, obra daquela mulher com quem tivera um caso no ano passado e que lhe trouxera mil desgostos.

E a cada novo desafeto que fazia, Horácio achava uma maneira de enquadrá-los: o açougueiro que subiu o preço da carne; o novo chefe que o perseguia no serviço; a vizinha de trás que caçoava de seus ataques nervosos; o sobrinho do carteiro que urinava no batente da porta.

- Sim... Foram eles! Foram todos eles! Em conluio ou separadamente! Não há outra explicação!

As horas de sono, cada vez mais exíguas, tornaram-se quase inexistentes. A batalha contra os mosquitos exigia vigília constante. Horácio chegava para trabalhar todos os dias com os olhos vermelhos de raiva e sono. Quase não se comunicava com os colegas de repartição. Usava o intervalo para cochilar e sonhar que exterminava mais mosquitos.

Cléber, percebendo o nível a que chegara o ódio e a paranoia do freguês, demitira-se do emprego na padaria e começara a vender artigos para combater mosquitos: raquetes eletrizadas, velas de citronela, repelentes naturais e industrializados, incensos milagrosos e sprays importados.

Artigos para matar mosquitos! Que dádiva.

Horácio tornou-se seu freguês número um. Toda semana fazia uma limpa na loja, que ficava estrategicamente localizada a poucos metros de sua casa. Chorava de emoção ao ver a eficiência com que as raquetes eletrizadas exterminavam vários mosquitos de uma só vez:

- Máquinas de matar formidáveis! – declarava, orgulhoso.

Cléber ganhava, no novo serviço, quase o triplo do que ganhava na padaria. A ambição de Horácio não conhecia limites. No auge de sua loucura, gastava mais da metade de seu orçamento com produtos para exterminar mosquitos. A cada semana Cléber vinha com uma novidade:

- Raquetes eletrizadas, seu Horácio!

- Já tenho, Cléber! Você mesmo me vendeu.

- Não essas. Essas são eletrizadas de outra forma.

- Como?

- Mais potência. E têm menos espaços na tela, tá vendo? Nem os miudinhos escapam.

- Bom! E o que mais?

- Esse spray importado da Groenlândia... Mata quatro vezes mais que o nacional!

- E desde quando há mosquitos na Groenlândia, Cléber?!

- Ora, Horácio... Já não os têm por causa desse spray!

- Fala sério?

- Seguramente.

- Levo cinco.

- E o novo repelente natural?

- À base de que?

- Um óleo extraído da seiva de uma árvore raríssima. Só tem na Guiana.

- Funciona?

- Alguma vez já ouviu um cidadão da Guiana reclamando de mosquitos?

- Não, mas também nunca conheci guianense algum.

- E se conhecesse certamente ele não reclamaria.

- Certo. Mas levo apenas três.

- E a tela especial de assar mosquitos que chegou ontem? Não quer ser o primeiro a levar?

- Mas o spray e a raquete já não servem para isso?

- Claro, homem! Mas enquanto a raquete dá choque e o spray envenena, essa tela queima lentamente. Dá até pra ver a agonia do mosquito se contorcendo!

- Hum... Jura?! – Horácio revirava os olhos de prazer ao imaginar a cena.

- Palavra! Não vai perder essa, vai?

- Não, levarei uma para testar.

- Perfeito.

Nair, o agente de saúde do bairro e velho amigo de Horácio, com quem mantinha longas conversas na padaria todas as manhãs, prometeu visitá-lo no final de semana para ver como poderia solucionar o problema dos mosquitos. Encontrou, batendo à porta de Horácio, o aguerrido Cléber. Estava com um incenso novo que fazia os mosquitos explodirem em pleno voo.

- Quando vários mosquitos explodem juntos parece até uma mini-queima de fogos! – caçoou o vendedor com Nair.

Horácio saiu à janela, convidou-os a entrarem e ofereceu café. Dispensou a oferta de Cléber – já não tinha mais dinheiro – e ouviu Nair com atenção:

- É só lacrar a caixa d’água e eliminar os recipientes que acumulam água no seu quintal que os mosquitos desaparecem – garantiu o experiente agente de saúde. Lacro a caixa d’água hoje e na segunda volto para eliminar os criadouros de larva no jardim. Há também um pé de romã no terreno ao lado que precisa ser podado. As romãs atraem muito esses mosquitinhos, sabe? Algumas delas acabam caindo aqui no seu quintal.

- Perfeitamente! – concordou Horácio.

Não demoraram mais que meia hora na casa de Horácio. Na segunda, conforme o prometido, Nair voltara à casa do amigo para ajudá-lo a retirar os recipientes com água, bem como limpar os restos de romã espalhados no seu quintal e podar o pé de romã ao lado. Após um mês e meio sem mosquitos em casa, Horácio começou a surtar.

- Onde estão? Onde estão? Sei que estão aí sim... Estão preparando um ataque surpresa quando eu estiver desprevenido. Onde estão?! Saiam, covardes! Saiam!

Não entrava em sua cabeça que aquelas criaturas repugnantes haviam simplesmente sumido. Já não se contentava em ter os mosquitos longe. Não! Era necessário matá-los. Era necessário dilacerá-los. Precisava exterminar todos, um por um, seja com as mãos, com as raquetes, com o spray ou com qualquer outra ferramenta mirabolante que o velho Cléber tivesse a lhe oferecer. Tamanha repugnância não podia ficar impune.

- Eu quero vê-los mortos! Todos eles, sem exceção! – salivava de ódio Horácio enquanto procurava desesperadamente pelos mosquitos. Na ausência destes, atacava uma pluma que se soltava, uma folha que caía, um restinho de poeira que se erguia no ar... Qualquer coisa que tivesse a mínima chance de ser um mosquito.

Não mais contente do que Horácio estava Cléber, que via as vendas caindo vertiginosamente. Seu grande freguês simplesmente o abandonara. Fazia quase dois meses que Horácio não dava mais as caras no estabelecimento. Situação preocupante. Foi quando se lembrou do que dissera o Nair: as romãs atraíam os mosquitos. Resolveu então comprar algumas romãs no hortifrúti para espalhar seus restos ao redor da casa de Horácio na calada da noite, sem ninguém suspeitar. Uma vez espalhadas as romãs, os mosquitos voltariam e seus lucros também.

Mas Nair visitava Horácio quase diariamente a fim de assegurar que o amigo estivesse seguindo fielmente as recomendações. E sempre que via os restos de romãs espalhados pelo pátio jogava-os no lixo, não sem antes dar uma bela bronca em Horácio, que jurava não ter conhecimento da origem das frutas.

O arranca-rabo silencioso entre Cléber e Nair se desenrolou por dias e mais dias: Nair pacientemente jogava fora todos os restos de romã que Cléber espalhara na noite anterior, mas Cléber nunca dava o braço a torcer. Pelo bem de seu negócio. Não demorou muito até que Clóvis, velho amigo de Cléber e colega de balcão na padaria, se demitisse do emprego de balconista e abrisse um hortifrúti bem ao lado da loja de Cléber. Era farto o hortifrúti de Clóvis: maçãs, laranjas, abacaxis, mamões, bananas e – especialidade da casa – romãs.

Romãs! Que dádiva.

Cléber tornou-se seu freguês mais assíduo. Quanto mais Nair limpava o terreno de Horácio, mais Cléber comprava de Clóvis. Nesse ritmo, não demorou muito até que os mosquitos voltassem a infernizar Horácio – e que este último voltasse a comprar de Cléber.

O pobre Horácio estava no auge da obsessão anti-mosquitos. Já destruíra quase metade da mobília de casa em suas caçadas. Chegou a ficar nove dias seguidos sem aparecer, mas pouco se importou quando foi demitido. Já não colocava o trabalho como prioridade na sua vida. Assegurar a integridade de seu lar contra a ameaça entomológica era muito mais importante. A perigosa combinação entre desemprego e compras cada vez mais frequentes no Cléber logo endividou Horácio. E foi nesse momento que, ao lado do hortifrúti de Clóvis abriu a filial de uma agência de empréstimos. Era daquelas que apareciam a todo o momento fazendo propaganda em programas de auditório. “Sem consulta ao SPC! Sem consulta ao SERASA! Sem consignado! Sem frescura e sem dor de cabeça: só dinheiro!”.

Dinheiro fácil! Que dádiva.

Seu gerente era Cláudio, um discreto frequentador da mesma padaria na qual Horácio tomava café e na qual Cléber e Clóvis trabalhavam antes de se tornarem empreendedores. Horácio foi seu primeiro cliente. Em menos de um mês já devia à agência mais do que nunca antes havia devido em toda a sua existência.

E assim se processavam as coisas naquele miolo da cidade. Para cada problema o seu ator, e para cada ator o seu papel. Os mosquitos atacavam Horácio, que se endividava com a agência de empréstimos para comprar do Cléber, além de pedir ajuda a Nair, que descartava os restos de romã, fazendo Cléber comprar de Clóvis.

Foi quando, numa manhã de sábado, Nair passou mal logo após tomar seu habitual café da manhã na padaria. Foram cinco dias acamado até vir a óbito, para a tristeza da esposa, dona de casa, e das duas filhas. A história nunca ficou muito bem esclarecida, apenas para alguns poucos. O quadro de Horácio, por sua vez, só piorava: tanto o financeiro como o psiquiátrico. Ele sequer chorou a morte de Nair. Pelo contrário: passara a suspeitar que o falecido amigo também estava por trás dos mosquitos. Todos aqueles conselhos de gastar menos energia matando mosquitos e mais energia limpando o quintal o deixaram com o pé atrás:

- Pois como não irei gastar minha energia exterminando esses crápulas?! São eles a culpa da minha insônia, foram eles os culpados pela minha demissão, são eles que aparecem para zunir no meu ouvido irritantemente justo quando quero dormir, e são eles que me deixam todo empolado de coceiras. Só mesmo um dementado como o Nair pra ficar passando a mão na cabeça de mosquito. Pois que o diabo o carregue!

Com Nair misteriosamente fora do caminho, Cléber lucrava como nunca, pois os mosquitos atacavam como nunca e já não gastava tanto como antes para repôr as romãs. Cada dia um novo produto mais mortal aparecia em sua venda, seduzindo o pobre Horácio em sua cruzada ensandecida contra o exército em miniatura.

Os lucros eram tão fabulosos que Cléber convidou o amigo Clóvis para comemorar. Foi uma noite inteira de muita bebida, cigarro e conversa jogada fora. Altas horas da noite, já embebedado de cerveja, vodca e licor, Cléber foi surpreendido por Clóvis, igualmente bêbado, a lhe apontar uma arma. Gelou de medo o pobre comerciante:

- Clóvis, que porra é essa? Abaixa essa arma!

- Tudo sua culpa, Cléber! Tudo sua culpa! – repetia Clóvis, balançando levemente a cabeça em sinal de reprovação.

- Culpa minha o que, estais louco? Abaixa essa arma! Você tá bêbado! Vamos... Vamos que te levo em casa.

Mas Clóvis o afastou de um só movimento, mirando com dificuldade na testa do amigo:

- Já não tenho o que dar de comer para minhas filhas. Já não consigo pagar minhas contas. Os gastos com cartão de crédito, já não consigo saldá-los. Estou quebrado, Cléber! Quebrado! E a culpa é toda sua!

Cléber ficava cada vez mais confuso. E Clóvis seguia com seu gesto de reprovação:

- Você acha que ninguém sabe, Cléber? Você acha que ninguém sabe que o malandro da padaria que envenenou Nair recebeu ordens suas? Você acha que ninguém sabe que o dinheiro torrado pelo Horácio com você pagou a bala que matou o Nair? Você acha?!

Cléber, até então amedrontado, retomou a compostura e tentou se justificar:

- Ao diabo, Clóvis! Você bem sabia que com aquele sacripanta no caminho meu negócio ia pro brejo. Se eu deixasse o sujeito vivo, em pouco tempo já não ia haver mais mosquito pra infernizar o Horácio! Você via o tanto de romãs que ele jogava no lixo a cada vez que visitava o infeliz? Até das mais bem escondidinhas o filho da mãe conseguia dar cabo.

- Não se faça de desentendido! Você quis se livrar do Nair, mas bem lá no fundo o que queria mesmo era se livrar de mim. Sem o Nair no caminho eram menos romãs no seu orçamento, mais lucro pra você e menos vendas pra mim. Acha que eu não percebi?!

- Hã?! – Cléber finalmente se tocava do que estava acontecendo ali.

- Pois agora é a minha vez de me livrar de você.

Um estrondo rasgou a noite. Assim como a morte de Nair, a de Cléber nunca foi muito bem esclarecida, exceto para alguns poucos. Clóvis tentou adquirir a loja de artigos contra mosquitos que pertencia a Cléber, mas foi em vão. As dívidas contraídas no período de fartura não o deixaram prosseguir em seu intento inicial. Desesperado, logo precisou recorrer aos empréstimos de Cláudio. Foi falar pessoalmente com ele, quase ao final do expediente, na esperança de que seus laços de amizade o fizessem conseguir um empréstimo em condições mais vantajosas. Cláudio o recebeu muito bem. Entre um café aqui e uma piada ali, a noite caiu, a agência se esvaziou e ambos se viram a sós lá dentro. Foi quando Cláudio abandonou as cortesias e abriu o jogo. Levantou-se da mesa, dirigiu-se à janela, acendeu um cigarro e emendou a seguinte ladainha, enquanto contemplava o horizonte:

- No princípio, eram os mosquitos. Ah... Os mosquitos! Os mosquitos que atrapalhavam Horácio, que pediu ajuda a Nair, que atrapalhou Cléber, que matou Nair, que ajudava Clóvis, que matou Cléber, com quem se endividava Horácio, que pedia dinheiro emprestado a Cláudio, mas que agora, com Cléber morto, já não pede mais. Pobre Cláudio! Onde encontrarei outro Horácio de quem arrancar o couro? Pobre Clóvis! Já não tem mais amigos, só dívidas.

O corpo de Clóvis só seria encontrado na noite seguinte, nos arrabaldes da cidade. O caso também nunca foi devidamente esclarecido, exceto entre alguns círculos restritos. Em pouco tempo, Cláudio adquiriu os estabelecimentos de Cléber e Clóvis. Daí em diante, era ele quem fornecia os equipamentos para matar os mosquitos, era ele quem distribuía a romã no pátio de Horácio e era ele quem fornecia os empréstimos para Horácio continuar levando a cabo sua heroica e destemida cruzada.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Da casa engraçada à USP - Meus 28 anos

Hoje, 29 de janeiro de 2016, completo 28 anos de idade.

Durante muito tempo, aniversários significaram para mim uma época para comemorar e ganhar presentes. Hoje, por outro lado, vejo o aniversário como um momento para recordar. Recordar e escrever. Principalmente tendo em vista que me encontro em uma fase da vida na qual tenho verdadeiro horror de estar em qualquer lugar ou evento no qual eu seja o centro das atenções. Daí minhas comemorações de aniversário tornarem-se cada vez mais escassas e discretas.

Neste ano de 2016, queria escrever um texto nos moldes do que escrevi em 2014, em ocasião dos meus 26 anos. Infelizmente não consegui. Aquele continua sendo um dos mais brilhantes resumos que já fiz de minha vida até o momento. Mesmo assim não me dei por vencido e resolvi escrever este outro texto, comentando experiências e reflexões que me esqueci de mencionar há dois anos atrás e reafirmando outras tantas.

Como bom historiador, sei que a história que se narra está articulada à história que se vive. A forma como o homem do Renascimento via o mundo medieval dizia muito mais sobre o próprio período renascentista do que sobre a Idade Média. De forma análoga, a leitura que os integralistas brasileiros faziam do Brasil colonial, se nos serve como ótima fonte de informação sobre o pensamento político brasileiro dos anos 1930, pouco nos diz sobre o período colonial de fato.

Também como todo historiador, sei que a história é feita de recortes, de seleções. Jogar luz sobre este ou aquele evento histórico implica deixar no escuro outras tantas passagens. É impossível abocanhar toda a história de uma só tacada. A história é como um imenso e interminável mosaico do qual o historiador sempre conseguirá captar apenas alguns dos quadros. Cabe ao historiador, portanto, a elevada responsabilidade de escolher cuidadosamente quais quadros receberão luz alta e quais ficarão em luz baixa, bem como justificar os motivos para essas escolhas.

É por isso que, apesar de concordar com a iniciativa, acho tão problemática a lei que torna obrigatório o ensino de história da África nas escolas brasileiras (Lei Nº 10.639 de 9 de janeiro de 2003). Não a lei em si, mas a forma como ela vem sendo aplicada. Em um vasto livro didático, totalmente dividido de acordo com os padrões temporais europeus (Antiguidade, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea), eis que surge, não mais que de repente, um capítulo anômalo, enfiado às pressas no meio dos demais apenas para cumprir a lei, intitulado “História da África”.

Em que consiste?

Em milhares de anos da história de um dos mais vastos e diversificados continentes do planeta. Resume-se, neste humilde capítulo, uma extensão temporal e cultural tão ou mais abrangente do que aquela dedicada ao continente europeu ao longo de todo o livro didático. O aluno, até então imerso em uma visão eurocêntrica da história, de repente se depara com um capítulo intitulado “História da África”. É como se de dentro do livro pulasse alguém e dissesse: “Interrompemos nossa programação para dizer a você, em conformidade com a lei 10.639, que existem alguns povos exóticos num continente estranho que merecem a sua atenção; dentro de instantes voltaremos à nossa programação normal”.

Isso mesmo: “à nossa programação normal”. A História Europeia é a normal. Reforça-se, portanto, justamente o estereótipo que a referida lei – creio eu – quer destruir: a do estranhamento em relação à África e às suas populações.

Pior do que isso. Da forma como a lei vem sendo implementada, apela-se à identificação, um dos recursos mais eficientes de exercício do poder simbólico. Sabe por que nunca veremos um capítulo de livro didático intitulado “História Europeia”? Porque não é necessário dizer que aquele capítulo se trata da história do continente europeu – isso já está implícito. Não é necessário identificar que falamos da Europa quando falamos em “Idade Média” ou em “Período Contemporâneo”, pois estamos usando como parâmetros marcos temporais europeus.

Ou seja: o simples fato de precisarmos identificar um capítulo como sendo de história africana já demonstra que a História da África permanece, para pegar uma expressão emprestada a Bourdieu, um “excluído no interior”. Ela está inserida, mas em condições diferentes (i. e. inferiores) às dos demais. Fazendo uma analogia tosca, mas ainda assim válida: já pararam para pensar por que os sites norte-americanos dispensam o .us no final e só os endereços dos demais países devem identificar a procedência (brasileiros levam o .br, os japoneses o .jp e assim por diante)? Ou já pararam para pensar por que, na Alemanha nazista, apenas os judeus – mas nunca os ditos “arianos” – precisavam andar com uma estrela costurada à roupa para se identificarem?

Mas isso é assunto para outra discussão.

Baseando-me nessas duas constatações – 1. A história que se faz é indissociável da história que se vive e 2. A história é feita de recortes e seleções – buscarei aqui ressaltar não apenas quaisquer memórias que eu tiver de minha vida, mas aquelas que, por um motivo ou outro, me tocam mais fundo até os dias de hoje.

Acredito que uma das lembranças mais antigas que tenho é uma que data dos meus três ou quatro anos de idade, na escola. A professora colocou para tocar, num disco de vinil, aquela música do Vinícius de Moraes: “Era uma casa / Muito engraçada / Não tinha teto / Não tinha nada...”. Depois, pediu para que nós desenhássemos, numa folha de papel, a casa à qual a música fazia referência. Adorava desenhar. Pensei então em começar pelo piso, mas aí lembrei que a casa não tinha chão. Então pensei em começar pelas paredes, mas me lembrei que ela também não tinha parede. Foi aí que decidi começar pelo teto, para em seguida me lembrar que ela também não tinha teto. Só então percebi que não havia jeito de desenhar a bendita casa, já que ela “não tinha teto / não tinha nada”. Acho que essa foi uma das primeiras frustrações da minha vida. Mas como eu não podia contrariar os desígnios da professora, acabei desenhando uma casa toda torta, mas com as paredes, portas e teto, em flagrante contraste com o que a música propunha.

Mais de vinte anos se passaram e até hoje ainda não consigo imaginar uma maneira de desenhar a referida casa. Há quem diga que ela se resumisse a um amontoado de telhas, portas e janelas jogadas sobre um terreno baldio. Mas um amontoado de telhas, portas e janelas por si só não constitui uma casa. O que constitui a casa é a forma como esses elementos interagem. Olhando para trás, acho curioso como uma professora pode propor isso a seus alunos. Como ela pode tocar uma música que fala de uma casa tão enigmática, tão abstrata, e ainda esperar que seus jovens alunos consigam representar essa casa por meio de um desenho.

Com o passar dos anos, fui percebendo que a postura de minha professora da pré-escola não era um caso assim tão isolado quanto eu supunha. Ela apenas expressa um traço marcante de nosso sistema educacional. Querem que representemos, com um desenho numa folha de rascunho, uma casa que não pode ser concebida nem na imaginação. De forma análoga, querem que interpretemos um poema de extrema complexidade, escrito por um autor na penúria, tuberculoso e farto de desilusões amorosas (provavelmente nem ele mesmo sabia o que estava dizendo ao escrever tais linhas); querem que expliquemos as causas da Segunda Guerra Mundial (como se isso fosse algo tão tranquilo como apontar pra que lado fica a padaria mais próxima); querem que analisemos a rivalidade Israel-Palestina. E tudo em míseras 5 ou 10 linhas, como se questões de extrema complexidade, que há anos vêm sendo trabalhadas, coubessem em espaço tão exíguo.

Meu empenho descomunal em desenhar a casa engraçada de Vinícius de Moraes não se perpetuou ao longo de minha infância na escola. Nos primeiros anos, fui um aluno relapso e desinteressado. Odiava a escola mais que tudo e não conseguia entender como havia políticos que faziam campanha na televisão propondo construir mais escolas. Quando, em uma de minhas muitas desventuras em sala de aula, a diretora veio conversar comigo para dar uns puxões de orelha, entre um esporro e outro ela me disse que havia meninos que não frequentavam a escola, que ficavam à toa na rua ou ajudando o pai na roça, e perguntou se eu queria ser como eles. Na hora senti uma inveja corrosiva desses tais meninos. “Devem ser os meninos mais felizes do mundo!”, eu pensei.

Curiosamente, muitos e muitos anos depois, quando já trabalhava de monitor no Bernoulli, uma aluna a quem atendi comentou que em Esparta devia ser melhor ser pobre do que ser da elite, já que apenas os meninos da elite se submetiam a um sistema educacional ferrenho e militarmente conduzido, ao passo que os meninos mais pobres não tinham essa obrigação. Disse então a ela que, enquanto ela estava enfurnada naquele cursinho estudando loucamente para passar em medicina, milhares de meninos da periferia estavam jogando bola na rua ou empinando pipa, e perguntei qual dos dois ela preferia ser.

A fim de tornar a escola menos insuportável, tentava achar válvulas de escape. Então eu ria, brincava fazia piadinhas... Tudo para fugir daquela realidade intragável. Na minha escola, o castigo para os alunos travessos costumava ser ficar sem recreio. No meu caso, o índice de reincidência era tão alto que minha professora resolveu simplificar e me deixou de castigo no atacado: um mês inteiro sem recreio. Um mês para um adulto passa num piscar de olhos, mas para uma criança impaciente de apenas sete anos era quase como um semestre inteiro. Era angustiante ir todos os dias para a aula sabendo que eu não poderia brincar na hora do recreio, especialmente tendo em vista que o recreio era uma das poucas coisas que ainda salvavam o ambiente escolar. Tanto que, quando um parente distante certa vez veio nos visitar e me perguntou o que eu mais gostava na escola, respondi, sem titubear: “a hora do lanche, a hora do recreio e a hora de ir embora”. E de fato, era isso mesmo. Não estava brincando e não entendi quando começaram a rir de minha resposta.

Passado um mês de minha reclusão, quando finalmente pude voltar a respirar a liberdade do recreio, minha alegria durou pouco. Na volta para a sala de aula aprontei mais alguma palhaçadinha da qual nem me recordo mais. Foi o suficiente para minha professora me presentear com mais um longo mês sem recreio. Dois meses seguidos sem recreio. Até hoje me lembro bem de como ela rabiscava o calendário com caneta hidrocor para marcar direitinho minha “pena”.

Não me lembro de ter ficado sem recreio por tanto tempo assim novamente. Minha aversão à escola, porém, não mudou muito, principalmente às aulas de matemática. Não consigo me esquecer de como eu ficava pilhado tentando resolver problemas incompreensíveis. Entre uma pausa e outra, quando eu já me dava por vencido, olhava para as fotos das pessoas nas revistas. Homens bem-sucedidos, mulheres ricas, atores, cantores, pilotos e esportistas... Será que todos passaram pelo que passei? Será que todos eles tiveram que resolver aquelas equações infernais para chegar aonde chegaram? Será que se eu resolvesse as malditas equações eu chegaria ao mesmo lugar em que eles estavam? Ou será que já era tarde demais para mim?

Acredite ou não, esses questionamentos me perseguiram até o ensino médio, quando se tornaram ainda mais provocativos.

Outra lembrança igualmente curiosa da minha infância foi de uma colônia de férias à qual fui com apenas oito anos de idade. A colônia foi sediada em uma fazenda aqui perto de Lavras, não me lembro exatamente onde. Foi amplamente divulgada em todas as escolas da cidade, de modo que reuniu uma meninada vasta, dos sete aos doze anos de idade.

Não consigo me esquecer de uma cena que se passou no primeiro dia, logo que chegamos à fazenda. Uma horda de uns trinta ou quarenta meninos e meninas saiu do ônibus com um ímpeto fervoroso, correndo pelo pátio que ficava logo à frente de uma velha casa na qual iríamos dormir. Uns brincavam, outros brigavam, outros conversavam alegremente e outros faziam piadas. Eu, porém, seja por timidez, seja por minha vasta experiência de dois meses seguidos sem recreio, contentei-me em ficar sentado em um banco de madeira observando tudo aquilo.

Passado um tempo, um dos monitores da colônia sentou ao meu lado. Era um jovem de seus dezoito ou dezenove anos de idade, provavelmente ávido por fazer um dinheiro extra pra financiar a viagem de janeiro porque não tinha passado no vestibular e ficou de mal com a família. Perguntou-me por que eu estava tão quieto ali no canto, sem interagir com ninguém. Não me recordo bem de minha resposta, mas lembro muito bem da tréplica dele: “Isso aqui é uma colônia de férias, você tem que se divertir!”. Disse mais uma ou outra coisa que nem me lembro mais. Quando percebeu que eu não iria mudar, levantou-se e foi embora.

Não consigo pensar nessa cena sem esboçar pelo menos uma risadinha interna, mas na época não achei a menor graça. Aliás, acho que esse é um dos traços mais marcantes do amadurecimento: rir de coisas que outrora nos deixaram confusos, nervosos ou angustiados. E penso que quanto mais cedo rimos dessas situações, mais rápido estamos amadurecendo.

A verdade é que eu me senti envergonhado e culpado com a frase do jovem monitor. Todo mundo se divertindo e eu lá, parado, contemplativo, imóvel. Todo mundo se divertindo, só eu que não. Senti como se estivesse sendo um fardo, um inconveniente. Ou, melhor ainda, como se estivesse usando um produto da maneira errada. “Isso aqui é uma colônia de férias, você tem que se divertir!” soava quase como “Isso aqui é um cacto, você tem que jogar pouca água!”, “Isso aqui é um carro manual, você tem que ficar atento às marchas!” ou “Isso aqui é uma panela de teflon, você não pode raspar o garfo!”.

A colônia servia para se divertir e eu não estava me divertindo. Que lástima!

Da mesma forma que a casa engraçada, esse episódio ainda mexe bastante comigo até os dias de hoje. Quantas vezes não vemos uma pessoa e, do alto de nossa arrogância, julgamo-la doente, deprimida ou problemática, ignorando que nós mesmos podemos estar muito mais necessitados de ajuda do que ela? Quantas vezes, em meio a uma festa onde todo mundo canta e dança, olhamos para aquela pessoa sentada e julgamo-la antissocial. Quantas vezes descobrimos uma pessoa que não bebe, não fuma e não usa drogas, e julgamos que ela tem que começar a beber, fumar ou usar drogas para se sentir bem. Quantas vezes vemos uma pessoa com um comportamento peculiar, porém inofensivo, ou com preocupações que nos são incompreensíveis e julgamos que ela precisa de um psicólogo. Quantas vezes vemos uma lésbica e julgamos que ela só é assim porque ainda não encontrou o homem certo (o mesmo podendo ser dito sobre os gays). E tudo por quê? Apenas porque nenhuma dessas pessoas corresponde a nossas expectativas. Porque nenhuma delas se diverte da forma como nós nos divertimos. Porque se eu só sei me divertir bebendo e fumando então fulano deve ser extremamente infeliz, já que não bebe nem fuma. Porque se eu só consigo sentir prazer com pessoas do sexo oposto, então gays e lésbicas devem ter uma vida sexual miserável, já que não transam com o sexo oposto.

Pobres de todos eles.

É costume, hoje, dizer que vivemos em uma sociedade doente. Eu acrescentaria ainda: vivemos numa sociedade doente na qual todos acreditam ser médicos. Ou melhor: vivemos numa sociedade na qual todos irão fazer o possível e o impossível para te convencer de que você está doente e de que eles detêm a cura.

Até o momento em que o jovem monitor sentou-se ao meu lado eu estava me sentindo perfeitamente bem, fazendo aquilo que eu fazia melhor: sentar e observar. Depois daquele breve diálogo, senti-me perturbado. E o que é pior: sem necessidade alguma. Não culpo o rapaz: estava apenas fazendo seu trabalho. Mas cenas desse tipo se tornariam recorrentes na minha vida. Sempre que digo que não bebo acabo travando o mesmo diálogo, independente da pessoa com quem estiver tratando. Daria até pra fazer um pequeno roteiro: “Você não bebe? Sério? Nada? Tá tomando remédio? É por questões religiosas? Nunca Provou? Ah, mas você tem que ir bebendo aos poucos que com o tempo você acostuma. Precisa começar com umas bebidas de leve e depois vai evoluindo. No começo eu também não gostava”. Simplesmente não cabe na cabeça de certas pessoas que não gostar de álcool não é nem nunca foi nenhuma patologia que precise ser curada em doses homeopáticas. Que não gostar de álcool é tão comum como não gostar de bife de fígado ou de dobradinha (que eu, aliás, amo!).

Mas se vamos falar de memórias que ainda são atuais, por que não falar do PT?

Tendo nascido em 1988, passei a parte mais significativa da infância nos anos 1990. Já em fins da década, presenciei com assombro e desgosto a ascensão do PT. Não entendia muito de política, mas sabia que detestava o PT. Achava a retórica de Lula e dos militantes do partido bombástica e soberba. Sempre tive especial aversão a qualquer tipo de pessoa que se apresentasse como portador da verdade absoluta e que se achasse superior aos demais, e era exatamente assim que meus olhos de menino enxergavam os petistas. Era tudo muito gritado, muito fanático, muito espalhafatoso para mim.

Aliás, guardo até hoje comigo uma carta que escrevi na escola simulando ser um brasileiro vivendo num Brasil governado pelo PT no ainda longínquo ano de 2025. Redigi-a em 2000, quando o país ainda vivia sob o segundo mandato de FHC. O autor fictício da carta relatava coisas horrendas, como “a situação econômica aqui no Brasil está à beira da estaca zero”, “somos uma ditadura”, “estamos pior que Cuba”, “acabamos de sair de uma guerra com o Equador” e “Estamos sob uma perfeita ditadura e somos rondados por generais militares”.

Ditadura petista misturada com ditadura militar! Só mesmo na imaginação fértil de um garoto de doze anos para os mais horrendos temores da classe média brasileira andarem de mãos dadas com os sonhos dessa mesma classe média. Às vezes penso em publicar essa carta na íntegra em meu blog, mas sempre que começo a lê-la caio em risadas e dou pra trás de tanta vergonha que sinto. Aliás, na carta não há qualquer referência explícita ao PT. A professora pediu para tirar esse trecho porque o texto seria lido em público e poderia gerar insatisfação em simpatizantes do PT que pudessem estar na plateia. Ainda bem que isso se deu em 2000, pois se fosse hoje seria chamado de doutrinação marxista. Aliás, ainda bem que fui uma criança naquela época e não agora. Não é nem um pouco difícil imaginar essa minha cartinha da sexta série fazendo coro com a verborragia antipetista Made in Facebook. Seja lá como for, eu sim posso bater a mão no peito e dizer que já era antipetista way before it was cool.

Apesar dessa peripécia literária, nunca fui um ardoroso anticomunista em momento algum da minha juventude. Por vezes cheguei mesmo a considerar o comunismo algo salutar e necessário. E isso não porque conhecesse a fundo o ideário comunista, mas porque tendia a enxergar o mundo como uma grande sala de aula na qual os países capitalistas eram os alunos descolados e populares (pelos quais nutria repulsa) e os países comunistas eram os alunos rejeitados (pelos quais sentia mais afeição, apesar de nunca ter sido um no sentido estrito do termo).

Mas nem só de dilemas bizarros foi feita minha infância. Ela também foi marcada por horas a fio na frente da televisão assistindo à finada TV Manchete. Ficava de olhos vidrados na programação matinal porque adorava os seriados japoneses de Live Action, mais conhecidos como Tokusatsus. Jaspion, Jiraya, Jiban, Changeman, Flashman, Kamen Rider, Cybercops, Winspector e Solbrain eram alguns dos principais seriados de vinte ou trinta minutos que exibiam aventuras de super-heróis japoneses defendendo a Terra de forças malignas.

Atribuo a minha fiel audiência à emissora dos irmãos Bloch o fato de desde cedo nutrir profunda admiração pela cultura japonesa e, posteriormente, pela cultura oriental como um todo. Por muito tempo tive um respeito egípcio por chineses, coreanos e japoneses, enxergando-os como seres superiores. Quando passava férias em São Paulo observava-os admirado, como se esperasse que a qualquer momento fossem fazer ou dizer algo surpreendente, tal como nos seriados aos quais eu assistia. Passava horas em frente ao espelho puxando meus olhos com os dedos na ingênua esperança de me parecer com meus heróis. Lembro-me até de, certa vez, ter pedido a minha mãe para fazer uma cirurgia nos olhos para que ficassem esticados, iguais aos dos orientais.

Tamanha foi minha surpresa quando, visitando o Oriente pela primeira vez, durante meu intercâmbio na Malásia entre 2004 e 2005, me dei conta de que a recíproca era verdadeira, isto é: que também os orientais tomavam os ocidentais por superiores. Não por acaso, notava que alguns deles tinham um respeito excessivo por mim. Alguns temiam se aproximar e conversar e outros tantos tinham uma expectativa surreal em relação a mim, tão grande quanto aquela que eu nutria pelos japoneses de São Paulo.

Minhas aventuras e desventuras na Malásia estão narradas nos posts com a tag “Páginas de Combate”, bem como no meu outro texto de aniversário (“Do Consenso ao Crepúsculo – meus 26 anos – Parte II”). Limito-me aqui a expor apenas um episódio que acredito não ter comentado em outras partes e que é bastante ilustrativo desse lugar que os ocidentais ocupam no imaginário malásio.

É muito comum, entre estudantes das escolas da Malásia, torneios de debates, tanto em malaio como em inglês. Em uma sala de aula, duas mesas são colocadas frente a frente com três debatedores de cada escola em cada um dos lados. Na hora, sorteia-se um tema com uma pergunta acerca daquele tema. Sorteia-se também a posição que cada grupo deve defender: contrário ou favorável. Cabe aos alunos, ao longo de extensas exposições, defender os pontos de vista de seus grupos e rebater os argumentos adversários. E cabe a um grupo de professores avaliadores dar o parecer sobre quem venceu.

Pois fui convidado para assistir a uma dessas competições em uma escola de uma cidade não muito longe de Klang, onde eu morei. Na hora de as equipes participantes se registrarem, um de meus colegas me pediu para que os acompanhasse para fazer o registro. Respondi que isso não era necessário, já que era apenas mero espectador, ao que ele prontamente respondeu: “Eu sei, mas você precisa vir conosco para fazer o registro de nossa equipe, pois quando as outras equipes te virem acharão que tem um ocidental na nossa turma e se sentirão intimidadas”.

Atendi ao pedido sorridente, sem saber direito lidar com aquilo porque nunca havia experimentado situação semelhante – e espero nunca mais experimentar. Como já era de se esperar, a estratégia não funcionou e a equipe de minha escola perdeu.

Foi só então que percebi que a estratégia de puxar os olhos era completamente inútil e até prejudicial. Quem gosta do Oriente e de orientais deve ser o mais ocidental possível a fim de conquistar sua admiração. Lembro-me da cena de um filme bem antigo (“Minha doce gueixa” ou “Minha querida gueixa”) no qual um diretor de cinema ou de teatro norte-americano viaja para o Japão a fim de procurar por uma gueixa para sua mais nova produção. Foram-lhe apresentadas algumas japonesas de inglês impecável que sabiam cantar, dançar, improvisar e atuar, tudo no melhor estilo rockabilly norte-americano dos anos 1950. Mulheres modernas, ocidentalizadas e que orgulhavam-se de sê-lo. O diretor agradeceu a presença delas, mas depois que se foram mostrou-se profundamente decepcionado. Ele não queria japonesas de estilo americano, queria japonesas tradicionais, queria uma gueixa que se comportasse exatamente como as gueixas de séculos atrás.

Parece ser esse um dos grandes dilemas do mundo globalizado: orientais querendo ser ocidentais para se sentirem integrados aos valores com os quais são sistematicamente bombardeados pela mídia (cremes para embranquecimento da pele são um sucesso de vendas na Malásia, por exemplo); por outro, ocidentais embriagados de cosmopolitismo procurando orientais que ainda preservem as raízes de sua cultura. É um jogo de soma zero: os orientais não compreendem por que cargas d’água homens brancos querem saber de ritos milenares ancestrais que nem eles mesmos conhecem direito, e os ocidentais se estranham ao verem orientais imitando o American Way of Life. No final das contas, todos se frustram e ninguém se entende. Não se trata mais, como nos velhos tempos, de minha cultura contra sua cultura. Trata-se de eu tentando me inserir no seu universo cultural e você tentando se inserir no meu universo cultural quando, na verdade, a minha expectativa é que você fosse fiel às suas tradições e vice-versa.

Demorei a entender esses novos conflitos do mundo globalizado. Se os tivesse compreendido com antecedência, penso que minha estadia na Malásia teria sido muito menos conflituosa. Enquanto meus colegas me bombardeavam com perguntas sobre Ronaldo no Real Madri, o carnaval carioca e o apetite sexual das mulheres brasileiras, eu lhes devolvia perguntas sobre peregrinação em Meca, deuses hindus e literatura chinesa.

Meu intercâmbio na Malásia foi, sem sombra de dúvida, o período de minha via no qual mais amadureci. Após um ano em terras longínquas, foi a vez de voltar ao Brasil. Chega de utopias orientais, de visitar templos budistas, rezar em templos hindus e admirar mesquitas. Era hora de encarar a realidade; era hora de encarar o vestibular. Após duas escolhas malsucedidas de cursos – dois períodos de Relações Internacionais intercalados por um período de Ciências Sociais no meio – finalmente me encontrei no curso de História. E aqui novamente apareceu – e continua aparecendo às pencas – toda uma nova horda de supostos médicos tentando me convencer de que estou doente. De que não tenho nada a ganhar num curso repleto de gays, lésbicas, maconheiros, doutrinadores comunistas e ciclistas. Não se trata, é claro, de pessoas que dizem isso explicitamente, com todas as palavras. Não. Ninguém mais se prestaria a esse ridículo nos dias de hoje. Trata-se sim de todo um arsenal de chavões, valores e ideias difundidos pelos mais variados meios (TV, internet, memes, redes sociais, conversas pessoais e via Whatsapp, etc.) que dia após dia tentam, numa insistência religiosa, convencer-me de que eu não devo cursar História, depender do transporte público e usar roupas sóbrias, mas sim cursar Engenharia, me matar para comprar um bom carro e usar roupas de marca, tudo a fim de perpetuar a espécie (“pegar mulher”, no jargão popular).

Não. Todo esse aparato belicoso nunca me abalou, ao contrário do que podem pensar. Se os exponho aqui nesse texto não é para me queixar deles. Não escrevo para lamentar. Se os exponho aqui é unicamente para medir o seu ridículo. Para mostrar a mim mesmo, de forma clara, que não é coisa digna de ser levada a sério.

Entrei na universidade pela primeira vez em 2007, sedento por participar de movimento estudantil, manifestações, eleições de DA e DCE. Foram precisos poucos meses na universidade para perceber que aquela definitivamente não era minha praia. Passar em salas dando recados, debates de chapas, distribuição de panfletos para campanha e organização de protestos de rua eram atividades que me enfastiavam e me desgastavam facilmente. Apesar de ter cursado no mínimo um período em três cursos de humanidades (dois deles na UFMG), nunca tive sequer um professor que pudesse se encaixar no tipo ideal de “doutrinador comunista do MEC”. Aliás, lembro-me apenas de dois professores que exerceram, de forma sistemática, em suas aulas, aquilo que os escandalosos de plantão atribuem aos professores comunistas. Um deles foi um professor de Introdução à Economia, no primeiro período do curso de Ciências Sociais, extremamente cruel na hora de atribuir notas a qualquer aluno que não se mostrasse ardoroso defensor do liberalismo econômico nas provas, além de nos entupir até a testa com leituras de autores alinhados com essa posição. O outro foi um professor do curso de História que subtraía generosos pontos de qualquer aluno que, de alguma forma, falasse mal da monarquia brasileira em seus trabalhos, bem como das figuras proeminentes do Império. Essa foi, portanto, a única doutrinação que tive no ensino superior: um neoliberal e um monarquista.

Foi preciso chegar até o mestrado na USP para finalmente encontrar um professor que exercesse a tal doutrinação comunista tão alardeada nos dias de hoje. E foi com muita satisfação que lá cheguei, não só pela satisfação de estudar na USP e dar continuidade aos meus estudos em História, mas também pelo prazer mudar de ares. Após sete anos (com duas interrupções de um semestre cada) vivendo na provinciana Belo Horizonte, mudar-me para a cosmopolita São Paulo teve um efeito libertador. Parece até que me reencontrei com meus velhos heróis de infância: os poderosos orientais. Eles estão por toda a parte! E por mais que há muito tempo eu já não os cultue com a devoção de antes, é sempre bastante nostálgico passear por uma cidade na qual passei algumas boas férias durante a minha infância.

Hoje, no limiar dos 28 anos de idade, confesso que não tenho muitas ambições quanto as que eu tinha na infância. E isso não por ter desanimado da vida ou não confiar em meu potencial, mas simplesmente porque percebi que preciso de muito menos para ser feliz. Não quero mais ter olhos puxados, apesar de ainda nutrir imensa simpatia pelo Extremo Oriente e principalmente pelas pessoas de lá. Não é à toa que, em meu segundo intercâmbio, na Alemanha (2011-2012), fiz mais amizades com coreana(o)s do que com alemães. Também não quero mais viajar o mundo e conhecer países porque descobri que detesto aeroportos e morro de medo de viajar de avião.

Meu sonho maior, neste momento, é tornar-me um professor de História em alguma universidade pública de qualquer lugar do país. Nada mais que isso. Alguns podem até achar esse sonho demasiadamente pretensioso. Quantas vezes ao longo da minha trajetória ouvi, vindo das mais diversas pessoas, que ser professor universitário é para poucos, que isso é muito difícil, que é um meio muito hostil e que apenas poucos conseguem. Nunca entendi se as pessoas emitiam esses alertas para desanimar os futuros candidatos ou apenas pelo prazer de serem inconvenientes. A verdade é que eles nunca me abalaram, e nem há motivos para tal. Há várias universidades no Brasil que necessitam do trabalho de professores de História. Então, por que não eu? Por que passar a vida me conformando em fazer aquilo que não quero enquanto vejo pessoas iguais a mim, com a mesma formação, as mesmas oportunidades e as mesmas capacidades que eu, sendo aprovadas em concursos nos quais tenho plenas capacidades de passar? É preciso uma mentalidade muito tacanha para pensar de outra forma.

É isso o que quero pra mim nesse momento. Não quero ser famoso. Aliás, já fico assombrado só de pensar na possibilidade de ser famoso, seja por maus ou por bons motivos. Como já disse: tenho pânico de ser o centro das atenções. A única fama à qual eu poderia almejar hoje é uma fama póstuma. Aliás, creio que seja esse o motivo principal que me leva a escrever: a possibilidade de me perpetuar de alguma forma, uma vez que não quero ter filhos e que o futuro não parece muito promissor para árvores. Escrevo para que, daqui a uns cem ou duzentos anos, alguém – de preferência um historiador despreocupado – possa acessar meus textos, seja lá de que maneira for, e pensar: “Olha! Então é assim que vivia um brasileiro no começo do século XXI... Eram essas as aflições e angústias de um homem do começo do século... Era assim que se escrevia no ano de 2016...”.

Se um dia isso acontecer, nem que seja no formato de uma simples nota de rodapé, onde quer que eu me encontre, me sentirei mais célebre do que o mais cultuado jogador de futebol da história das copas.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

O Processo no Século XXI

Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Ana Maria deu por si na cama metamorfoseada numa terrível celebridade virtual. Estava deitada sobre seu celular, que vibrava forte a cada notificação. Após apanhar o aparelho com a mão esquerda, visualizou, ainda sob o efeito do sono, o frisson que emanava de cada um dos aplicativos que a colocavam em contato com o mundo. Todos – amigos, parentes, conhecidos e principalmente desconhecidos – tentando entrar em contato com a jovem. Uns alertando, outros lamentando, outros tantos reprovando. A maioria escarnecendo.

“Que me aconteceu?” – pensou. Não era nenhum sonho. O quarto continuava exatamente o mesmo da noite anterior. Alguém devia ter caluniado Ana Maria, visto que naquela manhã acordara abarrotada das mais gravíssimas acusações, embora ela não tivesse feito qualquer mal. A mãe de Ana Maria, que todos os dias, pelas 8 horas, aparecia para lhe desejar bom dia e abrir as cortinas do quarto, não aparecera naquela manhã. Tal coisa jamais acontecera. Ana Maria ainda se deixou ficar um instante à espera; entretanto, deitada, com a cabeça reclinada na almofada, observou os jovens da república em frente que, por sua vez, contemplavam-na com uma curiosidade fora do comum.

Neste momento bateram à porta, e um homem que Ana Maria jamais vira em sua casa entrou no quarto:

- Quem é o senhor? ― perguntou Ana Maria, soerguendo-se imediatamente na cama.

- Vim para te ajudar no seu processo.

- Qual processo?

- Este do qual já deve estar inteirada em seu celular.

Fez-se breve silêncio. Ana Maria quis emendar nova pergunta, mas antes que pudesse fazê-lo o homem afirmou, puxando a cadeira que se achava em frente ao computador da jovem:

- Sente-se. Traga seu celular também.

Talvez porque não entendesse direito o que se passava, talvez porque estivesse curiosa para saber para onde seria conduzida, a moça obedeceu ao senhor sem questionar. Este, sentado na beirada da cama, ao lado de Ana Maria, mostrava os vídeos postados há apenas dois dias em um site hospedado nas Ilhas Fiji, mas rapidamente disseminado pelas mais diversas páginas de vídeos on-line, humor, blogs, redes sociais e aplicativos de mensagem instantânea. Por cinco ou seis minutos a garota observava, em silêncio, o furor que seu vídeo causara. Quis bocejar de sono, mas até nisso foi interrompida pelo senhor:

- Estou aqui para garantir que você tenha uma compreensão plena do processo ao qual está sendo submetida.

- Processo? Mas não fiz nada de errado.

O senhor, como se já estivesse acostumado a ouvir – e ignorar – perguntas daquele tipo, apenas deu continuidade ao raciocínio iniciado anteriormente:

- A Justiça é a internet. É direito de todo cidadão de bem conhecê-la. Seu crime não possui nenhuma relevância em particular. Foi mais um entre muitos do mesmo tipo, talvez variando um pouco aqui e ali em intensidade, mas nada fora da regra.

Ana Maria quis protestar novamente que não havia cometido nada de errado, que não possuía antecedentes criminais e que, portanto, o senhor certamente estaria a confundi-la com outra pessoa. Porém, lembrou-se de que o senhor já havia ignorado seu primeiro protesto, e com isso achou mais sensato permanecer em silêncio. O senhor prosseguiu com sua explicação, agora em tom mais douto do que nunca:

- Como já disse, a Justiça é a internet, mas ela é dividida em várias instâncias. Aqui, por exemplo, está a Gerúsia, o Conselho de Anciãos. Pessoas de cinquenta anos ou mais responsáveis por registrar que a repugnância de seu comportamento naquele vídeo é digna dos novos tempos, que no tempo deles não havia nada disso, pois as mulheres se davam o respeito.

Ana Maria achou graça daquilo. O peso da culpa ainda não havia caído sobre ela. Enquanto isso, apenas acompanhava os comentários com um misto de curiosidade e desdém. Chegava até a divertir-se com um ou outro. Ao perceber que o senhor não parecia ter intenção de proferir novas palavras, a moça achou que seria prudente finalmente exprimir as suas. Estava curiosa por saber qual teria sido seu crime, mas preferiu começar com outro questionamento:

- Como...? Como conseguiram me filmar? Quem me filmou?

- As estratégias de colocar todo o poder nas mãos de um ditador já se mostraram suficientemente trágicas ao longo do século passado. Todas acabavam degringolando cedo ou tarde, tropeçando nas próprias pernas, fuziladas pelos próprios soldados, decapitadas pelas próprias guilhotinas. Para que um Grande Irmão vigiando a vida de todos se podemos ter vários grandes irmãos fazendo o mesmo serviço e com ainda mais competência? Para que polícia política, serviço secreto, agentes de espionagem e câmeras espalhadas cidade afora se podemos simplesmente armar cada cidadão com uma câmera? E nem precisamos pagar-lhes cursos de treinamento. Eles sabem exatamente como devem agir sempre que presenciam algo suspeito.

- E os grandes irmãos que filmaram meu crime... Eles também não têm pecados?

- Certamente.

- Então?

- Não é um sistema perfeito, mas é o melhor que temos. Enquanto não conseguirmos vídeos ou fotos dos seus pecados, pouco há que possamos fazer.

- Então os grandes irmãos também fiscalizam um ao outro?

- Idealmente sim, mas é um sistema ainda em aperfeiçoamento.

- E será possível que nenhum desses grandes irmãos tenha filmado a pessoa responsável por disponibilizar meu vídeo on-line? Porque, convenhamos, esse tipo de exposição é crime.

- É esse o seu problema, Ana Maria – disse o senhor, reportando-se à jovem pelo seu nome pela primeira vez. Você ainda acredita na justiça do mundo real, na justiça de carne e osso. Está mais do que na hora de saber que ela é inútil. Tribunais, fóruns, cortes, não passam de museus. Há mais vida no sarcófago de Tutancâmon do que nesses ambientes empoeirados. Advogados, procuradores e juízes são, hoje, múmias vivas. Nada há que se possa esperar deles. Digo-o pela terceira vez: a Justiça é a internet.

O senhor mirava Ana Maria em silêncio, como que já aguardando novo protesto por parte da moça. Esta nada dizia, não porque nada tivesse a dizer, mas porque não sabia por onde começar. Após muito hesitar, a moça afirmou:

- E qual garantia esse Conselho de Anciãos me dá de que, naquela época, há trinta ou quarenta anos, as pessoas não fizeram o mesmo que eu fiz?

- Nenhuma. Naquela época não havia grandes irmãos para registrarem-no. Por isso os grandes irmãos representam um avanço tão grande em nosso sistema judiciário. De agora em diante, cada vez menos crimes ficarão impunes.

- O comportamento desse Conselho de Anciãos... O senhor não o acha anti-histórico? Julgam-me tendo como parâmetro os valores do passado, mas os tempos mudaram tanto.

- É uma reclamação plausível. Mas não se preocupe com a Gerúsia, geralmente são inofensivos. Aqui está – disse o senhor, voltando o olhar para a tela do computador – uma instância que inspira cuidados: é a Ala Sacerdotal. Eles julgarão seu comportamento de acordo com a moral religiosa. Vê-se, pelos comentários, que sua postura no vídeo não agradou ao deus deles, de maneira que também acho extremamente improvável que a Srta. seja absolvida nessa instância.

Ana Maria começou a ler os comentários, que ultrapassavam os mil e duzentos. Prisão, estupro corretivo, cinta, correia, medidas disciplinares, morte. Os mais cautelosos exigiam o pagamento de uma multa simbólica ou serviços sociais para o resto da vida.

- Não são esses os discípulos do homem que exortou a jogarem pedras todos aqueles livres de pecado?

- Esses mesmos.

- Então?

- Quanto a isso a Srta. pode permanecer tranquila. Nosso processo civilizador atingiu um tal estágio que apedrejamentos não são mais permitidos como em outros tempos. Sua integridade física permanecerá inviolável.

- E por que as penalidades se adequaram aos novos tempos, mas os parâmetros de julgamento permanecem arcaicos, como vimos no caso da Gerúsia?

- Já disse que não é um sistema perfeito.

- E esses aqui? – perguntara a moça, após um longo suspiro no qual seu sono residual se misturava ao desdém pelas normas daquele processo que ia conhecendo aos poucos.

- Essa é a Ala Liberal.

- Estão a meu favor?

- Não. Acham que o que fez foi repugnante e asqueroso.

- Mas não são liberais?

- Sim, pois apesar da repugnância com que agiu, acham que podem desfrutar de algum proveito disso.

- Então não me defenderão?

- Apenas se estiver disposta a fazer, com eles, o mesmo que fez no vídeo.

Pela primeira vez, desde que acordara naquela manhã, Ana Maria exalava preocupação. A seriedade da situação começava a se desenhar em contornos mais fortes e menos imprecisos. Já não era tão engraçado como antes.

- Um Conselho de Anciãos, uma Ala Sacerdotal e uma Ala Liberal, todos unidos no consenso de me condenar?

- Exato.

- Ninguém a me defender?

- Chegaremos lá. Agora veja mais estes. Formam a Comissão de Disseminação de Conteúdo. Não são declaradamente favoráveis nem contrários a você. Seu trabalho, como o de qualquer comissão séria, é puramente técnico: consiste apenas em difundir seu vídeo pelos mais diversos canais a fim de que atinja o maior público possível, angariado assim mais pessoas para te julgar. Alguns até se dão ao trabalho de colocar legendas ou explicações em outros idiomas a fim de que pessoas em outros países também possam dar seu veredicto.

- Parece um serviço pesado. O que ganham com isso?

- Comentários, curtidas, compartilhamentos. É essa a moeda de troca nesse ambiente. Mais um exemplo que atesta o quanto a Justiça avançou. A Srta. deveria ser grata por isso. Há não muito tempo, trabalhava-se apenas por bons vencimentos. Era horrendo como certos promotores se lançavam a processar um indivíduo inofensivo, cujo crime mais bárbaro havia sido baixar músicas na internet, com o único objetivo de aferir lucros do processo. Hoje não se vê mais essa luta encarniçada e renhida por bens materiais. Nossa Justiça evoluiu espiritualmente. Seus funcionários sentem-se plenamente realizados apenas com curtidas e comentários. A palavra venceu o dinheiro.

Após ouvir essa longa exposição, Ana Maria achou por bem fazer a pergunta que a atormentava desde o início. A garota se deixou levar com tamanha facilidade pelo discurso do senhor que acabou se esquecendo de questionar a validade mesmo de todo aquele processo:

- Qual foi o meu crime? Diga-me, senhor, qual foi?

- A essas alturas da exposição, a Srta. ainda tem dúvidas?

- Filmaram-me fazendo algo que não contraria nenhuma lei escrita e querem me processar por isso?! – Ana Maria expressava os primeiros sinais mais patentes de revolta.

- Preciso lembrá-la mais uma vez – e agora será a quarta – de que a Justiça é a internet?

- Não há lei, regra, norma que fundamente tais acusações. Não há!

- A Srta. vai insistir na Justiça tradicional? Fique à vontade. Os tribunais estão aí: entra-se e sai deles com toda a facilidade do mundo. A Srta. também pode recorrer a um deles. Tudo o que irá encontrar é poeira, ratos e teias de aranha. Com sorte, uma ou outra múmia aguardando sua aposentadoria. Nenhuma estará interessada em ouvir suas histórias, e ainda que estivesse, nenhuma delas irá livrá-la do julgamento da internet.

Ana Maria raciocinava a mil. Tentava controlar-se, mas era difícil:

- Me atacam sem qualquer tipo de reflexão ou questionamento. A execração veio antes da culpa. Sou culpada unicamente porque fui execrada!

- E os ditadores do século XX achavam que estavam fazendo um bom trabalho, hein?! – redarguiu o senhor, pela primeira vez em tom jocoso, ensaiando um sorriso no canto da boca.

Ana Maria sentia-se cada vez mais desamparada. Ao passar os olhos por tantos comentários enfurecidos, raivosos e sarcásticos, teve ânsia de desmaiar. Como era possível que ela, uma simples estudante nos seus vinte anos, que não saía, não dava entrevistas e não tinha pretensões a qualquer tipo de fama, da noite para o dia se metamorfoseasse em alvo de tantas e tantas atenções? Os tempos mudaram. Hoje, vira-se estrela num piscar de olhos, para o bem ou para o mal. A velocidade das informações atingiu níveis nunca antes vistos.

Enquanto refletia sobre isso, Ana Maria se deu conta de que o senhor desaparecera. Ela também precisava ir. Estava atrasada para o estágio. Ao abrir a porta de seu quarto, deu com seus familiares reunidos na sala em tom fúnebre. Sua chegada não causou o menor abalo no ambiente. Era como se já esperassem a garota. Era como se todos quisessem dizer alguma coisa, mas ninguém tivesse a coragem de começar. Diante do impasse, Ana Maria deu de costas e foi tomar banho. Já havia sido suficientemente humilhada na internet. Aproveitando o ensejo, seu pai, que desde o início mal conseguia controlar seu tremor, foi tomado por um impulso irrefreável e disparou a emitir impropérios contra a filha:

- É um absurdo! É lastimável! É repugnante e asqueroso tudo isso! Como pode ser?!

Ana Maria virou-se na tentativa de se defender, mas antes que desse por si caiu em lágrimas. O pai continuou, furioso:

- Quando me separei de sua mãe, fiz o possível e o impossível para que você continuasse sendo a menina que nós criamos desde a infância, para que continuasse recebendo tudo do bom e do melhor, inclusive muito amor, educação e respeito! Olha só o que você fez! Estragou tudo!

- Você passou dois anos e meio sem dar notícias nem pagar pensão, Rogério – interrompeu a mãe, mas foi ignorada.

- Acha certo uma moça de família agir assim dessa forma? Acha certo uma menina educada, que nunca sofreu qualquer tipo de privação material ou espiritual, desonrar assim a sua família que sempre te acolheu nos seus momentos de dificuldade? Acha justo fazer uma sem-vergonhice dessas e ainda espalhar para toda a cidade, para todo o mundo ver? Eu aposto que isso é má-influência daqueles gays com quem você anda na faculdade! Por isso não os queria aqui no seu aniversário.

- Você perdeu a virgindade com quinze anos num puteiro, Rogério – interrompia novamente a mãe. O pai seguia impávido:

- E agora, o que é que eu vou falar no trabalho? O que é que vou falar na minha roda de amigos? O que é que vou falar na igreja? O que, Ana Maria? Me diz, o que?!

O pai quase veio às lágrimas, mas não podia demonstrar fraqueza. Ana Maria chorava copiosamente. Já não se importava mais em refletir se sua atitude, gravada em vídeo e amplamente divulgada em todas as esferas, era moralmente aceitável ou não. Sua família estava contra ela, e era isso o que importava.

- Sabe o que você é? É uma ingrata! Isso sim... É uma ingrata! Depois de tudo o que sempre fizemos por você, você nos retribui desse jeito! Não sente vergonha?

- Você não demonstrou o menor pudor quando te peguei me traindo com sua aluna, Rogério – manifestou-se a mãe novamente. O pai não descansava:

- Tá todo mundo vendo a merda que você fez nos computadores e celulares! Todo mundo!

- Eu já te peguei vendo pornografia de adolescentes no seu celular, Rogério – emendava novamente a mãe.

O pai, que até então estivera indiferente às intervenções da mãe, dessa vez reagiu. No ápice de sua fúria, pegou uma maçã da fruteira e atirou-a contra a filha, embora, em seu coração, o alvo fosse a ex-mulher. A maçã acertou em cheio a nuca de Ana Maria, que corria para seu quarto, e deixou-lhe uma marca roxa. Tão logo se trancou no quarto, outro objeto, dessa vez sinceramente dirigido à moça, acertou o canto superior direito da porta. Era a estatueta de bronze que o pai havia jogado.

Estavam todos desolados.

Ana Maria não foi para o estágio. Passou o dia trancada em seu quarto, pois sabia que se saísse de lá seria novamente agredida. O movimento na casa da jovem foi intenso. Seu pai, que raramente aparecia, não foi embora naquele dia. A cada vez que resolvia encostar o ouvido na porta escutava sua voz, embora fosse incapaz de distinguir o que ele dizia.

Naquele dia, Ana Maria não tomara café nem almoçara. Também não foi para a aula à noite. E ainda bem, porque, segundo os informes que recebia em seu celular, todos na faculdade já estavam sabendo. Houve até quem procurasse a menina em sua sala para poder importuná-la. Apenas quando o relógio anunciou oito da noite foi que a fome começou a perturbá-la com força. Não sabia como reagir. Abriu cuidadosamente a porta de seu quarto, apenas o suficiente para ver se havia condições de ir à cozinha, pegar uma fruta e logo voltar ao recolhimento. Quando ia terminar de abrir a porta para colocar seu plano em prática, foi surpreendida por seu irmão mais novo que surgiu de repente e balbuciou algumas palavras. Ana Maria fechou a porta de sobressalto, trancou-a duas vezes e caiu sentada no chão. Saciou um pouco da fome com alguns biscoitos que guardava em seu armário. Adormeceu pouco tempo depois.

Acordou, no dia seguinte, com alguém batendo à porta. Quem quer que fosse, já deveria estar batendo há algum tempo. As batidas finais expressavam resignação. Alguns minutos depois, alguém jogou uma marmita de comida pela janela. A marmita bateu no estrado da cama e se espatifou no chão, mas a menina devorou o conteúdo com gosto. Sentia muita fome. Chegada a hora do almoço, o ritual se repetiu. Com o ouvido esquerdo pregado à porta, a menina conseguiu captar alguns trechos da conversa de seus familiares na mesa do almoço. Eles instruíam o irmão caçula a não caçoar da irmã e a não se aproximar dela. Diziam que ela precisava descansar, que estava muito exausta, e que por enquanto era melhor deixá-la em paz.

O irmão mais velho concordava com tudo e lembrava a todos na mesa que eles possuíam parentes distantes que moravam numa cidade em outro estado, e que talvez pudesse ser uma boa ideia mandar a menina para lá. A ideia não agradava à mãe. Ela só foi convencida de que aquele era o melhor caminho a seguir depois de muita confabulação com o filho e o ex-marido. Num dado momento, os tons de voz se tornaram mais baixos e Ana Maria não conseguiu mais identificar o conteúdo dos diálogos.

Foi nesse momento que o senhor da manhã anterior apareceu novamente, sentado na beirada da cama da moça e mirando-a fixamente, como se estivesse a aguardá-la para um compromisso com data e hora marcada da qual ela já deveria estar ciente. Assim que Ana Maria sentou-se à frente do computador, o senhor não fez cerimônia:

- Hoje vou te mostrar sua defesa. São essas pessoas aqui, com fotos coloridas no perfil e óculos de armação grossa que gostam de fazer abajur de garrafa pet, aplaudir o nascer do sol, comer tofu e frequentar shows de bandas idiotas com nomes toscos que ninguém conhece.

- E por que são eles a minha defesa?

- Porque não sobrou mais ninguém.

- Como irão me defender?

- Com longos textos amplamente compartilhados nas redes sociais, carregados de reflexões, questionamentos e ponderações, com amplo embasamento teórico.

- Parece uma boa defesa.

- Não é.

- Não?

- Definitivamente não. Seus textos são compridos e complicados de entender. Pouquíssimos são os que os leem até o fim. Desses poucos, uma parcela ainda menor consegue compreendê-los e dentro dessa parcela minoritária, uma porção ainda mais ínfima concorda com eles.

- Não há mais ninguém para me defender?

- Sua família está contra você, Ana Maria. Você não está em posição de decidir quem advoga em sua causa.

A moça baixou a cabeça com um olhar reflexivo.

- Continuando – prosseguiu o senhor –, devo alertar de que minha função aqui não é protegê-la ou atacá-la. Fui enviado com o único intento de ajudá-la a entender o funcionamento do processo ao qual está sendo submetida.

Naquele momento, Ana Maria explodiu:

- Pare de falar em processos! Não cometi crime algum. Isso está tudo errado! Estão todos se voltando contra mim sem motivos. Estão todos errados! Assisti a esse vídeo duas, três, oito vezes, e quanto mais o assisto mais convicta estou de minha inocência. Hoje mesmo vou sair e dar um jeito nisso. Não pode ficar assim.

A jovem ameaçou mais uma vez romper em lágrimas, mas dessa vez resistiu. Estava convicta de sua inocência, isso era fato. Não era apenas força de expressão. O senhor assistia ao protesto de Ana Maria incólume. Quando ela já parecia se acalmar, ele disse:

- Vai sair para dar um jeito nisso? Com quem vai falar? As pessoas que te acusam e defendem estão todas aqui no mundo virtual. Sair por aí à cata delas é inútil. Precisaria rodar literalmente o mundo inteiro para alcança-las e não temos muito tempo.

- Não posso seguir confinada nesse quarto. Já não aguento mais. Quero minha vida de volta.

Enquanto Ana Maria desligava o computador e o celular para evitar ser molestada, o senhor desapareceu. Ela mal deu com seu sumiço. Queria sair do quarto, tomar um banho, vestir novas roupas e tomar um ar. Não podia ser prisioneira sem um crime pelo qual pagar. Abriu a porta do quarto e deu de cara com o pai ajudando o filho mais novo com a lição de casa na mesa da sala. Ao ver a filha, o pai puxou o filho pelo braço, tapou seus olhos e mandou-o para o quarto. Ana Maria permanecia imóvel à porta do quarto, encarando o pai, que a olhava com seriedade.

- Aonde vai?

- Viver.

- Espere até que as coisas se acalmem.

- A única pessoa aqui que tem direito a exigir um pouco de calma sou eu. Estou definhando desde ontem de manhã.

O pai tentou contemporizar, mas Ana Maria estava decidida. Tomou um banho, vestiu sua roupa e saiu. Sua caminhada pela cidade, no entanto, foi sofrível. Os lojistas não a atendiam, os ônibus não paravam para ela entrar, as pessoas com quem tentava falar a ignoravam e as igrejas fechavam as portas sempre que a avistavam. Os jovens saindo das escolas praguejavam contra ela e, entre as senhoras que se reuniam na praça no final da tarde, grassava um burburinho infernal sempre que ela passava.

Chegando em casa ao final do dia, Ana Maria foi recebida com desespero pela sua mãe:

- Minha filha! Onde esteve? Por onde andou? Estamos ligando no seu celular o dia todo.

- Desliguei meu celular, mãe. Não aguento mais tanta gente me importunando.

- Mas minha filha! Você já se expôs demais... Não pode continuar se expondo assim nas ruas. Precisa ficar aqui em casa, pelo menos até que tudo volte ao normal.

- Sua mãe e eu estamos tentando superar nossas diferenças para te ajudar, Ana Maria. Por favor, não dificulte.

- Eu não fiz nada do que deva me arrepender! E vocês, que deveriam querer apenas o meu melhor...

- Mas nós queremos – adiantou-se a mãe.

- ...vocês estão contra mim assim como todo o mundo. Eu não mereço isso, ninguém merece!

Antes que a mãe pudesse consolá-la, Ana Maria trancou-se em seu quarto. Teria sido má ideia sair de casa? Talvez. Talvez fosse melhor escutar seus pais e ficar reclusa até que a poeira abaixasse e os dedos julgadores também.

Os dias que se seguiram transcorreram calmamente. Ana Maria decidira permanecer encerrada em seu quarto. Não queria sair para ser exposta a novas humilhações. Seus pais e o irmão mais velho decidiram barrar qualquer nova tentativa da moça de sair. Fizeram até uma escala para que sempre houvesse, a qualquer hora do dia e da noite, alguém a guardar a porta. Mas como Ana Maria abandonara a ideia de sair, pouco trabalho tiveram.

Demorou um pouco até que a moça fosse lentamente readmitida nos demais cômodos da casa. Em algumas semanas ela até já estava comendo na sala, junto com o resto da família – exceto com o irmão caçula, que sempre era mandado para a casa de avós, tios ou amigos minutos antes de Ana Maria sair do quarto. Os pais não queriam correr o risco de expor o filho de apenas onze anos a influências perniciosas. Com alguns meses, Ana Maria já era readmitida até nas reuniões familiares, embora seu contato com os primos mais novos fosse interditado pelos motivos acima referidos. Além disso, apenas alguns dos familiares aceitavam a moça em suas casas. Havia tios e primos que nem com muita negociação cediam e raramente compareciam às reuniões em que Ana Maria estivesse presente.

Ana Maria também retomou sua rotina original de aulas na faculdade. O alvoroço inicialmente criado em torno da jovem foi rapidamente dissipado por medidas duras por parte do reitor. A jovem finalmente conseguiria voltar a estudar em paz. Especialmente agora que até seus amigos da faculdade a haviam abandonado, horrorizados que estavam com seu comportamento reprovável. Ela chegava sozinha, lanchava sozinha, estudava sozinha e ia embora sozinha. Sempre em paz. No estágio não foi muito diferente.

Demorou algum tempo até que o senhor que a auxiliava em seu processo fizesse nova aparição. Quando, em uma noite quente, ele finalmente reapareceu, foi apenas para sanar as dúvidas que a jovem ainda pudesse ter sobre o desenrolar do processo. Ana Maria aproveitou o ensejo para perguntar-lhe sobre suas penas, caso fosse condenada. O senhor riu:

- Penas? Que penas, Ana Maria?

- Caso eu realmente seja considerada culpada nesse processo... O que pode me acontecer?

- Você já é culpada, Ana Maria. Desde o começo, você sempre foi culpada. As leis da internet são muito mais dinâmicas e eficientes. É um mundo novo esse em que vivemos: as informações chegam mais rápido, os veredictos também. Da noite para o dia torna-se celebridade, e também da noite para o dia se é julgado. Ninguém mais tem tempo para longos processos que se arrastam por anos e anos. As pessoas querem conclusões rápidas. Quanto menos reflexão melhor. Roubou? Bandido. Fumou? Drogado. Transou? Puta. Filmou? Mais puta ainda.

- Mas isso é cruel!

- Cruel? Não conheço nada mais humano. Sua integridade física permanecerá inviolável. Todas essas pessoas continuarão a praguejar e maldizer seu nome, talvez por muitos e muitos anos ainda, mas nenhuma delas irá te tocar. Você não será presa, não sofrerá castigos físicos, não será torturada nem precisará enfrentar longas sessões judiciais. Há milhares de pessoas ao redor do mundo que já te condenaram, mas ainda assim você continuará livre, já que nenhuma dessas milhares de pessoas tem o poder de te colocar na prisão. A internet humanizou a justiça: tornou as coisas mais rápidas e menos doloridas. Num estado de barbárie, as desavenças são resolvidas em duelos ou emboscadas: quando você menos espera, alguém te mata. No Estado de direito, tais desavenças são solucionadas recorrendo-se a instâncias superiores e, caso seja julgado culpado, o réu é punido dentro dos limites da lei. Por fim, o mundo virtual é o coroamento do processo civilizador: não será morta, não será presa, não será agredida. Será apenas difamada nas redes sociais. Nada que te impeça de ir e vir.

- Mas... Mas e a minha defesa?!

- Sua defesa consiste em um bando de esnobes arrogantes que ninguém tem saco para ouvir, muito menos para ler.

- Ora essa! Mas e...?

- Agradeça por ter nascido nesses novos tempos, Ana Maria! Há algumas décadas atrás você certamente estaria em situação muito pior. Você foi condenada por um vasto tribunal por pessoas das mais diferentes classes, profissões, idades e origens, e ainda assim pode continuar frequentando suas aulas, estagiando, comendo fora e desfrutando da companhia de seus familiares sem sequer precisar de uma tornozeleira eletrônica. Ontem mesmo você esteve naquele jantar na sua avó. Quando, em toda a história da humanidade, se poderia imaginar uma coisa dessas?

- É claro que não preciso de uma tornozeleira eletrônica. Quem precisa de uma tornozeleira eletrônica quando se tem milhares de grandes irmãos espalhados por aí pra me monitorar, não é mesmo?

A jovem pronunciou essas últimas palavras num tom de voz tão seguro de si que o senhor, pela primeira vez desde o início de seus encontros, dera mostras de estar acuado. Tanto que apenas limitou-se a dizer:

- Meu trabalho termina aqui. Como já lhe disse: não estou aqui para proteger ou para condenar, apenas para esclarecer.

Ana Maria teve repulsa. Apesar de nunca ter simpatizado com a figura daquele senhor, pela primeira vez sentia ânsia de agredi-lo, espancá-lo, talvez até de esfaqueá-lo. Caiu desolada em sua cama e cerrou os olhos de exaustão – tempo suficiente para que o senhor desaparecesse. Ao sair de seu quarto para tomar uma água e se acalmar, deu com seus primos e o irmão menor brincando na sala. Seu tio também estava lá. Ao ver a jovem, interrompeu a leitura de seu jornal e orientou os filhos e sobrinhos:

- Já para o quarto!

Como as crianças não demonstrassem interesse de sair, essa ordem foi reafirmada com ainda mais vigor mais duas ou três vezes, até que todos se fossem e a sala se esvaziasse, restando apenas Ana Maria e seu tio, que disse:

- Nós já temos a solução.

- Para o que?

- Para você.

- Problemas precisam de solução. Não sou um problema.

O tio ignorou esta última frase e prosseguiu com seriedade:

- Você vai para a casa do meu primo no interior, onde a internet ainda é pouco difundida e lenta e as pessoas provavelmente ainda nem sabem das suas aventuras.

- Aqui eu tenho estudos, tenho estágio, tenho amigos.

- Lá vai poder trabalhar e continuar seu curso à distância. Eu e sua mãe já acertamos todos esses detalhes. No seu novo emprego vai ganhar um salário ainda melhor que o de estagiário, com a diferença de que estará vivendo em uma localidade com custo de vida muito menor.

Ana Maria ouvia o tio atentamente, mas balançava a cabeça num sinal de desdém.

- Quanto aos seus amigos, sejamos realistas. Esses te abandonaram há muito tempo. Já dizem por aí que ninguém mais fala com você na faculdade nem...

- Vocês também estão me abandonando!

- Queremos o seu melhor, minha filha! – adiantou-se a mãe, que até então observava tudo de seu quarto em silêncio.

- Eu não quero, eu não vou a lugar algum! Condenam-me por um crime que nunca cometi. Não sentem vergonha de si mesmos?

- Você vai sim – interrompeu o pai, que apareceu atrás de Ana Maria. Conforme seu tio disse, já está tudo organizado. O caminhão de mudanças chega amanhã pela manhã. Peço mais uma vez sua compreensão, Ana Maria. É tudo sempre pelo seu bem.

A jovem entrara em desespero. Olhava para seu tio sério, para sua mãe aflita, para seu pai decidido. Não via um aliado em nenhum deles. Não podia contar com ninguém ali. Foi quando avistou o irmão mais velho a retirar as coisas do quarto dela e colocá-las próximas à porta.

- O que está fazendo?! – berrou a jovem.

- Não precisa me ajudar. Eu me encarrego de tudo. Apenas sente-se e descanse. O jantar já vai ser servido.

Sua mãe tentou conduzi-la para a poltrona, mas a jovem resistiu:

- Não! Vou embora. Não mereço isso... Nunca mereci.

Tentou desesperadamente abrir a porta, mas estava trancada e com uma fechadura nova. Saiu então pela porta dos fundos, na cozinha, aos berros do pai que ordenava seu retorno, da mãe que clamava aos céus e do tio, que apenas dizia: “Deixa-a ir, logo mais ela volta!”.

Entre exilar-se por um crime que nunca cometeu e sair pelo mundo sem rumo, Ana Maria fez sua escolha. Saiu correndo na noite mal iluminada pelas luzes dos bordéis que se proliferavam e pelos cigarros acesos dos pais de família que os frequentavam. Nunca mais foi vista por aquelas bandas. A família nutria esperanças de que voltasse após alguns meses, mas ela nunca voltou. A diretoria do lugar em que a jovem estagiava mandou vários e-mails ameaçando desliga-la caso ela não retornasse às atividades imediatamente. Seu chefe demonstrava solidariedade e dizia que o comportamento abusivo da moça não iria interferir na relação entre ela e a empresa, que era estritamente profissional. Ao mesmo tempo, porém, instou-a a apressar-se porque eles dependiam muito do trabalho dela. Na faculdade se deu coisa semelhante. À medida que os meses passavam e ela não comparecia às aulas, ia sendo sumariamente reprovada, até chegar o momento em que foi reprovada por falta em todas as seis disciplinas. A faculdade também lhe enviou um e-mail para comunicá-la. No celular de Ana Maria, que caíra no meio da rua enquanto a jovem fugia, esses e-mails eram apenas algumas poucas notificações entre centenas de outras a assediá-la e a reprová-la por mais essa atitude lamentável de abandonar sua família.

Decorridos seis meses de sua fuga, o quarto de Ana Maria foi transformado em quarto de despejo pelo pai, que voltara a morar com a mãe, embora ainda oficialmente divorciados. Na família, as coisas foram progressivamente voltando ao normal, até que já não mais se tocasse no assunto nem mesmo em conversas mais reservadas. Um ano e dois meses após o vazamento do vídeo de Ana Maria, outra menina da cidade foi flagrada em vídeo cometendo crime semelhante. Era o suficiente para que Ana Maria fosse esquecida de vez e sua família voltasse a ter a paz que tanto almejara.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Passeando por Belo Horizonte em uma tarde esturricante do penúltimo domingo de setembro de 2012

Cidade planejada de republicanos sonhos
Que a Monarquia sepultaram em cova rasa
Como o atestam os olhares tristonhos
Do busto de Pedro diante da Casa

Da tarde, quase uma hora
Raios fortes sobre o asfalto
O sol a pino chora
E do desencanto vira arauto

Quente, muito quente
Brasa, cinzeiro, lava
Chamusca o sol no horizonte
Secura, cansaço, falta d’água

Despede-te de tuas quimeras, rapaz!
Foram-se todas embora
A neve, que em nossa janela caía assaz
Amacia lábios que te bendisseram outrora

E aqui o cerrado

Como Roma na Europa de Dante
Como Moscou nos anos 50
O palácio do Azul Mirante
É aquele que te orienta

Não sonhe, não ouse, não voe
Sem antes consultar o Azul Mirante
Não sorria, não ame, não louve
Sem ordens do palácio distante

A tarde segue incessante, traiçoeira
Chicote de fogo a nos queimar a rabeira
É a hora terceira, o relógio anuncia
Triunfa a barbárie! O amor silencia

Calçada quebrada, rachada de sol
Asfalto impávido, bonito e formoso
Cai sobre os carros macio lençol
E sobre os pedestres, roldão furioso

Edifícios, concreto, vidro espelhado
Refletem a imagem de moça e curral
Quem ousa espiar fica envergonhado
Pois vê apenas sua cara de pau

Um shopping center desponta ao longe

Oásis de ar-condicionado
Miríade de sonhos e oportunidades em aberto
Alívio imediato a quem vem cansado
Triste cilada a quem se sente incompleto

Non plus ultra, fim da História
Não há mais para onde ir
Só no Mirante Azul há vitória
Sê sempre fiel, sem transgredir

Já passa das quatro

Grito! Ouço um grito... Sarcástico e irônico
Berros de arranhar a garganta
Olhar tímido, medo crônico
Tomba-me a cabeça, não mais se levanta

Erguida em nome da res publica
Que o Império abalou de um golpe certeiro
De Cícero a Franklin se lamenta e suplica
Pois aqui a Ideia encontrou seu coveiro.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A Saga de N. - IV

N. não criara o mundo, já o recebera assim.

Repetia sempre para si mesmo esse mantra em voz baixa o jovem mestrando em História. Também não fora ele quem criara as regras do jogo: apenas jogava em conformidade com elas, sem se perguntar se eram moralmente aceitáveis ou não.

Era o que a vida lhe ensinara.

No secundário, não adiantava criticar o vestibular: primeiro seja aprovado, depois reclame dos processos seletivos e faça alguma coisa para mudá-los. Na vida acadêmica não é muito diferente: primeiro tire seu mestrado, doutorado, pós-doutorado, publique artigos e livros a rodo, apareça bastante na TV e depois, do alto de sua erudição, afirme que é preciso mudar a academia. Você não vai conseguir mudar nada, mas pelo menos as pessoas vão te ouvir.

Por isso N. já se armara desde os primeiros anos de sua graduação: iniciação científica, apresentação de trabalhos, publicação em anais, publicação em revistas, mais iniciações científicas, mais apresentações de trabalhos, mais publicações em anais e em revistas. Sua aprovação no mestrado veio quase que naturalmente, para a surpresa de ninguém, exceto para a sua própria, que esperava uma colocação melhor no processo seletivo.

Mas o que mais enchia N. de orgulho era sua publicação – única, até então – em uma revista de Qualis A2. Publicar em revista A2 era atingir quase o topo da escala evolutiva na produção acadêmica, era beirar o ápice da cadeia alimentar intelectual e chegar bem perto do ponto culminante das letras universitárias. No dia em que N. viu seu artigo publicado na referida revista, sua vida nunca mais foi a mesma. Mudou para melhor.

Não era mais um reles autor de revistas Qualis B ou C. Não! Livrara-se daquela mediocridade. Escapara daquele humilhante calabouço. Ascendera, voara voos mais altos, subira a cumes mais íngremes. Não chegara ao topo, mas bem perto. Vislumbrava, lá de longe – mas não tão de longe quanto antes – o suprassumo da excelência acadêmica: "A1, A1, A1!" - como diriam os espartanos do filme "300"! "A1, A1, A1!", ladravam os cães, a celebrar prematuramente seu triunfo próximo.

A academia era implacável. Por isso era preciso estar sempre à frente. E era com esse pensamento que ia dormir todas as noites: sempre à frente, sempre à frente. Se isso era uma forma saudável de agir, pouco importava. Não criara o mundo: já o recebera assim.

Sua família pequeno-burguesa vivia a alertá-lo:

- Olha lá o seu primo, ganha 8 mil por mês e só tem o ensino médio.

- Olha lá o seu amigo, passou num concurso e ganha 10 mil por mês sem trabalhar quase nada.

- Olha lá o seu irmão, vai passar no concurso pra oficial de justiça e vai ganhar 12 mil por mês.

- Olha lá sua madrasta, fez uma faculdade de moda de apenas dois anos e tá viajando a Europa inteira.

- Olha lá o seu Clodoaldo da farmácia, entrou pra política e já tem três carros importados.

Mas era tudo inútil. N. simplesmente não conseguia mirar-se nos grandes exemplos ao seu redor.

N. carregava um tipo bastante especial de fardo: era o fardo da escolha equivocada. Como errara na hora de escolher seu curso, ou ele dava a volta por cima e mostrava a todos que também poderia “ser alguém na vida”, ou dava o braço a torcer, tornando-se o protagonista de uma crônica de uma morte anunciada, de uma self-fulfilling prophecy.

Por isso era preciso estar sempre à frente. Chegaria um dia o concurso para docente superior, e para não se curvar ainda mais ante à dor do fardo, necessário era estar sempre à frente. Muito à frente. Por isso sua publicação A2 o enchia de orgulho.

Triste foi o dia em que, num momento de ócio, sem muito o que fazer, ao passar os olhos pelo relatório da Capes descompromissado, N. constatara de forma aterradora que não havia A2, que na realidade a revista que publicara seu artigo era, desgraçadamente... B4!

N. demorou a processar aquela informação. Como poderia ser? Certificara-se bem, antes de submeter seu artigo, da avaliação do periódico. Não, não podia ser! Ou podia? Podia ser que a Capes tivesse reduzido a nota do periódico. Acontece sempre nos mais diversos contextos. Há poucos meses mesmo o Brasil tivera sua nota rebaixada pelas agências de risco, de BAA2 para BAA3, tornando-se assim um mau pagador. A presidente e sua equipe econômica correram atordoados à mídia a dar explicações. N. temia ter que fazer o mesmo. Mas a quem daria explicações? E por que meios? Qual canal de rádio ou TV abriria 10, 5, 2 minutos de sua programação que fossem, a fim de que N. pudesse se explicar?

Mas podia ser que a nota da Capes não tivesse nada a ver com isso. Podia ser que N. tivesse se confundido ao mandar seu trabalho. Com tantos nomes parecidos, não era de se surpreender.

Ele pode ter enviado seu artigo para a “Temporalidades Históricas”, quando na verdade a revista A2 era a “Historialidades Temporais”. Ou pode ter enviado para a “História Temporal”, quando na verdade deveria ter enviado para a “Temporal Histórico”. Ou ainda, era bastante provável que tivesse submetido seu precioso artigo à “Tempo da História” pensando estar submetendo-o à “História do Tempo”. Mas o mais provável é que tenha confundido a “História e Tempo” com a “Tempo e História”.

B4, B4... Desgraçadamente B4! De um sopro, N. regredira à escória da cadeia produtiva.

Não conseguia mais se olhar no espelho, pois tudo o que via era um acadêmico B4. Já não se achava mais no direito de desfrutar das companhias costumeiras. Estas, que há até bem pouco tempo pensariam ter um neto, filho, sobrinho, irmão, primo, amigo, colega, conhecido ou ficante A2, agora nada mais tinham do que um neto, filho, sobrinho, irmão, primo, amigo, colega, conhecido ou ficante B4. Como se explicaria para tanta gente?!

O fardo da escolha equivocada foi se tornando cada vez mais irresistível para N.. Cada vez que abria a planilha com as notas da Capes e via aquele B4, aquele maldito B4, tão despretensioso e insignificante em fonte Arial tamanho 10, totalmente ignorante da aflição que causava, N. tinha espasmos de tristeza e raiva.

O primo com seus 8 mil, o amigo com seus 10 mil, o irmão com seus 12 mil, a madrasta na Europa, o Clodoaldo com seus carros importados... Tantos bens e cifras giravam na mente do jovem acadêmico, imprimindo-lhe um misto de vertigem e delírio: “Malditos! Malditos sejam todos! Ao inferno com essa gente! Ao inferno com seu dinheiro, seus carros e suas viagens! Ao inferno!”.

8 mil... 10 mil... 12 mil... Europa... carros... E N. com seu humilde B4. Um simples A2 no Lattes já não significava muito diante de 30 mil, viagens à Europa e carros importados. B4 menos ainda. E era o máximo que ele tinha a oferecer.

Já não estava tão à frente como antes. Nunca estivera, na verdade.

Chegara ao seu prédio estupefato ao fim daquele dia. Pegou o elevador até o oitavo andar. A partir dali seguiria de escada. Já não ouvia mais o grito dos espartanos nem o ladrar dos cães. Só o que ouvia era uma inocente canção que seu cérebro compusera quase que espontaneamente durante seu martírio, baseada em uma antiga melodia:

Não era A2...
Não era!
Não era A2 era...
B4, B4, B4.

Pensou em deixar um bilhete de despedida, mas desistiu. Se não era digno de uma revista A2, não queria mais escrever. Ao saltar do terraço do prédio percebeu o quanto não estava preparado para aquilo. Seu estômago trincou, sua garganta secou repentinamente e seu coração levou um choque, fazendo-o vir a óbito segundos antes de se esborrachar no chão. Sempre à frente, como sempre.

Sua morte foi anunciada no obituário do jornal no caderno A, página 2, mas seu corpo permanece sepultado na quadra B, lápide 4 do cemitério local.