N. não criara o mundo, já o recebera assim.
Repetia sempre para si mesmo esse mantra em voz baixa o jovem mestrando em História. Também não fora ele quem criara as regras do jogo: apenas jogava em conformidade com elas, sem se perguntar se eram moralmente aceitáveis ou não.
Era o que a vida lhe ensinara.
No secundário, não adiantava criticar o vestibular: primeiro seja aprovado, depois reclame dos processos seletivos e faça alguma coisa para mudá-los. Na vida acadêmica não é muito diferente: primeiro tire seu mestrado, doutorado, pós-doutorado, publique artigos e livros a rodo, apareça bastante na TV e depois, do alto de sua erudição, afirme que é preciso mudar a academia. Você não vai conseguir mudar nada, mas pelo menos as pessoas vão te ouvir.
Por isso N. já se armara desde os primeiros anos de sua graduação: iniciação científica, apresentação de trabalhos, publicação em anais, publicação em revistas, mais iniciações científicas, mais apresentações de trabalhos, mais publicações em anais e em revistas. Sua aprovação no mestrado veio quase que naturalmente, para a surpresa de ninguém, exceto para a sua própria, que esperava uma colocação melhor no processo seletivo.
Mas o que mais enchia N. de orgulho era sua publicação – única, até então – em uma revista de Qualis A2. Publicar em revista A2 era atingir quase o topo da escala evolutiva na produção acadêmica, era beirar o ápice da cadeia alimentar intelectual e chegar bem perto do ponto culminante das letras universitárias. No dia em que N. viu seu artigo publicado na referida revista, sua vida nunca mais foi a mesma. Mudou para melhor.
Não era mais um reles autor de revistas Qualis B ou C. Não! Livrara-se daquela mediocridade. Escapara daquele humilhante calabouço. Ascendera, voara voos mais altos, subira a cumes mais íngremes. Não chegara ao topo, mas bem perto. Vislumbrava, lá de longe – mas não tão de longe quanto antes – o suprassumo da excelência acadêmica: "A1, A1, A1!" - como diriam os espartanos do filme "300"! "A1, A1, A1!", ladravam os cães, a celebrar prematuramente seu triunfo próximo.
A academia era implacável. Por isso era preciso estar sempre à frente. E era com esse pensamento que ia dormir todas as noites: sempre à frente, sempre à frente. Se isso era uma forma saudável de agir, pouco importava. Não criara o mundo: já o recebera assim.
Sua família pequeno-burguesa vivia a alertá-lo:
- Olha lá o seu primo, ganha 8 mil por mês e só tem o ensino médio.
- Olha lá o seu amigo, passou num concurso e ganha 10 mil por mês sem trabalhar quase nada.
- Olha lá o seu irmão, vai passar no concurso pra oficial de justiça e vai ganhar 12 mil por mês.
- Olha lá sua madrasta, fez uma faculdade de moda de apenas dois anos e tá viajando a Europa inteira.
- Olha lá o seu Clodoaldo da farmácia, entrou pra política e já tem três carros importados.
Mas era tudo inútil. N. simplesmente não conseguia mirar-se nos grandes exemplos ao seu redor.
N. carregava um tipo bastante especial de fardo: era o fardo da escolha equivocada. Como errara na hora de escolher seu curso, ou ele dava a volta por cima e mostrava a todos que também poderia “ser alguém na vida”, ou dava o braço a torcer, tornando-se o protagonista de uma crônica de uma morte anunciada, de uma self-fulfilling prophecy.
Por isso era preciso estar sempre à frente. Chegaria um dia o concurso para docente superior, e para não se curvar ainda mais ante à dor do fardo, necessário era estar sempre à frente. Muito à frente. Por isso sua publicação A2 o enchia de orgulho.
Triste foi o dia em que, num momento de ócio, sem muito o que fazer, ao passar os olhos pelo relatório da Capes descompromissado, N. constatara de forma aterradora que não havia A2, que na realidade a revista que publicara seu artigo era, desgraçadamente... B4!
N. demorou a processar aquela informação. Como poderia ser? Certificara-se bem, antes de submeter seu artigo, da avaliação do periódico. Não, não podia ser! Ou podia? Podia ser que a Capes tivesse reduzido a nota do periódico. Acontece sempre nos mais diversos contextos. Há poucos meses mesmo o Brasil tivera sua nota rebaixada pelas agências de risco, de BAA2 para BAA3, tornando-se assim um mau pagador. A presidente e sua equipe econômica correram atordoados à mídia a dar explicações. N. temia ter que fazer o mesmo. Mas a quem daria explicações? E por que meios? Qual canal de rádio ou TV abriria 10, 5, 2 minutos de sua programação que fossem, a fim de que N. pudesse se explicar?
Mas podia ser que a nota da Capes não tivesse nada a ver com isso. Podia ser que N. tivesse se confundido ao mandar seu trabalho. Com tantos nomes parecidos, não era de se surpreender.
Ele pode ter enviado seu artigo para a “Temporalidades Históricas”, quando na verdade a revista A2 era a “Historialidades Temporais”. Ou pode ter enviado para a “História Temporal”, quando na verdade deveria ter enviado para a “Temporal Histórico”. Ou ainda, era bastante provável que tivesse submetido seu precioso artigo à “Tempo da História” pensando estar submetendo-o à “História do Tempo”. Mas o mais provável é que tenha confundido a “História e Tempo” com a “Tempo e História”.
B4, B4... Desgraçadamente B4! De um sopro, N. regredira à escória da cadeia produtiva.
Não conseguia mais se olhar no espelho, pois tudo o que via era um acadêmico B4. Já não se achava mais no direito de desfrutar das companhias costumeiras. Estas, que há até bem pouco tempo pensariam ter um neto, filho, sobrinho, irmão, primo, amigo, colega, conhecido ou ficante A2, agora nada mais tinham do que um neto, filho, sobrinho, irmão, primo, amigo, colega, conhecido ou ficante B4. Como se explicaria para tanta gente?!
O fardo da escolha equivocada foi se tornando cada vez mais irresistível para N.. Cada vez que abria a planilha com as notas da Capes e via aquele B4, aquele maldito B4, tão despretensioso e insignificante em fonte Arial tamanho 10, totalmente ignorante da aflição que causava, N. tinha espasmos de tristeza e raiva.
O primo com seus 8 mil, o amigo com seus 10 mil, o irmão com seus 12 mil, a madrasta na Europa, o Clodoaldo com seus carros importados... Tantos bens e cifras giravam na mente do jovem acadêmico, imprimindo-lhe um misto de vertigem e delírio: “Malditos! Malditos sejam todos! Ao inferno com essa gente! Ao inferno com seu dinheiro, seus carros e suas viagens! Ao inferno!”.
8 mil... 10 mil... 12 mil... Europa... carros... E N. com seu humilde B4. Um simples A2 no Lattes já não significava muito diante de 30 mil, viagens à Europa e carros importados. B4 menos ainda. E era o máximo que ele tinha a oferecer.
Já não estava tão à frente como antes. Nunca estivera, na verdade.
Chegara ao seu prédio estupefato ao fim daquele dia. Pegou o elevador até o oitavo andar. A partir dali seguiria de escada. Já não ouvia mais o grito dos espartanos nem o ladrar dos cães. Só o que ouvia era uma inocente canção que seu cérebro compusera quase que espontaneamente durante seu martírio, baseada em uma antiga melodia:
Não era A2...
Não era!
Não era A2 era...
B4, B4, B4.
Pensou em deixar um bilhete de despedida, mas desistiu. Se não era digno de uma revista A2, não queria mais escrever. Ao saltar do terraço do prédio percebeu o quanto não estava preparado para aquilo. Seu estômago trincou, sua garganta secou repentinamente e seu coração levou um choque, fazendo-o vir a óbito segundos antes de se esborrachar no chão. Sempre à frente, como sempre.
Sua morte foi anunciada no obituário do jornal no caderno A, página 2, mas seu corpo permanece sepultado na quadra B, lápide 4 do cemitério local.
"Quem quiser fale mal da literatura. Quanto a mim, direi que devo a ela minha salvação. Venho da rua oprimido, escrevo dez linhas, torno-me olímpico" (Cyro dos Anjos, "O amanuense Belmiro", 1937).
Visualizações de página do mês passado
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
segunda-feira, 20 de abril de 2015
A heroica saga do professor Cidinho
Acordara atônito o professor Alcides naquela quente manhã – quase tarde – de domingo. Procurou ao redor para descobrir o motivo de tamanha angústia, mas tudo o que achou foi sua aluna deitada no outro lado da cama. Não, não era ela o motivo. Já fornicara com outras alunas antes – o número a perder de vista – e nunca se abalara com isso. Outra coisa estava deixando incomodado o quase sempre seguro e autoconfiante professor do melhor cursinho pré-vestibular de Belo Horizonte.
Com o sol a maltratar seu jovem rosto, as cortinas a balançarem sob efeito do tímido vento que entrava pelo quarto, Cidinho (como era carinhosamente chamado pelos alunos) pôs-se a refletir sobre os eventos da noite passada. Era mais uma das muitas festas que seus alunos haviam dado, convidando o simpático professor. Lembrava-se das alunas que beijara na noite, mas não se lembrava exatamente de qual havia levado para cama.
Cidinho voltou para casa a fim de se recompor e passou o resto do dia deliciando-se com as fotos da festa, especialmente com aquelas nas quais havia sido marcado. Apesar de visivelmente bêbado, não perdia a pose. Ao menos não diante de suas alunas, que rasgavam elogios ao querido professor comentários afora. Nada melhor que um professor carismático, jovial e cheio de si para aliviar os corações e mentes de jovens adolescentes do fardo da pressão de passar nos cursos mais concorridos do país, preservando assim o orgulho de suas famílias e perpetuando a fama de seu cursinho.
Cidinho sabe que dará aula na manhã seguinte, mas aquilo não o abala. Preparar aulas é pra perdedores. Foi essa autoconfiança que o levou até onde está agora. Afinal de contas, até que fazer uma licenciatura não foi tão ruim como ele temia, lá no início de sua vida universitária, ainda sob o influxo de seus fracassos nos vestibulares para medicina e engenharia. Apesar de detestar estudar, de não ter paciência para livros e de não gostar de sala de aula, Cidinho apelou a seus contatos e terminou como uma das grandes atrações do cursinho mais glamouroso da capital mineira. A caminhada para o estrelato foi árdua, incerta, mas valeu a pena. E isso nosso querido professor comprova todos os dias ao fim de cada aula. Raras são as vezes em que não sai de sala cercado por uma turba de alunos e alunas: alguns elogiando-o por seu desempenho na última festa, outros tantos convidando-o para a próxima.
Quando o Audi A3 prata desponta na garagem do cursinho, até o mais desavisado aluno já sabe: é o professor Cidinho chegando. Abaixa os vidros escuros do carro a fim de ver e retribuir os acenos dos alunos admirados e das alunas aficionadas, mas não sem antes aumentar o volume do som, potencializando assim seu triunfo. Instantaneamente todos abrem espaço para o professor passar. Alguns quase se curvam, e a maioria comenta:
- Tá de carro novo – comenta um.
- Não, ele tem dois – emenda o outro.
- A camisa polo dele é nova – repara ainda uma outra.
- Sim, mas essa verde é feia. Preferia aquela lilás, lembra? – responde a amiga.
- Não combina com o cabelo dele.
- Mas combina com o Rolex.
É assim todos os dias da semana em que Cidinho leciona. Chega, bonapartísticamente, passando em revista seus súditos do alto de sua carruagem e reafirmando sua supremacia. Tambores rufando, lágrimas de emoção, tiros ao alto, em uma encenação que faria marejar de inveja o mais poderoso monarca prussiano.
Sua chegada não é uma rotina: é um marco. Não há quem não tenha visto, não há quem não se admire.
Mas o dia começou mal para nosso professor. O funcionário da limpeza o cumprimenta com um triste desdém:
- Bom dia, professor!
- “Bom dia, professor?”. Sou autoridade aqui... Estudei 4 anos à toa não, ouviu?
- Pe... perdoa-me o professor – responde o funcionário encabulado. Desejo um bom dia à sua digníssima pessoa!
Mas o apressado professor mal ouve a última frase e as portas do elevador se fecham, levando-o até o andar ordenado e separando-o do pobre faxineiro.
É a hora do intervalo, os corredores estão apinhados de alunos e funcionários, mas todos os caminhos se abrem ao nobre professor. Destemido, intrépido, autoconfiante, do alto do seu ego ele cavalga todo o longo caminho até a sala, não sem antes travar breves conversas com alguns de seus alunos mais próximos. Provoca os primeiros por causa da derrota do time deles para seu time no último clássico. Escarnece dos segundos por conta do vexame na festa de sábado à noite. Aos terceiros lança olhares maliciosos: são as alunas que ele planeja abocanhar na próxima festa.
Quebrando à direita, quase não percebe a aluna com quem fornicou no mês passado e vai logo confabular com um grupo de oito rapazes que conversam em tom descontraído próximo à escada. O professor Cidinho ouve as aventuras de cada um no fim de semana – eles estavam em outra festa. Entre uma e outra história, Cidinho gaba-se de fazer mais sucesso entre suas colegas do que eles próprios. Os alunos discordam da boca pra fora, mas Cidinho sabe que, lá no fundo, todos se curvam diante de sua majestade.
Triunfa mais uma vez o professor Cidinho!
No dia seguinte, repete-se o triunfal ritual de Cidinho em seu carro.
- Ele me adicionou no Face! – se empolga uma aluna.
- Ele curtiu uma foto minha – responde a outra.
- Ele já pegou uma amiga minha – acrescenta mais outro.
- Aquela que dá no primeiro encontro?
- Não, essa foi o professor de inglês.
Mas repete-se também a triste cena do funcionário da limpeza desavisado. Dessa vez, o audacioso faxineiro quase não nota a presença do professor, resumindo-se a um tímido e breve “oi”.
- Como é?! – pergunta o professor, atordoado.
- Ah, não, nossa...! É o senhor...?
- E quem mais?
- Vossa reverendíssima me perdoe a displicência. Não notei...
- O cursinho inteiro notou!
- Não, nossa... Veja que... bem... Sua reverendíssima senhoria me desculpe a falta de atenção. Desejo um ótimo dia de trabalho, com muita felicidade e prosperidade a sua magnificência e...
Fecham-se as portas do elevador antes que Cidinho ouça o resto. As aulas transcorrem normalmente. Ao chegar em casa à tarde, Cidinho se dedica à segunda parte de seu trabalho: ajudar a fazer o material didático do cursinho. Isso mesmo: Cidinho não se contenta em ser um excelente professor. Ele também dá a sua contribuição na elaboração do texto da apostila. Cidinho nunca gasta mais de uma hora e meia nessa tarefa. Algumas questões rapidamente formuladas da sua cabeça, alguns textos copiados e colados da internet e outras tantas questões copiadas e levemente modificadas e pronto: Cidinho termina seu trabalho. O resto já não é mais com ele. Dá até tempo de abrir uma cerveja e ir para o Facebook postar fotos de sua última viagem ao Peru e Equador.
- Lindoooooooo, profe! – é o primeiro comentário.
- Ameeeei! – lê-se no segundo.
- Aiiii... Qdo cresce qro ser q nem vc prof... conhecer o mundo!!! Que tudo! – proclama o terceiro. E assim vai.
Em menos de cinco minutos seus álbuns de viagem já possuem enxurradas de curtidas e comentários de alunos e alunas. Cidinho tem 1631 amigos no Facebook, mais do que qualquer outro professor do cursinho. A maioria são alunos do cursinho e das aulas particulares. Cidinho tenta se fazer sempre presente na vida de todos eles, mesmo à distância. É por isso que ele não passa um dia sem atualizar seu perfil, seja com uma foto de sua mais recente viagem – Cidinho já conheceu 31 países –, seja apenas de uma garrafinha de cerveja que ele resolveu abrir ali para se distrair após um dia atarefado. Jovem e solteiro, o professor Cidinho atrai a reverência da imensa maioria de suas alunas e ex-alunas. Raríssimas vezes suas postagens possuem menos de 50 curtidas.
Na quarta-feira, Cidinho só dá aula mais tarde. Graças a esse feliz destino, ele evita o desprazer de se encontrar novamente com o faxineiro mal-educado. No elevador, vê um grupo de monitores a quem cumprimenta com o desdém que sua potestade lhe autoriza. No caminho para a sala dos professores, porém, tromba com o infeliz faxineiro. Já mais preparado, o faxineiro pronuncia:
- Bom dia, excelentíssima magnificência!
- Estamos melhorando.
- Às ordens! – diz o funcionário, com um misto de embaraço e alívio.
Após confabular com seus colegas professores, vai ter com um grupo de alunos. Mais conversas, mais piadas, mais triunfos a exaltar: de seu time e de si próprio. Os alunos ponderam se Cidinho já se relacionou com mais meninas daquela sala do que todos juntos, ao que o nobre soberano replica que obviamente sim. Abstém-se, contudo, de citar nomes – talvez porque não se lembrará de todos, talvez porque três ou quatro delas são namoradas de meninos que ali estão. Diante da negativa em fornecer os nomes, os alunos duvidam do professor. Mas Cidinho não se abala. É confiante demais para cair nas maquinações de meros adolescentes.
Ao dirigir-se a seu Audi A3, novo encontro com o funcionário da limpeza:
- Vossa sumo reverendíssima supra-sacro-santíssima bem-aventurada a suma magnificência de vossa magna potestade!
- (...).
Na quinta Cidinho não dá aula. Terá tempo de sobra para fazer e enviar as questões do próximo simulado. Finalmente Cidinho se lembrou por que acordou tão atordoado no domingo anterior! Que bobagem. Elaborar questões só leva um segundo. Tão logo termina seu trabalho, envia as questões à editora. Antes, porém, telefona ao seu colega, coordenador da área, a fim de assegurar que todas as suas questões serão escolhidas para o próximo simulado. Cidinho precisa daquele dinheiro para ajudar a terminar de pagar sua última viagem.
Sexta-feira a chegada de Cidinho é mais triunfal do que de costume – afinal de contas, sexta é quando ele sai para beber com os alunos após as aulas do turno da tarde. Mas o encontro com o faxineiro é o mesmo:
- Vossa sumo reverendíssima magnificente sacro-santíssima, ultra-potentíssima e sumo digníssima excelentíssima majestadíssima!
Como é sexta-feira e o professor está de bom-humor, ele responde:
- Bom dia!
No corredor, alguns alunos revisam a matéria para um vestibular que está próximo:
- Isso aqui no livro tá errado – observa um.
- Como sabe? – questiona o outro.
- O Cidinho não ensinou assim – emenda um terceiro.
- Mas o Fausto sim! – responde o segundo.
- Confio mais no Cidinho – intervém ainda outro.
- E por que?!
- Porque é o Cidinho, ué! O Fausto tá aqui há menos tempo.
- É... é verdade – concluem todos, quase em uníssono, dando ganho de causa ao glorioso... Que aparece logo em seguida:
- Bom dia, galera!
- Bom dia, professor! – novamente em uníssono.
- Já tá sabendo da festa amanhã?
- E a de domingo?
- E a de hoje?
- E a do mês que vem?
- E a da Aninha?
- Você vai?
- Não vai?
- Por que?
- Sério?
- Qual?
- Que horas?
- Com o Audi ou o Toyota?
- Comprou outro?
- Qual?
- Hidráulica? Automático?
- Prata...? Branco...? Vermelho...?
- Vermelho é de viado, hein!
- Prata?
- Meu pai tem um.
- Meu pai vai me dar se eu passar no vestibular.
As aulas de sexta transcorrem normalmente. Cidinho encena situações para explicar a matéria, faz teatrinhos, leva músicas, dança, canta, sobe na cadeira, interage com os alunos que filmam e tiram fotos de tudo. E nesse show business nosso professor vai se projetando no imaginário de todos os alunos da região.
Terminadas as aulas, como prometido, sai para beber com os alunos. Não pode se demorar, porém, pois tem uma festa às 23h – na qual também não poderá se demorar, pois no sábado marcou almoço com uma aluna e pretende chegar apresentável.
- Já vai, professor?
- Cedo!
- Não aguenta bebe cum nóis!
- Aguenta!
- Sim?
- Não!
- Mas já?
- Onde?
- Me dá carona?
- Perto da sua casa!
- Domingo? Claro!
Com o sol a maltratar seu jovem rosto, as cortinas a balançarem sob efeito do tímido vento que entrava pelo quarto, Cidinho (como era carinhosamente chamado pelos alunos) pôs-se a refletir sobre os eventos da noite passada. Era mais uma das muitas festas que seus alunos haviam dado, convidando o simpático professor. Lembrava-se das alunas que beijara na noite, mas não se lembrava exatamente de qual havia levado para cama.
Cidinho voltou para casa a fim de se recompor e passou o resto do dia deliciando-se com as fotos da festa, especialmente com aquelas nas quais havia sido marcado. Apesar de visivelmente bêbado, não perdia a pose. Ao menos não diante de suas alunas, que rasgavam elogios ao querido professor comentários afora. Nada melhor que um professor carismático, jovial e cheio de si para aliviar os corações e mentes de jovens adolescentes do fardo da pressão de passar nos cursos mais concorridos do país, preservando assim o orgulho de suas famílias e perpetuando a fama de seu cursinho.
Cidinho sabe que dará aula na manhã seguinte, mas aquilo não o abala. Preparar aulas é pra perdedores. Foi essa autoconfiança que o levou até onde está agora. Afinal de contas, até que fazer uma licenciatura não foi tão ruim como ele temia, lá no início de sua vida universitária, ainda sob o influxo de seus fracassos nos vestibulares para medicina e engenharia. Apesar de detestar estudar, de não ter paciência para livros e de não gostar de sala de aula, Cidinho apelou a seus contatos e terminou como uma das grandes atrações do cursinho mais glamouroso da capital mineira. A caminhada para o estrelato foi árdua, incerta, mas valeu a pena. E isso nosso querido professor comprova todos os dias ao fim de cada aula. Raras são as vezes em que não sai de sala cercado por uma turba de alunos e alunas: alguns elogiando-o por seu desempenho na última festa, outros tantos convidando-o para a próxima.
Quando o Audi A3 prata desponta na garagem do cursinho, até o mais desavisado aluno já sabe: é o professor Cidinho chegando. Abaixa os vidros escuros do carro a fim de ver e retribuir os acenos dos alunos admirados e das alunas aficionadas, mas não sem antes aumentar o volume do som, potencializando assim seu triunfo. Instantaneamente todos abrem espaço para o professor passar. Alguns quase se curvam, e a maioria comenta:
- Tá de carro novo – comenta um.
- Não, ele tem dois – emenda o outro.
- A camisa polo dele é nova – repara ainda uma outra.
- Sim, mas essa verde é feia. Preferia aquela lilás, lembra? – responde a amiga.
- Não combina com o cabelo dele.
- Mas combina com o Rolex.
É assim todos os dias da semana em que Cidinho leciona. Chega, bonapartísticamente, passando em revista seus súditos do alto de sua carruagem e reafirmando sua supremacia. Tambores rufando, lágrimas de emoção, tiros ao alto, em uma encenação que faria marejar de inveja o mais poderoso monarca prussiano.
Sua chegada não é uma rotina: é um marco. Não há quem não tenha visto, não há quem não se admire.
Mas o dia começou mal para nosso professor. O funcionário da limpeza o cumprimenta com um triste desdém:
- Bom dia, professor!
- “Bom dia, professor?”. Sou autoridade aqui... Estudei 4 anos à toa não, ouviu?
- Pe... perdoa-me o professor – responde o funcionário encabulado. Desejo um bom dia à sua digníssima pessoa!
Mas o apressado professor mal ouve a última frase e as portas do elevador se fecham, levando-o até o andar ordenado e separando-o do pobre faxineiro.
É a hora do intervalo, os corredores estão apinhados de alunos e funcionários, mas todos os caminhos se abrem ao nobre professor. Destemido, intrépido, autoconfiante, do alto do seu ego ele cavalga todo o longo caminho até a sala, não sem antes travar breves conversas com alguns de seus alunos mais próximos. Provoca os primeiros por causa da derrota do time deles para seu time no último clássico. Escarnece dos segundos por conta do vexame na festa de sábado à noite. Aos terceiros lança olhares maliciosos: são as alunas que ele planeja abocanhar na próxima festa.
Quebrando à direita, quase não percebe a aluna com quem fornicou no mês passado e vai logo confabular com um grupo de oito rapazes que conversam em tom descontraído próximo à escada. O professor Cidinho ouve as aventuras de cada um no fim de semana – eles estavam em outra festa. Entre uma e outra história, Cidinho gaba-se de fazer mais sucesso entre suas colegas do que eles próprios. Os alunos discordam da boca pra fora, mas Cidinho sabe que, lá no fundo, todos se curvam diante de sua majestade.
Triunfa mais uma vez o professor Cidinho!
No dia seguinte, repete-se o triunfal ritual de Cidinho em seu carro.
- Ele me adicionou no Face! – se empolga uma aluna.
- Ele curtiu uma foto minha – responde a outra.
- Ele já pegou uma amiga minha – acrescenta mais outro.
- Aquela que dá no primeiro encontro?
- Não, essa foi o professor de inglês.
Mas repete-se também a triste cena do funcionário da limpeza desavisado. Dessa vez, o audacioso faxineiro quase não nota a presença do professor, resumindo-se a um tímido e breve “oi”.
- Como é?! – pergunta o professor, atordoado.
- Ah, não, nossa...! É o senhor...?
- E quem mais?
- Vossa reverendíssima me perdoe a displicência. Não notei...
- O cursinho inteiro notou!
- Não, nossa... Veja que... bem... Sua reverendíssima senhoria me desculpe a falta de atenção. Desejo um ótimo dia de trabalho, com muita felicidade e prosperidade a sua magnificência e...
Fecham-se as portas do elevador antes que Cidinho ouça o resto. As aulas transcorrem normalmente. Ao chegar em casa à tarde, Cidinho se dedica à segunda parte de seu trabalho: ajudar a fazer o material didático do cursinho. Isso mesmo: Cidinho não se contenta em ser um excelente professor. Ele também dá a sua contribuição na elaboração do texto da apostila. Cidinho nunca gasta mais de uma hora e meia nessa tarefa. Algumas questões rapidamente formuladas da sua cabeça, alguns textos copiados e colados da internet e outras tantas questões copiadas e levemente modificadas e pronto: Cidinho termina seu trabalho. O resto já não é mais com ele. Dá até tempo de abrir uma cerveja e ir para o Facebook postar fotos de sua última viagem ao Peru e Equador.
- Lindoooooooo, profe! – é o primeiro comentário.
- Ameeeei! – lê-se no segundo.
- Aiiii... Qdo cresce qro ser q nem vc prof... conhecer o mundo!!! Que tudo! – proclama o terceiro. E assim vai.
Em menos de cinco minutos seus álbuns de viagem já possuem enxurradas de curtidas e comentários de alunos e alunas. Cidinho tem 1631 amigos no Facebook, mais do que qualquer outro professor do cursinho. A maioria são alunos do cursinho e das aulas particulares. Cidinho tenta se fazer sempre presente na vida de todos eles, mesmo à distância. É por isso que ele não passa um dia sem atualizar seu perfil, seja com uma foto de sua mais recente viagem – Cidinho já conheceu 31 países –, seja apenas de uma garrafinha de cerveja que ele resolveu abrir ali para se distrair após um dia atarefado. Jovem e solteiro, o professor Cidinho atrai a reverência da imensa maioria de suas alunas e ex-alunas. Raríssimas vezes suas postagens possuem menos de 50 curtidas.
Na quarta-feira, Cidinho só dá aula mais tarde. Graças a esse feliz destino, ele evita o desprazer de se encontrar novamente com o faxineiro mal-educado. No elevador, vê um grupo de monitores a quem cumprimenta com o desdém que sua potestade lhe autoriza. No caminho para a sala dos professores, porém, tromba com o infeliz faxineiro. Já mais preparado, o faxineiro pronuncia:
- Bom dia, excelentíssima magnificência!
- Estamos melhorando.
- Às ordens! – diz o funcionário, com um misto de embaraço e alívio.
Após confabular com seus colegas professores, vai ter com um grupo de alunos. Mais conversas, mais piadas, mais triunfos a exaltar: de seu time e de si próprio. Os alunos ponderam se Cidinho já se relacionou com mais meninas daquela sala do que todos juntos, ao que o nobre soberano replica que obviamente sim. Abstém-se, contudo, de citar nomes – talvez porque não se lembrará de todos, talvez porque três ou quatro delas são namoradas de meninos que ali estão. Diante da negativa em fornecer os nomes, os alunos duvidam do professor. Mas Cidinho não se abala. É confiante demais para cair nas maquinações de meros adolescentes.
Ao dirigir-se a seu Audi A3, novo encontro com o funcionário da limpeza:
- Vossa sumo reverendíssima supra-sacro-santíssima bem-aventurada a suma magnificência de vossa magna potestade!
- (...).
Na quinta Cidinho não dá aula. Terá tempo de sobra para fazer e enviar as questões do próximo simulado. Finalmente Cidinho se lembrou por que acordou tão atordoado no domingo anterior! Que bobagem. Elaborar questões só leva um segundo. Tão logo termina seu trabalho, envia as questões à editora. Antes, porém, telefona ao seu colega, coordenador da área, a fim de assegurar que todas as suas questões serão escolhidas para o próximo simulado. Cidinho precisa daquele dinheiro para ajudar a terminar de pagar sua última viagem.
Sexta-feira a chegada de Cidinho é mais triunfal do que de costume – afinal de contas, sexta é quando ele sai para beber com os alunos após as aulas do turno da tarde. Mas o encontro com o faxineiro é o mesmo:
- Vossa sumo reverendíssima magnificente sacro-santíssima, ultra-potentíssima e sumo digníssima excelentíssima majestadíssima!
Como é sexta-feira e o professor está de bom-humor, ele responde:
- Bom dia!
No corredor, alguns alunos revisam a matéria para um vestibular que está próximo:
- Isso aqui no livro tá errado – observa um.
- Como sabe? – questiona o outro.
- O Cidinho não ensinou assim – emenda um terceiro.
- Mas o Fausto sim! – responde o segundo.
- Confio mais no Cidinho – intervém ainda outro.
- E por que?!
- Porque é o Cidinho, ué! O Fausto tá aqui há menos tempo.
- É... é verdade – concluem todos, quase em uníssono, dando ganho de causa ao glorioso... Que aparece logo em seguida:
- Bom dia, galera!
- Bom dia, professor! – novamente em uníssono.
- Já tá sabendo da festa amanhã?
- E a de domingo?
- E a de hoje?
- E a do mês que vem?
- E a da Aninha?
- Você vai?
- Não vai?
- Por que?
- Sério?
- Qual?
- Que horas?
- Com o Audi ou o Toyota?
- Comprou outro?
- Qual?
- Hidráulica? Automático?
- Prata...? Branco...? Vermelho...?
- Vermelho é de viado, hein!
- Prata?
- Meu pai tem um.
- Meu pai vai me dar se eu passar no vestibular.
As aulas de sexta transcorrem normalmente. Cidinho encena situações para explicar a matéria, faz teatrinhos, leva músicas, dança, canta, sobe na cadeira, interage com os alunos que filmam e tiram fotos de tudo. E nesse show business nosso professor vai se projetando no imaginário de todos os alunos da região.
Terminadas as aulas, como prometido, sai para beber com os alunos. Não pode se demorar, porém, pois tem uma festa às 23h – na qual também não poderá se demorar, pois no sábado marcou almoço com uma aluna e pretende chegar apresentável.
- Já vai, professor?
- Cedo!
- Não aguenta bebe cum nóis!
- Aguenta!
- Sim?
- Não!
- Mas já?
- Onde?
- Me dá carona?
- Perto da sua casa!
- Domingo? Claro!
sábado, 14 de março de 2015
Enquanto você dormia
Eu saúdo você, meu amigo!
Você que, após um longo período de sono profundo, acordou de supetão em junho de 2013, metade atordoado, metade empolgado em meio aos gritos que vinham das ruas. Antes de mais nada, como mandam os bons costumes, gostaria de te desejar um bom dia – com um ano e meio de atraso, é claro. Mas pra quem passou cinco, dez, quinze, vinte ou até trinta anos de sua vida dormindo, um ano e meio de atraso no “bom dia” é o menor dos problemas.
Eu vim para lhe colocar a par dos acontecimentos que se desenrolavam em nosso país enquanto você dormia.
Eu noto que você anda meio cabreiro com certas notícias que desfilam pela mídia. Você acordou, e antes mesmo que tivesse tempo para calçar seus chinelos e ir tomar café, já demonstrava profunda irritação com a política externa do atual governo. Manter relações diplomáticas com a chavista Venezuela? Fazer negócios com a revolucionária Cuba? Selar acordos com o ortodoxo Irã? Quanta falta de caráter e bom-senso do PT ao escolher os países com os quais nos relacionamos – você comentava. Ditaduras, todas ditaduras – você bradava.
Sorte sua ter acordado só em junho de 2013. Se tivesse acordado uns quinze ou vinte anos antes, veria como eram infames os amigos com quem trocávamos figurinhas. Teria visto nosso governo e nossas empreiteiras firmarem sólidos acordos comerciais (inclusive no setor militar) com a Arábia Saudita (país governado pela mesma família desde os anos 1930, que proíbe as mulheres de dirigir e estudar e decapita presos em praça pública), com a Líbia de Muammar Khadafi (ditador que governou o país com mão de ferro por várias décadas) e com o Iraque de Saddam Hussein (dispensa apresentações).
Mas pra que incomodar os muçulmanos – suficientemente estigmatizados como radicais – se podemos falar dos ainda mais frequentes acordos que nosso país firmou com a China, um dos países que mais executam presos por ano (grande parte deles, presos políticos)? Consulte os dados da Anistia Internacional ou da Human Rights Watch e verá que a China deixa a Venezuela no chinelo. E não, não foi o PT quem criou laços com a China comunista. FHC esteve lá nos anos 1990, só para citar um dos numerosos exemplos de como nossas relações com esse monstro vermelho são bem anteriores a 2003.
Mas você estava dormindo quando tudo isso acontecia. Por isso não me surpreende que você tenha vibrado quando, no debate presidencial do segundo turno no ano passado, o candidato tucano vociferou que o governo Dilma mantinha relações com ditaduras que desrespeitavam o Poder Judiciário. Você se borra de ódio ao ver os governos do PT mantendo relações com regimes diariamente escrachados pela mídia. Romper com o Irã é necessário; romper com a Venezuela é urgente; romper com Cuba é um imperativo. Mas romper com a China não pode, afinal de contas, é lá que são fabricados (com força de trabalho escrava, diga-se de passagem) os iPhones por meio dos quais você acessa o Facebook para convocar marchas contra o PT.
E quando a presidente Dilma defendeu o “diálogo” com os carniceiros decepadores do Oriente Médio? Horror! O Estado Islâmico é mesmo uma aberração. E quem se importa se, enquanto você dormia, os Estados Unidos matavam mais afegãos e iraquianos inocentes do que os jihadistas do Iraque e Levante jamais poderiam sonhar? Mas com eles a gente não pode cortar relações, afinal de contas, lá tem Playstation 4 barato e Disneylândia.
Ah, mas o Estado Islâmico corta cabeças e manda os vídeos pra todo mundo ver! Sim, é justamente esse o ponto. Uma coisa são 10 linhas, no pé da página do caderno de notícias internacionais, relatando a morte de 55 civis afegãos após um bombardeio “por engano” das forças da OTAN. Outra, completamente diferente, é a imagem, difundida pelos telejornais no horário nobre, de um europeu ajoelhado em frente a um homem prestes a degolá-lo. O que são dez bombas nas cabeças de cem afegãos diante de uma faca no pescoço de um europeu?
E voltando à China: o que me diz daquela história de postar imagens nas redes sociais exaltando a justiça chinesa? Você fica radiante diante da notícia de que políticos corruptos chineses foram condenados à morte. Com isso, conclui que o Brasil precisa de juízes chineses, e não de médicos cubanos.
Vá com calma, meu amigo! Apesar de discordar de suas opiniões, não quero te ver fuzilado. Sabe por que digo isso? Porque esse mesmo juiz que condenou políticos supostamente corruptos à morte já deve ter condenado à morte inúmeros outros presos pelo simples “crime” de fazerem aquilo que você faz quase diariamente: falar mal do governo. Ditadura nos olhos dos outros é refresco, certo?
Vejo também que você tem praguejado bastante contra cotas nas universidades, sejam elas para negros, para pobres ou para ambos. Você vê universidades públicas reservando uma porcentagem de vagas para esses grupos e fica horrorizado, como se cotas fossem algo sobrenatural que o governo petista implementou no nosso país. E se eu te disser que antes, mas muito antes de você sequer começar a dormir, as cotas já existiam? E se eu te disser que, ao longo de boa parte de nossa história, vigorou uma cota de quase 100% de vagas para a elite branca?
É claro que na época não se falava em “cotas”. Só se fala em cotas quando há a possibilidade de um grupo distinto ser contemplado com certos direitos. Mas como, durante esse período, “educação” já pressupunha a ausência de negros, falar em cotas para brancos nas instituições de ensino era tão absurdo quanto falar em cotas para cães em um canil.
Eu sei que é difícil pra você descobrir essas coisas assim, de repente. Era tão mais honroso quando você ainda estava dormindo e achava que o seu vestibular, seu mestrado ou seu concurso público eram frutos unicamente dos seus próprios esforços e dos seus méritos, não era? E digo isso muito mais como uma autocrítica do que como uma crítica. Há alguns anos atrás, eu também acreditaria que o simples fato de eu poder me dar ao luxo de fazer a graduação e a pós-graduação em instituições públicas era resultado do meu esforço pessoal. Levou tempo até eu me atentar que meus esforços eram apenas um detalhe.
Eu poderia ter sido neto de inúmeros senhores – um ex-escravo, um camponês expulso de suas terras que foi errar pela cidade grande ou um meeiro atolado em dívidas. Quis, porém, o destino, que eu descendesse do Dr. Almir Paula Lima. Não fosse pelo apoio financeiro de seu pai, agraciado – sabe-se Deus como – com o cargo de delegado de sua diminuta cidade, o Dr. Almir jamais conseguiria realizar o feito de ser o primeiro natural de Mutum a concluir o ensino superior. E isso no sombrio Brasil de meados do século XX, quando estudar ainda era privilégio de poucos.
Sigamos em frente.
Notei que você anda arisco em relação à corrupção. Acha um absurdo a forma como nossos homens públicos fazem uso dos recursos públicos em prol de seus interesses particulares. Isso realmente é lastimável. Não vou aqui perder o meu tempo explicando que a corrupção já comia solta enquanto você dormia, e muito antes disso também. Pra você que acordou há pouco isso é novidade, mas uma novidade com a qual aos poucos você se acostumará. Também notei que você passou a demonizar os estados do nordeste do Brasil depois que a presidente Dilma foi reeleita em 2014. Você, de fato, acha um absurdo os estados do sul e sudeste do país terem que sustentar o Nordeste. Acha um absurdo São Paulo, Rio e Minas produzirem riquezas enquanto baianos, cearenses e pernambucanos permanecem estagnados. “Nós” geramos riquezas e eles gastam – você sempre diz. “Nós” votamos nos honestos, mas eles sempre elegem os corruptos – você insiste.
Pergunte a seus avós, se ainda os tiverem – ou, dependendo do caso, a seus pais. Se não estiverem já muito esquecidos – e se não estivessem dormindo naquela época também –, provavelmente irão se lembrar da forma como se fazia política por aqui no começo do século passado. Por meio de conluios, Minas e São Paulo asseguravam que somente os seus candidatos fossem eleitos. É claro que às vezes esses estados brigavam, e aí cada um ia para o seu canto. E é claro que por vezes alguns estados do Nordeste (e de outras regiões) também contribuíam para essa falsa democracia. Mas o importante é que, não fosse esse amplo mecanismo de corrupção institucionalizada (coronelismo, fraudes em urnas, rasuras de atas, “degola” de candidatos da oposição), dificilmente Minas e São Paulo teriam a pujança que possuem hoje. E foi em nome desse compromisso com mineiros e paulistas que diversos coronéis governaram o Nordeste por décadas, ajudando-o a tornar-se o que ele é hoje.
Pra quem esteve dormindo até junho de 2013, é muito fácil falar que São Paulo carrega o Brasil nas costas. Difícil é descobrir que por muito tempo ocorreu exatamente o contrário. E você, como se sente ao descobrir que São Paulo foi um dos principais articuladores de um amplo mecanismo de corrupção a nível nacional?
Surpreendente, não?
Acho que você tem se precipitado um pouco em suas denúncias inflamadas, meu amigo. Acordou num impulso e anda por aí a abominar pessoas e instituições que nem sempre o merecem. Lembro-me do profundo ressentimento com que recentemente criticou a alta dos preços nos últimos anos. Essa, segundo você, era a maior evidência de que o governo do PT era ruim inclusive para os pobres. E de fato: se os preços sobem, quem mais sofre é quem tem menos dinheiro, não é? Elementar.
E é justamente pelo mesmo motivo que os impostos no nosso país deveriam recair mais sobre os ricos do que sobre os pobres. Mas isso você não pode admitir, pois todo tipo de política que retire o ônus da classe pobre para distribui-lo nas costas suas e de seus iguais é tido por você como populismo, assistencialismo... Em suma: como mecanismos de estímulo à vagabundagem.
Mas o mais curioso de tudo é vê-lo preocupado com o impacto da inflação nas camadas mais pobres. Logo você, que, enquanto dormia, sempre atribuiu o insucesso dos pobres... aos próprios pobres! Lembra como você dizia que se o pobre se esforçar, se ele trabalhar, se ele se empenhar, ele pode melhorar de vida? Mas agora que você acordou a culpa dos pobres estarem na pior não é mais deles, e sim do governo. Quem te viu naqueles anos de sono profundo, jamais imaginaria que um dia você culparia outra pessoa ou instituição pela deterioração de vida das camadas humildes.
Agora quem se surpreendeu fui eu!
Além de prejudicar as famílias pobres com a inflação, o PT também teria instigado conflitos. Jogou gays contra héteros, negros contra brancos, empregadas domésticas contra patrões. Se isso fosse verdade, seria muito triste, de fato. Mas eu sinto lhe-informar que a verdade é mais triste ainda. Saiba que, enquanto você dormia, centenas de gays eram agredidos e mortos por diversos héteros; que outros tantos negros apanhavam da polícia ou perdiam uma vaga de emprego unicamente por causa de sua cor; que diversas empregadas eram diariamente humilhadas pelos seus patrões das mais terríveis maneiras, mas nada podiam fazer – seja porque não tinham a quem recorrer, seja porque haviam se acostumado de tal maneira a esses ataques que, de fato, aceitavam aquela condição.
E se você conseguia dormir mesmo com tanto caos ao seu redor, é unicamente porque durante muito tempo eles – negros, pobres, mulheres, gays, domésticas – não podiam gritar. Não fosse um grupo de jovens estudantes de classe média gritando para abaixar o preço da passagem de ônibus, conjugado com o clima de uma Copa iminente, provavelmente você estaria dormindo até hoje.
Seja como for, meu amigo, é sempre melhor estar acordado do que dormindo. Só que o despertar é sempre lento, problemático, truncado... Uma única manhã nunca é o suficiente para acordar por completo. E é inútil querer acelerar esse despertar partindo pro abafa, feito um time de futebol tentando virar o placar aos 48 do segundo tempo. Portanto, não adianta assinar petições que obrigam os políticos a usarem hospitais e escolas públicas se você afia suas garras sempre que ouve falar em políticas para favorecer o transporte público em detrimento do transporte individual. Também não adianta visitar a Europa e ficar boquiaberto com as ciclovias, mas esbravejar quando elas aparecem na porta do seu prédio. E, o mais importante: não adianta acordar agora e achar que tudo que está aí sempre foi assim.
Muita coisa acontecia enquanto você dormia.
Você que, após um longo período de sono profundo, acordou de supetão em junho de 2013, metade atordoado, metade empolgado em meio aos gritos que vinham das ruas. Antes de mais nada, como mandam os bons costumes, gostaria de te desejar um bom dia – com um ano e meio de atraso, é claro. Mas pra quem passou cinco, dez, quinze, vinte ou até trinta anos de sua vida dormindo, um ano e meio de atraso no “bom dia” é o menor dos problemas.
Eu vim para lhe colocar a par dos acontecimentos que se desenrolavam em nosso país enquanto você dormia.
Eu noto que você anda meio cabreiro com certas notícias que desfilam pela mídia. Você acordou, e antes mesmo que tivesse tempo para calçar seus chinelos e ir tomar café, já demonstrava profunda irritação com a política externa do atual governo. Manter relações diplomáticas com a chavista Venezuela? Fazer negócios com a revolucionária Cuba? Selar acordos com o ortodoxo Irã? Quanta falta de caráter e bom-senso do PT ao escolher os países com os quais nos relacionamos – você comentava. Ditaduras, todas ditaduras – você bradava.
Sorte sua ter acordado só em junho de 2013. Se tivesse acordado uns quinze ou vinte anos antes, veria como eram infames os amigos com quem trocávamos figurinhas. Teria visto nosso governo e nossas empreiteiras firmarem sólidos acordos comerciais (inclusive no setor militar) com a Arábia Saudita (país governado pela mesma família desde os anos 1930, que proíbe as mulheres de dirigir e estudar e decapita presos em praça pública), com a Líbia de Muammar Khadafi (ditador que governou o país com mão de ferro por várias décadas) e com o Iraque de Saddam Hussein (dispensa apresentações).
Mas pra que incomodar os muçulmanos – suficientemente estigmatizados como radicais – se podemos falar dos ainda mais frequentes acordos que nosso país firmou com a China, um dos países que mais executam presos por ano (grande parte deles, presos políticos)? Consulte os dados da Anistia Internacional ou da Human Rights Watch e verá que a China deixa a Venezuela no chinelo. E não, não foi o PT quem criou laços com a China comunista. FHC esteve lá nos anos 1990, só para citar um dos numerosos exemplos de como nossas relações com esse monstro vermelho são bem anteriores a 2003.
Mas você estava dormindo quando tudo isso acontecia. Por isso não me surpreende que você tenha vibrado quando, no debate presidencial do segundo turno no ano passado, o candidato tucano vociferou que o governo Dilma mantinha relações com ditaduras que desrespeitavam o Poder Judiciário. Você se borra de ódio ao ver os governos do PT mantendo relações com regimes diariamente escrachados pela mídia. Romper com o Irã é necessário; romper com a Venezuela é urgente; romper com Cuba é um imperativo. Mas romper com a China não pode, afinal de contas, é lá que são fabricados (com força de trabalho escrava, diga-se de passagem) os iPhones por meio dos quais você acessa o Facebook para convocar marchas contra o PT.
E quando a presidente Dilma defendeu o “diálogo” com os carniceiros decepadores do Oriente Médio? Horror! O Estado Islâmico é mesmo uma aberração. E quem se importa se, enquanto você dormia, os Estados Unidos matavam mais afegãos e iraquianos inocentes do que os jihadistas do Iraque e Levante jamais poderiam sonhar? Mas com eles a gente não pode cortar relações, afinal de contas, lá tem Playstation 4 barato e Disneylândia.
Ah, mas o Estado Islâmico corta cabeças e manda os vídeos pra todo mundo ver! Sim, é justamente esse o ponto. Uma coisa são 10 linhas, no pé da página do caderno de notícias internacionais, relatando a morte de 55 civis afegãos após um bombardeio “por engano” das forças da OTAN. Outra, completamente diferente, é a imagem, difundida pelos telejornais no horário nobre, de um europeu ajoelhado em frente a um homem prestes a degolá-lo. O que são dez bombas nas cabeças de cem afegãos diante de uma faca no pescoço de um europeu?
E voltando à China: o que me diz daquela história de postar imagens nas redes sociais exaltando a justiça chinesa? Você fica radiante diante da notícia de que políticos corruptos chineses foram condenados à morte. Com isso, conclui que o Brasil precisa de juízes chineses, e não de médicos cubanos.
Vá com calma, meu amigo! Apesar de discordar de suas opiniões, não quero te ver fuzilado. Sabe por que digo isso? Porque esse mesmo juiz que condenou políticos supostamente corruptos à morte já deve ter condenado à morte inúmeros outros presos pelo simples “crime” de fazerem aquilo que você faz quase diariamente: falar mal do governo. Ditadura nos olhos dos outros é refresco, certo?
Vejo também que você tem praguejado bastante contra cotas nas universidades, sejam elas para negros, para pobres ou para ambos. Você vê universidades públicas reservando uma porcentagem de vagas para esses grupos e fica horrorizado, como se cotas fossem algo sobrenatural que o governo petista implementou no nosso país. E se eu te disser que antes, mas muito antes de você sequer começar a dormir, as cotas já existiam? E se eu te disser que, ao longo de boa parte de nossa história, vigorou uma cota de quase 100% de vagas para a elite branca?
É claro que na época não se falava em “cotas”. Só se fala em cotas quando há a possibilidade de um grupo distinto ser contemplado com certos direitos. Mas como, durante esse período, “educação” já pressupunha a ausência de negros, falar em cotas para brancos nas instituições de ensino era tão absurdo quanto falar em cotas para cães em um canil.
Eu sei que é difícil pra você descobrir essas coisas assim, de repente. Era tão mais honroso quando você ainda estava dormindo e achava que o seu vestibular, seu mestrado ou seu concurso público eram frutos unicamente dos seus próprios esforços e dos seus méritos, não era? E digo isso muito mais como uma autocrítica do que como uma crítica. Há alguns anos atrás, eu também acreditaria que o simples fato de eu poder me dar ao luxo de fazer a graduação e a pós-graduação em instituições públicas era resultado do meu esforço pessoal. Levou tempo até eu me atentar que meus esforços eram apenas um detalhe.
Eu poderia ter sido neto de inúmeros senhores – um ex-escravo, um camponês expulso de suas terras que foi errar pela cidade grande ou um meeiro atolado em dívidas. Quis, porém, o destino, que eu descendesse do Dr. Almir Paula Lima. Não fosse pelo apoio financeiro de seu pai, agraciado – sabe-se Deus como – com o cargo de delegado de sua diminuta cidade, o Dr. Almir jamais conseguiria realizar o feito de ser o primeiro natural de Mutum a concluir o ensino superior. E isso no sombrio Brasil de meados do século XX, quando estudar ainda era privilégio de poucos.
Sigamos em frente.
Notei que você anda arisco em relação à corrupção. Acha um absurdo a forma como nossos homens públicos fazem uso dos recursos públicos em prol de seus interesses particulares. Isso realmente é lastimável. Não vou aqui perder o meu tempo explicando que a corrupção já comia solta enquanto você dormia, e muito antes disso também. Pra você que acordou há pouco isso é novidade, mas uma novidade com a qual aos poucos você se acostumará. Também notei que você passou a demonizar os estados do nordeste do Brasil depois que a presidente Dilma foi reeleita em 2014. Você, de fato, acha um absurdo os estados do sul e sudeste do país terem que sustentar o Nordeste. Acha um absurdo São Paulo, Rio e Minas produzirem riquezas enquanto baianos, cearenses e pernambucanos permanecem estagnados. “Nós” geramos riquezas e eles gastam – você sempre diz. “Nós” votamos nos honestos, mas eles sempre elegem os corruptos – você insiste.
Pergunte a seus avós, se ainda os tiverem – ou, dependendo do caso, a seus pais. Se não estiverem já muito esquecidos – e se não estivessem dormindo naquela época também –, provavelmente irão se lembrar da forma como se fazia política por aqui no começo do século passado. Por meio de conluios, Minas e São Paulo asseguravam que somente os seus candidatos fossem eleitos. É claro que às vezes esses estados brigavam, e aí cada um ia para o seu canto. E é claro que por vezes alguns estados do Nordeste (e de outras regiões) também contribuíam para essa falsa democracia. Mas o importante é que, não fosse esse amplo mecanismo de corrupção institucionalizada (coronelismo, fraudes em urnas, rasuras de atas, “degola” de candidatos da oposição), dificilmente Minas e São Paulo teriam a pujança que possuem hoje. E foi em nome desse compromisso com mineiros e paulistas que diversos coronéis governaram o Nordeste por décadas, ajudando-o a tornar-se o que ele é hoje.
Pra quem esteve dormindo até junho de 2013, é muito fácil falar que São Paulo carrega o Brasil nas costas. Difícil é descobrir que por muito tempo ocorreu exatamente o contrário. E você, como se sente ao descobrir que São Paulo foi um dos principais articuladores de um amplo mecanismo de corrupção a nível nacional?
Surpreendente, não?
Acho que você tem se precipitado um pouco em suas denúncias inflamadas, meu amigo. Acordou num impulso e anda por aí a abominar pessoas e instituições que nem sempre o merecem. Lembro-me do profundo ressentimento com que recentemente criticou a alta dos preços nos últimos anos. Essa, segundo você, era a maior evidência de que o governo do PT era ruim inclusive para os pobres. E de fato: se os preços sobem, quem mais sofre é quem tem menos dinheiro, não é? Elementar.
E é justamente pelo mesmo motivo que os impostos no nosso país deveriam recair mais sobre os ricos do que sobre os pobres. Mas isso você não pode admitir, pois todo tipo de política que retire o ônus da classe pobre para distribui-lo nas costas suas e de seus iguais é tido por você como populismo, assistencialismo... Em suma: como mecanismos de estímulo à vagabundagem.
Mas o mais curioso de tudo é vê-lo preocupado com o impacto da inflação nas camadas mais pobres. Logo você, que, enquanto dormia, sempre atribuiu o insucesso dos pobres... aos próprios pobres! Lembra como você dizia que se o pobre se esforçar, se ele trabalhar, se ele se empenhar, ele pode melhorar de vida? Mas agora que você acordou a culpa dos pobres estarem na pior não é mais deles, e sim do governo. Quem te viu naqueles anos de sono profundo, jamais imaginaria que um dia você culparia outra pessoa ou instituição pela deterioração de vida das camadas humildes.
Agora quem se surpreendeu fui eu!
Além de prejudicar as famílias pobres com a inflação, o PT também teria instigado conflitos. Jogou gays contra héteros, negros contra brancos, empregadas domésticas contra patrões. Se isso fosse verdade, seria muito triste, de fato. Mas eu sinto lhe-informar que a verdade é mais triste ainda. Saiba que, enquanto você dormia, centenas de gays eram agredidos e mortos por diversos héteros; que outros tantos negros apanhavam da polícia ou perdiam uma vaga de emprego unicamente por causa de sua cor; que diversas empregadas eram diariamente humilhadas pelos seus patrões das mais terríveis maneiras, mas nada podiam fazer – seja porque não tinham a quem recorrer, seja porque haviam se acostumado de tal maneira a esses ataques que, de fato, aceitavam aquela condição.
E se você conseguia dormir mesmo com tanto caos ao seu redor, é unicamente porque durante muito tempo eles – negros, pobres, mulheres, gays, domésticas – não podiam gritar. Não fosse um grupo de jovens estudantes de classe média gritando para abaixar o preço da passagem de ônibus, conjugado com o clima de uma Copa iminente, provavelmente você estaria dormindo até hoje.
Seja como for, meu amigo, é sempre melhor estar acordado do que dormindo. Só que o despertar é sempre lento, problemático, truncado... Uma única manhã nunca é o suficiente para acordar por completo. E é inútil querer acelerar esse despertar partindo pro abafa, feito um time de futebol tentando virar o placar aos 48 do segundo tempo. Portanto, não adianta assinar petições que obrigam os políticos a usarem hospitais e escolas públicas se você afia suas garras sempre que ouve falar em políticas para favorecer o transporte público em detrimento do transporte individual. Também não adianta visitar a Europa e ficar boquiaberto com as ciclovias, mas esbravejar quando elas aparecem na porta do seu prédio. E, o mais importante: não adianta acordar agora e achar que tudo que está aí sempre foi assim.
Muita coisa acontecia enquanto você dormia.
segunda-feira, 2 de março de 2015
The saga of N.
On the week of his twenty-first anniversary, N. was faced with an astounding fact: he didn’t know how to enjoy life. So many years, so many days, so much time, all overlooked, just like a blank sheet of paper on which no pen has ever dared to venture.
Terrified by such observation, N. decided it was time to act. He grabbed a pen and a notebook and locked himself in his room with the mission of not leaving it before elaborating a powerful strategy to enjoy his life. N. didn’t want to spend the next years of his life the same way he spent his last 21: apathetic, aloof and unable to live every moment intensely.
During the seven days he remained locked in his room, N. established a set of goals for his life: trips to make, parties to go, friends to meet, foods to try, movies to watch and loves to declare… He was already tired of spending his life as if he could afford to live in a mediocre way.
After many nights up, N. finished his job on the morning of his birthday. He was exhausted, but all those days of confinement were worth it. N. could finally live without any fear of making the same mistakes of the past. His set of goals was irreproachable and he was determined to finally start enjoying life.
N. happily left his house on that sunny morning in order to meet his friends and start his new life. As soon as he stepped on the street, he was hit by a beer truck and passed away a few minutes later, just next to the curb. The truck driver carried on without providing any help. He was in a hurry to deliver an order at the house of N.’s mother, who was preparing him a surprise party for his birthday.
Terrified by such observation, N. decided it was time to act. He grabbed a pen and a notebook and locked himself in his room with the mission of not leaving it before elaborating a powerful strategy to enjoy his life. N. didn’t want to spend the next years of his life the same way he spent his last 21: apathetic, aloof and unable to live every moment intensely.
During the seven days he remained locked in his room, N. established a set of goals for his life: trips to make, parties to go, friends to meet, foods to try, movies to watch and loves to declare… He was already tired of spending his life as if he could afford to live in a mediocre way.
After many nights up, N. finished his job on the morning of his birthday. He was exhausted, but all those days of confinement were worth it. N. could finally live without any fear of making the same mistakes of the past. His set of goals was irreproachable and he was determined to finally start enjoying life.
N. happily left his house on that sunny morning in order to meet his friends and start his new life. As soon as he stepped on the street, he was hit by a beer truck and passed away a few minutes later, just next to the curb. The truck driver carried on without providing any help. He was in a hurry to deliver an order at the house of N.’s mother, who was preparing him a surprise party for his birthday.
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
Fãs
Desde a minha infância, passando pelos turbulentos anos da adolescência até os meus atuais 26 anos de idade, nunca tive muita afinidade com a ideia de ser fã de algo ou alguém.
Nunca conheci um artista ou banda capaz de me fazer desembolsar horrores a fim de ir ao seu show. Nunca gostei de um ator ou atriz a ponto de comprar revistas, pôsteres e jornais para espalhar pelo meu quarto. Nunca fiz loucuras em busca de um autógrafo ou de uma foto com ninguém, por mais genial e majestoso que ele ou ela fosse. E devo confessar que também nunca entendi a situação de quem se submete a isso. Seja por desapego, seja por indiferença, nunca consegui me imaginar sendo um fanático de qualquer tipo.
Aliás, a própria ideia de fanatismo sempre me despertou repulsa.
Não suporto, por exemplo, fãs de bandas. Especialmente quando eles se julgam superiores a todos os demais e acreditam, ingenuamente, que seu gosto musical ultra refinado é um indicativo de sua superioridade intelectual. Há fãs musicais que se veem como oásis de cultura e civilização em meio a uma horda de ignorantes barbarizados ouvindo ritmos supostamente inferiores. Isso sem contar aqueles que adoram ostentar seu conhecimento musical, esfregando na cara dos outros um monte de nomes de bandas e estilos musicais que só eles conhecem. Quem nunca teve um amiguinho ou amiguinha que, no ápice de sua adolescência, sonhava em sair por aí ameaçando pessoas que usavam camisas de bandas sem saber o nome do vocalista ou de uma música do novo álbum?
Apesar de ser cruzeirense, acho ainda mais intragáveis os "militantes" de futebol. Isso porque são pessoas que colocam seu time acima de tudo e de todos, como se o clube para o qual alguém torce fosse o critério mais importante da personalidade de uma pessoa. Eu sempre disse: se quiserem entender como funciona um regime totalitário, experimentem passar quatro ou cinco meses em uma torcida organizada. Veja ainda aqueles torcedores que enchem o peito para falar que gastaram 100, 200, 300, 700 reais para assistir a um jogo. Exibem essas cifras como cicatrizes de guerra. Como se torrar dinheiro para ir ao estádio fosse um diferencial em relação aos torcedores adversários.
A maioria desses "militantes" de futebol encontra na humilhação dos rivais a chave para se revigorarem. Antigamente, agredia-se o torcedor rival com ofensas racistas, como se ter um jogador ou torcedor negro fosse motivo de vergonha. Hoje, o motivo de vergonha é ser homossexual ou afeminado. Daí termos como "bambi", "marias", "frangas" e o diabo a quatro, orgulhosamente urrados em estádios e redes sociais até mesmo por homossexuais (tive experiências concretas no meu Facebook há não muito tempo).
Igualmente insuportáveis são os fanáticos da política. Aqueles seres enjoados que defendem seu partido ou político com uma paixão cega a ponto de não verem nada senão suas virtudes. Sabe aquele seu amigo (a) apaixonado (a) por um (a) mulher/homem que o (a) faz de capacho, mas acha um absurdo quando alguém lhe mostra isso? Pois é, quase igual. Nessas eleições tivemos exemplos memoráveis disso. Eleitores de Aécio abominando a "mídia controlada pelo PT", mas achando super normal a campanha eleitoral maciça que o Estado de Minas fez em prol do tucano em suas capas. Petistas associando a campanha de Aécio ao "golpismo, ao militarismo e ao fascismo", mas achando tranquilo a Copa do Mundo e seus custos sociais (ocupação da UFMG por forças de repressão, expropriações a indenizações irrisórias, opressão sobre populações de rua). Já pararam pra pensar como se inflamaria a sanha teórico-conspiratória dos tucanos se o EM resolvesse fazer campanha para a Dilma? Ou como ficariam ensandecidos os petistas se a Copa do Mundo fosse fruto de um governo tucano?
Eu já.
Citemos, por fim, os fãs de séries: aquelas pessoas que dedicam parcelas religiosas de seu tempo para acompanhar uma série e se sentem semi-mortas sempre que ela termina. Nada contra essas pessoas ou seus hábitos, mas acho que jamais conseguiria acompanhar uma série ou novela de forma tão assídua.
Pois bem: o fanatismo nunca combinou comigo. Nunca consegui ser fã de nada nem de ninguém, e acho que mesmo se tentasse não conseguiria.
Hoje, porém, ao chegar em casa do trabalho, deparei-me com a notícia do falecimento de Roberto Gómez Bolaños, criador e intérprete do Chaves, Chapolin e tantos outros personagens que marcaram minha infância. Demorei um pouco pra acreditar, não só devido às muitas notícias falsas que já circularam sobre sua morte, mas também pela profunda tristeza que me causou. E foi aí que me dei conta de uma coisa para a qual nunca tinha parado para pensar: eu sou um fã de Chaves! Logo eu, um fã.
Por que será que nunca percebi isso antes? Simples. Porque fãs de Chaves não são como a maioria dos fãs. Eles não precisam acompanhar o seriado com um fervor religioso, pois a maioria já assistiu - e decorou - todos os episódios. Chaves não exige de seu espectador uma disciplina rígida como os seriados atuais: você pode assistir a um episódio da serie, ficar uma semana sem ver e depois tornar a assistir sem perder nada. Você pode até assistir várias vezes ao mesmo episódio que nunca irá se cansar. O fã de Chaves nunca diz: "minha série preferida acabou, e agora?!". Isso porque ele é, por definição, aquele que assiste ao mesmo episódio incansáveis vezes, sem nunca rir menos do que das vezes anteriores.
Melhor ainda: fãs de Chaves não precisam humilhar os fãs de outras séries, tal como o fazem muitos fãs de bandas e times. Quem é fã de Chaves encontra a plenitude apreciando Chaves. Não precisamos provocar ninguém para nos sentirmos melhores, pois já sabemos que ninguém jamais nos fará rir tanto quanto Chaves e seus congêneres. Não precisamos ostentar que sabemos o nome do operador de câmera do 19º episódio da série, nem que conhecemos toda a árvore genealógica de Roberto Gómez Bolaños. O que faz sentirmo-nos bem não é importunar os outros, mas sim assistir ao Chaves. Como seria bom se os fãs musicais pudessem apreciar suas respectivas bandas sem desprestigiar o gosto musical dos outros!
E que fique bem claro - antes que me acusem de incoerência - que não estou aqui para humilhar os fãs de outras áreas. Só o que quero dizer é que existem maneiras muito mais saudáveis de ser fã do que aquelas que nos fazem descambar para o ódio ou para discussões homéricas de Facebook que rendem 150 comentários ou mais.
Enfim, ser fã de Chaves não requer muito dinheiro, não exige sacrifícios nem loucuras e não implica em brigas inúteis com seus "rivais" - até porque não os temos.
Em um mundo no qual se sente cada vez mais necessidade de humilhar negros, mulheres e gays para torcer ou fazer humor, a morte de Roberto Gómez Bolanõs é ainda mais sentida. O humor ingênuo, puro e não apelativo de Chaves e Chapolin parece até uma miragem. E logo eu, que nunca quis nem consegui ser fã de nada ou ninguém, hoje fui surpreendido ao descobrir que sou um fã da produção do eterno Chespirito. Não daqueles que só viram fãs depois que o ídolo morre, mas sim daqueles que sempre foram fãs, mas nunca se deram conta. Isso porque ser fã de Chaves é algo tão sutil e inocente que parece até natural - como dormir ou gostar de churros.
Nunca conheci um artista ou banda capaz de me fazer desembolsar horrores a fim de ir ao seu show. Nunca gostei de um ator ou atriz a ponto de comprar revistas, pôsteres e jornais para espalhar pelo meu quarto. Nunca fiz loucuras em busca de um autógrafo ou de uma foto com ninguém, por mais genial e majestoso que ele ou ela fosse. E devo confessar que também nunca entendi a situação de quem se submete a isso. Seja por desapego, seja por indiferença, nunca consegui me imaginar sendo um fanático de qualquer tipo.
Aliás, a própria ideia de fanatismo sempre me despertou repulsa.
Não suporto, por exemplo, fãs de bandas. Especialmente quando eles se julgam superiores a todos os demais e acreditam, ingenuamente, que seu gosto musical ultra refinado é um indicativo de sua superioridade intelectual. Há fãs musicais que se veem como oásis de cultura e civilização em meio a uma horda de ignorantes barbarizados ouvindo ritmos supostamente inferiores. Isso sem contar aqueles que adoram ostentar seu conhecimento musical, esfregando na cara dos outros um monte de nomes de bandas e estilos musicais que só eles conhecem. Quem nunca teve um amiguinho ou amiguinha que, no ápice de sua adolescência, sonhava em sair por aí ameaçando pessoas que usavam camisas de bandas sem saber o nome do vocalista ou de uma música do novo álbum?
Apesar de ser cruzeirense, acho ainda mais intragáveis os "militantes" de futebol. Isso porque são pessoas que colocam seu time acima de tudo e de todos, como se o clube para o qual alguém torce fosse o critério mais importante da personalidade de uma pessoa. Eu sempre disse: se quiserem entender como funciona um regime totalitário, experimentem passar quatro ou cinco meses em uma torcida organizada. Veja ainda aqueles torcedores que enchem o peito para falar que gastaram 100, 200, 300, 700 reais para assistir a um jogo. Exibem essas cifras como cicatrizes de guerra. Como se torrar dinheiro para ir ao estádio fosse um diferencial em relação aos torcedores adversários.
A maioria desses "militantes" de futebol encontra na humilhação dos rivais a chave para se revigorarem. Antigamente, agredia-se o torcedor rival com ofensas racistas, como se ter um jogador ou torcedor negro fosse motivo de vergonha. Hoje, o motivo de vergonha é ser homossexual ou afeminado. Daí termos como "bambi", "marias", "frangas" e o diabo a quatro, orgulhosamente urrados em estádios e redes sociais até mesmo por homossexuais (tive experiências concretas no meu Facebook há não muito tempo).
Igualmente insuportáveis são os fanáticos da política. Aqueles seres enjoados que defendem seu partido ou político com uma paixão cega a ponto de não verem nada senão suas virtudes. Sabe aquele seu amigo (a) apaixonado (a) por um (a) mulher/homem que o (a) faz de capacho, mas acha um absurdo quando alguém lhe mostra isso? Pois é, quase igual. Nessas eleições tivemos exemplos memoráveis disso. Eleitores de Aécio abominando a "mídia controlada pelo PT", mas achando super normal a campanha eleitoral maciça que o Estado de Minas fez em prol do tucano em suas capas. Petistas associando a campanha de Aécio ao "golpismo, ao militarismo e ao fascismo", mas achando tranquilo a Copa do Mundo e seus custos sociais (ocupação da UFMG por forças de repressão, expropriações a indenizações irrisórias, opressão sobre populações de rua). Já pararam pra pensar como se inflamaria a sanha teórico-conspiratória dos tucanos se o EM resolvesse fazer campanha para a Dilma? Ou como ficariam ensandecidos os petistas se a Copa do Mundo fosse fruto de um governo tucano?
Eu já.
Citemos, por fim, os fãs de séries: aquelas pessoas que dedicam parcelas religiosas de seu tempo para acompanhar uma série e se sentem semi-mortas sempre que ela termina. Nada contra essas pessoas ou seus hábitos, mas acho que jamais conseguiria acompanhar uma série ou novela de forma tão assídua.
Pois bem: o fanatismo nunca combinou comigo. Nunca consegui ser fã de nada nem de ninguém, e acho que mesmo se tentasse não conseguiria.
Hoje, porém, ao chegar em casa do trabalho, deparei-me com a notícia do falecimento de Roberto Gómez Bolaños, criador e intérprete do Chaves, Chapolin e tantos outros personagens que marcaram minha infância. Demorei um pouco pra acreditar, não só devido às muitas notícias falsas que já circularam sobre sua morte, mas também pela profunda tristeza que me causou. E foi aí que me dei conta de uma coisa para a qual nunca tinha parado para pensar: eu sou um fã de Chaves! Logo eu, um fã.
Por que será que nunca percebi isso antes? Simples. Porque fãs de Chaves não são como a maioria dos fãs. Eles não precisam acompanhar o seriado com um fervor religioso, pois a maioria já assistiu - e decorou - todos os episódios. Chaves não exige de seu espectador uma disciplina rígida como os seriados atuais: você pode assistir a um episódio da serie, ficar uma semana sem ver e depois tornar a assistir sem perder nada. Você pode até assistir várias vezes ao mesmo episódio que nunca irá se cansar. O fã de Chaves nunca diz: "minha série preferida acabou, e agora?!". Isso porque ele é, por definição, aquele que assiste ao mesmo episódio incansáveis vezes, sem nunca rir menos do que das vezes anteriores.
Melhor ainda: fãs de Chaves não precisam humilhar os fãs de outras séries, tal como o fazem muitos fãs de bandas e times. Quem é fã de Chaves encontra a plenitude apreciando Chaves. Não precisamos provocar ninguém para nos sentirmos melhores, pois já sabemos que ninguém jamais nos fará rir tanto quanto Chaves e seus congêneres. Não precisamos ostentar que sabemos o nome do operador de câmera do 19º episódio da série, nem que conhecemos toda a árvore genealógica de Roberto Gómez Bolaños. O que faz sentirmo-nos bem não é importunar os outros, mas sim assistir ao Chaves. Como seria bom se os fãs musicais pudessem apreciar suas respectivas bandas sem desprestigiar o gosto musical dos outros!
E que fique bem claro - antes que me acusem de incoerência - que não estou aqui para humilhar os fãs de outras áreas. Só o que quero dizer é que existem maneiras muito mais saudáveis de ser fã do que aquelas que nos fazem descambar para o ódio ou para discussões homéricas de Facebook que rendem 150 comentários ou mais.
Enfim, ser fã de Chaves não requer muito dinheiro, não exige sacrifícios nem loucuras e não implica em brigas inúteis com seus "rivais" - até porque não os temos.
Em um mundo no qual se sente cada vez mais necessidade de humilhar negros, mulheres e gays para torcer ou fazer humor, a morte de Roberto Gómez Bolanõs é ainda mais sentida. O humor ingênuo, puro e não apelativo de Chaves e Chapolin parece até uma miragem. E logo eu, que nunca quis nem consegui ser fã de nada ou ninguém, hoje fui surpreendido ao descobrir que sou um fã da produção do eterno Chespirito. Não daqueles que só viram fãs depois que o ídolo morre, mas sim daqueles que sempre foram fãs, mas nunca se deram conta. Isso porque ser fã de Chaves é algo tão sutil e inocente que parece até natural - como dormir ou gostar de churros.
terça-feira, 28 de outubro de 2014
A saga de N. (III) - (Ou, sobre a diferença e a relação entre a História e a Literatura)
N. é um jovem estudante que padece de um pequeno, porém sério problema: a miopia. Ela o obriga a utilizar óculos desconfortáveis e desajeitados. Tais óculos proporcionam ao jovem rapaz tanto mais inconvenientes quanto maiores os seus benefícios. Em uma festa, um churrasco, na cantina da faculdade ou mesmo na correria do cotidiano, sempre que N. vê uma menina que lhe chama a atenção, imediatamente coloca seus óculos para admirá-la e, principalmente, para ver se é correspondido. Entretanto, seus óculos deixam-no tão estranhamente esquisito que as meninas logo perdem o interesse.
Depois de muitos infortúnios, N. decidiu não mais usar seus óculos, a fim de assegurar que suas empreitadas afetivas fossem mais bem sucedidas. Tão logo tomou essa decisão, N. passou a atrair muito mais olhares do que antes. Mas isso de nada adiantou, afinal de contas, sem seus óculos N. não conseguia enxergar direito as meninas que estavam a trocar olhares com ele. Tudo o que ele via eram vultos, borrões em movimento. Era praticamente impossível definir quais olhos o fitavam com interesse e quais olhos apenas pareciam fita-lo, mas olhavam para outro lado.
N. não podia se conformar. Uma coisa era parecer-se com uma criatura excêntrica ao usar seus óculos. Outra, bem pior, era sequer ter o direito de saber quais meninas o olhavam. Resolveu então voltar a usar seus óculos, graças aos quais pôde observar melhor o seu entorno, bem como planejar suas abordagens sem risco de errar. Mas tudo que os óculos de N. lhe mostravam era o desinteresse das meninas, já que eles faziam-no perder todo o seu poder de atração.
N. entrara em um looping infernal: com óculos, ele enxergava um monte de mulheres desinteressadas. Sem óculos, tudo o que via eram borrões de expressões indefinidas que poderiam ou não estar a correspondê-lo. N. resolveu que era necessário então mudar de óculos, comprar um modelo que o deixasse mais agradável aos olhares. Tudo em vão. N. procurou incessantemente, experimentou vários modelos, nenhum deles capaz de deixa-lo mais atraente.
Depois de mais esse insucesso, N. desistiu dos óculos. Sempre que surgisse alguma mulher que julgasse interessante, iria se esforçar por enxerga-la sem os óculos mesmo, forçando sua visão. Assim, poderia desfrutar do benefício inédito de poder ver e de atrair olhares ao mesmo tempo. No entanto, essa estratégia também malogrou. Isso porque a maioria das mulheres tomava-o como louco ao vê-lo esbugalhando e fechando os olhos compulsivamente na tentativa de enxergar.
N. ficou depressivo por algumas semanas, sem saber como sair daquele looping.
Por fim, após muita reflexão, optou por uma estratégia nova. N. não iria mais usar seus óculos. Também não iria ficar forçando sua visão para enxergar melhor. Iria simplesmente se aproximar da mulher que o interessasse e só então teria a confirmação se o interesse era mútuo ou não. Era uma manobra muito mais arriscada, mas era a única que poderia render frutos. Se de nada adiantava ficar sentado sem óculos especulando qual era a reação das mulheres, menos produtivo ainda era enxergar perfeitamente o mundo ao seu redor sem ver absolutamente nenhum olhar simpático.
N. percebera que os óculos permitiam-no enxergar perfeitamente em um mundo sem-graça, ao passo que sem seus óculos ele enxergava mal em um mundo muito mais promissor. Entre viver em um mundo onde tudo fazia sentido, mas nada lhe cativava, e viver em um mundo incerto, mas cheio de surpresas, N. fez a sua escolha.
Depois de muitos infortúnios, N. decidiu não mais usar seus óculos, a fim de assegurar que suas empreitadas afetivas fossem mais bem sucedidas. Tão logo tomou essa decisão, N. passou a atrair muito mais olhares do que antes. Mas isso de nada adiantou, afinal de contas, sem seus óculos N. não conseguia enxergar direito as meninas que estavam a trocar olhares com ele. Tudo o que ele via eram vultos, borrões em movimento. Era praticamente impossível definir quais olhos o fitavam com interesse e quais olhos apenas pareciam fita-lo, mas olhavam para outro lado.
N. não podia se conformar. Uma coisa era parecer-se com uma criatura excêntrica ao usar seus óculos. Outra, bem pior, era sequer ter o direito de saber quais meninas o olhavam. Resolveu então voltar a usar seus óculos, graças aos quais pôde observar melhor o seu entorno, bem como planejar suas abordagens sem risco de errar. Mas tudo que os óculos de N. lhe mostravam era o desinteresse das meninas, já que eles faziam-no perder todo o seu poder de atração.
N. entrara em um looping infernal: com óculos, ele enxergava um monte de mulheres desinteressadas. Sem óculos, tudo o que via eram borrões de expressões indefinidas que poderiam ou não estar a correspondê-lo. N. resolveu que era necessário então mudar de óculos, comprar um modelo que o deixasse mais agradável aos olhares. Tudo em vão. N. procurou incessantemente, experimentou vários modelos, nenhum deles capaz de deixa-lo mais atraente.
Depois de mais esse insucesso, N. desistiu dos óculos. Sempre que surgisse alguma mulher que julgasse interessante, iria se esforçar por enxerga-la sem os óculos mesmo, forçando sua visão. Assim, poderia desfrutar do benefício inédito de poder ver e de atrair olhares ao mesmo tempo. No entanto, essa estratégia também malogrou. Isso porque a maioria das mulheres tomava-o como louco ao vê-lo esbugalhando e fechando os olhos compulsivamente na tentativa de enxergar.
N. ficou depressivo por algumas semanas, sem saber como sair daquele looping.
Por fim, após muita reflexão, optou por uma estratégia nova. N. não iria mais usar seus óculos. Também não iria ficar forçando sua visão para enxergar melhor. Iria simplesmente se aproximar da mulher que o interessasse e só então teria a confirmação se o interesse era mútuo ou não. Era uma manobra muito mais arriscada, mas era a única que poderia render frutos. Se de nada adiantava ficar sentado sem óculos especulando qual era a reação das mulheres, menos produtivo ainda era enxergar perfeitamente o mundo ao seu redor sem ver absolutamente nenhum olhar simpático.
N. percebera que os óculos permitiam-no enxergar perfeitamente em um mundo sem-graça, ao passo que sem seus óculos ele enxergava mal em um mundo muito mais promissor. Entre viver em um mundo onde tudo fazia sentido, mas nada lhe cativava, e viver em um mundo incerto, mas cheio de surpresas, N. fez a sua escolha.
quarta-feira, 30 de julho de 2014
Páginas de combate - o retorno (literalmente)
No sábado retrasado faleceu Rubem Alves, um dos grandes e mais respeitados escritores brasileiros. Apesar de ser seu sobrinho-neto, confesso que tenho pouca intimidade com as obras dele. O que conheço de seu pensamento vem da leitura que fiz de seus artigos e das palestras e entrevistas às quais assisti, especialmente sobre educação. Sempre me admirei de suas propostas para a educação. Suas opiniões nesse assunto sempre me pareceram muito válidas e coerentes. Coincidência ou não, estudei minha vida inteira em uma escola alternativa, daquelas que seguem os modelos de Piaget e Paulo Freire, muito em sintonia com as propostas que o próprio Rubem fazia.
Graças a isso, cresci sem saber direito o que era o “modelo tradicional” de escola que ele e os professores de minha escola tanto criticavam. Passei minha infância e adolescência inteira ouvindo que a escola deve ser um lugar que desperta o senso crítico, que o aluno deve ser sujeito do aprendizado, que o professor deve auxiliar o aluno a chegar ao conhecimento por conta própria e que a escola deve preparar para a vida, e não para o vestibular. Acho que isso explica o tremendo enfado com que sempre aturei as aulas da licenciatura nos dois últimos semestres. As matérias da FaE (Faculdade de Educação) nunca foram para mim nada mais do que um interminável e insuportável repeteco de tudo aquilo que eu havia ouvido na escola a vida toda. Cada disciplina parecia uma eterna compilação de truísmos iguaizinhos aos que eu havia visto nas outras disciplinas, só que com palavras diferentes. Não por acaso, várias vezes pensei seriamente em desistir da licenciatura, com medo de não aguentar aquela monotonia até o fim.
Bom, mas eu não estou aqui para falar da FaE, que já me consumiu tempo o bastante.
Apesar de conhecer muito pouco da obra de Rubem Alves, lembro-me bem de uma das últimas entrevistas que ele concedeu, quando já estava bem debilitado, em um documentário que a TV Câmara fez sobre sua vida. Em determinado momento do documentário ele afirma que um dos maiores erros que alguém poderia cometer seria voltar, após muitos anos, a um local marcante de sua infância e juventude com a esperança de matar as saudades. Isso porque quase sempre voltamos àquele lugar esperando reencontrá-lo tal como ele era antes. Esquecemo-nos de que esse lugar mudou, nós mudamos, as pessoas com quem convivemos nele mudaram (ou sequer estão mais ali). Como resultado, tudo o que encontramos é um local estranho, que pouco ou em nada nos lembra daquele espaço que esperávamos reencontrar.
Pois há apenas um mês atrás eu tive essa experiência monumental de voltar a um lugar que marcou minha juventude. 10 anos depois de ter colocado meus pés na Malásia pela primeira vez, aproveitei as férias da Copa do Mundo e uma passagem barata e resolvi retornar à minha segunda terra natal, onde passei 12 dos mais marcantes meses da minha vida. A Malásia foi minha primeira experiência internacional e minha primeira experiência de longa duração longe da família. Logo em minha primeira viagem internacional fui bater em terras tão longínquas para ficar não 1 ou 5 meses, mas um ano!
Era o que eu mais queria: retornar a esse país no qual eu havia crescido e aprendido tanto. Mais do que visitar outros países, mais do que conhecer outros lugares, o que eu sempre quis mesmo foi retornar àquela jovem monarquia do Sudeste Asiático que eu já havia aprendido a amar como se fosse o meu próprio país. Tudo que aconteceu comigo desde o fim da minha adolescência girou em torno disso: meus relacionamentos, meus estudos, minha vida acadêmica e profissional. De uma forma ou de outra, todas as decisões e experiências, decepções e triunfos, tudo que me aconteceu desde meu retorno ao Brasil em junho de 2005 sempre remeteu ao meu aprendizado na Malásia. Correndo o risco de uma comparação grosseira, diria que esse intercâmbio foi, para mim, o mesmo que a Revolução Francesa foi para a história ocidental.
“Mas o que tem nessa Malásia que te deixa assim, Marcelo? Quero conhecer esse país também!”, muitos devem querer me perguntar. Pois eu respondo: não há nada de especial. Vocês podem visitar o país, pode até ser que gostem. Mas o que me atrai tanto nele é a lembrança que guardo dele até hoje. Graças a isso, toda visita que eu eventualmente fizer àquele país sempre terá um significado especial, totalmente diferente da que outras pessoas terão.
No momento em que coloquei os pés na Malásia pela segunda vez, simplesmente não consegui acreditar. Desde que voltei ao Brasil sonhei tantas vezes que estava voltando pra Malásia que, quando se tornou realidade, fiquei até desconfiado. E confesso que até o segundo ou terceiro dia, continuei desconfiado, sem acreditar que aquilo estava acontecendo. Ao pegar o trem expresso do aeroporto até a estação central de Kuala Lumpur, derretia-me vendo aquelas paisagens típicas: as mesquitas, os templos hindus, as plantações de óleo de palma... Apesar de estar tão distante de casa, poucas vezes na vida me senti tão em casa quanto nas minhas primeiras horas na Malásia. Parecia até que eu estava voltando pra casa depois de alguns anos viajando pelo Brasil.
Pegando o trem da estação de Kuala Lumpur para Klang, sofri de algo que ainda não sei bem o que é. Creio que saudades antecipadas. Havia acabado de chegar ao país, mas quase morri de desgosto ao pensar que teria de deixa-lo após duas breves semanas. Via as estações de trem no quadro e me contagiava de nostalgia. Eram as mesmas estações de 10 anos atrás. O trem, porém, havia mudado: os vagões eram mais modernos e bonitos, e havia até vagões especiais para mulheres – que, curiosamente, não eram isolados dos vagões normais. Quando o trem parou na primeira estação e as portas se abriram, eu, bem posicionado em frente delas, senti aquele ar quente de mormaço e aquele cheiro de curry pela primeira vez em muito tempo, vindo bem em cima de mim. Fui tomado por uma felicidade inexplicável. Perguntei a mim mesmo: “O que é que eu tinha na cabeça quando deixei esse país?”.
O trem seguiu em frente. Em menos de uma hora estava em Klang, a cidade onde havia vivido e onde iria ficar novamente. Desci carregando minha mala e, antes de mais nada, fiz questão de tirar aquela selfie em frente à placa da estação – não podia faltar. Peguei o táxi até a casa da família que havia me hospedado nos primeiros meses de meu intercâmbio, e que iria me hospedar novamente. No caminho, fui vendo todas aquelas paisagens às quais me acostumara: o palácio do sultão, os restaurantes de comida indiana, o hospital Tengku Ampuan Rahimah e, enfim, a casa onde havia morado. Logo que apontei no jardim, a primeira coisa que ouvi deles foi: “Mas você não mudou nada, hein?”. Ouvi a mesma frase de quase todos que reencontrei, além de uma outra, ainda mais frequente: “Mas justo agora que todo mundo quer estar no Brasil para ver a copa você resolve vir para a Malásia?!”.
A Malásia é composta por basicamente três etnias: malaios, chineses e indianos. Lá, porém, não houve a atuação decisiva do sangue lusitano para “amolecer” a rigidez das divisões raciais e fazer emergir a miscigenação tão celebrada por Gilberto Freyre. O país é praticamente formado por três países dentro de um só. Essa família na qual fiquei era uma rara exceção: a mãe era malaia, muçulmana, e o pai indiano, convertido ao islamismo antes de se casar com ela. Eles tinham duas filhas. Nenhuma delas usava o véu há dez anos atrás. Agora, porém, a mais nova estava usando.
Após tomar um lanche com eles, fui tomar um banho. Na Malásia é costume encher o balde e tomar banho de caneca. Eu estava suado e cansado da viagem. Quando derramei a primeira caneca de água gelada sobre mim, novamente fui tomado por uma euforia indescritível. A única coisa em que conseguia pensar era: “Nunca mais! Nunca mais saio daqui...! Quero passar a eternidade aqui!”.
Lá estava eu, no mesmo quarto, no mesmo banheiro que eu havia usado dez anos antes. Eles estavam exatamente da forma como eu os havia deixado. Parecia até que estavam ali a me esperar, pacientemente, por todos esses anos.
Mas nem tudo estava igual. Notei que essa família estava bem mais religiosa do que da última vez. Eles passavam quase o dia todo assistindo a um canal islâmico na TV a cabo que transmitia orações, sermões e discussões em torno de história religiosa e do Alcorão. Em certos momentos do dia todo mundo desaparecia, recolhendo-se aos seus respectivos quartos: era o momento da oração para Meca. Parecia que todo mundo havia sido abduzido. A casa, muito escura por causa da pequena quantidade de janelas, ficava vazia e sombria. Nesses momentos eu aproveitava para andar pelas salas, observando tudo cuidadosamente, matando saudade de cada espaço. Mas pouco tempo depois todos reapareciam e nós comíamos!
Aliás, na minha primeira noite de volta à Malásia, tive um dos melhores jantares da minha vida. Uma das coisas da qual mais senti falta no país foi, sem dúvida, a comida. Passei os últimos nove anos de minha vida imaginando quando eu iria comer aquela comida de novo. No meu primeiro jantar, comi o famoso nasi lemak, um dos pratos tradicionais: arroz, pepino, frango e anchovas num molho vermelho muito, mas muito apimentado. Uma delícia! Comi com gosto, como em uma tentativa de matar toda a minha saudade. A pimenta desceu ardendo até meu estômago. Meus olhos lacrimejavam de dor e alegria ao mesmo tempo. Aliás, em meus primeiros dias eu comi tanta coisa e com tanta tenacidade, que tive uma dor de intestino infernal. Por um ou dois dias achei que ia explodir. A comida malásia é tão apimentada e saborosa, que agora que voltei ao Brasil tenho sérios problemas para me reacostumar. Tudo parece tão sem-graça e insípido, que muitas vezes parece que estou comendo e não estou me satisfazendo.
Mas – pimentas e comidas à parte –, quem não gostaria de voltar a ser adolescente com a maturidade que se tem hoje?! Pois esse sempre foi meu maior fetiche com a Malásia. Quando estive lá pela primeira vez era apenas um menino imaturo de 16 anos. Tinha medo de vestibulares e de meninas, era profundamente inseguro e estava sempre disposto a acreditar em quase tudo que me dissessem. Isso me impediu e muito de aproveitar plenamente meu intercâmbio. Mas desde então, quantas coisas me aconteceram! E eu estava de volta àquele lugar, com a maturidade que esses anos todos haviam me conferido. Meus amigos foram unânimes em dizer que eu não mudara fisicamente. Mas, por dentro, só eu tinha consciência do quanto minha cabeça havia mudado. Reconciliar-me com a Malásia: essa era minha meta.
Porém, como disse meu finado tio-avô: aquele lugar de nossa juventude nem sempre está lá inteiro, para nós. Se eu não havia mudado fisicamente, quase todos os meus amigos haviam mudado muito, e não só fisicamente. Um deles, que na escola tinha fama de ser rebelde, está trabalhando em um jornal pró-governo e é um ferrenho crítico da oposição. Outro, que vivia às voltas com sua família por ser homossexual e se deprimia cada vez mais por conta disso, agora é um feliz engenheiro químico trabalhando para as Petronas; ele tem um namorado estável, está financiando uma casa com o próprio dinheiro e, graças à sua independência financeira, já não teme tanto as escaramuças com seus familiares. Outro está trabalhando para uma organização do governo inglês, e viaja pelo mundo todo a trabalho (em uma dessas muitas viagens ele acabou conhecendo um amigo meu daqui de BH; mundo pequeno, não?!). Outro trabalha com plantações de óleo de palma sustentáveis e propôs que eu o ajudasse em um novo negócio de intercâmbio entre frutas brasileiras e malásias. Outro trabalhava em um cassino nas terras altas no interior do país – o único cassino legalizado na Malásia. Já um outro, que não encontrei dessa vez, havia virado traficante de drogas (profissão que dá pena de morte na Malásia), segundo me contou meu amigo que trabalha no jornal pró-governo.
Voltei também à escola na qual havia estudado. Era uma La Salle, escola fundada por missionários ingleses que tem sedes também aqui no Brasil. Visitei a cantina (tomei café da manhã lá), entrei nas salas de aula, relembrei o que fiz e o que vivenciei em cada parte daquele ambiente. Mas a cada passo que dava sentia um vazio danado por saber que aqueles tempos nunca vão voltar. Olhando pelo lado positivo, dei uma baita sorte de aparecer na escola justo num sábado em que estava acontecendo um evento esportivo. Fiquei feliz de encontrar uma grande parte de minhas ex-professoras lá – inclusive a de história! Uma delas me abraçou tão forte quando me viu que por um momento me esqueci que estava na Malásia. Todas ficaram surpresas de saber que eu também havia me tornado professor. Uma delas até me desencorajou de brincadeira, mas com um fundo de seriedade, dizendo pra eu mudar de ideia enquanto era tempo, já que ser professor é muito desgastante.
Outra coisa que havia mudado muito em minha cidade: eu não me sentia mais um alienígena. Há dez anos atrás, para onde ia todos me olhavam com estranheza. Agora, graças à globalização, ocidentais não são mais estranhos à população de Klang. Mas veja bem: Klang é uma cidade nos arredores da capital, região mais internacionalizada. Quando viajei para Kota Bharu, no nordeste do país, aí sim me senti na Malásia de verdade. O estado de Kelantan, do qual Kota Bharu é a capital, é meio que um pedaço do Oriente Médio no Sudeste Asiático. Quase toda a população é malaia/muçulmana, as placas e outdoors são escritos em alfabeto latino e arábico, os shoppings centers não têm cinemas e sexta-feira é feriado, dia santo para o islã. Apesar de ser a capital do estado, Kota Bharu tem ares muito mais provincianos do que urbanos. Parece até uma pequena vila que está começando a se tornar uma cidade média. Num dos shoppings da cidade, descobri que existe uma versão malaia daquela música do Cristiano Araújo (ou seria do Michel Teló? O sertanejo universitário é cheio de dissidências e disputas), "Bara bere". Vocês podem conferia-la nesse link: http://www.youtube.com/watch?v=iqEAKaIqhBc
Visitei o mercado central de Kota Bharu, onde se vendem comidas típicas e artesanato. Esse mercado é famoso por ter apenas vendedoras do sexo feminino. Lá comprovei o quanto é importante saber falar malaio se se quer visitar o país. Quase nenhum estrangeiro que visita ou mora na Malásia aprende malaio, haja vista que grande parte da população do país fala inglês - pelo menos no entorno da capital. Assim, os malaios ficam muito admirados ao verem um estrangeiro, sobretudo ocidental, falando malaio. Tanto que a moça de uma barraca fez desconto para mim em alguns produtos e até me deixou levar um a mais de graça. Isso sem falar que dava pra entender um pouco quando cochichavam sobre mim em voz alta. Fiquei surpreso com minha capacidade de ainda lembrar o malaio mesmo após tantos anos sem praticar.
Em Kota Bharu fiquei hospedado na casa de um casal aposentado que a alugava para turistas. Ambos eram muito amáveis. O dono da casa era mais quieto, mas a mulher era muito culta e amigável. Ela dizia ter uma imensa admiração pelo Lula e pela Dilma, especialmente tendo em vista as torturas pelas quais havia passado e a sua capacidade de se superar e virar presidente. Também afirmou que gostou muito de mim, e que iria orar para que Allah tocasse meu coração e eu me convertesse ao islamismo. E antes que você venha tirar conclusões precipitadas: essa foi a única vez que um muçulmano me sugeriu mudar de religião. Em geral, eles são extremamente respeitosos quanto à sua fé, seja lá qual for. Porém, a dona da pousada disse que havia gostado muito de mim, e que não iria ficar tentando me converter, mas que achava que eu tinha todas as características de um bom muçulmano. Quando eles me levaram ao aeroporto, ela me disse para lhe escrever um e-mail, caso tivesse tomado a decisão de me converter. E disse também que da próxima vez que me hospedasse lá, não precisaria pagar. Fiquei desconcertado com tanta cortesia. Não fiz nada além de agradecê-la muito, e prometer que iria pensar nas suas palavras.
Kelantan era um pedaço da Malásia que eu não havia visitado da primeira vez, mas confesso que foi uma de minhas melhores experiências naquele país. Em Klang, sempre tive muito mais contato com indianos e chineses, vindo a conhecer pouco a cultura malaia, que é, de fato, a que mais me fascinou. O islã chegou à Malásia no século XV, e a mistura entre elementos da cultura malaia pré-islâmica e elementos da cultura árabe-muçulmana gestou uma civilização e uma história sem pares. Algo digno de admiração e muito estudo.
Dois dias após voltar de Kota Bharu foi a vez de conhecer Cingapura, uma pequena ilha ao sul da Península Malaia que fez parte da Malásia entre 1963 e 1965, mas depois se separou. Se Kelantan é um pedaço do Oriente Médio, Cingapura é um pedaço da Europa na Malásia. Todas as placas em inglês (mas também em chinês, malaio e tâmil), transporte público de primeira, ruas limpinhas e um monte de atrações turísticas, como parques temáticos, safáris e coisas do tipo. Enfim, Cingapura é a Disneylândia do Sudeste Asiático.
Eu, porém, fiquei hospedado em um hostel numa área não muito nobre dessa cidade-Estado. Era a região de Geylang, área famosa por concentrar inúmeras casas de prostituição, que é legalizada no país. Quando chegava do centro da cidade à noite e passava perto das casas, os recrutadores logo me abordavam: “Hey, Mr. John, Mr. John, come! I have girl for you!” (embora o significado da palavra “girl” fosse meio ambíguo naquele contexto). Enquanto aqui no Brasil chamamos os estrangeiros de gringos, em Cingapura eles chamam os ocidentais de Mr. John, talvez por nos associarem automaticamente aos americanos. Já na Malásia, curiosamente eles chamam os ocidentais de Mat Salleh (abreviação de Datu Muhammad Salleh), um rebelde de Bornéu que liderou uma rebelião contra o domínio britânico no século XIX. É como se os peruanos resolvessem chamar os espanhóis de Tupac Amaru ou os haitianos chamar os franceses de Toussaint Louverture.
Voltando de Cingapura, faltava apenas um dia para meu retorno ao Brasil. Foi com extremo pesar que desci no aeroporto internacional de Kuala Lumpur para abandonar a Malásia pela segunda vez. Enquanto aguardava para embarcar, vi algo que nunca havia visto nem em um ano na Malásia: um judeu. Ele estava sentado mexendo no laptop, provavelmente aguardando seu voo. Aliás, uma curiosa combinação entre a vitória alemã na Copa e as ofensivas israelenses em Gaza gerou uma onda de antissemitismo e de apologia ao nazismo na Malásia que acabou transbordando para o Facebook. Houve casos de personalidades políticas e artísticas do país postando frases de apoio a Hitler e ao nazismo. Mesmo um amigo meu muçulmano trocou sua foto de capa do Facebook por uma foto de Hitler, ao lado de uma suástica.
O governo da Malásia não reconhece o Estado de Israel e é um grande apoiador da causa palestina. Tanto que, até há pouco tempo atrás, cidadãos da Malásia eram proibidos de voltar ao país caso seu passaporte tivesse um carimbo israelense. Creio que é justamente a ausência de contatos com judeus um dos responsáveis por deixar tantos malaios alheios ao que foi o nazismo e o holocausto, levando-os a essas demonstrações bizarras.
Quando estava me dirigindo ao portão de embarque e apresentei meu passaporte ao policial, ele leu meu sobrenome e brincou: “Alves de Paula Lima... Not Gustavo Lima, huh?”. Apenas ri e disse: “Oh, even here that guy is famous?”. E foi com essa conversa pitoresca que concluí minha segunda experiência na Malásia.
Ao fim e ao cabo, Rubem Alves tinha razão: quando voltamos a um lugar após muito tempo, ele não é mais o mesmo. Mas às vezes ele pode ser ainda melhor do que da primeira vez em que estivemos, especialmente quando aqueles a quem reencontramos mudaram para melhor. Especialmente quando nós mesmos mudamos para melhor. E me arrisco a dizer que aproveitei mais a Malásia nessas breves duas semanas do que em todos os 12 meses que perambulei por lá.
Voltei triste, mas feliz: havia me reconciliado com a Malásia.
Graças a isso, cresci sem saber direito o que era o “modelo tradicional” de escola que ele e os professores de minha escola tanto criticavam. Passei minha infância e adolescência inteira ouvindo que a escola deve ser um lugar que desperta o senso crítico, que o aluno deve ser sujeito do aprendizado, que o professor deve auxiliar o aluno a chegar ao conhecimento por conta própria e que a escola deve preparar para a vida, e não para o vestibular. Acho que isso explica o tremendo enfado com que sempre aturei as aulas da licenciatura nos dois últimos semestres. As matérias da FaE (Faculdade de Educação) nunca foram para mim nada mais do que um interminável e insuportável repeteco de tudo aquilo que eu havia ouvido na escola a vida toda. Cada disciplina parecia uma eterna compilação de truísmos iguaizinhos aos que eu havia visto nas outras disciplinas, só que com palavras diferentes. Não por acaso, várias vezes pensei seriamente em desistir da licenciatura, com medo de não aguentar aquela monotonia até o fim.
Bom, mas eu não estou aqui para falar da FaE, que já me consumiu tempo o bastante.
Apesar de conhecer muito pouco da obra de Rubem Alves, lembro-me bem de uma das últimas entrevistas que ele concedeu, quando já estava bem debilitado, em um documentário que a TV Câmara fez sobre sua vida. Em determinado momento do documentário ele afirma que um dos maiores erros que alguém poderia cometer seria voltar, após muitos anos, a um local marcante de sua infância e juventude com a esperança de matar as saudades. Isso porque quase sempre voltamos àquele lugar esperando reencontrá-lo tal como ele era antes. Esquecemo-nos de que esse lugar mudou, nós mudamos, as pessoas com quem convivemos nele mudaram (ou sequer estão mais ali). Como resultado, tudo o que encontramos é um local estranho, que pouco ou em nada nos lembra daquele espaço que esperávamos reencontrar.
Pois há apenas um mês atrás eu tive essa experiência monumental de voltar a um lugar que marcou minha juventude. 10 anos depois de ter colocado meus pés na Malásia pela primeira vez, aproveitei as férias da Copa do Mundo e uma passagem barata e resolvi retornar à minha segunda terra natal, onde passei 12 dos mais marcantes meses da minha vida. A Malásia foi minha primeira experiência internacional e minha primeira experiência de longa duração longe da família. Logo em minha primeira viagem internacional fui bater em terras tão longínquas para ficar não 1 ou 5 meses, mas um ano!
Era o que eu mais queria: retornar a esse país no qual eu havia crescido e aprendido tanto. Mais do que visitar outros países, mais do que conhecer outros lugares, o que eu sempre quis mesmo foi retornar àquela jovem monarquia do Sudeste Asiático que eu já havia aprendido a amar como se fosse o meu próprio país. Tudo que aconteceu comigo desde o fim da minha adolescência girou em torno disso: meus relacionamentos, meus estudos, minha vida acadêmica e profissional. De uma forma ou de outra, todas as decisões e experiências, decepções e triunfos, tudo que me aconteceu desde meu retorno ao Brasil em junho de 2005 sempre remeteu ao meu aprendizado na Malásia. Correndo o risco de uma comparação grosseira, diria que esse intercâmbio foi, para mim, o mesmo que a Revolução Francesa foi para a história ocidental.
“Mas o que tem nessa Malásia que te deixa assim, Marcelo? Quero conhecer esse país também!”, muitos devem querer me perguntar. Pois eu respondo: não há nada de especial. Vocês podem visitar o país, pode até ser que gostem. Mas o que me atrai tanto nele é a lembrança que guardo dele até hoje. Graças a isso, toda visita que eu eventualmente fizer àquele país sempre terá um significado especial, totalmente diferente da que outras pessoas terão.
No momento em que coloquei os pés na Malásia pela segunda vez, simplesmente não consegui acreditar. Desde que voltei ao Brasil sonhei tantas vezes que estava voltando pra Malásia que, quando se tornou realidade, fiquei até desconfiado. E confesso que até o segundo ou terceiro dia, continuei desconfiado, sem acreditar que aquilo estava acontecendo. Ao pegar o trem expresso do aeroporto até a estação central de Kuala Lumpur, derretia-me vendo aquelas paisagens típicas: as mesquitas, os templos hindus, as plantações de óleo de palma... Apesar de estar tão distante de casa, poucas vezes na vida me senti tão em casa quanto nas minhas primeiras horas na Malásia. Parecia até que eu estava voltando pra casa depois de alguns anos viajando pelo Brasil.
Pegando o trem da estação de Kuala Lumpur para Klang, sofri de algo que ainda não sei bem o que é. Creio que saudades antecipadas. Havia acabado de chegar ao país, mas quase morri de desgosto ao pensar que teria de deixa-lo após duas breves semanas. Via as estações de trem no quadro e me contagiava de nostalgia. Eram as mesmas estações de 10 anos atrás. O trem, porém, havia mudado: os vagões eram mais modernos e bonitos, e havia até vagões especiais para mulheres – que, curiosamente, não eram isolados dos vagões normais. Quando o trem parou na primeira estação e as portas se abriram, eu, bem posicionado em frente delas, senti aquele ar quente de mormaço e aquele cheiro de curry pela primeira vez em muito tempo, vindo bem em cima de mim. Fui tomado por uma felicidade inexplicável. Perguntei a mim mesmo: “O que é que eu tinha na cabeça quando deixei esse país?”.
O trem seguiu em frente. Em menos de uma hora estava em Klang, a cidade onde havia vivido e onde iria ficar novamente. Desci carregando minha mala e, antes de mais nada, fiz questão de tirar aquela selfie em frente à placa da estação – não podia faltar. Peguei o táxi até a casa da família que havia me hospedado nos primeiros meses de meu intercâmbio, e que iria me hospedar novamente. No caminho, fui vendo todas aquelas paisagens às quais me acostumara: o palácio do sultão, os restaurantes de comida indiana, o hospital Tengku Ampuan Rahimah e, enfim, a casa onde havia morado. Logo que apontei no jardim, a primeira coisa que ouvi deles foi: “Mas você não mudou nada, hein?”. Ouvi a mesma frase de quase todos que reencontrei, além de uma outra, ainda mais frequente: “Mas justo agora que todo mundo quer estar no Brasil para ver a copa você resolve vir para a Malásia?!”.
A Malásia é composta por basicamente três etnias: malaios, chineses e indianos. Lá, porém, não houve a atuação decisiva do sangue lusitano para “amolecer” a rigidez das divisões raciais e fazer emergir a miscigenação tão celebrada por Gilberto Freyre. O país é praticamente formado por três países dentro de um só. Essa família na qual fiquei era uma rara exceção: a mãe era malaia, muçulmana, e o pai indiano, convertido ao islamismo antes de se casar com ela. Eles tinham duas filhas. Nenhuma delas usava o véu há dez anos atrás. Agora, porém, a mais nova estava usando.
Após tomar um lanche com eles, fui tomar um banho. Na Malásia é costume encher o balde e tomar banho de caneca. Eu estava suado e cansado da viagem. Quando derramei a primeira caneca de água gelada sobre mim, novamente fui tomado por uma euforia indescritível. A única coisa em que conseguia pensar era: “Nunca mais! Nunca mais saio daqui...! Quero passar a eternidade aqui!”.
Lá estava eu, no mesmo quarto, no mesmo banheiro que eu havia usado dez anos antes. Eles estavam exatamente da forma como eu os havia deixado. Parecia até que estavam ali a me esperar, pacientemente, por todos esses anos.
Mas nem tudo estava igual. Notei que essa família estava bem mais religiosa do que da última vez. Eles passavam quase o dia todo assistindo a um canal islâmico na TV a cabo que transmitia orações, sermões e discussões em torno de história religiosa e do Alcorão. Em certos momentos do dia todo mundo desaparecia, recolhendo-se aos seus respectivos quartos: era o momento da oração para Meca. Parecia que todo mundo havia sido abduzido. A casa, muito escura por causa da pequena quantidade de janelas, ficava vazia e sombria. Nesses momentos eu aproveitava para andar pelas salas, observando tudo cuidadosamente, matando saudade de cada espaço. Mas pouco tempo depois todos reapareciam e nós comíamos!
Aliás, na minha primeira noite de volta à Malásia, tive um dos melhores jantares da minha vida. Uma das coisas da qual mais senti falta no país foi, sem dúvida, a comida. Passei os últimos nove anos de minha vida imaginando quando eu iria comer aquela comida de novo. No meu primeiro jantar, comi o famoso nasi lemak, um dos pratos tradicionais: arroz, pepino, frango e anchovas num molho vermelho muito, mas muito apimentado. Uma delícia! Comi com gosto, como em uma tentativa de matar toda a minha saudade. A pimenta desceu ardendo até meu estômago. Meus olhos lacrimejavam de dor e alegria ao mesmo tempo. Aliás, em meus primeiros dias eu comi tanta coisa e com tanta tenacidade, que tive uma dor de intestino infernal. Por um ou dois dias achei que ia explodir. A comida malásia é tão apimentada e saborosa, que agora que voltei ao Brasil tenho sérios problemas para me reacostumar. Tudo parece tão sem-graça e insípido, que muitas vezes parece que estou comendo e não estou me satisfazendo.
Mas – pimentas e comidas à parte –, quem não gostaria de voltar a ser adolescente com a maturidade que se tem hoje?! Pois esse sempre foi meu maior fetiche com a Malásia. Quando estive lá pela primeira vez era apenas um menino imaturo de 16 anos. Tinha medo de vestibulares e de meninas, era profundamente inseguro e estava sempre disposto a acreditar em quase tudo que me dissessem. Isso me impediu e muito de aproveitar plenamente meu intercâmbio. Mas desde então, quantas coisas me aconteceram! E eu estava de volta àquele lugar, com a maturidade que esses anos todos haviam me conferido. Meus amigos foram unânimes em dizer que eu não mudara fisicamente. Mas, por dentro, só eu tinha consciência do quanto minha cabeça havia mudado. Reconciliar-me com a Malásia: essa era minha meta.
Porém, como disse meu finado tio-avô: aquele lugar de nossa juventude nem sempre está lá inteiro, para nós. Se eu não havia mudado fisicamente, quase todos os meus amigos haviam mudado muito, e não só fisicamente. Um deles, que na escola tinha fama de ser rebelde, está trabalhando em um jornal pró-governo e é um ferrenho crítico da oposição. Outro, que vivia às voltas com sua família por ser homossexual e se deprimia cada vez mais por conta disso, agora é um feliz engenheiro químico trabalhando para as Petronas; ele tem um namorado estável, está financiando uma casa com o próprio dinheiro e, graças à sua independência financeira, já não teme tanto as escaramuças com seus familiares. Outro está trabalhando para uma organização do governo inglês, e viaja pelo mundo todo a trabalho (em uma dessas muitas viagens ele acabou conhecendo um amigo meu daqui de BH; mundo pequeno, não?!). Outro trabalha com plantações de óleo de palma sustentáveis e propôs que eu o ajudasse em um novo negócio de intercâmbio entre frutas brasileiras e malásias. Outro trabalhava em um cassino nas terras altas no interior do país – o único cassino legalizado na Malásia. Já um outro, que não encontrei dessa vez, havia virado traficante de drogas (profissão que dá pena de morte na Malásia), segundo me contou meu amigo que trabalha no jornal pró-governo.
Voltei também à escola na qual havia estudado. Era uma La Salle, escola fundada por missionários ingleses que tem sedes também aqui no Brasil. Visitei a cantina (tomei café da manhã lá), entrei nas salas de aula, relembrei o que fiz e o que vivenciei em cada parte daquele ambiente. Mas a cada passo que dava sentia um vazio danado por saber que aqueles tempos nunca vão voltar. Olhando pelo lado positivo, dei uma baita sorte de aparecer na escola justo num sábado em que estava acontecendo um evento esportivo. Fiquei feliz de encontrar uma grande parte de minhas ex-professoras lá – inclusive a de história! Uma delas me abraçou tão forte quando me viu que por um momento me esqueci que estava na Malásia. Todas ficaram surpresas de saber que eu também havia me tornado professor. Uma delas até me desencorajou de brincadeira, mas com um fundo de seriedade, dizendo pra eu mudar de ideia enquanto era tempo, já que ser professor é muito desgastante.
Outra coisa que havia mudado muito em minha cidade: eu não me sentia mais um alienígena. Há dez anos atrás, para onde ia todos me olhavam com estranheza. Agora, graças à globalização, ocidentais não são mais estranhos à população de Klang. Mas veja bem: Klang é uma cidade nos arredores da capital, região mais internacionalizada. Quando viajei para Kota Bharu, no nordeste do país, aí sim me senti na Malásia de verdade. O estado de Kelantan, do qual Kota Bharu é a capital, é meio que um pedaço do Oriente Médio no Sudeste Asiático. Quase toda a população é malaia/muçulmana, as placas e outdoors são escritos em alfabeto latino e arábico, os shoppings centers não têm cinemas e sexta-feira é feriado, dia santo para o islã. Apesar de ser a capital do estado, Kota Bharu tem ares muito mais provincianos do que urbanos. Parece até uma pequena vila que está começando a se tornar uma cidade média. Num dos shoppings da cidade, descobri que existe uma versão malaia daquela música do Cristiano Araújo (ou seria do Michel Teló? O sertanejo universitário é cheio de dissidências e disputas), "Bara bere". Vocês podem conferia-la nesse link: http://www.youtube.com/watch?v=iqEAKaIqhBc
Visitei o mercado central de Kota Bharu, onde se vendem comidas típicas e artesanato. Esse mercado é famoso por ter apenas vendedoras do sexo feminino. Lá comprovei o quanto é importante saber falar malaio se se quer visitar o país. Quase nenhum estrangeiro que visita ou mora na Malásia aprende malaio, haja vista que grande parte da população do país fala inglês - pelo menos no entorno da capital. Assim, os malaios ficam muito admirados ao verem um estrangeiro, sobretudo ocidental, falando malaio. Tanto que a moça de uma barraca fez desconto para mim em alguns produtos e até me deixou levar um a mais de graça. Isso sem falar que dava pra entender um pouco quando cochichavam sobre mim em voz alta. Fiquei surpreso com minha capacidade de ainda lembrar o malaio mesmo após tantos anos sem praticar.
Em Kota Bharu fiquei hospedado na casa de um casal aposentado que a alugava para turistas. Ambos eram muito amáveis. O dono da casa era mais quieto, mas a mulher era muito culta e amigável. Ela dizia ter uma imensa admiração pelo Lula e pela Dilma, especialmente tendo em vista as torturas pelas quais havia passado e a sua capacidade de se superar e virar presidente. Também afirmou que gostou muito de mim, e que iria orar para que Allah tocasse meu coração e eu me convertesse ao islamismo. E antes que você venha tirar conclusões precipitadas: essa foi a única vez que um muçulmano me sugeriu mudar de religião. Em geral, eles são extremamente respeitosos quanto à sua fé, seja lá qual for. Porém, a dona da pousada disse que havia gostado muito de mim, e que não iria ficar tentando me converter, mas que achava que eu tinha todas as características de um bom muçulmano. Quando eles me levaram ao aeroporto, ela me disse para lhe escrever um e-mail, caso tivesse tomado a decisão de me converter. E disse também que da próxima vez que me hospedasse lá, não precisaria pagar. Fiquei desconcertado com tanta cortesia. Não fiz nada além de agradecê-la muito, e prometer que iria pensar nas suas palavras.
Kelantan era um pedaço da Malásia que eu não havia visitado da primeira vez, mas confesso que foi uma de minhas melhores experiências naquele país. Em Klang, sempre tive muito mais contato com indianos e chineses, vindo a conhecer pouco a cultura malaia, que é, de fato, a que mais me fascinou. O islã chegou à Malásia no século XV, e a mistura entre elementos da cultura malaia pré-islâmica e elementos da cultura árabe-muçulmana gestou uma civilização e uma história sem pares. Algo digno de admiração e muito estudo.
Dois dias após voltar de Kota Bharu foi a vez de conhecer Cingapura, uma pequena ilha ao sul da Península Malaia que fez parte da Malásia entre 1963 e 1965, mas depois se separou. Se Kelantan é um pedaço do Oriente Médio, Cingapura é um pedaço da Europa na Malásia. Todas as placas em inglês (mas também em chinês, malaio e tâmil), transporte público de primeira, ruas limpinhas e um monte de atrações turísticas, como parques temáticos, safáris e coisas do tipo. Enfim, Cingapura é a Disneylândia do Sudeste Asiático.
Eu, porém, fiquei hospedado em um hostel numa área não muito nobre dessa cidade-Estado. Era a região de Geylang, área famosa por concentrar inúmeras casas de prostituição, que é legalizada no país. Quando chegava do centro da cidade à noite e passava perto das casas, os recrutadores logo me abordavam: “Hey, Mr. John, Mr. John, come! I have girl for you!” (embora o significado da palavra “girl” fosse meio ambíguo naquele contexto). Enquanto aqui no Brasil chamamos os estrangeiros de gringos, em Cingapura eles chamam os ocidentais de Mr. John, talvez por nos associarem automaticamente aos americanos. Já na Malásia, curiosamente eles chamam os ocidentais de Mat Salleh (abreviação de Datu Muhammad Salleh), um rebelde de Bornéu que liderou uma rebelião contra o domínio britânico no século XIX. É como se os peruanos resolvessem chamar os espanhóis de Tupac Amaru ou os haitianos chamar os franceses de Toussaint Louverture.
Voltando de Cingapura, faltava apenas um dia para meu retorno ao Brasil. Foi com extremo pesar que desci no aeroporto internacional de Kuala Lumpur para abandonar a Malásia pela segunda vez. Enquanto aguardava para embarcar, vi algo que nunca havia visto nem em um ano na Malásia: um judeu. Ele estava sentado mexendo no laptop, provavelmente aguardando seu voo. Aliás, uma curiosa combinação entre a vitória alemã na Copa e as ofensivas israelenses em Gaza gerou uma onda de antissemitismo e de apologia ao nazismo na Malásia que acabou transbordando para o Facebook. Houve casos de personalidades políticas e artísticas do país postando frases de apoio a Hitler e ao nazismo. Mesmo um amigo meu muçulmano trocou sua foto de capa do Facebook por uma foto de Hitler, ao lado de uma suástica.
O governo da Malásia não reconhece o Estado de Israel e é um grande apoiador da causa palestina. Tanto que, até há pouco tempo atrás, cidadãos da Malásia eram proibidos de voltar ao país caso seu passaporte tivesse um carimbo israelense. Creio que é justamente a ausência de contatos com judeus um dos responsáveis por deixar tantos malaios alheios ao que foi o nazismo e o holocausto, levando-os a essas demonstrações bizarras.
Quando estava me dirigindo ao portão de embarque e apresentei meu passaporte ao policial, ele leu meu sobrenome e brincou: “Alves de Paula Lima... Not Gustavo Lima, huh?”. Apenas ri e disse: “Oh, even here that guy is famous?”. E foi com essa conversa pitoresca que concluí minha segunda experiência na Malásia.
Ao fim e ao cabo, Rubem Alves tinha razão: quando voltamos a um lugar após muito tempo, ele não é mais o mesmo. Mas às vezes ele pode ser ainda melhor do que da primeira vez em que estivemos, especialmente quando aqueles a quem reencontramos mudaram para melhor. Especialmente quando nós mesmos mudamos para melhor. E me arrisco a dizer que aproveitei mais a Malásia nessas breves duas semanas do que em todos os 12 meses que perambulei por lá.
Voltei triste, mas feliz: havia me reconciliado com a Malásia.
Assinar:
Postagens (Atom)