Caio é um jovem estudante de 18 anos de idade de Belo Horizonte. Ele se formou no ensino médio em uma excelente escola particular no fim de 2012 e tentou vestibular para medicina. Infelizmente, sua pontuação no ENEM não foi boa o suficiente. Agora ele é um aluno assíduo de um dos melhores cursinhos da cidade.
Caio passa quase todos os dias no cursinho. Assiste a todas as aulas que pode, anota tudo que consegue, pergunta tudo o que não sabe e até o que sabe. Caio não pode se dar ao luxo de fracassar novamente em sua empreitada, pois esse sempre foi o seu maior sonho: ser médico igual a seus pais. Ele acredita que seu curso de medicina lhe dará o conforto financeiro e a satisfação profissional que ele espera.
Caio só usa roupas de marca: Hollister, Abercombie, e tudo o mais que os homens na moda estiverem usando, sempre combinando com uma bermuda também da moda, em cujo bolso ele traz seu iPhone fabricado com mão de obra escrava chinesa. Seu porte físico de atleta, sua barba sempre por fazer e seu cabelo com gel completam o visual.
A jornada de Caio no cursinho começa cedo. No turno da manhã ele assiste às aulas. No intervalo, vai comer na cantina. Conversando com sua amiga, Caio resmunga impropérios contra o professor de química, dizendo que ele não domina o conteúdo direito, pois precisa consultar suas anotações durante a aula. Diz ainda que professor de cursinho tem que saber toda a matéria de cor, que não pode ficar inseguro nem fraquejar, e que professor assim é despreparado. Por isso, Caio nunca confia em seu professor de química.
Menos confiável ainda é o professor de história. Enquanto os outros professores passam fórmulas feitas, ensinam macetes, bolam truques e toda sorte de artimanhas para que os alunos não esqueçam o conteúdo na hora da prova, o professor de história fica se perdendo em reflexões fúteis e contorcendo-se em discursos complexos que não ajudam em nada pra passar no vestibular. A amiga de Caio argumenta de forma conciliadora, afirmando que o professor de história só está tentando fazer os alunos pensarem por si mesmos. Mas Caio retruca com seu azedume característico, alegando que aquele professor é marxista – igual a todos os professores de história formados na UFMG. Caio não quer reflexões ideologicamente fundadas em uma doutrina que matou milhões de pessoas, ele quer apenas as respostas certas para entrar no seu curso de medicina.
Caio já é um rapaz politizado desde seus tempos de ensino médio. Não raras vezes o jovem se meteu em quiproquós homéricos com seus professores e colegas esquerdistas nas aulas de Revolução Russa e Ditadura Militar. Aliás, quando o Brasil foi escolhido para sediar a Copa do Mundo, Caio bateu boca com seus colegas de escola que, alienados pela doutrinação marxista do MEC, apontavam para os vários inconvenientes sociais e econômicos da realização desse evento no Brasil. Caio contra argumentava que a Copa é uma excelente oportunidade para o crescimento, pois todo país que sedia o evento experimenta uma série de melhorias estruturais. “Só mesmo um bando de esquerdistas cegos pelo marxismo poderia ser contra a realização de uma Copa em seu país”, pensava.
Caio se interessa pela carreira de médico, mas também ama história. Ele complementa o conteúdo do cursinho com aquilo que lê nos guias politicamente incorretos de história que ele ganhou de aniversário de seus pais. Caio tem a coleção completa: os guias politicamente incorretos da história do Brasil, da América Latina e do mundo, e está pensando em comprar o da filosofia. Ele costuma levar um dos guias para ler no cursinho no intervalo entre seus estudos. Com os guias politicamente incorretos, Caio aprendeu que todos os seus professores de história mentiram para ele ao longo do ensino médio e continuam mentindo no cursinho. Lendo-os atentamente a fim de assimilar cada parágrafo, o futuro médico vai aos poucos depurando seu espírito do lixo marxista que tentaram lhe empurrar.
Caio não se deixa levar por tudo que seus professores e monitores de história dizem. Sempre que recebe alguma informação no cursinho, ele corre para seu guia incorreto para ver se é verdade. Não raro, quando estuda em grupo, Caio perde a paciência com seus colegas, alegando que suas opiniões estão erradas porque não batem com as do seu guia. Por fim, acusa-os de estarem se cegando com a doutrinação marxista em sala de aula. Seu professor de história já pediu a ele para buscar informações em outros livros, sites e revistas, mas Caio se recusa. Não quer correr o risco de cair em novas armações marxistas por aí. Assim, ele se agarra ao seu guia como a pedra de salvação diante de tantos meios de informação que querem enganá-lo.
Apesar de tudo, Caio não se considera um conservador. Para Caio, direita e esquerda são tudo a mesma coisa. Ele se considera um apolítico, pois diz que a política é suja, que os partidos políticos são sujos e que todas as instituições políticas são corruptas. Caio acha que o congresso e o senado devem ser fechados, que todos os partidos devem acabar e que deve haver uma grande renovação no cenário político nacional.
A princípio, Caio é um tipo simpático. Porém, graças a esses contratempos em sala de aula ele acaba espantando as pessoas ao seu redor. Mas Caio não se importa. Ele não está ali para se divertir ou para fazer amigos, apenas para passar em medicina. No elevador, na cantina, na sala de aula, onde quer que esteja, é muito raro não ver Caio de cara amarrada, preocupado com seus estudos, irritado com as aulas e professores que ele considera “muito fraquinhos” ou "muito marxistas".
Apesar de sua ortodoxia politicamente incorreta, Caio não é religioso. Isso porque ele aprendeu nas aulas de biologia que Deus não existe. Caio também não tem paciência para futebol. Apesar de sua família ser majoritariamente atleticana, ele raramente acompanha os jogos. Seu grande prazer sempre foi jogar handball, mas agora teve de parar para se dedicar integralmente aos estudos.
Caio é contra cotas de qualquer tipo, pois diz que os negros e pobres não são inferiores a ninguém e, por isso, têm condições de competir em pé de igualdade com qualquer um. Ele também fica iracundo ao saber dos programas do governo para aumentar o número de vagas nas universidades públicas. Para Caio, isso atenta contra os princípios mais básicos da meritocracia. A universidade federal é só para quem pode, e não para quem quer. Aumentar vagas pode contribuir para reduzir o nível da instituição e, consequentemente, manchar o diploma de Caio.
Quando vieram as manifestações de junho de 2013, Caio ouviu o chamado das ruas. Mesmo tendo pilhas de fórmulas a decorar e macetes para aprender, Caio abriu mão de seus estudos por um tempo e saiu às ruas com seus amigos vestindo verde e amarelo. E como não ficava ensandecido o rapaz ao ver movimentos sociais e pessoas ligadas a agremiações políticas protestando ao seu lado... "Todos oportunistas e egoístas", afirma Caio, porque lutam por interesses particulares. Para ele, a única bandeira permitida nas manifestações deveria ser a bandeira do Brasil, pois era mais democrática e representava todos. Por isso ele era sempre o primeiro a puxar os gritos de “aqui não tem partido!” e “abaixa essa bandeira!”. Seus cartazes não ficavam por menos: “foda-se a Copa!”, “não quero dinheiro pra Copa, quero dinheiro pra saúde e educação!” e “enfia a Copa no cu!”. Caio acha um absurdo um governo dar tanta atenção à Copa e deixar de lado outros problemas urgentes, como saúde, educação, moradia, transporte e violência.
Caio acabou de fazer ENEM e dessa vez está confiante em sua nota! Nem isso, porém, consegue dar um jeito na cara torta de nosso futuro médico. Ele teme que, quando entrar na faculdade, terá de assistir aulas junto com uma leva de alunos despreparados que se beneficiaram com a expansão das vagas. Caio não quer ver a qualidade de seu curso de medicina decrescer vertiginosamente. Além do mais, para a infelicidade de Caio, os gritos que ele deu nas ruas foram ouvidos pelas autoridades: o governo decidiu contratar médicos estrangeiros a fim de suprir as áreas do país mais carentes de profissionais de saúde. Caio acha isso tudo um tremendo absurdo, pois esses médicos estarão recebendo salários parcos e roubarão o seu emprego quando ele estiver formado. Isso sem contar no absurdo ainda maior de a vinda desses médicos estar financiando a ditadura cubana.
Após mais um dia de cursinho, Caio volta para casa de ônibus remoendo suas amarguras. No caminho, uma pequena movimentação na rua atrapalha o trânsito: são jovens se manifestando por melhores condições de moradia para famílias carentes de Belo Horizonte. Caio ridiculariza: “Bando de desocupados! Ficam bloqueando o espaço público em nome de interesses privados”. Percebendo que o caminho para casa será longo, ele se acomoda na cadeira e começa a ouvir música em seu iPhone sonhando com o dia que terá seu próprio carro e não precisará depender de transporte coletivo.
"Quem quiser fale mal da literatura. Quanto a mim, direi que devo a ela minha salvação. Venho da rua oprimido, escrevo dez linhas, torno-me olímpico" (Cyro dos Anjos, "O amanuense Belmiro", 1937).
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sábado, 4 de janeiro de 2014
domingo, 28 de julho de 2013
O curioso ano de 2013
Normalmente, fazemos a retrospectiva de um ano quando ele já está chegando ao fim. Entretanto, nesse ano de 2013 têm borbulhado tantos acontecimentos marcantes que eu simplesmente não consegui esperar até que ele acabasse. É possível que ao fim do ano seja necessário rever algumas de minhas conclusões precipitadas, mas isso não é um problema.
Pra começo de conversa, 2013 fechou um ciclo em minha vida, pois no último dia 9 de julho concluí minha graduação. Esse ciclo não começou em 2009, quando iniciei o curso de História, nem tampouco em 2007, quando comecei a minha longa e indecisa peregrinação pelo mundo acadêmico. Esse ciclo começou há exatos dez anos, no triste ano de 2003, quando ingressei no primeiro ano do ensino médio.
A verdade é que minha vida desde 2003 foi de incertezas: sempre soube mais ou menos qual caminho eu queria seguir, embora esse “mais ou menos” persistisse com a força de cem Hércules por todos esses anos. Passei nos dois vestibulares que tentei para dois cursos diferentes. Fiz um curso. Tranquei. Fiz o outro. Tranquei. Voltei ao primeiro. Tranquei novamente. Percebi que não era nada daquilo o que eu queria e prestei vestibular para História. Iniciei minha trajetória no curso em 2009, mas foi resolver uma indecisão para outra logo surgir: pra que área da História migrar? Foi a pergunta que me acompanhou ao longo de quase todo o curso. E só depois de defender minha monografia consegui me sentir seguro diante dela. Era a primeira vez, em dez anos, que eu podia afirmar, confiante, que eu sabia qual caminho queria trilhar.
Mas você sabe o que é escrever uma monografia? No meu caso, foi um exercício de intelecto e medo ao mesmo tempo. Em meu trabalho, dediquei-me a estudar a forma pela qual o Sr. Gustavo Barroso (importante liderança do integralismo brasileiro) analisava a ascensão do fascismo no mundo entre guerras. Ao longo de meus estudos, pude perceber que, para o dito autor, o fascismo seria o “espírito do século XX”, de modo que a ascensão do fascismo em diversas partes do mundo constituía, para ele, quase uma primavera, a ponto de ele proclamar: “nacionalistas de todos os países, uni-vos!”.
Pois bem. Alguns meses depois de começar a redigir meu trabalho, nossa cidade foi pega de surpresa pela divulgação de fotos de um trote na Faculdade de Direito da UFMG. Em uma delas, um aluno segurava uma caloura “fantasiada” de escrava com uma corrente presa ao seu pescoço. Em outra foto, três alunos faziam a saudação nazista enquanto um calouro estava amarrado a uma pilastra. Pra dizer a verdade, tais fotos não me chocaram tanto, até porque sempre soube que acontecem coisas bem piores em trotes de outras universidades e que, por isso mesmo, nem ao menos são fotografadas. Mas, aos poucos, diversos sites foram divulgando informações acerca de um dos alunos, apontando-o como membro de uma organização nacionalista de extrema-direita de inspiração fascista. Vi que o dito rapaz admirava Hitler, ridicularizava quem acreditava no Holocausto e até tecia elogios a importantes líderes fascistas, como Sir Oswald Mosley, líder fascista inglês. E eu, na minha santa ingenuidade, achando que Gustavo Barroso era uma figura caricata de uma espécie cujos principais exemplares haviam se esgotado nos anos 1930, fui obrigado a olhar para meu próprio trabalho de um modo diferente. A princípio, o que me motivou a escrever minha monografia foi ver o quanto o fascismo era louvado até mesmo no Brasil, em contraste com os dias de hoje, nos quais o termo “fascista” virou sinônimo de “truculento” e “repugnante”. Após o famigerado evento na vetusta casa, percebi que meu trabalho era bem mais atual do que eu julgava.
Os eventos da Faculdade de Direito foram uma bomba atômica sobre todos aqueles que haviam se acostumado a traçar uma fronteira entre a universidade e o resto da sociedade, associando esta à barbárie e aquela à civilização. De repente, todos percebemos, estupefatos, que os bárbaros estavam entre nós. Os bárbaros não eram os “vagabundos” sustentados pelo Bolsa Família, os “oportunistas” que ingressavam na universidade por meio de cotas nem os moradores de rua que nos assediavam pedindo esmolas. Os bárbaros haviam penetrado a “elite intelectual” do país e estavam ali mesmo, ao nosso lado, dentro dos muros da universidade, puxando calouros por correntes, prendendo seus colegas a pilastras e se orgulhando disso tudo. Roma havia caído e ninguém percebera!
Mas as coisas não pararam por aí. Pouco tempo depois dos trotes, veio à tona outra foto na internet: um skinhead neonazista enforcava um morador de rua em plena luz do dia na Praça da Savassi. “BH pirou!”, comentou um amigo de um amigo meu no Facebook. Foi isso mesmo o que pensei: BH pirou. Sempre achei que neonazistas fossem um fenômeno restrito ao estado de São Paulo e ao sul do país. Nunca tinha ouvido falar desses elementos por aqui. Fuçando pela internet, vi outras fotos de outros neonazistas de BH. Em uma delas, uma frase que me trespassou como uma estaca: “Belo Horizonte é fascista!”. Confesso que fiquei atordoado ao ler essa máxima. Consumiu-me, de súbito, um medo horrendo de que ela estivesse certa. E novamente eu olhava para minha monografia com um pé atrás, temendo pelas palavras que eu mesmo escrevia. Foi com profundo pesar que precisei admitir que a crença no “fascismo redentor” talvez não fosse mero passadismo. Pelo visto, os “ecos da Giovinezza” não haviam repercutido apenas no espaço, mas também no tempo.
Como fomos descobrir depois, o neonazista da Savassi conhecia o fascista do Direito, mas detestava-o. Chamava-o de “nazi-nerd”, ridicularizando-o por ser alheio à “realidade das ruas”. Aliás, acho que isso é inerente mesmo ao fascismo: uma arrogância tremenda que te faz desprezar tudo e todos que não são exatamente iguais a você, mesmo quando eles se esforçam por sê-lo. Voltemos nossos olhares ao Sr. Gustavo Barroso, sobre quem escrevi. Por maior admirador que ele fosse de Hitler e de sua política, não acho difícil visualizar um desfecho alternativo para a Segunda Guerra no qual tropas nazistas, após tomarem as colônias francesas e inglesas no Caribe, invadissem o Brasil desembarcando nos “verdes mares bravios” do Ceará, pisoteando o solo no qual o pobre integralista havia crescido.
E pra fechar com pompa o primeiro semestre desse estranho e curioso ano, no mês de junho nosso país foi sacudido por ondas de protestos de rua engrossados por aquela mesma juventude que todos acusavam de “acomodada”. A reação imediata da mídia foi desacreditar o movimento. Num segundo momento, quando viram que não ia ter jeito, decidiram aturá-lo. Por fim, criou-se um mantra repetido à exaustão em quase todos os telejornais na hora de noticiar as manifestações de rua. Segundo esse mantra, todo protesto começa pacífico, sem violência, democrático, lindo, maravilhoso, jubiloso, uma gracinha... até o momento em que uma minoria mascarada se infiltra e avacalha tudo. E eu, que já participava de manifestações de rua antes de ser modinha (i.e., antes de ser elogiado pela mídia), aos poucos fui me deparando com a curiosa cena de vários amigos no Facebook demonstrando todo o seu apoio às manifestações – aqueles mesmo amigos que me olhavam com desdém quando eu saía às ruas para protestar há anos atrás. Mas não posso fazer nada, não é? Se a mídia falou que os protestos são legítimos, então todo mundo protesta. Errado era eu de fazer isso antes de a mídia aprovar.
Acontece que aquelas pessoas que saíam às ruas não eram exatamente as mesmas que saíam antes de virar modinha. Havia muita gente nova, que nunca tinha estado ali. Aos poucos, começou a se falar em uma “primavera brasileira”. Meu Facebook nunca esteve tão esquizofrênico como naqueles dias: meus amigos de direita postavam mensagens alarmistas que davam como certo um terrível golpe comunista; meus amigos de esquerda arrancavam os cabelos de medo de um iminente golpe militar. Aliás, se existisse Facebook nos anos 1960, acho que ele estaria desse mesmo jeito na madrugada do dia 31 de março de 1964.
Não só esquizofrênico, o Facebook também estava estranho – tão estranho que quase não o reconheci. Por pelo menos duas semanas seguidas haviam desaparecido daquela rede social os homéricos quebra-paus entre torcedores rivais, as mais batidas mensagens de autoajuda, as fotos de baladas e de comida. Só se falava no “gigante acordado” que saía às ruas sedento por mudanças. Os telejornais do fim da tarde, acostumados a noticiar chacinas, estupros e tantas outras atrocidades, também mudaram: só se mostravam os protestos, nada mais. A sensação que tive naquelas duas semanas foi a de que o tempo estava suspenso, a normalidade fora cancelada. E eu não conseguia fazer nada direito; não conseguia terminar minha monografia, não me concentrava no trabalho e não conseguia sequer comer. Chegava em casa e ia direto para a internet acompanhar o caminhar dos protestos de rua. Com os olhos vidrados na televisão e no notebook, assistia ao desenrolar de todas aquelas passeatas sem acreditar direito que aquilo tudo era real. Foram dias eletrizantes, como eu raramente presenciara. Todas as noites eu ia dormir pilhado e custava a pegar no sono. Foram duas semanas quase mágicas para nosso país, embora não poucas vezes eu tenha me angustiado ao temer por meus amigos que estavam nas ruas, especialmente diante das informações desencontradas que circulavam pela internet.
Infelizmente, não pude participar de forma mais ativa da “primavera brasileira” porque outra primavera me preocupava: a “primavera fascista” dos anos 1930, da qual minha monografia tratava. Não obstante, das poucas vezes em que estive presente, pude notar algumas ocorrências até então inéditas para mim. Uma delas era a hostilidade quase doentia a todos os manifestantes ligados a partidos. Segundo algumas correntes internas de manifestantes, ali não havia partido, de modo que só bandeiras nacionais deveriam ser permitidas. Outro fenômeno frequente eram as palavras de ordem contra as cotas e programas sociais do governo, além dos clamores por um grande salvador da pátria que pudesse retirá-la do mar de lama no qual ela se afogava. Em suma: sem partidos, sem divisões, a nação acima de tudo, a espera por um grande líder. Não foi sem estarrecimento que percebi que aquela primavera começava a se parecer cada vez mais com a primavera que eu estudava.
E assim caminhou o primeiro semestre desse ano de 2013: o fascista do direito, o neonazista da Savassi, os ultranacionalistas das manifestações e eu, às voltas com minha monografia, que deveria tratar do passado, mas dialogava cada vez mais com o presente.
Mas um dia a Copa das Confederações acabou, as manifestações arrefeceram e a normalidade foi restabelecida. Voltou a rotina, voltaram as mensagens de autoajuda no Facebook e voltaram os acontecimentos sangrentos nos jornais do fim da tarde. A Copa das Confederações acabara, mas a Libertadores não. E aqueles que usavam as redes sociais para vibrar com os gols do Galo eram muitas vezes os mesmos que tachavam de “alienados” os usuários que haviam comemorado os gols do Neymar e do Fred na seleção brasileira. As manifestações não cessaram por completo, elas só deixaram de ser o centro das atenções. Mesmo com o fim da "primavera brasileira", tivemos eventos como a concentração de pessoas em frente à casa de Cabral, no Rio, e as ocupações da Câmara Municipal e da Prefeitura de Belo Horizonte. A diferença é que agora os manifestantes voltaram a ser os "vagabundos" que sempre tinham sido antes de o "gigante" acordar. Acabaram-se as regalias. Acabou a bajulação da mídia e a simpatia da opinião pública, acabou o consentimento dos motoristas presos no engarrafamento dizendo que "aquilo tudo é por uma boa causa", acabou o pessoal acenando das janelas dos prédios em apoio aos manifestantes. Se os filhos da classe média saem às ruas para protestar contra a FIFA e a corrupção, tudo bem. Agora, protestar contra o despejo de famílias carentes e exigir a revisão dos contratos com as empresas transportadoras já é vandalismo. Mas agora não adianta mais reclamar. Ano que vem tem Copa do Mundo, e quem sabe aí os protestos de rua recuperam o seu glamour.
Pra começo de conversa, 2013 fechou um ciclo em minha vida, pois no último dia 9 de julho concluí minha graduação. Esse ciclo não começou em 2009, quando iniciei o curso de História, nem tampouco em 2007, quando comecei a minha longa e indecisa peregrinação pelo mundo acadêmico. Esse ciclo começou há exatos dez anos, no triste ano de 2003, quando ingressei no primeiro ano do ensino médio.
A verdade é que minha vida desde 2003 foi de incertezas: sempre soube mais ou menos qual caminho eu queria seguir, embora esse “mais ou menos” persistisse com a força de cem Hércules por todos esses anos. Passei nos dois vestibulares que tentei para dois cursos diferentes. Fiz um curso. Tranquei. Fiz o outro. Tranquei. Voltei ao primeiro. Tranquei novamente. Percebi que não era nada daquilo o que eu queria e prestei vestibular para História. Iniciei minha trajetória no curso em 2009, mas foi resolver uma indecisão para outra logo surgir: pra que área da História migrar? Foi a pergunta que me acompanhou ao longo de quase todo o curso. E só depois de defender minha monografia consegui me sentir seguro diante dela. Era a primeira vez, em dez anos, que eu podia afirmar, confiante, que eu sabia qual caminho queria trilhar.
Mas você sabe o que é escrever uma monografia? No meu caso, foi um exercício de intelecto e medo ao mesmo tempo. Em meu trabalho, dediquei-me a estudar a forma pela qual o Sr. Gustavo Barroso (importante liderança do integralismo brasileiro) analisava a ascensão do fascismo no mundo entre guerras. Ao longo de meus estudos, pude perceber que, para o dito autor, o fascismo seria o “espírito do século XX”, de modo que a ascensão do fascismo em diversas partes do mundo constituía, para ele, quase uma primavera, a ponto de ele proclamar: “nacionalistas de todos os países, uni-vos!”.
Pois bem. Alguns meses depois de começar a redigir meu trabalho, nossa cidade foi pega de surpresa pela divulgação de fotos de um trote na Faculdade de Direito da UFMG. Em uma delas, um aluno segurava uma caloura “fantasiada” de escrava com uma corrente presa ao seu pescoço. Em outra foto, três alunos faziam a saudação nazista enquanto um calouro estava amarrado a uma pilastra. Pra dizer a verdade, tais fotos não me chocaram tanto, até porque sempre soube que acontecem coisas bem piores em trotes de outras universidades e que, por isso mesmo, nem ao menos são fotografadas. Mas, aos poucos, diversos sites foram divulgando informações acerca de um dos alunos, apontando-o como membro de uma organização nacionalista de extrema-direita de inspiração fascista. Vi que o dito rapaz admirava Hitler, ridicularizava quem acreditava no Holocausto e até tecia elogios a importantes líderes fascistas, como Sir Oswald Mosley, líder fascista inglês. E eu, na minha santa ingenuidade, achando que Gustavo Barroso era uma figura caricata de uma espécie cujos principais exemplares haviam se esgotado nos anos 1930, fui obrigado a olhar para meu próprio trabalho de um modo diferente. A princípio, o que me motivou a escrever minha monografia foi ver o quanto o fascismo era louvado até mesmo no Brasil, em contraste com os dias de hoje, nos quais o termo “fascista” virou sinônimo de “truculento” e “repugnante”. Após o famigerado evento na vetusta casa, percebi que meu trabalho era bem mais atual do que eu julgava.
Os eventos da Faculdade de Direito foram uma bomba atômica sobre todos aqueles que haviam se acostumado a traçar uma fronteira entre a universidade e o resto da sociedade, associando esta à barbárie e aquela à civilização. De repente, todos percebemos, estupefatos, que os bárbaros estavam entre nós. Os bárbaros não eram os “vagabundos” sustentados pelo Bolsa Família, os “oportunistas” que ingressavam na universidade por meio de cotas nem os moradores de rua que nos assediavam pedindo esmolas. Os bárbaros haviam penetrado a “elite intelectual” do país e estavam ali mesmo, ao nosso lado, dentro dos muros da universidade, puxando calouros por correntes, prendendo seus colegas a pilastras e se orgulhando disso tudo. Roma havia caído e ninguém percebera!
Mas as coisas não pararam por aí. Pouco tempo depois dos trotes, veio à tona outra foto na internet: um skinhead neonazista enforcava um morador de rua em plena luz do dia na Praça da Savassi. “BH pirou!”, comentou um amigo de um amigo meu no Facebook. Foi isso mesmo o que pensei: BH pirou. Sempre achei que neonazistas fossem um fenômeno restrito ao estado de São Paulo e ao sul do país. Nunca tinha ouvido falar desses elementos por aqui. Fuçando pela internet, vi outras fotos de outros neonazistas de BH. Em uma delas, uma frase que me trespassou como uma estaca: “Belo Horizonte é fascista!”. Confesso que fiquei atordoado ao ler essa máxima. Consumiu-me, de súbito, um medo horrendo de que ela estivesse certa. E novamente eu olhava para minha monografia com um pé atrás, temendo pelas palavras que eu mesmo escrevia. Foi com profundo pesar que precisei admitir que a crença no “fascismo redentor” talvez não fosse mero passadismo. Pelo visto, os “ecos da Giovinezza” não haviam repercutido apenas no espaço, mas também no tempo.
Como fomos descobrir depois, o neonazista da Savassi conhecia o fascista do Direito, mas detestava-o. Chamava-o de “nazi-nerd”, ridicularizando-o por ser alheio à “realidade das ruas”. Aliás, acho que isso é inerente mesmo ao fascismo: uma arrogância tremenda que te faz desprezar tudo e todos que não são exatamente iguais a você, mesmo quando eles se esforçam por sê-lo. Voltemos nossos olhares ao Sr. Gustavo Barroso, sobre quem escrevi. Por maior admirador que ele fosse de Hitler e de sua política, não acho difícil visualizar um desfecho alternativo para a Segunda Guerra no qual tropas nazistas, após tomarem as colônias francesas e inglesas no Caribe, invadissem o Brasil desembarcando nos “verdes mares bravios” do Ceará, pisoteando o solo no qual o pobre integralista havia crescido.
E pra fechar com pompa o primeiro semestre desse estranho e curioso ano, no mês de junho nosso país foi sacudido por ondas de protestos de rua engrossados por aquela mesma juventude que todos acusavam de “acomodada”. A reação imediata da mídia foi desacreditar o movimento. Num segundo momento, quando viram que não ia ter jeito, decidiram aturá-lo. Por fim, criou-se um mantra repetido à exaustão em quase todos os telejornais na hora de noticiar as manifestações de rua. Segundo esse mantra, todo protesto começa pacífico, sem violência, democrático, lindo, maravilhoso, jubiloso, uma gracinha... até o momento em que uma minoria mascarada se infiltra e avacalha tudo. E eu, que já participava de manifestações de rua antes de ser modinha (i.e., antes de ser elogiado pela mídia), aos poucos fui me deparando com a curiosa cena de vários amigos no Facebook demonstrando todo o seu apoio às manifestações – aqueles mesmo amigos que me olhavam com desdém quando eu saía às ruas para protestar há anos atrás. Mas não posso fazer nada, não é? Se a mídia falou que os protestos são legítimos, então todo mundo protesta. Errado era eu de fazer isso antes de a mídia aprovar.
Acontece que aquelas pessoas que saíam às ruas não eram exatamente as mesmas que saíam antes de virar modinha. Havia muita gente nova, que nunca tinha estado ali. Aos poucos, começou a se falar em uma “primavera brasileira”. Meu Facebook nunca esteve tão esquizofrênico como naqueles dias: meus amigos de direita postavam mensagens alarmistas que davam como certo um terrível golpe comunista; meus amigos de esquerda arrancavam os cabelos de medo de um iminente golpe militar. Aliás, se existisse Facebook nos anos 1960, acho que ele estaria desse mesmo jeito na madrugada do dia 31 de março de 1964.
Não só esquizofrênico, o Facebook também estava estranho – tão estranho que quase não o reconheci. Por pelo menos duas semanas seguidas haviam desaparecido daquela rede social os homéricos quebra-paus entre torcedores rivais, as mais batidas mensagens de autoajuda, as fotos de baladas e de comida. Só se falava no “gigante acordado” que saía às ruas sedento por mudanças. Os telejornais do fim da tarde, acostumados a noticiar chacinas, estupros e tantas outras atrocidades, também mudaram: só se mostravam os protestos, nada mais. A sensação que tive naquelas duas semanas foi a de que o tempo estava suspenso, a normalidade fora cancelada. E eu não conseguia fazer nada direito; não conseguia terminar minha monografia, não me concentrava no trabalho e não conseguia sequer comer. Chegava em casa e ia direto para a internet acompanhar o caminhar dos protestos de rua. Com os olhos vidrados na televisão e no notebook, assistia ao desenrolar de todas aquelas passeatas sem acreditar direito que aquilo tudo era real. Foram dias eletrizantes, como eu raramente presenciara. Todas as noites eu ia dormir pilhado e custava a pegar no sono. Foram duas semanas quase mágicas para nosso país, embora não poucas vezes eu tenha me angustiado ao temer por meus amigos que estavam nas ruas, especialmente diante das informações desencontradas que circulavam pela internet.
Infelizmente, não pude participar de forma mais ativa da “primavera brasileira” porque outra primavera me preocupava: a “primavera fascista” dos anos 1930, da qual minha monografia tratava. Não obstante, das poucas vezes em que estive presente, pude notar algumas ocorrências até então inéditas para mim. Uma delas era a hostilidade quase doentia a todos os manifestantes ligados a partidos. Segundo algumas correntes internas de manifestantes, ali não havia partido, de modo que só bandeiras nacionais deveriam ser permitidas. Outro fenômeno frequente eram as palavras de ordem contra as cotas e programas sociais do governo, além dos clamores por um grande salvador da pátria que pudesse retirá-la do mar de lama no qual ela se afogava. Em suma: sem partidos, sem divisões, a nação acima de tudo, a espera por um grande líder. Não foi sem estarrecimento que percebi que aquela primavera começava a se parecer cada vez mais com a primavera que eu estudava.
E assim caminhou o primeiro semestre desse ano de 2013: o fascista do direito, o neonazista da Savassi, os ultranacionalistas das manifestações e eu, às voltas com minha monografia, que deveria tratar do passado, mas dialogava cada vez mais com o presente.
Mas um dia a Copa das Confederações acabou, as manifestações arrefeceram e a normalidade foi restabelecida. Voltou a rotina, voltaram as mensagens de autoajuda no Facebook e voltaram os acontecimentos sangrentos nos jornais do fim da tarde. A Copa das Confederações acabara, mas a Libertadores não. E aqueles que usavam as redes sociais para vibrar com os gols do Galo eram muitas vezes os mesmos que tachavam de “alienados” os usuários que haviam comemorado os gols do Neymar e do Fred na seleção brasileira. As manifestações não cessaram por completo, elas só deixaram de ser o centro das atenções. Mesmo com o fim da "primavera brasileira", tivemos eventos como a concentração de pessoas em frente à casa de Cabral, no Rio, e as ocupações da Câmara Municipal e da Prefeitura de Belo Horizonte. A diferença é que agora os manifestantes voltaram a ser os "vagabundos" que sempre tinham sido antes de o "gigante" acordar. Acabaram-se as regalias. Acabou a bajulação da mídia e a simpatia da opinião pública, acabou o consentimento dos motoristas presos no engarrafamento dizendo que "aquilo tudo é por uma boa causa", acabou o pessoal acenando das janelas dos prédios em apoio aos manifestantes. Se os filhos da classe média saem às ruas para protestar contra a FIFA e a corrupção, tudo bem. Agora, protestar contra o despejo de famílias carentes e exigir a revisão dos contratos com as empresas transportadoras já é vandalismo. Mas agora não adianta mais reclamar. Ano que vem tem Copa do Mundo, e quem sabe aí os protestos de rua recuperam o seu glamour.
quinta-feira, 18 de abril de 2013
A lenda das tribos do sol e da lua
Em um recôndito local do continente americano, habitavam vários índios em aldeamentos em meio à mata densa. Todos esses indígenas viviam em um estado latente de conflito que, de tempos em tempos, acabava se concretizando. Acontece que esses nativos estavam fortemente divididos entre as tribos que adoravam o sol e as tribos adoravam a lua, o que alimentava uma rivalidade cada vez mais acirrada entre ambos os lados. Os conflitos entre os adoradores do sol e os adoradores da lua irrompiam bruscamente sempre que um fenômeno natural recorrente era presenciado pelos indígenas: quando a lua saía e o sol surgia, os adoradores do sol entravam em êxtase, cantavam louvores ao seu astro e atiravam humilhantes zombarias aos adoradores da lua, caçoando da fraqueza de seu ídolo, que se retirara; entretanto, era só o sol sair e dar espaço à lua que os adoradores desta iniciavam sua marcha triunfante entre as aldeias e as florestas, cantando a supremacia de seu ídolo e atazanando os adoradores do sol.
Com isso, adoradores do sol e adoradores da lua nunca viviam em paz. O período que se seguia ao triunfo do sol era marcado, quase sempre, por festividades nas quais seus adoradores agradeciam ao seu astro pela bondade, pela misericórdia e pelas bonanças trazidas. O período posterior ao triunfo da lua presenciava rituais, danças e as mais diversas e alegres manifestações por parte de seus seguidores, que se embriagavam exaltando o seu deus. Cada um dos grupos nutria a esperança de que um dia seu ídolo despontaria no céu e por lá ficaria por toda a eternidade, sem jamais permitir o retorno do outro. Entretanto, isso nunca ocorria. O sonho de um sol eterno ou de uma lua eterna, por algum capricho do destino, nunca era concretizado, embora nossos nativos nunca perdessem a esperança de algum dia presenciá-lo.
Num belo dia, em uma das muitas aparições do sol, seus adoradores saíram cantando vivas e louvores ao astro, exaltando sua superioridade sobre a lua, cantando suas virtudes e expressando suas mais sinceras esperanças de que, dali por diante, o sol nunca mais morreria. Mas eis que estavam enganados: após algum tempo, o sol saiu, a lua entrou e seus adoradores, ainda guardando as mágoas recentes de sua humilhação, voltaram com todo o vapor à ativa e disseram que os adoradores do sol estavam enganados, pois, como bem se podia ver pelo céu, era a lua quem predominava. Os adoradores da lua triunfaram e vingaram-se esplendidamente dos adoradores do sol, cujas esperanças já estavam quase acabando... Até que novamente o sol saiu!
De imediato, os adoradores do sol que se prostravam no chão diante dos impropérios dos servos da lua se levantaram, deram vivas ao seu astro que voltava triunfante e contemplaram os seus inimigos se prostrando no chão novamente. Os adoradores da lua choravam, se angustiavam, imploravam pelo seu deus e juravam vingança contra os servos do sol tão logo a lua retornasse. O retorno da lua não tardou. Aos poucos o sol se retirou de cena, a lua se impôs e os seus discípulos deram vivas a ela, novamente submetendo os adoradores do sol a humilhantes provocações.
Os adoradores do sol juravam que a lua era inferior, maléfica, ameaçadora e digna de nunca mais ocupar o espaço celeste. Eles sentiam imenso prazer em sacrificar animais e até outros homens em honra ao sol, mas sempre se lamentavam após esses sacrifícios, pois sabiam que nunca tinham feito o suficiente para proporcionar ao sol aquilo que ele merecia. “Blasfêmia!”, diziam os adoradores da lua. A lua, para eles, era imensamente superior, sem sombra de dúvidas, e tal superioridade era tão evidente que nem demandava comparações.
Se o sol estava no céu, seus adoradores, cheios de certezas e orgulho, proclamavam que “Sim, o sol sempre foi o melhor, ele sempre sobrepujou a lua, e, ao fim e ao cabo, o sol sempre vence!”. Mas era só a lua chegar, espantando o sol, que os adoradores da lua dirigiam-se aos adoradores do sol: “Como têm coragem de cantar as glórias de um astro tão decrépito como o sol?! Foi só a lua surgir que ele humildemente lhe cedeu espaço, sem nem questionar! Longa vida à lua!”.
Até que um dia o sol não saiu, pois nuvens espessas e escuras encobriam o céu e impediam todos os habitantes das aldeias de enxergarem-no. Regozijaram-se os servos da lua: “Seu astro os abandonou! Graças ao meu amor à lua não preciso me curvar diante de um deus que se esconde de seus servos!”. A lua não estava no céu, mas seus fieis estavam radiantes: o sol fora vencido pelas nuvens! Seu contentamento era tão grande quanto o dos adoradores do sol quando, em uma noite escura, perceberam que a lua também não sairia, bloqueada que estava pelas mesmas nuvens. Foi a vez dos adoradores do sol novamente se regozijarem e cantarem louvores às nuvens, por terem derrotado a lua desprezível. Os adoradores da lua caçoavam dos adoradores do sol, acusando-os de adorarem justamente as mesmas nuvens que haviam bloqueado o sol. Mas os servos do sol eram surdos a tais chacotas, e diziam-se grandes admiradores das nuvens graças ao serviço por elas prestado. Mas após um tempo o céu clareou, o sol não veio, encoberto pelas nuvens, e novamente os adoradores do sol se humilharam, traídos pelas nuvens. Aos adoradores da lua restaram o júbilo, as alegrias e os cantos – não mais à lua, mas às nuvens.
Até que em um dado momento todos se preocuparam. Os adoradores do sol começaram a fazer grandes fogueiras, pois acreditavam que assim atrairiam o sol de volta, no que foram copiados pelos adoradores da lua. A fogueira em prol do sol crescia muito, mas sempre era ultrapassada pela fogueira em homenagem à lua. A disputa entre as duas fogueiras se tornou crucial: quem fizesse a maior fogueira conquistaria seu deus de volta. Teve início uma ânsia desenfreada por se fazerem fogueiras altas, largas, vistosas e luminosas. Tudo o que havia para se lançar na fogueira para aumentar o fogo era lançado. E assim as fogueiras cresciam a olhos vistos, dia após dia.
As nuvens que encobriam o céu aos poucos iam saindo, mas os bravos indígenas não se davam conta: a fumaça de suas monstruosas fogueiras ia subindo e encobrindo o sol e a lua, deixando seus servos cada vez mais angustiados. Os adoradores do sol subiram no monte mais alto que encontraram para tentar puxar o sol de volta de onde ele havia se escondido, mas sem sucesso. Gritaram, por muito tempo gritaram, mas o sol não respondeu. Por fim, atiraram flechas contra o sol para se vingarem de sua desfeita, gritando-lhe impropérios e acusando-o de traidor.
Os adoradores da lua se riram quando seus rivais desceram do monte, ridicularizando sua situação. Porém, quando questionados “E onde está sua lua?!”, não tiveram uma boa resposta. Organizaram apenas uma expedição a outro monte, de onde tentaram – primeiro de forma humilde, depois insistente e por fim enfurecida – convencer a lua a reaparecer. Tudo em vão. A lua não lhes respondeu e eles desceram à terra igualmente frustrados, sob a zombaria dos adoradores do sol. Enquanto isso, as fogueiras ardiam sem cessar, cada vez mais, cada dia mais forte.
O sol não mais apareceu. A lua tampouco. Os adoradores do primeiro juraram que ele estava embrenhado em uma luta de morte contra a lua, e que retornaria após vencê-la. Os adoradores da lua retrucavam, dizendo que a lua estava seduzindo o sol para depois lança-lo em uma armadilha. Esperaram pacientemente, e nenhum dos deuses ressurgiu das nuvens espessas. O tempo passou, e a paciência de nossos leais índios também. Não demorou a surgirem acusações de que a lua era a culpada pelas nuvens, e de que ela havia se valido da energia de seus muitos servos para dominar o céu e tornar tudo obscuro. Mas também se acusava o sol de ter se valido dos sacrifícios de seus servos para cegar a todos os nativos, até o ponto em que eles não mais conseguiam ver ninguém, sol ou lua. “É mentira!”, diziam os servos do sol. “É a pura verdade!”, redarguiam os adoradores da lua.
As fogueiras se alastraram: queimaram árvores, plantações, malocas, animais e pessoas. Poucos escaparam do incêndio, e aqueles que o fizeram, fugiram para bem longe dali. Sem ninguém para alimentá-lo, o fogo cessou, as nuvens lentamente se desfizeram e o sol e a lua voltaram: brilhantes como nunca, indiferentes como nunca a tudo o que acontecia lá embaixo.
Com isso, adoradores do sol e adoradores da lua nunca viviam em paz. O período que se seguia ao triunfo do sol era marcado, quase sempre, por festividades nas quais seus adoradores agradeciam ao seu astro pela bondade, pela misericórdia e pelas bonanças trazidas. O período posterior ao triunfo da lua presenciava rituais, danças e as mais diversas e alegres manifestações por parte de seus seguidores, que se embriagavam exaltando o seu deus. Cada um dos grupos nutria a esperança de que um dia seu ídolo despontaria no céu e por lá ficaria por toda a eternidade, sem jamais permitir o retorno do outro. Entretanto, isso nunca ocorria. O sonho de um sol eterno ou de uma lua eterna, por algum capricho do destino, nunca era concretizado, embora nossos nativos nunca perdessem a esperança de algum dia presenciá-lo.
Num belo dia, em uma das muitas aparições do sol, seus adoradores saíram cantando vivas e louvores ao astro, exaltando sua superioridade sobre a lua, cantando suas virtudes e expressando suas mais sinceras esperanças de que, dali por diante, o sol nunca mais morreria. Mas eis que estavam enganados: após algum tempo, o sol saiu, a lua entrou e seus adoradores, ainda guardando as mágoas recentes de sua humilhação, voltaram com todo o vapor à ativa e disseram que os adoradores do sol estavam enganados, pois, como bem se podia ver pelo céu, era a lua quem predominava. Os adoradores da lua triunfaram e vingaram-se esplendidamente dos adoradores do sol, cujas esperanças já estavam quase acabando... Até que novamente o sol saiu!
De imediato, os adoradores do sol que se prostravam no chão diante dos impropérios dos servos da lua se levantaram, deram vivas ao seu astro que voltava triunfante e contemplaram os seus inimigos se prostrando no chão novamente. Os adoradores da lua choravam, se angustiavam, imploravam pelo seu deus e juravam vingança contra os servos do sol tão logo a lua retornasse. O retorno da lua não tardou. Aos poucos o sol se retirou de cena, a lua se impôs e os seus discípulos deram vivas a ela, novamente submetendo os adoradores do sol a humilhantes provocações.
Os adoradores do sol juravam que a lua era inferior, maléfica, ameaçadora e digna de nunca mais ocupar o espaço celeste. Eles sentiam imenso prazer em sacrificar animais e até outros homens em honra ao sol, mas sempre se lamentavam após esses sacrifícios, pois sabiam que nunca tinham feito o suficiente para proporcionar ao sol aquilo que ele merecia. “Blasfêmia!”, diziam os adoradores da lua. A lua, para eles, era imensamente superior, sem sombra de dúvidas, e tal superioridade era tão evidente que nem demandava comparações.
Se o sol estava no céu, seus adoradores, cheios de certezas e orgulho, proclamavam que “Sim, o sol sempre foi o melhor, ele sempre sobrepujou a lua, e, ao fim e ao cabo, o sol sempre vence!”. Mas era só a lua chegar, espantando o sol, que os adoradores da lua dirigiam-se aos adoradores do sol: “Como têm coragem de cantar as glórias de um astro tão decrépito como o sol?! Foi só a lua surgir que ele humildemente lhe cedeu espaço, sem nem questionar! Longa vida à lua!”.
Até que um dia o sol não saiu, pois nuvens espessas e escuras encobriam o céu e impediam todos os habitantes das aldeias de enxergarem-no. Regozijaram-se os servos da lua: “Seu astro os abandonou! Graças ao meu amor à lua não preciso me curvar diante de um deus que se esconde de seus servos!”. A lua não estava no céu, mas seus fieis estavam radiantes: o sol fora vencido pelas nuvens! Seu contentamento era tão grande quanto o dos adoradores do sol quando, em uma noite escura, perceberam que a lua também não sairia, bloqueada que estava pelas mesmas nuvens. Foi a vez dos adoradores do sol novamente se regozijarem e cantarem louvores às nuvens, por terem derrotado a lua desprezível. Os adoradores da lua caçoavam dos adoradores do sol, acusando-os de adorarem justamente as mesmas nuvens que haviam bloqueado o sol. Mas os servos do sol eram surdos a tais chacotas, e diziam-se grandes admiradores das nuvens graças ao serviço por elas prestado. Mas após um tempo o céu clareou, o sol não veio, encoberto pelas nuvens, e novamente os adoradores do sol se humilharam, traídos pelas nuvens. Aos adoradores da lua restaram o júbilo, as alegrias e os cantos – não mais à lua, mas às nuvens.
Até que em um dado momento todos se preocuparam. Os adoradores do sol começaram a fazer grandes fogueiras, pois acreditavam que assim atrairiam o sol de volta, no que foram copiados pelos adoradores da lua. A fogueira em prol do sol crescia muito, mas sempre era ultrapassada pela fogueira em homenagem à lua. A disputa entre as duas fogueiras se tornou crucial: quem fizesse a maior fogueira conquistaria seu deus de volta. Teve início uma ânsia desenfreada por se fazerem fogueiras altas, largas, vistosas e luminosas. Tudo o que havia para se lançar na fogueira para aumentar o fogo era lançado. E assim as fogueiras cresciam a olhos vistos, dia após dia.
As nuvens que encobriam o céu aos poucos iam saindo, mas os bravos indígenas não se davam conta: a fumaça de suas monstruosas fogueiras ia subindo e encobrindo o sol e a lua, deixando seus servos cada vez mais angustiados. Os adoradores do sol subiram no monte mais alto que encontraram para tentar puxar o sol de volta de onde ele havia se escondido, mas sem sucesso. Gritaram, por muito tempo gritaram, mas o sol não respondeu. Por fim, atiraram flechas contra o sol para se vingarem de sua desfeita, gritando-lhe impropérios e acusando-o de traidor.
Os adoradores da lua se riram quando seus rivais desceram do monte, ridicularizando sua situação. Porém, quando questionados “E onde está sua lua?!”, não tiveram uma boa resposta. Organizaram apenas uma expedição a outro monte, de onde tentaram – primeiro de forma humilde, depois insistente e por fim enfurecida – convencer a lua a reaparecer. Tudo em vão. A lua não lhes respondeu e eles desceram à terra igualmente frustrados, sob a zombaria dos adoradores do sol. Enquanto isso, as fogueiras ardiam sem cessar, cada vez mais, cada dia mais forte.
O sol não mais apareceu. A lua tampouco. Os adoradores do primeiro juraram que ele estava embrenhado em uma luta de morte contra a lua, e que retornaria após vencê-la. Os adoradores da lua retrucavam, dizendo que a lua estava seduzindo o sol para depois lança-lo em uma armadilha. Esperaram pacientemente, e nenhum dos deuses ressurgiu das nuvens espessas. O tempo passou, e a paciência de nossos leais índios também. Não demorou a surgirem acusações de que a lua era a culpada pelas nuvens, e de que ela havia se valido da energia de seus muitos servos para dominar o céu e tornar tudo obscuro. Mas também se acusava o sol de ter se valido dos sacrifícios de seus servos para cegar a todos os nativos, até o ponto em que eles não mais conseguiam ver ninguém, sol ou lua. “É mentira!”, diziam os servos do sol. “É a pura verdade!”, redarguiam os adoradores da lua.
As fogueiras se alastraram: queimaram árvores, plantações, malocas, animais e pessoas. Poucos escaparam do incêndio, e aqueles que o fizeram, fugiram para bem longe dali. Sem ninguém para alimentá-lo, o fogo cessou, as nuvens lentamente se desfizeram e o sol e a lua voltaram: brilhantes como nunca, indiferentes como nunca a tudo o que acontecia lá embaixo.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Páginas de combate - parte II
O constrangedor evento que protagonizei em presença de alguns estudantes malásios, narrado no meu último texto (Páginas de combate, parte 1), é mera ilustração de algo que se vê naquele país com uma frequência incômoda: uma ingênua hipocrisia que chega a beirar as raias do descalabro. Sempre desconfie de estudantes da Malásia que se dizem flexíveis e com mente aberta para todos os temas, pois todas aquelas mentes se fecham mais rápido do que um esfíncter tão logo entram em contato com a palavra “sexo”. Desconfie mais ainda quando eles (os malásios, estudantes ou não, quem quer que seja) vierem te importunar com uma conversa marrenta sobre “diferentes raças vivendo em harmonia num mesmo país”.
Historicamente, os territórios que posteriormente comporiam a Malásia foram ocupados por basicamente três grupos étnicos: os malaios, naturais da região e culturalmente próximos dos indonésios; os indianos, responsáveis por introduzir o islamismo no país e, mais tarde, importante força de trabalho na extração de látex ao longo do começo do século XX; e os chineses, que desde tempos imemoriais eram assíduos comerciantes naquela região.
A propaganda oficial veiculada pelo governo – e comprada em massa por grande parte da opinião pública – é a de que a Malásia é uma réplica da ONU, onde diferentes raças convivem pacificamente e amigavelmente em um mesmo território. O orgulho que eles possuem de ser um país multirracial é tão grande que não raras vezes eu fui surpreendido com perguntas do tipo: “por que o Ronaldinho Gaúcho é negro e você é branco?”, ou ainda “por que você não tem cabelo encaracolado como os demais brasileiros?”. Ou seja: na cabeça de um malásio, todos os países do mundo são monorraciais, menos eles mesmos. Por isso acho que ficam em choque ao saber que têm países no mundo formados, como eles, por mais de uma etnia. Sempre busquei explicar, portanto, que o Brasil tinha sido constituído, assim como a Malásia, por três “raças” (europeus, índios e africanos), a fim de esclarecê-los sobre os motivos de eu ser tão diferente daqueles jogadores brasileiros que eles viam no futebol europeu.
A questão é que, diferente do Brasil, na Malásia a miscigenação não foi a regra. Somente nos últimos anos têm sido mais frequentes os casamentos inter-raciais, e não podia ser diferente. Por mais que o governo insista à exaustão em vender a imagem de um país no qual indianos, chineses e malaios (ou, se preferirem, cristãos, muçulmanos, hindus e budistas) vivem na mais completa paz, é só você ter uma pequena conversa em particular com um chinês para ele lhe dizer o quanto odeia os malaios. Ou então com um indiano, pra que ele lhe diga o quanto odeia os chineses. E por aí vai. Lá, temos um exemplo clássico de racismo institucionalizado. Os malaios, por serem maioria e deterem o poder político, gozam de uma série de privilégios: têm cotas nas universidades, acesso mais fácil a cargos públicos e preços mais baixos na hora de comprar terrenos. Os chineses são o segundo grupo étnico mais numeroso e, embora tenham menos influência política, são relativamente mais prósperos economicamente. Por fim, os indianos são a minoria da população, não gozando de poder político nem econômico significativos. Lembro-me bem de quando contei a dois indianos que eu queria estudar para ser diplomata, e eles responderam rindo, dizendo que eles, como indianos na Malásia, jamais poderiam sonhar com isso, pois tais cargos eram reservados só para os malaios.
O resultado desse estado de coisas é um diz-que-me-diz de proporções astronômicas, no qual chineses e indianos acusam malaios de serem preguiçosos porque já têm tudo na mão, chineses zombam de indianos por serem sujos, pobres e escuros (juro que já ouvi isso) e indianos acusam chineses de serem interesseiros e materialistas, só pensando no dinheiro. Esse show de baixarias não acontece em público, visto que todo malásio aparentemente nasce educado a não falar na cara esse tipo de coisa. Quando os estrangeiros como eu chegam é que eles aproveitam para abrir o berreiro. Um amigo chinês me disse uma vez que os malaios são o grande problema do país, e um outro, também chinês, afirmou com segurança que os malaios e indianos têm inveja dos chineses porque eles têm pele branca. Isso sem falar num outro amigo meu, chinês evangélico, que havia me passado o ICQ (lembrem-se que meu intercâmbio foi em 2004-2005!) de vários colegas dele e me assegurado que eu não precisava me preocupar porque todas aquelas pessoas que ele havia me apresentado eram cristãs. Parece que os atritos étnicos e religiosos são tão grandes que eles automaticamente assumem que os estrangeiros que aportam no país estão dispostos a participar deles.
Sendo assim, se um dia estiver na Malásia e vierem te dizer que lá todas as raças convivem em harmonia, faça como se estivesse conversando com um homem que se diz Napoleão: apenas incline a cabeça e concorde com tudo. Não há motivos para discutir porque, nesse ponto, eles nunca dão o braço a torcer. Acho que o sonho dos potentados locais é que Gilberto Freyre nasça malaio na próxima encarnação. Para todo espírito que resolver questionar a democracia racial na Malásia sempre existirá um malásio para dizer: “we are Malaysians; we are open-minded”. E eu já experimentei na pele o que significa ser mente aberta na terra das Petronas (vide minha experiência com os estudantes descolados).
Como todo brasileiro, não fui poupado das perguntas sobre futebol – assunto que eu nunca dominei com maestria, tanto no falar como no jogar (e naquela época menos ainda). Tudo o que se sabe na Malásia sobre o Brasil é que muitos jogadores daqui jogavam em clubes europeus. Parece que eles imaginam o Brasil como uma grande linha de montagem de jogadores de futebol destinados à exportação, e que todos os brasileiros, mesmo os que não eram exportados, eram exímios jogadores de futebol. Os malásios, de fato, amam futebol, e acompanham com fervor o campeonato inglês. Para eles, a Inglaterra é a grande referência no futebol mundial. Por isso frequentemente alguns colegas de escola me perguntavam por que jogadores consagrados como Ronaldo e Ronaldinho não atuavam no futebol inglês (pergunta essa que nunca consegui responder com muita segurança). Perguntavam-me também se eu conhecia algum jogador de futebol brasileiro, se eu já os havia visto jogar ao vivo ou se eu falava a mesma língua que eles. Isso sem mencionar as vezes em que me perguntaram por que o Brasil não estava participando da Euro-2004.
Outra visão interessante que alguns malásios tinham do Brasil acabou me pegando desprevenido. Por muito tempo o Brasil foi conhecido como o “celeiro do mundo”. Na Malásia, porém, ele é hoje conhecido não só como o “estádio do mundo”, como já vimos, mas também como a “boate do mundo”. Uma ou outra vez, quando notou meu jeito mais reservado e quieto de ser, alguém se surpreendeu, alegando pensar que os brasileiros eram pessoas felizes, animadas e festeiras. Também nunca tive uma boa resposta para essas perguntas, embora hoje eu pudesse pensar em milhares de boas respostas. Eu poderia responder: “eu também pensava que a Malásia era um país muçulmano onde todos se voltavam para Meca cinco vezes ao dia, mas cheguei aqui e vi igrejas evangélicas e Mcdonalds”; ou então “eu também pensava que na Malásia todas as raças viviam em paz, como vocês mesmos dizem”; ou ainda “o Brasil tem 180 milhões de habitantes; se cada um desses 180 milhões de habitantes fosse festeiro como você diz, nosso país seria uma eterna micareta”. No entanto, boas respostas como essas nunca me vieram à mente no momento oportuno.
Estádios e mesquitas! Enquanto meus colegas de sala se interessavam por futebol, eu me interessava pelo islamismo. Eles me perguntavam sobre a seleção brasileira, sobre o desempenho dos jogadores brasileiros na Europa, sobre minha opinião acerca da Premier League, e eu lhes perguntava sobre as mesquitas, sobre a vigência da lei islâmica no país (a sharia) e sobre a laicidade ou não do Estado na Malásia. No final das contas, nem eu nem eles tínhamos respostas satisfatórias uns para os outros. É duro fazer intercâmbio em um mundo globalizado!
Em relação à escola, os estudantes da Malásia escolhem, a partir do penúltimo ano, o rumo que querem tomar: ciências exatas ou humanidades. Dependendo do lado para o qual você quer se encaminhar, muda a grade curricular. A princípio fiquei na turma de humanidades. Contudo, na Malásia quem escolhe a área de humanas não costuma ser bem visto pela sociedade. Quando eu perguntava às pessoas sobre a possibilidade de escolherem esse rumo, sempre me respondiam: “Mas... se você for pra área de humanas o máximo que você conseguirá na vida é ser um advogado”. Perdi as contas de quantas vezes escutei essa resposta inusitada. Sendo assim, as turmas de humanas eram maculadas em toda a escola, ganhando a fama de serem os maiores redutos de baderneiros e marginais. Como eu não iria me formar naquela escola – e como sempre tive um ódio mortal pelas ciências exatas – escolhi ficar na turma de humanas mesmo, até porque a carga horária lá era menor e eles saíam mais cedo.
Depois de um tempo, temendo pela minha segurança, a dona da casa na qual me hospedei intercedeu junto à escola para que eu mudasse para a turma das exatas, onde a gente supostamente era mais ordeira. Concordei, pois para mim pouca diferença havia. Interessei-me especialmente pelos livros didáticos de história. Um colega meu, conhecido por todos como um comunista convicto, me apontou uma série de incongruências neles. Ele disse que havia duas figuras míticas na história malaia – Hang Tuah e Hang Jebat, se bem me lembro – que figuravam nesses livros como personagens reais. Folheando os livros, vi também a figura de Mat Salleh, um grande nacionalista malaio conhecido pela sua profunda xenofobia (tanto que, ironicamente, a expressão Mat Salleh é uma forma coloquial e até pejorativa de se chamar os estrangeiros na Malásia, assim como “gringo” no Brasil). Pode ter sido falta de atenção minha, mas os livros didáticos pareciam tratar muito pouco da história europeia e de eventos como a Revolução Industrial ou a Revolução Francesa. Mesmo a Idade Média europeia era ignorada, prevalecendo o estudo do islamismo e da cultura árabe. Além disso, à medida que as séries iam avançando, o estudo de história se fechava mais na história da Malásia, ao invés de se expandir para a história geral.
Conheci muita gente na escola, embora não mantenha contato frequente e regular com nenhum em especial. Uma das pessoas que me vêm à mente agora, além daquelas já citadas no primeiro texto, foi um rapaz chinês com o qual conversava vez ou outra, mas que com o tempo fui conhecendo melhor. Quando já estava mais íntimo dele, descobri que tinha uma penca de problemas familiares, sofria de baixa autoestima e era muito zombado pelos colegas de sala. Disse-me ele que queria muito conhecer uma mulher e se casar, mas que se achava feio e que nenhuma mulher olhava pra ele. E foi numa dessas conversas sobre mulheres que ele me confessou que lá no fundo sentia raiva de pessoas como eu, que atraem os olhares femininos. Respondi que não sabia sobre o que ele estava falando, visto que em toda a minha vida eu nunca havia sequer beijado alguém. Então ele me disse que quando saíamos, muitas meninas olhavam pra mim, ao que respondi que isso era natural, já que eu, como estrangeiro, era fisicamente diferente dos demais. Foi aí que ele se empolgou e me perguntou se caso ele viesse para o Brasil, as meninas também o olhariam assim. Não soube o que responder, pra variar. Apenas disse a ele pra ter calma, que ele iria achar alguém logo.
Esse é só mais um exemplo do que eu já escrevi. Quem leu o primeiro texto sobre minha experiência na Malásia sabe bem de meus infortúnios na hora de fazer amizades naquele país. E caso você tenha acompanhado minhas confissões de Augsburg, entenderá que essa é uma das principais razões pelas quais resolvi passar meu intercâmbio na Europa recluso. Não queria adicionar à minha coleção mais tipos exóticos. De gente estranha na minha vida já basta eu.
Historicamente, os territórios que posteriormente comporiam a Malásia foram ocupados por basicamente três grupos étnicos: os malaios, naturais da região e culturalmente próximos dos indonésios; os indianos, responsáveis por introduzir o islamismo no país e, mais tarde, importante força de trabalho na extração de látex ao longo do começo do século XX; e os chineses, que desde tempos imemoriais eram assíduos comerciantes naquela região.
A propaganda oficial veiculada pelo governo – e comprada em massa por grande parte da opinião pública – é a de que a Malásia é uma réplica da ONU, onde diferentes raças convivem pacificamente e amigavelmente em um mesmo território. O orgulho que eles possuem de ser um país multirracial é tão grande que não raras vezes eu fui surpreendido com perguntas do tipo: “por que o Ronaldinho Gaúcho é negro e você é branco?”, ou ainda “por que você não tem cabelo encaracolado como os demais brasileiros?”. Ou seja: na cabeça de um malásio, todos os países do mundo são monorraciais, menos eles mesmos. Por isso acho que ficam em choque ao saber que têm países no mundo formados, como eles, por mais de uma etnia. Sempre busquei explicar, portanto, que o Brasil tinha sido constituído, assim como a Malásia, por três “raças” (europeus, índios e africanos), a fim de esclarecê-los sobre os motivos de eu ser tão diferente daqueles jogadores brasileiros que eles viam no futebol europeu.
A questão é que, diferente do Brasil, na Malásia a miscigenação não foi a regra. Somente nos últimos anos têm sido mais frequentes os casamentos inter-raciais, e não podia ser diferente. Por mais que o governo insista à exaustão em vender a imagem de um país no qual indianos, chineses e malaios (ou, se preferirem, cristãos, muçulmanos, hindus e budistas) vivem na mais completa paz, é só você ter uma pequena conversa em particular com um chinês para ele lhe dizer o quanto odeia os malaios. Ou então com um indiano, pra que ele lhe diga o quanto odeia os chineses. E por aí vai. Lá, temos um exemplo clássico de racismo institucionalizado. Os malaios, por serem maioria e deterem o poder político, gozam de uma série de privilégios: têm cotas nas universidades, acesso mais fácil a cargos públicos e preços mais baixos na hora de comprar terrenos. Os chineses são o segundo grupo étnico mais numeroso e, embora tenham menos influência política, são relativamente mais prósperos economicamente. Por fim, os indianos são a minoria da população, não gozando de poder político nem econômico significativos. Lembro-me bem de quando contei a dois indianos que eu queria estudar para ser diplomata, e eles responderam rindo, dizendo que eles, como indianos na Malásia, jamais poderiam sonhar com isso, pois tais cargos eram reservados só para os malaios.
O resultado desse estado de coisas é um diz-que-me-diz de proporções astronômicas, no qual chineses e indianos acusam malaios de serem preguiçosos porque já têm tudo na mão, chineses zombam de indianos por serem sujos, pobres e escuros (juro que já ouvi isso) e indianos acusam chineses de serem interesseiros e materialistas, só pensando no dinheiro. Esse show de baixarias não acontece em público, visto que todo malásio aparentemente nasce educado a não falar na cara esse tipo de coisa. Quando os estrangeiros como eu chegam é que eles aproveitam para abrir o berreiro. Um amigo chinês me disse uma vez que os malaios são o grande problema do país, e um outro, também chinês, afirmou com segurança que os malaios e indianos têm inveja dos chineses porque eles têm pele branca. Isso sem falar num outro amigo meu, chinês evangélico, que havia me passado o ICQ (lembrem-se que meu intercâmbio foi em 2004-2005!) de vários colegas dele e me assegurado que eu não precisava me preocupar porque todas aquelas pessoas que ele havia me apresentado eram cristãs. Parece que os atritos étnicos e religiosos são tão grandes que eles automaticamente assumem que os estrangeiros que aportam no país estão dispostos a participar deles.
Sendo assim, se um dia estiver na Malásia e vierem te dizer que lá todas as raças convivem em harmonia, faça como se estivesse conversando com um homem que se diz Napoleão: apenas incline a cabeça e concorde com tudo. Não há motivos para discutir porque, nesse ponto, eles nunca dão o braço a torcer. Acho que o sonho dos potentados locais é que Gilberto Freyre nasça malaio na próxima encarnação. Para todo espírito que resolver questionar a democracia racial na Malásia sempre existirá um malásio para dizer: “we are Malaysians; we are open-minded”. E eu já experimentei na pele o que significa ser mente aberta na terra das Petronas (vide minha experiência com os estudantes descolados).
Como todo brasileiro, não fui poupado das perguntas sobre futebol – assunto que eu nunca dominei com maestria, tanto no falar como no jogar (e naquela época menos ainda). Tudo o que se sabe na Malásia sobre o Brasil é que muitos jogadores daqui jogavam em clubes europeus. Parece que eles imaginam o Brasil como uma grande linha de montagem de jogadores de futebol destinados à exportação, e que todos os brasileiros, mesmo os que não eram exportados, eram exímios jogadores de futebol. Os malásios, de fato, amam futebol, e acompanham com fervor o campeonato inglês. Para eles, a Inglaterra é a grande referência no futebol mundial. Por isso frequentemente alguns colegas de escola me perguntavam por que jogadores consagrados como Ronaldo e Ronaldinho não atuavam no futebol inglês (pergunta essa que nunca consegui responder com muita segurança). Perguntavam-me também se eu conhecia algum jogador de futebol brasileiro, se eu já os havia visto jogar ao vivo ou se eu falava a mesma língua que eles. Isso sem mencionar as vezes em que me perguntaram por que o Brasil não estava participando da Euro-2004.
Outra visão interessante que alguns malásios tinham do Brasil acabou me pegando desprevenido. Por muito tempo o Brasil foi conhecido como o “celeiro do mundo”. Na Malásia, porém, ele é hoje conhecido não só como o “estádio do mundo”, como já vimos, mas também como a “boate do mundo”. Uma ou outra vez, quando notou meu jeito mais reservado e quieto de ser, alguém se surpreendeu, alegando pensar que os brasileiros eram pessoas felizes, animadas e festeiras. Também nunca tive uma boa resposta para essas perguntas, embora hoje eu pudesse pensar em milhares de boas respostas. Eu poderia responder: “eu também pensava que a Malásia era um país muçulmano onde todos se voltavam para Meca cinco vezes ao dia, mas cheguei aqui e vi igrejas evangélicas e Mcdonalds”; ou então “eu também pensava que na Malásia todas as raças viviam em paz, como vocês mesmos dizem”; ou ainda “o Brasil tem 180 milhões de habitantes; se cada um desses 180 milhões de habitantes fosse festeiro como você diz, nosso país seria uma eterna micareta”. No entanto, boas respostas como essas nunca me vieram à mente no momento oportuno.
Estádios e mesquitas! Enquanto meus colegas de sala se interessavam por futebol, eu me interessava pelo islamismo. Eles me perguntavam sobre a seleção brasileira, sobre o desempenho dos jogadores brasileiros na Europa, sobre minha opinião acerca da Premier League, e eu lhes perguntava sobre as mesquitas, sobre a vigência da lei islâmica no país (a sharia) e sobre a laicidade ou não do Estado na Malásia. No final das contas, nem eu nem eles tínhamos respostas satisfatórias uns para os outros. É duro fazer intercâmbio em um mundo globalizado!
Em relação à escola, os estudantes da Malásia escolhem, a partir do penúltimo ano, o rumo que querem tomar: ciências exatas ou humanidades. Dependendo do lado para o qual você quer se encaminhar, muda a grade curricular. A princípio fiquei na turma de humanidades. Contudo, na Malásia quem escolhe a área de humanas não costuma ser bem visto pela sociedade. Quando eu perguntava às pessoas sobre a possibilidade de escolherem esse rumo, sempre me respondiam: “Mas... se você for pra área de humanas o máximo que você conseguirá na vida é ser um advogado”. Perdi as contas de quantas vezes escutei essa resposta inusitada. Sendo assim, as turmas de humanas eram maculadas em toda a escola, ganhando a fama de serem os maiores redutos de baderneiros e marginais. Como eu não iria me formar naquela escola – e como sempre tive um ódio mortal pelas ciências exatas – escolhi ficar na turma de humanas mesmo, até porque a carga horária lá era menor e eles saíam mais cedo.
Depois de um tempo, temendo pela minha segurança, a dona da casa na qual me hospedei intercedeu junto à escola para que eu mudasse para a turma das exatas, onde a gente supostamente era mais ordeira. Concordei, pois para mim pouca diferença havia. Interessei-me especialmente pelos livros didáticos de história. Um colega meu, conhecido por todos como um comunista convicto, me apontou uma série de incongruências neles. Ele disse que havia duas figuras míticas na história malaia – Hang Tuah e Hang Jebat, se bem me lembro – que figuravam nesses livros como personagens reais. Folheando os livros, vi também a figura de Mat Salleh, um grande nacionalista malaio conhecido pela sua profunda xenofobia (tanto que, ironicamente, a expressão Mat Salleh é uma forma coloquial e até pejorativa de se chamar os estrangeiros na Malásia, assim como “gringo” no Brasil). Pode ter sido falta de atenção minha, mas os livros didáticos pareciam tratar muito pouco da história europeia e de eventos como a Revolução Industrial ou a Revolução Francesa. Mesmo a Idade Média europeia era ignorada, prevalecendo o estudo do islamismo e da cultura árabe. Além disso, à medida que as séries iam avançando, o estudo de história se fechava mais na história da Malásia, ao invés de se expandir para a história geral.
Conheci muita gente na escola, embora não mantenha contato frequente e regular com nenhum em especial. Uma das pessoas que me vêm à mente agora, além daquelas já citadas no primeiro texto, foi um rapaz chinês com o qual conversava vez ou outra, mas que com o tempo fui conhecendo melhor. Quando já estava mais íntimo dele, descobri que tinha uma penca de problemas familiares, sofria de baixa autoestima e era muito zombado pelos colegas de sala. Disse-me ele que queria muito conhecer uma mulher e se casar, mas que se achava feio e que nenhuma mulher olhava pra ele. E foi numa dessas conversas sobre mulheres que ele me confessou que lá no fundo sentia raiva de pessoas como eu, que atraem os olhares femininos. Respondi que não sabia sobre o que ele estava falando, visto que em toda a minha vida eu nunca havia sequer beijado alguém. Então ele me disse que quando saíamos, muitas meninas olhavam pra mim, ao que respondi que isso era natural, já que eu, como estrangeiro, era fisicamente diferente dos demais. Foi aí que ele se empolgou e me perguntou se caso ele viesse para o Brasil, as meninas também o olhariam assim. Não soube o que responder, pra variar. Apenas disse a ele pra ter calma, que ele iria achar alguém logo.
Esse é só mais um exemplo do que eu já escrevi. Quem leu o primeiro texto sobre minha experiência na Malásia sabe bem de meus infortúnios na hora de fazer amizades naquele país. E caso você tenha acompanhado minhas confissões de Augsburg, entenderá que essa é uma das principais razões pelas quais resolvi passar meu intercâmbio na Europa recluso. Não queria adicionar à minha coleção mais tipos exóticos. De gente estranha na minha vida já basta eu.
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
Tutorial de como se tornar um exímio comentarista virtual
Foi-se o tempo em que ler notícias era o bastante. Hoje não basta manter-se a par do que acontece: é preciso também ter opinião! Nesse sentido, a internet é quase uma escola de comentaristas. Sites como Yahoo! Notícias e mesmo links compartilhados pelo Facebook têm contribuído para o surgimento de uma geração de comentaristas com todo um aparato retórico e linguístico típicos que estão se convertendo em verdadeiros formadores de opinião no mundo virtual. Graças a isso, essas opiniões se difundem com rapidez cada vez maior pela internet.
Seguem abaixo algumas dicas de como se portar caso você queira fazer parte desse seleto grupo de formadores de opinião virtuais.
NOTÍCIAS DE CORRUPÇÃO
Vamos começar com um caso bem recorrente: notícias sobre casos de corrupção. Esse é o tipo de notícia mais visado pelos comentaristas virtuais. Aliás, casos de corrupção são tão adorados por esses comentaristas que eles são invocados até mesmo em comentários acerca de notícias que nada têm a ver com o assunto.
Uma expressão fundamental para se comentar esse tipo de notícia é o imperativo “acorda Brasil!”. A expressão “acorda Brasil”, geralmente em caixa alta e acompanhada por muitíssimos pontos de exclamação, denota um alto grau de politização de seu autor, bem como de preocupação e indignação em relação aos problemas políticos do país. Exorte todo o Brasil a despertar, ainda que você mesmo não esteja disposto a acordar da modorra de horas a fio na frente do computador.
Lembre-se sempre também que o “acorda Brasil” deve ser usado apenas nas conclusões de seus comentários. O comentário que antecede o “acorda Brasil” fica a seu critério, mas conta pontos utilizar sempre palavras como “corruPTos” (respeitando-se maiúsculas e minúsculas), neologismos como “petralhas” e expressões agressivas e intimidadoras como “pena de morte para os corruptos já!”. Não importa o conteúdo do palavrório inicial: o “acorda Brasil!” no final sempre dará um brilho especial ao seu comentário!
Sempre que possível, apresente também notícias de políticos corruptos condenados à morte em outros países. Elogie a China e o Irã por executarem seus políticos corruptos e diga que o Brasil precisa se mirar no exemplo desses governos.
NOTÍCIAS QUE ENVOLVAM CRIMES OU CASOS DE IMPUNIDADE
Outro caso muito recorrente. Aqui a palavra que sempre combina com tudo é “Brasil” com eco, igualzinho na Copa do Mundo, lembra? “Brasil-sil-sil-sil-sil”. O “Brasil-sil-sil-sil-sil” é infalível, além de cair sempre muito bem com qualquer tipo de notícia ruim que envolva nosso país. Se o político corrupto está solto, se o suspeito responde em liberdade, se o estuprador não vai pra cadeia ou se o prefeito foi pego roubando, basta dizer que “esse tipo de coisa só acontece no Brasil-sil-sil-sil-sil” ou então “só podia mesmo ser no Brasil-sil-sil-sil-sil”. Com esse tipo de comentário, pode ter certeza que você vai ganhar vários “Curtir” no Facebook e todos passarão a te ver como um sujeito honesto e decente, preocupado com a vida política do país.
Por último, mas não menos importante: sabe aquele monte de direitos cujo conteúdo você desconhece por completo e sobre os quais nunca procurou se informar? Isso mesmo: os Direitos Humanos! Pois é. É sempre bom praguejar contra eles também.
NOTÍCIAS BOAS QUE VÊM DA EUROPA OU DOS EUA
Lembre-se sempre disso: você, exímio comentarista virtual que é, deve odiar o Brasil e idolatrar os países ricos da Europa Ocidental e da América do Norte, mesmo que jamais tenha posto os seus pés lá. Frequentemente vemos na internet notícias sobre avanços na ciência, na saúde, na educação ou no campo social realizados em países de primeiro mundo. Ao se deparar com esse tipo de notícia, não poupe o melodrama: diga sempre que “lá tudo funciona”, em oposição ao Brasil onde “nada dá certo”. Diga também que “lá as pessoas são honestas”, que “lá não tem corrupção”, que “lá os bandidos vão pra cadeia”, que "lá não tem PT" e que “lá a justiça sempre vence”. Agora, se por acaso você tiver o infortúnio de se deparar com notícias que falem de ataques de neonazistas a imigrantes na Europa ou de brasileiros que são discriminados nos Estados Unidos, não perca a compostura e seja “sensato”. Diga que “lá é assim mesmo”, que “isso é normal”, que “brasileiro é tudo praga mesmo” e que “eles [europeus ou americanos] estão certos em agir assim” (voltaremos à parte do “brasileiro praga” mais adiante). O importante é nunca perder a oportunidade de comparar o Brasil com esses países – comparação essa que deve ser sempre desfavorável ao primeiro. Frases do tipo “mas infelizmente estamos no Brasil” podem lhe render vários pontos a mais e fazer com que as pessoas te vejam como um exímio analista internacional!
Mas tome sempre muito cuidado no seguinte ponto: as ciclovias, as restrições ao trânsito de automóveis no centro e a prioridade ao transporte público são lindos e maravilhosos apenas lá na Europa e nos Estados Unidos. Afinal de contas, você não pode admitir que seu carrão tenha que dividir espaço com esses ônibus e bicicletas nojentos, pode?
NOTÍCIAS SOBRE O BIG BROTHER BRASIL
Chegamos aqui a um ponto crucial do nosso guia. Saber atacar ferozmente o BBB e seus telespectadores é um passo fundamental para que você se torne um comentarista virtual. Esse é o tipo de comentário que requer, de certa forma, aprendizados relacionados a todos os tópicos anteriores. Sendo assim, comece sua crítica dizendo que o BBB aliena as pessoas, que se preocupam mais com o paredão da semana do que com os escândalos de corrupção do país. Chavões do tipo “enquanto você vê BBB, os políticos roubam”, “abaixo o BBB” e “morte ao BBB” são sempre bem-vindos. Aqui também o “acorda Brasil!” cai muito bem, além de expressões já consagradas do tipo “desligue a TV e vá ler um livro”, mesmo que o último livro que você tenha lido seja aquele que caiu no vestibular. Banque ainda o estatístico. Diga que todas aquelas pessoas que ligam para o BBB poderiam estar contribuindo com um abaixo-assinado contra a corrupção. Ou então que o dinheiro que o vencedor levou como prêmio poderia ser usado para dar de comer aos pobres e construir moradias para os sem-teto (aqueles mesmos pobres e sem-teto a quem você chamou de “vagabundos” em outro comentário).
Agora, se um dia você ler uma notícia de que o governo está aplicando dinheiro em programas sociais, novamente coloque suas garrinhas reacionárias de fora e comece a espernear escandalosamente em caps lock, dizendo que é um absurdo gastar tanto dinheiro pra sustentar a vadiagem alheia. Grite que você não aguenta mais ver seus impostos indo pra famílias nordestinas "que não trabalham e não fazem nada da vida". Entretanto, nunca se esqueça de pagar direitinho todos os juros do seu cartão de crédito a fim de garantir o sustento dos banqueiros (esses sim, trabalhadores honestos que retiram seu pão do suor de seu rosto).
Por fim, nunca deixe de recorrer à clássica e infalível comparação com a Europa e os EUA. É sempre bom mostrar que você é versado em assuntos internacionais, já que tudo que é ligado ao Brasil é escória, principalmente o próprio brasileiro, que é um “povinho safado de merda”. Diga que nos países ricos não tem BBB, que lá as pessoas não perdem tempo com isso e que essa é a razão de eles não terem corrupção, impunidade ou problemas sociais. Agora, se por um infortúnio você for um fiel telespectador do BBB, não se reprima! Lembre-se sempre de que aquilo que você prega na internet não precisa ter a menor relação com aquilo que você faz na vida real. A internet é o lugar pra você ser moralista. Lá fora é o lugar pra você desrespeitar o sinal vermelho, jogar lixo na rua e furar fila.
NOTÍCIAS SOBRE MARCHAS DA MACONHA E DAS VADIAS
Como já fizemos questão de avisar acima: a corrupção é o assunto predileto do comentarista virtual. Tão predileto que ele aparece até em casos nos quais não foi invocado. Diga, então, que é uma vergonha tantas pessoas se mobilizarem em prol da maconha e de prostitutas [sic] e quase ninguém se mobilizar em uma luta contra a corrupção. Nesse caso, a expressão “marcha contra a corrupção ninguém faz, né?” é um must have no seu repertório. Em seguida, expresse toda a sua fúria contra os manifestantes. Diga que maconheiro merece apanhar e que tem muita mulher que gosta sim de ser estuprada.
É interessante notar que o argumento da corrupção combina com praticamente qualquer situação, podendo servir até mesmo para livrar sua cara. Como já vimos acima, lá fora é o lugar onde você pode se dar ao luxo de não ser moralista. Assim, caso o guarda te multe por dirigir embriagado ou por parar em local proibido, não perca a compostura. Volte pra casa em paz e atualize o status do seu Facebook com uma frase do tipo “Multar motorista é fácil... Mas punir os safados corruptos de Brasília que é bom ninguém pune, né??!”. Ou seja: as suas falhas sempre serão aceitáveis desde que haja políticos roubando em Brasília. É por isso que a solução pra tudo é “fechar o congresso!!”.
Sempre conclua seus comentários dessas notícias falando que o jovem brasileiro não é politizado, que só liga pra BBB, pra novela e pra micaretas.
NOTÍCIAS SOBRE MANIFESTAÇÕES ESTUDANTIS
Aqui faça um exercício bem simples de esquecer o que você disse sobre o fato de os jovens brasileiros não serem politizados. Ataque bastante esses “estudantes vagabundos que ficam parando o trânsito e me fazendo atrasar para o shopping”, e diga que “ao invés de ficarem vadiando pelas ruas eles deveriam estar na sala de aula estudando”.
NOTÍCIAS SOBRE DITADORES AO REDOR DO MUNDO
Frequentemente vemos na internet notícias ou artigos sobre os ditadores mais cruéis do mundo, desde os mais antigos, como Hitler, Stalin e Mao, até os mais recentes, como Saddam, Mugabe e Kim Jong Il. Aqui é sua oportunidade de expressar toda a sua fúria contra os “petralhas”. Diga que um desses grandes ditadores foi Lula e o PT, que Lula quer criar no Brasil o mesmo que Kim Jong Il na Coreia do Norte (porque ambos são de esquerda). Não se esqueça de mencionar também aquilo que você aprendeu no documentário do NatGeo sobra a Segunda Guerra Mundial: que o partido de Hitler se chamava Partido Nacional-socialista dos Trabalhadores Alemães – ou seja, quase igual ao PT, já que ambos são “dos trabalhadores”. Teça longos e inflamados comentários atacando Hitler, mesmo que você e ele tenham opiniões bastante semelhantes sobre fechar o congresso. Arremate que Lula é nazista. Sempre que não puder atribuir a culpa de tudo ao BBB, atribua a culpa ao Lula e aos “petralhas”. Se o seu disco já estiver deveras arranhado, guarde um pouco da culpa também para o “povinho de merda” que é o brasileiro.
Notícias sobre censura à imprensa em países como a China ou o Irã também devem contar com seu repúdio. Diga que é um absurdo esses países violarem a liberdade de expressão, que ela é um bem sagrado, e acuse o PT de estar fazendo a mesma coisa no Brasil. Só não se esqueça de ignorar o fato de que os governos que você critica por censurar a imprensa nesses países são exatamente os mesmos que você elogiou por executar os políticos corruptos.
NOTÍCIAS SOBRE OBRAS DA COPA
Acostume-se também a comentar as notícias que falem bem ou mal das obras para a Copa do Mundo de 2014, pois elas se tornarão cada vez mais frequentes nos próximos anos. Aqui a regra de ouro é sempre falar que “tem dinheiro pra Copa, mas não tem pra educação”, que “tem dinheiro pra Copa, mas não tem pra saúde”, que “tem dinheiro pra Copa, mas não tem pra moradia”. Mas não confunda as coisas! Os professores, médicos e moradores de rua que lutam por melhores salários ou por moradia sempre serão “vagabundos que merecem apanhar da polícia!!!".
Por fim, invoque o clássico e infalível “imagina na Copa!” sempre que estiver insatisfeito com alguma coisa: desde o ônibus que não chega até o seu pastel que demora a ficar pronto.
NOTÍCIAS ALEATÓRIAS
Em todas as outras notícias que não se encaixarem nesses tópicos, independente do tema - a descoberta de um novo planeta ou de uma nova estrela, tornado no Arizona, tufão nas Filipinas, enchentes em Bangladesh ou amamentação de filhotes de ornitorrinco prematuros: sempre, eu digo sempre, arrume um jeito de colocar o PT no meio. O fetiche e a paranoia com o PT são as marcas registradas de qualquer comentarista virtual.
Seguem abaixo algumas dicas de como se portar caso você queira fazer parte desse seleto grupo de formadores de opinião virtuais.
NOTÍCIAS DE CORRUPÇÃO
Vamos começar com um caso bem recorrente: notícias sobre casos de corrupção. Esse é o tipo de notícia mais visado pelos comentaristas virtuais. Aliás, casos de corrupção são tão adorados por esses comentaristas que eles são invocados até mesmo em comentários acerca de notícias que nada têm a ver com o assunto.
Uma expressão fundamental para se comentar esse tipo de notícia é o imperativo “acorda Brasil!”. A expressão “acorda Brasil”, geralmente em caixa alta e acompanhada por muitíssimos pontos de exclamação, denota um alto grau de politização de seu autor, bem como de preocupação e indignação em relação aos problemas políticos do país. Exorte todo o Brasil a despertar, ainda que você mesmo não esteja disposto a acordar da modorra de horas a fio na frente do computador.
Lembre-se sempre também que o “acorda Brasil” deve ser usado apenas nas conclusões de seus comentários. O comentário que antecede o “acorda Brasil” fica a seu critério, mas conta pontos utilizar sempre palavras como “corruPTos” (respeitando-se maiúsculas e minúsculas), neologismos como “petralhas” e expressões agressivas e intimidadoras como “pena de morte para os corruptos já!”. Não importa o conteúdo do palavrório inicial: o “acorda Brasil!” no final sempre dará um brilho especial ao seu comentário!
Sempre que possível, apresente também notícias de políticos corruptos condenados à morte em outros países. Elogie a China e o Irã por executarem seus políticos corruptos e diga que o Brasil precisa se mirar no exemplo desses governos.
NOTÍCIAS QUE ENVOLVAM CRIMES OU CASOS DE IMPUNIDADE
Outro caso muito recorrente. Aqui a palavra que sempre combina com tudo é “Brasil” com eco, igualzinho na Copa do Mundo, lembra? “Brasil-sil-sil-sil-sil”. O “Brasil-sil-sil-sil-sil” é infalível, além de cair sempre muito bem com qualquer tipo de notícia ruim que envolva nosso país. Se o político corrupto está solto, se o suspeito responde em liberdade, se o estuprador não vai pra cadeia ou se o prefeito foi pego roubando, basta dizer que “esse tipo de coisa só acontece no Brasil-sil-sil-sil-sil” ou então “só podia mesmo ser no Brasil-sil-sil-sil-sil”. Com esse tipo de comentário, pode ter certeza que você vai ganhar vários “Curtir” no Facebook e todos passarão a te ver como um sujeito honesto e decente, preocupado com a vida política do país.
Por último, mas não menos importante: sabe aquele monte de direitos cujo conteúdo você desconhece por completo e sobre os quais nunca procurou se informar? Isso mesmo: os Direitos Humanos! Pois é. É sempre bom praguejar contra eles também.
NOTÍCIAS BOAS QUE VÊM DA EUROPA OU DOS EUA
Lembre-se sempre disso: você, exímio comentarista virtual que é, deve odiar o Brasil e idolatrar os países ricos da Europa Ocidental e da América do Norte, mesmo que jamais tenha posto os seus pés lá. Frequentemente vemos na internet notícias sobre avanços na ciência, na saúde, na educação ou no campo social realizados em países de primeiro mundo. Ao se deparar com esse tipo de notícia, não poupe o melodrama: diga sempre que “lá tudo funciona”, em oposição ao Brasil onde “nada dá certo”. Diga também que “lá as pessoas são honestas”, que “lá não tem corrupção”, que “lá os bandidos vão pra cadeia”, que "lá não tem PT" e que “lá a justiça sempre vence”. Agora, se por acaso você tiver o infortúnio de se deparar com notícias que falem de ataques de neonazistas a imigrantes na Europa ou de brasileiros que são discriminados nos Estados Unidos, não perca a compostura e seja “sensato”. Diga que “lá é assim mesmo”, que “isso é normal”, que “brasileiro é tudo praga mesmo” e que “eles [europeus ou americanos] estão certos em agir assim” (voltaremos à parte do “brasileiro praga” mais adiante). O importante é nunca perder a oportunidade de comparar o Brasil com esses países – comparação essa que deve ser sempre desfavorável ao primeiro. Frases do tipo “mas infelizmente estamos no Brasil” podem lhe render vários pontos a mais e fazer com que as pessoas te vejam como um exímio analista internacional!
Mas tome sempre muito cuidado no seguinte ponto: as ciclovias, as restrições ao trânsito de automóveis no centro e a prioridade ao transporte público são lindos e maravilhosos apenas lá na Europa e nos Estados Unidos. Afinal de contas, você não pode admitir que seu carrão tenha que dividir espaço com esses ônibus e bicicletas nojentos, pode?
NOTÍCIAS SOBRE O BIG BROTHER BRASIL
Chegamos aqui a um ponto crucial do nosso guia. Saber atacar ferozmente o BBB e seus telespectadores é um passo fundamental para que você se torne um comentarista virtual. Esse é o tipo de comentário que requer, de certa forma, aprendizados relacionados a todos os tópicos anteriores. Sendo assim, comece sua crítica dizendo que o BBB aliena as pessoas, que se preocupam mais com o paredão da semana do que com os escândalos de corrupção do país. Chavões do tipo “enquanto você vê BBB, os políticos roubam”, “abaixo o BBB” e “morte ao BBB” são sempre bem-vindos. Aqui também o “acorda Brasil!” cai muito bem, além de expressões já consagradas do tipo “desligue a TV e vá ler um livro”, mesmo que o último livro que você tenha lido seja aquele que caiu no vestibular. Banque ainda o estatístico. Diga que todas aquelas pessoas que ligam para o BBB poderiam estar contribuindo com um abaixo-assinado contra a corrupção. Ou então que o dinheiro que o vencedor levou como prêmio poderia ser usado para dar de comer aos pobres e construir moradias para os sem-teto (aqueles mesmos pobres e sem-teto a quem você chamou de “vagabundos” em outro comentário).
Agora, se um dia você ler uma notícia de que o governo está aplicando dinheiro em programas sociais, novamente coloque suas garrinhas reacionárias de fora e comece a espernear escandalosamente em caps lock, dizendo que é um absurdo gastar tanto dinheiro pra sustentar a vadiagem alheia. Grite que você não aguenta mais ver seus impostos indo pra famílias nordestinas "que não trabalham e não fazem nada da vida". Entretanto, nunca se esqueça de pagar direitinho todos os juros do seu cartão de crédito a fim de garantir o sustento dos banqueiros (esses sim, trabalhadores honestos que retiram seu pão do suor de seu rosto).
Por fim, nunca deixe de recorrer à clássica e infalível comparação com a Europa e os EUA. É sempre bom mostrar que você é versado em assuntos internacionais, já que tudo que é ligado ao Brasil é escória, principalmente o próprio brasileiro, que é um “povinho safado de merda”. Diga que nos países ricos não tem BBB, que lá as pessoas não perdem tempo com isso e que essa é a razão de eles não terem corrupção, impunidade ou problemas sociais. Agora, se por um infortúnio você for um fiel telespectador do BBB, não se reprima! Lembre-se sempre de que aquilo que você prega na internet não precisa ter a menor relação com aquilo que você faz na vida real. A internet é o lugar pra você ser moralista. Lá fora é o lugar pra você desrespeitar o sinal vermelho, jogar lixo na rua e furar fila.
NOTÍCIAS SOBRE MARCHAS DA MACONHA E DAS VADIAS
Como já fizemos questão de avisar acima: a corrupção é o assunto predileto do comentarista virtual. Tão predileto que ele aparece até em casos nos quais não foi invocado. Diga, então, que é uma vergonha tantas pessoas se mobilizarem em prol da maconha e de prostitutas [sic] e quase ninguém se mobilizar em uma luta contra a corrupção. Nesse caso, a expressão “marcha contra a corrupção ninguém faz, né?” é um must have no seu repertório. Em seguida, expresse toda a sua fúria contra os manifestantes. Diga que maconheiro merece apanhar e que tem muita mulher que gosta sim de ser estuprada.
É interessante notar que o argumento da corrupção combina com praticamente qualquer situação, podendo servir até mesmo para livrar sua cara. Como já vimos acima, lá fora é o lugar onde você pode se dar ao luxo de não ser moralista. Assim, caso o guarda te multe por dirigir embriagado ou por parar em local proibido, não perca a compostura. Volte pra casa em paz e atualize o status do seu Facebook com uma frase do tipo “Multar motorista é fácil... Mas punir os safados corruptos de Brasília que é bom ninguém pune, né??!”. Ou seja: as suas falhas sempre serão aceitáveis desde que haja políticos roubando em Brasília. É por isso que a solução pra tudo é “fechar o congresso!!”.
Sempre conclua seus comentários dessas notícias falando que o jovem brasileiro não é politizado, que só liga pra BBB, pra novela e pra micaretas.
NOTÍCIAS SOBRE MANIFESTAÇÕES ESTUDANTIS
Aqui faça um exercício bem simples de esquecer o que você disse sobre o fato de os jovens brasileiros não serem politizados. Ataque bastante esses “estudantes vagabundos que ficam parando o trânsito e me fazendo atrasar para o shopping”, e diga que “ao invés de ficarem vadiando pelas ruas eles deveriam estar na sala de aula estudando”.
NOTÍCIAS SOBRE DITADORES AO REDOR DO MUNDO
Frequentemente vemos na internet notícias ou artigos sobre os ditadores mais cruéis do mundo, desde os mais antigos, como Hitler, Stalin e Mao, até os mais recentes, como Saddam, Mugabe e Kim Jong Il. Aqui é sua oportunidade de expressar toda a sua fúria contra os “petralhas”. Diga que um desses grandes ditadores foi Lula e o PT, que Lula quer criar no Brasil o mesmo que Kim Jong Il na Coreia do Norte (porque ambos são de esquerda). Não se esqueça de mencionar também aquilo que você aprendeu no documentário do NatGeo sobra a Segunda Guerra Mundial: que o partido de Hitler se chamava Partido Nacional-socialista dos Trabalhadores Alemães – ou seja, quase igual ao PT, já que ambos são “dos trabalhadores”. Teça longos e inflamados comentários atacando Hitler, mesmo que você e ele tenham opiniões bastante semelhantes sobre fechar o congresso. Arremate que Lula é nazista. Sempre que não puder atribuir a culpa de tudo ao BBB, atribua a culpa ao Lula e aos “petralhas”. Se o seu disco já estiver deveras arranhado, guarde um pouco da culpa também para o “povinho de merda” que é o brasileiro.
Notícias sobre censura à imprensa em países como a China ou o Irã também devem contar com seu repúdio. Diga que é um absurdo esses países violarem a liberdade de expressão, que ela é um bem sagrado, e acuse o PT de estar fazendo a mesma coisa no Brasil. Só não se esqueça de ignorar o fato de que os governos que você critica por censurar a imprensa nesses países são exatamente os mesmos que você elogiou por executar os políticos corruptos.
NOTÍCIAS SOBRE OBRAS DA COPA
Acostume-se também a comentar as notícias que falem bem ou mal das obras para a Copa do Mundo de 2014, pois elas se tornarão cada vez mais frequentes nos próximos anos. Aqui a regra de ouro é sempre falar que “tem dinheiro pra Copa, mas não tem pra educação”, que “tem dinheiro pra Copa, mas não tem pra saúde”, que “tem dinheiro pra Copa, mas não tem pra moradia”. Mas não confunda as coisas! Os professores, médicos e moradores de rua que lutam por melhores salários ou por moradia sempre serão “vagabundos que merecem apanhar da polícia!!!".
Por fim, invoque o clássico e infalível “imagina na Copa!” sempre que estiver insatisfeito com alguma coisa: desde o ônibus que não chega até o seu pastel que demora a ficar pronto.
NOTÍCIAS ALEATÓRIAS
Em todas as outras notícias que não se encaixarem nesses tópicos, independente do tema - a descoberta de um novo planeta ou de uma nova estrela, tornado no Arizona, tufão nas Filipinas, enchentes em Bangladesh ou amamentação de filhotes de ornitorrinco prematuros: sempre, eu digo sempre, arrume um jeito de colocar o PT no meio. O fetiche e a paranoia com o PT são as marcas registradas de qualquer comentarista virtual.
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Páginas de combate - parte I
O homem que não enfrenta seus demônios está fadado a conviver com eles. Porém, o homem que enfrenta seus demônios e é derrotado está fadado a ser escravo deles.
Hoje vou começar a lhes contar algo fascinante – pelo menos para mim. Algo que nem todo mundo que me conhece sabe, e mesmo aqueles que sabem não sabem muito. Falarei de uma experiência inigualável de quando eu tinha 16 anos de idade. Ela durou um ano, mas nunca havia refletido de maneira mais detida a respeito. Falarei dos doze meses em que morei na Malásia, uma jovem monarquia no Sudeste Asiático.
Por que resolvi enfrentar meus demônios depois de tanto tempo? Porque não seria justo deixa-los de lado. Foram apenas cinco os meses que passei na Alemanha, e não obstante fiz quase uma cobertura jornalística acerca deles. Por outro lado, foram doze meses na Malásia, os quais deixaram como herança somente algumas poucas anotações em cadernos, todas elas tão enfadonhas que nem eu tenho paciência de relê-las.
Do dia 15 de junho de 2004 até o dia 13 de junho de 2005 experimentei os dias mais intensos, conturbados, confusos e edificantes de minha vida. Dificilmente qualquer outra experiência terá tanto impacto na minha vida como essa. E é justamente por ter sido algo tão marcante que acho tão difícil descrevê-lo. Aliás, estou escrevendo mais de 7 anos depois do ocorrido: de lá pra cá, muita coisa mesmo aconteceu, o suficiente pra mudar minhas visões e opiniões acerca do que vivenciei. Não pretendo esgotar o assunto nesse texto; precisarei de outros tantos para dar conta do assunto. Também não pretendo fazer uma narrativa rigidamente cronológica dos fatos, até porque já nem me recordo direito da sequência de tudo. Buscarei ir postando aquilo de que me lembrar ao longo do tempo.
Duas das perguntas mais frequentes que ouço sempre que toco no assunto: “e como é a Malásia?” e “mas... por que Malásia?”. A primeira é vaga demais pra ser levada a sério, além de extremamente pouco criativa. A segunda é mais instigante, mas também tenho preguiça de respondê-la. Digamos apenas que minha viagem à Malásia foi parte de um programa de intercâmbio internacional de jovens do Rotary Club, ao qual meu pai pertencia à época. Poderia ter escolhido os EUA, a Alemanha, as Filipinas, o Canadá e a Austrália, mas preferi a Malásia – embora as Filipinas também tenham cativado minha atenção.
Assim que cheguei à Malásia, tão logo botei os pés fora do aeroporto, senti uma onda de calor infernal me atacando. Só tinha experimentado sensação igual uma vez na vida, seis anos antes, quando desci do ônibus em Porto Seguro. Mas dessa vez o calor era maior, sem falar que eu estava de terno e gravata (uma das muitas insensatezes do Rotary Club) e há dois dias viajando e sem tomar banho.
A primeira casa em que fiquei foi de um casal “mestiço”: um indiano casado com uma malaia (Dr. Shaari e Dona Nooriah, respectivamente), embora casamentos mistos na Malásia sejam bastante raros de se ver. Eles tinham duas filhas: uma um pouco mais velha, e outra um pouco mais nova do que eu. Em poucos dias, me avisaram que em breve eu estaria indo à escola. Não me disseram muito sobre ela, apenas que era um colégio masculino e que os meninos de lá tinham fama de serem baderneiros. Nos meus primeiros dias por lá, ocupei-me com um dicionário “inglês-malaio, malaio-inglês” que achei na minha casa. Com ele aprendi várias palavras, e aos poucos fui me familiarizando com o idioma malaio.
Logo no meu primeiro dia na Malásia, Dr. Shaari me chamou pra uma conversa antes de dormir. Me disse que eu precisava ter cuidado, pois Klang (a cidade onde morava) era muito perigosa. Segundo ele, lá eram muito comuns as gangues de imigrantes indonésios que iam pra Malásia em busca de melhores condições de vida. Além disso, me orientou a ser especialmente cauteloso na escola. Ele disse pra eu ter cuidado com muitos estudantes de origem indiana, pois muitos deles eram más companhias, formavam gangues e gostavam de arrumar encrenca. Posteriormente, D. Nooriah também me orientou nesse sentido, dizendo que era preciso ter cuidado com os indianos. A princípio fiquei confuso: como poderia um indiano e a esposa de um indiano me orientar a ter cuidado com os indianos? Só fui compreender melhor oito anos depois, já no curso de história, quando descobri que havia brasileiros no começo do século XX que abominavam a mestiçagem e tudo o mais que não fosse puramente europeu. Mas essa é uma outra história.
Meus primeiros dias na Malásia foram dedicados a conhecer melhor a cidade onde eu morava. De carro, D. Nooriah me levou para vários lugares, mostrou-me a escola onde eu estudaria, a prefeitura, as praças e os melhores restaurantes. Me disse que eu me parecia com o ator de uma novela colombiana que passava todas as tardes na TV aberta e que cativava os telespectadores de todo o país, principalmente as mulheres. O nome dele na novela era Antônio. Quando assistíamos à novela juntos, ela me perguntava se eu conseguia entender o que eles falavam, e se era a mesma língua que se falava no Brasil.
Meu primeiro dia na escola foi memorável. Estudei na La Salle – uma escola que, só depois fui descobrir, tinha unidades até no Brasil. Na Malásia ela fora fundada por missionários ingleses, por isso era uma escola só para meninos. A recepção foi calorosa, principalmente por parte dos alunos. Não era comum ver estrangeiros em Klang, muito menos na escola e muito menos ocidentais. Minha primeira aula foi na biblioteca da escola. Lá fui bombardeado com milhões de perguntas sobre mim e sobre o Brasil. Achei um atlas bem completo, abri na página que mostrava mapas regionais do Brasil e apontei para a cidade de onde eu vinha – Lavras.
No primeiro dia de aula muita gente veio falar comigo. Um deles foi uma das criaturas mais insuportáveis que já conheci naquele país: um menino chinês que me convidava para ir à igreja dele. Ao longo de minha estadia, experimentei diversas situações embaraçosas com essa figura: sempre que ele me perguntava o que eu havia feito no final de semana e eu dizia que havia visitado algum templo budista ou algum templo hindu, ele se horrorizava. Ele me dizia que eu era cristão e que não podia ficar indo a esses lugares porque era pecado. Até quando eu disse a ele que tinha ido à igreja católica ele se indignou, dizendo pra eu não fazer mais aquilo – segundo ele, eu só podia ir à igreja evangélica. Isso sem falar no dia em que, na hora do lanche, ele me viu na cantina comendo com as mãos (algo bastante comum na Malásia, principalmente entre os malaios e indianos). Nesse dia ele novamente me chamou a atenção, dizendo que apenas os hindus e muçulmanos comem com as mãos, e que eu não podia comer com as mãos porque no Ocidente só se come com talher. Pois vejam só isso! Quer dizer então que após séculos e séculos “civilizando” os povos ditos inferiores, o homem ocidental chegou a um ponto no qual se vê necessitado do auxílio de um chinês para se civilizar? Talvez seja isso mesmo... O homem ocidental depositou tanta “civilização” sobre os demais homens que agora ele a recebe de volta, seja como uma forma de agradecimento, seja como uma forma de troco. Interessante que esse mesmo rapaz chinês ainda me causou outro constrangimento, dessa vez quando conversávamos na internet. Eu disse a ele que havia comprado um celular, e quando lhe passei o número ele ficou enfurecido. Disse que eu fiz besteira de comprar um celular, que eu devia ter falado com ele porque o amigo dele vendia celulares muito bons e muito mais baratos, e que eu havia jogado fora meu dinheiro com aquela compra... Não tive outra ação a não ser gentilmente pedir-lhe desculpas pelo meu erro crasso. Dado o tanto que ele lamentou por eu não ter comprado o celular do “amigo” dele, só pude concluir que ele ganharia uma parcela generosa na venda do equipamento. Afinal de contas, o malásio de origem chinesa era tão ocidentalmente civilizado que conseguiu assimilar até mesmo a ânsia mercantilista por lucro dos primeiros mercadores lusitanos que atracaram na China.
Mas essa foi só uma das muitas amizades estranhas que fiz nesse estranho país.
Como fiz intercâmbio pelo Rotary, eu era quase que naturalmente obrigado a participar de todos os eventos relacionados a essa instituição, principalmente as reuniões nos Interact Clubes das várias escolas (Interact é algo tipo o Rotary, mas para jovens, e as principais escolas de Klang tinham um). Em um desses muitos eventos, os membros do Interact de uma escola que eu visitava começaram a me sabatinar durante uma conversa bem informal na sede deles. Conversa vai, conversa vem, surge uma pergunta crucial: “Mas então, Marcelo... Você já disse o que admira na Malásia. Agora diga-nos: o que não te agradou aqui?” Fiquei sem jeito. Não sabia o que falar nem como falar. Eles perceberam meu desconforto e pediram que eu não me preocupasse, pois eles tinham a mente bem aberta e não ligariam de ouvir quaisquer críticas que eu tivesse a fazer. “Pois bem...” pensei eu ingenuamente, “se é assim, serei sincero”. Disse-lhes então que eu havia ficado desconfortável com o fato de a Malásia ser um país com uma sociedade bem diferente da brasileira, e que por isso não me sentia livre para falar de certos assuntos que no Brasil eu falaria com mais desenvoltura, como política, religião, sexo e outros temas mais delicados. A palavra “sexo” ecoou de forma macabra no recinto. De repente, todos aqueles jovens “de mente bem aberta” ficaram desconcertados, sem jeito e sem ação. Uma menina apenas se resumiu a dizer “Então... geralmente nós não falamos sobre sexo...”. Eu também fiquei sem ação. Não me lembro direito como tudo isso acabou. Só sei que trocamos e-mails e números de celular ao fim da reunião, e um dos presentes, um rapaz indiano, meio que se compadeceu de mim. Poucos dias depois recebia um e-mail dele perguntando se eu queria ser o melhor amigo dele. Achei melhor não responder, afinal de contas, nunca alguém me havia perguntado isso. Ele também me disse que se quisesse falar sobre sexo com ele, ele não teria problemas com isso. Aliás, acredite ou não, ele até me mandou alguns links de sites pornográficos, talvez com a finalidade de suscitar argumentos para nossas futuras discussões. Só sei que, depois dessa parei de responder os e-mails dele, não porque tivesse medo ou vergonha, mas única e simplesmente porque não sabia o que escrever.
Tive outra experiência desagradável quando perguntado acerca do que eu não havia gostado na Malásia, mas falarei sobre ela em outra postagem. No final das contas, ficou a lição: se te perguntarem do que você não gosta da Malásia, apenas fale do calor insuportável e encerre a discussão. Todos eles acharão lindo e ao fim você não arranjará um amigo que confunde falar sobre sexo com assistir pornografia.
Hoje vou começar a lhes contar algo fascinante – pelo menos para mim. Algo que nem todo mundo que me conhece sabe, e mesmo aqueles que sabem não sabem muito. Falarei de uma experiência inigualável de quando eu tinha 16 anos de idade. Ela durou um ano, mas nunca havia refletido de maneira mais detida a respeito. Falarei dos doze meses em que morei na Malásia, uma jovem monarquia no Sudeste Asiático.
Por que resolvi enfrentar meus demônios depois de tanto tempo? Porque não seria justo deixa-los de lado. Foram apenas cinco os meses que passei na Alemanha, e não obstante fiz quase uma cobertura jornalística acerca deles. Por outro lado, foram doze meses na Malásia, os quais deixaram como herança somente algumas poucas anotações em cadernos, todas elas tão enfadonhas que nem eu tenho paciência de relê-las.
Do dia 15 de junho de 2004 até o dia 13 de junho de 2005 experimentei os dias mais intensos, conturbados, confusos e edificantes de minha vida. Dificilmente qualquer outra experiência terá tanto impacto na minha vida como essa. E é justamente por ter sido algo tão marcante que acho tão difícil descrevê-lo. Aliás, estou escrevendo mais de 7 anos depois do ocorrido: de lá pra cá, muita coisa mesmo aconteceu, o suficiente pra mudar minhas visões e opiniões acerca do que vivenciei. Não pretendo esgotar o assunto nesse texto; precisarei de outros tantos para dar conta do assunto. Também não pretendo fazer uma narrativa rigidamente cronológica dos fatos, até porque já nem me recordo direito da sequência de tudo. Buscarei ir postando aquilo de que me lembrar ao longo do tempo.
Duas das perguntas mais frequentes que ouço sempre que toco no assunto: “e como é a Malásia?” e “mas... por que Malásia?”. A primeira é vaga demais pra ser levada a sério, além de extremamente pouco criativa. A segunda é mais instigante, mas também tenho preguiça de respondê-la. Digamos apenas que minha viagem à Malásia foi parte de um programa de intercâmbio internacional de jovens do Rotary Club, ao qual meu pai pertencia à época. Poderia ter escolhido os EUA, a Alemanha, as Filipinas, o Canadá e a Austrália, mas preferi a Malásia – embora as Filipinas também tenham cativado minha atenção.
Assim que cheguei à Malásia, tão logo botei os pés fora do aeroporto, senti uma onda de calor infernal me atacando. Só tinha experimentado sensação igual uma vez na vida, seis anos antes, quando desci do ônibus em Porto Seguro. Mas dessa vez o calor era maior, sem falar que eu estava de terno e gravata (uma das muitas insensatezes do Rotary Club) e há dois dias viajando e sem tomar banho.
A primeira casa em que fiquei foi de um casal “mestiço”: um indiano casado com uma malaia (Dr. Shaari e Dona Nooriah, respectivamente), embora casamentos mistos na Malásia sejam bastante raros de se ver. Eles tinham duas filhas: uma um pouco mais velha, e outra um pouco mais nova do que eu. Em poucos dias, me avisaram que em breve eu estaria indo à escola. Não me disseram muito sobre ela, apenas que era um colégio masculino e que os meninos de lá tinham fama de serem baderneiros. Nos meus primeiros dias por lá, ocupei-me com um dicionário “inglês-malaio, malaio-inglês” que achei na minha casa. Com ele aprendi várias palavras, e aos poucos fui me familiarizando com o idioma malaio.
Logo no meu primeiro dia na Malásia, Dr. Shaari me chamou pra uma conversa antes de dormir. Me disse que eu precisava ter cuidado, pois Klang (a cidade onde morava) era muito perigosa. Segundo ele, lá eram muito comuns as gangues de imigrantes indonésios que iam pra Malásia em busca de melhores condições de vida. Além disso, me orientou a ser especialmente cauteloso na escola. Ele disse pra eu ter cuidado com muitos estudantes de origem indiana, pois muitos deles eram más companhias, formavam gangues e gostavam de arrumar encrenca. Posteriormente, D. Nooriah também me orientou nesse sentido, dizendo que era preciso ter cuidado com os indianos. A princípio fiquei confuso: como poderia um indiano e a esposa de um indiano me orientar a ter cuidado com os indianos? Só fui compreender melhor oito anos depois, já no curso de história, quando descobri que havia brasileiros no começo do século XX que abominavam a mestiçagem e tudo o mais que não fosse puramente europeu. Mas essa é uma outra história.
Meus primeiros dias na Malásia foram dedicados a conhecer melhor a cidade onde eu morava. De carro, D. Nooriah me levou para vários lugares, mostrou-me a escola onde eu estudaria, a prefeitura, as praças e os melhores restaurantes. Me disse que eu me parecia com o ator de uma novela colombiana que passava todas as tardes na TV aberta e que cativava os telespectadores de todo o país, principalmente as mulheres. O nome dele na novela era Antônio. Quando assistíamos à novela juntos, ela me perguntava se eu conseguia entender o que eles falavam, e se era a mesma língua que se falava no Brasil.
Meu primeiro dia na escola foi memorável. Estudei na La Salle – uma escola que, só depois fui descobrir, tinha unidades até no Brasil. Na Malásia ela fora fundada por missionários ingleses, por isso era uma escola só para meninos. A recepção foi calorosa, principalmente por parte dos alunos. Não era comum ver estrangeiros em Klang, muito menos na escola e muito menos ocidentais. Minha primeira aula foi na biblioteca da escola. Lá fui bombardeado com milhões de perguntas sobre mim e sobre o Brasil. Achei um atlas bem completo, abri na página que mostrava mapas regionais do Brasil e apontei para a cidade de onde eu vinha – Lavras.
No primeiro dia de aula muita gente veio falar comigo. Um deles foi uma das criaturas mais insuportáveis que já conheci naquele país: um menino chinês que me convidava para ir à igreja dele. Ao longo de minha estadia, experimentei diversas situações embaraçosas com essa figura: sempre que ele me perguntava o que eu havia feito no final de semana e eu dizia que havia visitado algum templo budista ou algum templo hindu, ele se horrorizava. Ele me dizia que eu era cristão e que não podia ficar indo a esses lugares porque era pecado. Até quando eu disse a ele que tinha ido à igreja católica ele se indignou, dizendo pra eu não fazer mais aquilo – segundo ele, eu só podia ir à igreja evangélica. Isso sem falar no dia em que, na hora do lanche, ele me viu na cantina comendo com as mãos (algo bastante comum na Malásia, principalmente entre os malaios e indianos). Nesse dia ele novamente me chamou a atenção, dizendo que apenas os hindus e muçulmanos comem com as mãos, e que eu não podia comer com as mãos porque no Ocidente só se come com talher. Pois vejam só isso! Quer dizer então que após séculos e séculos “civilizando” os povos ditos inferiores, o homem ocidental chegou a um ponto no qual se vê necessitado do auxílio de um chinês para se civilizar? Talvez seja isso mesmo... O homem ocidental depositou tanta “civilização” sobre os demais homens que agora ele a recebe de volta, seja como uma forma de agradecimento, seja como uma forma de troco. Interessante que esse mesmo rapaz chinês ainda me causou outro constrangimento, dessa vez quando conversávamos na internet. Eu disse a ele que havia comprado um celular, e quando lhe passei o número ele ficou enfurecido. Disse que eu fiz besteira de comprar um celular, que eu devia ter falado com ele porque o amigo dele vendia celulares muito bons e muito mais baratos, e que eu havia jogado fora meu dinheiro com aquela compra... Não tive outra ação a não ser gentilmente pedir-lhe desculpas pelo meu erro crasso. Dado o tanto que ele lamentou por eu não ter comprado o celular do “amigo” dele, só pude concluir que ele ganharia uma parcela generosa na venda do equipamento. Afinal de contas, o malásio de origem chinesa era tão ocidentalmente civilizado que conseguiu assimilar até mesmo a ânsia mercantilista por lucro dos primeiros mercadores lusitanos que atracaram na China.
Mas essa foi só uma das muitas amizades estranhas que fiz nesse estranho país.
Como fiz intercâmbio pelo Rotary, eu era quase que naturalmente obrigado a participar de todos os eventos relacionados a essa instituição, principalmente as reuniões nos Interact Clubes das várias escolas (Interact é algo tipo o Rotary, mas para jovens, e as principais escolas de Klang tinham um). Em um desses muitos eventos, os membros do Interact de uma escola que eu visitava começaram a me sabatinar durante uma conversa bem informal na sede deles. Conversa vai, conversa vem, surge uma pergunta crucial: “Mas então, Marcelo... Você já disse o que admira na Malásia. Agora diga-nos: o que não te agradou aqui?” Fiquei sem jeito. Não sabia o que falar nem como falar. Eles perceberam meu desconforto e pediram que eu não me preocupasse, pois eles tinham a mente bem aberta e não ligariam de ouvir quaisquer críticas que eu tivesse a fazer. “Pois bem...” pensei eu ingenuamente, “se é assim, serei sincero”. Disse-lhes então que eu havia ficado desconfortável com o fato de a Malásia ser um país com uma sociedade bem diferente da brasileira, e que por isso não me sentia livre para falar de certos assuntos que no Brasil eu falaria com mais desenvoltura, como política, religião, sexo e outros temas mais delicados. A palavra “sexo” ecoou de forma macabra no recinto. De repente, todos aqueles jovens “de mente bem aberta” ficaram desconcertados, sem jeito e sem ação. Uma menina apenas se resumiu a dizer “Então... geralmente nós não falamos sobre sexo...”. Eu também fiquei sem ação. Não me lembro direito como tudo isso acabou. Só sei que trocamos e-mails e números de celular ao fim da reunião, e um dos presentes, um rapaz indiano, meio que se compadeceu de mim. Poucos dias depois recebia um e-mail dele perguntando se eu queria ser o melhor amigo dele. Achei melhor não responder, afinal de contas, nunca alguém me havia perguntado isso. Ele também me disse que se quisesse falar sobre sexo com ele, ele não teria problemas com isso. Aliás, acredite ou não, ele até me mandou alguns links de sites pornográficos, talvez com a finalidade de suscitar argumentos para nossas futuras discussões. Só sei que, depois dessa parei de responder os e-mails dele, não porque tivesse medo ou vergonha, mas única e simplesmente porque não sabia o que escrever.
Tive outra experiência desagradável quando perguntado acerca do que eu não havia gostado na Malásia, mas falarei sobre ela em outra postagem. No final das contas, ficou a lição: se te perguntarem do que você não gosta da Malásia, apenas fale do calor insuportável e encerre a discussão. Todos eles acharão lindo e ao fim você não arranjará um amigo que confunde falar sobre sexo com assistir pornografia.
domingo, 22 de abril de 2012
Digressões de Augsburg
O que dizer de meus últimos três dias na Alemanha? Aqueles que se seguiram ao meu último post.
Tudo transcorreu rapidamente, como se cada hora que passasse me jogasse de volta pra cá. Na segunda, dia 27, parti para minha missão de tudo ou nada: encontrar a placa indicando onde havia acontecido a Confissão de Augsburg, evento histórico que eu tinha grifado na minha apostila de cursinho e que inspirou os títulos das postagens desse blog nos últimos cinco meses. Não fazia sentido eu ter passado cinco meses em Augsburg sem ver essa placa. Uma guia turística havia me dito onde ele ficava, mas por várias vezes visitei o tal lugar sem qualquer sucesso. Decidi voltar ao pátio em volta da catedral de Augsburg para ver se o encontrava. Olhei atentamente para todos os lados, todas as paredes, seguindo fielmente as coordenadas que a guia havia me passado. Não vi nada que já não tivesse visto antes. Passei pelo parquinho infantil, pela estátua em homenagem à guerra de unificação, pelo jardim, até me postar em frente à entrada do prédio onde funcionava a administração central da Suábia – um dos distritos nos quais se divide a Bavária. Nada. Tudo parecia se encaminhar para mais um resultado frustrado. Quando ia atravessar o prédio para ir até o outro lado, já sem muita esperança, resolvi olhar para a direita, sem muito compromisso nem motivo... E foi aí que eu achei!
Era uma placa meio cinza ou preta, tão escura que se confundia com a parede do prédio na qual ela estava talhada. Por isso era tão difícil vê-la. De início não tive certeza se era ela mesma, mas ao chegar bem perto e ler seu conteúdo, confirmei minha suspeita. Quase não acreditei que somente no meu último dia na Alemanha fui achar aquilo que procurei o semestre inteiro. Fiquei contemplando-a por alguns segundos. Depois olhei para cima e vi um avião lá no alto; foi o sinal de que era a hora de voltar.
Infelizmente, essa não foi a última página do meu intercâmbio. Ficou tudo reservado para o dia 28, o dia de voltar. Assim como a pior noite de todo o intercâmbio foi a primeira, a pior manhã foi a última.
Na terça de manhã eu iria ao banco cancelar minha conta e meu cartão. Porém, a menina que havia sublocado meu quarto tinha transferido o dinheiro para minha conta na sexta, e até então (terça de manhã) não havia nem rastro do dinheiro na conta – sendo que meu voo estava marcado para as 18h. Fiquei atualizando o site do banco várias e várias vezes pra ver se o dinheiro aparecia, e nada. Fui até o banco, expliquei à atendente minha situação, e o que ouvi foi um soco inglês no estômago: “pode ser que o dinheiro caia hoje à tarde, pode ser que caia à noite, pode ser que caia só amanhã...”. De fato, os bancos na Alemanha ainda estão na idade da pedra lascada. Nunca vi um lugar tão difícil pra se lidar com bancos como lá. Enquanto o dinheiro não caísse não daria pra fechar a conta. Voltei pra casa sem saber como agir. Decidi que ia acabar de limpar meu quarto, jogar algumas coisas no lixo e, quem sabe, nesse meio tempo o dinheiro cairia.
Mas o desespero ia batendo cada vez mais. Imagine: sublocar o quarto para alguém e ir embora sem o dinheiro? Sair do país e deixar uma conta aberta lá em meu nome? Sempre tive uma paciência nula com bancos, e a Alemanha só piorou esse meu hábito. Quando saí do quarto pra jogar o lixo fora, outro soco inglês no estômago. Como se o problema do dinheiro já não fosse o suficiente, percebi que eu havia fechado a porta com a chave lá dentro! E na Alemanha é impossível abrir a porta por fora sem a chave, mesmo estando destrancada. A maçaneta é falsa, não gira.
Logo que percebi a merda que havia feito, meu primeiro impulso foi desmoronar no corredor e ficar lá caído por toda a eternidade. Era muita adrenalina pra uma manhã só – mais adrenalina do que todos aqueles cinco meses juntos. Estava atônito. Bati na porta do Maurício – o brasileiro, meu vizinho. Ele não atendeu – e mesmo se tivesse atendido, não poderia me ajudar em nada. Resolvi então correr até lá embaixo na tola esperança de encontrar o zelador, que tem a chave mestra; o zelador, que só trabalha uma hora por dia. Ao longo de todo esse semestre vi esse tipo de problema acontecendo com vários estudantes da moradia; eu suspeitava que um dia ia acontecer comigo, só não esperava que seria justo no meu último dia.
Mas o que parecia uma tragédia acabou se configurando como um susto, graças aos lapsos de sorte extrema que costumo ter vez ou outra na vida. Quando entrei no elevador, adivinha quem estava lá dentro? Ele mesmo, o zelador. Supliquei a ele que me ajudasse, e na mesma hora ele foi até meu quarto e abriu a porta. Tive vontade de beijá-lo. Agradeci-o imensamente, falei que eu já estava indo embora e ele desejou boa viagem de volta.
Nisso, o Maurício abriu a porta de seu quarto com cara de sono. Pedi desculpas por tê-lo acordado e ele disse que não tinha problema: “já estava na hora...”. Expliquei a ele minha situação e ele se ofereceu a me ajudar: disse que poderia transferir o dinheiro pra mim no Brasil assim que ele caísse, bem como fechar minha conta. Para isso, só precisaria de uma procuração. Agradeci-o, e disse que iria esperar mais um pouco pra ver se o dinheiro realmente cairia. Caso contrário, a ajuda seria muito bem-vinda.
Joguei fora o lixo e continuei limpando o quarto para o tempo passar. Lá pelas onze acessei novamente o site do banco e o melhor havia acontecido: o dinheiro estava lá!
Bati na porta do Maurício de novo, expliquei que já estava tudo resolvido e despedi-me dele, desejando boa sorte na entrevista de emprego que ele teria mais tarde. Voltei então ao banco, saquei o dinheiro e fechei minha conta. O atendente também me desejou um bom voo de volta. E voltei ao meu quarto pela última vez.
Com duas malas de rodinha (uma de 25 e outra de 15 kg) saí de meu quarto. Dei uma última olhada, como que dizendo “sentirei saudades” e tranquei a porta. Lá fora também dei uma última olhada para o prédio da moradia. No ponto de ônibus, o ônibus 23 passou antes do bonde número 1 (ambos passavam pela a estação). No meu primeiro dia em Augsburg eu também tinha pegado aquele ônibus para chegar à moradia. Joguei um último olhar a todos aqueles prédios e casas que eu sempre via, e que já tinham virado parte do meu cotidiano. Chegando à estação, logo na entrada, vi um professor meu da universidade saindo. Ele passou do meu lado, mas não me viu. Era o último conhecido que eu via na Alemanha. Na hora de comprar a passagem para o aeroporto, um homem me abordou perguntando se eu queria dividir um ticket com ele, pois ele ia para Munique. Aceitei porque sairia bem mais barato. Enquanto aguardávamos, algumas mulheres uniformizadas chegaram ao centro da estação e começaram a distribuir pacotes daquele iogurte Activia gratuitamente. Foi com um pesar imenso que tive que recusar a oferta: eu amo aquele iogurte, mas já estava com muita coisa pra levar; minhas malas – as duas – estouravam o limite de peso.
Assim, conduzir aquelas duas malas até o trem foi um sacrifício. Chegando à estação central de Munique, peguei o outro trem para o aeroporto, onde a balconista do check-in muito gentilmente me liberou para embarcar, mesmo minha bagagem de mão pesando oito quilos a mais que o permitido. Na espera pelo embarque, tentei relaxar daquele rebuliço todo. Estava com muita fome (não tinha almoçado) e resolvi pedir um sanduíche em uma lanchonete ali mesmo na sala de embarque. Comi-o com muito gosto. Pouco antes de entrar no avião, uma última mensagem no meu celular de despedida.
Havia acabado. Enfim, havia acabado!
Tudo transcorreu rapidamente, como se cada hora que passasse me jogasse de volta pra cá. Na segunda, dia 27, parti para minha missão de tudo ou nada: encontrar a placa indicando onde havia acontecido a Confissão de Augsburg, evento histórico que eu tinha grifado na minha apostila de cursinho e que inspirou os títulos das postagens desse blog nos últimos cinco meses. Não fazia sentido eu ter passado cinco meses em Augsburg sem ver essa placa. Uma guia turística havia me dito onde ele ficava, mas por várias vezes visitei o tal lugar sem qualquer sucesso. Decidi voltar ao pátio em volta da catedral de Augsburg para ver se o encontrava. Olhei atentamente para todos os lados, todas as paredes, seguindo fielmente as coordenadas que a guia havia me passado. Não vi nada que já não tivesse visto antes. Passei pelo parquinho infantil, pela estátua em homenagem à guerra de unificação, pelo jardim, até me postar em frente à entrada do prédio onde funcionava a administração central da Suábia – um dos distritos nos quais se divide a Bavária. Nada. Tudo parecia se encaminhar para mais um resultado frustrado. Quando ia atravessar o prédio para ir até o outro lado, já sem muita esperança, resolvi olhar para a direita, sem muito compromisso nem motivo... E foi aí que eu achei!
Era uma placa meio cinza ou preta, tão escura que se confundia com a parede do prédio na qual ela estava talhada. Por isso era tão difícil vê-la. De início não tive certeza se era ela mesma, mas ao chegar bem perto e ler seu conteúdo, confirmei minha suspeita. Quase não acreditei que somente no meu último dia na Alemanha fui achar aquilo que procurei o semestre inteiro. Fiquei contemplando-a por alguns segundos. Depois olhei para cima e vi um avião lá no alto; foi o sinal de que era a hora de voltar.
Infelizmente, essa não foi a última página do meu intercâmbio. Ficou tudo reservado para o dia 28, o dia de voltar. Assim como a pior noite de todo o intercâmbio foi a primeira, a pior manhã foi a última.
Na terça de manhã eu iria ao banco cancelar minha conta e meu cartão. Porém, a menina que havia sublocado meu quarto tinha transferido o dinheiro para minha conta na sexta, e até então (terça de manhã) não havia nem rastro do dinheiro na conta – sendo que meu voo estava marcado para as 18h. Fiquei atualizando o site do banco várias e várias vezes pra ver se o dinheiro aparecia, e nada. Fui até o banco, expliquei à atendente minha situação, e o que ouvi foi um soco inglês no estômago: “pode ser que o dinheiro caia hoje à tarde, pode ser que caia à noite, pode ser que caia só amanhã...”. De fato, os bancos na Alemanha ainda estão na idade da pedra lascada. Nunca vi um lugar tão difícil pra se lidar com bancos como lá. Enquanto o dinheiro não caísse não daria pra fechar a conta. Voltei pra casa sem saber como agir. Decidi que ia acabar de limpar meu quarto, jogar algumas coisas no lixo e, quem sabe, nesse meio tempo o dinheiro cairia.
Mas o desespero ia batendo cada vez mais. Imagine: sublocar o quarto para alguém e ir embora sem o dinheiro? Sair do país e deixar uma conta aberta lá em meu nome? Sempre tive uma paciência nula com bancos, e a Alemanha só piorou esse meu hábito. Quando saí do quarto pra jogar o lixo fora, outro soco inglês no estômago. Como se o problema do dinheiro já não fosse o suficiente, percebi que eu havia fechado a porta com a chave lá dentro! E na Alemanha é impossível abrir a porta por fora sem a chave, mesmo estando destrancada. A maçaneta é falsa, não gira.
Logo que percebi a merda que havia feito, meu primeiro impulso foi desmoronar no corredor e ficar lá caído por toda a eternidade. Era muita adrenalina pra uma manhã só – mais adrenalina do que todos aqueles cinco meses juntos. Estava atônito. Bati na porta do Maurício – o brasileiro, meu vizinho. Ele não atendeu – e mesmo se tivesse atendido, não poderia me ajudar em nada. Resolvi então correr até lá embaixo na tola esperança de encontrar o zelador, que tem a chave mestra; o zelador, que só trabalha uma hora por dia. Ao longo de todo esse semestre vi esse tipo de problema acontecendo com vários estudantes da moradia; eu suspeitava que um dia ia acontecer comigo, só não esperava que seria justo no meu último dia.
Mas o que parecia uma tragédia acabou se configurando como um susto, graças aos lapsos de sorte extrema que costumo ter vez ou outra na vida. Quando entrei no elevador, adivinha quem estava lá dentro? Ele mesmo, o zelador. Supliquei a ele que me ajudasse, e na mesma hora ele foi até meu quarto e abriu a porta. Tive vontade de beijá-lo. Agradeci-o imensamente, falei que eu já estava indo embora e ele desejou boa viagem de volta.
Nisso, o Maurício abriu a porta de seu quarto com cara de sono. Pedi desculpas por tê-lo acordado e ele disse que não tinha problema: “já estava na hora...”. Expliquei a ele minha situação e ele se ofereceu a me ajudar: disse que poderia transferir o dinheiro pra mim no Brasil assim que ele caísse, bem como fechar minha conta. Para isso, só precisaria de uma procuração. Agradeci-o, e disse que iria esperar mais um pouco pra ver se o dinheiro realmente cairia. Caso contrário, a ajuda seria muito bem-vinda.
Joguei fora o lixo e continuei limpando o quarto para o tempo passar. Lá pelas onze acessei novamente o site do banco e o melhor havia acontecido: o dinheiro estava lá!
Bati na porta do Maurício de novo, expliquei que já estava tudo resolvido e despedi-me dele, desejando boa sorte na entrevista de emprego que ele teria mais tarde. Voltei então ao banco, saquei o dinheiro e fechei minha conta. O atendente também me desejou um bom voo de volta. E voltei ao meu quarto pela última vez.
Com duas malas de rodinha (uma de 25 e outra de 15 kg) saí de meu quarto. Dei uma última olhada, como que dizendo “sentirei saudades” e tranquei a porta. Lá fora também dei uma última olhada para o prédio da moradia. No ponto de ônibus, o ônibus 23 passou antes do bonde número 1 (ambos passavam pela a estação). No meu primeiro dia em Augsburg eu também tinha pegado aquele ônibus para chegar à moradia. Joguei um último olhar a todos aqueles prédios e casas que eu sempre via, e que já tinham virado parte do meu cotidiano. Chegando à estação, logo na entrada, vi um professor meu da universidade saindo. Ele passou do meu lado, mas não me viu. Era o último conhecido que eu via na Alemanha. Na hora de comprar a passagem para o aeroporto, um homem me abordou perguntando se eu queria dividir um ticket com ele, pois ele ia para Munique. Aceitei porque sairia bem mais barato. Enquanto aguardávamos, algumas mulheres uniformizadas chegaram ao centro da estação e começaram a distribuir pacotes daquele iogurte Activia gratuitamente. Foi com um pesar imenso que tive que recusar a oferta: eu amo aquele iogurte, mas já estava com muita coisa pra levar; minhas malas – as duas – estouravam o limite de peso.
Assim, conduzir aquelas duas malas até o trem foi um sacrifício. Chegando à estação central de Munique, peguei o outro trem para o aeroporto, onde a balconista do check-in muito gentilmente me liberou para embarcar, mesmo minha bagagem de mão pesando oito quilos a mais que o permitido. Na espera pelo embarque, tentei relaxar daquele rebuliço todo. Estava com muita fome (não tinha almoçado) e resolvi pedir um sanduíche em uma lanchonete ali mesmo na sala de embarque. Comi-o com muito gosto. Pouco antes de entrar no avião, uma última mensagem no meu celular de despedida.
Havia acabado. Enfim, havia acabado!
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