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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Páginas de combate - parte I

O homem que não enfrenta seus demônios está fadado a conviver com eles. Porém, o homem que enfrenta seus demônios e é derrotado está fadado a ser escravo deles.




Hoje vou começar a lhes contar algo fascinante – pelo menos para mim. Algo que nem todo mundo que me conhece sabe, e mesmo aqueles que sabem não sabem muito. Falarei de uma experiência inigualável de quando eu tinha 16 anos de idade. Ela durou um ano, mas nunca havia refletido de maneira mais detida a respeito. Falarei dos doze meses em que morei na Malásia, uma jovem monarquia no Sudeste Asiático.

Por que resolvi enfrentar meus demônios depois de tanto tempo? Porque não seria justo deixa-los de lado. Foram apenas cinco os meses que passei na Alemanha, e não obstante fiz quase uma cobertura jornalística acerca deles. Por outro lado, foram doze meses na Malásia, os quais deixaram como herança somente algumas poucas anotações em cadernos, todas elas tão enfadonhas que nem eu tenho paciência de relê-las.

Do dia 15 de junho de 2004 até o dia 13 de junho de 2005 experimentei os dias mais intensos, conturbados, confusos e edificantes de minha vida. Dificilmente qualquer outra experiência terá tanto impacto na minha vida como essa. E é justamente por ter sido algo tão marcante que acho tão difícil descrevê-lo. Aliás, estou escrevendo mais de 7 anos depois do ocorrido: de lá pra cá, muita coisa mesmo aconteceu, o suficiente pra mudar minhas visões e opiniões acerca do que vivenciei. Não pretendo esgotar o assunto nesse texto; precisarei de outros tantos para dar conta do assunto. Também não pretendo fazer uma narrativa rigidamente cronológica dos fatos, até porque já nem me recordo direito da sequência de tudo. Buscarei ir postando aquilo de que me lembrar ao longo do tempo.

Duas das perguntas mais frequentes que ouço sempre que toco no assunto: “e como é a Malásia?” e “mas... por que Malásia?”. A primeira é vaga demais pra ser levada a sério, além de extremamente pouco criativa. A segunda é mais instigante, mas também tenho preguiça de respondê-la. Digamos apenas que minha viagem à Malásia foi parte de um programa de intercâmbio internacional de jovens do Rotary Club, ao qual meu pai pertencia à época. Poderia ter escolhido os EUA, a Alemanha, as Filipinas, o Canadá e a Austrália, mas preferi a Malásia – embora as Filipinas também tenham cativado minha atenção.

Assim que cheguei à Malásia, tão logo botei os pés fora do aeroporto, senti uma onda de calor infernal me atacando. Só tinha experimentado sensação igual uma vez na vida, seis anos antes, quando desci do ônibus em Porto Seguro. Mas dessa vez o calor era maior, sem falar que eu estava de terno e gravata (uma das muitas insensatezes do Rotary Club) e há dois dias viajando e sem tomar banho.

A primeira casa em que fiquei foi de um casal “mestiço”: um indiano casado com uma malaia (Dr. Shaari e Dona Nooriah, respectivamente), embora casamentos mistos na Malásia sejam bastante raros de se ver. Eles tinham duas filhas: uma um pouco mais velha, e outra um pouco mais nova do que eu. Em poucos dias, me avisaram que em breve eu estaria indo à escola. Não me disseram muito sobre ela, apenas que era um colégio masculino e que os meninos de lá tinham fama de serem baderneiros. Nos meus primeiros dias por lá, ocupei-me com um dicionário “inglês-malaio, malaio-inglês” que achei na minha casa. Com ele aprendi várias palavras, e aos poucos fui me familiarizando com o idioma malaio.

Logo no meu primeiro dia na Malásia, Dr. Shaari me chamou pra uma conversa antes de dormir. Me disse que eu precisava ter cuidado, pois Klang (a cidade onde morava) era muito perigosa. Segundo ele, lá eram muito comuns as gangues de imigrantes indonésios que iam pra Malásia em busca de melhores condições de vida. Além disso, me orientou a ser especialmente cauteloso na escola. Ele disse pra eu ter cuidado com muitos estudantes de origem indiana, pois muitos deles eram más companhias, formavam gangues e gostavam de arrumar encrenca. Posteriormente, D. Nooriah também me orientou nesse sentido, dizendo que era preciso ter cuidado com os indianos. A princípio fiquei confuso: como poderia um indiano e a esposa de um indiano me orientar a ter cuidado com os indianos? Só fui compreender melhor oito anos depois, já no curso de história, quando descobri que havia brasileiros no começo do século XX que abominavam a mestiçagem e tudo o mais que não fosse puramente europeu. Mas essa é uma outra história.

Meus primeiros dias na Malásia foram dedicados a conhecer melhor a cidade onde eu morava. De carro, D. Nooriah me levou para vários lugares, mostrou-me a escola onde eu estudaria, a prefeitura, as praças e os melhores restaurantes. Me disse que eu me parecia com o ator de uma novela colombiana que passava todas as tardes na TV aberta e que cativava os telespectadores de todo o país, principalmente as mulheres. O nome dele na novela era Antônio. Quando assistíamos à novela juntos, ela me perguntava se eu conseguia entender o que eles falavam, e se era a mesma língua que se falava no Brasil.

Meu primeiro dia na escola foi memorável. Estudei na La Salle – uma escola que, só depois fui descobrir, tinha unidades até no Brasil. Na Malásia ela fora fundada por missionários ingleses, por isso era uma escola só para meninos. A recepção foi calorosa, principalmente por parte dos alunos. Não era comum ver estrangeiros em Klang, muito menos na escola e muito menos ocidentais. Minha primeira aula foi na biblioteca da escola. Lá fui bombardeado com milhões de perguntas sobre mim e sobre o Brasil. Achei um atlas bem completo, abri na página que mostrava mapas regionais do Brasil e apontei para a cidade de onde eu vinha – Lavras.

No primeiro dia de aula muita gente veio falar comigo. Um deles foi uma das criaturas mais insuportáveis que já conheci naquele país: um menino chinês que me convidava para ir à igreja dele. Ao longo de minha estadia, experimentei diversas situações embaraçosas com essa figura: sempre que ele me perguntava o que eu havia feito no final de semana e eu dizia que havia visitado algum templo budista ou algum templo hindu, ele se horrorizava. Ele me dizia que eu era cristão e que não podia ficar indo a esses lugares porque era pecado. Até quando eu disse a ele que tinha ido à igreja católica ele se indignou, dizendo pra eu não fazer mais aquilo – segundo ele, eu só podia ir à igreja evangélica. Isso sem falar no dia em que, na hora do lanche, ele me viu na cantina comendo com as mãos (algo bastante comum na Malásia, principalmente entre os malaios e indianos). Nesse dia ele novamente me chamou a atenção, dizendo que apenas os hindus e muçulmanos comem com as mãos, e que eu não podia comer com as mãos porque no Ocidente só se come com talher. Pois vejam só isso! Quer dizer então que após séculos e séculos “civilizando” os povos ditos inferiores, o homem ocidental chegou a um ponto no qual se vê necessitado do auxílio de um chinês para se civilizar? Talvez seja isso mesmo... O homem ocidental depositou tanta “civilização” sobre os demais homens que agora ele a recebe de volta, seja como uma forma de agradecimento, seja como uma forma de troco. Interessante que esse mesmo rapaz chinês ainda me causou outro constrangimento, dessa vez quando conversávamos na internet. Eu disse a ele que havia comprado um celular, e quando lhe passei o número ele ficou enfurecido. Disse que eu fiz besteira de comprar um celular, que eu devia ter falado com ele porque o amigo dele vendia celulares muito bons e muito mais baratos, e que eu havia jogado fora meu dinheiro com aquela compra... Não tive outra ação a não ser gentilmente pedir-lhe desculpas pelo meu erro crasso. Dado o tanto que ele lamentou por eu não ter comprado o celular do “amigo” dele, só pude concluir que ele ganharia uma parcela generosa na venda do equipamento. Afinal de contas, o malásio de origem chinesa era tão ocidentalmente civilizado que conseguiu assimilar até mesmo a ânsia mercantilista por lucro dos primeiros mercadores lusitanos que atracaram na China.

Mas essa foi só uma das muitas amizades estranhas que fiz nesse estranho país.

Como fiz intercâmbio pelo Rotary, eu era quase que naturalmente obrigado a participar de todos os eventos relacionados a essa instituição, principalmente as reuniões nos Interact Clubes das várias escolas (Interact é algo tipo o Rotary, mas para jovens, e as principais escolas de Klang tinham um). Em um desses muitos eventos, os membros do Interact de uma escola que eu visitava começaram a me sabatinar durante uma conversa bem informal na sede deles. Conversa vai, conversa vem, surge uma pergunta crucial: “Mas então, Marcelo... Você já disse o que admira na Malásia. Agora diga-nos: o que não te agradou aqui?” Fiquei sem jeito. Não sabia o que falar nem como falar. Eles perceberam meu desconforto e pediram que eu não me preocupasse, pois eles tinham a mente bem aberta e não ligariam de ouvir quaisquer críticas que eu tivesse a fazer. “Pois bem...” pensei eu ingenuamente, “se é assim, serei sincero”. Disse-lhes então que eu havia ficado desconfortável com o fato de a Malásia ser um país com uma sociedade bem diferente da brasileira, e que por isso não me sentia livre para falar de certos assuntos que no Brasil eu falaria com mais desenvoltura, como política, religião, sexo e outros temas mais delicados. A palavra “sexo” ecoou de forma macabra no recinto. De repente, todos aqueles jovens “de mente bem aberta” ficaram desconcertados, sem jeito e sem ação. Uma menina apenas se resumiu a dizer “Então... geralmente nós não falamos sobre sexo...”. Eu também fiquei sem ação. Não me lembro direito como tudo isso acabou. Só sei que trocamos e-mails e números de celular ao fim da reunião, e um dos presentes, um rapaz indiano, meio que se compadeceu de mim. Poucos dias depois recebia um e-mail dele perguntando se eu queria ser o melhor amigo dele. Achei melhor não responder, afinal de contas, nunca alguém me havia perguntado isso. Ele também me disse que se quisesse falar sobre sexo com ele, ele não teria problemas com isso. Aliás, acredite ou não, ele até me mandou alguns links de sites pornográficos, talvez com a finalidade de suscitar argumentos para nossas futuras discussões. Só sei que, depois dessa parei de responder os e-mails dele, não porque tivesse medo ou vergonha, mas única e simplesmente porque não sabia o que escrever.

Tive outra experiência desagradável quando perguntado acerca do que eu não havia gostado na Malásia, mas falarei sobre ela em outra postagem. No final das contas, ficou a lição: se te perguntarem do que você não gosta da Malásia, apenas fale do calor insuportável e encerre a discussão. Todos eles acharão lindo e ao fim você não arranjará um amigo que confunde falar sobre sexo com assistir pornografia.

domingo, 22 de abril de 2012

Digressões de Augsburg

O que dizer de meus últimos três dias na Alemanha? Aqueles que se seguiram ao meu último post.

Tudo transcorreu rapidamente, como se cada hora que passasse me jogasse de volta pra cá. Na segunda, dia 27, parti para minha missão de tudo ou nada: encontrar a placa indicando onde havia acontecido a Confissão de Augsburg, evento histórico que eu tinha grifado na minha apostila de cursinho e que inspirou os títulos das postagens desse blog nos últimos cinco meses. Não fazia sentido eu ter passado cinco meses em Augsburg sem ver essa placa. Uma guia turística havia me dito onde ele ficava, mas por várias vezes visitei o tal lugar sem qualquer sucesso. Decidi voltar ao pátio em volta da catedral de Augsburg para ver se o encontrava. Olhei atentamente para todos os lados, todas as paredes, seguindo fielmente as coordenadas que a guia havia me passado. Não vi nada que já não tivesse visto antes. Passei pelo parquinho infantil, pela estátua em homenagem à guerra de unificação, pelo jardim, até me postar em frente à entrada do prédio onde funcionava a administração central da Suábia – um dos distritos nos quais se divide a Bavária. Nada. Tudo parecia se encaminhar para mais um resultado frustrado. Quando ia atravessar o prédio para ir até o outro lado, já sem muita esperança, resolvi olhar para a direita, sem muito compromisso nem motivo... E foi aí que eu achei!

Era uma placa meio cinza ou preta, tão escura que se confundia com a parede do prédio na qual ela estava talhada. Por isso era tão difícil vê-la. De início não tive certeza se era ela mesma, mas ao chegar bem perto e ler seu conteúdo, confirmei minha suspeita. Quase não acreditei que somente no meu último dia na Alemanha fui achar aquilo que procurei o semestre inteiro. Fiquei contemplando-a por alguns segundos. Depois olhei para cima e vi um avião lá no alto; foi o sinal de que era a hora de voltar.

Infelizmente, essa não foi a última página do meu intercâmbio. Ficou tudo reservado para o dia 28, o dia de voltar. Assim como a pior noite de todo o intercâmbio foi a primeira, a pior manhã foi a última.

Na terça de manhã eu iria ao banco cancelar minha conta e meu cartão. Porém, a menina que havia sublocado meu quarto tinha transferido o dinheiro para minha conta na sexta, e até então (terça de manhã) não havia nem rastro do dinheiro na conta – sendo que meu voo estava marcado para as 18h. Fiquei atualizando o site do banco várias e várias vezes pra ver se o dinheiro aparecia, e nada. Fui até o banco, expliquei à atendente minha situação, e o que ouvi foi um soco inglês no estômago: “pode ser que o dinheiro caia hoje à tarde, pode ser que caia à noite, pode ser que caia só amanhã...”. De fato, os bancos na Alemanha ainda estão na idade da pedra lascada. Nunca vi um lugar tão difícil pra se lidar com bancos como lá. Enquanto o dinheiro não caísse não daria pra fechar a conta. Voltei pra casa sem saber como agir. Decidi que ia acabar de limpar meu quarto, jogar algumas coisas no lixo e, quem sabe, nesse meio tempo o dinheiro cairia.

Mas o desespero ia batendo cada vez mais. Imagine: sublocar o quarto para alguém e ir embora sem o dinheiro? Sair do país e deixar uma conta aberta lá em meu nome? Sempre tive uma paciência nula com bancos, e a Alemanha só piorou esse meu hábito. Quando saí do quarto pra jogar o lixo fora, outro soco inglês no estômago. Como se o problema do dinheiro já não fosse o suficiente, percebi que eu havia fechado a porta com a chave lá dentro! E na Alemanha é impossível abrir a porta por fora sem a chave, mesmo estando destrancada. A maçaneta é falsa, não gira.

Logo que percebi a merda que havia feito, meu primeiro impulso foi desmoronar no corredor e ficar lá caído por toda a eternidade. Era muita adrenalina pra uma manhã só – mais adrenalina do que todos aqueles cinco meses juntos. Estava atônito. Bati na porta do Maurício – o brasileiro, meu vizinho. Ele não atendeu – e mesmo se tivesse atendido, não poderia me ajudar em nada. Resolvi então correr até lá embaixo na tola esperança de encontrar o zelador, que tem a chave mestra; o zelador, que só trabalha uma hora por dia. Ao longo de todo esse semestre vi esse tipo de problema acontecendo com vários estudantes da moradia; eu suspeitava que um dia ia acontecer comigo, só não esperava que seria justo no meu último dia.

Mas o que parecia uma tragédia acabou se configurando como um susto, graças aos lapsos de sorte extrema que costumo ter vez ou outra na vida. Quando entrei no elevador, adivinha quem estava lá dentro? Ele mesmo, o zelador. Supliquei a ele que me ajudasse, e na mesma hora ele foi até meu quarto e abriu a porta. Tive vontade de beijá-lo. Agradeci-o imensamente, falei que eu já estava indo embora e ele desejou boa viagem de volta.

Nisso, o Maurício abriu a porta de seu quarto com cara de sono. Pedi desculpas por tê-lo acordado e ele disse que não tinha problema: “já estava na hora...”. Expliquei a ele minha situação e ele se ofereceu a me ajudar: disse que poderia transferir o dinheiro pra mim no Brasil assim que ele caísse, bem como fechar minha conta. Para isso, só precisaria de uma procuração. Agradeci-o, e disse que iria esperar mais um pouco pra ver se o dinheiro realmente cairia. Caso contrário, a ajuda seria muito bem-vinda.

Joguei fora o lixo e continuei limpando o quarto para o tempo passar. Lá pelas onze acessei novamente o site do banco e o melhor havia acontecido: o dinheiro estava lá!
Bati na porta do Maurício de novo, expliquei que já estava tudo resolvido e despedi-me dele, desejando boa sorte na entrevista de emprego que ele teria mais tarde. Voltei então ao banco, saquei o dinheiro e fechei minha conta. O atendente também me desejou um bom voo de volta. E voltei ao meu quarto pela última vez.

Com duas malas de rodinha (uma de 25 e outra de 15 kg) saí de meu quarto. Dei uma última olhada, como que dizendo “sentirei saudades” e tranquei a porta. Lá fora também dei uma última olhada para o prédio da moradia. No ponto de ônibus, o ônibus 23 passou antes do bonde número 1 (ambos passavam pela a estação). No meu primeiro dia em Augsburg eu também tinha pegado aquele ônibus para chegar à moradia. Joguei um último olhar a todos aqueles prédios e casas que eu sempre via, e que já tinham virado parte do meu cotidiano. Chegando à estação, logo na entrada, vi um professor meu da universidade saindo. Ele passou do meu lado, mas não me viu. Era o último conhecido que eu via na Alemanha. Na hora de comprar a passagem para o aeroporto, um homem me abordou perguntando se eu queria dividir um ticket com ele, pois ele ia para Munique. Aceitei porque sairia bem mais barato. Enquanto aguardávamos, algumas mulheres uniformizadas chegaram ao centro da estação e começaram a distribuir pacotes daquele iogurte Activia gratuitamente. Foi com um pesar imenso que tive que recusar a oferta: eu amo aquele iogurte, mas já estava com muita coisa pra levar; minhas malas – as duas – estouravam o limite de peso.

Assim, conduzir aquelas duas malas até o trem foi um sacrifício. Chegando à estação central de Munique, peguei o outro trem para o aeroporto, onde a balconista do check-in muito gentilmente me liberou para embarcar, mesmo minha bagagem de mão pesando oito quilos a mais que o permitido. Na espera pelo embarque, tentei relaxar daquele rebuliço todo. Estava com muita fome (não tinha almoçado) e resolvi pedir um sanduíche em uma lanchonete ali mesmo na sala de embarque. Comi-o com muito gosto. Pouco antes de entrar no avião, uma última mensagem no meu celular de despedida.

Havia acabado. Enfim, havia acabado!

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Conclusões de Augsburg

“Sete anos depois de 2004; quatro anos depois de 2007: nada se repete”.

Certa vez, já na segunda metade do século XX, perguntaram ao então primeiro-ministro chinês Zhou Enlai qual teria sido a importância da Revolução Francesa para a humanidade, ao que ele respondeu: “acho que ainda é cedo demais para respondermos a essa pergunta”. Quem me contou esse caso foi um professor no primeiro período de Relações Internacionais. Fiquei com ele na cabeça pelos anos que se seguiram, mas nunca mais ouvi falar a respeito, o que me levou a duvidar da sua veracidade. Até que no mês de janeiro, lá pelas últimas semanas de aula, um professor meu daqui de Augsburg contou-o novamente. Dessa vez ele pareceu fazer ainda mais sentido do que da primeira vez em que o ouvi.

Logo, o título dessa postagem perde desde já o seu valor. A última coisa que eu poderia fazer nesse momento seria tirar conclusões do meu intercâmbio. Eventos de extrema significância demandam muito tempo até serem plenamente compreendidos. Por isso admiro os historiadores mais do que outros profissionais das Humanas, pois que eles não se apressam a tirar conclusões no calor dos acontecimentos. As conclusões que tiramos apressadamente podem ser até engraçadas de tão enganosas. Lembro-me bem que poucos dias antes de voltar da Malásia, ao conversar com uma amiga ao telefone, disse a ela que eu não havia mudado praticamente nada naqueles doze meses, e que iria voltar ao Brasil da mesma maneira como o deixei. Ela disse pra eu ter paciência, pois com o tempo eu iria perceber o quanto aquela experiência me mudou. Nada mais real. Sinto-me revolucionado por aquele intercâmbio cada dia da minha vida, sem exceção, desde aquele mês de junho de 2005 quando retornei ao Brasil. Não consigo, de forma alguma, de jeito algum, por maior esforço de imaginação que eu faça, enxergar como seria minha vida sem esse intercâmbio.

O máximo que posso fazer nesse momento, a apenas três dias de retornar ao Brasil, é um esforço para compreender esses cinco últimos meses, mas com a plena consciência de que muito em breve ele será superado.

Cheguei aqui em uma tarde do dia 5 de outubro de 2011. Desde então, foram 148 dias (mais três pela frente) habitando, estudando, viajando e crescendo em terra estranha. Lugares sobre os quais já tinha aprendido na escola e na faculdade, lido nos livros, visto nos documentários, estiveram ali diante dos meus olhos ao longo desses quase cinco meses. Não que isso nunca tivesse me acontecido antes. Um ano na Malásia foi uma aventura tão grande quanto esses cinco meses na Europa. A experiência não mudou, quem mudou fui eu. A Alemanha me revelou muito mais o que aprendi na Malásia do que na própria Alemanha (e creio que só um outro intercâmbio iria me mostrar de fato o que aprendi aqui). Após cinco meses na Alemanha, finalmente pude compreender o que a Malásia me ensinou há oito anos atrás. E o que foi que ela me ensinou? Basicamente três coisas: ela me ensinou quem eu sou; ensinou-me a ser quem eu sou; e me ensinou a não ter vergonha de ser quem eu sou. E mais uma quarta coisa: ensinou-me a nunca depositar minhas esperanças no porvir, a não viver de futuro, esperando que um dia lá na frente tudo irá melhorar. Logo, o grande diferencial entre ambos os intercâmbios não foi o país, o continente, a comida e as pessoas: fui eu mesmo, pois que pude aplicar todo esse aprendizado aqui e enxergar esses lugares por onde passei com outros olhos. Não mais aqueles olhos imaturos e desinteressados que viram a Malásia, mas olhos atentos e questionadores. É senso-comum acreditar que à medida que envelhecemos vamos perdendo o interesse pelas coisas. No meu caso, porém/felizmente, foi justamente o contrário e isso é extremamente gratificante.

Poucos conhecem os antecedentes desse intercâmbio. Penso que, se a Alemanha fosse uma mulher dando em cima de mim, certamente ela mereceria algo melhor.

Em 2003, ao ser selecionado pelo programa de intercâmbio de jovens do Rotary, pude escolher entre 5 países, entre os quais figuravam a Alemanha e a Malásia, e minha preferência foi pela última. Sete anos depois, em minha primeira tentativa de seleção para o intercâmbio da UFMG, eu falhei por não ter passado no teste de proficiência. Quando tentei pela segunda vez, nas vagas remanescentes, por muitas vezes duvidei se era aquilo mesmo que eu queria. Já tinha um ótimo estágio na minha área, ganhava bem, era feliz com meu curso e podia até apertar o passo para formar mais cedo. A ideia do intercâmbio nunca foi unanimidade dentro da minha cabeça. Novamente fiz o exame de proficiência e melhorei dez pontos, mas ainda fiquei longe do exigido pela universidade daqui. Na entrevista, porém, saí-me muito bem, apesar de não saber. Um belo dia, enquanto mexia bem à toa na internet, resolvi olhar, por pura curiosidade, logo antes de desligar o computador, o resultado da seleção para o intercâmbio. Foi aí que descobri que havia ficado em primeiro lugar na entrevista. Fui até a Diretoria de Relações Internacionais saber como é que ficava a minha situação, e eles me disseram que eu havia recebido um e-mail informando-me acerca da reunião de preparação para intercambistas. Disse a eles que eu desconhecia tal e-mail, e eles me disseram que haviam me enviado para o endereço do Hotmail, que eu raramente abro. Fui olhar e realmente estava lá a mensagem sobre a reunião que aconteceria, se bem me lembro, dali a menos de uma semana. A reunião era compulsória e o não comparecimento sem justificativa acarretava eliminação do programa de intercâmbio. Ou seja: se eu não tivesse olhado o site com o resultado da seleção não teria ido até a DRI, não teria lido esse e-mail, não teria ido à reunião e consequentemente não estaria aqui agora na Alemanha.

Nesse meio tempo recebi um e-mail falando que eu ganhara uma segunda chance de fazer um exame de proficiência, o da pós-graduação, haja vista meu bom desempenho na entrevista. Arrastei-me de má vontade para estudar para essa prova. Não sei por que, fui tomado por uma profunda indiferença frente a esse intercâmbio. Bem lá no fundo eu queria ir, mas não sabia se realmente estava disposto a me esforçar para tal. Contrariando minhas próprias expectativas, tive um excelente desempenho nesse exame, e enfim poderia me considerar selecionado. Não foi bem assim. O exame da pós testa apenas a capacidade de leitura e interpretação de textos. Ainda tive que voltar à FALE e fazer outra prova, dessa vez pra testar meus conhecimentos de escrita. Estudei com mais afinco dessa vez e finalmente passei. Por pouco eu não fico de fora.

Assim, isso foi meu intercâmbio: produto de um estranho amálgama de aspectos voluntários e involuntários.

Do que sentirei saudades? Muitas coisas, mas nenhum clichê. Os brasileiros têm uma visão fetichizante da Europa que chega a beirar o cômico. Acham que aqui tudo é melhor, as pessoas são mais educadas, o país é mais limpo, a mentalidade mais desenvolvida, mas asseguro que muito disso é mentira. Em primeiro lugar: europeus jogam sim lixo no chão. O ponto de bonde da minha universidade era infestado de milhares de bitucas de cigarro ao seu redor. Várias vezes em que entrei no elevador daqui da moradia tive o desprazer de pisar num chão todo melecado de cerveja. Sem contar as vezes em que entrei no elevador e encontrei, jogados no chão, um pote de sorvete pingando, uma garrafa de cerveja, um pé de sapato e até um osso de frango.

Em segundo lugar: europeus podem sim ser inconvenientes. Perdi as contas de quantas vezes eu estava estudando na biblioteca e um grupo de alunos começou a conversar em voz alta, mesmo o funcionário da biblioteca estando ali do lado. Na UFMG, os cochichos na biblioteca quase sempre são seguidos por alguém fazendo um “shhhhh!” a toda altura, ou mesmo pela intervenção de um funcionário pedindo silêncio. Nunca vi, porém, na biblioteca da Universidade de Augsburg, nenhum aluno ou mesmo funcionário pedir silêncio a um grupo barulhento.

Em terceiro lugar: europeus nem sempre são educados. Sempre que ando de ônibus em Belo Horizonte vejo ao menos uma pessoa ceder o lugar a um passageiro idoso. Aqui, porém, várias vezes vi idosos em pé no bonde enquanto jovens ficavam sentados. E por fim: não é só no Brasil que os jornais estampam notícias trágicas com uma mulher seminua na capa. Aqui, um dos jornais populares de maior circulação traz sempre uma mulher nua – literalmente – na capa. Muitos brasileiros leem certas notícias e lamentam: “é só no Brasil mesmo que isso acontece”. Pois não é que, mais ou menos ao mesmo tempo em que houve um escândalo em Lavras de um freguês que achou algumas larvas – com o perdão do trocadilho – dentro do pão dos supermercados Rex, aqui aconteceu algo parecido com uma grande cadeia de padarias? Em uma das filiais os pães eram estocados em meio a muita sujeira: tinha desde poeira até fezes de rato.

Então, não é só no Brasil...

Enfim, essa velha ladainha de achar que na Europa tudo é bom e no Brasil tudo é uma droga é, na minha opinião, só mais um dos elementos que contribuem para que o Brasil continue sendo essa droga. Os europeus não alcançaram o alto padrão de vida que têm hoje desprezando seus próprios países e babando ovo do progresso alheio.

Se estou feliz? Sim, muito. Não só com esses cinco meses que passei aqui, mas principalmente pelo fato de que irei voltar. Sinto saudades do Brasil, do meu ambiente de trabalho e de estudos. Sinto falta de entender plenamente as aulas e poder contribuir com as discussões em sala, de entender os textos e lê-los com mais desenvoltura, sem precisar da ajuda de um dicionário. É claro que melhorei bastante meu alemão, principalmente a leitura, mas sempre ficava com temor de me intrometer nos debates daqui.

Agora meu quarto vai ganhando, aos poucos, a aparência amorfa que ele tinha quando cheguei; a mesma aparência de quando, naquela noite de 5 de outubro, olhei ao meu redor e senti-me ainda mais vazio do que ele, sem saber direito o que eu estava fazendo aqui e se realmente eu deveria estar aqui. Aos poucos ele vai voltando ao seu estado original, pronto para receber seu próximo inquilino. Hoje despachei pelo correio algumas coisas que não irão caber na minha mala. Irei doar minhas blusas de frio. Deixarei aqui também a maioria dos livros que comprei por dez centavos. Eles são pesados demais pra carregar na mala e pagar 75 euros de excesso de bagagem iria fazer o barato sair caro demais. Também vou me despedindo das pessoas que conheci aqui, agradecendo pelos bons momentos, ponderando “se” e “quando” voltaremos a nos ver. Sexta, na universidade, encontrei por acaso meu professor em duas disciplinas. Ele agradeceu-me pela estadia, disse que foi um prazer, desejou-me sucesso e eu prometi traduzir minha monografia e enviá-la a ele no fim do ano, ao que ele de imediato concordou. Hoje me despedi de meu tutor. Dei a ele alguns dos livros que não poderei levar e ele me deu uma pequena bandeira alemã assinada com uma mensagem de agradecimento e sucesso.

Os outros intercambistas também estão no mesmo clima. Todos postando no Facebook mensagens de despedida. Quinta-feira mesmo teve uma grande festa de despedida dos estudantes estrangeiros em uma boate daqui à qual orgulhosamente não compareci. Passar o semestre inteiro recusando convites de festas para depois me despedir com uma festa seria no mínimo contraditório.

Estarei chegando ao Brasil em um dia peculiar: 29 de fevereiro. Só o que eu suplico de joelhos a vocês é que por favor, não venham me irritar com perguntas do tipo: “Marcelo, por que você não visitou tal lugar? Marcelo, por que você não conheceu tal cidade? Marcelo, por que você não viajou pra tal país?”. Gostaria de lembra-los de duas coisas: eu não fiquei aqui por um ano, e sim por cinco meses; e eu não vim aqui a turismo, e sim como estudante. Por isso precisei, dentro desses cinco meses, conciliar minhas viagens com os meus estudos (que, por serem em uma língua estrangeira, requeriam obviamente dedicação redobrada). Sendo assim, precisei traçar prioridades, o que significa que tive que dar preferência a certos lugares em relação a outros. Tendo em vista tais limitações, acho até que consegui conhecer muitos lugares sem ter comprometido em nenhum momento os meus estudos: estive em seis países (Alemanha, Holanda, Áustria, Eslováquia, Hungria e Liechtenstein) e dezessete cidades, além de ter tirado boas notas!

Não me venham também com tiradinhas irônicas do tipo: “Mas você conheceu a Eslováquia e não conheceu a França?! Você conheceu Liechtenstein e não conheceu a Itália?!”. Não, eu não conheci a França, nem a Itália, nem a Espanha e em hora alguma fiz questão de conhecê-las. De uma pessoa que, aos quinze anos de idade, preferiu um ano na Malásia a um ano na Alemanha ou no Canadá, não se poderia esperar outra coisa.

E, ao contrário do que você possa pensar, esse não é um texto de despedida. Muito pelo contrário. Quase todo mundo que lê esse blog está no Brasil, e é justamente para lá que estou indo agora. Além disso, assim como esse blog não nasceu por causa do meu intercâmbio, ele também não irá morrer com o fim dele. Seguirei postando aqui sempre que me vierem ideias à cabeça. Talvez com menos frequência do que nesses cinco meses, mas não com menos dedicação. Agradeço, do fundo do coração, a todos aqueles que leram meus textos ao longo desse período: aos conhecidos e anônimos, aos que comentaram e aos que apenas leram, aos que leram todos e aos que leram apenas alguns. Agradeço aos leitores de Vitória e Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, aos leitores de Atlanta e outras regiões dos Estados Unidos – os quais não faço sequer ideia de quem possam ser, mas que quase sempre apareciam no contador de visitas ali em cima. A todos meu muito obrigado, e àqueles que irei encontrar na semana que vem ou no mês que vem, até breve!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Confissões de Augsburg - a ofensiva final

As semanas após meu vigésimo-quarto aniversário foram bem tranquilas. O final de semestre aqui tem ocupado todos com trabalhos e provas, de modo que meus contatos com outras pessoas, que já foram raros ao longo do semestre, escassearam ainda mais. No dia 31 de janeiro tive minha prova de alemão; foi minha melhor nota até aqui, como já era de se esperar. Dia 10 de fevereiro foi a vez da prova oral de “Temas de pesquisa em nacional-socialismo”. Também bem tranquila, embora eu estivesse bastante tenso.

Nesse mesmo dia 10, logo após a prova, fui até um local que ficava a umas cinco estações de distância da universidade, uma espécie de feira de produtos usados que reunia de tudo: desde roupas e vasos até vinis e livros. Não entendi muito bem, mas acho que o dinheiro arrecadado é revertido para caridade. Acontece que nessa sexta estava tendo uma promoção: todos os livros (sem exceção) por apenas 10 centavos! Fiz questão de aparecer para dar uma olhada. Geralmente eu passo a quilômetros de distância das prateleiras de livrarias com livros em desconto, pois geralmente só tem coisa trash. Mas dessa vez não me decepcionei. Tinha muita coisa boa, principalmente na área de História. Comprei, ao todo, quatorze livros, alguns deles bem grandes e ilustrados, sobre a história da Alemanha e da Bavária. Comprei alguns menores também de História e Política, além de um volume único com três obras do Kafka. Depois dessa reconheci meus limites e decidi que não iria mais comprar livros aqui – além, é claro, daqueles que eu já tinha encomendado. Foi tanto livro que precisei fazer duas viagens: comprei um tanto, trouxe pra moradia, voltei lá e comprei mais outro tanto. Quatorze livros nem parece muita coisa, mas o problema é que muitos eram grandes e pesados. Nessa história toda não gastei sequer quatro euros.

No dia seguinte, sábado de manhã, fui para Berlim. Percebi que seria uma disparate passar cinco meses na Alemanha sem conhecer essa cidade e resolvi passar alguns dias lá. Fiquei em um hostel minúsculo em Alt-Moabit, cheio de hóspedes esquisitos que passavam o dia todo discutindo com o recepcionista sobre a possibilidade de se gravar um filme ou um documentário. Logo na minha primeira noite resolvi sair pra conhecer a cidade; percebi, pelo mapa, que o hostel ficava não muito longe do Portão de Brandenburg, o cartão postal de Berlim. Só que esse “não muito longe” na verdade é um “fácil de chegar”: era só seguir reto toda a Avenida 17 de junho, só que a tal avenida é imensa! Andei muito, mas muito mesmo... Pelo menos foi uma ótima forma de me aquecer em meio ao frio de menos 5 ou 10. Ao fim da caminhada já não sentia mais os dois últimos dedos de um dos pés. Quando vi o Portão de Brandenburg pela primeira vez fiquei fascinado; de perto então ele é ainda mais bonito, principalmente à noite. Fui tirar uma foto e nesse exato momento a pilha da câmera acabou. Mas não me enfureci como de costume. Sabia que no dia seguinte eu iria voltar lá.

No dia seguinte eu havia agendado um passeio turístico cujo tema era “Berlim no Terceiro Reich”. Essas excursões todas começam em frente ao Portão de Brandenburg, onde também ficam várias pessoas fantasiadas de militares americanos e soviéticos que ganham dinheiro tirando fotos com os turistas. No passeio turístico passamos em frente ao Bundestag – o parlamento alemão –, visitamos o memorial aos soldados soviéticos que libertaram Berlim em 1945, o memorial às vítimas do Holocausto e também aos homossexuais vítimas do nazismo. Esse último é um dos memoriais mais esquisitos que já vi. Consiste em um grande quadrado preto escondido atrás de algumas árvores. Em um dos lados do quadrado há uma pequena abertura onde tem uma televisão que fica mostrando repetidamente vídeos de vários casais homossexuais (homens e mulheres) se beijando. Segundo o guia, até mesmo a comunidade homossexual de Berlim se mostrou insatisfeita com essa homenagem.

No dia seguinte fiz outro tour guiado: Berlim Oriental. Esse foi focado nos tempos do governo comunista. Conhecemos o prédio da STASI e, claro, os remanescentes do Muro de Berlim. Em um determinado momento vimos um memorial em homenagem às vítimas do Muro. Entre elas, duas histórias particularmente me chamaram a atenção. Uma delas era de um menino que jogava bola perto do muro e acabou caindo no rio que passava próximo a ele. O menino se afogou porque o resgate demorou; o resgate demorou porque antes de fazer qualquer manobra no rio era preciso informar o outro lado, caso contrário isso poderia ser visto como um ato de guerra. Assim, ele é considerado uma vítima do muro, mesmo não tendo tentado atravessá-lo. Já a vítima mais jovem do muro foi uma criança de três anos de idade: sua mãe tentou atravessar para o lado ocidental com o menino do colo, até que em certo momento ele começou a chorar. A mãe tapou a boca dele para não serem percebidos e seguiu em frente. Ela conseguiu atravessar, mas chegando no outro lado percebeu que havia sufocado o próprio filho ao tentar fazê-lo parar de chorar.

Histórias tristes, não são? Pois é. Berlim tem várias faces e eu optei por conhecer seu lado mais sombrio.

Após esses dois passeios, refleti muito sobre como a Alemanha lida com diferentes períodos da sua História. As milhares de lojas de souvenirs que se espalham por Berlim estão cheias de chaveiros, camisas, copos, bolsas e pratos decorativos que lembram a época em que a cidade esteve dividida entre americanos, ingleses, franceses e soviéticos. Eles vendem até licores com fotos de Stálin, Roosevelt e Churchill. Não se veem, porém, bolsas com a suástica, miniaturas com a águia nazista ou licores com a foto de Hitler, por motivos óbvios. A união alemã forçada por Hitler foi bem mais traumática que a desunião levada a cabo pelas potências estrangeiras. Dessa forma, o tour sobre a Alemanha no Terceiro Reich é um verdadeiro exercício de imaginação. Os prédios, monumentos e símbolos nazistas não deixaram sequer vestígios pela cidade. Chega a ser até engraçado quando o guia aponta para um prédio com cartazes de crianças negras e brancas brincando juntas e fala que ali funcionou o ministério da propaganda sob a direção de Joseph Goebbels. Ao fim, o tour sobre Berlim no Terceiro Reich acaba sendo muito mais um tour pelos memoriais às vítimas do Terceiro Reich.

Eu entendo o motivo disso tudo, mas pra alguém que vive de estudar o passado isso gera um pouco de angústia. Não poder ver sequer um rastro, um vestígio daquela época é, para mim, um pouco frustrante. O esquecimento, mesmo dos acontecimentos mais traumáticos e horrendos, é algo que o historiador deveria evitar. Talvez seja por isso que gosto tanto de cidades históricas, pois lá não só há vestígios do passado como também eles costumam até predominar sobre os traços do presente.

Mas enfim, os guias turísticos não têm culpa de nada disso, e dentro das possibilidades que a cidade oferece acho que eles fizeram um excelente trabalho.

Na terça-feira voltei para Augsburg sendo que na quarta-feira já tinha outra viagem planejada: Feldkirch, uma cidade no extremo Oeste da Áustria. A cidade por si só não tinha atraído minha atenção; fiquei lá porque queria conhecer outro país: o principado de Liechtenstein, um paisinho bem pequeno de 35 mil habitantes, espremido entre a Áustria e a Suíça. Em Liechtenstein há hostéis, mas eles não abrem no inverno e por isso tive que ficar em Feldkirch, a cidade mais próxima. Acontece que acabei me encantando com aquela cidadezinha de apenas 35 mil habitantes. O hostel no qual fiquei era uma construção dos tempos medievais que havia servido como casa para curar leprosos e portadores de várias outras doenças. Por fora parecia mais um castelo abandonado, mas por dentro era extremamente confortável, sem perder seus traços históricos por completo. Os quartos eram muito limpos e bem arrumados, as camas todas novas e a construção ainda mantinha uma grande lareira no centro e um porão.

Após chegar resolvi conhecer um pouco da cidade. Andei pelo centro e descobri um pequeno castelo no alto de uma colina. Subi até lá, onde tive uma linda vista da cidade, principalmente por causa da neve. Ao voltar para o hostel e entrar no meu quarto um dos meus colegas de quarto começou a puxar conversa comigo. Era um homem que parecia estar na casa dos trinta anos. Entendi pouco, pois acho o alemão austríaco bem difícil de entender. Pelo pouco que entendi do que ele me contou, ele havia trabalhado na Scania, com transporte, com silos e com radiadores. Seu tom de voz mostrava que ele estava bem frustrado. Parecia meio sem esperança, desnorteado, acho que estava procurando outro emprego ou lugar pra morar. Ele citou também família, filhos, patrões, mas não entendi exatamente em que contexto. O problema é que ele falava demais e eu não entendia quase nada, de modo que nem ao menos podia dialogar. Apenas fiquei calado e concordei com tudo; qualquer coisa que eu falasse iria denunciar que eu não havia entendido quase nada do que ele disse, e isso poderia fazê-lo pensar que eu não estava interessado ou não estava prestando atenção.

A minha salvação foi quando chegou um outro hóspede no quarto: outro homem talvez na casa dos 40, natural de Frankfurt, com cabelo parecido ao do Steven Seagal e os dentes quase todos amarelos (alguns até em falta). Por sorte ele falava ainda mais que o outro e acabou roubando a cena. Mas o alemão dele foi mais fácil de entender. Além disso, ele não tinha o tom soturno do outro: ele falava com empolgação e alegria, e também muito rápido. Disse que havia morado no Canadá por muito tempo e que lá era um ótimo lugar pra se viver e trabalhar. Disse ainda que estava lá hospedado porque tinha uma entrevista de emprego na Suíça, mas não entendi exatamente qual tipo de emprego. A uma determinada altura pedi licença sob o pretexto de que tinha que colocar o leite que comprara na geladeira, e então eu saí.

Mais tarde, quando voltei, o hóspede com cabelo do Steven Seagal me perguntou o que eu fazia na Áustria, e então expliquei a ele sobre meu intercâmbio na Alemanha, sobre o curso de História e sobre meu tema de pesquisa. Ele se interessou muito, e disse que um dos melhores lugares do mundo para se pesquisar o nazismo é a Universidade de Haifa, em Israel. Segundo ele, a biblioteca de lá tem um acervo imenso acerca do tema. Então ele falou muito sobre o que ele achava do nazismo, sobre a importância de se estudar esse tema sob um ponto de vista neutro, sem ser influenciado pelo radicalismo de nenhum dos lados. Disse ainda que os alemães precisavam se dedicar mais a estudar esse tema, pois os movimentos radicais neonazistas seriam frutos da incompreensão desse passado.

No dia seguinte parti para Liechtenstein. Por que eu resolvi conhecer esse país do qual muita gente sequer ouviu falar? Por várias razões. Principalmente pelo próprio fato de muita gente nunca ter ouvido falar. Liechtenstein é o tipo de país que a gente só sabe que existe quando precisa preencher um formulário na internet com seus dados e, na hora de escolher o país, abre uma lista com todos os países do mundo (o mesmo se dá com o Território Britânico do Oceano Índico, Brunei e Afeganistão antes de 11 de setembro de 2001). Passei minha viagem inteira ouvindo pessoas falando da França, da Bélgica, da Inglaterra e da Suíça, mas nunca conheci sequer uma pessoa que tenha visitado Liechtenstein. E ele está ali, tão perto de tudo e tão acessível. Mais perto até do que Berlim. De Augsburg até Feldkirch são quase 4 horas apenas, e de Feldkirch até Vaduz, capital de Liechtenstein, cerca de 20 ou 30 minutos. Assim, Liechtenstein era a única oportunidade de visitar um país diferente sem gastar muito tempo, já que meu intercâmbio vai chegando ao fim.

Os ônibus para Liechtenstein partem do centro de Feldkirch regularmente – com mais frequência que o 5102 e a peste do 1207 em BH. São mais baratos que o trem (apenas dois euros e trinta). Peguei um logo pela manhã. Na fronteira entre a Áustria e Liechtenstein o oficial da alfândega parou o ônibus, entrou e pegou dois ou três passageiros para Cristo, pedindo suas identidades. Eu não fui um deles. Foi até bom, afinal de contas, nesse momento me dei conta de que Liechtenstein não faz parte da União Europeia, de modo que não sabia ao certo se cidadãos brasileiros podiam entrar sem visto ou não. Passei a noite anterior só pesquisando sobre a História do país mas nem me dei conta dos problemas burocráticos... Enfim, ilegal ou não, eu entrei no país. Desci na estação central de Schaan, a maior cidade do país de acordo com a Wikipédia. Senti-me uma besta. Tirando uma igreja bonita e a vista dos Alpes, a cidade não tinha absolutamente nada. Fui até a administração na estação perguntar onde ficava o setor de informações turísticas. A mulher me disse que não existia, que ali era uma vila muito pequena, sem atrações turísticas. Disse ainda que se eu quisesse conhecer lugares interessantes deveria ir para a capital, Vaduz, e me mostrou onde eu pegava o ônibus. Agradeci, mas teimoso que sou, resolvi andar por Schaan.

A cidade é muito limpa, organizada e agradável, além de ser tranquila. Mas, de fato, não tem nada além de casas, padarias, algumas lojas, restaurantes e cafés. Tem também um teatro ao lado da prefeitura que anunciava festividades de carnaval. Nas minhas andanças achei apenas uma igreja, uma torre medieval que, segundo as informações na placa, era usada para cristianizar os invasores alamanos, e as ruínas de uma fortificação romana. Também achei uma pequena pracinha com um córrego semicongelado e alguns patos. Foi aí que decidi que era hora de ir para a capital. No caminho até a estação vi um monte de criancinhas conduzidas por uma professora de escola andando pela cidade, como numa excursão. Acho que essa foi a cena mais emocionante que presenciei em Schaan.

A viagem de Schaan até Vaduz não deve ter durado sequer cinco minutos. Apesar de ser menor que Schaan e ter apenas 5 mil habitantes, Vaduz é mais movimentada e tem mais lugares interessantes para se ver. Comecei passando pelo palácio governamental. Logo ao lado ficava o parlamento, um prédio esquisito, marrom, com teto triangular, parecendo um pastel ou um guardanapo. Mais à frente passei pelas informações turísticas e depois fui trocar meu dinheiro em um banco. Em Liechtenstein eles usam o franco suíço. Aliás, o que mais tem nessa cidade são bancos: eles estão por toda parte, de todos os tipos e nomes. Li na internet que Liechtenstein é um dos grandes paraísos fiscais do mundo, um dos lugares preferidos para se lavar dinheiro. Lá também se fala alemão, e achei o alemão deles bem simples de entender. Depois do banco passei pela prefeitura. Todos esses prédios ficam mais ou menos no mesmo lugar, em um grande calçadão, onde vi outros turistas e algumas estátuas exóticas.
Na hora de almoçar não teve outro jeito: comida turca, como de costume. Os restaurantes lá são muito caros e mais uma vez o kebab me salvou. Depois de comer fui visitar a igreja que ficava ao lado do palácio governamental. Enquanto tirava algumas fotos chegou, do nada, um ônibus cheio de homens fantasiados de esqueletos, com martelos e outros penduricalhos pelo corpo. Parecia até uma festa de Halloween. Eles desceram do ônibus e se postaram em frente a um prédio do lado da igreja. Foi aí que percebi que era uma banda: todos eles com trombones, saxofones e tambores. Eles entraram então no prédio. Achei aquilo tudo meio surreal: eu, num país esquisito e quase vazio, presenciar uma banda de homens vestidos de caveira entrando em um prédio. Parecia aqueles sonhos que a gente costuma ter em cochilos durante a tarde. Me senti em uma pintura de Dalí. Quando me sentei para descansar em uma praça entre a igreja e o referido prédio, a banda começou a tocar. Não podia vê-los, mas ouvia-os muito bem. Eles estavam em um pátio do prédio. Tocaram várias músicas animadas, entre elas aquela do “The Killers” (“somebody told me, that you have a boyfriend, who looks like a girlfriend”). Foi o suficiente para quebrar de vez o silêncio e a monotonia daquela cidade parada. O som ecoou por todos os cantos e alguns transeuntes até pararam para observar. Também fiquei escutando durante um bom tempo.

Quando a banda dos esqueletos parou, resolvi seguir em frente. Eis que eu ouvi uma outra banda tocando, em outro ponto da cidade. Eram vários homens e mulheres vestidos com roupas carnavalescas tocando diversas músicas, inclusive algumas músicas clássicas. Eles estavam em frente ao prédio de uma empresa e os funcionários da empresa estavam na porta observando tudo. Acabado o show, todos aplaudiram muito e os membros da banda foram agraciados com doces e bebidas preparados pelos funcionários. Foi então que percebi que o carnaval em Liechtenstein é a domicílio: acho que na semana do carnaval os patrões contratam bandas para tocar em suas empresas e, em retribuição, oferecem uma pequena refeição. Achei interessante a ideia. Depois dessa apresentação voltei ao calçadão do parlamento e percebi que havia vários vestígios de confetes e serpentinas, o que talvez sugira que eles também fazem suas folias.

Tendo em vista que já havia visto de tudo no lado de baixo, cheguei à conclusão que era hora de subir. Bem lá no alto de uma colina, quase prestes a desabar, via-se uma castelo: era a morada oficial da família real de Liechtenstein. Incrustado na montanha havia um caminho com escadas e corrimões de madeira que conduziam até o castelo. Tive que ir com cuidado: tinha muita neve e o caminho estava escorregadio. Enquanto subia ia tendo uma visão panorâmica da cidade. Foi quando percebi que, em outro ponto da cidade, outra banda carnavalesca tocava. Os Alpes que cercam Vaduz oferecem uma acústica ótima, de modo que minha subida até o castelo foi acompanhada da trilha sonora que vinha lá de baixo! Ao longo do caminho, várias placas davam informações sobre a economia, a história e o sistema político de Liechtenstein.
O castelo é muito bonito, mas não é aberto para visitação, visto que a família reside lá. A vista que se tem de toda a cidade, porém, é muito bonita e vale o esforço de 30 minutos de subida. Quando vi que ia escurecendo resolvi descer e pegar o ônibus de volta para Feldkirch.

No dia seguinte enfrentei uma série de contratempos com os trens. Peguei um trem até Lindau, cidade alemã às margens do Bodensee, e o trem que ia de lá até Augsburg teve um problema nos freios (se não me engano por causa do excesso de neve acumulado). Assim, ele dirigiu bem lentamente até Kempten, onde interrompeu sua viagem. De lá peguei o trem até Ulm e de Ulm, enfim, até Augsburg. Cheguei muito cansado, mas não podia desistir. Nos dias seguintes – sábado e domingo – iria fazer minhas últimas viagens. Aproveitei que meu Eurail ainda tinha dois dias e reservei esses dois dias para conhecer melhor duas cidades alemãs pelas quais tinha passado mas não tinha conhecido muito bem.

No sábado de manhã fui para Munique, em cuja estação eu já estivera várias vezes, mas cujos pontos turísticos eu nunca tinha visitado. Pela manhã participei de um tour guiado: Munique no Terceiro Reich. Nosso guia nos contou muito sobre os vários anos que Hitler passou em Munique, sobre seu apreço pela cidade e os locais que ele gostava de frequentar. Mostrou as fotos de alguns quadros que ele pintou. Visitamos a Hofbräuhaus, a cervejaria na qual ele fez um dos discursos que o consagrou, em 1920. Pudemos entrar no salão e o guia nos mostrou até o local onde ele estava quando discursou.

Após sairmos de lá fomos para outros pontos importantes na história do nazismo em Munique, como a rua pela qual Hitler e seus seguidores andaram ao tentar dar seu primeiro golpe. Ao lado dela os nazistas construíram um memorial diante do qual todos deveriam fazer a saudação com o braço direito quando passavam. Hoje resta apenas uma marca no muro onde ficava a placa de ferro. Logo antes desse memorial fica uma rua que servia como desvio a todos aqueles que queriam evitar a saudação. Essa rua é célebre e existe até mesmo um trecho dela marcado de dourado que indica o caminho que esses “insurgentes” silenciosos faziam a fim de evitar o memorial.

Depois passamos por um prédio com paredes de vidro onde hoje funciona, se não me engano, um laboratório. Bem na esquina do prédio, quase imperceptível, há uma placa de ferro que indica que ali funcionava o escritório da Gestapo, a polícia secreta nazista. Mais uma vez veio à tona aquela minha angústia diante do esquecimento. Não conseguia encarar aquele prédio moderno, cheio de vidraças e com seu interior bem à mostra, como tendo sido sede de uma polícia secreta. Aqui meu esforço de imaginação foi em vão.

Mais pra frente, porém, isso iria mudar. O guia guardou o melhor para o final. Atravessamos uma praça redonda com um grande obelisco preto e chegamos até dois prédios, um ao lado do outro. Ele então nos disse que aqueles tinham sido alguns dos poucos prédios de Munique que não haviam sido danificados por bombardeios aliados, e que portanto permaneciam intactos desde o Terceiro Reich. São eles a sede das SS (a guarda pessoal de Hitler) e a sede do Partido Nazista. Ambos lado a lado, separados por apenas uma rua. Na sede do Partido Nazista era possível até mesmo ver as marcas de tiros nas janelas e na parede. O prédio das SS parece um casarão abandonado; fica escondido atrás de um monte de árvores. Já o prédio do partido é hoje uma escola de música e teatro. Seu interior também foi preservado. Permanece aquele estilo neoclássico do qual Hitler tanto gostava: colunas, escadarias e mármore italiano. Tudo bem seco e liso, nada de detalhezinhos. Tudo também com uma coloração bem sóbria, com tons de bronze e dourado meio desbotado (perdoem-me o pedantismo, pois que não entendo nada de arte ou arquitetura). Aquele foi o último ponto do tour, onde o guia se despediu de nós. Mas me detive ali por muito mais tempo. Enfim, após tanto usar a minha imaginação para aprender sobre o nazismo, eu finalmente estava vendo algo daquela época que realmente permaneceu. Fiquei surpreso ao constatar que justo os prédios das SS e do partido sobreviveram aos bombardeios e, acima de tudo, à neura alemã de esquecer esse período.

No sábado ao fim da tarde retornei a Augsburg e no domingo de manhã parti para mais uma viagem, a última: Nuremberg. Já havia estado lá no Natal, mas não conheci tudo o que queria. Visitei apenas o Museu dos Brinquedos, algumas igrejas e o mercado de Natal. Dessa vez fui decidido a visitar o centro de documentação para História do nazismo. Nuremberg foi uma cidade extremamente importante para os nazistas antes mesmo de 1933, pois lá eram realizadas as festividades do “dia do partido”. O museu mostra tudo isso. Com muitos vídeos, fotos e cartazes de propaganda ele explica passo a passo a ascensão do nazismo, dando um enfoque especial à importância da cidade de Nuremberg dentro desse processo. Uma das partes que mais me chamaram a atenção foram as exibições sobre o conteúdo antissemita da educação na Alemanha nazista. Vi um desenho de uma criança que mostrava um judeu ao ler uma placa que dizia algo do tipo “caminho de volta para casa”. Outro desenho, esse feito por uma criança mais nova e todo esgarranchado, mostrava outro judeu e vinha acompanhado da frase (também em garranchos infantis): “os judeus são nosso infortúnio”. Ao lado havia um livro didático que ensinava, em uma ilustração colorida, como as crianças podiam reconhecer um judeu (o nariz pontudo e a barriga grande eram algumas das características). Mas sem dúvida o melhor de todos foi o joguinho “Ajude o judeu a encontrar seu caminho de volta para a Palestina”. Era um jogo normal de tabuleiro, onde cada casa era o estabelecimento comercial de um judeu. O objetivo era juntar o máximo de judeus possíveis e manda-los de volta para sua terra, bem longe da Alemanha. E no tabuleiro ainda vinha escrito a seguinte frase que, em alemão, dá uma rima muito interessante: “se você conseguiu expulsar mais judeus que seu companheiro / então você é o vencedor inconteste!”. O museu funciona bem ao lado do Kongresshalle, um grande estádio no qual Hitler gostava de discursar. Hoje esse estádio está tomado por plantas e musgos mas, se não me engano, ainda acontecem eventos por lá.

Após tomar mais essa dose de história nazista resolvi parar um pouco com isso. Já estava ficando cansado de tanto ouvir falar a respeito; tão cansado que nem me animei a visitar o Tribunal de Nuremberg. Resolvi conhecer a parte histórica da cidade e não me arrependi. Subindo algumas ladeiras por entre casas históricas que muito me lembraram Ouro Preto, cheguei até o castelo que protegia a cidade e no qual o rei da Bavária costumava reunir-se com representantes do Sacro-Império. A vista que se tem do alto do castelo é maravilhosa. Só então pude perceber de fato o quanto aquela cidade é bonita. Quando começou a escurecer voltei para Augsburg. Era hora de voltar pra casa após tanto tempo errando por cidades, castelos, montanhas e museus. Passarei minha última semana na Alemanha aqui em Augsburg mesmo, até retornar ao Brasil no dia 28 de fevereiro (terça-feira da semana que vem).

E para encerrar com chave de ouro essas quase duas semanas de prova oral, tours e museus sobre nacional-socialismo, nada melhor do que passar uma semana tomando a dose contrária. Voltando para casa no sábado à noite fui olhar minha caixa de correio e lá vi um convite da juventude do Partido Socialdemocrata Alemão chamando para a “semana antinazista de Augsburg”. Trata-se de vários eventos ao longo da semana que buscam debater o nacional-socialismo não só na sua história, mas também nos dias de hoje. Hoje (segunda à noite) foi o primeiro evento. Um filme ucraniano dublado em alemão (os alemães odeiam filmes legendados): Babi Yar. Conta a história de um massacre de cerca de 150 mil judeus em uma região nos arredores de Kiev, capital da Ucrânia, durante a ocupação nazista em 1941. O filme me deixou perplexo, mais ainda que todos os museus e tours juntos. Em um único dia foram mortos mais de 33 mil judeus e não judeus. Uma das cenas mais medonhas do filme mostra um soldado chegando para o seu oficial após uma das matanças e perguntando: “isso é tudo por hoje, senhor?”. Ao que o oficial, ele mesmo já cansado de tanto horror, se irrita: “qual seu problema?! 33 mil mortos não são o suficiente pra você?!”.

Ao longo da semana haverá mesas de debates versando sobre diversos temas: o nazismo em Augsburg, extremismo de direita entre os migrantes, a face da nova direita e, para encerrar, um “café da manhã antinazista” [sic!] no sábado. Não me perguntem do que se trata, pois eu também não faço ideia. De qualquer forma, estou encarando isso tudo como sendo a minha despedida daqui. Ainda terei uma semana para matar minhas saudades antecipadas daqui da Alemanha e então voltar ao Brasil. Prometo, no entanto, escrever mais uma vez antes do meu retorno a fim de fazer alguns apontamentos gerais sobre meu intercâmbio.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Confusões de Augsburg

28 de janeiro de 2012: um dia muito especial por dois motivos. Primeiro, porque daqui a um mês estarei deixando a Alemanha de volta ao Brasil. Segundo, porque daqui a algumas horas estarei completando 24 anos de vida. Aparentemente é só mais um aniversário, mas eu não vejo assim. Nasci no dia 29 de janeiro de 1988, de modo que vivi 12 anos de minha vida no século XX. Amanhã, portanto, completarei 12 anos vivendo no século XXI e igualarei essa marca: terei vivido o mesmo tanto em cada século.

Isso não é lá muito importante, é? Também acho que não. Mas quando você sabe que vai passar o seu aniversário todo fazendo trabalho e lendo “A ética protestante e o espírito do capitalismo” no original, qualquer motivo para comemorar é válido.

Aqui a neve tem caído com mais frequência. Só essa semana eu pude pegá-la e sentir sua consistência verdadeira. Até então ela estava derretendo muito facilmente. Quase todas as manhãs logo que eu acordo minha primeira visão são as árvores cobertas de neve. O inverno chegou de verdade. Quem também chegou foram os livros que encomendei na abebooks.de, um site pelo qual você pode encomendar livros de sebos em quase todos os lugares da Alemanha. Sendo assim, pelo menos o meu presente de aniversário já está garantido, e com antecedência! Um dos livros chegou semana passada e os outros foram chegando um atrás do outro ao longo dessa semana: um hoje, um ontem, um anteontem e outro quarta-feira. Finalmente posso dizer que tenho a documentação necessária para minha monografia. Ainda não tive tempo de ler cada um atentamente, mas o conteúdo de cada um é aquele que eu já esperava. Todos eles versam sobre temas de história alemã e também da história europeia em geral, na visão dos dois mais importantes historiadores nazistas: Karl Alexander von Müller e Walter Frank. Dois livros de von Müller (“História alemã e caráter alemão” e “Da velha até a nova Alemanha”) contêm diversos artigos históricos sobre temas variados, desde o Tratado de Versalhes até Fichte e Maquiavel, passando por Richard Wagner, Bismarck e até Oliver Cromwell. Enfim, o suficiente para se ter uma noção da visão de História que os nazistas queriam passar. O outro livro de von Müller é um bem pequeno que fala sobre o referendo de 10 de abril de 1938 pelo qual a Áustria aprovou a união com a Alemanha.

Um dos livros de Walter Frank também consiste de artigos históricos que tratam de figuras como Ludendorff e Karl Marx, além de versar muito sobre a história judaica (mais do que von Müller). O outro, que chegou hoje pela manhã, tem apenas 35 páginas e conta a história do próprio nacional-socialismo. Dentro dele vieram – não me pergunte o motivo – duas páginas de jornal soltas datadas de 1935 (uma delas com uma declaração assinada por Hitler sobre a necessidade de se proteger “o sangue e a honra alemães”). Gustavo Barroso também tem livros que tratam da história do integralismo e de repente surgiu a ideia de talvez comparar a visão que cada movimento tinha acerca de seu próprio lugar na história. De uma certa maneira, ambos os grupos (nazistas e integralistas) criticavam uma experiência liberal-democrática ainda precoce em seus respectivos países (a república oligárquica e a república de Weimar) e exigiam um governo mais forte e ativo.

E por falar em historiografia nazista, comecei a averiguar na semana passada alguns dos livros que estão disponíveis na biblioteca da universidade. São os livros de Alfred Rosenberg que, por serem muito caros, resolvi dar uma olhada no conteúdo antes para ver se realmente valia a pena encomendar. Pedi também um livro de Gottfried Feder, o programa do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Por terem um conteúdo um pouco mais “punk”, esses livros ficam em uma coleção especial, em uma sala especial, da qual não podem sair: você tem de lê-los lá mesmo. Além disso, antes de manuseá-los eu tive que preencher um formulário comprometendo-me a utilizá-los “apenas para finalidades acadêmicas”, isto é, a não irradiar o seu conteúdo maléfico por aí. Lendo algumas passagens dos livros imaginei o quanto devia ser fácil ser um historiador na época do Terceiro Reich: não era necessário discutir, debater, dialogar, raciocinar... Era só colocar a culpa nos judeus! Em algumas passagens de Alfred Rosenberg e Gottfried Feder pude ler que o comunismo, o capitalismo, o capital especulativo, o separatismo, até a Revolução Francesa: tudo fazia parte das maquinações judaicas para tomar conta do mundo e atentar contra a unidade da raça ariana. Momentos como esses me ensinam a sempre duvidar de explicações simples demais.

Sim, eu sei que deve ser bem chato para você ficar lendo sobre esses assuntos intelectualóides aqui no meu blog, principalmente se você não for estudante da área de humanas. Acontece que isso é o que tem me ocupado ultimamente. “Mas Marcelo, você não faz nada para se divertir?!”. Claro que faço! Meu trabalho da matéria de “Primeira Guerra Mundial” tem me rendido boas risadas, acredite em mim... Você pode achar que escrever doze páginas em alemão sobre a Primeira Crise do Marrocos é o ápice do tédio, mas te asseguro que não. Nunca estudei um episódio histórico tão cômico como esse. Consegue ser mais engraçado até do que as libertinagens no Brasil Colonial que o professor Villalta nos contava em Brasil I.

A Primeira Crise do Marrocos é, de longe, a melhor representação possível para aquele famoso meme “forever alone”. A Alemanha passou cada mês, semana e dia entre 1º de abril de 1905 e 7 de abril de 1906 tentando agradar todas as potências, convencê-las de suas boas intenções, chamando-as para negociar livremente nos portos do Marrocos, tentando forjar uma grande aliança continental sob sua hegemonia, clamando a todos que não queria a guerra, invocando o direito internacional e espantando o fantasma do isolamento diante das outras potências. Até que chega a esperada Conferência de Algeciras, proposta pelos próprios alemães para poderem se impor e isolar a França, e o que acontece? Alemanha, immer allein! Um a um, cada país da conferência abandona a Alemanha e demonstra seu apoio à França. E a cada país que dá pra trás o Kaiser Guilherme esbraveja, xinga, se irrita... Aos russos acusa de serem culturalmente inferiores e, portanto, incapazes de honrar o tratado que tinham. E quando a Itália e a Espanha se juntam à França ele diz que é uma maquinação dos povos latinos para atentarem contra o povo germânico. Um professor de Relações Internacionais bem disse: se você quiser entender geopolítica, não assista a filmes de guerra; assista Tom e Jerry e observe as crianças brincando. O Kaiser parece aquele adolescente que faz de tudo para ser aceito no grupinho cool da escola (bebe, fuma, se droga, sai pras baladas) e no fim das contas acaba excluído do mesmo jeito. Esse adolescente cresce com trauma, até que um dia ele se arma e invade uma escola. A Alemanha se armou e invadiu a França.

Confesso que foi a duras penas que aprendi essa lição. Eu também já tive a “síndrome de Algeciras”, essa mania doentia de querer agradar e ser aceito por todos, por puro medo de ficar sozinho, sem um grupo. Felizmente, com o tempo a vida me vacinou contra ela. Nunca tive um grupo definido, aquele com quem sempre andei e do qual sempre fui mais próximo; e das vezes que tentei pertencer a algum, sempre falhei. Desde os primeiros anos da escola, nunca me identifiquei com um grupo apenas e hoje essa ideia me soa escabrosa. Pertencer a um grupinho fixo e ser sempre fiel a ele me faz sentir como se fosse a pata de uma centopeia.

Assuntos acadêmicos à parte, recebi nos dois últimos finais de semana dois convites irrecusáveis de estudantes estrangeiros aqui em Augsburg. O primeiro foi da Natalie, uma israelense que estuda História e Filosofia. Ela chamou a mim – e mais pelo menos 25 outras pessoas – para ir comer comida israelense na casa dela em um sábado à noite. Ela mesmo preparou tudo e estava muito gostoso, não me arrependi. O problema é que era muita gente em um espaço muito pequeno (ela mora em um apartamento). Foi ficando mais tarde e as pessoas falavam cada vez mais alto – principalmente os italianos. Até que lá pelas onze e meia a polícia apareceu na porta para avisar que tinha recebido reclamação dos vizinhos. Coincidência ou não, essa foi a hora que eu e mais quatro resolvemos nos despedir. Mas valeu a pena.

No final de semana seguinte quem me convidou foi o Solomon, estudante da Eritréia que mora em Augsburg já faz um tempo. Ele é sem dúvida um dos grandes amigos que fiz aqui. Acho que o principal motivo é porque eu fui uma das únicas pessoas que ele conheceu na Alemanha que sabia onde a Eritréia ficava. No domingo à tarde fui até o apartamento dele e ele me recebeu muito bem. Na sala ele me apresentou uma menina, também da Eritréia, mas não disse quem era. Sentamo-nos e começamos a conversar, mas percebi que ele estava falando muito pouco. Nossa conversa era constantemente interrompida por intervalos silenciosos. Até que em determinado momento ele me disse: “Só que há um pequeno problema, Marcelo. Hoje de manhã recebi uma notícia da Eritréia falando que meu pai faleceu”. Em seguida ele ensaiou um pequeno choro que não se concretizou. Nesse instante fui tomado por um espanto súbito, causado muito mais por uma vergonha do que por um susto. Fiquei desconcertado. Será que eu realmente deveria estar lá? Será que ele me mandou uma mensagem no Facebook cancelando o encontro e eu não vi? Não, ele disse que não. Ele havia recebido a notícia há bem pouco tempo, havia sido pego de surpresa. Eu disse que sentia muito e falei que, se ele quisesse, a gente marcava de se ver outro dia. Mas ele – e a menina que até então estava calada – se anteciparam e disseram que não, eu não precisava me preocupar; a comida já estava preparada e não havia motivos para cancelar. Ele apenas me disse que não iria poder ligar o rádio e a televisão para me mostrar alguns vídeos e músicas tradicionais da Eritréia, em respeito ao seu pai.

Então comemos e bebemos. A comida estava uma delícia: um pão redondo, fino como um papelão (que nem uma panqueca) que a gente passava em um molho bem apimentado, com frango e ovo cozido. Certa hora, quando ele deixou a sala, a menina (que, como eu iria descobrir mais tarde, era namorada dele) me disse que havia mais de dez anos que eles não viam seus pais, tendo em vista que a instabilidade política na Eritréia impedia-os de retornar ao país. Resolvi ir embora mais cedo por conta da situação toda. Solomon me acompanhou até o ponto do bonde e, ao me despedir, mais uma vez lamentei pelo pai dele e ele agradeceu. Desde então não o vi de novo, mas espero que já esteja melhor. Esse é o tipo de experiência que me serve como um belo puxão de orelha e me ensina a valorizar aquilo que tenho, ao invés de ficar reclamando do que não tenho.

Minhas aulas acabam dia 10, quando terei uma prova oral. Tenho mais quatro trabalhos para entregar (dois já estão prontos e um na metade) e pretendo entrega-los todos até o dia 10, pois tenho planos de viajar a partir do dia 11. Meu Eurail vale por mais seis dias e pretendo usá-lo para ir até a Áustria e, de lá, pegar o trem para Liechtenstein e depois para a Eslovênia. Por fim, pretendo ir também a Berlim caso haja tempo e dinheiro. Preciso ainda olhar uma série de questões burocráticas antes de voltar, como fechar minha conta no banco, cancelar meu cartão, informar o departamento de estrangeiros e obter os documentos da universidade. Assim será meu último mês aqui.

E a propósito, feliz aniversário para mim!

domingo, 15 de janeiro de 2012

Confissões de Augsburg - ao ataque!

Você que leu meu último texto deve ter refletido acerca da minha inquietude acadêmica. De fato, desde que pus meus pés no curso de História já pensei em me especializar nos mais diversos e contraditórios temas, sendo que nunca fui capaz de levar sequer um deles à frente; sempre aparecia outro tema mais atraente pelo caminho, que depois também era substituído por outro e assim por diante. Ao contrário do que vocês podem pensar, isso nunca me foi estranho. O que uns chamam de indecisão eu chamo de democracia interna. Não me vejo como uma pessoa confusa ou contraditória: apenas permito a mim mesmo ter uma vasta gama de opiniões acerca de um mesmo objetivo. Se isso me traz inconvenientes? Claro que sim. Os mesmo inconvenientes que existem em um parlamento ou em uma assembleia estudantil compostos das mais diversas orientações ideológicas. Inconvenientes sobre os quais nós simplesmente não podemos passar um rolo compressor. E aliás, não pense você que eu cheguei onde estou após seguir cuidadosamente um mapa bem elaborado. Ao longo de minha vida, pouquíssimas foram as vezes nas quais eu me vi estudando História. Só depois de fazer um semestre de Relações Internacionais, outro de Ciências Sociais e depois mais outro de Relações Internacionais foi que finalmente percebi que o meu lugar era nesse curso no qual estou agora – isso sem falar que no primeiro período ainda tinha minhas dúvidas. E desde o segundo período agradeço cada dia da minha vida por ter contrariado pais, amigos e colegas e decidido por prestar outro vestibular. Enfim, acho que o que quero dizer é mais ou menos isso: algumas pessoas precisam sofrer vários desvios ao longo do caminho a fim de achar o trilho certo.

Ao longo de minha busca frenética por livros de História nazistas no país que mais quer esquecer esse período tenho feito várias descobertas. Uma delas (anteontem) foi que Hitler escreveu um segundo livro após o “Mein Kampf”, em 1928. Ele só foi publicado após sua morte e, como não tinha nome, recebeu apenas o título de “Segundo livro de Hitler”. Diferente do primeiro, esse segundo é pouco conhecido e até fácil de achar – encontrei-o na estante da biblioteca da minha universidade e em vários sebos virtuais aqui na Alemanha mesmo; ele tem uma série de observações muito valiosas acerca da visão de História e de política externa que o führer tinha, e que pretendo abordar na minha pesquisa, comparando com a historiografia integralista. O “Mein Kampf” é proibido de circular na Alemanha e só pode ser utilizado para finalidades acadêmicas. Existe um exemplar na biblioteca da universidade, mas ele está na coleção especial, precisa ser encomendado (assim como quase todas as obras de intelectuais nazistas, como Alfred Rosenberg, Walter Frank e Karl Alexander von Müller). O melhor local para se achar obras de autores nazistas no idioma original é a própria terra natal de Hitler. Enquanto estive na Áustria encontrei o “Mein Kampf” e diversas outras obras de intelectuais do Terceiro Reich em pelo menos três sebos de Viena. Me faltou coragem – e principalmente dinheiro – para comprar, mas ainda terei outras oportunidades de passar por lá. E se depois dessa você vier com uma do tipo “Marcelo, você é nazista ?!” eu respondo que sim. E ainda acrescento que tenho um monte de professores e colegas na UFMG favoráveis à restauração da escravidão no Brasil. É mole?

Mas como eu ia dizendo, estive em Viena entre 27 de dezembro e 2 de janeiro para aproveitar o recesso escolar aqui na Alemanha. A Áustria é um lugar fantástico, o único que eu realmente fazia questão de conhecer quando viesse para a Europa. Viena é cheia de construções antigas, museus, castelos e – como eu já disse – sebos e antiquários! É cada coisa que você encontra nesses sebos que você nem acredita. Desde diplomas autografados por Adolf Hitler (vi um que custava 1000 euros) até bandeiras da União Soviética e uniformes militares antigos. Bem no centro da cidade tem uma espécie de calçadão onde se concentram lojas, restaurantes, bancos e cafés. Como era fim de ano a cidade – e especialmente esse ponto – estava em polvorosa: muita gente indo e vindo e, pra todo lado, artistas de rua de todos os lugares do mundo abusando do seu talento em troca de dinheiro. Vi de tudo: grupos de break dance, flautistas peruanos, estátuas humanas, operadores de marionetes que tocavam instrumentos... Impossível andar sem topar com um desses.

Creio que minha única reclamação em relação à Áustria nada mais é que um complemento das minhas reclamações na Alemanha: a dificuldade sobre-humana de se achar água mineral sem gás para comprar e o “faça você mesmo”. A primeira alternativa é autoexplicativa. Aqui na Alemanha têm lugares nos quais peço água sem gás e tudo o que recebo é um olhar espantado do atendente, como se eu estivesse pedindo a coisa mais estranha do mundo, seguido da resposta “só tem com gás”. E não suporto água com gás por nada nesse mundo... Duas vezes em dois restaurantes em Viena pedi água sem gás e me serviram água gasosa; nas duas vezes tive que chamar o garçom e explicar que eu queria sem gás. Acho que eles estão tão pouco acostumados a servir água com gás que quando pedimos “água sem gás” eles nem ouvem a última parte. No supermercado próximo ao hostel onde fiquei tentei achar água sem gás para comprar, mas também sem sucesso: tinha água gasosa, água com sabor de pera e de maçã, mas nada da maldita água sem gás.

Em relação ao segundo ponto (o “faça você mesmo”) a melhor ilustração foi também em um restaurante. Pedi um prato que demorou mais de uma hora e meia para sair. Acontece que ele era muito grande e eu não dei conta de comer, então disse ao garçom que queria embrulhar para comer em casa (odeio desperdiçar comida). Ele então me trouxe uma sacola plástica e um rolo de papel alumínio, colocou na minha mesa e disse: “pode embrulhar!”. Acredite ou não, eu não me surpreendi. Eu já havia notado que na Alemanha é tudo você quem faz: nas lavanderias você lava sua roupa, nas copiadoras você é quem xeroca e imprime, no posto é você quem abastece, no trem é você quem invalida seu bilhete. É por isso que até hoje eu não entendo como é que na universidade eles entregam, no primeiro dia de aula, um calhamaço com todos os textos a serem lidos no semestre. Se fosse para seguir a lógica, cada um deveria pegar o livro na biblioteca e xerocar por conta própria. Mas enfim, eu embrulhei e levei a comida para casa e tive jantar garantido no dia seguinte.

Na Áustria, mais do que na Alemanha, me surpreendeu a quantidade de brasileiros que encontrei pelo caminho. Eles estavam em todo lugar (e à medida que viajei para o leste se tornavam mais frequentes). A virada do ano eu passei em frente à prefeitura, com muitos fogos de artifício e um grande palco armado pela rádio local onde uma banda tocava músicas consagradas desde a década de 1960 até os anos 2000. No calçadão onde ficavam os artistas de rua também havia muitos palcos, cada um tocando um estilo de música diferente. Se você enjoasse, era só mudar de lugar. Duas músicas que marcaram essa viagem foram, sem dúvida, Michel Teló com seu “Ai, se eu te pego” e outra banda com uma tal de “Dança Kuduro”. Na noite da virada passei por um grupinho de pessoas na rua que cantava “ai, se eu te pego” em um português até razoável.

Não vou ficar aqui dando sugestões de lugares interessantes para se visitar em Viena, até porque esse não é um blog turístico e essas informações você pode achar em centenas de milhares de sites na internet. Também não vou ficar me atendo a dados do tipo “população de Viena, história, curiosidades”; para isso criaram a Wikipedia. Só o que me marcou de modo especial foi o parlamento austríaco, que tem algumas estátuas muito bonitas ornamentando sua fachada.

Dia 2 de janeiro foi a vez de seguir em frente. Leste europeu: Eslováquia! Aqui vai mais um motivo pelo qual não fico dando dicas turísticas nesse espaço. Vi na internet uma série de relatos de viagens de brasileiros que já estiveram em Bratislava, capital da Eslováquia. Fui pra lá esperando o pior, pois era assim que descreviam o local: sujo, cheio de pedintes, parado, sem-graça, monótono. Tudo mentira. Foi, de fato, uma das melhores cidades que já conheci na vida! De fato lá é uma cidade pequena para ser capital, mas tem um centro histórico muito bonito, com estátuas excêntricas e uma rota (marcada por pequenas coroas talhadas no chão) que mostra o caminho que os monarcas do Império Austro-Húngaro faziam ao serem coroados. Fora isso, a cidade tem muitas estátuas e memoriais do tempo do comunismo, um grande shopping center, um castelo no ponto mais alto e uma ponte sobre o Danúbio com uma torre, do alto da qual tem-se uma vista panorâmica da cidade. O observatório da torre é no formato de um disco-voador e dizem que é um lugar para se observar OVNIS à noite. As pessoas na cidade também são muito simpáticas e sempre dispostas a ajudar, principalmente a equipe do hostel onde fiquei; isso sem falar que a comida é uma delícia. Enfim, para alguns isso é monótono, para mim foi uma experiência inigualável (no bom sentido).

Na Eslováquia, mais ainda do que na Áustria e na Alemanha, encontrei muitos brasileiros pelo caminho, acredite ou não. Após dois dias em Bratislava segui para Budapeste, na Hungria, onde o número de brasileiros só iria aumentar.
Das três cidades que visitei Budapeste foi, sem dúvida, a mais bonita. Diria até que foi a segunda cidade mais bonita que já vi na vida, perdendo apenas para Ouro Preto por uma pequena diferença (se não fossem aquelas malditas repúblicas estudantis, a diferença seria maior). Nunca me senti tão em casa na Europa como em Budapeste. Talvez porque ela nada mais é do que uma versão macro da FAFICH. Lá tudo é alternativo, tudo é meio underground (quase todos os restaurantes que fui eram em porões), além do fato de que ainda se guardam muitas reminiscências do tempo do comunismo. A cidade é cortada ao meio pelo Danúbio, sendo que de um lado está Buda, e do outro está Peste (até a segunda metade do século XIX eram duas cidades). Os metrôs de Budapeste são os mais antigos da Europa, todos pichados e um pouco capengas, mas isso só fez crescer minha afeição pela cidade.

Os húngaros lutaram dezenas de anos contra o domínio otomano (nos séculos XVI e XVII) e austríaco (no século XIX). Existem várias estátuas exaltando os heróis da luta de libertação contra os muçulmanos. E o mais interessante nessa história toda é que na Hungria você visita o Museu Nacional, aprende o quanto os húngaros sofreram para se livrar do Império Otomano e depois sai do museu e vai jantar um kebab em um dos muitos restaurantes turcos da cidade. Aliás, devemos dar duas vezes graças a Deus (ou a Allah?) pelos turcos na Hungria e na Europa como um todo. Primeiro porque graças a eles existem, em quase toda a Europa, diversos restaurantes de comida turca onde você se enche de tanto comer e paga muito pouco; enfim, para estudantes que viajam com pouco dinheiro e se hospedam em hostéis, é uma alternativa ainda mais viável que o velho McDonalds. Segundo, porque, pelo menos na Hungria, eles deixaram uma importante herança: as casas de banhos termais. Com o frio que faz no inverno esses banhos são uma salvação. O melhor de todos é a piscina de 38 graus: é a temperatura perfeita para você relaxar sem sentir muito calor.

E a propósito, uma coisa que Budapeste me ensinou foi que a melhor forma de se orientar em uma cidade que você não conhece é visitando o museu de história antes de qualquer outro lugar. Lá vi a história dos grandes heróis nacionais cujos nomes foram dados às principais ruas, praças e estações de metrô da cidade. Depois de passar no museu, ficou muito mais fácil decorar os endereços.

Mas nem só os turcos e os austríacos. Os húngaros também tiveram de lutar contra os soviéticos. No museu e em outros pontos da cidade se exalta bastante a resistência dos húngaros diante do domínio comunista, principalmente a revolução de outubro de 1956. Em um memorial em frente ao parlamento há uma placa com a frase de um intelectual com dizeres claramente anticomunistas; algo do tipo “mesmo após a derrocada da URSS, é muito difícil acabar com o comunismo”. Para eles isso até soa normal, e eu compreendo. Os húngaros são assombrados pelo comunismo assim como os alemães pelo nazismo. Mas para alguém que vem de um país governado durante 21 anos por um regime repressor que tinha a incumbência de livrar o país do perigo vermelho, aqueles dizeres na placa soaram meio mórbidos.

Apesar disso, Budapeste é o paraíso dos comunistas de boutique. Pensando bem, acho que os húngaros não são tão assombrados pelo comunismo como os alemães pelo nazismo. Na Hungria eles aprenderam a fazer turismo com isso. Na saída da cidade existe um memorial com várias estátuas do tempo do comunismo: Marx, Engels, Lenin, trabalhadores e soldados olhando para o horizonte são algumas das estátuas mais comuns. Na loja que existe na entrada no memorial vendem-se cartazes de propaganda comunista, quepes militares soviéticos, canecas retrôs com fotos de líderes comunistas além de isqueiros, caixas de fósforo e medalhas com símbolos da URSS. Mas nem tudo é levado a sério. Eu, por exemplo, comprei um cartaz com a foto de Lenin, Mao e Stalin no qual estava escrito “Os três terrores”. Vou levar para pendurar na entrada da FAFICH. Havia também camisas com esses dizeres. Ao lado do memorial ficava uma sala interativa com fotos do tempo do comunismo. Também nessa sala tinha um pequeno cineminha que rodava vídeos de propaganda soviética. O que eu vi era um vídeo dando aulas de espionagem para agentes do serviço secreto.

Outra coisa que me surpreendeu em Budapeste foi que, pela primeira vez desde que saí do Brasil eu almocei em um restaurante self-service a quilo. Achei um restaurante ao lado do Danúbio que fazia parte de uma cadeia de restaurantes self-service (os únicos da cidade; eram de um proprietário norte-americano). Aí mais uma vez eu refleti sobre o “faça você mesmo”: se esses europeus prezam tanto a autossuficiência, podiam disseminar essa ideia de comida a quilo. Já que você xeroca, você imprime, você abastece, você lava a roupa, você embrulha a comida pra levar pra casa, então você que sirva sua própria comida! Nunca vi comida a quilo na Alemanha e sinto muita falta disso.

E assim se passou meu final e começo de ano. Treze dias de viagem, três cidades, três países e sequer meio floco de neve. Esse inverno está me decepcionando. Só fui ver neve no caminho de volta, entre Salzburg e Munique. Agora estou me preocupando em correr atrás do prejuízo: tenho vários trabalhos a entregar em fevereiro e uma prova oral. Além disso, continuo tentando providenciar os livros de historiadores nazistas, já de olho em minha monografia que inicio esse ano (essa foi minha única meta para 2012). Essa semana chega aqui em casa o livro do Walter Frank que encomendei: “Geist und Macht”, e nessa semana mesmo devo encomendar mais outros, inclusive o segundo livro do Hitler (que achei a um preço muito bom).

Desejo a todos um feliz 2012 e agradeço pela atenção!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Aflições de Augsburg

2003: tudo me remete a esse ano. Tudo aquilo que sou, que deixei de ser, o que quero e o que não quero ser: todas essas perguntas me levam necessariamente a esse ano que permanece como um marco fundador na minha vida. Naquele ano o Brasil ganhava seu primeiro presidente oriundo das classes trabalhadoras, os Estados Unidos se mostravam cada vez mais dispostos a atacar o Iraque, o celular começava a se popularizar e aquele famoso som do ICQ ressoava por todas as internets discadas do país nos fins de semana; naquele ano uma jovem branquela metida a skatista conquistava fãs ao redor do mundo com seu estilo rebelde e sua retórica anti-Britney Spears, ao passo que aqui no Brasil figuras horrendas como Jammil e uma Noites se destacavam no carnaval. Enquanto isso, no interior de Minas Gerais, nascia mais um rebento da geração Kazaa: o então jovem de 15 anos de idade que agora vos fala.

De 2003 em diante minha vida se apegou à internet. Essa ferramenta estranha, que chegara à minha casa há seis anos atrás e cuja finalidade eu então mal podia compreender, se tornava de repente um gênero de primeira necessidade. Para alguém que não tinha muitos amigos, não bebia, não dançava, não saía e sequer conseguia conversar com uma menina, a internet era uma bênção. “Mas e os livros, Marcelo? Você não gostava de ler?”. Não. Meu gosto por livros foi interrompido em 2003 porque foi esse o ano no qual comecei a me preocupar com o vestibular. A partir de então, tomei ojeriza de tudo aquilo que fosse relacionado ao conhecimento, ao saber, à instrução... Justo no ano em que eu mais deveria ler e me informar eu me afastei de tudo isso. E foi justamente nesse momento que a internet me acolheu.

Sendo assim, grande parte do que sou hoje devo a ele: o Kazaa. Quem usou essa valiosa ferramenta para baixar músicas na internet há de se lembrar que ele tinha uma opção de buscar músicas por idiomas. Aquilo para mim era a glória! Uma lista enorme com os mais diversos idiomas à minha disposição: era só escolher uma língua, procurar e baixar qualquer música que viesse. Não importava se a música era rap, pop, rock ou romântica, o mais importante era o idioma. As minhas línguas preferidas eram o turco, o chinês, o árabe e o russo. Enquanto meus dias de semana se resumiam a acumular cada vez mais medo do vestibular, meus finais de semana eram consumidos baixando músicas que ninguém ao meu redor ouvia. No ICQ minha estratégia era semelhante. Até hoje me lembro da menina russa que morava na Síria e estudava literatura japonesa com quem eu conversava frequentemente. Hoje, 8 anos depois, eu vejo que essas experiências não foram de todo insignificantes. Minhas duas estadias no exterior me provaram isso muito bem. Por ter ouvido música de tantos países e em tantos idiomas, e por ter conversado com gente de tanto lugar, hoje, quando encontro alguém de algum país, por mais longínquo que seja, sempre tenho um assunto, algo para comentar: uma banda, um cantor, um ator, um personagem histórico ou político daquele país... E muitos são os que se surpreendem ao ver que um brasileiro conhece um cantor ou o presidente do país dele.

Sim, hoje digo com orgulho que todos aqueles sábados e domingos não foram simplesmente desperdiçados.

Mas minha vida seguiu e o destino me levou para a Malásia. O que foi a Malásia? Até hoje tento compreender. Naquele ano de 2004, porém, eu sabia bem o que ela significava: vitória! O menino que ouvia músicas estranhas em idiomas esquisitos finalmente teria alguém para conversar, visto que estaria em uma terra estranha com um idioma esquisito. Uma terra de maioria islâmica com minorias chinesas e indianas era o palco perfeito para meu triunfo: estava prestes a deixar para trás um país com o qual nunca me identifiquei (até porque pouco o conhecia) para ir a um lugar onde eu me sentiria em casa. Um jovem que queria ser monge budista na infância de fato jamais iria se identificar com um país de micaretas e axés, carnavais e bebedeiras. A Malásia era minha terra prometida. Senti-me retornando à terra natal onde nunca estive.

E eis que deu tudo errado. Os detalhes desse desastre são complexos, contraditórios e caóticos demais para explicar aqui. Nem mesmo em minha cabeça eu consigo formular direito como e porquê essa empreitada se esfacelou em mil pedaços. Diria apenas que chegando lá eu percebi quão ridícula era a ideia de um jovem do interior de Minas, descendente de índios, portugueses, alemães e espanhóis, que nunca tinha saído do seu país, querer encarnar um indiano, malaio ou chinês. Simplesmente não fazia sentido! Nem para mim, nem para eles. Esperei chegar a um país islâmico onde todos se voltavam para Meca cinco vezes ao dia, ouviam música religiosa e conclamavam à jihad contra o grande satã; o que de fato encontrei foram jovens fanáticos por futebol inglês que ouviam Britney Spears e Jennifer Lopez e sequer sabiam a diferença entre um muçulmano sunita e um xiita. Eles esperavam receber um brasileiro bom de bola e bom de papo, que fazia sucesso com as mulheres e estivesse interessado em se divertir; o que encontraram foi um enguiço introvertido que se mostrava muito mais interessado em visitar mesquitas, aprender a recitar o corão e entender o jogo de forças na política malaia do que em comentar o desempenho dos jogadores brasileiros no futebol europeu. E eu, que passei minha infância lendo relatos dos exploradores europeus sobre o choque cultural que sentiam nas terras recém-descobertas, fui aos poucos percebendo que em tempos de Kazaa, ICQ e globalização, o choque cultural é justamente o contrário: o ocidental quer ser como o oriental e vice-versa, e eles continuam não se entendendo (como no tempo dos grandes descobrimentos).

Até então minha vida no Brasil tinha sido uma tentativa constante de forjar para mim mesmo uma identidade cultural que nada tinha a ver comigo: músicas cazaques, vietnamitas e dos mais longínquos confins da Ásia; quando finalmente cheguei aos confins da Ásia, vi quão escabrosas e artificiais eram tais tentativas. Até porque se nem os malaios ouviam música malaia, o que eles pensariam de um brasileiro ouvindo-as?

O resultado disso foi que, após um ano na Malásia, retornei a um país no qual nunca havia estado. Não obstante, aquela mentalidade obsoleta pré-intercâmbio que reverenciava os outros países, as outras culturas e os outros povos permanecia de certa forma bem viva na minha cabeça. Isso me levou a optar pelo curso de Relações Internacionais na hora do vestibular. Claro, né? Ficar um ano exterior fazendo intercâmbio e depois voltar para estudar Relações Internacionais é um dos maiores clichês acadêmicos que já vi. O intercambista volta ao Brasil e opta pelas RI sob a justificativa mequetrefe de querer ajudar as criancinhas da África e salvar as vítimas de minas terrestres no Camboja, pouco se importando com o fato de que no Brasil também há criancinhas que precisam de ajuda.

O curso de Relações Internacionais me se mostrou para mim como um retorno da “era Kazaa” com outras roupagens. Toda aquela alienação, aquele fascínio pelo estrangeiro, por outros países, outras línguas e culturas havia retornado sob um disfarce acadêmico. O curso de Relações Internacionais foi para mim o que a Restauração foi para a Europa pós-napoleônica. Não! Acho que ele se assemelhou mais à revolução de 1830 na França: substituiu uma monarquia por outra de nome e dinastia diferentes, mas que pouco mudou justamente pelo simples fato de continuar sendo uma monarquia.

Na esteira dos acontecimentos, o curso de História foi o responsável por enxotar o Luís Felipe que havia em minha vida. Eu vi na História a oportunidade de abandonar essa mania que sempre tive de me interessar somente por assuntos internacionais. Passara 17 anos de minha vida com a nuca doendo de tanto se inclinar para olhar o que se passava lá fora. Quando me decidi pela História e passei no vestibular, finalmente conquistei a oportunidade de colocar meus pés no chão e olhar ao meu redor.

Mas aí veio a reação. A cavalo, imbatível, veio Luís Bonaparte. Inconformados com essa mudança de rumo, os setores mais conservadores da minha mente começaram a disparar impropérios contra o curso de História. Diziam que ele era viciado, chamaram-no de “curso de uma nota só”. E a partir daí suas exigências e sua ousadia só cresceram. Publicaram um manifesto ridículo intitulado “O homem doente da FAFICH” no qual deixaram claro, entre outras exigências pertinentes, sua aversão ao apego febril que muitos no curso de História da UFMG têm pelo estudo unicamente de questões mineiras. O ápice da reação foi o dia 4 de outubro de 2011: o dia em que parti para meu intercâmbio na Alemanha. A aristocracia ultraconservadora que insistia em não deixar meu cérebro convenceu-me de que era melhor ir para fora – de novo. Me convenceu de que eu devia estudar algo diferente, longe de escravos e mineração, longe de preocupações típicas da “história mesmice”.

Fugir do trinômio quadrado perfeito “escravismo, barroco, minas setecentistas” para estudar um tema como “Primeira Guerra Mundial” é, nos padrões da UFMG, um ato revolucionário. Assim, essa aristocracia internacionalóide, saudosa dos tempos das Relações Internacionais, manobrou seus argumentos de uma forma tal que eles passaram a ser os progressistas! Afinal, não é de praxe estudar apenas história do Brasil na UFMG? Não é revolucionário trazer temas novos relativos à história mundial? “Sendo assim” proclamava a aristocracia saudosa do pré-2004 “inclinem-se para a história do mundo vocês que são revolucionários, pois estudar história do Brasil é ser conservador nos padrões da UFMG!”.

Tinha então uma situação delicada: se eu optasse por dedicar-me à história do Brasil, seria um revolucionário por dentro e um reacionário por fora; se eu me dedicasse a algum tema relativo à história de outros países, seria um reacionário por dentro e um revolucionário por fora. Tentei, por meses e meses a fio, estabelecer uma solução de compromisso entre essas duas tendências que se digladiavam. Algumas duraram muito, outras muito pouco, mas todas fracassaram.

É justamente por essas razões que esse intercâmbio na Alemanha se mostrou como um dos episódios mais decisivos da minha vida. Minhas expectativas antes de vir para cá eram as maiores, bem maiores do que o dobro de todas as expectativas que tinha naquele mês de junho de 2004, antes de embarcar para a Malásia. Servirá esse intercâmbio para reforçar minhas convicções “revolucionárias-por-fora-e-reacionárias-por-dentro”? Ou servirá ele como um catalisador para mais uma revolta “revolucionária-por-dentro-e-reacionária-por-fora”? Não haverá aí caminho para uma conciliação de forças?

O atual estado de coisas sugere que a segunda opção é a mais provável. Temas como Segunda e Primeira Guerra Mundial são bem legais e fascinantes, principalmente para quem estuda História, e eu não sou exceção. Acontece que, estudando temas tão bisonhos como a Primeira Crise do Marrocos sinto-me como alguém chegando atrasado e de mãos vazias a uma festa para a qual não foi convidado. Kaiser, sultão, rei da Inglaterra e ministro francês... Como eu posso me enxergar nessas pessoas? De que maneira elas me dizem respeito? Esses temas me são tão estranhos quanto as músicas curdas, coreanas e mongóis que eu ouvia na minha adolescência.

E mais: que acadêmico europeu sério, em sua sã consciência, daria crédito a um pesquisador brasileiro que se mete a estudar um tema assim, tão alheio à história do Brasil? Quem na Europa quer ouvir o que um brasileiro tem a dizer acerca da Primeira Guerra Mundial (a menos, é claro, que seja algo relacionado à participação do Brasil no conflito – o que particularmente nunca me interessou), quanto mais da Crise do Marrocos? Isso sem contar que ao longo da minha pesquisa fui percebendo que muito, mas muito já foi publicado a respeito desses eventos. Tanto já se falou e se escreveu sobre isso que me vejo incapaz de dar contribuições mais significativas ao assunto. Quero estudar um tema no qual eu possa descobrir coisas novas, falar coisas que ninguém nunca antes falou... E não seguir caminhos já traçados milhares de vezes.

Sim, é assim que vejo a atual situação: a “reação-para-dentro-e-revolução-para-fora” está novamente perdendo espaço para a “reação-para-fora-e-revolução-para-dentro”. Isso me deixa feliz. Caso escolha trabalhar com um tema ligado à história do Brasil, finalmente poderei dizer com orgulho que, enfim, sepultei a “era Kazaa”.

Ao longo de minhas visitas à biblioteca da universidade um tema em especial atraiu minha atenção: a historiografia nazista. Não me refiro à historiografia sobre o período nazista, mas sim à historiografia que o regime nazista engendrou: quem eram e o que pensavam os historiadores que defendiam o regime nacional-socialista, qual era a visão de História que eles tinham e de que forma eles refutavam as duas visões de mundo predominantes até então – a doutrina comunista e o capitalismo. Esse é o tema que mais tem me atraído para uma possível pesquisa. Acho fantástico estudar as tentativas ao longo da história de se achar outro caminho, outra via possível ao comunismo e ao capitalismo, aos EUA e à URSS. No “Mein Kampf” Hitler deixa claro à exaustão o quanto despreza o comunismo e o capitalismo, e como os considera duas forças que, longe de se oporem, se aproximam.

Mas não apenas estudar a historiografia nazista, pois isso seria perpetuar a “era Kazaa”. Acho pertinente fazer um estudo comparado com a historiografia integralista no que tange ao teor anticomunista e anticapitalista das obras. Integralistas como Plínio Salgado e Gustavo Barroso têm obras sobre a história do Brasil sobre as quais nunca tinha ouvido falar e que parecem bem interessantes como objeto de estudo, principalmente se comparadas com a historiografia nazista. O fascínio que o nazismo despertou em muitos brasileiros como sendo uma alternativa viável ao comunismo subversivo e ao capitalismo imperialista é um objeto de análise que me agrada. Encontrei, na biblioteca da universidade de Augsburg, livros do “Reichsinstitut für Geschichte des neuen Deutschlands”, uma instituição criada pelo regime nazista para formular uma visão da História compatível com a nova ideologia. Seu grande mentor, Walter Frank, possui várias obras (já descobri 10 de seus livros no Bundesarchiv em Berlim) com tal intento. Os livros do “Reichsinstitut” foram escritos por diversos intelectuais aliados ao regime e tratam muito mais do antissemitismo do que do anticapitalismo ou anticomunismo. Vez ou outra, porém, eles sempre exploram o fato de Karl Marx ser judeu e a aparente inclinação desse povo ao comércio. Assim, minha hipótese é a de que na raiz do anticomunismo e anticapitalismo da historiografia nazista estava o antissemitismo, ao passo que na historiografia integralista as duas primeiras ideias eram mais fortes do que a última.

Creio, portanto, que o historiador deve se enxergar em seu objeto. Temas como o imperialismo alemão não permitem que eu me enxergue neles (e só fui perceber isso após já ter dado início às minhas pesquisas). O grande desafio que me aguarda agora, portanto, é de uma natureza especial: como fuçar no passado de um país justamente na parte que ele mais quer esquecer. Recentemente encomendei, em um sebo virtual, um livro de Walter Frank; deve chegar essa semana.

Claro, é uma oportunidade única estudar História e vir para a Europa fazer intercâmbio, ter aulas sobre nazismo, imperialismo germânico e Primeira Guerra Mundial. Não nego de forma alguma que tudo isso tem contribuído muito para minha formação. Mas olho com ceticismo para esse continente. Os jornais daqui estampam com cada vez mais frequência a crise do euro, o drama da Grécia, os dilemas de Portugal... Todo mundo aqui se amarrou um ao outro de tal forma que se um cair no abismo leva todos os outros junto. Não me vejo vindo para cá novamente nem mesmo em um futuro próximo. O fardo do homem branco se tornou tão pesado que até mesmo os homens de cor que habitam os trópicos estão ensaiando voos mais altos do que ele. As previsões para 2020 valorizam a China, a Índia, o Brasil, e não a França, a Inglaterra ou a Alemanha. Um dia, quando eu for bem idoso, vou contar para meus alunos que em 2011 viajei para a Europa para estudar um semestre e eles vão me olhar com assombro perguntando “2011? Justo na época da crise? Justo na época em que o Brasil começava a ultrapassar as nações europeias nos indicadores econômicos? Seria melhor ter ficado aqui mesmo!”. E eu não saberei responder a essa pergunta senão com um breve sorriso...


Aflições acadêmicas – e econômicas – à parte, aqui tudo vai bem. Fiz minha primeira prova no começo de dezembro, da matéria sobre imperialismo e colonialismo alemão. Recebi a nota esses dias. Tirei 2,7 em uma escala que vai de 1 até 6 (ou 7, não me lembro), sendo 1 a melhor nota possível. Fiquei impressionado comigo mesmo, mas acho que o professor me deu uma mãozinha salvadora também! Obviamente ele não corrigiu erros de ortografia (como ele mesmo já havia me dito).

Na minha última semana de aula resolvi faltar à aula de alemão para viajar. Fui para Dortmund, cidade no noroeste da Alemanha, sozinho. E não me venha de novo com essa história de “Marcelo, você não tem amigos?!” porque viagens para mim são sagradas! Jamais cancelaria uma viagem a um lugar que eu realmente queira conhecer por falta de companhia. Caso você esteja prestes a viajar para o exterior, carregue esse ensinamento: nunca fique dependendo de terceiros para viajar quando estiver em outro país. Um final de semana um não pode, no feriado o outro não pode, nas férias o outro já tem plano... Aí você vai adiando sua viagem até o momento em que você olha no calendário e descobre que na semana que vem é seu voo de volta – e você não viajou nada!

Não conheci quase nada de Dortmund, fiquei apenas hospedado por lá. Visitei cidades ao redor: Emmerich (uma cidadezinha à beira do rio Reno perto da fronteira com a Holanda), Wuppertal (onde me encontrei com um amigo) e Utrecht, na Holanda. De fato, a última foi a que mais me fascinou. Devo confessar que minha viagem para Utrecht foi uma das coisas mais mal planejadas que já fiz na vida. Simplesmente fui, sem saber de qualquer ponto turístico, atração ou coisas para se fazer por lá. Só o que sabia era que lá havia sido assinado um tratado no século XVIII que tinha, entre suas cláusulas, acertos de fronteiras entre a América Portuguesa e a América Espanhola (acho que foi isso que me motivou a visita-la).

Até agora me desconcerto ao falar da Holanda. Não sei bem o que dizer, como explicar... Precisaria passar um ano lá para poder formular opiniões inteiras sobre aquele país. De momento digo apenas que me surpreendi com a variedade cultural que se nota nas ruas e em todos os lugares (pelo menos em Utrecht): negros, chineses, judeus, muçulmanos, indianos – todos eles falando holandês e se sentindo em casa. A cada rosto não-europeu que eu via me lembrava do passado colonial holandês, suas conquistas, suas posses nos mais remotos cantos da terra, desde a Indonésia até o Suriname – e tentava descobrir de qual ex-colônia cada rosto vinha (típico exercício de um estudante de História que está sozinho em uma terra estranha sem ter o que fazer). Logo que saí da estação fui abordado por um jovem negro mais ou menos da minha idade. Foi aí que me dei conta de uma coisa para a qual eu nunca tinha atentado: eu não falo sequer uma palavra em holandês. Nem um “bom dia”, um “obrigado”, um “com licença”, nada... Fiquei meio bobo e depois disse a ele, em inglês, que eu não falava holandês. Ele então me perguntou em inglês se eu era de lá e eu disse que não, que era estrangeiro fazendo intercâmbio na Alemanha. Ele então sorriu e me disse “ok, então eu não vou te perturbar!”. Quando ele falou holandês a única palavra que pude entender foi “Greenpeace”. Acredito então que era algum ativista tentando recrutar membros para a causa. Nesse momento me lembrei das tumultuadas eleições do DCE na UFMG e dos corredores lotados com pessoas distribuindo panfletos de suas chapas. Parece que é minha sina!

A cidade de Utrecht parece duas em uma só: de um lado Ouro Preto, de outro Belo Horizonte. A parte histórica da cidade tem canais, ruas estreitas, casinhas pequenas e várias pessoas andando de bicicleta. A parte mais moderna tem prédios, lojas, trânsito intenso e mais pessoas andando de bicicleta – sem falar, é claro, naquela famosa rua com umas vitrines de luzes vermelhas que todo mundo já sabe o que é só de olhar de longe. Fiquei mais tempo no centro histórico, andei sem rumo durante muito tempo e passei até pelo arquivo histórico da cidade. Me arrependo de não ter entrado, pelo menos quem sabe para procurar o Tratado de Utrecht em sua versão original. À noite voltei para a estação e após uma longa viagem cheguei a Dortmund.

Meu tutor gentilmente convidou-me para passar o Natal na casa dele em Meitingen, uma cidadezinha perto de Augsburg. À tarde fomos à casa de sua avó, comemos biscoitos e tomamos chá. Conversei bastante com o primo e com a prima dela, ambos muito simpáticos. Presenteei a vó dele com um presépio de louça que eu havia comprado no dia anterior. Ela ficou muito feliz, acendeu as suas duas velas e logo o colocou para decorar a casa. O problema é que as velas esquentaram demais e de repente a estrela que ficava no alto do presépio simplesmente quebrou! Ela logo apagou a vela e disse que mais tarde iria colar. Essa situação deveria ter me deixado sem jeito, mas surpreendentemente não deixou. Mais tarde fomos à missa e depois fui para a casa do meu tutor. Lá comemoramos só ele, eu e a mãe dele. Eles não são muito animados com Natal, por isso fizeram uma ceia simples: batata cozida e linguiças fritas. Enquanto esperávamos a refeição, conversei com ele (o nome dele é David) sobre seus planos após se formar. Ele disse que quer ser professor de Inglês e História em alguma escola (atualmente está estudando para concurso em escolas do Estado). Perguntei sobre a possibilidade de seguir a carreira acadêmica e ele me disse que não, pois várias coisas na universidade eram, para ele, sem sentido. Pedi um exemplo e ele me falou que os textos de Pedagogia eram estúpidos, pois tratavam de temas óbvios como por exemplo “a sala de aula é um lugar heterogêneo, tem homens e mulheres, cada um com sua personalidade”... Enfim, coisas que todo mundo sabe e que, caso não saiba, irá aprender em apenas um dia de experiência. Disse ainda que em um dia do seu estágio com crianças de uma escola ele aprende muito mais que em um semestre todo na universidade. Percebi, com isso, semelhanças valiosas entre as queixas dele e a de muitos de meus colegas na UFMG. Após comermos ficamos os três sem ter o que fazer. Jogamos então um jogo de tabuleiro e depois o David me mostrou fotos de seu intercâmbio em Birmingham, na Inglaterra. Voltei pra casa antes das 22h.

Não reclamei: apesar de não ter tido uma ceia farta, com trocas de presentes e perto dos familiares, consegui o que mais queria, que era não passar o Natal sozinho. Nessa terça pela manhã viajo para Viena, na Áustria, onde passarei o Ano Novo, depois para Bratislava (na Eslováquia) e depois para Budapeste (na Hungria). Desejo a todos um feliz ano novo e agradeço/admiro a paciência de quem conseguiu ler até aqui! Peço desculpas pelo teor excessivamente subjetivo na primeira metade do texto, mas são reflexões que tenho feito com muita frequência nos últimos dias. Tratei de temas bem delicados os quais não devem ter ficado muito claros. Aceito, porém, críticas e sugestões a respeito.