28 de janeiro de 2012: um dia muito especial por dois motivos. Primeiro, porque daqui a um mês estarei deixando a Alemanha de volta ao Brasil. Segundo, porque daqui a algumas horas estarei completando 24 anos de vida. Aparentemente é só mais um aniversário, mas eu não vejo assim. Nasci no dia 29 de janeiro de 1988, de modo que vivi 12 anos de minha vida no século XX. Amanhã, portanto, completarei 12 anos vivendo no século XXI e igualarei essa marca: terei vivido o mesmo tanto em cada século.
Isso não é lá muito importante, é? Também acho que não. Mas quando você sabe que vai passar o seu aniversário todo fazendo trabalho e lendo “A ética protestante e o espírito do capitalismo” no original, qualquer motivo para comemorar é válido.
Aqui a neve tem caído com mais frequência. Só essa semana eu pude pegá-la e sentir sua consistência verdadeira. Até então ela estava derretendo muito facilmente. Quase todas as manhãs logo que eu acordo minha primeira visão são as árvores cobertas de neve. O inverno chegou de verdade. Quem também chegou foram os livros que encomendei na abebooks.de, um site pelo qual você pode encomendar livros de sebos em quase todos os lugares da Alemanha. Sendo assim, pelo menos o meu presente de aniversário já está garantido, e com antecedência! Um dos livros chegou semana passada e os outros foram chegando um atrás do outro ao longo dessa semana: um hoje, um ontem, um anteontem e outro quarta-feira. Finalmente posso dizer que tenho a documentação necessária para minha monografia. Ainda não tive tempo de ler cada um atentamente, mas o conteúdo de cada um é aquele que eu já esperava. Todos eles versam sobre temas de história alemã e também da história europeia em geral, na visão dos dois mais importantes historiadores nazistas: Karl Alexander von Müller e Walter Frank. Dois livros de von Müller (“História alemã e caráter alemão” e “Da velha até a nova Alemanha”) contêm diversos artigos históricos sobre temas variados, desde o Tratado de Versalhes até Fichte e Maquiavel, passando por Richard Wagner, Bismarck e até Oliver Cromwell. Enfim, o suficiente para se ter uma noção da visão de História que os nazistas queriam passar. O outro livro de von Müller é um bem pequeno que fala sobre o referendo de 10 de abril de 1938 pelo qual a Áustria aprovou a união com a Alemanha.
Um dos livros de Walter Frank também consiste de artigos históricos que tratam de figuras como Ludendorff e Karl Marx, além de versar muito sobre a história judaica (mais do que von Müller). O outro, que chegou hoje pela manhã, tem apenas 35 páginas e conta a história do próprio nacional-socialismo. Dentro dele vieram – não me pergunte o motivo – duas páginas de jornal soltas datadas de 1935 (uma delas com uma declaração assinada por Hitler sobre a necessidade de se proteger “o sangue e a honra alemães”). Gustavo Barroso também tem livros que tratam da história do integralismo e de repente surgiu a ideia de talvez comparar a visão que cada movimento tinha acerca de seu próprio lugar na história. De uma certa maneira, ambos os grupos (nazistas e integralistas) criticavam uma experiência liberal-democrática ainda precoce em seus respectivos países (a república oligárquica e a república de Weimar) e exigiam um governo mais forte e ativo.
E por falar em historiografia nazista, comecei a averiguar na semana passada alguns dos livros que estão disponíveis na biblioteca da universidade. São os livros de Alfred Rosenberg que, por serem muito caros, resolvi dar uma olhada no conteúdo antes para ver se realmente valia a pena encomendar. Pedi também um livro de Gottfried Feder, o programa do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Por terem um conteúdo um pouco mais “punk”, esses livros ficam em uma coleção especial, em uma sala especial, da qual não podem sair: você tem de lê-los lá mesmo. Além disso, antes de manuseá-los eu tive que preencher um formulário comprometendo-me a utilizá-los “apenas para finalidades acadêmicas”, isto é, a não irradiar o seu conteúdo maléfico por aí. Lendo algumas passagens dos livros imaginei o quanto devia ser fácil ser um historiador na época do Terceiro Reich: não era necessário discutir, debater, dialogar, raciocinar... Era só colocar a culpa nos judeus! Em algumas passagens de Alfred Rosenberg e Gottfried Feder pude ler que o comunismo, o capitalismo, o capital especulativo, o separatismo, até a Revolução Francesa: tudo fazia parte das maquinações judaicas para tomar conta do mundo e atentar contra a unidade da raça ariana. Momentos como esses me ensinam a sempre duvidar de explicações simples demais.
Sim, eu sei que deve ser bem chato para você ficar lendo sobre esses assuntos intelectualóides aqui no meu blog, principalmente se você não for estudante da área de humanas. Acontece que isso é o que tem me ocupado ultimamente. “Mas Marcelo, você não faz nada para se divertir?!”. Claro que faço! Meu trabalho da matéria de “Primeira Guerra Mundial” tem me rendido boas risadas, acredite em mim... Você pode achar que escrever doze páginas em alemão sobre a Primeira Crise do Marrocos é o ápice do tédio, mas te asseguro que não. Nunca estudei um episódio histórico tão cômico como esse. Consegue ser mais engraçado até do que as libertinagens no Brasil Colonial que o professor Villalta nos contava em Brasil I.
A Primeira Crise do Marrocos é, de longe, a melhor representação possível para aquele famoso meme “forever alone”. A Alemanha passou cada mês, semana e dia entre 1º de abril de 1905 e 7 de abril de 1906 tentando agradar todas as potências, convencê-las de suas boas intenções, chamando-as para negociar livremente nos portos do Marrocos, tentando forjar uma grande aliança continental sob sua hegemonia, clamando a todos que não queria a guerra, invocando o direito internacional e espantando o fantasma do isolamento diante das outras potências. Até que chega a esperada Conferência de Algeciras, proposta pelos próprios alemães para poderem se impor e isolar a França, e o que acontece? Alemanha, immer allein! Um a um, cada país da conferência abandona a Alemanha e demonstra seu apoio à França. E a cada país que dá pra trás o Kaiser Guilherme esbraveja, xinga, se irrita... Aos russos acusa de serem culturalmente inferiores e, portanto, incapazes de honrar o tratado que tinham. E quando a Itália e a Espanha se juntam à França ele diz que é uma maquinação dos povos latinos para atentarem contra o povo germânico. Um professor de Relações Internacionais bem disse: se você quiser entender geopolítica, não assista a filmes de guerra; assista Tom e Jerry e observe as crianças brincando. O Kaiser parece aquele adolescente que faz de tudo para ser aceito no grupinho cool da escola (bebe, fuma, se droga, sai pras baladas) e no fim das contas acaba excluído do mesmo jeito. Esse adolescente cresce com trauma, até que um dia ele se arma e invade uma escola. A Alemanha se armou e invadiu a França.
Confesso que foi a duras penas que aprendi essa lição. Eu também já tive a “síndrome de Algeciras”, essa mania doentia de querer agradar e ser aceito por todos, por puro medo de ficar sozinho, sem um grupo. Felizmente, com o tempo a vida me vacinou contra ela. Nunca tive um grupo definido, aquele com quem sempre andei e do qual sempre fui mais próximo; e das vezes que tentei pertencer a algum, sempre falhei. Desde os primeiros anos da escola, nunca me identifiquei com um grupo apenas e hoje essa ideia me soa escabrosa. Pertencer a um grupinho fixo e ser sempre fiel a ele me faz sentir como se fosse a pata de uma centopeia.
Assuntos acadêmicos à parte, recebi nos dois últimos finais de semana dois convites irrecusáveis de estudantes estrangeiros aqui em Augsburg. O primeiro foi da Natalie, uma israelense que estuda História e Filosofia. Ela chamou a mim – e mais pelo menos 25 outras pessoas – para ir comer comida israelense na casa dela em um sábado à noite. Ela mesmo preparou tudo e estava muito gostoso, não me arrependi. O problema é que era muita gente em um espaço muito pequeno (ela mora em um apartamento). Foi ficando mais tarde e as pessoas falavam cada vez mais alto – principalmente os italianos. Até que lá pelas onze e meia a polícia apareceu na porta para avisar que tinha recebido reclamação dos vizinhos. Coincidência ou não, essa foi a hora que eu e mais quatro resolvemos nos despedir. Mas valeu a pena.
No final de semana seguinte quem me convidou foi o Solomon, estudante da Eritréia que mora em Augsburg já faz um tempo. Ele é sem dúvida um dos grandes amigos que fiz aqui. Acho que o principal motivo é porque eu fui uma das únicas pessoas que ele conheceu na Alemanha que sabia onde a Eritréia ficava. No domingo à tarde fui até o apartamento dele e ele me recebeu muito bem. Na sala ele me apresentou uma menina, também da Eritréia, mas não disse quem era. Sentamo-nos e começamos a conversar, mas percebi que ele estava falando muito pouco. Nossa conversa era constantemente interrompida por intervalos silenciosos. Até que em determinado momento ele me disse: “Só que há um pequeno problema, Marcelo. Hoje de manhã recebi uma notícia da Eritréia falando que meu pai faleceu”. Em seguida ele ensaiou um pequeno choro que não se concretizou. Nesse instante fui tomado por um espanto súbito, causado muito mais por uma vergonha do que por um susto. Fiquei desconcertado. Será que eu realmente deveria estar lá? Será que ele me mandou uma mensagem no Facebook cancelando o encontro e eu não vi? Não, ele disse que não. Ele havia recebido a notícia há bem pouco tempo, havia sido pego de surpresa. Eu disse que sentia muito e falei que, se ele quisesse, a gente marcava de se ver outro dia. Mas ele – e a menina que até então estava calada – se anteciparam e disseram que não, eu não precisava me preocupar; a comida já estava preparada e não havia motivos para cancelar. Ele apenas me disse que não iria poder ligar o rádio e a televisão para me mostrar alguns vídeos e músicas tradicionais da Eritréia, em respeito ao seu pai.
Então comemos e bebemos. A comida estava uma delícia: um pão redondo, fino como um papelão (que nem uma panqueca) que a gente passava em um molho bem apimentado, com frango e ovo cozido. Certa hora, quando ele deixou a sala, a menina (que, como eu iria descobrir mais tarde, era namorada dele) me disse que havia mais de dez anos que eles não viam seus pais, tendo em vista que a instabilidade política na Eritréia impedia-os de retornar ao país. Resolvi ir embora mais cedo por conta da situação toda. Solomon me acompanhou até o ponto do bonde e, ao me despedir, mais uma vez lamentei pelo pai dele e ele agradeceu. Desde então não o vi de novo, mas espero que já esteja melhor. Esse é o tipo de experiência que me serve como um belo puxão de orelha e me ensina a valorizar aquilo que tenho, ao invés de ficar reclamando do que não tenho.
Minhas aulas acabam dia 10, quando terei uma prova oral. Tenho mais quatro trabalhos para entregar (dois já estão prontos e um na metade) e pretendo entrega-los todos até o dia 10, pois tenho planos de viajar a partir do dia 11. Meu Eurail vale por mais seis dias e pretendo usá-lo para ir até a Áustria e, de lá, pegar o trem para Liechtenstein e depois para a Eslovênia. Por fim, pretendo ir também a Berlim caso haja tempo e dinheiro. Preciso ainda olhar uma série de questões burocráticas antes de voltar, como fechar minha conta no banco, cancelar meu cartão, informar o departamento de estrangeiros e obter os documentos da universidade. Assim será meu último mês aqui.
E a propósito, feliz aniversário para mim!
"Quem quiser fale mal da literatura. Quanto a mim, direi que devo a ela minha salvação. Venho da rua oprimido, escrevo dez linhas, torno-me olímpico" (Cyro dos Anjos, "O amanuense Belmiro", 1937).
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sábado, 28 de janeiro de 2012
domingo, 15 de janeiro de 2012
Confissões de Augsburg - ao ataque!
Você que leu meu último texto deve ter refletido acerca da minha inquietude acadêmica. De fato, desde que pus meus pés no curso de História já pensei em me especializar nos mais diversos e contraditórios temas, sendo que nunca fui capaz de levar sequer um deles à frente; sempre aparecia outro tema mais atraente pelo caminho, que depois também era substituído por outro e assim por diante. Ao contrário do que vocês podem pensar, isso nunca me foi estranho. O que uns chamam de indecisão eu chamo de democracia interna. Não me vejo como uma pessoa confusa ou contraditória: apenas permito a mim mesmo ter uma vasta gama de opiniões acerca de um mesmo objetivo. Se isso me traz inconvenientes? Claro que sim. Os mesmo inconvenientes que existem em um parlamento ou em uma assembleia estudantil compostos das mais diversas orientações ideológicas. Inconvenientes sobre os quais nós simplesmente não podemos passar um rolo compressor. E aliás, não pense você que eu cheguei onde estou após seguir cuidadosamente um mapa bem elaborado. Ao longo de minha vida, pouquíssimas foram as vezes nas quais eu me vi estudando História. Só depois de fazer um semestre de Relações Internacionais, outro de Ciências Sociais e depois mais outro de Relações Internacionais foi que finalmente percebi que o meu lugar era nesse curso no qual estou agora – isso sem falar que no primeiro período ainda tinha minhas dúvidas. E desde o segundo período agradeço cada dia da minha vida por ter contrariado pais, amigos e colegas e decidido por prestar outro vestibular. Enfim, acho que o que quero dizer é mais ou menos isso: algumas pessoas precisam sofrer vários desvios ao longo do caminho a fim de achar o trilho certo.
Ao longo de minha busca frenética por livros de História nazistas no país que mais quer esquecer esse período tenho feito várias descobertas. Uma delas (anteontem) foi que Hitler escreveu um segundo livro após o “Mein Kampf”, em 1928. Ele só foi publicado após sua morte e, como não tinha nome, recebeu apenas o título de “Segundo livro de Hitler”. Diferente do primeiro, esse segundo é pouco conhecido e até fácil de achar – encontrei-o na estante da biblioteca da minha universidade e em vários sebos virtuais aqui na Alemanha mesmo; ele tem uma série de observações muito valiosas acerca da visão de História e de política externa que o führer tinha, e que pretendo abordar na minha pesquisa, comparando com a historiografia integralista. O “Mein Kampf” é proibido de circular na Alemanha e só pode ser utilizado para finalidades acadêmicas. Existe um exemplar na biblioteca da universidade, mas ele está na coleção especial, precisa ser encomendado (assim como quase todas as obras de intelectuais nazistas, como Alfred Rosenberg, Walter Frank e Karl Alexander von Müller). O melhor local para se achar obras de autores nazistas no idioma original é a própria terra natal de Hitler. Enquanto estive na Áustria encontrei o “Mein Kampf” e diversas outras obras de intelectuais do Terceiro Reich em pelo menos três sebos de Viena. Me faltou coragem – e principalmente dinheiro – para comprar, mas ainda terei outras oportunidades de passar por lá. E se depois dessa você vier com uma do tipo “Marcelo, você é nazista ?!” eu respondo que sim. E ainda acrescento que tenho um monte de professores e colegas na UFMG favoráveis à restauração da escravidão no Brasil. É mole?
Mas como eu ia dizendo, estive em Viena entre 27 de dezembro e 2 de janeiro para aproveitar o recesso escolar aqui na Alemanha. A Áustria é um lugar fantástico, o único que eu realmente fazia questão de conhecer quando viesse para a Europa. Viena é cheia de construções antigas, museus, castelos e – como eu já disse – sebos e antiquários! É cada coisa que você encontra nesses sebos que você nem acredita. Desde diplomas autografados por Adolf Hitler (vi um que custava 1000 euros) até bandeiras da União Soviética e uniformes militares antigos. Bem no centro da cidade tem uma espécie de calçadão onde se concentram lojas, restaurantes, bancos e cafés. Como era fim de ano a cidade – e especialmente esse ponto – estava em polvorosa: muita gente indo e vindo e, pra todo lado, artistas de rua de todos os lugares do mundo abusando do seu talento em troca de dinheiro. Vi de tudo: grupos de break dance, flautistas peruanos, estátuas humanas, operadores de marionetes que tocavam instrumentos... Impossível andar sem topar com um desses.
Creio que minha única reclamação em relação à Áustria nada mais é que um complemento das minhas reclamações na Alemanha: a dificuldade sobre-humana de se achar água mineral sem gás para comprar e o “faça você mesmo”. A primeira alternativa é autoexplicativa. Aqui na Alemanha têm lugares nos quais peço água sem gás e tudo o que recebo é um olhar espantado do atendente, como se eu estivesse pedindo a coisa mais estranha do mundo, seguido da resposta “só tem com gás”. E não suporto água com gás por nada nesse mundo... Duas vezes em dois restaurantes em Viena pedi água sem gás e me serviram água gasosa; nas duas vezes tive que chamar o garçom e explicar que eu queria sem gás. Acho que eles estão tão pouco acostumados a servir água com gás que quando pedimos “água sem gás” eles nem ouvem a última parte. No supermercado próximo ao hostel onde fiquei tentei achar água sem gás para comprar, mas também sem sucesso: tinha água gasosa, água com sabor de pera e de maçã, mas nada da maldita água sem gás.
Em relação ao segundo ponto (o “faça você mesmo”) a melhor ilustração foi também em um restaurante. Pedi um prato que demorou mais de uma hora e meia para sair. Acontece que ele era muito grande e eu não dei conta de comer, então disse ao garçom que queria embrulhar para comer em casa (odeio desperdiçar comida). Ele então me trouxe uma sacola plástica e um rolo de papel alumínio, colocou na minha mesa e disse: “pode embrulhar!”. Acredite ou não, eu não me surpreendi. Eu já havia notado que na Alemanha é tudo você quem faz: nas lavanderias você lava sua roupa, nas copiadoras você é quem xeroca e imprime, no posto é você quem abastece, no trem é você quem invalida seu bilhete. É por isso que até hoje eu não entendo como é que na universidade eles entregam, no primeiro dia de aula, um calhamaço com todos os textos a serem lidos no semestre. Se fosse para seguir a lógica, cada um deveria pegar o livro na biblioteca e xerocar por conta própria. Mas enfim, eu embrulhei e levei a comida para casa e tive jantar garantido no dia seguinte.
Na Áustria, mais do que na Alemanha, me surpreendeu a quantidade de brasileiros que encontrei pelo caminho. Eles estavam em todo lugar (e à medida que viajei para o leste se tornavam mais frequentes). A virada do ano eu passei em frente à prefeitura, com muitos fogos de artifício e um grande palco armado pela rádio local onde uma banda tocava músicas consagradas desde a década de 1960 até os anos 2000. No calçadão onde ficavam os artistas de rua também havia muitos palcos, cada um tocando um estilo de música diferente. Se você enjoasse, era só mudar de lugar. Duas músicas que marcaram essa viagem foram, sem dúvida, Michel Teló com seu “Ai, se eu te pego” e outra banda com uma tal de “Dança Kuduro”. Na noite da virada passei por um grupinho de pessoas na rua que cantava “ai, se eu te pego” em um português até razoável.
Não vou ficar aqui dando sugestões de lugares interessantes para se visitar em Viena, até porque esse não é um blog turístico e essas informações você pode achar em centenas de milhares de sites na internet. Também não vou ficar me atendo a dados do tipo “população de Viena, história, curiosidades”; para isso criaram a Wikipedia. Só o que me marcou de modo especial foi o parlamento austríaco, que tem algumas estátuas muito bonitas ornamentando sua fachada.
Dia 2 de janeiro foi a vez de seguir em frente. Leste europeu: Eslováquia! Aqui vai mais um motivo pelo qual não fico dando dicas turísticas nesse espaço. Vi na internet uma série de relatos de viagens de brasileiros que já estiveram em Bratislava, capital da Eslováquia. Fui pra lá esperando o pior, pois era assim que descreviam o local: sujo, cheio de pedintes, parado, sem-graça, monótono. Tudo mentira. Foi, de fato, uma das melhores cidades que já conheci na vida! De fato lá é uma cidade pequena para ser capital, mas tem um centro histórico muito bonito, com estátuas excêntricas e uma rota (marcada por pequenas coroas talhadas no chão) que mostra o caminho que os monarcas do Império Austro-Húngaro faziam ao serem coroados. Fora isso, a cidade tem muitas estátuas e memoriais do tempo do comunismo, um grande shopping center, um castelo no ponto mais alto e uma ponte sobre o Danúbio com uma torre, do alto da qual tem-se uma vista panorâmica da cidade. O observatório da torre é no formato de um disco-voador e dizem que é um lugar para se observar OVNIS à noite. As pessoas na cidade também são muito simpáticas e sempre dispostas a ajudar, principalmente a equipe do hostel onde fiquei; isso sem falar que a comida é uma delícia. Enfim, para alguns isso é monótono, para mim foi uma experiência inigualável (no bom sentido).
Na Eslováquia, mais ainda do que na Áustria e na Alemanha, encontrei muitos brasileiros pelo caminho, acredite ou não. Após dois dias em Bratislava segui para Budapeste, na Hungria, onde o número de brasileiros só iria aumentar.
Das três cidades que visitei Budapeste foi, sem dúvida, a mais bonita. Diria até que foi a segunda cidade mais bonita que já vi na vida, perdendo apenas para Ouro Preto por uma pequena diferença (se não fossem aquelas malditas repúblicas estudantis, a diferença seria maior). Nunca me senti tão em casa na Europa como em Budapeste. Talvez porque ela nada mais é do que uma versão macro da FAFICH. Lá tudo é alternativo, tudo é meio underground (quase todos os restaurantes que fui eram em porões), além do fato de que ainda se guardam muitas reminiscências do tempo do comunismo. A cidade é cortada ao meio pelo Danúbio, sendo que de um lado está Buda, e do outro está Peste (até a segunda metade do século XIX eram duas cidades). Os metrôs de Budapeste são os mais antigos da Europa, todos pichados e um pouco capengas, mas isso só fez crescer minha afeição pela cidade.
Os húngaros lutaram dezenas de anos contra o domínio otomano (nos séculos XVI e XVII) e austríaco (no século XIX). Existem várias estátuas exaltando os heróis da luta de libertação contra os muçulmanos. E o mais interessante nessa história toda é que na Hungria você visita o Museu Nacional, aprende o quanto os húngaros sofreram para se livrar do Império Otomano e depois sai do museu e vai jantar um kebab em um dos muitos restaurantes turcos da cidade. Aliás, devemos dar duas vezes graças a Deus (ou a Allah?) pelos turcos na Hungria e na Europa como um todo. Primeiro porque graças a eles existem, em quase toda a Europa, diversos restaurantes de comida turca onde você se enche de tanto comer e paga muito pouco; enfim, para estudantes que viajam com pouco dinheiro e se hospedam em hostéis, é uma alternativa ainda mais viável que o velho McDonalds. Segundo, porque, pelo menos na Hungria, eles deixaram uma importante herança: as casas de banhos termais. Com o frio que faz no inverno esses banhos são uma salvação. O melhor de todos é a piscina de 38 graus: é a temperatura perfeita para você relaxar sem sentir muito calor.
E a propósito, uma coisa que Budapeste me ensinou foi que a melhor forma de se orientar em uma cidade que você não conhece é visitando o museu de história antes de qualquer outro lugar. Lá vi a história dos grandes heróis nacionais cujos nomes foram dados às principais ruas, praças e estações de metrô da cidade. Depois de passar no museu, ficou muito mais fácil decorar os endereços.
Mas nem só os turcos e os austríacos. Os húngaros também tiveram de lutar contra os soviéticos. No museu e em outros pontos da cidade se exalta bastante a resistência dos húngaros diante do domínio comunista, principalmente a revolução de outubro de 1956. Em um memorial em frente ao parlamento há uma placa com a frase de um intelectual com dizeres claramente anticomunistas; algo do tipo “mesmo após a derrocada da URSS, é muito difícil acabar com o comunismo”. Para eles isso até soa normal, e eu compreendo. Os húngaros são assombrados pelo comunismo assim como os alemães pelo nazismo. Mas para alguém que vem de um país governado durante 21 anos por um regime repressor que tinha a incumbência de livrar o país do perigo vermelho, aqueles dizeres na placa soaram meio mórbidos.
Apesar disso, Budapeste é o paraíso dos comunistas de boutique. Pensando bem, acho que os húngaros não são tão assombrados pelo comunismo como os alemães pelo nazismo. Na Hungria eles aprenderam a fazer turismo com isso. Na saída da cidade existe um memorial com várias estátuas do tempo do comunismo: Marx, Engels, Lenin, trabalhadores e soldados olhando para o horizonte são algumas das estátuas mais comuns. Na loja que existe na entrada no memorial vendem-se cartazes de propaganda comunista, quepes militares soviéticos, canecas retrôs com fotos de líderes comunistas além de isqueiros, caixas de fósforo e medalhas com símbolos da URSS. Mas nem tudo é levado a sério. Eu, por exemplo, comprei um cartaz com a foto de Lenin, Mao e Stalin no qual estava escrito “Os três terrores”. Vou levar para pendurar na entrada da FAFICH. Havia também camisas com esses dizeres. Ao lado do memorial ficava uma sala interativa com fotos do tempo do comunismo. Também nessa sala tinha um pequeno cineminha que rodava vídeos de propaganda soviética. O que eu vi era um vídeo dando aulas de espionagem para agentes do serviço secreto.
Outra coisa que me surpreendeu em Budapeste foi que, pela primeira vez desde que saí do Brasil eu almocei em um restaurante self-service a quilo. Achei um restaurante ao lado do Danúbio que fazia parte de uma cadeia de restaurantes self-service (os únicos da cidade; eram de um proprietário norte-americano). Aí mais uma vez eu refleti sobre o “faça você mesmo”: se esses europeus prezam tanto a autossuficiência, podiam disseminar essa ideia de comida a quilo. Já que você xeroca, você imprime, você abastece, você lava a roupa, você embrulha a comida pra levar pra casa, então você que sirva sua própria comida! Nunca vi comida a quilo na Alemanha e sinto muita falta disso.
E assim se passou meu final e começo de ano. Treze dias de viagem, três cidades, três países e sequer meio floco de neve. Esse inverno está me decepcionando. Só fui ver neve no caminho de volta, entre Salzburg e Munique. Agora estou me preocupando em correr atrás do prejuízo: tenho vários trabalhos a entregar em fevereiro e uma prova oral. Além disso, continuo tentando providenciar os livros de historiadores nazistas, já de olho em minha monografia que inicio esse ano (essa foi minha única meta para 2012). Essa semana chega aqui em casa o livro do Walter Frank que encomendei: “Geist und Macht”, e nessa semana mesmo devo encomendar mais outros, inclusive o segundo livro do Hitler (que achei a um preço muito bom).
Desejo a todos um feliz 2012 e agradeço pela atenção!
Ao longo de minha busca frenética por livros de História nazistas no país que mais quer esquecer esse período tenho feito várias descobertas. Uma delas (anteontem) foi que Hitler escreveu um segundo livro após o “Mein Kampf”, em 1928. Ele só foi publicado após sua morte e, como não tinha nome, recebeu apenas o título de “Segundo livro de Hitler”. Diferente do primeiro, esse segundo é pouco conhecido e até fácil de achar – encontrei-o na estante da biblioteca da minha universidade e em vários sebos virtuais aqui na Alemanha mesmo; ele tem uma série de observações muito valiosas acerca da visão de História e de política externa que o führer tinha, e que pretendo abordar na minha pesquisa, comparando com a historiografia integralista. O “Mein Kampf” é proibido de circular na Alemanha e só pode ser utilizado para finalidades acadêmicas. Existe um exemplar na biblioteca da universidade, mas ele está na coleção especial, precisa ser encomendado (assim como quase todas as obras de intelectuais nazistas, como Alfred Rosenberg, Walter Frank e Karl Alexander von Müller). O melhor local para se achar obras de autores nazistas no idioma original é a própria terra natal de Hitler. Enquanto estive na Áustria encontrei o “Mein Kampf” e diversas outras obras de intelectuais do Terceiro Reich em pelo menos três sebos de Viena. Me faltou coragem – e principalmente dinheiro – para comprar, mas ainda terei outras oportunidades de passar por lá. E se depois dessa você vier com uma do tipo “Marcelo, você é nazista ?!” eu respondo que sim. E ainda acrescento que tenho um monte de professores e colegas na UFMG favoráveis à restauração da escravidão no Brasil. É mole?
Mas como eu ia dizendo, estive em Viena entre 27 de dezembro e 2 de janeiro para aproveitar o recesso escolar aqui na Alemanha. A Áustria é um lugar fantástico, o único que eu realmente fazia questão de conhecer quando viesse para a Europa. Viena é cheia de construções antigas, museus, castelos e – como eu já disse – sebos e antiquários! É cada coisa que você encontra nesses sebos que você nem acredita. Desde diplomas autografados por Adolf Hitler (vi um que custava 1000 euros) até bandeiras da União Soviética e uniformes militares antigos. Bem no centro da cidade tem uma espécie de calçadão onde se concentram lojas, restaurantes, bancos e cafés. Como era fim de ano a cidade – e especialmente esse ponto – estava em polvorosa: muita gente indo e vindo e, pra todo lado, artistas de rua de todos os lugares do mundo abusando do seu talento em troca de dinheiro. Vi de tudo: grupos de break dance, flautistas peruanos, estátuas humanas, operadores de marionetes que tocavam instrumentos... Impossível andar sem topar com um desses.
Creio que minha única reclamação em relação à Áustria nada mais é que um complemento das minhas reclamações na Alemanha: a dificuldade sobre-humana de se achar água mineral sem gás para comprar e o “faça você mesmo”. A primeira alternativa é autoexplicativa. Aqui na Alemanha têm lugares nos quais peço água sem gás e tudo o que recebo é um olhar espantado do atendente, como se eu estivesse pedindo a coisa mais estranha do mundo, seguido da resposta “só tem com gás”. E não suporto água com gás por nada nesse mundo... Duas vezes em dois restaurantes em Viena pedi água sem gás e me serviram água gasosa; nas duas vezes tive que chamar o garçom e explicar que eu queria sem gás. Acho que eles estão tão pouco acostumados a servir água com gás que quando pedimos “água sem gás” eles nem ouvem a última parte. No supermercado próximo ao hostel onde fiquei tentei achar água sem gás para comprar, mas também sem sucesso: tinha água gasosa, água com sabor de pera e de maçã, mas nada da maldita água sem gás.
Em relação ao segundo ponto (o “faça você mesmo”) a melhor ilustração foi também em um restaurante. Pedi um prato que demorou mais de uma hora e meia para sair. Acontece que ele era muito grande e eu não dei conta de comer, então disse ao garçom que queria embrulhar para comer em casa (odeio desperdiçar comida). Ele então me trouxe uma sacola plástica e um rolo de papel alumínio, colocou na minha mesa e disse: “pode embrulhar!”. Acredite ou não, eu não me surpreendi. Eu já havia notado que na Alemanha é tudo você quem faz: nas lavanderias você lava sua roupa, nas copiadoras você é quem xeroca e imprime, no posto é você quem abastece, no trem é você quem invalida seu bilhete. É por isso que até hoje eu não entendo como é que na universidade eles entregam, no primeiro dia de aula, um calhamaço com todos os textos a serem lidos no semestre. Se fosse para seguir a lógica, cada um deveria pegar o livro na biblioteca e xerocar por conta própria. Mas enfim, eu embrulhei e levei a comida para casa e tive jantar garantido no dia seguinte.
Na Áustria, mais do que na Alemanha, me surpreendeu a quantidade de brasileiros que encontrei pelo caminho. Eles estavam em todo lugar (e à medida que viajei para o leste se tornavam mais frequentes). A virada do ano eu passei em frente à prefeitura, com muitos fogos de artifício e um grande palco armado pela rádio local onde uma banda tocava músicas consagradas desde a década de 1960 até os anos 2000. No calçadão onde ficavam os artistas de rua também havia muitos palcos, cada um tocando um estilo de música diferente. Se você enjoasse, era só mudar de lugar. Duas músicas que marcaram essa viagem foram, sem dúvida, Michel Teló com seu “Ai, se eu te pego” e outra banda com uma tal de “Dança Kuduro”. Na noite da virada passei por um grupinho de pessoas na rua que cantava “ai, se eu te pego” em um português até razoável.
Não vou ficar aqui dando sugestões de lugares interessantes para se visitar em Viena, até porque esse não é um blog turístico e essas informações você pode achar em centenas de milhares de sites na internet. Também não vou ficar me atendo a dados do tipo “população de Viena, história, curiosidades”; para isso criaram a Wikipedia. Só o que me marcou de modo especial foi o parlamento austríaco, que tem algumas estátuas muito bonitas ornamentando sua fachada.
Dia 2 de janeiro foi a vez de seguir em frente. Leste europeu: Eslováquia! Aqui vai mais um motivo pelo qual não fico dando dicas turísticas nesse espaço. Vi na internet uma série de relatos de viagens de brasileiros que já estiveram em Bratislava, capital da Eslováquia. Fui pra lá esperando o pior, pois era assim que descreviam o local: sujo, cheio de pedintes, parado, sem-graça, monótono. Tudo mentira. Foi, de fato, uma das melhores cidades que já conheci na vida! De fato lá é uma cidade pequena para ser capital, mas tem um centro histórico muito bonito, com estátuas excêntricas e uma rota (marcada por pequenas coroas talhadas no chão) que mostra o caminho que os monarcas do Império Austro-Húngaro faziam ao serem coroados. Fora isso, a cidade tem muitas estátuas e memoriais do tempo do comunismo, um grande shopping center, um castelo no ponto mais alto e uma ponte sobre o Danúbio com uma torre, do alto da qual tem-se uma vista panorâmica da cidade. O observatório da torre é no formato de um disco-voador e dizem que é um lugar para se observar OVNIS à noite. As pessoas na cidade também são muito simpáticas e sempre dispostas a ajudar, principalmente a equipe do hostel onde fiquei; isso sem falar que a comida é uma delícia. Enfim, para alguns isso é monótono, para mim foi uma experiência inigualável (no bom sentido).
Na Eslováquia, mais ainda do que na Áustria e na Alemanha, encontrei muitos brasileiros pelo caminho, acredite ou não. Após dois dias em Bratislava segui para Budapeste, na Hungria, onde o número de brasileiros só iria aumentar.
Das três cidades que visitei Budapeste foi, sem dúvida, a mais bonita. Diria até que foi a segunda cidade mais bonita que já vi na vida, perdendo apenas para Ouro Preto por uma pequena diferença (se não fossem aquelas malditas repúblicas estudantis, a diferença seria maior). Nunca me senti tão em casa na Europa como em Budapeste. Talvez porque ela nada mais é do que uma versão macro da FAFICH. Lá tudo é alternativo, tudo é meio underground (quase todos os restaurantes que fui eram em porões), além do fato de que ainda se guardam muitas reminiscências do tempo do comunismo. A cidade é cortada ao meio pelo Danúbio, sendo que de um lado está Buda, e do outro está Peste (até a segunda metade do século XIX eram duas cidades). Os metrôs de Budapeste são os mais antigos da Europa, todos pichados e um pouco capengas, mas isso só fez crescer minha afeição pela cidade.
Os húngaros lutaram dezenas de anos contra o domínio otomano (nos séculos XVI e XVII) e austríaco (no século XIX). Existem várias estátuas exaltando os heróis da luta de libertação contra os muçulmanos. E o mais interessante nessa história toda é que na Hungria você visita o Museu Nacional, aprende o quanto os húngaros sofreram para se livrar do Império Otomano e depois sai do museu e vai jantar um kebab em um dos muitos restaurantes turcos da cidade. Aliás, devemos dar duas vezes graças a Deus (ou a Allah?) pelos turcos na Hungria e na Europa como um todo. Primeiro porque graças a eles existem, em quase toda a Europa, diversos restaurantes de comida turca onde você se enche de tanto comer e paga muito pouco; enfim, para estudantes que viajam com pouco dinheiro e se hospedam em hostéis, é uma alternativa ainda mais viável que o velho McDonalds. Segundo, porque, pelo menos na Hungria, eles deixaram uma importante herança: as casas de banhos termais. Com o frio que faz no inverno esses banhos são uma salvação. O melhor de todos é a piscina de 38 graus: é a temperatura perfeita para você relaxar sem sentir muito calor.
E a propósito, uma coisa que Budapeste me ensinou foi que a melhor forma de se orientar em uma cidade que você não conhece é visitando o museu de história antes de qualquer outro lugar. Lá vi a história dos grandes heróis nacionais cujos nomes foram dados às principais ruas, praças e estações de metrô da cidade. Depois de passar no museu, ficou muito mais fácil decorar os endereços.
Mas nem só os turcos e os austríacos. Os húngaros também tiveram de lutar contra os soviéticos. No museu e em outros pontos da cidade se exalta bastante a resistência dos húngaros diante do domínio comunista, principalmente a revolução de outubro de 1956. Em um memorial em frente ao parlamento há uma placa com a frase de um intelectual com dizeres claramente anticomunistas; algo do tipo “mesmo após a derrocada da URSS, é muito difícil acabar com o comunismo”. Para eles isso até soa normal, e eu compreendo. Os húngaros são assombrados pelo comunismo assim como os alemães pelo nazismo. Mas para alguém que vem de um país governado durante 21 anos por um regime repressor que tinha a incumbência de livrar o país do perigo vermelho, aqueles dizeres na placa soaram meio mórbidos.
Apesar disso, Budapeste é o paraíso dos comunistas de boutique. Pensando bem, acho que os húngaros não são tão assombrados pelo comunismo como os alemães pelo nazismo. Na Hungria eles aprenderam a fazer turismo com isso. Na saída da cidade existe um memorial com várias estátuas do tempo do comunismo: Marx, Engels, Lenin, trabalhadores e soldados olhando para o horizonte são algumas das estátuas mais comuns. Na loja que existe na entrada no memorial vendem-se cartazes de propaganda comunista, quepes militares soviéticos, canecas retrôs com fotos de líderes comunistas além de isqueiros, caixas de fósforo e medalhas com símbolos da URSS. Mas nem tudo é levado a sério. Eu, por exemplo, comprei um cartaz com a foto de Lenin, Mao e Stalin no qual estava escrito “Os três terrores”. Vou levar para pendurar na entrada da FAFICH. Havia também camisas com esses dizeres. Ao lado do memorial ficava uma sala interativa com fotos do tempo do comunismo. Também nessa sala tinha um pequeno cineminha que rodava vídeos de propaganda soviética. O que eu vi era um vídeo dando aulas de espionagem para agentes do serviço secreto.
Outra coisa que me surpreendeu em Budapeste foi que, pela primeira vez desde que saí do Brasil eu almocei em um restaurante self-service a quilo. Achei um restaurante ao lado do Danúbio que fazia parte de uma cadeia de restaurantes self-service (os únicos da cidade; eram de um proprietário norte-americano). Aí mais uma vez eu refleti sobre o “faça você mesmo”: se esses europeus prezam tanto a autossuficiência, podiam disseminar essa ideia de comida a quilo. Já que você xeroca, você imprime, você abastece, você lava a roupa, você embrulha a comida pra levar pra casa, então você que sirva sua própria comida! Nunca vi comida a quilo na Alemanha e sinto muita falta disso.
E assim se passou meu final e começo de ano. Treze dias de viagem, três cidades, três países e sequer meio floco de neve. Esse inverno está me decepcionando. Só fui ver neve no caminho de volta, entre Salzburg e Munique. Agora estou me preocupando em correr atrás do prejuízo: tenho vários trabalhos a entregar em fevereiro e uma prova oral. Além disso, continuo tentando providenciar os livros de historiadores nazistas, já de olho em minha monografia que inicio esse ano (essa foi minha única meta para 2012). Essa semana chega aqui em casa o livro do Walter Frank que encomendei: “Geist und Macht”, e nessa semana mesmo devo encomendar mais outros, inclusive o segundo livro do Hitler (que achei a um preço muito bom).
Desejo a todos um feliz 2012 e agradeço pela atenção!
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Aflições de Augsburg
2003: tudo me remete a esse ano. Tudo aquilo que sou, que deixei de ser, o que quero e o que não quero ser: todas essas perguntas me levam necessariamente a esse ano que permanece como um marco fundador na minha vida. Naquele ano o Brasil ganhava seu primeiro presidente oriundo das classes trabalhadoras, os Estados Unidos se mostravam cada vez mais dispostos a atacar o Iraque, o celular começava a se popularizar e aquele famoso som do ICQ ressoava por todas as internets discadas do país nos fins de semana; naquele ano uma jovem branquela metida a skatista conquistava fãs ao redor do mundo com seu estilo rebelde e sua retórica anti-Britney Spears, ao passo que aqui no Brasil figuras horrendas como Jammil e uma Noites se destacavam no carnaval. Enquanto isso, no interior de Minas Gerais, nascia mais um rebento da geração Kazaa: o então jovem de 15 anos de idade que agora vos fala.
De 2003 em diante minha vida se apegou à internet. Essa ferramenta estranha, que chegara à minha casa há seis anos atrás e cuja finalidade eu então mal podia compreender, se tornava de repente um gênero de primeira necessidade. Para alguém que não tinha muitos amigos, não bebia, não dançava, não saía e sequer conseguia conversar com uma menina, a internet era uma bênção. “Mas e os livros, Marcelo? Você não gostava de ler?”. Não. Meu gosto por livros foi interrompido em 2003 porque foi esse o ano no qual comecei a me preocupar com o vestibular. A partir de então, tomei ojeriza de tudo aquilo que fosse relacionado ao conhecimento, ao saber, à instrução... Justo no ano em que eu mais deveria ler e me informar eu me afastei de tudo isso. E foi justamente nesse momento que a internet me acolheu.
Sendo assim, grande parte do que sou hoje devo a ele: o Kazaa. Quem usou essa valiosa ferramenta para baixar músicas na internet há de se lembrar que ele tinha uma opção de buscar músicas por idiomas. Aquilo para mim era a glória! Uma lista enorme com os mais diversos idiomas à minha disposição: era só escolher uma língua, procurar e baixar qualquer música que viesse. Não importava se a música era rap, pop, rock ou romântica, o mais importante era o idioma. As minhas línguas preferidas eram o turco, o chinês, o árabe e o russo. Enquanto meus dias de semana se resumiam a acumular cada vez mais medo do vestibular, meus finais de semana eram consumidos baixando músicas que ninguém ao meu redor ouvia. No ICQ minha estratégia era semelhante. Até hoje me lembro da menina russa que morava na Síria e estudava literatura japonesa com quem eu conversava frequentemente. Hoje, 8 anos depois, eu vejo que essas experiências não foram de todo insignificantes. Minhas duas estadias no exterior me provaram isso muito bem. Por ter ouvido música de tantos países e em tantos idiomas, e por ter conversado com gente de tanto lugar, hoje, quando encontro alguém de algum país, por mais longínquo que seja, sempre tenho um assunto, algo para comentar: uma banda, um cantor, um ator, um personagem histórico ou político daquele país... E muitos são os que se surpreendem ao ver que um brasileiro conhece um cantor ou o presidente do país dele.
Sim, hoje digo com orgulho que todos aqueles sábados e domingos não foram simplesmente desperdiçados.
Mas minha vida seguiu e o destino me levou para a Malásia. O que foi a Malásia? Até hoje tento compreender. Naquele ano de 2004, porém, eu sabia bem o que ela significava: vitória! O menino que ouvia músicas estranhas em idiomas esquisitos finalmente teria alguém para conversar, visto que estaria em uma terra estranha com um idioma esquisito. Uma terra de maioria islâmica com minorias chinesas e indianas era o palco perfeito para meu triunfo: estava prestes a deixar para trás um país com o qual nunca me identifiquei (até porque pouco o conhecia) para ir a um lugar onde eu me sentiria em casa. Um jovem que queria ser monge budista na infância de fato jamais iria se identificar com um país de micaretas e axés, carnavais e bebedeiras. A Malásia era minha terra prometida. Senti-me retornando à terra natal onde nunca estive.
E eis que deu tudo errado. Os detalhes desse desastre são complexos, contraditórios e caóticos demais para explicar aqui. Nem mesmo em minha cabeça eu consigo formular direito como e porquê essa empreitada se esfacelou em mil pedaços. Diria apenas que chegando lá eu percebi quão ridícula era a ideia de um jovem do interior de Minas, descendente de índios, portugueses, alemães e espanhóis, que nunca tinha saído do seu país, querer encarnar um indiano, malaio ou chinês. Simplesmente não fazia sentido! Nem para mim, nem para eles. Esperei chegar a um país islâmico onde todos se voltavam para Meca cinco vezes ao dia, ouviam música religiosa e conclamavam à jihad contra o grande satã; o que de fato encontrei foram jovens fanáticos por futebol inglês que ouviam Britney Spears e Jennifer Lopez e sequer sabiam a diferença entre um muçulmano sunita e um xiita. Eles esperavam receber um brasileiro bom de bola e bom de papo, que fazia sucesso com as mulheres e estivesse interessado em se divertir; o que encontraram foi um enguiço introvertido que se mostrava muito mais interessado em visitar mesquitas, aprender a recitar o corão e entender o jogo de forças na política malaia do que em comentar o desempenho dos jogadores brasileiros no futebol europeu. E eu, que passei minha infância lendo relatos dos exploradores europeus sobre o choque cultural que sentiam nas terras recém-descobertas, fui aos poucos percebendo que em tempos de Kazaa, ICQ e globalização, o choque cultural é justamente o contrário: o ocidental quer ser como o oriental e vice-versa, e eles continuam não se entendendo (como no tempo dos grandes descobrimentos).
Até então minha vida no Brasil tinha sido uma tentativa constante de forjar para mim mesmo uma identidade cultural que nada tinha a ver comigo: músicas cazaques, vietnamitas e dos mais longínquos confins da Ásia; quando finalmente cheguei aos confins da Ásia, vi quão escabrosas e artificiais eram tais tentativas. Até porque se nem os malaios ouviam música malaia, o que eles pensariam de um brasileiro ouvindo-as?
O resultado disso foi que, após um ano na Malásia, retornei a um país no qual nunca havia estado. Não obstante, aquela mentalidade obsoleta pré-intercâmbio que reverenciava os outros países, as outras culturas e os outros povos permanecia de certa forma bem viva na minha cabeça. Isso me levou a optar pelo curso de Relações Internacionais na hora do vestibular. Claro, né? Ficar um ano exterior fazendo intercâmbio e depois voltar para estudar Relações Internacionais é um dos maiores clichês acadêmicos que já vi. O intercambista volta ao Brasil e opta pelas RI sob a justificativa mequetrefe de querer ajudar as criancinhas da África e salvar as vítimas de minas terrestres no Camboja, pouco se importando com o fato de que no Brasil também há criancinhas que precisam de ajuda.
O curso de Relações Internacionais me se mostrou para mim como um retorno da “era Kazaa” com outras roupagens. Toda aquela alienação, aquele fascínio pelo estrangeiro, por outros países, outras línguas e culturas havia retornado sob um disfarce acadêmico. O curso de Relações Internacionais foi para mim o que a Restauração foi para a Europa pós-napoleônica. Não! Acho que ele se assemelhou mais à revolução de 1830 na França: substituiu uma monarquia por outra de nome e dinastia diferentes, mas que pouco mudou justamente pelo simples fato de continuar sendo uma monarquia.
Na esteira dos acontecimentos, o curso de História foi o responsável por enxotar o Luís Felipe que havia em minha vida. Eu vi na História a oportunidade de abandonar essa mania que sempre tive de me interessar somente por assuntos internacionais. Passara 17 anos de minha vida com a nuca doendo de tanto se inclinar para olhar o que se passava lá fora. Quando me decidi pela História e passei no vestibular, finalmente conquistei a oportunidade de colocar meus pés no chão e olhar ao meu redor.
Mas aí veio a reação. A cavalo, imbatível, veio Luís Bonaparte. Inconformados com essa mudança de rumo, os setores mais conservadores da minha mente começaram a disparar impropérios contra o curso de História. Diziam que ele era viciado, chamaram-no de “curso de uma nota só”. E a partir daí suas exigências e sua ousadia só cresceram. Publicaram um manifesto ridículo intitulado “O homem doente da FAFICH” no qual deixaram claro, entre outras exigências pertinentes, sua aversão ao apego febril que muitos no curso de História da UFMG têm pelo estudo unicamente de questões mineiras. O ápice da reação foi o dia 4 de outubro de 2011: o dia em que parti para meu intercâmbio na Alemanha. A aristocracia ultraconservadora que insistia em não deixar meu cérebro convenceu-me de que era melhor ir para fora – de novo. Me convenceu de que eu devia estudar algo diferente, longe de escravos e mineração, longe de preocupações típicas da “história mesmice”.
Fugir do trinômio quadrado perfeito “escravismo, barroco, minas setecentistas” para estudar um tema como “Primeira Guerra Mundial” é, nos padrões da UFMG, um ato revolucionário. Assim, essa aristocracia internacionalóide, saudosa dos tempos das Relações Internacionais, manobrou seus argumentos de uma forma tal que eles passaram a ser os progressistas! Afinal, não é de praxe estudar apenas história do Brasil na UFMG? Não é revolucionário trazer temas novos relativos à história mundial? “Sendo assim” proclamava a aristocracia saudosa do pré-2004 “inclinem-se para a história do mundo vocês que são revolucionários, pois estudar história do Brasil é ser conservador nos padrões da UFMG!”.
Tinha então uma situação delicada: se eu optasse por dedicar-me à história do Brasil, seria um revolucionário por dentro e um reacionário por fora; se eu me dedicasse a algum tema relativo à história de outros países, seria um reacionário por dentro e um revolucionário por fora. Tentei, por meses e meses a fio, estabelecer uma solução de compromisso entre essas duas tendências que se digladiavam. Algumas duraram muito, outras muito pouco, mas todas fracassaram.
É justamente por essas razões que esse intercâmbio na Alemanha se mostrou como um dos episódios mais decisivos da minha vida. Minhas expectativas antes de vir para cá eram as maiores, bem maiores do que o dobro de todas as expectativas que tinha naquele mês de junho de 2004, antes de embarcar para a Malásia. Servirá esse intercâmbio para reforçar minhas convicções “revolucionárias-por-fora-e-reacionárias-por-dentro”? Ou servirá ele como um catalisador para mais uma revolta “revolucionária-por-dentro-e-reacionária-por-fora”? Não haverá aí caminho para uma conciliação de forças?
O atual estado de coisas sugere que a segunda opção é a mais provável. Temas como Segunda e Primeira Guerra Mundial são bem legais e fascinantes, principalmente para quem estuda História, e eu não sou exceção. Acontece que, estudando temas tão bisonhos como a Primeira Crise do Marrocos sinto-me como alguém chegando atrasado e de mãos vazias a uma festa para a qual não foi convidado. Kaiser, sultão, rei da Inglaterra e ministro francês... Como eu posso me enxergar nessas pessoas? De que maneira elas me dizem respeito? Esses temas me são tão estranhos quanto as músicas curdas, coreanas e mongóis que eu ouvia na minha adolescência.
E mais: que acadêmico europeu sério, em sua sã consciência, daria crédito a um pesquisador brasileiro que se mete a estudar um tema assim, tão alheio à história do Brasil? Quem na Europa quer ouvir o que um brasileiro tem a dizer acerca da Primeira Guerra Mundial (a menos, é claro, que seja algo relacionado à participação do Brasil no conflito – o que particularmente nunca me interessou), quanto mais da Crise do Marrocos? Isso sem contar que ao longo da minha pesquisa fui percebendo que muito, mas muito já foi publicado a respeito desses eventos. Tanto já se falou e se escreveu sobre isso que me vejo incapaz de dar contribuições mais significativas ao assunto. Quero estudar um tema no qual eu possa descobrir coisas novas, falar coisas que ninguém nunca antes falou... E não seguir caminhos já traçados milhares de vezes.
Sim, é assim que vejo a atual situação: a “reação-para-dentro-e-revolução-para-fora” está novamente perdendo espaço para a “reação-para-fora-e-revolução-para-dentro”. Isso me deixa feliz. Caso escolha trabalhar com um tema ligado à história do Brasil, finalmente poderei dizer com orgulho que, enfim, sepultei a “era Kazaa”.
Ao longo de minhas visitas à biblioteca da universidade um tema em especial atraiu minha atenção: a historiografia nazista. Não me refiro à historiografia sobre o período nazista, mas sim à historiografia que o regime nazista engendrou: quem eram e o que pensavam os historiadores que defendiam o regime nacional-socialista, qual era a visão de História que eles tinham e de que forma eles refutavam as duas visões de mundo predominantes até então – a doutrina comunista e o capitalismo. Esse é o tema que mais tem me atraído para uma possível pesquisa. Acho fantástico estudar as tentativas ao longo da história de se achar outro caminho, outra via possível ao comunismo e ao capitalismo, aos EUA e à URSS. No “Mein Kampf” Hitler deixa claro à exaustão o quanto despreza o comunismo e o capitalismo, e como os considera duas forças que, longe de se oporem, se aproximam.
Mas não apenas estudar a historiografia nazista, pois isso seria perpetuar a “era Kazaa”. Acho pertinente fazer um estudo comparado com a historiografia integralista no que tange ao teor anticomunista e anticapitalista das obras. Integralistas como Plínio Salgado e Gustavo Barroso têm obras sobre a história do Brasil sobre as quais nunca tinha ouvido falar e que parecem bem interessantes como objeto de estudo, principalmente se comparadas com a historiografia nazista. O fascínio que o nazismo despertou em muitos brasileiros como sendo uma alternativa viável ao comunismo subversivo e ao capitalismo imperialista é um objeto de análise que me agrada. Encontrei, na biblioteca da universidade de Augsburg, livros do “Reichsinstitut für Geschichte des neuen Deutschlands”, uma instituição criada pelo regime nazista para formular uma visão da História compatível com a nova ideologia. Seu grande mentor, Walter Frank, possui várias obras (já descobri 10 de seus livros no Bundesarchiv em Berlim) com tal intento. Os livros do “Reichsinstitut” foram escritos por diversos intelectuais aliados ao regime e tratam muito mais do antissemitismo do que do anticapitalismo ou anticomunismo. Vez ou outra, porém, eles sempre exploram o fato de Karl Marx ser judeu e a aparente inclinação desse povo ao comércio. Assim, minha hipótese é a de que na raiz do anticomunismo e anticapitalismo da historiografia nazista estava o antissemitismo, ao passo que na historiografia integralista as duas primeiras ideias eram mais fortes do que a última.
Creio, portanto, que o historiador deve se enxergar em seu objeto. Temas como o imperialismo alemão não permitem que eu me enxergue neles (e só fui perceber isso após já ter dado início às minhas pesquisas). O grande desafio que me aguarda agora, portanto, é de uma natureza especial: como fuçar no passado de um país justamente na parte que ele mais quer esquecer. Recentemente encomendei, em um sebo virtual, um livro de Walter Frank; deve chegar essa semana.
Claro, é uma oportunidade única estudar História e vir para a Europa fazer intercâmbio, ter aulas sobre nazismo, imperialismo germânico e Primeira Guerra Mundial. Não nego de forma alguma que tudo isso tem contribuído muito para minha formação. Mas olho com ceticismo para esse continente. Os jornais daqui estampam com cada vez mais frequência a crise do euro, o drama da Grécia, os dilemas de Portugal... Todo mundo aqui se amarrou um ao outro de tal forma que se um cair no abismo leva todos os outros junto. Não me vejo vindo para cá novamente nem mesmo em um futuro próximo. O fardo do homem branco se tornou tão pesado que até mesmo os homens de cor que habitam os trópicos estão ensaiando voos mais altos do que ele. As previsões para 2020 valorizam a China, a Índia, o Brasil, e não a França, a Inglaterra ou a Alemanha. Um dia, quando eu for bem idoso, vou contar para meus alunos que em 2011 viajei para a Europa para estudar um semestre e eles vão me olhar com assombro perguntando “2011? Justo na época da crise? Justo na época em que o Brasil começava a ultrapassar as nações europeias nos indicadores econômicos? Seria melhor ter ficado aqui mesmo!”. E eu não saberei responder a essa pergunta senão com um breve sorriso...
Aflições acadêmicas – e econômicas – à parte, aqui tudo vai bem. Fiz minha primeira prova no começo de dezembro, da matéria sobre imperialismo e colonialismo alemão. Recebi a nota esses dias. Tirei 2,7 em uma escala que vai de 1 até 6 (ou 7, não me lembro), sendo 1 a melhor nota possível. Fiquei impressionado comigo mesmo, mas acho que o professor me deu uma mãozinha salvadora também! Obviamente ele não corrigiu erros de ortografia (como ele mesmo já havia me dito).
Na minha última semana de aula resolvi faltar à aula de alemão para viajar. Fui para Dortmund, cidade no noroeste da Alemanha, sozinho. E não me venha de novo com essa história de “Marcelo, você não tem amigos?!” porque viagens para mim são sagradas! Jamais cancelaria uma viagem a um lugar que eu realmente queira conhecer por falta de companhia. Caso você esteja prestes a viajar para o exterior, carregue esse ensinamento: nunca fique dependendo de terceiros para viajar quando estiver em outro país. Um final de semana um não pode, no feriado o outro não pode, nas férias o outro já tem plano... Aí você vai adiando sua viagem até o momento em que você olha no calendário e descobre que na semana que vem é seu voo de volta – e você não viajou nada!
Não conheci quase nada de Dortmund, fiquei apenas hospedado por lá. Visitei cidades ao redor: Emmerich (uma cidadezinha à beira do rio Reno perto da fronteira com a Holanda), Wuppertal (onde me encontrei com um amigo) e Utrecht, na Holanda. De fato, a última foi a que mais me fascinou. Devo confessar que minha viagem para Utrecht foi uma das coisas mais mal planejadas que já fiz na vida. Simplesmente fui, sem saber de qualquer ponto turístico, atração ou coisas para se fazer por lá. Só o que sabia era que lá havia sido assinado um tratado no século XVIII que tinha, entre suas cláusulas, acertos de fronteiras entre a América Portuguesa e a América Espanhola (acho que foi isso que me motivou a visita-la).
Até agora me desconcerto ao falar da Holanda. Não sei bem o que dizer, como explicar... Precisaria passar um ano lá para poder formular opiniões inteiras sobre aquele país. De momento digo apenas que me surpreendi com a variedade cultural que se nota nas ruas e em todos os lugares (pelo menos em Utrecht): negros, chineses, judeus, muçulmanos, indianos – todos eles falando holandês e se sentindo em casa. A cada rosto não-europeu que eu via me lembrava do passado colonial holandês, suas conquistas, suas posses nos mais remotos cantos da terra, desde a Indonésia até o Suriname – e tentava descobrir de qual ex-colônia cada rosto vinha (típico exercício de um estudante de História que está sozinho em uma terra estranha sem ter o que fazer). Logo que saí da estação fui abordado por um jovem negro mais ou menos da minha idade. Foi aí que me dei conta de uma coisa para a qual eu nunca tinha atentado: eu não falo sequer uma palavra em holandês. Nem um “bom dia”, um “obrigado”, um “com licença”, nada... Fiquei meio bobo e depois disse a ele, em inglês, que eu não falava holandês. Ele então me perguntou em inglês se eu era de lá e eu disse que não, que era estrangeiro fazendo intercâmbio na Alemanha. Ele então sorriu e me disse “ok, então eu não vou te perturbar!”. Quando ele falou holandês a única palavra que pude entender foi “Greenpeace”. Acredito então que era algum ativista tentando recrutar membros para a causa. Nesse momento me lembrei das tumultuadas eleições do DCE na UFMG e dos corredores lotados com pessoas distribuindo panfletos de suas chapas. Parece que é minha sina!
A cidade de Utrecht parece duas em uma só: de um lado Ouro Preto, de outro Belo Horizonte. A parte histórica da cidade tem canais, ruas estreitas, casinhas pequenas e várias pessoas andando de bicicleta. A parte mais moderna tem prédios, lojas, trânsito intenso e mais pessoas andando de bicicleta – sem falar, é claro, naquela famosa rua com umas vitrines de luzes vermelhas que todo mundo já sabe o que é só de olhar de longe. Fiquei mais tempo no centro histórico, andei sem rumo durante muito tempo e passei até pelo arquivo histórico da cidade. Me arrependo de não ter entrado, pelo menos quem sabe para procurar o Tratado de Utrecht em sua versão original. À noite voltei para a estação e após uma longa viagem cheguei a Dortmund.
Meu tutor gentilmente convidou-me para passar o Natal na casa dele em Meitingen, uma cidadezinha perto de Augsburg. À tarde fomos à casa de sua avó, comemos biscoitos e tomamos chá. Conversei bastante com o primo e com a prima dela, ambos muito simpáticos. Presenteei a vó dele com um presépio de louça que eu havia comprado no dia anterior. Ela ficou muito feliz, acendeu as suas duas velas e logo o colocou para decorar a casa. O problema é que as velas esquentaram demais e de repente a estrela que ficava no alto do presépio simplesmente quebrou! Ela logo apagou a vela e disse que mais tarde iria colar. Essa situação deveria ter me deixado sem jeito, mas surpreendentemente não deixou. Mais tarde fomos à missa e depois fui para a casa do meu tutor. Lá comemoramos só ele, eu e a mãe dele. Eles não são muito animados com Natal, por isso fizeram uma ceia simples: batata cozida e linguiças fritas. Enquanto esperávamos a refeição, conversei com ele (o nome dele é David) sobre seus planos após se formar. Ele disse que quer ser professor de Inglês e História em alguma escola (atualmente está estudando para concurso em escolas do Estado). Perguntei sobre a possibilidade de seguir a carreira acadêmica e ele me disse que não, pois várias coisas na universidade eram, para ele, sem sentido. Pedi um exemplo e ele me falou que os textos de Pedagogia eram estúpidos, pois tratavam de temas óbvios como por exemplo “a sala de aula é um lugar heterogêneo, tem homens e mulheres, cada um com sua personalidade”... Enfim, coisas que todo mundo sabe e que, caso não saiba, irá aprender em apenas um dia de experiência. Disse ainda que em um dia do seu estágio com crianças de uma escola ele aprende muito mais que em um semestre todo na universidade. Percebi, com isso, semelhanças valiosas entre as queixas dele e a de muitos de meus colegas na UFMG. Após comermos ficamos os três sem ter o que fazer. Jogamos então um jogo de tabuleiro e depois o David me mostrou fotos de seu intercâmbio em Birmingham, na Inglaterra. Voltei pra casa antes das 22h.
Não reclamei: apesar de não ter tido uma ceia farta, com trocas de presentes e perto dos familiares, consegui o que mais queria, que era não passar o Natal sozinho. Nessa terça pela manhã viajo para Viena, na Áustria, onde passarei o Ano Novo, depois para Bratislava (na Eslováquia) e depois para Budapeste (na Hungria). Desejo a todos um feliz ano novo e agradeço/admiro a paciência de quem conseguiu ler até aqui! Peço desculpas pelo teor excessivamente subjetivo na primeira metade do texto, mas são reflexões que tenho feito com muita frequência nos últimos dias. Tratei de temas bem delicados os quais não devem ter ficado muito claros. Aceito, porém, críticas e sugestões a respeito.
De 2003 em diante minha vida se apegou à internet. Essa ferramenta estranha, que chegara à minha casa há seis anos atrás e cuja finalidade eu então mal podia compreender, se tornava de repente um gênero de primeira necessidade. Para alguém que não tinha muitos amigos, não bebia, não dançava, não saía e sequer conseguia conversar com uma menina, a internet era uma bênção. “Mas e os livros, Marcelo? Você não gostava de ler?”. Não. Meu gosto por livros foi interrompido em 2003 porque foi esse o ano no qual comecei a me preocupar com o vestibular. A partir de então, tomei ojeriza de tudo aquilo que fosse relacionado ao conhecimento, ao saber, à instrução... Justo no ano em que eu mais deveria ler e me informar eu me afastei de tudo isso. E foi justamente nesse momento que a internet me acolheu.
Sendo assim, grande parte do que sou hoje devo a ele: o Kazaa. Quem usou essa valiosa ferramenta para baixar músicas na internet há de se lembrar que ele tinha uma opção de buscar músicas por idiomas. Aquilo para mim era a glória! Uma lista enorme com os mais diversos idiomas à minha disposição: era só escolher uma língua, procurar e baixar qualquer música que viesse. Não importava se a música era rap, pop, rock ou romântica, o mais importante era o idioma. As minhas línguas preferidas eram o turco, o chinês, o árabe e o russo. Enquanto meus dias de semana se resumiam a acumular cada vez mais medo do vestibular, meus finais de semana eram consumidos baixando músicas que ninguém ao meu redor ouvia. No ICQ minha estratégia era semelhante. Até hoje me lembro da menina russa que morava na Síria e estudava literatura japonesa com quem eu conversava frequentemente. Hoje, 8 anos depois, eu vejo que essas experiências não foram de todo insignificantes. Minhas duas estadias no exterior me provaram isso muito bem. Por ter ouvido música de tantos países e em tantos idiomas, e por ter conversado com gente de tanto lugar, hoje, quando encontro alguém de algum país, por mais longínquo que seja, sempre tenho um assunto, algo para comentar: uma banda, um cantor, um ator, um personagem histórico ou político daquele país... E muitos são os que se surpreendem ao ver que um brasileiro conhece um cantor ou o presidente do país dele.
Sim, hoje digo com orgulho que todos aqueles sábados e domingos não foram simplesmente desperdiçados.
Mas minha vida seguiu e o destino me levou para a Malásia. O que foi a Malásia? Até hoje tento compreender. Naquele ano de 2004, porém, eu sabia bem o que ela significava: vitória! O menino que ouvia músicas estranhas em idiomas esquisitos finalmente teria alguém para conversar, visto que estaria em uma terra estranha com um idioma esquisito. Uma terra de maioria islâmica com minorias chinesas e indianas era o palco perfeito para meu triunfo: estava prestes a deixar para trás um país com o qual nunca me identifiquei (até porque pouco o conhecia) para ir a um lugar onde eu me sentiria em casa. Um jovem que queria ser monge budista na infância de fato jamais iria se identificar com um país de micaretas e axés, carnavais e bebedeiras. A Malásia era minha terra prometida. Senti-me retornando à terra natal onde nunca estive.
E eis que deu tudo errado. Os detalhes desse desastre são complexos, contraditórios e caóticos demais para explicar aqui. Nem mesmo em minha cabeça eu consigo formular direito como e porquê essa empreitada se esfacelou em mil pedaços. Diria apenas que chegando lá eu percebi quão ridícula era a ideia de um jovem do interior de Minas, descendente de índios, portugueses, alemães e espanhóis, que nunca tinha saído do seu país, querer encarnar um indiano, malaio ou chinês. Simplesmente não fazia sentido! Nem para mim, nem para eles. Esperei chegar a um país islâmico onde todos se voltavam para Meca cinco vezes ao dia, ouviam música religiosa e conclamavam à jihad contra o grande satã; o que de fato encontrei foram jovens fanáticos por futebol inglês que ouviam Britney Spears e Jennifer Lopez e sequer sabiam a diferença entre um muçulmano sunita e um xiita. Eles esperavam receber um brasileiro bom de bola e bom de papo, que fazia sucesso com as mulheres e estivesse interessado em se divertir; o que encontraram foi um enguiço introvertido que se mostrava muito mais interessado em visitar mesquitas, aprender a recitar o corão e entender o jogo de forças na política malaia do que em comentar o desempenho dos jogadores brasileiros no futebol europeu. E eu, que passei minha infância lendo relatos dos exploradores europeus sobre o choque cultural que sentiam nas terras recém-descobertas, fui aos poucos percebendo que em tempos de Kazaa, ICQ e globalização, o choque cultural é justamente o contrário: o ocidental quer ser como o oriental e vice-versa, e eles continuam não se entendendo (como no tempo dos grandes descobrimentos).
Até então minha vida no Brasil tinha sido uma tentativa constante de forjar para mim mesmo uma identidade cultural que nada tinha a ver comigo: músicas cazaques, vietnamitas e dos mais longínquos confins da Ásia; quando finalmente cheguei aos confins da Ásia, vi quão escabrosas e artificiais eram tais tentativas. Até porque se nem os malaios ouviam música malaia, o que eles pensariam de um brasileiro ouvindo-as?
O resultado disso foi que, após um ano na Malásia, retornei a um país no qual nunca havia estado. Não obstante, aquela mentalidade obsoleta pré-intercâmbio que reverenciava os outros países, as outras culturas e os outros povos permanecia de certa forma bem viva na minha cabeça. Isso me levou a optar pelo curso de Relações Internacionais na hora do vestibular. Claro, né? Ficar um ano exterior fazendo intercâmbio e depois voltar para estudar Relações Internacionais é um dos maiores clichês acadêmicos que já vi. O intercambista volta ao Brasil e opta pelas RI sob a justificativa mequetrefe de querer ajudar as criancinhas da África e salvar as vítimas de minas terrestres no Camboja, pouco se importando com o fato de que no Brasil também há criancinhas que precisam de ajuda.
O curso de Relações Internacionais me se mostrou para mim como um retorno da “era Kazaa” com outras roupagens. Toda aquela alienação, aquele fascínio pelo estrangeiro, por outros países, outras línguas e culturas havia retornado sob um disfarce acadêmico. O curso de Relações Internacionais foi para mim o que a Restauração foi para a Europa pós-napoleônica. Não! Acho que ele se assemelhou mais à revolução de 1830 na França: substituiu uma monarquia por outra de nome e dinastia diferentes, mas que pouco mudou justamente pelo simples fato de continuar sendo uma monarquia.
Na esteira dos acontecimentos, o curso de História foi o responsável por enxotar o Luís Felipe que havia em minha vida. Eu vi na História a oportunidade de abandonar essa mania que sempre tive de me interessar somente por assuntos internacionais. Passara 17 anos de minha vida com a nuca doendo de tanto se inclinar para olhar o que se passava lá fora. Quando me decidi pela História e passei no vestibular, finalmente conquistei a oportunidade de colocar meus pés no chão e olhar ao meu redor.
Mas aí veio a reação. A cavalo, imbatível, veio Luís Bonaparte. Inconformados com essa mudança de rumo, os setores mais conservadores da minha mente começaram a disparar impropérios contra o curso de História. Diziam que ele era viciado, chamaram-no de “curso de uma nota só”. E a partir daí suas exigências e sua ousadia só cresceram. Publicaram um manifesto ridículo intitulado “O homem doente da FAFICH” no qual deixaram claro, entre outras exigências pertinentes, sua aversão ao apego febril que muitos no curso de História da UFMG têm pelo estudo unicamente de questões mineiras. O ápice da reação foi o dia 4 de outubro de 2011: o dia em que parti para meu intercâmbio na Alemanha. A aristocracia ultraconservadora que insistia em não deixar meu cérebro convenceu-me de que era melhor ir para fora – de novo. Me convenceu de que eu devia estudar algo diferente, longe de escravos e mineração, longe de preocupações típicas da “história mesmice”.
Fugir do trinômio quadrado perfeito “escravismo, barroco, minas setecentistas” para estudar um tema como “Primeira Guerra Mundial” é, nos padrões da UFMG, um ato revolucionário. Assim, essa aristocracia internacionalóide, saudosa dos tempos das Relações Internacionais, manobrou seus argumentos de uma forma tal que eles passaram a ser os progressistas! Afinal, não é de praxe estudar apenas história do Brasil na UFMG? Não é revolucionário trazer temas novos relativos à história mundial? “Sendo assim” proclamava a aristocracia saudosa do pré-2004 “inclinem-se para a história do mundo vocês que são revolucionários, pois estudar história do Brasil é ser conservador nos padrões da UFMG!”.
Tinha então uma situação delicada: se eu optasse por dedicar-me à história do Brasil, seria um revolucionário por dentro e um reacionário por fora; se eu me dedicasse a algum tema relativo à história de outros países, seria um reacionário por dentro e um revolucionário por fora. Tentei, por meses e meses a fio, estabelecer uma solução de compromisso entre essas duas tendências que se digladiavam. Algumas duraram muito, outras muito pouco, mas todas fracassaram.
É justamente por essas razões que esse intercâmbio na Alemanha se mostrou como um dos episódios mais decisivos da minha vida. Minhas expectativas antes de vir para cá eram as maiores, bem maiores do que o dobro de todas as expectativas que tinha naquele mês de junho de 2004, antes de embarcar para a Malásia. Servirá esse intercâmbio para reforçar minhas convicções “revolucionárias-por-fora-e-reacionárias-por-dentro”? Ou servirá ele como um catalisador para mais uma revolta “revolucionária-por-dentro-e-reacionária-por-fora”? Não haverá aí caminho para uma conciliação de forças?
O atual estado de coisas sugere que a segunda opção é a mais provável. Temas como Segunda e Primeira Guerra Mundial são bem legais e fascinantes, principalmente para quem estuda História, e eu não sou exceção. Acontece que, estudando temas tão bisonhos como a Primeira Crise do Marrocos sinto-me como alguém chegando atrasado e de mãos vazias a uma festa para a qual não foi convidado. Kaiser, sultão, rei da Inglaterra e ministro francês... Como eu posso me enxergar nessas pessoas? De que maneira elas me dizem respeito? Esses temas me são tão estranhos quanto as músicas curdas, coreanas e mongóis que eu ouvia na minha adolescência.
E mais: que acadêmico europeu sério, em sua sã consciência, daria crédito a um pesquisador brasileiro que se mete a estudar um tema assim, tão alheio à história do Brasil? Quem na Europa quer ouvir o que um brasileiro tem a dizer acerca da Primeira Guerra Mundial (a menos, é claro, que seja algo relacionado à participação do Brasil no conflito – o que particularmente nunca me interessou), quanto mais da Crise do Marrocos? Isso sem contar que ao longo da minha pesquisa fui percebendo que muito, mas muito já foi publicado a respeito desses eventos. Tanto já se falou e se escreveu sobre isso que me vejo incapaz de dar contribuições mais significativas ao assunto. Quero estudar um tema no qual eu possa descobrir coisas novas, falar coisas que ninguém nunca antes falou... E não seguir caminhos já traçados milhares de vezes.
Sim, é assim que vejo a atual situação: a “reação-para-dentro-e-revolução-para-fora” está novamente perdendo espaço para a “reação-para-fora-e-revolução-para-dentro”. Isso me deixa feliz. Caso escolha trabalhar com um tema ligado à história do Brasil, finalmente poderei dizer com orgulho que, enfim, sepultei a “era Kazaa”.
Ao longo de minhas visitas à biblioteca da universidade um tema em especial atraiu minha atenção: a historiografia nazista. Não me refiro à historiografia sobre o período nazista, mas sim à historiografia que o regime nazista engendrou: quem eram e o que pensavam os historiadores que defendiam o regime nacional-socialista, qual era a visão de História que eles tinham e de que forma eles refutavam as duas visões de mundo predominantes até então – a doutrina comunista e o capitalismo. Esse é o tema que mais tem me atraído para uma possível pesquisa. Acho fantástico estudar as tentativas ao longo da história de se achar outro caminho, outra via possível ao comunismo e ao capitalismo, aos EUA e à URSS. No “Mein Kampf” Hitler deixa claro à exaustão o quanto despreza o comunismo e o capitalismo, e como os considera duas forças que, longe de se oporem, se aproximam.
Mas não apenas estudar a historiografia nazista, pois isso seria perpetuar a “era Kazaa”. Acho pertinente fazer um estudo comparado com a historiografia integralista no que tange ao teor anticomunista e anticapitalista das obras. Integralistas como Plínio Salgado e Gustavo Barroso têm obras sobre a história do Brasil sobre as quais nunca tinha ouvido falar e que parecem bem interessantes como objeto de estudo, principalmente se comparadas com a historiografia nazista. O fascínio que o nazismo despertou em muitos brasileiros como sendo uma alternativa viável ao comunismo subversivo e ao capitalismo imperialista é um objeto de análise que me agrada. Encontrei, na biblioteca da universidade de Augsburg, livros do “Reichsinstitut für Geschichte des neuen Deutschlands”, uma instituição criada pelo regime nazista para formular uma visão da História compatível com a nova ideologia. Seu grande mentor, Walter Frank, possui várias obras (já descobri 10 de seus livros no Bundesarchiv em Berlim) com tal intento. Os livros do “Reichsinstitut” foram escritos por diversos intelectuais aliados ao regime e tratam muito mais do antissemitismo do que do anticapitalismo ou anticomunismo. Vez ou outra, porém, eles sempre exploram o fato de Karl Marx ser judeu e a aparente inclinação desse povo ao comércio. Assim, minha hipótese é a de que na raiz do anticomunismo e anticapitalismo da historiografia nazista estava o antissemitismo, ao passo que na historiografia integralista as duas primeiras ideias eram mais fortes do que a última.
Creio, portanto, que o historiador deve se enxergar em seu objeto. Temas como o imperialismo alemão não permitem que eu me enxergue neles (e só fui perceber isso após já ter dado início às minhas pesquisas). O grande desafio que me aguarda agora, portanto, é de uma natureza especial: como fuçar no passado de um país justamente na parte que ele mais quer esquecer. Recentemente encomendei, em um sebo virtual, um livro de Walter Frank; deve chegar essa semana.
Claro, é uma oportunidade única estudar História e vir para a Europa fazer intercâmbio, ter aulas sobre nazismo, imperialismo germânico e Primeira Guerra Mundial. Não nego de forma alguma que tudo isso tem contribuído muito para minha formação. Mas olho com ceticismo para esse continente. Os jornais daqui estampam com cada vez mais frequência a crise do euro, o drama da Grécia, os dilemas de Portugal... Todo mundo aqui se amarrou um ao outro de tal forma que se um cair no abismo leva todos os outros junto. Não me vejo vindo para cá novamente nem mesmo em um futuro próximo. O fardo do homem branco se tornou tão pesado que até mesmo os homens de cor que habitam os trópicos estão ensaiando voos mais altos do que ele. As previsões para 2020 valorizam a China, a Índia, o Brasil, e não a França, a Inglaterra ou a Alemanha. Um dia, quando eu for bem idoso, vou contar para meus alunos que em 2011 viajei para a Europa para estudar um semestre e eles vão me olhar com assombro perguntando “2011? Justo na época da crise? Justo na época em que o Brasil começava a ultrapassar as nações europeias nos indicadores econômicos? Seria melhor ter ficado aqui mesmo!”. E eu não saberei responder a essa pergunta senão com um breve sorriso...
Aflições acadêmicas – e econômicas – à parte, aqui tudo vai bem. Fiz minha primeira prova no começo de dezembro, da matéria sobre imperialismo e colonialismo alemão. Recebi a nota esses dias. Tirei 2,7 em uma escala que vai de 1 até 6 (ou 7, não me lembro), sendo 1 a melhor nota possível. Fiquei impressionado comigo mesmo, mas acho que o professor me deu uma mãozinha salvadora também! Obviamente ele não corrigiu erros de ortografia (como ele mesmo já havia me dito).
Na minha última semana de aula resolvi faltar à aula de alemão para viajar. Fui para Dortmund, cidade no noroeste da Alemanha, sozinho. E não me venha de novo com essa história de “Marcelo, você não tem amigos?!” porque viagens para mim são sagradas! Jamais cancelaria uma viagem a um lugar que eu realmente queira conhecer por falta de companhia. Caso você esteja prestes a viajar para o exterior, carregue esse ensinamento: nunca fique dependendo de terceiros para viajar quando estiver em outro país. Um final de semana um não pode, no feriado o outro não pode, nas férias o outro já tem plano... Aí você vai adiando sua viagem até o momento em que você olha no calendário e descobre que na semana que vem é seu voo de volta – e você não viajou nada!
Não conheci quase nada de Dortmund, fiquei apenas hospedado por lá. Visitei cidades ao redor: Emmerich (uma cidadezinha à beira do rio Reno perto da fronteira com a Holanda), Wuppertal (onde me encontrei com um amigo) e Utrecht, na Holanda. De fato, a última foi a que mais me fascinou. Devo confessar que minha viagem para Utrecht foi uma das coisas mais mal planejadas que já fiz na vida. Simplesmente fui, sem saber de qualquer ponto turístico, atração ou coisas para se fazer por lá. Só o que sabia era que lá havia sido assinado um tratado no século XVIII que tinha, entre suas cláusulas, acertos de fronteiras entre a América Portuguesa e a América Espanhola (acho que foi isso que me motivou a visita-la).
Até agora me desconcerto ao falar da Holanda. Não sei bem o que dizer, como explicar... Precisaria passar um ano lá para poder formular opiniões inteiras sobre aquele país. De momento digo apenas que me surpreendi com a variedade cultural que se nota nas ruas e em todos os lugares (pelo menos em Utrecht): negros, chineses, judeus, muçulmanos, indianos – todos eles falando holandês e se sentindo em casa. A cada rosto não-europeu que eu via me lembrava do passado colonial holandês, suas conquistas, suas posses nos mais remotos cantos da terra, desde a Indonésia até o Suriname – e tentava descobrir de qual ex-colônia cada rosto vinha (típico exercício de um estudante de História que está sozinho em uma terra estranha sem ter o que fazer). Logo que saí da estação fui abordado por um jovem negro mais ou menos da minha idade. Foi aí que me dei conta de uma coisa para a qual eu nunca tinha atentado: eu não falo sequer uma palavra em holandês. Nem um “bom dia”, um “obrigado”, um “com licença”, nada... Fiquei meio bobo e depois disse a ele, em inglês, que eu não falava holandês. Ele então me perguntou em inglês se eu era de lá e eu disse que não, que era estrangeiro fazendo intercâmbio na Alemanha. Ele então sorriu e me disse “ok, então eu não vou te perturbar!”. Quando ele falou holandês a única palavra que pude entender foi “Greenpeace”. Acredito então que era algum ativista tentando recrutar membros para a causa. Nesse momento me lembrei das tumultuadas eleições do DCE na UFMG e dos corredores lotados com pessoas distribuindo panfletos de suas chapas. Parece que é minha sina!
A cidade de Utrecht parece duas em uma só: de um lado Ouro Preto, de outro Belo Horizonte. A parte histórica da cidade tem canais, ruas estreitas, casinhas pequenas e várias pessoas andando de bicicleta. A parte mais moderna tem prédios, lojas, trânsito intenso e mais pessoas andando de bicicleta – sem falar, é claro, naquela famosa rua com umas vitrines de luzes vermelhas que todo mundo já sabe o que é só de olhar de longe. Fiquei mais tempo no centro histórico, andei sem rumo durante muito tempo e passei até pelo arquivo histórico da cidade. Me arrependo de não ter entrado, pelo menos quem sabe para procurar o Tratado de Utrecht em sua versão original. À noite voltei para a estação e após uma longa viagem cheguei a Dortmund.
Meu tutor gentilmente convidou-me para passar o Natal na casa dele em Meitingen, uma cidadezinha perto de Augsburg. À tarde fomos à casa de sua avó, comemos biscoitos e tomamos chá. Conversei bastante com o primo e com a prima dela, ambos muito simpáticos. Presenteei a vó dele com um presépio de louça que eu havia comprado no dia anterior. Ela ficou muito feliz, acendeu as suas duas velas e logo o colocou para decorar a casa. O problema é que as velas esquentaram demais e de repente a estrela que ficava no alto do presépio simplesmente quebrou! Ela logo apagou a vela e disse que mais tarde iria colar. Essa situação deveria ter me deixado sem jeito, mas surpreendentemente não deixou. Mais tarde fomos à missa e depois fui para a casa do meu tutor. Lá comemoramos só ele, eu e a mãe dele. Eles não são muito animados com Natal, por isso fizeram uma ceia simples: batata cozida e linguiças fritas. Enquanto esperávamos a refeição, conversei com ele (o nome dele é David) sobre seus planos após se formar. Ele disse que quer ser professor de Inglês e História em alguma escola (atualmente está estudando para concurso em escolas do Estado). Perguntei sobre a possibilidade de seguir a carreira acadêmica e ele me disse que não, pois várias coisas na universidade eram, para ele, sem sentido. Pedi um exemplo e ele me falou que os textos de Pedagogia eram estúpidos, pois tratavam de temas óbvios como por exemplo “a sala de aula é um lugar heterogêneo, tem homens e mulheres, cada um com sua personalidade”... Enfim, coisas que todo mundo sabe e que, caso não saiba, irá aprender em apenas um dia de experiência. Disse ainda que em um dia do seu estágio com crianças de uma escola ele aprende muito mais que em um semestre todo na universidade. Percebi, com isso, semelhanças valiosas entre as queixas dele e a de muitos de meus colegas na UFMG. Após comermos ficamos os três sem ter o que fazer. Jogamos então um jogo de tabuleiro e depois o David me mostrou fotos de seu intercâmbio em Birmingham, na Inglaterra. Voltei pra casa antes das 22h.
Não reclamei: apesar de não ter tido uma ceia farta, com trocas de presentes e perto dos familiares, consegui o que mais queria, que era não passar o Natal sozinho. Nessa terça pela manhã viajo para Viena, na Áustria, onde passarei o Ano Novo, depois para Bratislava (na Eslováquia) e depois para Budapeste (na Hungria). Desejo a todos um feliz ano novo e agradeço/admiro a paciência de quem conseguiu ler até aqui! Peço desculpas pelo teor excessivamente subjetivo na primeira metade do texto, mas são reflexões que tenho feito com muita frequência nos últimos dias. Tratei de temas bem delicados os quais não devem ter ficado muito claros. Aceito, porém, críticas e sugestões a respeito.
sábado, 26 de novembro de 2011
Confissões de Augsburg - o retorno II
Segunda-feira era o dia D para mim: iria fazer minha primeira apresentação na universidade! Nada de muito grave: era para a matéria de "Textos-chave para o período 1830-1930". Tinha que fazer uma breve apresentação de apenas 5 minutos sobre a vida de Karl Marx. Em geral os professores daqui pedem para a gente entregar um roteiro resumindo tudo o que vamos falar na apresentação oral. Assim, procurei na biblioteca algumas biografias de Karl Marx e comecei a fazer algumas anotações. Peguei as duas mais curtas que achei (uma delas do Isaiah Berlin), pois para uma apresentação de apenas 5 minutos não podia ficar me perdendo em detalhes. Li apenas o começo de cada uma delas e complementei as informações com dois textos que achei no site marxists.org. Montei um pequeno roteiro e enviei ao meu tutor para que ele pudesse corrigir os erros gramaticais. Na hora da apresentação deu tudo certo e aquilo que eu mais temia não aconteceu: ninguém me fez perguntas. Acho que a turma se compadeceu de mim... Depois de minha apresentação discutimos o Manifesto e ao fim da aula o professor disse que eu tinha ido muito bem e aquilo me deixou aliviado.
E como é a universidade daqui? Só posso dizer baseado no prédio que eu frequento, que é a Faculdade de Filologia e História. Pra começar, é um lugar bem diferente da FAFICH em certos aspectos, mas bem parecido em outros. É diferente porque lá dentro ninguém fuma - é proibido, uma vez que o lugar é todo fechado. Além disso, têm vários corredores cobertos por carpetes onde muitas pessoas costumam se sentar para estudar ou apenas conversar. Têm várias mesas e cadeiras espalhadas pela faculdade que o pessoal usa para estudar. É algo muito prático quando você tem um tempo livre entre uma aula e outra e quer ler um texto mas não quer perder tempo indo até a biblioteca. Tem uma salinha lá que funciona como CA ou DA, mas nunca entrei porque é um lugar extremamente estranho e que costuma ficar de portas fechadas, ou lotado com um monte de gente na porta. No geral, a faculdade é um lugar tranquilo: festas ficam só do lado de fora, assim como o cigarro. Alemão é sim um povo festeiro, mas eles sabem muito bem separar o ambiente de festa do ambiente de estudos.
A faculdade se parece com a FAFICH no que tange aos adesivinhos pregados por toda parte (ainda mais do que na FAFICH) e aos escritos em banheiros. Por todo lado na faculdade, na universidade e mesmo no resto da cidade você vê adesivos parecidos com aqueles que têm na Savassi. Os daqui, porém, quase sempre são da torcida organizada do Augsburg F.C., o time local que pela primeira vez na história disputa a primeira divisão da Bundesliga. Pra todo lado tem um adesivo desses. Na faculdade, além desses adesivos do Augsburg F.C., têm outros denunciando a energia nuclear, criticando o alistamento militar, protestando contra o abate de animais para consumo humano e contra as taxas estudantis (a universidade é pública mas os estudantes têm que pagar uma taxa de cerca de 540 euros para ajudar nos gastos; não estou bem certo, mas acho que é uma contribuição semestral). Já em relação aos escritos em banheiros, as temáticas pendem mais para o lado político (diferente da FAFICH, onde predominam mensagens sexuais). A frase mais comum, escrita em quase todos os banheiros em letras garrafais é "revoltem-se!". Outras tantas denunciam o radicalismo islâmico e têm também algumas com conteúdo neo-nazista.
Já as aulas são muito bem conduzidas. Os professores são muito pontuais, os alunos muito participativos e, pelo menos nas matérias que estou fazendo, os professores sempre fazem questão de estabelecer um diálogo com os alunos. Eles sempre lançam perguntas e provocações a fim de atiçar as discussões entre a turma. Todos eles também sempre se mostram inteiramente à disposição dos alunos e fazem sempre questão de perguntar ao longo da aula se estão todos entendendo e se alguém tem alguma dúvida. Os textos que serão usados ao longo do semestre são entregues na primeira semana de aula, todos já xerocados (o preço deles está incluído na taxa de 540 euros).
No sábado seguinte à apresentação sobre Karl Marx tive novamente aula da matéria de imperialismo e colonialismo. Essa aula era a que eu mais esperava: sobre a Primeira Crise do Marrocos! O professor já sabia que eu me interessava pelo tema e não hesitou em pegar no meu pé. Fez algumas perguntas e pediu minha opinião sobre certos pontos, ao que eu me saí relativamente bem (embora falando um alemão sofrível). Falo tanto assim dessa disciplina porque julgo que ela tem sido a mais importante para mim até aqui. Graças a ela pude entrar em contato com a bibliografia que precisarei na minha monografia, além de ter aprendido mais sobre a história do imperialismo alemão, algo que até então eu conhecia muito pouco. É isso que me dá ânimo para acordar todo sábado de manhã, sair na rua deserta toda coberta por neblina e quase congelar esperando o bonde. Sem dúvida alguma, a optativa que fiz sobre história da África nos séculos XIX e XX na UFMG foi de fundamental importância para que eu aproveitasse melhor essa matéria: Herero, Maji-Maji, Zambeze... Em uma aula ministrada em alemão, todos esses nomes iriam confundir bastante minha cabeça caso eu já não os tivesse estudado antes.
Na semana seguinte viria minha verdadeira prova de fogo: a apresentação de um seminário na disciplina de Primeira Guerra Mundial. Meu grupo era formado por um espanhol que falava menos alemão do que eu e por um alemão. Iríamos falar sobre as experiências pessoais dos soldados durante o conflito. Bolamos um trabalho muito bom com um Power Point e um roteiro, e tinha tudo para dar certo. Mas eis que o único alemão do grupo, em quem tínhamos depositado nossa confiança, nos presenteou com a triste notícia de que na semana da apresentação ele faria uma cirurgia na boca e não poderia falar no dia. Ou seja: a apresentação ficaria nas mãos do espanhol e nas minhas. Até aí ainda daria para aturar, se não fosse um outro detalhe mortal: o seminário não se resumia a uma apresentação; o grupo também tinha que apresentar um documento para a sala, instigar e moderar uma discussão em torno dele. Isso era, para mim, virtualmente impossível: por mais que eu fale relativamente bem, ainda acho extremamente difícil entender o que os outros dizem, e o espanhol (Hugo é o nome dele) tinha ainda mais dificuldades com o idioma do que eu. De qualquer modo, fizemos o possível: sentei com o Hugo um dia antes da apresentação, expliquei para ele o conteúdo dos documentos e sugeri algumas perguntas que poderíamos fazer para a o resto da turma a fim de promover um debate.
Um dos documentos que escolhemos ficou na minha cabeça: falava de um oficial inglês que, no ápice da guerra, ficou louco. Ele começou a gemer, a rastejar no chão, a cavar desesperadamente um buraco na lama como se tentasse fugir - tudo isso observado pelos soldados os quais ele liderava. O outro oficial que viu aquilo disse que ele parecia ter regredido a uma forma pré-humana de vida, pois não se comunicava, não andava e não dava ouvidos a ninguém; apenas gritava e rastejava. Achei aquilo assustador e, ao mesmo tempo, bastante propício para suscitar uma discussão. Enxerguei aquilo como algo simbólico de uma nova realidade de guerra. Toda a pompa, a glória e majestade dos oficiais do século XIX havia se perdido diante de uma nova realidade de guerra: a realidade da metralhadora, dos bombardeios, da guerra total, capaz de deixar qualquer homem pacato do século XIX literalmente doido.
Mas enfim, aquilo que tinha tudo para sair errado acabou não saindo: no dia da apresentação o integrante alemão de nosso grupo apareceu muito bem e pôde apresentar normalmente, além de conduzir a discussão. Preparei um texto para me guiar na hora da apresentação e até que foi tranquilo. Ao fim da aula o professor (o mesmo da matéria em que eu havia apresentado sobre Karl Marx) disse que falei com muita segurança e desenvoltura. Novamente aliviado!
Na quinta à noite o departamento de estrangeiros da UNI-Augsburg organizou um pequeno passeio pela cidade ao qual aderi de última hora. A guia do passeio nos levou para alguns pontos históricos da cidade sobre os quais haviam lendas e nos contou dessas lendas. A que mais gostei foi a das sete crianças. Existe uma rua aqui em Augsburg que se chama "(alguma coisa) de sete crianças". Embaixo da placa com o nome da rua há seis imagens de crianças talhadas em pedra. Diz a lenda que, nos tempos do Império Romano, um casal que vivia na cidade tinha sete filhos e acabou perdendo um deles (ele simplesmente sumiu e ninguém mais o viu). A mãe ficou tão triste que se esqueceu de tudo: do marido, dos outros filhos, dos afazeres domésticos... Ela só pensava no filho desaparecido. Foi quando o marido dela fez essa escultura em pedra com seis crianças e deu a ela de presente. A mulher viu aquilo e perguntou por que ele havia esculpido só seis crianças se eles tinham na verdade sete filhos. Ao que o marido respondeu: "não preciso esculpir nosso sétimo filho pois ele está sempre com você em seus pensamentos; essa escultura é para você se lembrar dos outros seis filhos que você ainda tem mas dos quais se esqueceu".
Por essas e outras digo que não poderia ter escolhido cidade melhor do que Augsburg para morar. Não preciso viajar muito porque aqui sempre têm lugares interessantes para se ver. Só me resta coragem para quebrar minha rotina "casa-faculdade". Assim como a mulher da lenda, preciso parar de ficar me preocupando apenas com um aspecto do meu intercâmbio (a finalidade acadêmica) e me lembrar dos demais aspectos (viajar, passear, conhecer...). Preciso me lembrar de meus outros seis filhos. Objetivos são bons mas não são tudo.
E como é a universidade daqui? Só posso dizer baseado no prédio que eu frequento, que é a Faculdade de Filologia e História. Pra começar, é um lugar bem diferente da FAFICH em certos aspectos, mas bem parecido em outros. É diferente porque lá dentro ninguém fuma - é proibido, uma vez que o lugar é todo fechado. Além disso, têm vários corredores cobertos por carpetes onde muitas pessoas costumam se sentar para estudar ou apenas conversar. Têm várias mesas e cadeiras espalhadas pela faculdade que o pessoal usa para estudar. É algo muito prático quando você tem um tempo livre entre uma aula e outra e quer ler um texto mas não quer perder tempo indo até a biblioteca. Tem uma salinha lá que funciona como CA ou DA, mas nunca entrei porque é um lugar extremamente estranho e que costuma ficar de portas fechadas, ou lotado com um monte de gente na porta. No geral, a faculdade é um lugar tranquilo: festas ficam só do lado de fora, assim como o cigarro. Alemão é sim um povo festeiro, mas eles sabem muito bem separar o ambiente de festa do ambiente de estudos.
A faculdade se parece com a FAFICH no que tange aos adesivinhos pregados por toda parte (ainda mais do que na FAFICH) e aos escritos em banheiros. Por todo lado na faculdade, na universidade e mesmo no resto da cidade você vê adesivos parecidos com aqueles que têm na Savassi. Os daqui, porém, quase sempre são da torcida organizada do Augsburg F.C., o time local que pela primeira vez na história disputa a primeira divisão da Bundesliga. Pra todo lado tem um adesivo desses. Na faculdade, além desses adesivos do Augsburg F.C., têm outros denunciando a energia nuclear, criticando o alistamento militar, protestando contra o abate de animais para consumo humano e contra as taxas estudantis (a universidade é pública mas os estudantes têm que pagar uma taxa de cerca de 540 euros para ajudar nos gastos; não estou bem certo, mas acho que é uma contribuição semestral). Já em relação aos escritos em banheiros, as temáticas pendem mais para o lado político (diferente da FAFICH, onde predominam mensagens sexuais). A frase mais comum, escrita em quase todos os banheiros em letras garrafais é "revoltem-se!". Outras tantas denunciam o radicalismo islâmico e têm também algumas com conteúdo neo-nazista.
Já as aulas são muito bem conduzidas. Os professores são muito pontuais, os alunos muito participativos e, pelo menos nas matérias que estou fazendo, os professores sempre fazem questão de estabelecer um diálogo com os alunos. Eles sempre lançam perguntas e provocações a fim de atiçar as discussões entre a turma. Todos eles também sempre se mostram inteiramente à disposição dos alunos e fazem sempre questão de perguntar ao longo da aula se estão todos entendendo e se alguém tem alguma dúvida. Os textos que serão usados ao longo do semestre são entregues na primeira semana de aula, todos já xerocados (o preço deles está incluído na taxa de 540 euros).
No sábado seguinte à apresentação sobre Karl Marx tive novamente aula da matéria de imperialismo e colonialismo. Essa aula era a que eu mais esperava: sobre a Primeira Crise do Marrocos! O professor já sabia que eu me interessava pelo tema e não hesitou em pegar no meu pé. Fez algumas perguntas e pediu minha opinião sobre certos pontos, ao que eu me saí relativamente bem (embora falando um alemão sofrível). Falo tanto assim dessa disciplina porque julgo que ela tem sido a mais importante para mim até aqui. Graças a ela pude entrar em contato com a bibliografia que precisarei na minha monografia, além de ter aprendido mais sobre a história do imperialismo alemão, algo que até então eu conhecia muito pouco. É isso que me dá ânimo para acordar todo sábado de manhã, sair na rua deserta toda coberta por neblina e quase congelar esperando o bonde. Sem dúvida alguma, a optativa que fiz sobre história da África nos séculos XIX e XX na UFMG foi de fundamental importância para que eu aproveitasse melhor essa matéria: Herero, Maji-Maji, Zambeze... Em uma aula ministrada em alemão, todos esses nomes iriam confundir bastante minha cabeça caso eu já não os tivesse estudado antes.
Na semana seguinte viria minha verdadeira prova de fogo: a apresentação de um seminário na disciplina de Primeira Guerra Mundial. Meu grupo era formado por um espanhol que falava menos alemão do que eu e por um alemão. Iríamos falar sobre as experiências pessoais dos soldados durante o conflito. Bolamos um trabalho muito bom com um Power Point e um roteiro, e tinha tudo para dar certo. Mas eis que o único alemão do grupo, em quem tínhamos depositado nossa confiança, nos presenteou com a triste notícia de que na semana da apresentação ele faria uma cirurgia na boca e não poderia falar no dia. Ou seja: a apresentação ficaria nas mãos do espanhol e nas minhas. Até aí ainda daria para aturar, se não fosse um outro detalhe mortal: o seminário não se resumia a uma apresentação; o grupo também tinha que apresentar um documento para a sala, instigar e moderar uma discussão em torno dele. Isso era, para mim, virtualmente impossível: por mais que eu fale relativamente bem, ainda acho extremamente difícil entender o que os outros dizem, e o espanhol (Hugo é o nome dele) tinha ainda mais dificuldades com o idioma do que eu. De qualquer modo, fizemos o possível: sentei com o Hugo um dia antes da apresentação, expliquei para ele o conteúdo dos documentos e sugeri algumas perguntas que poderíamos fazer para a o resto da turma a fim de promover um debate.
Um dos documentos que escolhemos ficou na minha cabeça: falava de um oficial inglês que, no ápice da guerra, ficou louco. Ele começou a gemer, a rastejar no chão, a cavar desesperadamente um buraco na lama como se tentasse fugir - tudo isso observado pelos soldados os quais ele liderava. O outro oficial que viu aquilo disse que ele parecia ter regredido a uma forma pré-humana de vida, pois não se comunicava, não andava e não dava ouvidos a ninguém; apenas gritava e rastejava. Achei aquilo assustador e, ao mesmo tempo, bastante propício para suscitar uma discussão. Enxerguei aquilo como algo simbólico de uma nova realidade de guerra. Toda a pompa, a glória e majestade dos oficiais do século XIX havia se perdido diante de uma nova realidade de guerra: a realidade da metralhadora, dos bombardeios, da guerra total, capaz de deixar qualquer homem pacato do século XIX literalmente doido.
Mas enfim, aquilo que tinha tudo para sair errado acabou não saindo: no dia da apresentação o integrante alemão de nosso grupo apareceu muito bem e pôde apresentar normalmente, além de conduzir a discussão. Preparei um texto para me guiar na hora da apresentação e até que foi tranquilo. Ao fim da aula o professor (o mesmo da matéria em que eu havia apresentado sobre Karl Marx) disse que falei com muita segurança e desenvoltura. Novamente aliviado!
Na quinta à noite o departamento de estrangeiros da UNI-Augsburg organizou um pequeno passeio pela cidade ao qual aderi de última hora. A guia do passeio nos levou para alguns pontos históricos da cidade sobre os quais haviam lendas e nos contou dessas lendas. A que mais gostei foi a das sete crianças. Existe uma rua aqui em Augsburg que se chama "(alguma coisa) de sete crianças". Embaixo da placa com o nome da rua há seis imagens de crianças talhadas em pedra. Diz a lenda que, nos tempos do Império Romano, um casal que vivia na cidade tinha sete filhos e acabou perdendo um deles (ele simplesmente sumiu e ninguém mais o viu). A mãe ficou tão triste que se esqueceu de tudo: do marido, dos outros filhos, dos afazeres domésticos... Ela só pensava no filho desaparecido. Foi quando o marido dela fez essa escultura em pedra com seis crianças e deu a ela de presente. A mulher viu aquilo e perguntou por que ele havia esculpido só seis crianças se eles tinham na verdade sete filhos. Ao que o marido respondeu: "não preciso esculpir nosso sétimo filho pois ele está sempre com você em seus pensamentos; essa escultura é para você se lembrar dos outros seis filhos que você ainda tem mas dos quais se esqueceu".
Por essas e outras digo que não poderia ter escolhido cidade melhor do que Augsburg para morar. Não preciso viajar muito porque aqui sempre têm lugares interessantes para se ver. Só me resta coragem para quebrar minha rotina "casa-faculdade". Assim como a mulher da lenda, preciso parar de ficar me preocupando apenas com um aspecto do meu intercâmbio (a finalidade acadêmica) e me lembrar dos demais aspectos (viajar, passear, conhecer...). Preciso me lembrar de meus outros seis filhos. Objetivos são bons mas não são tudo.
Confissões de Augsburg - o retorno I
Sempre fico impressionado com a capacidade que tenho de tornar minha vida uma rotina. Sou cristão, nunca escondi isso. Mas, como todo cristão em pleno século XXI, tenho uma série de dúvidas frente a algumas coisas em que acredito. Não consigo imaginar como seria viver em lugar por toda a eternidade achando tudo lindo sempre. Dada minha experiência de vida até aqui, creio que se eu fosse para o céu iria passar um mês impressionado, e depois desses trinta dias iria perguntar a Deus: "onde fica o restaurante e a biblioteca?".
Augsburg é uma cidade fantástica: aqui foram lidas em público pela primeira vez as ideias que Lutero tinha para reformar a igreja; aqui foi firmada a paz de 1555 que acabou com as guerras religiosas na Europa e definiu que cada súdito deveria ter a fé de seu rei; aqui nasceram o pai de Mozart e o filósofo Bertolt Brecht. E ainda assim, o que eu mais tenho visto nessas últimas semanas em que não escrevo é o bonde e suas estações (já estou decorando os nomes de todas entre minha casa e a universidade), a bandeja branca do restaurante universitário, meu netbook e minha cama.
Claro que eu não vim aqui a turismo: tenho responsabilidades. Mas sempre acho que eu poderia estar aproveitando mais do que estou. Não é uma reclamação, apenas uma auto-crítica. Acho muito melhor fazer as coisas quando se tem um objetivo. Eu não vou a boates, bares e festas não porque não goste das pessoas de lá, mas apenas porque lá eu não tenho objetivos (não danço, não bebo, não estou procurando uma parceira nem novas amizades). Ficar 3, 4 ou 5 horas em um lugar sem ter metas, sem ter ambições, sabendo que esse tempo poderia estar sendo gasto de forma mais produtiva é quase uma tortura pra mim. Sendo assim, fico feliz de ter vindo para a Alemanha com um objetivo, e de poder ocupar meu tempo com ele. Meu intercâmbio na Malásia não foi assim. Lá foram 12 meses pairando, sem saber se eu estava regredindo, progredindo ou parado. Só depois que voltei ao Brasil fui perceber que ele foi uma regressão extrema, total, mas não permanente: como uma mola que se comprime até a sua base pra depois dar um salto maior que seu tamanho natural, na Malásia regredi o máximo que eu poderia regredir, até o alerta vermelho se acencer, eu me tocar e então progredir nos anos seguintes (o que eu quero dizer com "progredir" já é uma outra história completamente diferente e longa demais para contar aqui). E tudo isso por um simples motivo: fui para a Malásia sem objetivos.
Mas não, minha vida não tem sido um marasmo. Como disse em meu último post, planejei ir para o campo de concentração de Dachau na terça e, de fato, eu fui. De última hora fiquei sabendo que outros estudantes estrangeiros também iriam e pedi a uma amiga minha que era amiga deles avisarem que eu também iria. Conhecia-os assim só de vista e foi fácil achá-los na estação. Dachau fica bem perto de Augsburg, mas a viagem de trem é mais demorada pois passamos primeiro pela estação central de Munique.
O campo de concentração é um lugar de outro mundo: tirando um grupo de turistas jovens que não paravam de se atazanar, é um lugar bem tranquilo e melancólico. Quando fui o tempo estava um pouco nublado e só contribuiu para reforçar essa sensação. Lá vi as câmaras de gás, os fornos onde os corpos eram cremados, as camas dos prisioneiros e os monumentos em homenagem a todos que ali padeceram. Tem também um museu cheio de fotos, vídeos, documentos e recursos interativos sobre a história do campo. Meu único problema com museus aqui na Alemanha se deve aos textos que li na disciplina de Arquivos e Museus semestre passado. Por mais que a proposta da matéria seja válida, achei aqueles textos um verdadeiro porre e depois de lê-los minhas visitas a museus ficaram completamente modificadas - para pior. Resumidamente, poderia dizer que aprendi três coisas com esses textos: 1. Todos os museus do mundo estão errados. 2. A partir do momento em que você entra em um museu, tudo aquilo que você fizer ou deixar de fazer está errado. 3. Não há nada que você possa fazer para mudar essa realidade.
Cada peça ou recurso que vejo em um museu me remete a um parágrafo daqueles textos malditos. A cada passo que dou sinto que um dos autores daqueles textos está me vigiando para saber se estou vivenciando a exposição de forma correta. Segundo aqueles autores, tudo está errado, tudo é ruim e nenhuma exposição no mundo consegue cumprir o papel que um museu deveria cumprir. Que não me levem a mal os leitores que gostaram dessa matéria, mas em se tratando de museus, a única opinião que consigo ter é a de que "cada um monta como acha melhor e cada um vivencia como acha mais conveniente". Confesso que sou ignorante demais para teorizar e entender quem teoriza sobre isso.
Mas no mais, Dachau foi uma experiência e tanto. Duas coisas que me chamaram a atenção foram os monumentos religiosos - existe um para homenagear os judeus, um para os católicos e um para os protestantes que morreram lá - e a livraria que fica na entrada do campo. Logo na entrada da livraria fiquei transtornado: nunca vi uma quantidade tão grande de livros, revistas e DVDs sobre nazismo em um só lugar. Tem livro sobre tudo relacionado ao tema: a política externa nazista, biografias de figuras importantes do Terceiro Reich, a burocracia nazista, as origens do nazismo, os campos de concentração, a história dos alemães que lutaram contra o nazismo (algo do que os alemães de hoje se orgulham muito), entre outros. Mas, mais no fundo da livraria, há uma outra seção: a seção de objetos judaicos! Lá têm livros sobre história do judaísmo, livros sobre as tradições judaicas, menorás (castiçais de sete braços com a estrela de Davi), livros infantis que ensinam a rezar em hebraico... Enfim, tudo que você imaginar sobre o tema "judaísmo". Achei bem interessante essa divisão e, incrivelmente, consegui me conter a ponto de não levar nenhum livro ou DVD!
Nos dias que se seguiram continuei dando prosseguimento à minha pesquisa. Mandei um e-mail ao meu professor da matéria de "Imperialismo e colonialismo na Alemanha Imperial" pedindo sugestões sobre em quais jornais da época eu poderia pesquisar sobre a visita do Kaiser Guilherme II a Tangier (disse a ele que queria um jornal alinhado com o Kaiser). Ele não só me passou os nomes dos principais jornais da época e a posição política de cada um deles, como também me deu a ótima notícia de que os documentos da política externa alemã do período 1871-1914 foram publicados em livros e estavam disponíveis na biblioteca da universidade. Achei-os com facilidade e atualmente estou em uma dúvida cruel sobre se tiro uma cópia do período que me interessa, se escaneio ou se procuro os volumes pra comprar. Preciso achar um jeito de levá-los comigo para o Brasil! E junto com esses volumes encontrei vários outros volumes de documentos da política externa do Império Austro-Húngaro, da França e da Inglaterra publicados.
A neve pela qual tanto espero não caiu até hoje. Acho que só em dezembro. Todos os dias de manhã acordo na esperança de vê-la na janela do meu quarto mas ela nunca está lá. Mas as temperaturas de madrugada recentemente têm caído para -3 e -4. E por falar em janela, há algumas semanas descobri que tem um ninho de joaninhas no meu quarto: elas ficam todas amontoadas no canto direito da janela, ao que parece se protegendo do frio. Na cortina também tem um monte e sempre que estou estudando na mesa aparece uma em cima do caderno, mas elas nunca me incomodaram. Achei até simpático; bem melhor do que aquelas muriçocas que tiram o sono da gente.
No sábado dia 12 aproveitei que não tive aula e fui, junto com alguns outros estudantes estrangeiros, para Salzburg, na Áustria. Aqui eles costumam postar no grupo do Facebook uma mensagem falando "estou indo para tal lugar tal dia, quem quer vir?", porque quanto mais pessoas mais fácil é de viajar. Com um Bayern-Ticket você viaja para qualquer lugar da Bavária no período de um dia. Cada bilhete pode servir para até cinco pessoas e então fica mais fácil dividir os custos. E foi numa dessas que acabei indo para Salzburg que, por mais que não seja oficialmente na Bavária, fica bem próximo à fronteira e por isso o ticket vale para lá também.
Augsburg é a terra natal do pai de Mozart e Salzburg é a terra natal do próprio Mozart! Logo, tudo lá gira em torno dele: souvenirs, cartões postais, chaveiros, chocolates... Tudo que você compra vem o Mozart junto! Isso sem falar nas milhares de camisas, adesivos e canecas escritos "No cangoroos in Austria!", destinados a todos aqueles que confundem o país europeu com a ilha da Oceania. Ficamos por lá apenas um dia e já à noite voltamos para Augsburg.
Augsburg é uma cidade fantástica: aqui foram lidas em público pela primeira vez as ideias que Lutero tinha para reformar a igreja; aqui foi firmada a paz de 1555 que acabou com as guerras religiosas na Europa e definiu que cada súdito deveria ter a fé de seu rei; aqui nasceram o pai de Mozart e o filósofo Bertolt Brecht. E ainda assim, o que eu mais tenho visto nessas últimas semanas em que não escrevo é o bonde e suas estações (já estou decorando os nomes de todas entre minha casa e a universidade), a bandeja branca do restaurante universitário, meu netbook e minha cama.
Claro que eu não vim aqui a turismo: tenho responsabilidades. Mas sempre acho que eu poderia estar aproveitando mais do que estou. Não é uma reclamação, apenas uma auto-crítica. Acho muito melhor fazer as coisas quando se tem um objetivo. Eu não vou a boates, bares e festas não porque não goste das pessoas de lá, mas apenas porque lá eu não tenho objetivos (não danço, não bebo, não estou procurando uma parceira nem novas amizades). Ficar 3, 4 ou 5 horas em um lugar sem ter metas, sem ter ambições, sabendo que esse tempo poderia estar sendo gasto de forma mais produtiva é quase uma tortura pra mim. Sendo assim, fico feliz de ter vindo para a Alemanha com um objetivo, e de poder ocupar meu tempo com ele. Meu intercâmbio na Malásia não foi assim. Lá foram 12 meses pairando, sem saber se eu estava regredindo, progredindo ou parado. Só depois que voltei ao Brasil fui perceber que ele foi uma regressão extrema, total, mas não permanente: como uma mola que se comprime até a sua base pra depois dar um salto maior que seu tamanho natural, na Malásia regredi o máximo que eu poderia regredir, até o alerta vermelho se acencer, eu me tocar e então progredir nos anos seguintes (o que eu quero dizer com "progredir" já é uma outra história completamente diferente e longa demais para contar aqui). E tudo isso por um simples motivo: fui para a Malásia sem objetivos.
Mas não, minha vida não tem sido um marasmo. Como disse em meu último post, planejei ir para o campo de concentração de Dachau na terça e, de fato, eu fui. De última hora fiquei sabendo que outros estudantes estrangeiros também iriam e pedi a uma amiga minha que era amiga deles avisarem que eu também iria. Conhecia-os assim só de vista e foi fácil achá-los na estação. Dachau fica bem perto de Augsburg, mas a viagem de trem é mais demorada pois passamos primeiro pela estação central de Munique.
O campo de concentração é um lugar de outro mundo: tirando um grupo de turistas jovens que não paravam de se atazanar, é um lugar bem tranquilo e melancólico. Quando fui o tempo estava um pouco nublado e só contribuiu para reforçar essa sensação. Lá vi as câmaras de gás, os fornos onde os corpos eram cremados, as camas dos prisioneiros e os monumentos em homenagem a todos que ali padeceram. Tem também um museu cheio de fotos, vídeos, documentos e recursos interativos sobre a história do campo. Meu único problema com museus aqui na Alemanha se deve aos textos que li na disciplina de Arquivos e Museus semestre passado. Por mais que a proposta da matéria seja válida, achei aqueles textos um verdadeiro porre e depois de lê-los minhas visitas a museus ficaram completamente modificadas - para pior. Resumidamente, poderia dizer que aprendi três coisas com esses textos: 1. Todos os museus do mundo estão errados. 2. A partir do momento em que você entra em um museu, tudo aquilo que você fizer ou deixar de fazer está errado. 3. Não há nada que você possa fazer para mudar essa realidade.
Cada peça ou recurso que vejo em um museu me remete a um parágrafo daqueles textos malditos. A cada passo que dou sinto que um dos autores daqueles textos está me vigiando para saber se estou vivenciando a exposição de forma correta. Segundo aqueles autores, tudo está errado, tudo é ruim e nenhuma exposição no mundo consegue cumprir o papel que um museu deveria cumprir. Que não me levem a mal os leitores que gostaram dessa matéria, mas em se tratando de museus, a única opinião que consigo ter é a de que "cada um monta como acha melhor e cada um vivencia como acha mais conveniente". Confesso que sou ignorante demais para teorizar e entender quem teoriza sobre isso.
Mas no mais, Dachau foi uma experiência e tanto. Duas coisas que me chamaram a atenção foram os monumentos religiosos - existe um para homenagear os judeus, um para os católicos e um para os protestantes que morreram lá - e a livraria que fica na entrada do campo. Logo na entrada da livraria fiquei transtornado: nunca vi uma quantidade tão grande de livros, revistas e DVDs sobre nazismo em um só lugar. Tem livro sobre tudo relacionado ao tema: a política externa nazista, biografias de figuras importantes do Terceiro Reich, a burocracia nazista, as origens do nazismo, os campos de concentração, a história dos alemães que lutaram contra o nazismo (algo do que os alemães de hoje se orgulham muito), entre outros. Mas, mais no fundo da livraria, há uma outra seção: a seção de objetos judaicos! Lá têm livros sobre história do judaísmo, livros sobre as tradições judaicas, menorás (castiçais de sete braços com a estrela de Davi), livros infantis que ensinam a rezar em hebraico... Enfim, tudo que você imaginar sobre o tema "judaísmo". Achei bem interessante essa divisão e, incrivelmente, consegui me conter a ponto de não levar nenhum livro ou DVD!
Nos dias que se seguiram continuei dando prosseguimento à minha pesquisa. Mandei um e-mail ao meu professor da matéria de "Imperialismo e colonialismo na Alemanha Imperial" pedindo sugestões sobre em quais jornais da época eu poderia pesquisar sobre a visita do Kaiser Guilherme II a Tangier (disse a ele que queria um jornal alinhado com o Kaiser). Ele não só me passou os nomes dos principais jornais da época e a posição política de cada um deles, como também me deu a ótima notícia de que os documentos da política externa alemã do período 1871-1914 foram publicados em livros e estavam disponíveis na biblioteca da universidade. Achei-os com facilidade e atualmente estou em uma dúvida cruel sobre se tiro uma cópia do período que me interessa, se escaneio ou se procuro os volumes pra comprar. Preciso achar um jeito de levá-los comigo para o Brasil! E junto com esses volumes encontrei vários outros volumes de documentos da política externa do Império Austro-Húngaro, da França e da Inglaterra publicados.
A neve pela qual tanto espero não caiu até hoje. Acho que só em dezembro. Todos os dias de manhã acordo na esperança de vê-la na janela do meu quarto mas ela nunca está lá. Mas as temperaturas de madrugada recentemente têm caído para -3 e -4. E por falar em janela, há algumas semanas descobri que tem um ninho de joaninhas no meu quarto: elas ficam todas amontoadas no canto direito da janela, ao que parece se protegendo do frio. Na cortina também tem um monte e sempre que estou estudando na mesa aparece uma em cima do caderno, mas elas nunca me incomodaram. Achei até simpático; bem melhor do que aquelas muriçocas que tiram o sono da gente.
No sábado dia 12 aproveitei que não tive aula e fui, junto com alguns outros estudantes estrangeiros, para Salzburg, na Áustria. Aqui eles costumam postar no grupo do Facebook uma mensagem falando "estou indo para tal lugar tal dia, quem quer vir?", porque quanto mais pessoas mais fácil é de viajar. Com um Bayern-Ticket você viaja para qualquer lugar da Bavária no período de um dia. Cada bilhete pode servir para até cinco pessoas e então fica mais fácil dividir os custos. E foi numa dessas que acabei indo para Salzburg que, por mais que não seja oficialmente na Bavária, fica bem próximo à fronteira e por isso o ticket vale para lá também.
Augsburg é a terra natal do pai de Mozart e Salzburg é a terra natal do próprio Mozart! Logo, tudo lá gira em torno dele: souvenirs, cartões postais, chaveiros, chocolates... Tudo que você compra vem o Mozart junto! Isso sem falar nas milhares de camisas, adesivos e canecas escritos "No cangoroos in Austria!", destinados a todos aqueles que confundem o país europeu com a ilha da Oceania. Ficamos por lá apenas um dia e já à noite voltamos para Augsburg.
sábado, 29 de outubro de 2011
Confissões de Augsburg - começou!
Isso mesmo: começou. Após passar mais de três meses à deriva, finalmente voltei a frequentar uma aula e me preocupar com datas, horários e prazos. Não estou reclamando: é sempre bom ter um tempo à toa, mas também é muito boa a sensação de que você está nos trilhos novamente. Eu particularmente não acho que foram três meses perdidos. Foram muito importantes para resolver os problemas relativos ao meu intercâmbio e preparar minha ida. Além disso, foram três meses relativamente produtivos: estudei bastante alemão e li pelo menos sete livros.
Tive minha primeira aula no dia 22, um sábado de manhã. Não me pergunte o porquê desse horário. Começou às 9h e foi até 12h. Era uma manhã fria com muita neblina, como têm sido todas as manhãs aqui. Pude usar pela primeira vez o casaco de camada dupla que tinha comprado na sexta de manhã. Chegando à universidade, tudo vazio, como uma cidade fantasma. Não tive dificuldade para achar minha sala, pois já tinha dado uma volta na faculdade a fim de aprender onde ficava cada sala na qual eu teria aula. Antes do início da aula os dois professores se apresentaram e pediram para cada um se apresentar. Depois explicaram o programa e combinaram os horários. A matéria é sobre colonialismo e imperialismo na Alemanha Guilhermina e pretende nos aproximar dos documentos necessários no estudo desse período. Teremos uma visita guiada a um arquivo aqui na cidade de Augsburg mês que vem. A primeira aula, portanto, foi mais um exercício de paleografia: eles passaram alguns textos manuscritos para que cada um pudesse ler em voz alta o seu conteúdo, enquanto o professor corrigia. Cada um leu duas linhas. Fiquei meio tenso, com medo de dar vexame, mas me saí relativamente bem. Depois o professor passou uma série de questões no quadro que seriam abordadas, do tipo: “A Alemanha precisava de colônias? Qual foi o impacto do imperialismo alemão nos povos conquistados? Qual o significado das colônias na história alemã?”. Ele respondeu resumidamente cada uma delas, o que somente com muita dificuldade pude acompanhar. Não consegui anotar quase nada. Depois ele desenhou um mapa da África no quadro. Então perguntou quem sabia onde ficava cada colônia alemã e pediu para que quem soubesse traçasse no mapa. Pedi a palavra e tracei duas: Togo e Camarões. Foi o ápice da minha participação nessa matéria, pois não acho que poderei dar mais contribuições relevantes nas discussões que se seguirem. As discussões e debates que se sucederam naquele dia eu mal pude acompanhar. No fim da aula o professor passou outro documento manuscrito para que pudéssemos transcrever e enviar por e-mail até quarta-feira. Os alunos alemães têm um ritual interessante ao fim de cada aula: batem na mesa com a mão (como se estivessem batendo na porta), como uma forma de agradecimento ao professor pela aula (quase como se fosse um bater de palmas).
Saí da universidade e fui almoçar ao lado da prefeitura em um restaurante de comida bávara. Ao sair, uma surpresa: centenas de turcos ocupavam a praça da prefeitura portando bandeiras da Turquia, segurando placas e cantando hinos. Mais tarde descobri que eles protestavam contra um atentado do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) contra soldados turcos. Assistindo a isso tudo estava a estátua de Augusto, imperador romano que fundou Augsburg em 15 a.C. O que diria ele se estivesse vivo e visse aquela leva de “bárbaros” se manifestando em sua cidade, em plena praça pública? Dia após dia, uma das coisas que mais chamam minha atenção aqui na Alemanha é a força e a expressão da comunidade turca. Ontem, por exemplo, a Turquia comemorou 88 anos de independência e houve várias festas.
Na tarde de sábado comecei a transcrever o manuscrito que o professor passou. O problema é que ele estava deploravelmente esgarranchado – muito mais do que aqueles que lemos em sala. Dediquei quase toda minha tarde de sábado e domingo à tentativa de transcrevê-lo e felizmente tive sucesso. Em todo o documento, apenas uma palavra permaneceu desconhecida pra mim.
Na segunda-feira à tarde tive minha primeira aula de Primeira Guerra Mundial. Nada muito diferente da outra aula: ele passou o programa, falou como seriam as aulas, mas não começou a dar a matéria ainda – fez apenas a introdução. Mais tarde, naquele mesmo dia, tive outra aula com o mesmo professor: Textos-chave para se entender o período 1830-1930. Iremos ler autores clássicos desse período: Tocqueville, Marx, Stuart Mill, Darwin, Freud, Nietzsche e Weber (tudo em alemão! Exceto o Stuart Mill que é em inglês). O professor foi bonzinho e emprestou para cada aluno o xerox de todos os textos que iremos utilizar.
Depois dessa aula fui até a biblioteca. Quase tive um ataque de euforia! Seria redundante dizer que a parte de História da biblioteca é imensa, com várias estantes e vários livros sobre vários temas. Quase me perdi no meio daquilo tudo. Minha euforia, no entanto, não foi por causa disso. Naquela tarde de segunda-feira, ao me sentar para estudar, me senti em casa – nunca havia me sentido tão em casa desde que cheguei nesse país. Também naquela tarde descobri porque eu gosto tanto de estar em uma biblioteca. Não é porque tem livros, nem porque gosto de estudar. É porque a biblioteca é um dos poucos lugares no mundo onde você não precisa ser simpático. Na biblioteca você não precisa ter assunto, não precisa se entrosar com ninguém, não precisa puxar conversa; melhor ainda: você não pode puxar conversa. Lá ninguém te olha torto quando você se senta em um canto sem falar com ninguém. Muito pelo contrário: justamente quando você começa a puxar conversa é que te olham torto. Só o que podemos fazer em uma biblioteca é aquilo que sei fazer de melhor: sentar e ficar calado. Enquanto você estiver disposto a ficar quieto, você será sempre bem-vindo em uma biblioteca, e isso – acredito eu – em qualquer lugar do mundo. A única coisa que me tirou do sério nessa biblioteca foram os armários para guardar mochilas. Tem que depositar duas moedas de dois euros pra poder fechá-lo, mas depois que você abre as moedas caem de volta. Desde que descobri isso carrego sempre duas moedas de dois euros comigo para evitar desgosto.
Naquela tarde comecei a ler um livro que o professor da matéria de sábado recomendou: “História colonial alemã”. O primeiro capítulo foi até tranquilo, mas à medida que avanço vou encontrando mais dificuldades. Preciso sempre ter um dicionário ao lado, mas o que me consola é perceber que estou usando-o cada vez menos.
Na terça tive minha primeira aula de alemão. Na minha sala tem gente de todos os lugares: Itália, Irlanda, República Tcheca, Japão, China, Turquia, País de Gales, Rússia... Esses são os que me lembro. À noite saí com algumas pessoas aqui da moradia e descobri, aqui nas redondezas de onde moro, três cinemas de filmes alternativos! Um deles se chama “Mephisto” e é também uma livraria – com uma loja em frente à universidade. O problema é que alemães não gostam muito de legenda, por isso todos os filmes são dublados – inclusive do Almodóvar. Enfim, mais uma oportunidade de treinar a o idioma.
Quarta às 8:15 tive mais uma aula. Foi introdução à matéria de Primeira Guerra: as causas do conflito. Foi bem confusa a aula, entendi pouca coisa, mas acho que essa matéria não vai ter prova. Terei, porém, um trabalho. A distribuição do tema foi na quarta também e eu escolhi falar sobre a visão que os soldados tinham da guerra na qual participavam. No meu grupo tem mais dois: um alemão e um espanhol – que, assim como eu, está meio perdido por não falar bem alemão. Pelo menos alguém que me entende.
No final da tarde de quarta resolvi tomar uma providência em relação à ausência de cadeira no meu quarto: liguei para o zelador substituto (o oficial está de férias até dia 8 de novembro). Ele disse que não pode me ajudar, pois só está disponível para emergências, e que devo esperar até dia 8 para falar com o zelador oficial. "Até lá" ele disse "você vai ter que se sentar na cama...” Quase morri de desgosto. Minhas costas doem demais de ficar na cama usando o computador. O local onde se liga o cabo da internet é bem longe da cama por isso não posso me encostar na parede.
Quinta-feira li mais um capítulo do livro sobre expansão colonial alemã e comecei a ler Tocqueville - introdução de "O antigo regime e a revolução" e introdução de "Democracia na América". Tem sido bem difícil... Mas acho que é um esforço necessário para quem quer aprender uma língua. Sexta-feira tive que ir ao Aldi Süd (o mercado aqui perto) comprar material de limpeza, pois meu quarto está muito empoeirado e eu tenho tossido com frequência essa semana, além de estar ficando um pouco rouco. De tarde tive a única aula que ainda me restava: temas de pesquisas sobre o Nacional-Socialismo. Os professores pediram pra gente se apresentar e apresentaram o programa da matéria, bem como as leituras. A prova será apenas um exame oral. Nessa aula percebi uma coisa que já vinha notando na Alemanha: o quanto os cachorros são bem-vindos. O cachorro entra no ônibus, no bonde, na faculdade... Qualquer um com um cachorro de estimação pode entrar com ele nesses lugares, desde que o cachorro se comporte. Uma das meninas assistiu à aula com o cachorro dela ao lado: ele era grande, magrelo, tinha os olhos verdes mas não sei de que raça era; ficava quietinho do lado dela e só de vez em quando ele resolvia cheirar as mesas ou as cadeiras. Os professores nem se importaram. Na hora em que cada aluno se apresentou eles pediram à dona do cachorro que o apresentasse também.
A aula inicial foi bem interessante: a turma se dividiu em grupos de quatro para responder a um quiz sobre o período nazista. Eram algumas folhas com atividades testando nosso conhecimento. Primeiro várias fotos de algumas figuras importantes do Terceiro Reich. Tínhamos que identificar o nome de cada um e sua função. Não pude ajudar muito meu grupo nesse sentido. Reconheci apenas o Hitler (claro!), Heinrich Himmler e Joseph Goebbels (aquela clássica foto dele discursando com um uniforme militar). Em seguida tinha uma lista de abreviações para identificarmos o significado de cada uma (só sabia NSDAP, HJ, SS e SA). Depois havia fotos de eventos-chave da Segunda Guerra para identificarmos a data e o acontecimento. Por fim, um mapa da Alemanha nazista para que identificássemos o nome de cada região anexada.
Na sexta-feira à noite criei vergonha na cara e limpei meu quarto com os produtos que havia comprado de manhã. Um horror! Tufos e mais tufos de poeira por todos os lados, principalmente embaixo do aquecedor. Como faz muito frio, abro muito pouco a janela, o que favorece o acúmulo de poeira e cria um ambiente propício para alergias. No domingo pretendo deixar as janelas abertas de tarde por mais tempo, a fim de deixar o ar circular um pouco.
Sábado de manhã veio aquilo pelo que esperei a semana toda: a excursão ao Partnachklamm. É um parque natural que fica na região de Garmisch-Partenkirchen, bem ao sul da Bavária, perto da fronteira austríaca. Saí de casa bem cedo e a neblina cobria quase tudo. Ao lado da porta da moradia, o vidro que protegia a lista dos números dos apartamentos e seus respectivos moradores estava quebrado, e a lista não estava mais lá. Cada dia me preocupa mais a segurança aqui na moradia. Não bastasse a televisão roubada, agora esse vidro quebrado. Na sexta à noite houve uma festa de Halloween no 19º andar, talvez tenha alguma coisa a ver com isso – ou não, não faço ideia.
A excursão foi organizada pelo departamento de estrangeiros da Uni-Augsburg. O lugar é uma maravilha: passamos pelas típicas fazendas da Bavária e vimos cavalos, ovelhas e bois em grandes pastagens. O parque natural também é muito bonito: vários túneis e cavernas, cachoeiras, rios e uma enorme gruta. Além disso, passamos por vários desfiladeiros e ao longe víamos diversas montanhas cobertas de neve. Foi uma caminhada e tanto. Achei que iria morrer de frio mas acabei tendo que tirar meu casaco: estava fazendo sol e eu suava. Além disso, meus tênis me matavam. Cheguei em casa com duas bolhas enormes em cada um dos dedões. Prometi a mim mesmo que vou comprar tênis novos na segunda-feira.
Terça-feira é feriado (dia de todos os santos), mas terei aula normalmente na segunda. Penso em ir ao memorial do campo de concentração de Dachau na terça, mas ainda não sei. Minha tosse parou ao longo da caminhada, mas foi só voltar ao quarto que ela recomeçou. Estou tomando um antialérgico e vou ver se melhora. Tenho pensado muito: sinto falta de muita coisa no Brasil, mas não a ponto de querer voltar agora. Confesso que estou feliz aqui, mas confesso também que não aguentaria ficar para além de fevereiro.
A tendência agora é que eu crie uma rotina, por isso não sei se terei mais tanto assunto para escrever pela frente.
A você que me acompanha um grande abraço!
Tive minha primeira aula no dia 22, um sábado de manhã. Não me pergunte o porquê desse horário. Começou às 9h e foi até 12h. Era uma manhã fria com muita neblina, como têm sido todas as manhãs aqui. Pude usar pela primeira vez o casaco de camada dupla que tinha comprado na sexta de manhã. Chegando à universidade, tudo vazio, como uma cidade fantasma. Não tive dificuldade para achar minha sala, pois já tinha dado uma volta na faculdade a fim de aprender onde ficava cada sala na qual eu teria aula. Antes do início da aula os dois professores se apresentaram e pediram para cada um se apresentar. Depois explicaram o programa e combinaram os horários. A matéria é sobre colonialismo e imperialismo na Alemanha Guilhermina e pretende nos aproximar dos documentos necessários no estudo desse período. Teremos uma visita guiada a um arquivo aqui na cidade de Augsburg mês que vem. A primeira aula, portanto, foi mais um exercício de paleografia: eles passaram alguns textos manuscritos para que cada um pudesse ler em voz alta o seu conteúdo, enquanto o professor corrigia. Cada um leu duas linhas. Fiquei meio tenso, com medo de dar vexame, mas me saí relativamente bem. Depois o professor passou uma série de questões no quadro que seriam abordadas, do tipo: “A Alemanha precisava de colônias? Qual foi o impacto do imperialismo alemão nos povos conquistados? Qual o significado das colônias na história alemã?”. Ele respondeu resumidamente cada uma delas, o que somente com muita dificuldade pude acompanhar. Não consegui anotar quase nada. Depois ele desenhou um mapa da África no quadro. Então perguntou quem sabia onde ficava cada colônia alemã e pediu para que quem soubesse traçasse no mapa. Pedi a palavra e tracei duas: Togo e Camarões. Foi o ápice da minha participação nessa matéria, pois não acho que poderei dar mais contribuições relevantes nas discussões que se seguirem. As discussões e debates que se sucederam naquele dia eu mal pude acompanhar. No fim da aula o professor passou outro documento manuscrito para que pudéssemos transcrever e enviar por e-mail até quarta-feira. Os alunos alemães têm um ritual interessante ao fim de cada aula: batem na mesa com a mão (como se estivessem batendo na porta), como uma forma de agradecimento ao professor pela aula (quase como se fosse um bater de palmas).
Saí da universidade e fui almoçar ao lado da prefeitura em um restaurante de comida bávara. Ao sair, uma surpresa: centenas de turcos ocupavam a praça da prefeitura portando bandeiras da Turquia, segurando placas e cantando hinos. Mais tarde descobri que eles protestavam contra um atentado do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) contra soldados turcos. Assistindo a isso tudo estava a estátua de Augusto, imperador romano que fundou Augsburg em 15 a.C. O que diria ele se estivesse vivo e visse aquela leva de “bárbaros” se manifestando em sua cidade, em plena praça pública? Dia após dia, uma das coisas que mais chamam minha atenção aqui na Alemanha é a força e a expressão da comunidade turca. Ontem, por exemplo, a Turquia comemorou 88 anos de independência e houve várias festas.
Na tarde de sábado comecei a transcrever o manuscrito que o professor passou. O problema é que ele estava deploravelmente esgarranchado – muito mais do que aqueles que lemos em sala. Dediquei quase toda minha tarde de sábado e domingo à tentativa de transcrevê-lo e felizmente tive sucesso. Em todo o documento, apenas uma palavra permaneceu desconhecida pra mim.
Na segunda-feira à tarde tive minha primeira aula de Primeira Guerra Mundial. Nada muito diferente da outra aula: ele passou o programa, falou como seriam as aulas, mas não começou a dar a matéria ainda – fez apenas a introdução. Mais tarde, naquele mesmo dia, tive outra aula com o mesmo professor: Textos-chave para se entender o período 1830-1930. Iremos ler autores clássicos desse período: Tocqueville, Marx, Stuart Mill, Darwin, Freud, Nietzsche e Weber (tudo em alemão! Exceto o Stuart Mill que é em inglês). O professor foi bonzinho e emprestou para cada aluno o xerox de todos os textos que iremos utilizar.
Depois dessa aula fui até a biblioteca. Quase tive um ataque de euforia! Seria redundante dizer que a parte de História da biblioteca é imensa, com várias estantes e vários livros sobre vários temas. Quase me perdi no meio daquilo tudo. Minha euforia, no entanto, não foi por causa disso. Naquela tarde de segunda-feira, ao me sentar para estudar, me senti em casa – nunca havia me sentido tão em casa desde que cheguei nesse país. Também naquela tarde descobri porque eu gosto tanto de estar em uma biblioteca. Não é porque tem livros, nem porque gosto de estudar. É porque a biblioteca é um dos poucos lugares no mundo onde você não precisa ser simpático. Na biblioteca você não precisa ter assunto, não precisa se entrosar com ninguém, não precisa puxar conversa; melhor ainda: você não pode puxar conversa. Lá ninguém te olha torto quando você se senta em um canto sem falar com ninguém. Muito pelo contrário: justamente quando você começa a puxar conversa é que te olham torto. Só o que podemos fazer em uma biblioteca é aquilo que sei fazer de melhor: sentar e ficar calado. Enquanto você estiver disposto a ficar quieto, você será sempre bem-vindo em uma biblioteca, e isso – acredito eu – em qualquer lugar do mundo. A única coisa que me tirou do sério nessa biblioteca foram os armários para guardar mochilas. Tem que depositar duas moedas de dois euros pra poder fechá-lo, mas depois que você abre as moedas caem de volta. Desde que descobri isso carrego sempre duas moedas de dois euros comigo para evitar desgosto.
Naquela tarde comecei a ler um livro que o professor da matéria de sábado recomendou: “História colonial alemã”. O primeiro capítulo foi até tranquilo, mas à medida que avanço vou encontrando mais dificuldades. Preciso sempre ter um dicionário ao lado, mas o que me consola é perceber que estou usando-o cada vez menos.
Na terça tive minha primeira aula de alemão. Na minha sala tem gente de todos os lugares: Itália, Irlanda, República Tcheca, Japão, China, Turquia, País de Gales, Rússia... Esses são os que me lembro. À noite saí com algumas pessoas aqui da moradia e descobri, aqui nas redondezas de onde moro, três cinemas de filmes alternativos! Um deles se chama “Mephisto” e é também uma livraria – com uma loja em frente à universidade. O problema é que alemães não gostam muito de legenda, por isso todos os filmes são dublados – inclusive do Almodóvar. Enfim, mais uma oportunidade de treinar a o idioma.
Quarta às 8:15 tive mais uma aula. Foi introdução à matéria de Primeira Guerra: as causas do conflito. Foi bem confusa a aula, entendi pouca coisa, mas acho que essa matéria não vai ter prova. Terei, porém, um trabalho. A distribuição do tema foi na quarta também e eu escolhi falar sobre a visão que os soldados tinham da guerra na qual participavam. No meu grupo tem mais dois: um alemão e um espanhol – que, assim como eu, está meio perdido por não falar bem alemão. Pelo menos alguém que me entende.
No final da tarde de quarta resolvi tomar uma providência em relação à ausência de cadeira no meu quarto: liguei para o zelador substituto (o oficial está de férias até dia 8 de novembro). Ele disse que não pode me ajudar, pois só está disponível para emergências, e que devo esperar até dia 8 para falar com o zelador oficial. "Até lá" ele disse "você vai ter que se sentar na cama...” Quase morri de desgosto. Minhas costas doem demais de ficar na cama usando o computador. O local onde se liga o cabo da internet é bem longe da cama por isso não posso me encostar na parede.
Quinta-feira li mais um capítulo do livro sobre expansão colonial alemã e comecei a ler Tocqueville - introdução de "O antigo regime e a revolução" e introdução de "Democracia na América". Tem sido bem difícil... Mas acho que é um esforço necessário para quem quer aprender uma língua. Sexta-feira tive que ir ao Aldi Süd (o mercado aqui perto) comprar material de limpeza, pois meu quarto está muito empoeirado e eu tenho tossido com frequência essa semana, além de estar ficando um pouco rouco. De tarde tive a única aula que ainda me restava: temas de pesquisas sobre o Nacional-Socialismo. Os professores pediram pra gente se apresentar e apresentaram o programa da matéria, bem como as leituras. A prova será apenas um exame oral. Nessa aula percebi uma coisa que já vinha notando na Alemanha: o quanto os cachorros são bem-vindos. O cachorro entra no ônibus, no bonde, na faculdade... Qualquer um com um cachorro de estimação pode entrar com ele nesses lugares, desde que o cachorro se comporte. Uma das meninas assistiu à aula com o cachorro dela ao lado: ele era grande, magrelo, tinha os olhos verdes mas não sei de que raça era; ficava quietinho do lado dela e só de vez em quando ele resolvia cheirar as mesas ou as cadeiras. Os professores nem se importaram. Na hora em que cada aluno se apresentou eles pediram à dona do cachorro que o apresentasse também.
A aula inicial foi bem interessante: a turma se dividiu em grupos de quatro para responder a um quiz sobre o período nazista. Eram algumas folhas com atividades testando nosso conhecimento. Primeiro várias fotos de algumas figuras importantes do Terceiro Reich. Tínhamos que identificar o nome de cada um e sua função. Não pude ajudar muito meu grupo nesse sentido. Reconheci apenas o Hitler (claro!), Heinrich Himmler e Joseph Goebbels (aquela clássica foto dele discursando com um uniforme militar). Em seguida tinha uma lista de abreviações para identificarmos o significado de cada uma (só sabia NSDAP, HJ, SS e SA). Depois havia fotos de eventos-chave da Segunda Guerra para identificarmos a data e o acontecimento. Por fim, um mapa da Alemanha nazista para que identificássemos o nome de cada região anexada.
Na sexta-feira à noite criei vergonha na cara e limpei meu quarto com os produtos que havia comprado de manhã. Um horror! Tufos e mais tufos de poeira por todos os lados, principalmente embaixo do aquecedor. Como faz muito frio, abro muito pouco a janela, o que favorece o acúmulo de poeira e cria um ambiente propício para alergias. No domingo pretendo deixar as janelas abertas de tarde por mais tempo, a fim de deixar o ar circular um pouco.
Sábado de manhã veio aquilo pelo que esperei a semana toda: a excursão ao Partnachklamm. É um parque natural que fica na região de Garmisch-Partenkirchen, bem ao sul da Bavária, perto da fronteira austríaca. Saí de casa bem cedo e a neblina cobria quase tudo. Ao lado da porta da moradia, o vidro que protegia a lista dos números dos apartamentos e seus respectivos moradores estava quebrado, e a lista não estava mais lá. Cada dia me preocupa mais a segurança aqui na moradia. Não bastasse a televisão roubada, agora esse vidro quebrado. Na sexta à noite houve uma festa de Halloween no 19º andar, talvez tenha alguma coisa a ver com isso – ou não, não faço ideia.
A excursão foi organizada pelo departamento de estrangeiros da Uni-Augsburg. O lugar é uma maravilha: passamos pelas típicas fazendas da Bavária e vimos cavalos, ovelhas e bois em grandes pastagens. O parque natural também é muito bonito: vários túneis e cavernas, cachoeiras, rios e uma enorme gruta. Além disso, passamos por vários desfiladeiros e ao longe víamos diversas montanhas cobertas de neve. Foi uma caminhada e tanto. Achei que iria morrer de frio mas acabei tendo que tirar meu casaco: estava fazendo sol e eu suava. Além disso, meus tênis me matavam. Cheguei em casa com duas bolhas enormes em cada um dos dedões. Prometi a mim mesmo que vou comprar tênis novos na segunda-feira.
Terça-feira é feriado (dia de todos os santos), mas terei aula normalmente na segunda. Penso em ir ao memorial do campo de concentração de Dachau na terça, mas ainda não sei. Minha tosse parou ao longo da caminhada, mas foi só voltar ao quarto que ela recomeçou. Estou tomando um antialérgico e vou ver se melhora. Tenho pensado muito: sinto falta de muita coisa no Brasil, mas não a ponto de querer voltar agora. Confesso que estou feliz aqui, mas confesso também que não aguentaria ficar para além de fevereiro.
A tendência agora é que eu crie uma rotina, por isso não sei se terei mais tanto assunto para escrever pela frente.
A você que me acompanha um grande abraço!
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Confissões de Augsburg - evoluindo
E eis que na última quinta (13 de outubro) pela manhã tivemos o Einführungstag: uma palestra direcionada a estudantes estrangeiros apresentando a universidade, suas características e seu funcionamento. Lá pude perceber quão variada é a origem dos alunos da UNI-Augsburg. Quem vem para a Alemanha esperando encontrar um monte de gente loira de pele clara e olho azul se surpreenderá. Vários desses estrangeiros vêm para se formar aqui, outros tantos apenas para intercâmbio: China, Japão, Vietnã, Turquia, Argélia, Ucrânia, Peru, País de Gales, França, Itália são apenas alguns dos países que estavam lá representados. Naquela mesma quinta, de tarde, comi pela primeira vez no bandejão daqui. Eles chamam de “Mensa”. É uma grande instalação de muros e teto brancos, mantida pelo Studentenwerk Augsburg (algo como se fosse a FUMP lá da UFMG) e com um sistema supermoderno. Você paga cinco euros pelo cartão magnético e carrega-o em uma máquina que tem lá dentro. Na hora de pagar você mostra sua refeição para a moça do caixa, ela digita o valor no computador, você passa o cartão no leitor e então o valor é descontado. Nada de filas imensas, catracas, pessoas procurando desesperadamente o dinheiro para pagar o caixa ou inconvenientes batendo papo com os funcionários na hora de servirem-se. Nunca odiei o bandejão da UFMG – comia lá sempre que possível e até gostava – mas sempre achei as filas quilométricas ao meio-dia um suplício.
No Mensa há mais opções e, como o preço não é fixo, não há limite de refeição: você pega tudo o que quiser e tem também várias opções de bebidas (como num restaurante normal mesmo). Comi dois knödels (um bolinho feito de farinha de trigo, como uma almôndega) mergulhados em sopa de cogumelo, batata frita e tomate com pepino. Junto com a Coca Cola de 500 ml ficou tudo em 4 euros. Quem teve o prazer de me apresentar o Mensa foi o David, meu tutor aqui em Augsburg. Até hoje não descobri para que servem os tutores oficialmente, mas o David tem sido um grande amigo. Ele também estuda História e me disse que seu avô lutou na Rússia pela Wehrmacht durante a Segunda Guerra Mundial, mesmo não sendo nazista (foi forçado). Também me disse que apenas as pessoas mais velhas na Alemanha têm mais reservas na hora de falar sobre a Segunda Guerra, sendo que os mais jovens não se importam muito com isso.
Saí do Mensa farto. Aquelas almôndegas te enchem de uma tal maneira que você se sente como se tivesse comido o dobro. Despedi-me do David e fui para a Orientierungsphase da Philologisch-Historische Fakultät (a faculdade de História e Letras daqui; curiosamente, os cursos de Filosofia e Ciências Sociais são em outra faculdade). A Orientierungsphase é uma espécie de introdução da faculdade aos calouros. Pensei que eles fossem dar informações relevantes sobre as disciplinas, professores, funcionamento da faculdade e coisas do tipo. Nada disso aconteceu: tudo não passou de uma espécie de “calourada educativa” com provas e gincanas – a tarde inteira. Como diria o Chaves: “TERIA SIDO MELHOR IR VER O FILME DO PELÉ”.
Não me lembro de ter feito nada relevante na sexta-feira, além de ter dado uma volta pela cidade a fim de conhecer alguns pontos turísticos. Tirei fotos da prefeitura, um prédio imenso e muito bonito que fica de frente para uma grande praça onde muitos costumam se sentar no chão para conversar e comer – especialmente de tarde, para aproveitar um pouco do sol. Queria muito tirar fotos de uma grande fonte (se não me engano do século XVII) que tem ali em frente à prefeitura, com estátuas de imperadores romanos. O problema é que antes do inverno eles cobrem as estátuas com algumas estruturas de madeira ou metal para impedir que a neve as estrague, e só voltam a tirá-las na primavera – quando já não estarei mais aqui. Pena. Quando cheguei elas ainda estavam descobertas! Depois de passar pela prefeitura fui até um conjunto habitacional chamado Fuggerei. Ele foi fundado na primeira metade do século XVI pelo banqueiro Hans Jakob Fugger, uma das figuras mais ilustres de Augsburg. Ele construiu Fuggerei para abrigar famílias pobres de Augsburg e até hoje o conjunto tem essa função, figurando como a moradia mais antiga do mundo para pessoas de baixa renda.
No sábado de manhã, em uma visita guiada pela cidade, tive a oportunidade de entrar na prefeitura e fotografar o salão interior, todo ornamentado com pinturas de imperadores romanos e estátuas de ouro. A guia nos disse que quase 80% dos prédios de Augsburg foram destruídos em bombardeios aliados em fevereiro de 1944, sendo reconstruídos após a guerra com base em seus desenhos originais. A prefeitura foi um deles. Por pouco eu não pude fotografar os salões do interior da prefeitura: na hora de tirar a primeira foto minhas pilhas acabaram. Algo que me acontecia com uma frequência impressionante na Malásia. No dia anterior eu tentei gastar a máquina o máximo possível, a fim de usar as pilhas até o fim e poder recarrega-las à noite. No entanto, as pilhas não acabavam, por mais que eu usasse a máquina. Esperaram para acabar exatamente quando eu estava lá dentro. Felizmente o Maurício, cuja câmera já estava cheia, me emprestou suas pilhas e eu me safei.
Sábado à noite saí com o David e alguns de seus amigos. Em uma de muitas conversas ele me disse que os descendentes de Hitler mudaram de sobrenome e que esse nome já não existe mais. Da mesma forma, é praticamente impossível encontrar pessoas na Alemanha com o nome de Adolf (apenas aqueles que nasceram antes da guerra). Ele me perguntou de que cidade eu vinha no Brasil e respondi que vinha de Belo Horizonte (não vejo muito sentido em dizer, na Alemanha, que eu vim de Lavras). Ele então comentou – e seus amigos concordaram – que “Belo Horizonte” tem uma sonoridade muito interessante e parece nome de boate de strip-tease. Segundo ele, aqui na Alemanha essas boates costumam ter nomes exóticos, de preferência de origem latina. Achei que fazia sentido, mas não soube o que pensar daquilo.
Procurei voltar para casa antes da meia-noite, quando ainda havia bondes passando (depois da meia-noite, só ônibus especiais). Aqui em Augsburg os estudantes pagam 90 euros no começo do semestre para andar o semestre inteiro em qualquer transporte público dentro da cidade: ônibus ou bondes (com exceção desse transporte depois da meia-noite, que é pago). Se o fiscal aparecer (até hoje isso já aconteceu duas vezes) é só mostrar seu comprovante de matrícula.
No domingo acordei na hora do almoço e passei toda a tarde estudando para a prova de nivelamento de alemão que eu teria na segunda de manhã. De acordo com meu desempenho nessa prova eu iria entrar num determinado nível do curso de alemão para estrangeiros que a universidade oferece. Segunda de manhã fiz a prova de nivelamento em um grande auditório quase lotado. Mais da metade do tempo da prova foi o professor explicando como funcionam os cursos, o conteúdo de cada um deles e como seríamos avaliados. Entendi razoavelmente bem o conteúdo do discurso dele; mais importante de tudo, entendi as piadas que ele fez. Ele disse, em alemão, que todos os alunos que não estivessem entendo o que ele dizia não precisavam fazer a prova e podiam ir direto para o nível A1 (básico). Quem entendeu riu, e ele disse que aqueles que riram podiam permanecer e os que não riram podiam sair. Como os que não riam não entendiam, eles permaneceram. De fato, quando a prova começou, muita gente levantou e entregou-a em branco. A prova consistia num pequeno ditado que esse mesmo professor leu. Ele leu um pouco rápido e por isso tive dificuldades. Depois havia uns 4 textos sobre a Alemanha e sobre como estudar alemão. Várias palavras, porém, estavam incompletas e então tínhamos que completa-las corretamente. Acho que me saí melhor nesse, embora eu tenha inventado algumas palavras onde eu não sabia. O problema foi só o tempo: acho que uns 20 minutos apenas... Tive que fazer na correria.
Segunda à tarde comprei um celular em uma loja da O2, uma das operadoras daqui. Nada de i-Phone, Smart Phone ou coisas do tipo. Fiz questão de levar o mais barato e básico de todos: Nokia C1-01, 49 euros, tem tudo aquilo que preciso num celular: fazer e receber chamadas, mandar e receber mensagens, MP3 e rádio. Meu Motorola já estava com alguns botões soltando e a bateria viciada, mas foi um bom companheiro ao longo desses dois anos e meio.
Na terça de manhã fui, pela terceira vez, ao departamento de estrangeiros regularizar minha situação aqui na Alemanha (nas outras duas vezes tinha chegado atrasado). Dessa vez cheguei a tempo. Em um prazo de seis a oito semanas estarei recebendo uma carta com algumas coisas (não lembro bem o que) e então mais uma vez deverei voltar lá para pegar uma espécie de identidade comprovando que sou estrangeiro regularmente residente na Alemanha. Na terça à noite me chamaram para uma “Stammtisch” (não sei como traduzir isso em português: é como se fosse aquela mesa do bar onde sempre se sentam os mesmos fregueses todos os dias). O evento era direcionado aos estudantes estrangeiros e consistia em uma série de brincadeiras, entre as quais um certo “speed-dating” (não perguntei o que era isso pois tive medo da resposta). Baseado na Orientierungsphase da faculdade de ciências humanas, preferi recusar. Ao invés de ir e terminar a noite parafraseando Chaves (“seria melhor ter ido ver o filme do Pelé”) preferi ficar em casa assistindo Chaves pelo YouTube. Ganhei muito mais com isso!
Por aqui muitos dizem que sou muito quieto, que não saio, que sou desanimado, que sou tímido. Pois eu creio que não há nada mais escabroso que um antissocial tentando se passar por extrovertido. Um homem fingindo ser mulher, uma criança se passando por adulto, um burro se passando por inteligente, um perna-de-pau pagando de artilheiro: tudo isso eu posso aceitar, menos um antissocial se passando por extrovertido.
Apesar disso, naquela terça não fiquei em casa. Resolvi visitar o Maximilianmuseum, um museu que tem próximo à prefeitura. Aproveitei que ele ficava aberto até às oito da noite e fui. Augsburg é a terceira cidade mais antiga da Alemanha, tendo sido fundada pelos romanos em 15 a. C.. Perde apenas para Trier (cidade natal de Karl Marx) e outra que não me lembro qual era. Assim, o acervo do museu é riquíssimo, com obras desde a Antiguidade Clássica, passando pela Idade Média, Renascimento (período culturalmente mais rico de Augsburg) e século XIX. Várias pinturas, esculturas barrocas (algumas das quais me lembravam um pouco aquelas de Minas Gerais), estátuas de imperadores e deuses romanos, imagens de santos... Não dá pra contar tudo que vi! Até porque cheguei um pouco tarde: o museu iria fechar em uma hora e precisei ver tudo correndo. Além disso, a maldição da câmera fotográfica mais uma vez me atacou: levei a câmera, mas larguei as pilhas em casa, no carregador. Pois é. Outro dia volto lá com mais tempo e com pilhas (isso se eu não esquecer a câmera em casa).
Na quarta fui ver o resultado de meu exame de alemão: fiquei no nível B2, em uma escala crescente que vai de A1 (mais básico) até C2 (mais avançado) – A1, A2, B1, B2, C1, C2. Mais tarde dei uma andada pela faculdade de ciências humanas para aprender onde ficam minhas salas de aula. Dei voltas e mais voltas no prédio inteiro (pelo menos no primeiro e segundo andar) e consegui achar todas elas. A faculdade está passando por reformas por isso pra todo lado existem obras, escadas, furadeiras e poeira. Minha primeira aula é no sábado de manhã. Peguei, ao todo, quatro matérias: três Übungen (exercícios) e um Proseminar (seminário), além da aula de alemão para estrangeiros. Os exercícios são mais práticos e buscam colocar o aluno mais próximo das fontes e dos arquivos, além de terem um número reduzido de alunos. Peguei um sobre imperialismo e colonialismo da Alemanha Guilhermina, outro sobre textos-chave para se entender o período 1830-1930 e outro de leituras sobre o período nazista. Na disciplina de seminário peguei um sobre a Primeira Guerra Mundial, mas como não tinha lugar estou na lista de espera.
Acho que não faz muito sentido pegar matérias demais. O idioma ainda é uma barreira para mim, por isso precisarei de mais tempo para me dedicar a cada uma dessas matérias. Já vim pra cá com um objetivo em mente: estudar como a imprensa alemã noticiou a visita do Kaiser Guilherme II ao Marrocos, em março de 1905 (um dos elementos constituintes da Primeira Crise do Marrocos e que conduziu à Primeira Guerra Mundial). Sendo assim, creio que as matérias que peguei são mais do que suficientes para me orientarem nessa pesquisa. Aliás, ando procurando por uma charge que vi num livro didático sobre o assunto: uma águia alemã protegendo alguns marroquinos diante de um galo francês. Essa charge é de 1906, de algum jornal alemão, e é extremamente emblemática do que pretendo analisar. Se alguém descobrir o nome do jornal, por favor me diga!
Na quinta, mais uma vez acordei tarde demais. Comi no Mensa e à tarde fui, junto com o Maurício e uma amiga peruana, até a IKEA, aquela loja de departamentos sueca. A loja fica nos arredores de Augsburg e é um monstro! Tem de tudo para a casa. Passamos a tarde toda andando pela loja. Comprei um lençol (até hoje estive dormindo sem!) mas não achei um desentupidor de pia, algo que preciso com certa urgência. Já faz alguns dias que a pia do banheiro entupiu. No começo a água ainda descia, mas demorava muito; agora ela parou de vez. Na verdade, nem ao menos sei como se diz “desentupidor” em alemão. Queria falar com o zelador da moradia, mas ele parece o 5102 que vai para a UFMG: aparece de mil em mil anos e só quando você não está por perto. Queria também pedir ao zelador uma cadeira (recentemente descobri que todos os outros quartos têm cadeira, menos o meu) pois minhas costas estão doendo de ficar sentado na cama.
E assim segue minha vida aqui no velho mundo. Não deixo de acompanhar o que acontece no Brasil: as notícias, o Pan de Guadalajara, o drama do Cruzeiro e a luta contra as aulas geminadas (recentemente respondi o questionário enviado por e-mail). Assim que puder mando mais notícias, mas prometo ser mais enxuto da próxima vez, com menos detalhes e mais reflexões. Auf wiedersehen!
No Mensa há mais opções e, como o preço não é fixo, não há limite de refeição: você pega tudo o que quiser e tem também várias opções de bebidas (como num restaurante normal mesmo). Comi dois knödels (um bolinho feito de farinha de trigo, como uma almôndega) mergulhados em sopa de cogumelo, batata frita e tomate com pepino. Junto com a Coca Cola de 500 ml ficou tudo em 4 euros. Quem teve o prazer de me apresentar o Mensa foi o David, meu tutor aqui em Augsburg. Até hoje não descobri para que servem os tutores oficialmente, mas o David tem sido um grande amigo. Ele também estuda História e me disse que seu avô lutou na Rússia pela Wehrmacht durante a Segunda Guerra Mundial, mesmo não sendo nazista (foi forçado). Também me disse que apenas as pessoas mais velhas na Alemanha têm mais reservas na hora de falar sobre a Segunda Guerra, sendo que os mais jovens não se importam muito com isso.
Saí do Mensa farto. Aquelas almôndegas te enchem de uma tal maneira que você se sente como se tivesse comido o dobro. Despedi-me do David e fui para a Orientierungsphase da Philologisch-Historische Fakultät (a faculdade de História e Letras daqui; curiosamente, os cursos de Filosofia e Ciências Sociais são em outra faculdade). A Orientierungsphase é uma espécie de introdução da faculdade aos calouros. Pensei que eles fossem dar informações relevantes sobre as disciplinas, professores, funcionamento da faculdade e coisas do tipo. Nada disso aconteceu: tudo não passou de uma espécie de “calourada educativa” com provas e gincanas – a tarde inteira. Como diria o Chaves: “TERIA SIDO MELHOR IR VER O FILME DO PELÉ”.
Não me lembro de ter feito nada relevante na sexta-feira, além de ter dado uma volta pela cidade a fim de conhecer alguns pontos turísticos. Tirei fotos da prefeitura, um prédio imenso e muito bonito que fica de frente para uma grande praça onde muitos costumam se sentar no chão para conversar e comer – especialmente de tarde, para aproveitar um pouco do sol. Queria muito tirar fotos de uma grande fonte (se não me engano do século XVII) que tem ali em frente à prefeitura, com estátuas de imperadores romanos. O problema é que antes do inverno eles cobrem as estátuas com algumas estruturas de madeira ou metal para impedir que a neve as estrague, e só voltam a tirá-las na primavera – quando já não estarei mais aqui. Pena. Quando cheguei elas ainda estavam descobertas! Depois de passar pela prefeitura fui até um conjunto habitacional chamado Fuggerei. Ele foi fundado na primeira metade do século XVI pelo banqueiro Hans Jakob Fugger, uma das figuras mais ilustres de Augsburg. Ele construiu Fuggerei para abrigar famílias pobres de Augsburg e até hoje o conjunto tem essa função, figurando como a moradia mais antiga do mundo para pessoas de baixa renda.
No sábado de manhã, em uma visita guiada pela cidade, tive a oportunidade de entrar na prefeitura e fotografar o salão interior, todo ornamentado com pinturas de imperadores romanos e estátuas de ouro. A guia nos disse que quase 80% dos prédios de Augsburg foram destruídos em bombardeios aliados em fevereiro de 1944, sendo reconstruídos após a guerra com base em seus desenhos originais. A prefeitura foi um deles. Por pouco eu não pude fotografar os salões do interior da prefeitura: na hora de tirar a primeira foto minhas pilhas acabaram. Algo que me acontecia com uma frequência impressionante na Malásia. No dia anterior eu tentei gastar a máquina o máximo possível, a fim de usar as pilhas até o fim e poder recarrega-las à noite. No entanto, as pilhas não acabavam, por mais que eu usasse a máquina. Esperaram para acabar exatamente quando eu estava lá dentro. Felizmente o Maurício, cuja câmera já estava cheia, me emprestou suas pilhas e eu me safei.
Sábado à noite saí com o David e alguns de seus amigos. Em uma de muitas conversas ele me disse que os descendentes de Hitler mudaram de sobrenome e que esse nome já não existe mais. Da mesma forma, é praticamente impossível encontrar pessoas na Alemanha com o nome de Adolf (apenas aqueles que nasceram antes da guerra). Ele me perguntou de que cidade eu vinha no Brasil e respondi que vinha de Belo Horizonte (não vejo muito sentido em dizer, na Alemanha, que eu vim de Lavras). Ele então comentou – e seus amigos concordaram – que “Belo Horizonte” tem uma sonoridade muito interessante e parece nome de boate de strip-tease. Segundo ele, aqui na Alemanha essas boates costumam ter nomes exóticos, de preferência de origem latina. Achei que fazia sentido, mas não soube o que pensar daquilo.
Procurei voltar para casa antes da meia-noite, quando ainda havia bondes passando (depois da meia-noite, só ônibus especiais). Aqui em Augsburg os estudantes pagam 90 euros no começo do semestre para andar o semestre inteiro em qualquer transporte público dentro da cidade: ônibus ou bondes (com exceção desse transporte depois da meia-noite, que é pago). Se o fiscal aparecer (até hoje isso já aconteceu duas vezes) é só mostrar seu comprovante de matrícula.
No domingo acordei na hora do almoço e passei toda a tarde estudando para a prova de nivelamento de alemão que eu teria na segunda de manhã. De acordo com meu desempenho nessa prova eu iria entrar num determinado nível do curso de alemão para estrangeiros que a universidade oferece. Segunda de manhã fiz a prova de nivelamento em um grande auditório quase lotado. Mais da metade do tempo da prova foi o professor explicando como funcionam os cursos, o conteúdo de cada um deles e como seríamos avaliados. Entendi razoavelmente bem o conteúdo do discurso dele; mais importante de tudo, entendi as piadas que ele fez. Ele disse, em alemão, que todos os alunos que não estivessem entendo o que ele dizia não precisavam fazer a prova e podiam ir direto para o nível A1 (básico). Quem entendeu riu, e ele disse que aqueles que riram podiam permanecer e os que não riram podiam sair. Como os que não riam não entendiam, eles permaneceram. De fato, quando a prova começou, muita gente levantou e entregou-a em branco. A prova consistia num pequeno ditado que esse mesmo professor leu. Ele leu um pouco rápido e por isso tive dificuldades. Depois havia uns 4 textos sobre a Alemanha e sobre como estudar alemão. Várias palavras, porém, estavam incompletas e então tínhamos que completa-las corretamente. Acho que me saí melhor nesse, embora eu tenha inventado algumas palavras onde eu não sabia. O problema foi só o tempo: acho que uns 20 minutos apenas... Tive que fazer na correria.
Segunda à tarde comprei um celular em uma loja da O2, uma das operadoras daqui. Nada de i-Phone, Smart Phone ou coisas do tipo. Fiz questão de levar o mais barato e básico de todos: Nokia C1-01, 49 euros, tem tudo aquilo que preciso num celular: fazer e receber chamadas, mandar e receber mensagens, MP3 e rádio. Meu Motorola já estava com alguns botões soltando e a bateria viciada, mas foi um bom companheiro ao longo desses dois anos e meio.
Na terça de manhã fui, pela terceira vez, ao departamento de estrangeiros regularizar minha situação aqui na Alemanha (nas outras duas vezes tinha chegado atrasado). Dessa vez cheguei a tempo. Em um prazo de seis a oito semanas estarei recebendo uma carta com algumas coisas (não lembro bem o que) e então mais uma vez deverei voltar lá para pegar uma espécie de identidade comprovando que sou estrangeiro regularmente residente na Alemanha. Na terça à noite me chamaram para uma “Stammtisch” (não sei como traduzir isso em português: é como se fosse aquela mesa do bar onde sempre se sentam os mesmos fregueses todos os dias). O evento era direcionado aos estudantes estrangeiros e consistia em uma série de brincadeiras, entre as quais um certo “speed-dating” (não perguntei o que era isso pois tive medo da resposta). Baseado na Orientierungsphase da faculdade de ciências humanas, preferi recusar. Ao invés de ir e terminar a noite parafraseando Chaves (“seria melhor ter ido ver o filme do Pelé”) preferi ficar em casa assistindo Chaves pelo YouTube. Ganhei muito mais com isso!
Por aqui muitos dizem que sou muito quieto, que não saio, que sou desanimado, que sou tímido. Pois eu creio que não há nada mais escabroso que um antissocial tentando se passar por extrovertido. Um homem fingindo ser mulher, uma criança se passando por adulto, um burro se passando por inteligente, um perna-de-pau pagando de artilheiro: tudo isso eu posso aceitar, menos um antissocial se passando por extrovertido.
Apesar disso, naquela terça não fiquei em casa. Resolvi visitar o Maximilianmuseum, um museu que tem próximo à prefeitura. Aproveitei que ele ficava aberto até às oito da noite e fui. Augsburg é a terceira cidade mais antiga da Alemanha, tendo sido fundada pelos romanos em 15 a. C.. Perde apenas para Trier (cidade natal de Karl Marx) e outra que não me lembro qual era. Assim, o acervo do museu é riquíssimo, com obras desde a Antiguidade Clássica, passando pela Idade Média, Renascimento (período culturalmente mais rico de Augsburg) e século XIX. Várias pinturas, esculturas barrocas (algumas das quais me lembravam um pouco aquelas de Minas Gerais), estátuas de imperadores e deuses romanos, imagens de santos... Não dá pra contar tudo que vi! Até porque cheguei um pouco tarde: o museu iria fechar em uma hora e precisei ver tudo correndo. Além disso, a maldição da câmera fotográfica mais uma vez me atacou: levei a câmera, mas larguei as pilhas em casa, no carregador. Pois é. Outro dia volto lá com mais tempo e com pilhas (isso se eu não esquecer a câmera em casa).
Na quarta fui ver o resultado de meu exame de alemão: fiquei no nível B2, em uma escala crescente que vai de A1 (mais básico) até C2 (mais avançado) – A1, A2, B1, B2, C1, C2. Mais tarde dei uma andada pela faculdade de ciências humanas para aprender onde ficam minhas salas de aula. Dei voltas e mais voltas no prédio inteiro (pelo menos no primeiro e segundo andar) e consegui achar todas elas. A faculdade está passando por reformas por isso pra todo lado existem obras, escadas, furadeiras e poeira. Minha primeira aula é no sábado de manhã. Peguei, ao todo, quatro matérias: três Übungen (exercícios) e um Proseminar (seminário), além da aula de alemão para estrangeiros. Os exercícios são mais práticos e buscam colocar o aluno mais próximo das fontes e dos arquivos, além de terem um número reduzido de alunos. Peguei um sobre imperialismo e colonialismo da Alemanha Guilhermina, outro sobre textos-chave para se entender o período 1830-1930 e outro de leituras sobre o período nazista. Na disciplina de seminário peguei um sobre a Primeira Guerra Mundial, mas como não tinha lugar estou na lista de espera.
Acho que não faz muito sentido pegar matérias demais. O idioma ainda é uma barreira para mim, por isso precisarei de mais tempo para me dedicar a cada uma dessas matérias. Já vim pra cá com um objetivo em mente: estudar como a imprensa alemã noticiou a visita do Kaiser Guilherme II ao Marrocos, em março de 1905 (um dos elementos constituintes da Primeira Crise do Marrocos e que conduziu à Primeira Guerra Mundial). Sendo assim, creio que as matérias que peguei são mais do que suficientes para me orientarem nessa pesquisa. Aliás, ando procurando por uma charge que vi num livro didático sobre o assunto: uma águia alemã protegendo alguns marroquinos diante de um galo francês. Essa charge é de 1906, de algum jornal alemão, e é extremamente emblemática do que pretendo analisar. Se alguém descobrir o nome do jornal, por favor me diga!
Na quinta, mais uma vez acordei tarde demais. Comi no Mensa e à tarde fui, junto com o Maurício e uma amiga peruana, até a IKEA, aquela loja de departamentos sueca. A loja fica nos arredores de Augsburg e é um monstro! Tem de tudo para a casa. Passamos a tarde toda andando pela loja. Comprei um lençol (até hoje estive dormindo sem!) mas não achei um desentupidor de pia, algo que preciso com certa urgência. Já faz alguns dias que a pia do banheiro entupiu. No começo a água ainda descia, mas demorava muito; agora ela parou de vez. Na verdade, nem ao menos sei como se diz “desentupidor” em alemão. Queria falar com o zelador da moradia, mas ele parece o 5102 que vai para a UFMG: aparece de mil em mil anos e só quando você não está por perto. Queria também pedir ao zelador uma cadeira (recentemente descobri que todos os outros quartos têm cadeira, menos o meu) pois minhas costas estão doendo de ficar sentado na cama.
E assim segue minha vida aqui no velho mundo. Não deixo de acompanhar o que acontece no Brasil: as notícias, o Pan de Guadalajara, o drama do Cruzeiro e a luta contra as aulas geminadas (recentemente respondi o questionário enviado por e-mail). Assim que puder mando mais notícias, mas prometo ser mais enxuto da próxima vez, com menos detalhes e mais reflexões. Auf wiedersehen!
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