Já que a moda agora é ser louco
E seguir moda significa ser igual
Resolvi ser diferente um pouco
E virar uma pessoa normal.
"Quem quiser fale mal da literatura. Quanto a mim, direi que devo a ela minha salvação. Venho da rua oprimido, escrevo dez linhas, torno-me olímpico" (Cyro dos Anjos, "O amanuense Belmiro", 1937).
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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
domingo, 10 de janeiro de 2010
Nota de esclarecimento
Mais um ano começa, mais uma década se inicia.
Achei o momento propício para poder esclarecer possíveis dúvidas de alguns possíveis leitores que, por um motivo ou outro, resolveram acompanhar meu blog. Desde 2008, nos deparamos aqui, no hiperativo-categorico.blogspot, com toda uma gama de figuras exóticas, tipos excêntricos e personagens irreverentes, especialmente quando tratamos dos tipos ideais weberianos.
Não pude deixar de notar que por vezes essas figuras suscitaram dúvidas entre os leitores, muitos deles chegando a achar que em algum momento eu pudesse me identificar com alguma delas. Não que isso nunca tenha ocorrido, mas eu jamais me arriscaria a dizer que a elaboração dessas figuras teria qualquer propósito auto-crítico, salvo em alguns raros casos.
Sem mais delongas, proponho-me a revisar, um por um, todos os personagens analisados até aqui, deixando sempre claro quando existe - e quando não - qualquer sentimento de identidade entre criador e criatura.
O VESTIBULANDO FELIZ
É engraçado como tem gente que pensa que, só porque conseguiu marcar as bolinhas certas e escrever uma redação que agradasse a uns professores carrancudos, pode desfilar com toda pompa e orgulho, achando-se o verdadeiro escolhido de Deus. (Para maiores informações, basta ler as notas da nova Jerusalém e o comovente depoimento de Renato).
O JOVEM MOTORISTA INDEPENDENTE
Ser independente vai muito além de ter um carro. Muito mais importante é ter a capacidade de comprá-lo e não dever satisfação a ninguém quando batê-lo. Não quero uma independência ao estilo de "território autônomo" ou "departamento de ultramar"; quero uma independência ao estilo "Dien Bien Phu"!
O MISSIONÁRIO ATEU
Ele está por aí, em todo lugar ao meu redor: pode ser meu professor, meu colega de sala, meu amigo e tantos outros... Desde que não seja eu, e que não me venha salmodiar as boas-novas do ateísmo, por mim tudo bem.
O CINÉFILO
Aqui dá-se quase o mesmo que com o missionário ateu: ele me cerca por todos os lados, impossível evitá-lo. Mas tudo vai bem, desde que não me contamine.
O ESTUDANTE DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS
Como fiz questão de deixar claro no próprio texto, ele possui um caráter auto-crítico. Mas como não sou mais um estudante de R.I., suponho que tenha se tornado anacrônico.
O CHRAETINUS IGNOBILIS
Uma de minhas mais perfeitas e trágicas criações! E é justamente por lhe dever tanto mérito que faço questão de me afastar dela, e deixar que ela se chafurde sozinha em tanto glamour.
RENATO: O CALOURO FELIZ
Acredite ou não: ele existe (mas não é dono deste blog).
N.
Diria apenas que N. é a personificação daquilo que busco não ser. Diria ainda que N. é uma versão manca de mim - um Marcelo coxo, ruim das pernas. Por isso mesmo ele é N., e não M..
HENRIQUE, O HISTORIADOR CONFIANTE
A diferença entre a prostituta acadêmica e a de beira de estrada não é lá muito significativa: ambas adoram rodar a bolsinha. Acontece que a prostituta de beira de estrada o faz como descontração, ao passo que a acadêmica o faz por ostentação: adora mostrar aos outros a bolsa que conseguiu do professor com o qual manteve relações promíscuas (sejam elas morais ou quem sabe até mesmo físicas) - relações essas sem as quais jamais conseguiria a bolsa ostentada.
Achei o momento propício para poder esclarecer possíveis dúvidas de alguns possíveis leitores que, por um motivo ou outro, resolveram acompanhar meu blog. Desde 2008, nos deparamos aqui, no hiperativo-categorico.blogspot, com toda uma gama de figuras exóticas, tipos excêntricos e personagens irreverentes, especialmente quando tratamos dos tipos ideais weberianos.
Não pude deixar de notar que por vezes essas figuras suscitaram dúvidas entre os leitores, muitos deles chegando a achar que em algum momento eu pudesse me identificar com alguma delas. Não que isso nunca tenha ocorrido, mas eu jamais me arriscaria a dizer que a elaboração dessas figuras teria qualquer propósito auto-crítico, salvo em alguns raros casos.
Sem mais delongas, proponho-me a revisar, um por um, todos os personagens analisados até aqui, deixando sempre claro quando existe - e quando não - qualquer sentimento de identidade entre criador e criatura.
O VESTIBULANDO FELIZ
É engraçado como tem gente que pensa que, só porque conseguiu marcar as bolinhas certas e escrever uma redação que agradasse a uns professores carrancudos, pode desfilar com toda pompa e orgulho, achando-se o verdadeiro escolhido de Deus. (Para maiores informações, basta ler as notas da nova Jerusalém e o comovente depoimento de Renato).
O JOVEM MOTORISTA INDEPENDENTE
Ser independente vai muito além de ter um carro. Muito mais importante é ter a capacidade de comprá-lo e não dever satisfação a ninguém quando batê-lo. Não quero uma independência ao estilo de "território autônomo" ou "departamento de ultramar"; quero uma independência ao estilo "Dien Bien Phu"!
O MISSIONÁRIO ATEU
Ele está por aí, em todo lugar ao meu redor: pode ser meu professor, meu colega de sala, meu amigo e tantos outros... Desde que não seja eu, e que não me venha salmodiar as boas-novas do ateísmo, por mim tudo bem.
O CINÉFILO
Aqui dá-se quase o mesmo que com o missionário ateu: ele me cerca por todos os lados, impossível evitá-lo. Mas tudo vai bem, desde que não me contamine.
O ESTUDANTE DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS
Como fiz questão de deixar claro no próprio texto, ele possui um caráter auto-crítico. Mas como não sou mais um estudante de R.I., suponho que tenha se tornado anacrônico.
O CHRAETINUS IGNOBILIS
Uma de minhas mais perfeitas e trágicas criações! E é justamente por lhe dever tanto mérito que faço questão de me afastar dela, e deixar que ela se chafurde sozinha em tanto glamour.
RENATO: O CALOURO FELIZ
Acredite ou não: ele existe (mas não é dono deste blog).
N.
Diria apenas que N. é a personificação daquilo que busco não ser. Diria ainda que N. é uma versão manca de mim - um Marcelo coxo, ruim das pernas. Por isso mesmo ele é N., e não M..
HENRIQUE, O HISTORIADOR CONFIANTE
A diferença entre a prostituta acadêmica e a de beira de estrada não é lá muito significativa: ambas adoram rodar a bolsinha. Acontece que a prostituta de beira de estrada o faz como descontração, ao passo que a acadêmica o faz por ostentação: adora mostrar aos outros a bolsa que conseguiu do professor com o qual manteve relações promíscuas (sejam elas morais ou quem sabe até mesmo físicas) - relações essas sem as quais jamais conseguiria a bolsa ostentada.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
A saga de N. (II)
E eis que N. era um jovem e exímio pintor, cujas mãos, mais do que pintar, faziam maravilhas com o pincel, a tinta e a tela. Seu talento era tamanho que atraía pessoas de todas as regiões ao redor para contemplar e adquirir suas obras, não se importando em pagar por elas preços exorbitantes, de tão lindas que eram. Duas pessoas tinham especial apreço pela obra de N.. Admiravam-no tanto, que até o contrataram como seu pintor particular.
Uma dessas pessoas era um senhor que morava sozinho e vivia em uma casa sombria. Todo final de semana, N. ia até sua residência e lhe pintava um quadro, cujo tema era sempre sugerido pelo senhor. Este, no entanto, tinha um gosto quase obsessivo por cores escuras e sóbrias, como o cinza e o preto. Sendo assim, sempre que julgava que o artista tinha abusado um pouco das cores vivas, o senhor o repreendia, batendo em sua mão esquerda com um martelo. Repetia tal atitude religiosamente, sempre que notasse qualquer manifestação de cores vivas no quadro, por mais discreta que fosse.
Por outro lado, N. também era o pintor particular de uma senhora que habitava uma casa amplamente iluminada pela luz do sol, à beira de uma simpática lagoa. A senhora gostava muito de cores vivas e pulsantes em seus quadros, de modo que, sempre que N. fizesse um uso significativo de cores tristes e escuras, ela o punia com uma martelada na mão direita. Por desprezível que possa parecer, a senhora nunca mostrou escrúpulos por tal atitude
N. sempre se resignava diante desses maus tratos. Sua mão doía e se danificava cada vez mais, mas cada vez mais ele procurava agradar a seus respectivos patrões. Quanto mais ele escurecia as pinturas do senhor, no entanto, mais exigente este se tornava e mais marteladas lhe dava; quanto mais clareava as obras da senhora, mais exigente se lhe apresentava e mais marteladas eram necessárias.
N. chegou aos seus quarenta anos de idade com ambas as mãos completamente deformadas e inutilizadas. Tão logo souberam que ele não mais poderia exercer seus ofícios de pintor, seus senhores correram para sua casa a fim de se vingarem da desfeita. Os dois gostavam tanto dos quadros de N. e confiavam tanto nele, que não podiam aceitar o fato de terem sido por ele traído de forma tão grosseira. Inconformados que estavam, começaram a espancar o artista. Não cessaram até que o tivessem matado.
Uma vez sepultado o cadáver de N. no quintal dos fundos, o senhor da casa sombria convidou a senhora da casa iluminada para uma xícara de chá. Ambos viriam a se casar três meses mais tarde.
Uma dessas pessoas era um senhor que morava sozinho e vivia em uma casa sombria. Todo final de semana, N. ia até sua residência e lhe pintava um quadro, cujo tema era sempre sugerido pelo senhor. Este, no entanto, tinha um gosto quase obsessivo por cores escuras e sóbrias, como o cinza e o preto. Sendo assim, sempre que julgava que o artista tinha abusado um pouco das cores vivas, o senhor o repreendia, batendo em sua mão esquerda com um martelo. Repetia tal atitude religiosamente, sempre que notasse qualquer manifestação de cores vivas no quadro, por mais discreta que fosse.
Por outro lado, N. também era o pintor particular de uma senhora que habitava uma casa amplamente iluminada pela luz do sol, à beira de uma simpática lagoa. A senhora gostava muito de cores vivas e pulsantes em seus quadros, de modo que, sempre que N. fizesse um uso significativo de cores tristes e escuras, ela o punia com uma martelada na mão direita. Por desprezível que possa parecer, a senhora nunca mostrou escrúpulos por tal atitude
N. sempre se resignava diante desses maus tratos. Sua mão doía e se danificava cada vez mais, mas cada vez mais ele procurava agradar a seus respectivos patrões. Quanto mais ele escurecia as pinturas do senhor, no entanto, mais exigente este se tornava e mais marteladas lhe dava; quanto mais clareava as obras da senhora, mais exigente se lhe apresentava e mais marteladas eram necessárias.
N. chegou aos seus quarenta anos de idade com ambas as mãos completamente deformadas e inutilizadas. Tão logo souberam que ele não mais poderia exercer seus ofícios de pintor, seus senhores correram para sua casa a fim de se vingarem da desfeita. Os dois gostavam tanto dos quadros de N. e confiavam tanto nele, que não podiam aceitar o fato de terem sido por ele traído de forma tão grosseira. Inconformados que estavam, começaram a espancar o artista. Não cessaram até que o tivessem matado.
Uma vez sepultado o cadáver de N. no quintal dos fundos, o senhor da casa sombria convidou a senhora da casa iluminada para uma xícara de chá. Ambos viriam a se casar três meses mais tarde.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Henrique, o historiador confiante
Esse é um dia na vida de Henrique. Henrique tem dezenove anos de idade e é estudante do primeiro período de História na UFMG. Todos os dias ele acorda cedo e vai pra aula, feliz, contente, confiante de que aquele será mais um dia de muito aprendizado.
No primeiro horário, sua primeira aula: Tópicos em História das Minas setecentistas: história da mineração diamantífera no Arraial do Tejuco, com um dos maiores especialistas no assunto. Ele se senta na primeira fileira, assiste à aula atentamente, anota, questiona, pergunta – até aquilo que já sabe – e tece comentários extremamente produtivos, repetindo com outras palavras o que já foi dito pelo professor. Ao fim da aula ele aborda o professor, atrasando ao máximo sua saída da sala. O conteúdo da conversa pode ser o mais diverso: desde o pedido de uma bibliografia adicional sobre o tema ministrado naquela aula até uma crítica edificante sobre algum artigo publicado pelo professor.
No intervalo entre as duas aulas Henrique não sai da sala; prefere se preparar mentalmente relendo os textos que serão o tema da matéria do próximo horário: Estudos de História Econômica de Minas Gerais: análise historiográfica dos cadernos de contabilidade das mercearias das Minas setecentistas. O procedimento adotado nessa aula é exatamente o mesmo, com a pequena diferença que agora Henrique tece menos comentários: por motivos ainda não conhecidos pelo garoto, o professor costuma ignorar suas falas, cortando-as com uma certa frequência. Mas Henrique é confiante e não desiste. Ao fim da aula ele aborda o professor. Dessa vez, o tema é bastante específico: está pleiteando um emprego no Museu do Pão de Queijo, iniciativa levada a cabo pelo docente. A fim de conseguir uma vaga, ele se mostra extremamente solícito para com o professor, carregando seus livros e sua pasta, comprando-lhe café na cantina e mandando-lhe e-mails no final de semana, que raramente são respondidos.
À tarde, Henrique almoça e vai para a biblioteca. Passa a tarde estudando os mais variados temas: lê artigos acadêmicos sobre as origens da pobreza em Minas Gerais, analisa a precariedade das condições sociais de Vila Rica no ápice da mineração, estuda a vida miserável que muitos homens livres levavam na capitania e se surpreende ao ler as terríveis condições nas quais muitos dos escravos mineradores trabalhavam. Henrique ainda acha tempo para estudar um pouco de francês, língua que ele acredita lhe conferir certo distintivo sócio-intelectual; o rapaz optou pelo francês por considerar o espanhol muito fácil, o inglês a língua do imperialismo e o alemão a língua do nazismo. Curiosamente, uma das poucas questões com as quais Henrique teve algum problema no vestibular foi uma que dizia respeito à guerra de independência na Argélia.
Às seis, Henrique tem sua última aula no dia: Teares e Pocilgas: uma análise da complementaridade entre a indústria têxtil e a criação de suínos nas Minas setecentistas. Henrique já está com sono, mas não se entrega fácil. Segue ligado na aula, mas infelizmente não tem mais paciência para abordar o professor no final. Tudo bem – ele pensa – , fica pra próxima.
Henrique volta pra casa ao final de mais um dia na universidade. Ao chegar em sua rua, busca se esquivar desesperadamente de um pedinte que lhe suplica moedas para comprar um pão. Olha com um certo nojo as condições nas quais os outros moradores de rua se instalam, embaixo de uma marquise, ao mesmo tempo que procura apertar o passo: precisa dormir cedo. No dia seguinte, Henrique tem uma defesa de tese de mestrado para assistir cujo tema é de seu interesse: Mais do Mesmo: história dos vícios e da dependência química nas Minas setecentistas. Ele entra em seu quarto, arruma sua mochila, deita e descansa um pouco. Reflete sobre os mendigos que viu e os que estudou; conclui que da próxima vez tomará um caminho mais longo do ponto de ônibus até seu prédio, a fim de evitar os pedintes.
No primeiro horário, sua primeira aula: Tópicos em História das Minas setecentistas: história da mineração diamantífera no Arraial do Tejuco, com um dos maiores especialistas no assunto. Ele se senta na primeira fileira, assiste à aula atentamente, anota, questiona, pergunta – até aquilo que já sabe – e tece comentários extremamente produtivos, repetindo com outras palavras o que já foi dito pelo professor. Ao fim da aula ele aborda o professor, atrasando ao máximo sua saída da sala. O conteúdo da conversa pode ser o mais diverso: desde o pedido de uma bibliografia adicional sobre o tema ministrado naquela aula até uma crítica edificante sobre algum artigo publicado pelo professor.
No intervalo entre as duas aulas Henrique não sai da sala; prefere se preparar mentalmente relendo os textos que serão o tema da matéria do próximo horário: Estudos de História Econômica de Minas Gerais: análise historiográfica dos cadernos de contabilidade das mercearias das Minas setecentistas. O procedimento adotado nessa aula é exatamente o mesmo, com a pequena diferença que agora Henrique tece menos comentários: por motivos ainda não conhecidos pelo garoto, o professor costuma ignorar suas falas, cortando-as com uma certa frequência. Mas Henrique é confiante e não desiste. Ao fim da aula ele aborda o professor. Dessa vez, o tema é bastante específico: está pleiteando um emprego no Museu do Pão de Queijo, iniciativa levada a cabo pelo docente. A fim de conseguir uma vaga, ele se mostra extremamente solícito para com o professor, carregando seus livros e sua pasta, comprando-lhe café na cantina e mandando-lhe e-mails no final de semana, que raramente são respondidos.
À tarde, Henrique almoça e vai para a biblioteca. Passa a tarde estudando os mais variados temas: lê artigos acadêmicos sobre as origens da pobreza em Minas Gerais, analisa a precariedade das condições sociais de Vila Rica no ápice da mineração, estuda a vida miserável que muitos homens livres levavam na capitania e se surpreende ao ler as terríveis condições nas quais muitos dos escravos mineradores trabalhavam. Henrique ainda acha tempo para estudar um pouco de francês, língua que ele acredita lhe conferir certo distintivo sócio-intelectual; o rapaz optou pelo francês por considerar o espanhol muito fácil, o inglês a língua do imperialismo e o alemão a língua do nazismo. Curiosamente, uma das poucas questões com as quais Henrique teve algum problema no vestibular foi uma que dizia respeito à guerra de independência na Argélia.
Às seis, Henrique tem sua última aula no dia: Teares e Pocilgas: uma análise da complementaridade entre a indústria têxtil e a criação de suínos nas Minas setecentistas. Henrique já está com sono, mas não se entrega fácil. Segue ligado na aula, mas infelizmente não tem mais paciência para abordar o professor no final. Tudo bem – ele pensa – , fica pra próxima.
Henrique volta pra casa ao final de mais um dia na universidade. Ao chegar em sua rua, busca se esquivar desesperadamente de um pedinte que lhe suplica moedas para comprar um pão. Olha com um certo nojo as condições nas quais os outros moradores de rua se instalam, embaixo de uma marquise, ao mesmo tempo que procura apertar o passo: precisa dormir cedo. No dia seguinte, Henrique tem uma defesa de tese de mestrado para assistir cujo tema é de seu interesse: Mais do Mesmo: história dos vícios e da dependência química nas Minas setecentistas. Ele entra em seu quarto, arruma sua mochila, deita e descansa um pouco. Reflete sobre os mendigos que viu e os que estudou; conclui que da próxima vez tomará um caminho mais longo do ponto de ônibus até seu prédio, a fim de evitar os pedintes.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
A saga de N.
Na semana de seu vigésimo primeiro aniversário, N. se deparou com um fato aterrador: ele não sabia aproveitar a vida. Tantos anos, tantos dias, tanto tempo, tudo passado em branco, batido, como uma folha de papel na qual nunca nenhuma caneta ousou se aventurar.
Horrorizado com sua constatação, N. resolveu agir: pegou uma caneta e um caderno e trancou-se em seu quarto com a missão de não sair de lá até que houvesse elaborado uma estratégia eficaz para aproveitar a vida. N. não queria passar os próximos anos de sua existência da mesma maneira que passara os últimos 21: apático, indiferente, incapaz de viver intensamente cada momento.
Durante esses sete dias trancado N. estipulou um plano de metas: viagens a fazer, festas a frequentar, amigos a conhecer, restaurantes a degustar, filmes a assistir, amores a declarar... Já estava cansado de levar sua vida como se ele ainda tivesse muitas outras pela frente e pudesse se dar ao luxo de viver de forma medíocre.
Após muitas noites em claro, N. concluiu o trabalho na manhã do seu aniversário. Estava exausto, mas todos aqueles dias de reclusão valeram a pena: finalmente ele poderia viver sem medo de repetir os erros do passado. Seu plano de metas ficara impecável, e ele estava decidido a aproveitar a vida.
Feliz, N. saiu de sua casa naquela manhã ensolarada para encontrar os amigos e dar início à sua nova vida. Tão logo botou os pés na rua, foi atropelado por um caminhão de engradados de cerveja, vindo a falecer alguns minutos depois a poucos passos do meio-fio. O motorista do caminhão seguiu seu caminho sem prestar socorro. Estava muito atrasado para entregar uma encomenda na casa da mãe de N., que lhe preparava uma festa surpresa.
Horrorizado com sua constatação, N. resolveu agir: pegou uma caneta e um caderno e trancou-se em seu quarto com a missão de não sair de lá até que houvesse elaborado uma estratégia eficaz para aproveitar a vida. N. não queria passar os próximos anos de sua existência da mesma maneira que passara os últimos 21: apático, indiferente, incapaz de viver intensamente cada momento.
Durante esses sete dias trancado N. estipulou um plano de metas: viagens a fazer, festas a frequentar, amigos a conhecer, restaurantes a degustar, filmes a assistir, amores a declarar... Já estava cansado de levar sua vida como se ele ainda tivesse muitas outras pela frente e pudesse se dar ao luxo de viver de forma medíocre.
Após muitas noites em claro, N. concluiu o trabalho na manhã do seu aniversário. Estava exausto, mas todos aqueles dias de reclusão valeram a pena: finalmente ele poderia viver sem medo de repetir os erros do passado. Seu plano de metas ficara impecável, e ele estava decidido a aproveitar a vida.
Feliz, N. saiu de sua casa naquela manhã ensolarada para encontrar os amigos e dar início à sua nova vida. Tão logo botou os pés na rua, foi atropelado por um caminhão de engradados de cerveja, vindo a falecer alguns minutos depois a poucos passos do meio-fio. O motorista do caminhão seguiu seu caminho sem prestar socorro. Estava muito atrasado para entregar uma encomenda na casa da mãe de N., que lhe preparava uma festa surpresa.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Notas da Nova Jerusalém
Muitos jovens que ingressam nas concorridas instituições públicas de ensino superior do país, entram nesse ambiente imbuídos de um orgulho excessivo e, por vezes, caricato. Satisfeitos com a vitória alcançada, nossos novos universitários experimentam uma fase de êxtase, e sentem-se os verdadeiros escolhidos de Deus cada vez que enchem o peito para falar que estudam "na federal".
O jovem universitário se denomina um orgulhoso membro da "elite intelectual do país" – uma entidade mítica, lendária, que só existe dentro de sua cabeça. Ele venceu uma concorrência impiedosa, desbancou adversários e superou o horror de uma das fases mais lamentáveis de nossa vida; enfim, derrotou muitos mares vermelhos para chegar nessa terra prometida à qual poucos têm acesso. E a forma que ele adota para comemorar essa vitória costuma ser peculiar.
Tão logo começam as aulas, ele se converte em um ser esnobe, cheio de si: satiriza aqueles que não passaram classificando-os de "burros" ou "incapazes" e participa de comunidades no Orkut cujo intuito é justamente reunir esses bravos herois que passaram "na federal" em um local onde eles possam cantar toda a sua virtude e majestade.
Sim, a universidade virou objeto de ostentação! Estudar "na federal" dá status entre os amigos. "A federal" é envolta por todo um glamour, toda uma mística que se expressa nos novos e débeis hábitos que o estudante adquire.Esse universitário compraz-se não tanto em ter passado, mas em ter deixado vários outros de fora. Sua atitude reflete uma noção cara à nossa sociedade: só podemos triunfar se alguém definha. Mas afinal, não é a educação um problema social tal como a moradia e a saúde? O estudante que não conseguiu entrar na universidade pública está também sendo privado de seus direitos, tal como uma pessoa que vive na favela ou que não consegue ser atendida no hospital. Frente a esse problema, qual é a solução que nosso universitário - o futuro da nação - encontra? Debochar dos "incapazes", é claro! É muito mais fácil e muito mais divertido do que buscar soluções eficazes. Além do mais, ele já gastou neurônios o suficiente para passar no vestibular; merece, portanto, ter seu descanso intelectual.
E os vis mortais que não passaram no vestibular? Eles que rezem para que, no meio de tantos escolhidos de Deus que habitam essa cidade sagrada - essa Nova Jerusalém chamada universidade pública, - no meio de tantas mentes capazes, possa surgir o novo Messias. E que, tal como Jesus estendeu a salvação para além do povo judeu, ele estenda a universidade pública para além dos escolhidos pelo dedo do vestibular.
O jovem universitário se denomina um orgulhoso membro da "elite intelectual do país" – uma entidade mítica, lendária, que só existe dentro de sua cabeça. Ele venceu uma concorrência impiedosa, desbancou adversários e superou o horror de uma das fases mais lamentáveis de nossa vida; enfim, derrotou muitos mares vermelhos para chegar nessa terra prometida à qual poucos têm acesso. E a forma que ele adota para comemorar essa vitória costuma ser peculiar.
Tão logo começam as aulas, ele se converte em um ser esnobe, cheio de si: satiriza aqueles que não passaram classificando-os de "burros" ou "incapazes" e participa de comunidades no Orkut cujo intuito é justamente reunir esses bravos herois que passaram "na federal" em um local onde eles possam cantar toda a sua virtude e majestade.
Sim, a universidade virou objeto de ostentação! Estudar "na federal" dá status entre os amigos. "A federal" é envolta por todo um glamour, toda uma mística que se expressa nos novos e débeis hábitos que o estudante adquire.Esse universitário compraz-se não tanto em ter passado, mas em ter deixado vários outros de fora. Sua atitude reflete uma noção cara à nossa sociedade: só podemos triunfar se alguém definha. Mas afinal, não é a educação um problema social tal como a moradia e a saúde? O estudante que não conseguiu entrar na universidade pública está também sendo privado de seus direitos, tal como uma pessoa que vive na favela ou que não consegue ser atendida no hospital. Frente a esse problema, qual é a solução que nosso universitário - o futuro da nação - encontra? Debochar dos "incapazes", é claro! É muito mais fácil e muito mais divertido do que buscar soluções eficazes. Além do mais, ele já gastou neurônios o suficiente para passar no vestibular; merece, portanto, ter seu descanso intelectual.
E os vis mortais que não passaram no vestibular? Eles que rezem para que, no meio de tantos escolhidos de Deus que habitam essa cidade sagrada - essa Nova Jerusalém chamada universidade pública, - no meio de tantas mentes capazes, possa surgir o novo Messias. E que, tal como Jesus estendeu a salvação para além do povo judeu, ele estenda a universidade pública para além dos escolhidos pelo dedo do vestibular.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
E eis que um dia todo Lula vira presidente
Não é de hoje que nós, do hiperativo-categorico.blogspot, ironizamos o inebriante orgulho dos estudantes brasileiros que, uma vez aprovados em uma universidade federal, sentem-se os escolhidos de Deus após tal conquista.
Acontece que, recentemente, este mesmo quem vos fala foi condecorado com tal mérito, e não obstante sua merecida felicidade, ficou um pouco atormentado ao ver-se virando tudo aquilo que ele um dia satirizou.
A verdade é que o mundo dá voltas, e tal como Lula virou presidente, os porcos de Orwell tomaram o controle da fazenda e os comunistas tomaram o poder dos czares na União Soviética, estamos sempre fadados a virar aquilo que outrora condenamos. É esse o destino fatídico de grande parte da humanidade.
O texto a seguir nada mais é do que uma forma de descontração em meio a esse fatídico destino que acabo de encontrar; mais do que isso, é um compromisso que assumo de jamais virar mais um Renato da vida.
Não sei quem é Renato. Pode ser que ele seja meu alter-ego, embora eu prefira considerá-lo apenas um tipo ideal de vestibulando feliz (vide post número 1). Queira Deus apenas que ele não seja meu filho.
Acontece que, recentemente, este mesmo quem vos fala foi condecorado com tal mérito, e não obstante sua merecida felicidade, ficou um pouco atormentado ao ver-se virando tudo aquilo que ele um dia satirizou.
A verdade é que o mundo dá voltas, e tal como Lula virou presidente, os porcos de Orwell tomaram o controle da fazenda e os comunistas tomaram o poder dos czares na União Soviética, estamos sempre fadados a virar aquilo que outrora condenamos. É esse o destino fatídico de grande parte da humanidade.
O texto a seguir nada mais é do que uma forma de descontração em meio a esse fatídico destino que acabo de encontrar; mais do que isso, é um compromisso que assumo de jamais virar mais um Renato da vida.
Não sei quem é Renato. Pode ser que ele seja meu alter-ego, embora eu prefira considerá-lo apenas um tipo ideal de vestibulando feliz (vide post número 1). Queira Deus apenas que ele não seja meu filho.
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