Não é de hoje que nós, do hiperativo-categorico.blogspot, ironizamos o inebriante orgulho dos estudantes brasileiros que, uma vez aprovados em uma universidade federal, sentem-se os escolhidos de Deus após tal conquista.
Acontece que, recentemente, este mesmo quem vos fala foi condecorado com tal mérito, e não obstante sua merecida felicidade, ficou um pouco atormentado ao ver-se virando tudo aquilo que ele um dia satirizou.
A verdade é que o mundo dá voltas, e tal como Lula virou presidente, os porcos de Orwell tomaram o controle da fazenda e os comunistas tomaram o poder dos czares na União Soviética, estamos sempre fadados a virar aquilo que outrora condenamos. É esse o destino fatídico de grande parte da humanidade.
O texto a seguir nada mais é do que uma forma de descontração em meio a esse fatídico destino que acabo de encontrar; mais do que isso, é um compromisso que assumo de jamais virar mais um Renato da vida.
Não sei quem é Renato. Pode ser que ele seja meu alter-ego, embora eu prefira considerá-lo apenas um tipo ideal de vestibulando feliz (vide post número 1). Queira Deus apenas que ele não seja meu filho.
"Quem quiser fale mal da literatura. Quanto a mim, direi que devo a ela minha salvação. Venho da rua oprimido, escrevo dez linhas, torno-me olímpico" (Cyro dos Anjos, "O amanuense Belmiro", 1937).
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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Renato, o calouro feliz
Olá!
Meu nome é Renato - meus amigos me chamam de Renatim -, tenho 18 anos de idade, sou natural de Belo Horizonte, acabei de passar na UFMG - e estou muito feliz por isso! Logo que saiu o resultado, fiquei tão feliz que, pra comemorar, bebi o dia inteiro com meus amigos e só fui acordar no dia seguinte, não lembrando de quase nada...! Foi muito bom, um dia inesquecível, mesmo sabendo que eu não passei pra um curso tão bom nem tão concorrido.
A história de como escolhi prestar vestibular pra tal curso é até estranha sabe...desde os onze anos de idade sempre quis fazer Engenharia Civil, porque meu pai é engenheiro civil e meu avô também era. Porém, no primeiro ano do ensino médio resolvi que iria prestar vestibular pra Medicina, pois o guia do estudante disse que o salário é melhor e o mercado de trabalho também. Já no terceiro ano, quando estava quase me formando e conciliando cursinho com a escola, comecei a ficar meio vagabundo, faltava muito às aulas pra beber e jogar truco e estudava muito pouco. Logo percebi que não ia dar pra passar em Medicina, porque a concorrência na UFMG é muito foda. Fiquei com medo de fracassar no vestibular e ter que fazer cursinho novamente no outro ano - e cursinho é muito ruim, credo, não quero voltar jamais!
Decidi então mudar de idéia e tentar vestibular pra outro curso, um curso mais fácil, mais tranquilo pra passar...inscrevi-me então pra História, mas até hoje não sei bem porquê. Minha vida inteira sempre odiei História (peguei recuperação duas vezes, na quinta e na oitava séries) e só passei a me interessar mesmo no cursinho, porque tive um professor muito bom que dizia que o curso era ótimo. Acho que foi ele quem me incentivou a prestar pra História, e aí felizmente eu passei!
Não sei bem ainda o que eu quero com esse curso (se é que realmente quero alguma coisa), nem tenho muitas ambições quanto a ele até o momento. Acho que no terceiro ou quarto período vou ver se tento transferência pra Engenharia ou pro Direito. Mas o importante mesmo é que eu passei, e foi na FEDERAL! Sempre foi meu sonho estudar na UFMG, e nem ligo muito se o curso não era realmente o que eu queria. Pelo menos agora vou poder zuar meus amigos que estudam na PUC e entrar naquela comu do Orkut "Ih, foi mal! A minha é federal!" para poder confraternizar com estudantes de todo o país e principalmente zuar aqueles mais burrinhos que tentaram mas não conseguiram, e agora estão em universidades particulares...hauahauahauha! Universidade privada é muito ruim, nem se compara à federal... aliás, acho que lugar de merda é na privada mesmo! hauahauahua...
Só quem não está muito feliz é o meu pai...o sonho dele era que eu fosse engenheiro que nem ele, ou então médico, que nem o meu tio...ou até mesmo advogado, que nem minha mãe. Ele disse que o curso de História não leva à nada, ainda mais pra mim que nunca gostei de História. Acho isso uma grande mentira, porque o guia do estudante disse que o salário médio inicial de um historiador gira entre 1300 e 2300 reais, acredita?! E na mostra de profissões da UFMG, o cara do stand de História me falou que o mercado de trabalho na área só tende a melhorar, pois a demanda por historiadores tem crescido muito, mesmo em época de crise econômica. Isso tudo me motivou ainda mais a escolher o curso.
Meu pai continuou discordando, falando que se pelo menos eu me interessasse pelo assunto, lesse mais sobre história do Brasil e do mundo e demonstrasse algum entusiasmo, ele ainda botava fé em mim. Ele até se propôs a pagar uma particular pra mim, se o curso fosse Medicina ou Engenharia Civil, mas particular nem rola. Estudar na particular não dá status, sabe? Não troco o glamour da federal por nada nesse mundo!
A verdade é que eu nem me importo com isso...o importante é que eu passei, e foi na federal, e tô indo estudar na FAFICH! Ouvi falar que lá é cheio de maconheiro e o pessoal adora tomar todas depois da aula...hauahauha, acho que vou gostar muito de lá então! Matar aula pra beber, jogar sinuca, isso pra mim é o paraíso! Acho que até vo desistir da Medicina depois que entrar lá, heuehueheuhe...E tipo, eu nunca experimentei maconha, mas quando eu estiver lá dentro vo ter que experimentar, vo pedir pros meus veteranos me ensinarem a fumar, é bom que ajuda a socializar com todos eles! E ajuda ainda a dar umas viajadas, porque o curso de História demanda muita criatividade, muita imaginação, impossíveis de serem alcançadas quando se está sóbrio...huahauahaua!
Meu nome é Renato - meus amigos me chamam de Renatim -, tenho 18 anos de idade, sou natural de Belo Horizonte, acabei de passar na UFMG - e estou muito feliz por isso! Logo que saiu o resultado, fiquei tão feliz que, pra comemorar, bebi o dia inteiro com meus amigos e só fui acordar no dia seguinte, não lembrando de quase nada...! Foi muito bom, um dia inesquecível, mesmo sabendo que eu não passei pra um curso tão bom nem tão concorrido.
A história de como escolhi prestar vestibular pra tal curso é até estranha sabe...desde os onze anos de idade sempre quis fazer Engenharia Civil, porque meu pai é engenheiro civil e meu avô também era. Porém, no primeiro ano do ensino médio resolvi que iria prestar vestibular pra Medicina, pois o guia do estudante disse que o salário é melhor e o mercado de trabalho também. Já no terceiro ano, quando estava quase me formando e conciliando cursinho com a escola, comecei a ficar meio vagabundo, faltava muito às aulas pra beber e jogar truco e estudava muito pouco. Logo percebi que não ia dar pra passar em Medicina, porque a concorrência na UFMG é muito foda. Fiquei com medo de fracassar no vestibular e ter que fazer cursinho novamente no outro ano - e cursinho é muito ruim, credo, não quero voltar jamais!
Decidi então mudar de idéia e tentar vestibular pra outro curso, um curso mais fácil, mais tranquilo pra passar...inscrevi-me então pra História, mas até hoje não sei bem porquê. Minha vida inteira sempre odiei História (peguei recuperação duas vezes, na quinta e na oitava séries) e só passei a me interessar mesmo no cursinho, porque tive um professor muito bom que dizia que o curso era ótimo. Acho que foi ele quem me incentivou a prestar pra História, e aí felizmente eu passei!
Não sei bem ainda o que eu quero com esse curso (se é que realmente quero alguma coisa), nem tenho muitas ambições quanto a ele até o momento. Acho que no terceiro ou quarto período vou ver se tento transferência pra Engenharia ou pro Direito. Mas o importante mesmo é que eu passei, e foi na FEDERAL! Sempre foi meu sonho estudar na UFMG, e nem ligo muito se o curso não era realmente o que eu queria. Pelo menos agora vou poder zuar meus amigos que estudam na PUC e entrar naquela comu do Orkut "Ih, foi mal! A minha é federal!" para poder confraternizar com estudantes de todo o país e principalmente zuar aqueles mais burrinhos que tentaram mas não conseguiram, e agora estão em universidades particulares...hauahauahauha! Universidade privada é muito ruim, nem se compara à federal... aliás, acho que lugar de merda é na privada mesmo! hauahauahua...
Só quem não está muito feliz é o meu pai...o sonho dele era que eu fosse engenheiro que nem ele, ou então médico, que nem o meu tio...ou até mesmo advogado, que nem minha mãe. Ele disse que o curso de História não leva à nada, ainda mais pra mim que nunca gostei de História. Acho isso uma grande mentira, porque o guia do estudante disse que o salário médio inicial de um historiador gira entre 1300 e 2300 reais, acredita?! E na mostra de profissões da UFMG, o cara do stand de História me falou que o mercado de trabalho na área só tende a melhorar, pois a demanda por historiadores tem crescido muito, mesmo em época de crise econômica. Isso tudo me motivou ainda mais a escolher o curso.
Meu pai continuou discordando, falando que se pelo menos eu me interessasse pelo assunto, lesse mais sobre história do Brasil e do mundo e demonstrasse algum entusiasmo, ele ainda botava fé em mim. Ele até se propôs a pagar uma particular pra mim, se o curso fosse Medicina ou Engenharia Civil, mas particular nem rola. Estudar na particular não dá status, sabe? Não troco o glamour da federal por nada nesse mundo!
A verdade é que eu nem me importo com isso...o importante é que eu passei, e foi na federal, e tô indo estudar na FAFICH! Ouvi falar que lá é cheio de maconheiro e o pessoal adora tomar todas depois da aula...hauahauha, acho que vou gostar muito de lá então! Matar aula pra beber, jogar sinuca, isso pra mim é o paraíso! Acho que até vo desistir da Medicina depois que entrar lá, heuehueheuhe...E tipo, eu nunca experimentei maconha, mas quando eu estiver lá dentro vo ter que experimentar, vo pedir pros meus veteranos me ensinarem a fumar, é bom que ajuda a socializar com todos eles! E ajuda ainda a dar umas viajadas, porque o curso de História demanda muita criatividade, muita imaginação, impossíveis de serem alcançadas quando se está sóbrio...huahauahaua!
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Invasões bárbaras
DEVANEIO Nº 1
No alvorecer dos séculos XIII e XIV, a Europa acordou mais tranquila: as invasões bárbaras se escasseavam, as pessoas começavam a abandonar os campos e migrar para as cidades, e uma nova era parecia ter início, menos negra, menos mística e menos perigosa; mais racional, mais humana e mais segura. A Europa renascia da ignorância, buscava voltar à uma antigüidade da qual jamais deveria ter saído.
Aos poucos, a idéia de queimar bruxas na fogueira começou a parecer absurda; se não absurda, questionável. Andar pelas cidades deixou de representar um risco, pois não havia mais homens montados em cavalos empunhando espadas mortíferas e sedentos por sangue; finalmente, o homem medieval percebia que sua vida não tinha necessariamente que se confinar a um feudo, restrito feudo, que, embora não fosse confortável, era melhor do que lá fora onde o perigo rondava. A felicidade? Sim, a felicidade! Ela não estava somente no porvir, no além...ela também estava aqui, na terra, na vida real! Tamanha não foi a surpresa dos primeiros a perceberem que não teriam que esperar pela morte, e ainda pela aceitação no céu, para poderem ser felizes - poderiam sê-lo agora mesmo. Toda a estrutura que confinava os homens a alguns poucos pedaços de terra e a um senhor prepotente que cobrava satisfações começava a ruir.
E a natureza? Não, não era apenas para ser admirada e temida, mas também compreendida. As secas não eram castigos divinos, tinham explicações mais coerentes; a chuva e os trovões não eram a ira de Deus, eram fenômenos naturais, como o simples nascimento de um bebê. Aos poucos, o homem europeu abandonava um período de ignorância, paralisia, estagnação e conflito; talvez até tomado por uma certa vergonha, como um jovem menino que, ao crescer, recorda com amargura suas pirraças de infância e se pergunta como foi capaz de fazer uma coisa dessas.
Agora o mundo era mais belo, a vida fazia mais sentido, as cidades cresciam e prosperavam sem temer os perigosos homens bárbaros, e as trevas da Idade Média pareciam se dissipar de uma forma cada vez mais irreversível.
DEVANEIO Nº 2
Marcelo acordou no alvorecer de seus vinte e um anos de vida aliviado: os vestibulares foram vencidos, a aflição acabara, a frenética e angustiante maratona de estudos chegara a um fim definitivo. Saiu à rua para um passeio tranquilamente, mais tranquilamente do que nunca; não tinha mais o que temer do lado de fora. Em sua cidade natal, tudo parecia lembrá-lo do famigerado vestibular: aquelas árvores da praça, que acompanharam sua infância e adolescência e viram-no crescer em meio a medos e sonhos, pareciam sempre questioná-lo "passou? passou? passou?". A rua da escola na qual sempre estudara era ainda mais exigente: "e você, passou 14 anos me amolando para chegar no vestibular e fazer merda? Não acredito, meu Deus, eu pari um idiota! Tu desonraste meu nome por toda a eternidade!". Os prédios que ladeavam seu cursinho eram curtos, mas firmes: "passaste três meses aqui para nada! Passaste três meses aqui para nada!". Tão logo Marcelo abria o portão de sua casa, uma enxurrada de cobranças o perturbavam, querendo saber de seu desempenho.
Mas tudo aquilo finalmente chegara a um fim! Marcelo não mais precisava se confinar em sua casa, pregado à tela do computador, esperando pela lista de aprovados...sua vida não mais se restringia à sala de televisão e ao seu quarto. As manhãs eram mais belas, as noites de sono mais calmas, as ruas da cidade menos ameaçadoras, as árvores da praça menos exigentes...Até Marcelo andava diferente: não ficava cabisbaixo, como de costume; todo o peso da cobrança que curvava sua cabeça para baixo se desmoronara, e ele novamente andava olhando reto, para a frente e para os lados - e, por que não, para o alto!
A felicidade? Não, não estava mais no porvir! Não mais precisava esperar o resultado do vestibular para poder ser feliz...chegara enfim a hora de sorrir! Nada de desculpas do tipo "depois do vestibular, depois do vestibular!", depois do vestibular era agora, e agora era a hora de ser feliz!
Tudo sempre indicava para um novo tempo, uma nova era: uma era de paz, prosperidade e esperança, sem vestibulares! Claro que todo esse otimismo demorou um pouco a se manifestar; começou timidamente, ainda temeroso de todo aquele horror que assolara há pouco tempo, como o sobrevivente de um terremoto que coloca a cabeça para fora de seu abrigo e pergunta: "já?". Afinal de contas, quem não sabe ser feliz na angústia, demora um pouco para ser feliz na fartura; felicidade também é uma questão de costume. Com o tempo, esperamos que Marcelo se acostume e, diferente do homem europeu, não se envolva em novos pesadelos.
Um grande abraço Marcelo, Feliz Aniversário!!!
No alvorecer dos séculos XIII e XIV, a Europa acordou mais tranquila: as invasões bárbaras se escasseavam, as pessoas começavam a abandonar os campos e migrar para as cidades, e uma nova era parecia ter início, menos negra, menos mística e menos perigosa; mais racional, mais humana e mais segura. A Europa renascia da ignorância, buscava voltar à uma antigüidade da qual jamais deveria ter saído.
Aos poucos, a idéia de queimar bruxas na fogueira começou a parecer absurda; se não absurda, questionável. Andar pelas cidades deixou de representar um risco, pois não havia mais homens montados em cavalos empunhando espadas mortíferas e sedentos por sangue; finalmente, o homem medieval percebia que sua vida não tinha necessariamente que se confinar a um feudo, restrito feudo, que, embora não fosse confortável, era melhor do que lá fora onde o perigo rondava. A felicidade? Sim, a felicidade! Ela não estava somente no porvir, no além...ela também estava aqui, na terra, na vida real! Tamanha não foi a surpresa dos primeiros a perceberem que não teriam que esperar pela morte, e ainda pela aceitação no céu, para poderem ser felizes - poderiam sê-lo agora mesmo. Toda a estrutura que confinava os homens a alguns poucos pedaços de terra e a um senhor prepotente que cobrava satisfações começava a ruir.
E a natureza? Não, não era apenas para ser admirada e temida, mas também compreendida. As secas não eram castigos divinos, tinham explicações mais coerentes; a chuva e os trovões não eram a ira de Deus, eram fenômenos naturais, como o simples nascimento de um bebê. Aos poucos, o homem europeu abandonava um período de ignorância, paralisia, estagnação e conflito; talvez até tomado por uma certa vergonha, como um jovem menino que, ao crescer, recorda com amargura suas pirraças de infância e se pergunta como foi capaz de fazer uma coisa dessas.
Agora o mundo era mais belo, a vida fazia mais sentido, as cidades cresciam e prosperavam sem temer os perigosos homens bárbaros, e as trevas da Idade Média pareciam se dissipar de uma forma cada vez mais irreversível.
DEVANEIO Nº 2
Marcelo acordou no alvorecer de seus vinte e um anos de vida aliviado: os vestibulares foram vencidos, a aflição acabara, a frenética e angustiante maratona de estudos chegara a um fim definitivo. Saiu à rua para um passeio tranquilamente, mais tranquilamente do que nunca; não tinha mais o que temer do lado de fora. Em sua cidade natal, tudo parecia lembrá-lo do famigerado vestibular: aquelas árvores da praça, que acompanharam sua infância e adolescência e viram-no crescer em meio a medos e sonhos, pareciam sempre questioná-lo "passou? passou? passou?". A rua da escola na qual sempre estudara era ainda mais exigente: "e você, passou 14 anos me amolando para chegar no vestibular e fazer merda? Não acredito, meu Deus, eu pari um idiota! Tu desonraste meu nome por toda a eternidade!". Os prédios que ladeavam seu cursinho eram curtos, mas firmes: "passaste três meses aqui para nada! Passaste três meses aqui para nada!". Tão logo Marcelo abria o portão de sua casa, uma enxurrada de cobranças o perturbavam, querendo saber de seu desempenho.
Mas tudo aquilo finalmente chegara a um fim! Marcelo não mais precisava se confinar em sua casa, pregado à tela do computador, esperando pela lista de aprovados...sua vida não mais se restringia à sala de televisão e ao seu quarto. As manhãs eram mais belas, as noites de sono mais calmas, as ruas da cidade menos ameaçadoras, as árvores da praça menos exigentes...Até Marcelo andava diferente: não ficava cabisbaixo, como de costume; todo o peso da cobrança que curvava sua cabeça para baixo se desmoronara, e ele novamente andava olhando reto, para a frente e para os lados - e, por que não, para o alto!
A felicidade? Não, não estava mais no porvir! Não mais precisava esperar o resultado do vestibular para poder ser feliz...chegara enfim a hora de sorrir! Nada de desculpas do tipo "depois do vestibular, depois do vestibular!", depois do vestibular era agora, e agora era a hora de ser feliz!
Tudo sempre indicava para um novo tempo, uma nova era: uma era de paz, prosperidade e esperança, sem vestibulares! Claro que todo esse otimismo demorou um pouco a se manifestar; começou timidamente, ainda temeroso de todo aquele horror que assolara há pouco tempo, como o sobrevivente de um terremoto que coloca a cabeça para fora de seu abrigo e pergunta: "já?". Afinal de contas, quem não sabe ser feliz na angústia, demora um pouco para ser feliz na fartura; felicidade também é uma questão de costume. Com o tempo, esperamos que Marcelo se acostume e, diferente do homem europeu, não se envolva em novos pesadelos.
Um grande abraço Marcelo, Feliz Aniversário!!!
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
O velho, a viúva e a insônia
Esta noite não dormi - literalmente. Nem sequer um segundo de sono, nem um cochilozinho, nada nada. Fazia tempo que isso não me acontecia, mais de quatro anos se não me falha a débil memória. Estive extremamente preocupado com o vestibular, temendo pelo resultado que sairá amanhã. Nessas horas dá uma angústia terrível, pois começo a lembrar de tudo aquilo que deveria ter feito na hora da prova mas não fiz: a opção errada que eu poderia ter acertado, o cálculo mal elaborado e a redação mal-feita. O vestibular deveria poder ser feito que nem esse blog: movido a surtos criativos. Deveria ser permitido ligar para a comissão de vestibular e chamá-la em sua casa para lhe aplicar a prova, justamente naquele momento de maior efusão da sua inteligência. Se assim fosse, teria discado para a comissão de vestibular às três da madrugada de hoje, convocando-os urgentemente para aplicar a prova no sofá; tenho certeza que faria uma redação impecável, capaz de deixar no chinelo até o mais confiante concorrente que eu tivesse! Na hora do vestibular, nada me inspira, nada me motiva a escrever. O vestibular é só um monte de gente estranha falando merda antes e depois da prova, comentando os comentários idiotas dos professores de seus cursinhos na aula anterior e falando o quanto está confiante e preparado para a prova; sem contar nos fiscais de sala com seus imponentes crachazinhos que intimidam-no desde o início da prova a abrir mão de seu celular ou de qualquer outro aparelho eletrônico EM FUNCIONAMENTO OU NÃO. Por isso mesmo nunca me atrevi a levar meu celular para as provas; até porque não gostaria de receber nenhum telefonema num momento desses, sem notícias boas pra dar a quem quer que estivesse ligando.
Muitos me perguntam: "mas Marcelo, você escreve tão bem! Como pode ter ido mal na redação?!". Acontece que escrever não é simplesmente colocar suas idéias na folha, envolve outras coisas. Uma delas é o objetivo da escrita: uma coisa é escrever para as pessoas lerem, refletirem e elogiarem/criticarem, conforme suas impressões. Outra, totalmente diferente, é escrever sabendo que quem vai ler estará analisando seu texto sintaticamente, corrigindo os paralelismos, reparando nas concordâncias e demais picuinhas, além de te castigar ou te premiar com uns pontinhos a menos ou a mais sempre que achar conveniente. Nesse último caso, nada te inspira a escrever. Antes mesmo de começar, fico logo imaginando um professor barbudo e ranzinza que irá ler minha redação, assim como tem feito ao longo de muitos e muitos anos com milhares de outras redações, num trabalho entediante que ele só faz para poder conseguir um dinheiro extra a fim de pagar a escola do filho que vive repetindo; imagino que ao final de cada parágrafo o barbudo ranzinza escarra pra dentro e promete a si mesmo que é "o último ano que eu faço isso" e jura que "depois dessa leva de redações vou direto na reitoria pedir para me removerem desse cargo". Ou então é aquela mulher antipática e velha que se casou aos dezesseis anos e se tornou professora por pressão dos pais, já que o marido já tinha um emprego bom e bem-remunerado e não ficava bem, naquela época, ter um emprego melhor nem tão bom quanto o do marido, e por isso virou professora porque é um emprego discreto, sem muito prestígio social, incapaz de ofuscar o brilho do marido, e por ser conhecida do vice-reitor da universidade acabou abocanhando o cargo de correção de redações, já que a pensão do falecido marido já não conseguia mais acompanhar o dragão da inflação, "tenho filhos pra criar, ora!".
Não dá, simplesmente não dá. A inspiração para escrever vem justamente quando você menos precisa dela, por exemplo quando está teclando com aquele seu amigo chato no MSN que você só não deletou até agora por pura consideração, ou quando está fuçando naquele perfil ridículo de um amigo de um amigo seu no Orkut, ou quando está matando a barata que entrou no quarto da sua avó e, principalmente, quando não está conseguindo dormir à noite porque tem medo do velho do saco ou do velho ranzinza que corrige as redações. Afinal, como acha que consegui inspiração para escrever esse texto? Pois foi agora pouco no café-da-manhã, quando tudo de que eu não precisava era inspiração para escrever, acredito ser justamente por isso que ele está ficando tão bom - caso o leitor não pense assim, desculpe a minha prepotência, eu só quero ser útil.
Ah, e por falar em pronomes pessoais da primeira pessoa do singular, que saudade de usá-los! O candidato que fizer uso deles em sua redação pode estar assinando sua sentença de morte no vestibular. Acontece que o outro velho ranzinza - não o que corrige as redações, mas o que elabora os temas e, diga-se de passagem, tem estado com sua criatividade meio no vermelho ultimamente - em geral não aceita qualquer redação: precisa ser dissertação, um gênero textual que não admite pronomes na primeira pessoa do singular. Além disso, a dissertação tem uma série de regrinhas bacanas como por exemplo, precisa ter capacidade analítica, argumentação, coesão e coerência, porque a dissertação pretende ser um texto científico. O indivíduo que inventou a dissertação deve ser mesmo um babaca, pois só uma mente babaca poderia enxergar coerência e coesão na ciência, logo na ciência onde tudo tende pra bagunça, pra desordem, para a entropia. Os átomos não gostam de coesão, eles querem ser livres, se expandir por aí afora, por isso estão sempre em sua incessante busca para se assemelharem aos gases nobres, esses sim os verdadeiros paladinos da ciência! As raízes não crescem de forma comportada, uniforme, a fim de deixar o máximo de espaço possível para suas companheiras: se deixar, elas avançam mesmo, sem fazer cerimônia; aqui em Lavras, por exemplo, a raiz da Tipuana da praça teve uma época que quase partiu a rua ao meio. O fluxo de elétrons em uma corrente em nada se assemelha às crianças em um jardim de infância fazendo fila pra lanchar; aliás, essa idéia de ordenamento partiu mesmo foi do homem, e é tão contrária à natureza que o próprio homem não a suporta, tanto é que preferimos correr livres pelos campos do que ficar parado em uma fila de banco.
O inventor da dissertação não passa, portanto, de um sujeito de imaginação perturbada que achava que toda a natureza se comporta como os fascistas marchando sobre Roma ou os integralistas marchando na Guanabara nos anos 1930, não obstante tivesse um coração bom, generoso e humilde, tão humilde que até se proibia de usar pronomes em primeira pessoa do singular, para evitar qualquer forma de egocentrismo, embora sempre admitisse seu uso na primeira pessoa do plural, a fim de valorizar o coletivo, o trabalho de equipe, trocando o "eu" por "nós" e o "meu" por "nosso", evidenciando um nobre coração desapegado e solidário! e a propósito, se você for um pré-vestibulando não siga jamais o meu exemplo porque nas dissertações não se pode usar períodos muito longos como esse aqui, é sempre preciso dar uma pausa com um ponto ao invés de escrever um parágrafo inteiro sem pontuar como o que acabo de fazer, me desculpe.
Ao contrário do que você deve estar pensando, eu não tenho raiva de ninguém. Não guardo rancores do velho ranzinza (nem do que elabora nem do que corrige a dissertação), nem da viúva que corrige as dissertações e nem tampouco do babac...quero dizer, do sujeito nobre e humilde de bom coração que nos fez o favor de inventar a dissertação. Não são eles os responsáveis pela minha insônia, afinal, todos nós sabemos que a tarefa de curar a insônia é da televisão, ela sim é a responsável por nos entreter quando não conseguimos dormir. Acontece que a programação da TV de madrugada se divide basicamente em três: aquelas que antecipam a programação do dia seguinte, aquelas que saem do ar e aquelas que repetem a programação do dia anterior. Não assisto aos programas antecipados, caso contrário já amanhecerei no dia seguinte sabendo de tudo o que irá ocorrer - não gosto de dias sem surpresa. Também não assisto à programação fora do ar, porque consiste basicamente do logo da emissora e de um relógio, que me faz lembrar há quanto tempo atrás eu já deveria estar dormindo. Mas o pior de tudo é assistir à reprise do dia que se acabou; repetições cheiram a falta de criatividade, e me fazem lembrar o quanto não tive criatividade ao fazer minha dissertação.
Em todo caso, acredito que é esse o ciclo natural da humanidade: tendemos sempre a voltar às origens, que nem um canal de televisão que esbanja sua programação ao longo do dia e no final retoma a parte principal dela. Nós nascemos fracos e indefesos, e quando ficamos bem idosos geralmente também morremos fracos e indefesos, mas com as principais experiências acumuladas ao longo da vida ressaltadas. No início da humanidade o mundo era em grande parte deserto, inóspito, com um ou outro grupo de seres humanos aqui e acolá, e dado o desenvolvimento das armas atômicas, os efeitos catastróficos do aquecimento global e toda sorte de malvadezas que rondam o planeta, alardeadas pelo Greenpeace e pelos livros didáticos de geografia, é para esse estágio que parecemos encaminhados.
Lhe parece trágica essa profecia? Pouco me importa... Pelo menos fica como uma idéia para colocar em minha próxima dissertação. Tenho certeza de que ela irá agradar ao velho ranzinza, pois combina muito bem com o seu ar carrancudo e desolado.
PS.: Caso você seja meu (minha) amigo (a) no Orkut, não hesite em me deixar recadinhos de madrugada! mesmo que você não tenha esse costume. Eles sempre me fazem sentir menos abandonado em meio à noite escura. Obrigado!
Muitos me perguntam: "mas Marcelo, você escreve tão bem! Como pode ter ido mal na redação?!". Acontece que escrever não é simplesmente colocar suas idéias na folha, envolve outras coisas. Uma delas é o objetivo da escrita: uma coisa é escrever para as pessoas lerem, refletirem e elogiarem/criticarem, conforme suas impressões. Outra, totalmente diferente, é escrever sabendo que quem vai ler estará analisando seu texto sintaticamente, corrigindo os paralelismos, reparando nas concordâncias e demais picuinhas, além de te castigar ou te premiar com uns pontinhos a menos ou a mais sempre que achar conveniente. Nesse último caso, nada te inspira a escrever. Antes mesmo de começar, fico logo imaginando um professor barbudo e ranzinza que irá ler minha redação, assim como tem feito ao longo de muitos e muitos anos com milhares de outras redações, num trabalho entediante que ele só faz para poder conseguir um dinheiro extra a fim de pagar a escola do filho que vive repetindo; imagino que ao final de cada parágrafo o barbudo ranzinza escarra pra dentro e promete a si mesmo que é "o último ano que eu faço isso" e jura que "depois dessa leva de redações vou direto na reitoria pedir para me removerem desse cargo". Ou então é aquela mulher antipática e velha que se casou aos dezesseis anos e se tornou professora por pressão dos pais, já que o marido já tinha um emprego bom e bem-remunerado e não ficava bem, naquela época, ter um emprego melhor nem tão bom quanto o do marido, e por isso virou professora porque é um emprego discreto, sem muito prestígio social, incapaz de ofuscar o brilho do marido, e por ser conhecida do vice-reitor da universidade acabou abocanhando o cargo de correção de redações, já que a pensão do falecido marido já não conseguia mais acompanhar o dragão da inflação, "tenho filhos pra criar, ora!".
Não dá, simplesmente não dá. A inspiração para escrever vem justamente quando você menos precisa dela, por exemplo quando está teclando com aquele seu amigo chato no MSN que você só não deletou até agora por pura consideração, ou quando está fuçando naquele perfil ridículo de um amigo de um amigo seu no Orkut, ou quando está matando a barata que entrou no quarto da sua avó e, principalmente, quando não está conseguindo dormir à noite porque tem medo do velho do saco ou do velho ranzinza que corrige as redações. Afinal, como acha que consegui inspiração para escrever esse texto? Pois foi agora pouco no café-da-manhã, quando tudo de que eu não precisava era inspiração para escrever, acredito ser justamente por isso que ele está ficando tão bom - caso o leitor não pense assim, desculpe a minha prepotência, eu só quero ser útil.
Ah, e por falar em pronomes pessoais da primeira pessoa do singular, que saudade de usá-los! O candidato que fizer uso deles em sua redação pode estar assinando sua sentença de morte no vestibular. Acontece que o outro velho ranzinza - não o que corrige as redações, mas o que elabora os temas e, diga-se de passagem, tem estado com sua criatividade meio no vermelho ultimamente - em geral não aceita qualquer redação: precisa ser dissertação, um gênero textual que não admite pronomes na primeira pessoa do singular. Além disso, a dissertação tem uma série de regrinhas bacanas como por exemplo, precisa ter capacidade analítica, argumentação, coesão e coerência, porque a dissertação pretende ser um texto científico. O indivíduo que inventou a dissertação deve ser mesmo um babaca, pois só uma mente babaca poderia enxergar coerência e coesão na ciência, logo na ciência onde tudo tende pra bagunça, pra desordem, para a entropia. Os átomos não gostam de coesão, eles querem ser livres, se expandir por aí afora, por isso estão sempre em sua incessante busca para se assemelharem aos gases nobres, esses sim os verdadeiros paladinos da ciência! As raízes não crescem de forma comportada, uniforme, a fim de deixar o máximo de espaço possível para suas companheiras: se deixar, elas avançam mesmo, sem fazer cerimônia; aqui em Lavras, por exemplo, a raiz da Tipuana da praça teve uma época que quase partiu a rua ao meio. O fluxo de elétrons em uma corrente em nada se assemelha às crianças em um jardim de infância fazendo fila pra lanchar; aliás, essa idéia de ordenamento partiu mesmo foi do homem, e é tão contrária à natureza que o próprio homem não a suporta, tanto é que preferimos correr livres pelos campos do que ficar parado em uma fila de banco.
O inventor da dissertação não passa, portanto, de um sujeito de imaginação perturbada que achava que toda a natureza se comporta como os fascistas marchando sobre Roma ou os integralistas marchando na Guanabara nos anos 1930, não obstante tivesse um coração bom, generoso e humilde, tão humilde que até se proibia de usar pronomes em primeira pessoa do singular, para evitar qualquer forma de egocentrismo, embora sempre admitisse seu uso na primeira pessoa do plural, a fim de valorizar o coletivo, o trabalho de equipe, trocando o "eu" por "nós" e o "meu" por "nosso", evidenciando um nobre coração desapegado e solidário! e a propósito, se você for um pré-vestibulando não siga jamais o meu exemplo porque nas dissertações não se pode usar períodos muito longos como esse aqui, é sempre preciso dar uma pausa com um ponto ao invés de escrever um parágrafo inteiro sem pontuar como o que acabo de fazer, me desculpe.
Ao contrário do que você deve estar pensando, eu não tenho raiva de ninguém. Não guardo rancores do velho ranzinza (nem do que elabora nem do que corrige a dissertação), nem da viúva que corrige as dissertações e nem tampouco do babac...quero dizer, do sujeito nobre e humilde de bom coração que nos fez o favor de inventar a dissertação. Não são eles os responsáveis pela minha insônia, afinal, todos nós sabemos que a tarefa de curar a insônia é da televisão, ela sim é a responsável por nos entreter quando não conseguimos dormir. Acontece que a programação da TV de madrugada se divide basicamente em três: aquelas que antecipam a programação do dia seguinte, aquelas que saem do ar e aquelas que repetem a programação do dia anterior. Não assisto aos programas antecipados, caso contrário já amanhecerei no dia seguinte sabendo de tudo o que irá ocorrer - não gosto de dias sem surpresa. Também não assisto à programação fora do ar, porque consiste basicamente do logo da emissora e de um relógio, que me faz lembrar há quanto tempo atrás eu já deveria estar dormindo. Mas o pior de tudo é assistir à reprise do dia que se acabou; repetições cheiram a falta de criatividade, e me fazem lembrar o quanto não tive criatividade ao fazer minha dissertação.
Em todo caso, acredito que é esse o ciclo natural da humanidade: tendemos sempre a voltar às origens, que nem um canal de televisão que esbanja sua programação ao longo do dia e no final retoma a parte principal dela. Nós nascemos fracos e indefesos, e quando ficamos bem idosos geralmente também morremos fracos e indefesos, mas com as principais experiências acumuladas ao longo da vida ressaltadas. No início da humanidade o mundo era em grande parte deserto, inóspito, com um ou outro grupo de seres humanos aqui e acolá, e dado o desenvolvimento das armas atômicas, os efeitos catastróficos do aquecimento global e toda sorte de malvadezas que rondam o planeta, alardeadas pelo Greenpeace e pelos livros didáticos de geografia, é para esse estágio que parecemos encaminhados.
Lhe parece trágica essa profecia? Pouco me importa... Pelo menos fica como uma idéia para colocar em minha próxima dissertação. Tenho certeza de que ela irá agradar ao velho ranzinza, pois combina muito bem com o seu ar carrancudo e desolado.
PS.: Caso você seja meu (minha) amigo (a) no Orkut, não hesite em me deixar recadinhos de madrugada! mesmo que você não tenha esse costume. Eles sempre me fazem sentir menos abandonado em meio à noite escura. Obrigado!
sábado, 27 de dezembro de 2008
Chapeuzinho Vermelho nos vestibulares
Você já parou pra pensar como cada vestibular cobraria a história da Chapeuzinho Vermelho? Eu já.
UFOP
1.Redija um texto EXPLICANDO o que aconteceu quando Chapeuzinho Vermelho entrou na casa da vovó.
2.Redija um texto JUSTIFICANDO a decisão do caçador de matar o Lobo Mau.
3.Leia atentamente a frase:
"...é pra te enxergar melhor(...)"
Com base no incidente envolvendo Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau, explique a ironia que ela contém.
UFMG
1.CITE e EXPLIQUE quatro conseqüências (duas positivas e duas negativas) da morte do Lobo Mau para a economia brasileira.
Conseqüência positiva 1___________________________
Conseqüência positiva 2___________________________
Explicação da conseqüência positiva 1________________________________________
Explicação da conseqüência positiva 2________________________________________
Conseqüência negativa 1__________________________
Conseqüência negativa 2__________________________
Explicação da conseqüência negativa 1________________________________________
Explicação da conseqüência negativa 2________________________________________
2.CITE e EXPLIQUE três fatores (um de ordem política, um de ordem social e um de ordem econômica) que levaram o Lobo Mau a comer a vovozinha.
Fator político______________________________________________
Fator social_______________________________________________
Fator econômico____________________________________________
Explicação do fator político_________________________________________________
Explicação do fator social__________________________________________________
Explicação do fator econômico______________________________________________
3.a)APONTE ao menos três evidências que nos permitem concluir que o crime contra a vovozinha e Chapeuzinho Vermelho foi premeditado.
Evidência 1________________________________________________
Evidência 2________________________________________________
Evidência 3________________________________________________
b)Relacione cada uma dessas evidências com o impacto que o crime gerou na opinião pública
Relação da evidência 1___________________________________________________
Relação da evidência 2___________________________________________________
Relação da evidência 3___________________________________________________
USP
1. Leia atentamente a frase:
"...pela estrada afora/eu vou bem sozinha/levar esses doces para a vovozinha(...)"
Contextualize o período no qual ela foi enunciada e problematize os eventos que a sucederam, contemplando em sua resposta a temática do conflito Lobo/idoso, Lobo/criança e Lobo/caçador e seus respectivos impactos nos movimentos de defesa dos idosos, nos grupos de defesa de crianças e adolescentes e nos movimentos de proteção aos animais.
2. Leia atentamente o texto:
"Todos nós sabíamos o que aconteceria ali naquela tarde, mas poucos foram os que tiveram coragem de assumir uma postura. A maioria ficou intacta, temerosa, ambígua, como quem espera o fim dos tempos: impotente, sem capacidade de fazer nada. Os poucos que fizeram alguma coisa a respeito se limitaram a pegar em armas mas não ousaram dar um só passo sequer para fora de suas residências; estes sim estavam dispostos a usar a violência, mas apenas em legítima defesa. Eles sabiam que o inimigo era mais perigoso, mais preparado e mais inteligente, por isso o máximo que ousaram foi zelar pela própria vida. Uma coisa, no entanto, era certa: se todos se unissem, certamente o venceriam. Tal proposição não só era verdade, como também era do conhecimento de todos ali, mas os motivos pelos quais ninguém propôs uma união permanecem até hoje desconhecidos. Nunca a baixa auto-estima de um povo lhe custou tão caro(...)"
Depoimento de um camponês que habitava o bosque do Lobo Mau
Com base no texto e em outros conhecimentos sobre o assunto, justifique por que o Lobo Mau foi bem-sucedido em sua empreitada ao atacar a choupana da vovozinha de Chapeuzinho Vermelho, levando em consideração a postura assumida pelos habitantes do local e a conjuntura sócio-econômica do Brasil rural de então. É possível que medidas assistencialistas tenham precipitado o incidente?
3. Apresente e analise ao menos cinco argumentos que nos permitam concluir que a ação do caçador ao matar o Lobo Mau foi legalmente inválida, levando em consideração, em cada um de seus argumentos, a ameaça que os biomas brasileiros vêm sofrendo, a crescente ocupação antrópica nas áreas de reserva florestal e a ausência de uma legislação mais rígida para crimes cometidos por animais.
UnB
1. Tendo em vista o recente incidente envolvendo o Lobo Mau, a vovozinha, Chapeuzinho Vermelho e o caçador, julgue os itens a seguir:
( ) Ao ingerir a vovozinha, o Lobo Mau não pode tê-la digerido dada a estrutura simplificada e limitada do sistema digestório dos canídeos.
( ) Tendo em vista o tempo que o Lobo Mau gastou para comer a vovozinha, vestir suas roupas, ajeitar-se na cama e encontrar Chapeuzinho Vermelho já devidamente disfarçado, é possível concluir que Chapeuzinho Vermelho não se deslocou pela floresta em movimento reilíneo uniformemente variado.
( ) A função sintática da palavra "que" na frase "(...) que olhos grandes você tem" é a mesma da palavra "por" na frase "(...)e o Lobo Mau passeia aqui por perto".
( ) Tendo em vista a coloração clara da pele de Chapeuzinho Vermelho e a coloração escura do pêlo do Lobo, podemos concluir que, no momento em que os dois se encontram, o Lobo está para Chapeuzinho assim como João Cândido estava para Hermes da Fonseca em 1910 na Revolta da Chibata.
( ) Tendo em vista a coloração da capa da protagonista juvenil, a fragilidade da personagem idosa e a prepotência do animal, podemos concluir que Chapeuzinho Vermelho, a vovozinha e o Lobo Mau estavam um para o outro assim como a União Soviética, Cuba e os Estados Unidos, respectivamente, estavam um para o outro na Crise dos Mísseis de 1962.
UFOP
1.Redija um texto EXPLICANDO o que aconteceu quando Chapeuzinho Vermelho entrou na casa da vovó.
2.Redija um texto JUSTIFICANDO a decisão do caçador de matar o Lobo Mau.
3.Leia atentamente a frase:
"...é pra te enxergar melhor(...)"
Com base no incidente envolvendo Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau, explique a ironia que ela contém.
UFMG
1.CITE e EXPLIQUE quatro conseqüências (duas positivas e duas negativas) da morte do Lobo Mau para a economia brasileira.
Conseqüência positiva 1___________________________
Conseqüência positiva 2___________________________
Explicação da conseqüência positiva 1________________________________________
Explicação da conseqüência positiva 2________________________________________
Conseqüência negativa 1__________________________
Conseqüência negativa 2__________________________
Explicação da conseqüência negativa 1________________________________________
Explicação da conseqüência negativa 2________________________________________
2.CITE e EXPLIQUE três fatores (um de ordem política, um de ordem social e um de ordem econômica) que levaram o Lobo Mau a comer a vovozinha.
Fator político______________________________________________
Fator social_______________________________________________
Fator econômico____________________________________________
Explicação do fator político_________________________________________________
Explicação do fator social__________________________________________________
Explicação do fator econômico______________________________________________
3.a)APONTE ao menos três evidências que nos permitem concluir que o crime contra a vovozinha e Chapeuzinho Vermelho foi premeditado.
Evidência 1________________________________________________
Evidência 2________________________________________________
Evidência 3________________________________________________
b)Relacione cada uma dessas evidências com o impacto que o crime gerou na opinião pública
Relação da evidência 1___________________________________________________
Relação da evidência 2___________________________________________________
Relação da evidência 3___________________________________________________
USP
1. Leia atentamente a frase:
"...pela estrada afora/eu vou bem sozinha/levar esses doces para a vovozinha(...)"
Contextualize o período no qual ela foi enunciada e problematize os eventos que a sucederam, contemplando em sua resposta a temática do conflito Lobo/idoso, Lobo/criança e Lobo/caçador e seus respectivos impactos nos movimentos de defesa dos idosos, nos grupos de defesa de crianças e adolescentes e nos movimentos de proteção aos animais.
2. Leia atentamente o texto:
"Todos nós sabíamos o que aconteceria ali naquela tarde, mas poucos foram os que tiveram coragem de assumir uma postura. A maioria ficou intacta, temerosa, ambígua, como quem espera o fim dos tempos: impotente, sem capacidade de fazer nada. Os poucos que fizeram alguma coisa a respeito se limitaram a pegar em armas mas não ousaram dar um só passo sequer para fora de suas residências; estes sim estavam dispostos a usar a violência, mas apenas em legítima defesa. Eles sabiam que o inimigo era mais perigoso, mais preparado e mais inteligente, por isso o máximo que ousaram foi zelar pela própria vida. Uma coisa, no entanto, era certa: se todos se unissem, certamente o venceriam. Tal proposição não só era verdade, como também era do conhecimento de todos ali, mas os motivos pelos quais ninguém propôs uma união permanecem até hoje desconhecidos. Nunca a baixa auto-estima de um povo lhe custou tão caro(...)"
Depoimento de um camponês que habitava o bosque do Lobo Mau
Com base no texto e em outros conhecimentos sobre o assunto, justifique por que o Lobo Mau foi bem-sucedido em sua empreitada ao atacar a choupana da vovozinha de Chapeuzinho Vermelho, levando em consideração a postura assumida pelos habitantes do local e a conjuntura sócio-econômica do Brasil rural de então. É possível que medidas assistencialistas tenham precipitado o incidente?
3. Apresente e analise ao menos cinco argumentos que nos permitam concluir que a ação do caçador ao matar o Lobo Mau foi legalmente inválida, levando em consideração, em cada um de seus argumentos, a ameaça que os biomas brasileiros vêm sofrendo, a crescente ocupação antrópica nas áreas de reserva florestal e a ausência de uma legislação mais rígida para crimes cometidos por animais.
UnB
1. Tendo em vista o recente incidente envolvendo o Lobo Mau, a vovozinha, Chapeuzinho Vermelho e o caçador, julgue os itens a seguir:
( ) Ao ingerir a vovozinha, o Lobo Mau não pode tê-la digerido dada a estrutura simplificada e limitada do sistema digestório dos canídeos.
( ) Tendo em vista o tempo que o Lobo Mau gastou para comer a vovozinha, vestir suas roupas, ajeitar-se na cama e encontrar Chapeuzinho Vermelho já devidamente disfarçado, é possível concluir que Chapeuzinho Vermelho não se deslocou pela floresta em movimento reilíneo uniformemente variado.
( ) A função sintática da palavra "que" na frase "(...) que olhos grandes você tem" é a mesma da palavra "por" na frase "(...)e o Lobo Mau passeia aqui por perto".
( ) Tendo em vista a coloração clara da pele de Chapeuzinho Vermelho e a coloração escura do pêlo do Lobo, podemos concluir que, no momento em que os dois se encontram, o Lobo está para Chapeuzinho assim como João Cândido estava para Hermes da Fonseca em 1910 na Revolta da Chibata.
( ) Tendo em vista a coloração da capa da protagonista juvenil, a fragilidade da personagem idosa e a prepotência do animal, podemos concluir que Chapeuzinho Vermelho, a vovozinha e o Lobo Mau estavam um para o outro assim como a União Soviética, Cuba e os Estados Unidos, respectivamente, estavam um para o outro na Crise dos Mísseis de 1962.
sábado, 11 de outubro de 2008
Análise comportamental dos Chraetinus ignobilis durante a cretamia
PREFÁCIO
Biologia é algo que nunca fez sentido para mim. Com este texto, procurarei me redimir. Dedico-o a todas as professoras de biologia que já tive - e ainda tenho - na vida: não sei o que seria de mim sem vocês - embora saiba muito bem o que seria de vocês sem mim.
ABSTRACT
O Sul do estado de Minas Gerais é sazonalmente afetado por um fenômeno de proporções bíblicas desde alguns anos atrás, mas que, mesmo assim, não tem despertado o interesse de acadêmicos ou leitores. O presente artigo tem como objetivo realizar uma análise fria e acurada do referido fenômeno - o fenômeno da cretamia - bem como de seu principal causador, o Chraetinus ignobilis, sem nenhuma pretensão, no entanto, de exaurir o tema. Estou aberto a sugestões.
A CRETAMIA: DE SUA OCORRÊNCIA E DE SEU CAUSADOR
Entre os meses de setembro e outubro (a data varia de ano em ano), o interior do estado de Minas Gerais é acometido pelo fenômeno da cretamia. Grosso modo, a cretamia representa, para o núcleo urbano, o mesmo que uma proliferação de pragas no cafezal representaria para o meio rural. Ainda assim, sua ocorrência nunca foi reconhecida como um caso de calamidade pública pelas autoridades. Pelo contrário, a cretamia por vezes traz até benefícios econômicos para a região atingida, embora o mesmo não possa ser dito sobre seus benefícios sócio-culturais.
O fenômeno da cretamia não é exclusivo do estado de Minas Gerais, sendo comum em diversas outras regiões urbanas do país. Em cada um delas se manifesta de maneira peculiar, apesar de seguir uma linha geral pré-estabelecida, comum a todos os lugares, e de ser sempre causada pelo mesmo agente: o Chraetinus ignobilis.
Acredita-se que o Chraetinus ignobilis tenha se originado de uma linhagem de Homo erectus que não conseguiu evoluir para Homo sapiens, ficando, portanto, estagnada a meio caminho dessas duas espécies e se degenerado, descambando para a formação de outra espécie, sem um reino muito definido. Vale aqui lembrar o quão pouco tem sido dedicado ao estudo desses indivíduos, de maneira que pouco sabemos a respeito das causas que levaram à estagnação da referida linhagem.
O Chraetinus ignobilis tem propriedades que os assemelham à algumas bactérias, como a capacidade de proliferar-se e de organizar-se em colônias. A cretamia nada mais é do que uma concentração em massa de diversos Chraetinus num mesmo espaço geográfico a fim de satisfazer suas necessidades de associação.
Por outro lado, a estrutura extremamente simplificada dos Chraetinus, especialmente de sua caixa craniana, assemelha-os diversas vezes aos vírus, além é claro de sua capacidade de ser nocivo ao ser humano.
Apesar dessa semelhança com os vírus e de especulações acerca de uma possível origem dos Chraetinus a partir da evolução de alguns vírus bacteriófagos - ou vice-versa - esses indivíduos são seres sexuados. A cretamia, portanto, constitui-se em um dos maiores paradoxos da natureza, por ser um período de intensa atividade sexual entre os Chraetinus e, ao mesmo tempo, sem qualquer aumento de sua taxa de natalidade. Isso se deve a mais uma característica típica dos Chraetinus, que é a capacidade de controle de natalidade, altamente eficaz. Por razões ainda desconhecidas, os Chraetinus que se reproduzem deixam de praticar a cretamia. A cópula durante a cretamia adquire, portanto, um caráter meramente lúdico.
A cópula entre os Chraetinus ignobilis costuma ser antecedida por uma série de rituais a fim de atrair o sexo oposto. Tais rituais, durante a cretamia, são freqüentes e quase imperceptíveis de tão comuns. Chraetinus do sexo masculino costumam deixar em evidência seus tecidos musculares - geralmente complexos e volumosos -, ao passo que as fêmeas procuram salientar seus mecanismos de locomoção e seus sistemas de nutrição da prole. As fêmeas cujos mecanismos locomotores são demasiado volumosos ou excessivamente delgados têm menos chances de encontrar um parceiro, bem como aquelas que possuem sistemas de nutrição da prole reduzidos.
Apesar de fazerem parte de uma mesma espécie, os Chraetinus ignobilis são extremamente diversificados , podendo ser agrupados segundo as mais diversas tipologias e critérios. Tal classificação pode ser tema para um trabalho posterior, haja vista ser complexa e polêmica, não permitindo portanto que eu me detenha neste ponto. O mais relevante para esse trabalho é notar que, durante a cretamia, os Chraetinus tendem a uma uniformização física: todos eles desenvolvem carapaças denominadas sadaba que cobrem a metade do corpo, dando à sua colônia um aspecto regular. Os sadaba mudam de cor de ano em ano e de lugar pra lugar, segundo parâmetros ainda desconhecidos. Regra-geral, porém, apresentam coloração vistosa. O motivo mais provável pelo qual essa carapaça é desenvolvida é a necessidade de diferenciar-se do meio externo e de identificação entre os próprios Chraetinus. Tal uniformização, entretanto, não impede que cada Chraetinus expresse sua individualidade.
A cretamia é um evento particularmente curioso porque altera o hábito alimentar dos indivíduos da referida espécie. Os Chraetinus se alimentam, naturalmente, por fagocitose e pinocitose. Ao longo da cretamia, no entanto, seus hábitos pinossômicos predominam, praticamente anulando a atividade fagocitária. Tal mudança brusca em sua nutrição deixa os Chraetinus em estado de profunda excitação, podendo inclusive prejudicar seu organismo e alterar a harmonia e o equilíbrio de suas sociedades. A alimentação principal durante a cretamia consiste no consumo de substâncias à base de etanol. O excesso de etanol, bem como sua ausência, pode afetar o comportamento da espécie de forma drástica.
Apesar de durar no máximo três ou quatro dias, a cretamia deixa seqüelas irreversíveis nos locais onde ocorre, tais como poluição - sonora e visual - e prejuízos ao bem público. Além disso, a crescente migração de Chraetinus ignobilis de diversas partes do país para se concentrarem em um só lugar por vezes resulta em tumultos e em disputas por território entre os Chraetinus e outras espécies e entre os próprios Chraetinus . Tendo em vista a já mencionada simplicidade de sua caixa craniana, esses indivíduos por vezes são desprovidos de qualquer senso de orientação, o que só tende a se agravar com a também já mencionada mudança de hábitos alimentares.
Chegar a um veredicto final sobre a cretamia e os Chraetinus ignobilis que a praticam é difícil, até porque seus prejuízos costumam ser compensados pelos benefícios financeiros à região afetada. Como o presente artigo não pretende ser tendencioso, a única conclusão a que me permito chegar é a de que somente mais estudos e análises sobre o tema serão capazes de nos dar uma visão geral mais fiel do assunto, tendo em vista estarmos diante de um problema ainda pouco explorado e ao qual não tem sido dada a devida importância.
POSFÁCIO
Para entender o texto, desembaralhe a palavra "cretamia" e substitua-a; faça o mesmo com "sadaba" , lendo-a de trás para frente.
Caso continue não entendendo, troque Chraetinus ignobilis por micareteiro.
Biologia é algo que nunca fez sentido para mim. Com este texto, procurarei me redimir. Dedico-o a todas as professoras de biologia que já tive - e ainda tenho - na vida: não sei o que seria de mim sem vocês - embora saiba muito bem o que seria de vocês sem mim.
ABSTRACT
O Sul do estado de Minas Gerais é sazonalmente afetado por um fenômeno de proporções bíblicas desde alguns anos atrás, mas que, mesmo assim, não tem despertado o interesse de acadêmicos ou leitores. O presente artigo tem como objetivo realizar uma análise fria e acurada do referido fenômeno - o fenômeno da cretamia - bem como de seu principal causador, o Chraetinus ignobilis, sem nenhuma pretensão, no entanto, de exaurir o tema. Estou aberto a sugestões.
A CRETAMIA: DE SUA OCORRÊNCIA E DE SEU CAUSADOR
Entre os meses de setembro e outubro (a data varia de ano em ano), o interior do estado de Minas Gerais é acometido pelo fenômeno da cretamia. Grosso modo, a cretamia representa, para o núcleo urbano, o mesmo que uma proliferação de pragas no cafezal representaria para o meio rural. Ainda assim, sua ocorrência nunca foi reconhecida como um caso de calamidade pública pelas autoridades. Pelo contrário, a cretamia por vezes traz até benefícios econômicos para a região atingida, embora o mesmo não possa ser dito sobre seus benefícios sócio-culturais.
O fenômeno da cretamia não é exclusivo do estado de Minas Gerais, sendo comum em diversas outras regiões urbanas do país. Em cada um delas se manifesta de maneira peculiar, apesar de seguir uma linha geral pré-estabelecida, comum a todos os lugares, e de ser sempre causada pelo mesmo agente: o Chraetinus ignobilis.
Acredita-se que o Chraetinus ignobilis tenha se originado de uma linhagem de Homo erectus que não conseguiu evoluir para Homo sapiens, ficando, portanto, estagnada a meio caminho dessas duas espécies e se degenerado, descambando para a formação de outra espécie, sem um reino muito definido. Vale aqui lembrar o quão pouco tem sido dedicado ao estudo desses indivíduos, de maneira que pouco sabemos a respeito das causas que levaram à estagnação da referida linhagem.
O Chraetinus ignobilis tem propriedades que os assemelham à algumas bactérias, como a capacidade de proliferar-se e de organizar-se em colônias. A cretamia nada mais é do que uma concentração em massa de diversos Chraetinus num mesmo espaço geográfico a fim de satisfazer suas necessidades de associação.
Por outro lado, a estrutura extremamente simplificada dos Chraetinus, especialmente de sua caixa craniana, assemelha-os diversas vezes aos vírus, além é claro de sua capacidade de ser nocivo ao ser humano.
Apesar dessa semelhança com os vírus e de especulações acerca de uma possível origem dos Chraetinus a partir da evolução de alguns vírus bacteriófagos - ou vice-versa - esses indivíduos são seres sexuados. A cretamia, portanto, constitui-se em um dos maiores paradoxos da natureza, por ser um período de intensa atividade sexual entre os Chraetinus e, ao mesmo tempo, sem qualquer aumento de sua taxa de natalidade. Isso se deve a mais uma característica típica dos Chraetinus, que é a capacidade de controle de natalidade, altamente eficaz. Por razões ainda desconhecidas, os Chraetinus que se reproduzem deixam de praticar a cretamia. A cópula durante a cretamia adquire, portanto, um caráter meramente lúdico.
A cópula entre os Chraetinus ignobilis costuma ser antecedida por uma série de rituais a fim de atrair o sexo oposto. Tais rituais, durante a cretamia, são freqüentes e quase imperceptíveis de tão comuns. Chraetinus do sexo masculino costumam deixar em evidência seus tecidos musculares - geralmente complexos e volumosos -, ao passo que as fêmeas procuram salientar seus mecanismos de locomoção e seus sistemas de nutrição da prole. As fêmeas cujos mecanismos locomotores são demasiado volumosos ou excessivamente delgados têm menos chances de encontrar um parceiro, bem como aquelas que possuem sistemas de nutrição da prole reduzidos.
Apesar de fazerem parte de uma mesma espécie, os Chraetinus ignobilis são extremamente diversificados , podendo ser agrupados segundo as mais diversas tipologias e critérios. Tal classificação pode ser tema para um trabalho posterior, haja vista ser complexa e polêmica, não permitindo portanto que eu me detenha neste ponto. O mais relevante para esse trabalho é notar que, durante a cretamia, os Chraetinus tendem a uma uniformização física: todos eles desenvolvem carapaças denominadas sadaba que cobrem a metade do corpo, dando à sua colônia um aspecto regular. Os sadaba mudam de cor de ano em ano e de lugar pra lugar, segundo parâmetros ainda desconhecidos. Regra-geral, porém, apresentam coloração vistosa. O motivo mais provável pelo qual essa carapaça é desenvolvida é a necessidade de diferenciar-se do meio externo e de identificação entre os próprios Chraetinus. Tal uniformização, entretanto, não impede que cada Chraetinus expresse sua individualidade.
A cretamia é um evento particularmente curioso porque altera o hábito alimentar dos indivíduos da referida espécie. Os Chraetinus se alimentam, naturalmente, por fagocitose e pinocitose. Ao longo da cretamia, no entanto, seus hábitos pinossômicos predominam, praticamente anulando a atividade fagocitária. Tal mudança brusca em sua nutrição deixa os Chraetinus em estado de profunda excitação, podendo inclusive prejudicar seu organismo e alterar a harmonia e o equilíbrio de suas sociedades. A alimentação principal durante a cretamia consiste no consumo de substâncias à base de etanol. O excesso de etanol, bem como sua ausência, pode afetar o comportamento da espécie de forma drástica.
Apesar de durar no máximo três ou quatro dias, a cretamia deixa seqüelas irreversíveis nos locais onde ocorre, tais como poluição - sonora e visual - e prejuízos ao bem público. Além disso, a crescente migração de Chraetinus ignobilis de diversas partes do país para se concentrarem em um só lugar por vezes resulta em tumultos e em disputas por território entre os Chraetinus e outras espécies e entre os próprios Chraetinus . Tendo em vista a já mencionada simplicidade de sua caixa craniana, esses indivíduos por vezes são desprovidos de qualquer senso de orientação, o que só tende a se agravar com a também já mencionada mudança de hábitos alimentares.
Chegar a um veredicto final sobre a cretamia e os Chraetinus ignobilis que a praticam é difícil, até porque seus prejuízos costumam ser compensados pelos benefícios financeiros à região afetada. Como o presente artigo não pretende ser tendencioso, a única conclusão a que me permito chegar é a de que somente mais estudos e análises sobre o tema serão capazes de nos dar uma visão geral mais fiel do assunto, tendo em vista estarmos diante de um problema ainda pouco explorado e ao qual não tem sido dada a devida importância.
POSFÁCIO
Para entender o texto, desembaralhe a palavra "cretamia" e substitua-a; faça o mesmo com "sadaba" , lendo-a de trás para frente.
Caso continue não entendendo, troque Chraetinus ignobilis por micareteiro.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
A Bíblia e a pá: notas sobre o infanticídio amazônico
É cada vez mais estarrecedora a total falta de capacidade de tomar um caminho do meio para a qual a maioria das pessoas parece tender atualmente. Exemplo disso foi a polêmica criada em torno da recente - pelo menos para mim - divulgação de um vídeo na internet que mostrava um ritual indígena em uma tribo amazônica ainda pouco aculturada. O exótico ritual consiste em cavar um buraco de cerca de um metro de profundidade, ali mesmo, nas terras próximas à aldeia, e nesse buraco enterrar uma criança de seus sete ou oito anos de idade, viva, chorando de desespero. O significado do ritual eu ignoro. O desfecho do vídeo também, uma vez que não tive sangue frio o suficiente para assisti-lo até o final - alguns dizem que a criança se salva; duvido, mas tomara...E como se não bastassem os recentes eventos que se operaram na demarcação de terras indígenas na reserva Raposa/Serra do Sol, além da chocante cena veiculada há alguns meses atrás na qual um engenheiro era brutalmente atacado por indígenas com facões, temos mais uma vez o primeiro habitante do Brasil como o foco das atenções midiáticas.
Arrisco-me a dizer que nenhuma outra figura foi tão controvertidamente retratada pelos meios de comunicação nacionais como a figura do índio: de um estúpido incapaz nos árcades a heróis nacional exaltado pelos românticos, o índio assume uma postura cômica com os modernistas para depois fazer as vezes de símbolo vivo do atraso brasileiro na época da TV a cores: aquele homenzinho coitado, que não possui livre arbítrio e que depende de nós para se libertar do "jugo e da maldição da ignorância e do atraso".
Tão logo as minorias étnicas em nosso país passaram a ser valorizadas, com cotas para negros nas universidades e a necessidade de se repensar nossa história suscitada por ocasião do nosso "aniversário" de 500 anos, ser índio deixou de ser motivo de deboche e de piada para ocupar um espaço de singular destaque, o qual não se via desde José de Alencar e Gonçalves Dias.
E é exatamente nesse ressurgimento do orgulho índio; nesse momento tão propício ao desenvolvimento de novos mitos acerca de um possível bom selvagem do século XXI, que nos deparamos com as notícias de práticas de infanticídio vindas da tribo suruwaha, para a qual o enterro de crianças vivas constitui-se como parte de sua cultura. Momento mais oportuno para denunciar o sacrifício de crianças indígenas não poderia haver: ao mesmo tempo que acompanhamos a novela Raposa/Serra do Sol, celebramos a maioridade do Estatuto da Criança e do Adolescente.
Mais chocante do que as cenas do ritual foi a forma como a opinião pública reagiu à elas, em dois grandes blocos bastante homogêneos e extremados, aos quais podemos chamar, de maneira simplificada porém acertada, de bloco das pás, por um lado, e bloco das Bíblias, por outro. Analisemos, pois, o bloco das Bíblias.
Os bíblicos têm uma visão bastante crítica do ritual infanticida suruwaha, bem como de todos os outros problemas reltivos à questão indígena, cuja solução é eficiente, fácil e simples, tão simples que pode ser encontrada na maioria dos lares brasileiros ou mesmo no criado mudo de qualquer indivíduo: Bíblias. Querem esses indivíduos acreditar que, um povo que não foi socializado sequer com as demais tribos indígenas que os rodeiam, irá aceitar e compreender toda uma série de conhecimentos, leis e princípios originários de uma realidade, um contexto e uma região totalmente diferentes dos seus. Em outras palavras: esperam que uma tribo dos confins da Amazônia baseie sua fé e sua crença em epopéias que narram a saga do povo de Moisés, Abraão e Davi errando pelos desertos da Palestina e fugindo do faraó do Egito.
As atrocidades cometidas contra crianças são um poderoso trunfo para os partidários da tese bíblica, levando-os a concluir que a solução para o problema dos rituais malignos dos índios é botar um fim à toda cultura indígena e fazê-los aceitar o cristianismo. Talvez eles nunca tenham parado para pensar que a solução encontrada para por fim aos tribunais da Santa Inquisição da Idade Média passou muito longe de abolir a religião católica...
Articulados com o bloco bíblico estão seres não tão imbuídos de um espírito jesuítico mas igualmente brilhantes em seus argumentos: são os civilizados exemplares. Civilizados exemplares são todos aqueles que sentem verdadeiro pânico de antropólgos, sociólgos, etnólogos e tantos outros -ólogos que se prestam a estudar e compreender outras culturas mais a fundo. Para eles, a civilização Ocidental, apesar de toda sua magnificência, supremacia e inquestionável autoridade, carrega um pesado fardo: o árduo dever de moldar todas as outras sociedade e civilizações à sua imagem e semelhança.
Os civilizados exemplares se indignam ao ver rituais macabros de crianças sendo enterradas vivas, ridicularizam os defensores dos direitos indígenas, questionando-os se eles deixariam que fosse feito aquilo com seus filhos, e defendem uma aculturação rápida e imediata dos índios a fim de dar um basta a práticas horrendas como essa. O padrão de sociedade pelo qual todos deveriam se guiar é o padrão Ocidental, afinal de contas, nós não enterramos nossas crianças em nossos jardins, enterramos? Nós deixamos nossas crianças morrendo de fome nas sarjetas; nos acostumamos a ver meninos que nem sequer largaram a chupeta errando pelos sinais de trânsito todos os dias apenas para continuarem vivos, mesmo sabendo o quão miserável essa vida é; vivemos nossas vidas e nossos prazeres no conforto de nossas residências como se todo o mundo lá fora fosse pacífico como a nossa sala de estar, enquanto o crime ceifa vidas e ganha cifras cadas vez mais assustadoras nos jornais; reelegemos, ano após ano, aqueles mesmos políticos que desviam verbas da educação, saúde e moradia para seus próprios bolsos em detrimento de milhares de crianças e jovens; somos coniventes com um sistema educacional que exclui milhares de jovens do acesso à educação de qualidade; aceitamos de cabeça baixa a lei das selvas que rege o tal mercado de trabalho, que premia um número cada vez menor de pessoas em detrimento de um número cada vez maior de excluídos - nós até achamos essas leis bastante sedutoras, temos um certo fetiche por elas, afinal, quem nunca presenciou a hilária cena de um jovem engravatado de maleta na mão, ansioso para sua primeira entrevista, preocupado em parecer atraente ao mercado de trabalho? Vivemos todos sob um sistema que nos mastiga e nos tritura com uma força cada vez maior, e no entanto seguimos lutando mais para não sermos engolidos do que do que para tentar mudá-lo. Mas enterrar crianças vivas? Isso jamais!
O pé-de-guerra que se criou com essa situação não estaria consolidado se não contasse com a presença de um outro bloco, diametralmente oposto mas igualmente excêntrico: o bloco das pás. Qual a diferença para o bloco da Bíblia? Está na cara: para estes a solução é distribuir Bíblias, para aqueles, é distribuir pás, ou seja, deixar que os índios continuem cavando buracos e enterrando suas crianças vivas dentro deles, afinal, essa é a cultura indígena e ela deve ser preservada.
O bloco das pás é formado por toda sorte de pseudo-intelectualóides aplicados nos saberes antropológicos, etnológicos e sociológicos. É toda aquela gente revoltada com a imposição de valores à força, que acha que a diversidade cultural é, no final das contas, tudo o que importa de verdade. Gente dessa estirpe é contra a imposição de modos de vida, mas impõe que a diversidade étnico-cultural deve reinar acima de tudo - até mesmo do corpo de uma criança.
Fazendo coro com essa elite intelectual estão os defensores dos direitos indígenas, ávidos também por preservar suas práticas e seus rituais, por mais estranhos que eles possam parecer aos olhos do homem branco. O mais interessante é notar que esses mesmos indigenistas que defendem o infanticídio como prática cultural cuspiram marimbondos quando o índio pataxó Galdino dos Santos teve seu corpo carbonizado em um ato estúpido há onze anos atrás. Ao que não posso deixar de me questionar: e se Galdino tivesse sido vítima de um ritual de magia negra? Por que condenar a sua morte se, afinal de contas, esta se daria obedecendo à uma prática cultural? E vou mais longe: os jovens que queimaram Galdino não fizeram, afinal de contas, uma prática cultural? Não é da nossa cultura, da cultura de nossa juventude, praticar atos que impressionem nossos amigos, fazer programas exóticos, divertir-se brincando com o perigo? Por que então nossa cultura de queimar corpos é condenável e a cultura suruwaha de enterrar corpos não?
É claro, Galdino era um índio, não tinha nada a ver com nossa sociedade e suas práticas e por isso não merecia ser vítima de uma brutalidade dessas. Perfeito. E o indiozinho que foi enterrado aos prantos na selva amazônica? Ele também não tem o direito de escolher se quer ou não fazer parte daquela cultura? Nossos cientistas sociais ficam perplexos ao ver filhos que são forçados pelos pais a ir à Igreja todos os domingos; defendem que a criança deve ter o direito de escolher a religião que quer seguir e a maneira como quer segui-la, mas não admitem que a criança suruwaha também tenha o direito de não querer ser enterrada viva. O pai que faz o filho ir à Igreja contra a vontade dele é um ditador fascista; o pai que enterra uma criança viva na selva amazônica contra a vontade dela está só mantendo uma tradição.
Se tivéssemos de aceitar tudo aquilo que passa sob nossos olhos apenas sob o pretexto de que é algo cultural, até hoje a Europa estaria ardendo sob as fogueiras da Inquisição. Pois não era em nome de Deus todo poderoso que nossos antepassados mandavam bruxas para morrer? Não era isso parte da tradição católica?
Enfim, vendo os dois lados do confronto e não achando qualquer sentido em nenhuma das duas defesas, a única conclusão a que cheguei foi que nenhum dos dois lados chegará a uma conclusão sensata sobre o assunto. Uma conclusão que permita colocar um fim à morte de crianças inocentes sem que para isso se coloque fim à uma cultura. Só existe cultura porque existe vida; logo, a vida vem antes da cultura, e querer sacrificar aquela em nome desta deve ser algo condenável em qualquer credo ou não-credo do mundo. Os pró-indígenas sabem que há crianças índias morrendo de fome e doenças em diversas aldeias do país; os missionários evangélicos sabem que Abraão aceitou sacrificar seu filho a Deus, tal como os suruwaha - embora as pobres crianças nem sempre tenham a mesma sorte de Isaac. Enquanto o homem for incapaz de enxergar um caminho que não seja pura e simplesmente a Bíblia ou a pá, o mundo continuará caminhando torto, em guinadas e arranques, hora pra esquerda, hora pra direita, sem nunca seguir em frente.
Arrisco-me a dizer que nenhuma outra figura foi tão controvertidamente retratada pelos meios de comunicação nacionais como a figura do índio: de um estúpido incapaz nos árcades a heróis nacional exaltado pelos românticos, o índio assume uma postura cômica com os modernistas para depois fazer as vezes de símbolo vivo do atraso brasileiro na época da TV a cores: aquele homenzinho coitado, que não possui livre arbítrio e que depende de nós para se libertar do "jugo e da maldição da ignorância e do atraso".
Tão logo as minorias étnicas em nosso país passaram a ser valorizadas, com cotas para negros nas universidades e a necessidade de se repensar nossa história suscitada por ocasião do nosso "aniversário" de 500 anos, ser índio deixou de ser motivo de deboche e de piada para ocupar um espaço de singular destaque, o qual não se via desde José de Alencar e Gonçalves Dias.
E é exatamente nesse ressurgimento do orgulho índio; nesse momento tão propício ao desenvolvimento de novos mitos acerca de um possível bom selvagem do século XXI, que nos deparamos com as notícias de práticas de infanticídio vindas da tribo suruwaha, para a qual o enterro de crianças vivas constitui-se como parte de sua cultura. Momento mais oportuno para denunciar o sacrifício de crianças indígenas não poderia haver: ao mesmo tempo que acompanhamos a novela Raposa/Serra do Sol, celebramos a maioridade do Estatuto da Criança e do Adolescente.
Mais chocante do que as cenas do ritual foi a forma como a opinião pública reagiu à elas, em dois grandes blocos bastante homogêneos e extremados, aos quais podemos chamar, de maneira simplificada porém acertada, de bloco das pás, por um lado, e bloco das Bíblias, por outro. Analisemos, pois, o bloco das Bíblias.
Os bíblicos têm uma visão bastante crítica do ritual infanticida suruwaha, bem como de todos os outros problemas reltivos à questão indígena, cuja solução é eficiente, fácil e simples, tão simples que pode ser encontrada na maioria dos lares brasileiros ou mesmo no criado mudo de qualquer indivíduo: Bíblias. Querem esses indivíduos acreditar que, um povo que não foi socializado sequer com as demais tribos indígenas que os rodeiam, irá aceitar e compreender toda uma série de conhecimentos, leis e princípios originários de uma realidade, um contexto e uma região totalmente diferentes dos seus. Em outras palavras: esperam que uma tribo dos confins da Amazônia baseie sua fé e sua crença em epopéias que narram a saga do povo de Moisés, Abraão e Davi errando pelos desertos da Palestina e fugindo do faraó do Egito.
As atrocidades cometidas contra crianças são um poderoso trunfo para os partidários da tese bíblica, levando-os a concluir que a solução para o problema dos rituais malignos dos índios é botar um fim à toda cultura indígena e fazê-los aceitar o cristianismo. Talvez eles nunca tenham parado para pensar que a solução encontrada para por fim aos tribunais da Santa Inquisição da Idade Média passou muito longe de abolir a religião católica...
Articulados com o bloco bíblico estão seres não tão imbuídos de um espírito jesuítico mas igualmente brilhantes em seus argumentos: são os civilizados exemplares. Civilizados exemplares são todos aqueles que sentem verdadeiro pânico de antropólgos, sociólgos, etnólogos e tantos outros -ólogos que se prestam a estudar e compreender outras culturas mais a fundo. Para eles, a civilização Ocidental, apesar de toda sua magnificência, supremacia e inquestionável autoridade, carrega um pesado fardo: o árduo dever de moldar todas as outras sociedade e civilizações à sua imagem e semelhança.
Os civilizados exemplares se indignam ao ver rituais macabros de crianças sendo enterradas vivas, ridicularizam os defensores dos direitos indígenas, questionando-os se eles deixariam que fosse feito aquilo com seus filhos, e defendem uma aculturação rápida e imediata dos índios a fim de dar um basta a práticas horrendas como essa. O padrão de sociedade pelo qual todos deveriam se guiar é o padrão Ocidental, afinal de contas, nós não enterramos nossas crianças em nossos jardins, enterramos? Nós deixamos nossas crianças morrendo de fome nas sarjetas; nos acostumamos a ver meninos que nem sequer largaram a chupeta errando pelos sinais de trânsito todos os dias apenas para continuarem vivos, mesmo sabendo o quão miserável essa vida é; vivemos nossas vidas e nossos prazeres no conforto de nossas residências como se todo o mundo lá fora fosse pacífico como a nossa sala de estar, enquanto o crime ceifa vidas e ganha cifras cadas vez mais assustadoras nos jornais; reelegemos, ano após ano, aqueles mesmos políticos que desviam verbas da educação, saúde e moradia para seus próprios bolsos em detrimento de milhares de crianças e jovens; somos coniventes com um sistema educacional que exclui milhares de jovens do acesso à educação de qualidade; aceitamos de cabeça baixa a lei das selvas que rege o tal mercado de trabalho, que premia um número cada vez menor de pessoas em detrimento de um número cada vez maior de excluídos - nós até achamos essas leis bastante sedutoras, temos um certo fetiche por elas, afinal, quem nunca presenciou a hilária cena de um jovem engravatado de maleta na mão, ansioso para sua primeira entrevista, preocupado em parecer atraente ao mercado de trabalho? Vivemos todos sob um sistema que nos mastiga e nos tritura com uma força cada vez maior, e no entanto seguimos lutando mais para não sermos engolidos do que do que para tentar mudá-lo. Mas enterrar crianças vivas? Isso jamais!
O pé-de-guerra que se criou com essa situação não estaria consolidado se não contasse com a presença de um outro bloco, diametralmente oposto mas igualmente excêntrico: o bloco das pás. Qual a diferença para o bloco da Bíblia? Está na cara: para estes a solução é distribuir Bíblias, para aqueles, é distribuir pás, ou seja, deixar que os índios continuem cavando buracos e enterrando suas crianças vivas dentro deles, afinal, essa é a cultura indígena e ela deve ser preservada.
O bloco das pás é formado por toda sorte de pseudo-intelectualóides aplicados nos saberes antropológicos, etnológicos e sociológicos. É toda aquela gente revoltada com a imposição de valores à força, que acha que a diversidade cultural é, no final das contas, tudo o que importa de verdade. Gente dessa estirpe é contra a imposição de modos de vida, mas impõe que a diversidade étnico-cultural deve reinar acima de tudo - até mesmo do corpo de uma criança.
Fazendo coro com essa elite intelectual estão os defensores dos direitos indígenas, ávidos também por preservar suas práticas e seus rituais, por mais estranhos que eles possam parecer aos olhos do homem branco. O mais interessante é notar que esses mesmos indigenistas que defendem o infanticídio como prática cultural cuspiram marimbondos quando o índio pataxó Galdino dos Santos teve seu corpo carbonizado em um ato estúpido há onze anos atrás. Ao que não posso deixar de me questionar: e se Galdino tivesse sido vítima de um ritual de magia negra? Por que condenar a sua morte se, afinal de contas, esta se daria obedecendo à uma prática cultural? E vou mais longe: os jovens que queimaram Galdino não fizeram, afinal de contas, uma prática cultural? Não é da nossa cultura, da cultura de nossa juventude, praticar atos que impressionem nossos amigos, fazer programas exóticos, divertir-se brincando com o perigo? Por que então nossa cultura de queimar corpos é condenável e a cultura suruwaha de enterrar corpos não?
É claro, Galdino era um índio, não tinha nada a ver com nossa sociedade e suas práticas e por isso não merecia ser vítima de uma brutalidade dessas. Perfeito. E o indiozinho que foi enterrado aos prantos na selva amazônica? Ele também não tem o direito de escolher se quer ou não fazer parte daquela cultura? Nossos cientistas sociais ficam perplexos ao ver filhos que são forçados pelos pais a ir à Igreja todos os domingos; defendem que a criança deve ter o direito de escolher a religião que quer seguir e a maneira como quer segui-la, mas não admitem que a criança suruwaha também tenha o direito de não querer ser enterrada viva. O pai que faz o filho ir à Igreja contra a vontade dele é um ditador fascista; o pai que enterra uma criança viva na selva amazônica contra a vontade dela está só mantendo uma tradição.
Se tivéssemos de aceitar tudo aquilo que passa sob nossos olhos apenas sob o pretexto de que é algo cultural, até hoje a Europa estaria ardendo sob as fogueiras da Inquisição. Pois não era em nome de Deus todo poderoso que nossos antepassados mandavam bruxas para morrer? Não era isso parte da tradição católica?
Enfim, vendo os dois lados do confronto e não achando qualquer sentido em nenhuma das duas defesas, a única conclusão a que cheguei foi que nenhum dos dois lados chegará a uma conclusão sensata sobre o assunto. Uma conclusão que permita colocar um fim à morte de crianças inocentes sem que para isso se coloque fim à uma cultura. Só existe cultura porque existe vida; logo, a vida vem antes da cultura, e querer sacrificar aquela em nome desta deve ser algo condenável em qualquer credo ou não-credo do mundo. Os pró-indígenas sabem que há crianças índias morrendo de fome e doenças em diversas aldeias do país; os missionários evangélicos sabem que Abraão aceitou sacrificar seu filho a Deus, tal como os suruwaha - embora as pobres crianças nem sempre tenham a mesma sorte de Isaac. Enquanto o homem for incapaz de enxergar um caminho que não seja pura e simplesmente a Bíblia ou a pá, o mundo continuará caminhando torto, em guinadas e arranques, hora pra esquerda, hora pra direita, sem nunca seguir em frente.
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