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domingo, 21 de junho de 2020

Diários de quarentena - 21 de junho de 2020


Da última vez em que escrevi neste blog, o Brasil possuía 6570 mortes por Covid-19 oficialmente registradas. Hoje, dia 21 de junho, 6570 é o número médio de mortes em menos de uma semana.

O nível de mediocridade a que chegamos é tamanho que, na ausência de qualquer perspectiva otimista para o futuro, os negacionistas, em todas as suas variações (desde os que negam por completo até os que negam em partes), apelam a um otimismo patético e irresponsável. “Não olhe o número de mortos, olhe o número de recuperados!”, eles dizem. “Muita gente morreu, mas muita gente está viva!”, dizem alguns outros. “Não espalhe medo, espalhe esperança!”, bradam ainda outros. Esbravejam porque os telejornais só falam da Covid. Chamam a Rede Globo de TV Funerária. Criticam aqueles que só veem o lado negativo da pandemia. Tamanha falta de noção da realidade apenas endossa o título do artigo estampado na capa da Folha de São Paulo de outubro de 2019, que heroicamente recuperei no muro de minha casa em abril: “Reinações de Jairzinho”.

Ninguém está imune a essa onda de mediocridade. Quantas vezes não fiquei com raiva de mim mesmo por esboçar um tímido otimismo toda vez que o número diário de mortos ficava abaixo de mil. Tivemos algumas poucas notícias boas essa semana: dexametasona, vacina chinesa testada em São Paulo, OMS notando uma desaceleração de casos no Brasil... Mas os mais de mil mortos diários continuam a nos assombrar todo final (ou começo) de tarde, dependendo de onde vêm os números: se do governo ou do consórcio.

Meus sonhos com morte acabaram faz tempo, mas a sensação de estar cada vez mais perto dela, não. Poucas vezes na vida estive assim tão perto de morrer. A primeira foi em dezembro de 2004, quando, apenas um dia após o tsunami que devastou o Sudeste Asiático, viajei para a ilha de Langkawi, que também fora atingida. Um mês antes de esse mesmo tsunami ter devastado a orla da praia de Georgetown, eu também estive lá. A segunda foi em 2012 ou 2013 (ou seria 2014?), quando, voltando do trabalho, no cruzamento da Augusto de Lima com a Araguari, por muito pouco não fui atingido em cheio por um carro em alta velocidade que ignorou o sinal vermelho.

Nem mesmo o maior tempo passado dentro de casa fez sumir a sensação de estar próximo à morte. Se, conforme observei no dia 4 de abril, o muro de minha casa é um túmulo de jornais, seu quintal sempre foi um túmulo de pipas. Hoje caíram duas. Uma delas eu entreguei a um rapazinho aqui na frente que acompanhava a disputa de pipas no céu com vivo interesse. Ele confessou que a pipa não era dele, mas que aceitava de bom grado. A outra pipa caiu em três casas diferentes: o começo da linha caiu na casa do vizinho, o meio da linha atravessou o fundo do meu quintal e a pipa em si caiu na casa de trás. Tive de ir até lá para resgatá-la, já que o fio dela se enroscou na cerca elétrica.

Desde que me entendo por gente vejo pipas caindo aqui no quintal, poucas das quais foram reivindicadas. Acho que isso se dá menos por falta de interesse dos pipeiros pelas suas pipas do que por ignorar mesmo o paradeiro delas. Quem quer enterrar seus mortos sempre corre atrás. Ontem mesmo assisti a um filme sobre um fazendeiro australiano cujos filhos haviam morrido na Batalha de Galípoli, na Primeira Guerra Mundial. Finda a guerra, o fazendeiro deixa sua fazenda nos confins da Austrália e embarca para o Império Turco, onde, em meio a minas de guerra, corpos putrefatos e profunda instabilidade política, tenta recuperar os corpos de seus filhos para enterrá-los dignamente.

Nunca fui de soltar pipas. Porém, saber que sua pipa ficará esquecida em algum quintal da cidade deve ser uma sensação angustiante. Por isso mesmo nunca entendi a rabugice de certos senhores ao não devolver as pipas que caem em suas casas aos seus respectivos donos. Eles me lembram os oficiais turcos e ingleses que a todo custo dissuadiam o fazendeiro australiano de encontrar seus filhos, tentando convencê-lo de que os campos de batalha do Império Otomano eram o melhor túmulo para eles, e não uma cova simples no sertão australiano.

Perder a pipa é quase como perder a própria identidade, algo em que já estou me tornando um verdadeiro especialista. Ano passado encontrei três documentos de identidade em Belo Horizonte: um de uma estudante hondurenha na UFMG, um de uma jovem ainda no ensino médio e um de um turista carioca, todos devidamente devolvidos a seus donos. Em seus agradecimentos, todos expressavam o alívio inconfundível de ver um pedaço deles retornando a si mesmos.

Que nenhum morto de guerra seja esquecido.
Que nenhum documento de identidade seja perdido.
Que nenhuma vítima da Covid-19 seja apenas uma estatística.
E que nenhuma pipa seja perdida, pois só elas se elevam sobranceiras, rasgando os limpos céus de junho, a anunciar que a vida continua.  

domingo, 3 de maio de 2020

Diários de quarentena - 02 de maio de 2020

Se a História fosse um circo, os otimistas seriam os palhaços.

Alexis de Tocqueville diz que a nobreza francesa, bem como de outros países europeus, subestimou a Revolução Francesa, acreditando se tratar de uma agitação passageira. Quando a Primeira Guerra Mundial estoura em julho de 1914, soldados dos dois lados se despediram de seus familiares afirmando que estariam em casa para o Natal.

Mais recentemente (2008), em plena crise financeira internacional, o presidente Lula afirmou que no Brasil a crise não passaria de uma "marolinha". E em 2020, em meio a uma pandemia de Covid-19, o presidente Bolsonaro referiu-se à doença como uma "gripezinha".

A Revolução Francesa se estenderia por mais uma década, abalando as estruturas sociais europeias e ecoando nas Américas. A Primeira Guerra duraria mais quatro anos e mataria mais de 15 milhões. A longo prazo, a crise financeira de 2008 prepararia o terreno para a ascensão da extrema direita no mundo alguns anos mais tarde, incluindo-se aí ninguém menos que... Bolsonaro, cuja gripezinha já matou 6.570 brasileiros (entre atletas e sedentários) segundo os números oficiais divulgados hoje.

Eu me atrevo a fazer uma confissão que motivaria muitos de meus colegas a me crucificarem.

Por muito tempo eu subestimei a classe média reacionária brasileira. Não conseguia ver neles o instinto sanguinário que muitos lhe atribuíam. Não achava que "fascista" era o termo correto para designá-los. Tentei, muitas vezes, me colocar no seu lugar, entender seu ponto de vista, pois como um estudante da História das direitas sempre achei que esse fosse meu papel. Porém, o noticiário recente sepultou para sempre qualquer tentativa de empatia que eu pudesse ter.

O bolsonarismo olavo-terraplanista é um grande apanhado de tudo de pior que existe nesse país. Ele é o ódio ao conhecimento, o horror à ciência, o desprezo total pela razão, aliados a um apego orgulhoso, incontrolável e doentio à ignorância. Não satisfeitos em dizer que a pandemia é uma farsa e que os números estão inflacionados, fazem carreatas pela reabertura do comércio, aglomeram-se para recepcionar o presidente para onde ele vai e espalham notícias falsas dizendo que a China está disseminando máscaras contaminadas com o vírus mundo afora.

Porque não basta arrastar todos para a rua quando a doença mata mais de 400 brasileiros por dia. Também é preciso assegurar que eles não tenham qualquer proteção. Inclusive, fontes seguras me informaram que, para a próxima epidemia de dengue, os bolsonaristas já estão organizando manifestações pelo direito de acumular água parada, bem como disparos de fake news denunciando repelentes contaminados.

A esquizofrenia argumentativa é tamanha que, ao mesmo tempo em que dizem que não há pessoas morrendo de Covid-19, também dizem que o vírus foi manipulado em laboratórios como parte de um plano maligno da China para desestruturar a economia ocidental.

"A China espalhou um vírus mortal no mundo, ergo vamos sair às ruas como se nada estivesse acontecendo!".

Dentro de alguns anos, não sei se tais movimentos seriam enquadrados como otimistas ou pessimistas, mas uma coisa é certa: pessimistas ou otimistas, eles certamente entrarão para a História como palhaços - e não do tipo engraçado.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Diários de quarentena - 26 de abril de 2020


O historiador brasileiro José Honório Rodrigues observou, em seu livro “Aspirações Nacionais” (1962), que a classe média brasileira se indignou mais do que influenciou. Tal indignação frequentemente se expressou – e segue se expressando –  por meio de um discurso contra a corrupção em prol da “recuperação moral” do país. Esse discurso, segundo o autor, nada mais é do que um instrumento da luta da classe média pelo poder, além de pretexto para “abafar os tolerantes nas lutas ideológicas e de pensamento”.

O autor ainda arremata: “É um caminho normal, no desvio histórico, que os indignados acabem indignos”.

Anos atrás, quando ainda cultivava o péssimo hábito de ler as caixas de comentários de portais de notícias, lembro-me de um comentário que dizia que Hitler matou muitos, mas pelo menos não roubou seu povo. Dias atrás voltei a ver esse raciocínio em um meme no Facebook: “Quando o presidente vira notícia por passar a mão no nariz e não do dinheiro do povo é porque estamos no caminho certo”.

O combate à corrupção é, para o brasileiro de classe média, um fim em si mesmo. Tudo bem matar milhões de judeus e fraquejar diante de uma doença que já matou mais de 200 mil em poucos meses, mas Deus nos guarde do horror da corrupção. 

Nos idos de 2013, quando o gigante começava a ensaiar seus primeiros passos, esse fetiche pela luta contra a corrupção sempre me pareceu uma piada ingênua. Mas com o gigante já crescido e descontrolado, a piada começa a inspirar cuidados. “Independência ou Morte”, de Pedro Américo, foi a obra que inaugurou o Brasil dos últimos duzentos anos. A obra que inaugurará os próximos duzentos certamente será um cidadão de classe média comemorando o fim da corrupção em meio aos escombros.

Para uma classe média historicamente obcecada pela moralidade, as eleições de 2018 foram um conto de fadas.

O itinerário de Bolsonaro até a presidência era o sonho de todo partido de esquerda brasileiro nos anos 1990: vencer as eleições estoicamente, em um partido pequeno, com pouco tempo de televisão, comunicando-se diretamente com o público, apelando a um discurso antissistema, atacando a Rede Globo e – cereja do bolo – sem financiamento privado de campanha.

Bolsonaro venceu, mas não veio sozinho. Trouxe consigo o Olavo-terraplanismo, que redunda na negação da pandemia, no elogio a teorias conspiratórias e outros absurdos propagados com enorme facilidade em redes sociais e aplicativos de mensagens. A disseminação desse obscurantismo força a esquerda a agarrar-se desesperadamente aos grandes veículos de comunicação como tábua de salvação. A luta pela mídia independente e por uma imprensa alternativa, típicas bandeiras da esquerda, coexiste sofrivelmente com a constatação de que, no mar da pós-verdade, a imprensa tradicional permanece um oásis de legitimidade.

A mídia se democratizou com as redes sociais. Hoje, até a sua tia pode formar opiniões sem sair de casa. As eleições também se democratizaram com o financiamento público de campanhas. Graças a isso, até o PSL chegou à presidência. Tudo se democratiza, mas quem menos se beneficia é a esquerda.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Diários de quarentena - 15 de abril de 2020

Em 1935, o acadêmico norte-americano Harold Lasswell escreveu que uma das maiores esperanças para a compreensão entre os povos seria o advento de uma ameaça global que colocasse o mundo inteiro em perigo.

Tal ameaça não viria de um ditador megalomaníaco com ambições expansionistas, mas da natureza. Certamente alguma pandemia letal. Ao ameaçar igualmente todos os seres humanos, independente de crenças ou ideologias políticas, tal pandemia exigiria a união de todos os países em prol de um objetivo comum. Colocar preferências políticas ou rivalidades históricas acima desta luta condenaria a humanidade. 

O livro de Lasswell - "World Politics and Personal Insecurity" - faz parte de minha lista de leituras para o doutorado. Quando o li, em janeiro ou fevereiro deste ano, quase tomei nota destes trechos. Infelizmente, achei que não seriam relevantes para minha tese e ignorei-os. Nem mesmo a epidemia de covid-19, que já grassava pela China naqueles meses, me convenceu a copiá-los. Afinal de contas, naquele momento o vírus ainda parecia uma ameaça distante. 

O mundo do entre guerras em que Lasswell escreveu tais linhas era propício a tudo, menos à união. 

Com Hitler na Alemanha e Mussolini na Itália, a Europa estava em lua de mel com o fascismo. A União Soviética controlada pelos bolcheviques, por um lado, e as democracias liberais (Estados Unidos, Reino Unido e França), por outro, formavam os outros polos desta complexa configuração de poder. Mas no mar de incertezas do período entre guerras, Lasswell não via a esperança para a paz mundial em instituições nem em chancelarias. Caberia a algum vírus ou bactéria letal a nobre e diplomática tarefa de obrigar a humanidade a optar entre a união e o extermínio. 

Como bem disse nosso exausto ministro da saúde hoje, ao anunciar sua saída iminente: "O vírus não negocia com ninguém. Não negociou com o Trump, não vai negociar com nenhum governo".

Quando a disciplina de Relações Internacionais se arrastava em calorosas discussões entre o pessimismo dos realistas e o idealismo dos liberais, Lasswell demonstrava grande sensibilidade para temas considerados de menor grandeza pelos analistas internacionais. Cultura, identidades, ideias, conceitos e aspirações: ao valorizar esses domínios, o autor antecipava preocupações que só entrariam no rol da disciplina de Relações Internacionais nos anos 1980. 

Por outro lado, os prospectos de Lasswell para a união mundial não vingaram.

"O vírus faz parte de um plano maligno da China!" - grita um.

"O vírus não passa de uma gripezinha!" - vocifera outro (não raro, o mesmo que proferiu a primeira frase!).

"O vírus vem sepultar a ordem neoliberal!" - conclui apressadamente um terceiro.

"O vírus marca o início do mundo pós-Ocidental!" - reflete o quarto.

O mundo não deu as mãos para combater o vírus, e dificilmente o fará. A batalha de narrativas que se cristaliza ao redor dos recentes eventos nos mostra que Lasswell subestimou Aristóteles. Animais políticos que somos, nunca perdemos a oportunidade de politizar até mesmo uma pandemia. 

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Diários de quarentena - 7 de abril de 2020


No final de 2016, em minha segunda passagem pela Alemanha, combinei de me encontrar com um amigo em um bar.

Enquanto aguardava por ele, pedi à balconista uma Coca-Cola. Seja pelo barulho ambiente, por um erro de pronúncia ou mesmo pela incredulidade da atendente ao ver que alguém em um ambiente daquele consumiria algo não-alcoólico, ela acabou me trazendo uma cerveja Corona. Antes mesmo que eu pudesse comunicar o equívoco ela já abriu a tampa, forçando-me assim a me contentar com a cerveja mesmo odiando bebidas alcoólicas. Custei a beber metade da garrafa. Quando fomos embora, o resto que não consegui tomar já estava quente.

Resignei-me àquela Corona calado, assim como me resigno ao atual.

Quando se vive em quarentena, tudo que vem de fora dos muros de sua casa é um intruso. O jornal do dia, as compras encomendadas, o ovo de páscoa pedido no aplicativo, os boletos para pagar: tudo que cruza o batente do portão é um potencial portador do temido vírus espreitando a melhor oportunidade para te atacar.

Na noite de domingo para segunda sonhei, pela segunda vez desde a quarentena, que eu era condenado por um crime que não cometi. Uma menina que nunca vi na vida me acusou de agredi-la quando eu tinha onze anos de idade, pelo que fui sentenciado a 20 ou 30 anos de cadeia. No primeiro sonho fui condenado à morte. O lugar de minha execução era nada menos que a cozinha de minha casa. O oficial de justiça ainda me deixou escolher entre o enforcamento ou a decapitação – sugeriu o enforcamento, alegando ser indolor.

Lembro-me de ter me angustiado muito mais no segundo sonho do que no primeiro, e nisto não há nada de surpreendente. É muito mais fácil se imaginar morto do que se imaginar recluso em uma cela por 30 longos anos.   

Em algum dia entre os dois sonhos tive outro sonho no qual eu também era injustiçado.

Sonhei que morava em uma república em Belo Horizonte, e em dado momento uma das meninas com quem morava entrou comendo um pedaço de pão e tomando um copo de café. Com uma naturalidade desconcertante, minha colega de apê pediu que eu pagasse pelo seu lanche lá na padaria. Diante de minha visível incompreensão, ela retrucou (erroneamente) que eu não contribuía com nada na casa: não fazia compras e não limpava as áreas comuns, de modo que pagar pelo seu café e pelo seu pão seria uma forma de me redimir pela minha negligência.

Não sou bom em interpretar sonhos, mas creio que estes não sejam tão difíceis. Enquanto passo a quarentena no conforto de casa, muitos se expõem – seja porque precisam trabalhar, seja porque sequer tenham uma casa. Talvez até a tenham, mas sem qualquer conforto. Fazer-me injustiçado por alguns momentos é a ingênua estratégia que o inconsciente achou para tentar reparar as injustiças da vida real.

Ser historiador é fazer uma incursão por todas as misérias humanas enquanto se pergunta (com medo da resposta) se você também viverá o suficiente para presenciar alguma.

Entro em sala de aula, dou bom dia aos meus alunos, falo sobre pestes, guerras, fomes, crises e medo com a frieza de um perito a analisar um cadáver. O alarme soa e eu me vou, não sem antes me desculpar por não ter conseguido terminar o conteúdo. Mas não faz mal. Na próxima aula haverá tempo de sobra para continuar falando de mortos e injustiçados com a serenidade que só o distanciamento temporal me permite. Até que um belo dia o horror se abate sobre meu próprio tempo, e eu sinto raiva de saber que daqui a 500 anos haverá um professor de História narrando minha desgraça com a mesma serenidade e leveza com que eu narrava a dos outros.

domingo, 5 de abril de 2020

Diários da quarentena - 4 de abril de 2020

O muro de minha casa é o túmulo da imprensa nacional.

É muito alto e muito próximo do telhado. Resta ao pobre jornaleiro, todas as manhãs, calcular muito bem onde arremessar o jornal para que ele caia exatamente no pequeno espaço que existe entre o muro e o telhado – o que nem sempre acontece. Hoje avistei um desses jornais que jaziam no alto do muro e empurrei-o de lá com uma vassoura. Pensei: vou recolhê-lo e logo depois lavar bem as mãos.

Nem foi preciso. O jornal era de outubro de 2019, quando o vírus sequer passeava pelo nosso país, nem mesmo pelo noticiário internacional.

O jornal, já roto e maltratado pela ação do sol e da chuva, era inofensivo. Contemplei-o por alguns instantes com um misto de nostalgia e inveja. Afinal, era como se ele viesse de outra época, de uma época feliz: sem Covid-19, sem toques de recolher, sem eventos esportivos suspensos nem ruas vazias. Em menos de um mês essa pandemia virou nossas vidas do avesso com enorme violência. Hoje olhamos para poucos meses atrás com o mesmo saudosismo enviesado com que um idoso se lembra de sua infância.

Não havia uma só notícia boa na primeira página, a única pela qual passei os olhos. Uma delas anunciava um artigo de opinião: “Reinações de Jairzinho”. Dizia que o presidente se elegera como excêntrico e continuaria pagando de excêntrico sabe Deus até quando. Outro artigo de opinião alertava para a direita democrática, esclarecida e tolerante que se vendeu para o terraplanismo olavista ao apoiar [Jairzinho] Bolsonaro.

Mas nem o circo lamentável da política me impediu de sentir saudades. Saudades de quando nosso maior problema era Jairzinho (não que hoje ele não seja mais). Mais saudades ainda de quando a classe média pseudomoralista venerava Joaquim Barbosa em lugar do “capitão”.

Hoje recusei, pela segunda ou terceira vez, um boteco virtual com amigos. Têm certas coisas na vida que ou se faz direito, ou não se faz. Se chegamos ao ponto de ter que marcar confraternizações por videoconferência, então já não há mais motivo para confraternização. Falou-se o dia inteiro na “Live do Jorge e Mateus” no YouTube: uma noite inteira de músicas que nos fazem lembrar os tempos de faculdade. Também recusei. Já tive minha dose diária de nostalgia ao encontrar o jornal de outubro de 2019.

O jornal também me contemplava, mas com pena. Ele cumprira sua função: noticiara os eventos daquele dia de outubro de 2019 com maestria invejável. Se não foi lido, não era culpa sua. Ele nada tinha a ver com o jornaleiro que não acertou o vão entre o muro e a telha, nem tampouco com o pedreiro que projetou um muro tão alto. Do fundo de suas páginas rasgadas e desbotadas, o jornal me olhava com um olhar inquiridor: e você, cumprirá a sua função?

Não soube o que responder, mas fiz a minha parte. Joguei o jornal na reciclagem como quem envia uma carta para o futuro. Façamos nossos votos para que dentro em breve aquelas mesmas folhas, redivivas, estejam anunciando o aniversário do fim da pandemia, e não um aumento exponencial no número de casos.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Balcanizando II - Uma semana em Belgrado

A viagem de trem de Ljubljana (Eslovênia) até Belgrado (Sérvia) é longa. Cerca de onze horas. O trem também não é dos melhores: sujo, velho, desconfortável e barulhento. Mas é um dos poucos lugares dos Bálcãs onde ainda se têm ferrovias operando.

Para se chegar à Sérvia é preciso antes passar pela Croácia. É impressionante ver como a fronteira entre a Croácia e a Sérvia divide mundos tão diferentes. Atravessá-la é mais do que deixar um país para trás. É deixar a União Europeia para trás. É quase como deixar a Europa como a conhecemos para penetrar outra Europa, bem diferente daquela sobre a qual estamos habituados a ouvir.

Duas coisas nos fazem perceber que deixamos a Croácia e adentramos a Sérvia. As pichações deixam de ser no alfabeto latino e passam a ser em cirílico (ainda que o alfabeto latino também seja usado na Sérvia), e o lado sérvio é bem mais pobre. Nota-se isso pelas casas humildes, pela infraestrutura precária das cidades e pelos vários grupos de refugiados, muitos dos quais se aquecendo em fogueiras espalhadas de canto a canto.

Cruzamos a fronteira às quatro e quarenta da tarde.

A primeira cidade depois da fronteira é a pequena Šid. A única coisa que movimentava a simplória estação era um grupo de cerca de 60 ou 70 jovens, muitos deles portando mochilas do Alto Comissariado da ONU para Refugiados. A grande maioria tinha feições semíticas ou da Ásia Central. Sírios, iraquianos, iranianos, afegãos, paquistaneses... Muitos entravam e saíam freneticamente do prédio, enquanto outros comiam e outros apenas ficavam parados observando tudo. Os funcionários da ferrovia também pareciam inquietos tentando lidar com aquela situação toda. Aos poucos, os refugiados foram entrando e ocupando os assentos do último vagão do trem, perto do qual eu também me achava.

À medida que os refugiados entravam, a tensão no ar se elevava. Era visível, claramente visível, nos olhos dos serbo-croatas que lá estavam, um misto de horror, medo, ódio e desespero. Muitos se levantaram e foram sentar mais adiante, bem longe daquelas figuras estranhas que roubavam o sossego da viagem. O funcionário do trem chegou para colocar ordem na casa. Gritava em sérvio e fazia movimentos com os braços, como se quisesse dizer: “Mais pra trás! Mais pra trás!”. Ele parecia querer confiná-los todos ao último vagão, impedindo que eles cruzassem a linha divisória.

O problema é que eram muitos refugiados, e quanto mais eles ingressavam, mais espaço ocupavam, mais serbo-croatas se levantavam e mais o impaciente funcionário voltava ao local para repetir suas desesperadas tentativas de frear a “expansão” dos novos passageiros.

E a tensão no ar se elevava.

Eu observava aquilo tudo com apreensão, nervosismo, mas também curiosidade. Curiosidade que me fez ficar ali, parado. Confesso que por vezes me passou na cabeça a ideia de também me levantar e sentar-me mais à frente. Mas fiquei. Poucas vezes na minha vida estive em um ambiente tão carregado de tensão. Nem os debates de chapas para o DCE da UFMG, nem as acaloradas discussões do CAHIS, nem os vestibulares que prestei... Nada do que eu havia experimentado se assemelhava àquilo.

Lembrei-me de uma vez, há exatos dez anos, quando ainda cursava Ciências Sociais. Subimos no ônibus em BH após um churrasco da turma. Junto estava um colega nosso, completamente bêbado, que precisou ser carregado. Um dos passageiros se divertia com a situação: “Se acender um isqueiro aqui o ônibus explode!”, numa referência à quantidade de álcool ingerida pelo rapaz.

A cena parecia se repetir. Um mísero fósforo que se acendesse ali naquele vagão parecia o suficiente para mandar tudo pelos ares. Observava aquela cena com um interesse fora do comum, imaginando como aquilo acabaria e também como eu descreveria aquilo para as gerações posteriores.

Em um determinado momento, um dos refugiados audaciosamente abandonou seu reduto e começou a circular pelos outros vagões, olhando de lado a lado entre os assentos. Os poucos passageiros que haviam permanecido se sentiram ultrajados com a ousadia do jovem, que não parecia se intimidar.

No final, tudo o que ele queria era uma tomada para carregar seu celular. Alguém lhe disse que ele poderia fazê-lo no banheiro, o único lugar do trem que possuía tomada.

No ápice da tensão, com o trem já em movimento, um jovem croata resolveu abrir sua mochila, tirar uma garrafa de cerveja e oferecê-la ao referido refugiado. Em menos de um minuto, toda aquela tensão que carregava o ambiente se desfez com uma simplicidade ridícula. A frase “quebrar o gelo” nunca fez tanto sentido como naquela ocasião.

Os dois conversavam amigavelmente em inglês. O jovem era um refugiado afegão que tentava entrar na Itália. Enquanto o jovem croata conversava com o rapaz, seus familiares (que também haviam olhado para os refugiados com uma hostilidade feroz) aos poucos começaram a se interessar pela situação. Uma mulher que parecia ser a mãe do rapaz veio me perguntar algo em croata (provavelmente querendo saber se eu entendia o conteúdo da conversa dos dois). Respondi, em tom embaraçado e em inglês, que eu não falava croata. Ela deu um breve sorriso desconcertada e voltou a se sentar.

Mas não demorou até que os pais do menino croata se envolvessem na conversa. A mãe do garoto (uma das que havia olhado com horror para os incômodos passageiros) se sensibilizou a tal ponto que até distribuiu uma bandeja de doces para os refugiados que permaneceram sentados. Conversa vai, conversa vem, uma das mulheres que acompanhavam o rapaz croata (imagino que era sua tia) fez uma interessante confissão: ela também já havia sido uma refugiada, nos anos 1990, durante a guerra civil da Iugoslávia. É impressionante a capacidade que o ser humano tem de passar por uma situação de vulnerabilidade, superar essa condição e, logo depois, hostilizar alguém que está passando exatamente pela mesma situação. Quase como se não tivéssemos absolutamente nada com aquilo.

Com o tempo, reuni um pouco de coragem e comecei a conversar com o jovem afegão também. Ele me contou que era a quinta vez que falhava no intento de entrar na União Europeia. A Sérvia era passagem estratégica, já que fazia fronteira com a Croácia, país-membro da UE. Tinha planos de trabalhar em algum restaurante na Itália para poder enviar dinheiro a seus familiares no Afeganistão. Ele me mostrou fotos de seu pai já bem doente, sua mulher e sua filhinha pequena. Falando com desembaraço e tranquilidade, o afegão ainda me confessou que não sabia a própria idade ao certo, pois não tinha documentos de seu nascimento, o que dificultava ainda mais seu acesso à UE. Acreditava que tinha cerca de 32 anos. Mostrou-me também fotos dos certificados que ele ganhou da OTAN pelos serviços prestados na luta contra o Talibã. Ele me contou que operava escavadeiras que ajudavam a resgatar veículos americanos que caíam nas montanhas, além de também fornecer a localização de guerrilheiros talibãs. Perdeu as contas de quantas vezes recebeu telefonemas anônimos ameaçando ele e sua família de morte. E isso tudo pra que? Para chegar à Europa e ser chamado de terrorista.

Ele não tinha medo. Falava com uma resignação quase sobrenatural: “só Deus pode tirar a minha vida”. Repetia essa frase quase como um mantra sempre que perguntado dos perigos que rondavam sua vida: seu pai doente, sua filha, sua família ameaçada, a truculência dos policiais europeus (a polícia búlgara havia quebrado seu braço uma vez)... Nada lhe abalava a confiança.

O trem chegou à estação de Belgrado no comecinho da noite. Todos desceram, e eu desci junto com o rapaz afegão. Paramos e continuamos conversando por algum tempo. Seus amigos continuaram andando e o chamavam a todo o momento. Ele me disse que iriam dormir em um setor da estação, mas que ele não queria dormir mais lá porque fazia muito frio. Continuou repetindo seu mantra: “só Deus pode me tirar a vida”, e nos despedimos.

A partir de então, cada um tomou seu rumo. Ele em busca de um chão minimamente confortável para passar a noite e eu em busca de meu hostel. Ele temendo os policiais. Eu, temendo ser assaltado no caminho (já era noite). Ele, esperançoso de finalmente sair da Sérvia e atingir a terra da promissão: a União Europeia. Eu, empolgado de conhecer um país tão diferente. Dois mundos tão diferentes, duas situações tão antagônicas, duas vidas brevemente unidas por uma viagem de trem.

O jovem croata que estava no trem ficou espantado de saber que eu era brasileiro e que estava na Sérvia a turismo. No final das contas, ele deu a todos uma ótima lição. Muitas vezes, a melhor diplomacia é o álcool.

Quando ainda estava na Eslovênia, recebi um e-mail avisando que o hostel originalmente reservado em Belgrado estava com um problema de falta de água, e me oferecendo uma cama em outro hostel, do mesmo dono. Aceitei, pois estava com preguiça de procurar outro lugar para ficar. Fui da estação até o hostel a pé. O local era meio sujo e pouco organizado, mas era barato e por isso não reclamei. Entre os hóspedes, apenas homens. Cerca de 15 a 20 hóspedes. Todos homens, e nenhum parecia estar ali a turismo. Poucos falavam inglês.

Meus colegas de quarto eram quase todos do norte da África: marroquinos, tunisianos, argelinos... Logo que cheguei, um tunisiano que não falava inglês tentou se comunicar comigo. Mostrou-me alguns clipes de rappers tunisianos e franceses estilo ostentação que ele gostava de ouvir. Esse rapaz se mostraria um tipo curioso. Não saía do hostel e raramente saía da cama. Quando eu acordava cedinho para passear ele estava lá, deitado. Quando eu voltava, já à noite, lá estava ele novamente. Posteriormente ele protagonizaria uma situação bastante delicada.

Logo na minha primeira noite em Belgrado, enquanto caminhava por um calçadão central, fui abordado por um imigrante sírio clamando por dinheiro para ajudar sua filha bebê que passava necessidades. Recusei em um primeiro momento. Porém, a lembrança daqueles refugiados com quem compartilhei algumas boas horas de viagem me fez mudar de ideia, retornar ao local e oferecer algum dinheiro ao rapaz.

Minha primeira noite naquele hostel foi um lixo. Dormi cedo, pois estava bem exausto da viagem. Por pouco não me lembrei que aquela noite era o primeiro jogo da final da Copa do Brasil: Atlético X Grêmio. Dei graças a Deus de não estar no Brasil e principalmente em Minas. Não queria ter que aturar cornetas e foguetes. Mas isso teve seu preço. Às 01:30 da madrugada, acordei com o recepcionista do hostel gritando escandalosamente ao telefone. Ele xingava, esbravejava, e fazia isso andando de um lado ao outro, como se quisesse que todos ali escutassem seu show. A única coisa que consegui entender da conversa é que seu interlocutor se chamava Natasha, pois ele constantemente repetia: “Natasha! Natasha!”, antes de disparar nova artilharia.

Custei a dormir novamente. Fiquei matutando o que era pior: aquela mala sem alça berrando ou o foguetório e buzinaço do Barro Preto em dia de jogo decisivo.

E ainda vivenciaria outro problema naquele hostel (além do principal, que contarei mais adiante). Eu dormia na cama de baixo de um beliche, pois detesto dormir na parte de cima. Porém, logo depois chegou um hóspede que se alojou na parte de cima. Era um homem alto, levemente gordo, que fazia o beliche todo ranger sempre que se mexia. Tentei conversar com ele, perguntando se ele não gostaria de ficar embaixo, já que lhe causaria menos transtornos, pois era difícil para ele escalar até o alto. Mas ele falava muito mal o inglês e se manteve irredutível na decisão de permanecer em seu lugar original. E eu permaneci ouvindo aquele rangido insuportável toda vez que ele se mexia.

Belgrado, a capital sérvia, é uma cidade em que se respira política por todos os cantos. Até as lojas de souvenirs são politizadas. Bandeiras sérvias, bonecos e camisas de Vladimir Putin, canecas e jaquetas com motivos nacionalistas... A Sérvia como a conhecemos hoje nada mais é do que o último remanescente da antiga Iugoslávia, um país formado entre os anos 1920 e 1930 que reunia diversas repúblicas. No começo dos anos 1990, com o fim da Guerra Fria e o colapso do mundo comunista, teve início o processo de “balcanização”: a Iugoslávia começou a se dissolver, pois várias repúblicas proclamavam sua independência, em um processo mais ou menos similar ao que acontecia na União Soviética. A Eslovênia foi a primeira a se separar, ainda em 1991, em um processo relativamente pacífico. A Macedônia, mais ao sul, também se separou de forma pacífica. Porém, duas outras repúblicas conquistaram sua independência sob preços altíssimos: Croácia e Bósnia-Herzegovina. Isso se deu porque, nesses locais, havia uma elevada presença de sérvios, que era a etnia que controlava a Iugoslávia. Os sérvios que viviam na Croácia e na Bósnia-Herzegovina não suportavam a ideia de ter que viver sob outro governo.

Em 2003, a Iugoslávia deixa de existir oficialmente e passa a se chamar Sérvia e Montenegro, as duas únicas repúblicas que haviam restado. Em 2006, Montenegro declara sua independência por meio de um plebiscito e em 2008 foi a vez do Kosovo, uma região de população albanesa, se declarar independente da Sérvia.

A cena cultural em Belgrado também é bastante forte. Em todos os lugares se veem galerias de arte, teatros e ateliês. A cidade transpira história em cada monumento ás vítimas de alguma das várias guerras que assolaram a região, em cada memorial, em cada ruína dos prédios bombardeados pela OTAN em 1999. Naquele ano, os sérvios promoveram uma carnificina para impedir que a região do Kosovo se separasse. Em frente ao parlamento (um dos mais belos prédios da cidade), havia uma extensa faixa pedindo justiça, com as fotos de todos os sérvios vitimados pelos bombardeios da OTAN e pelos confrontos com as forças albanesas. Um dos passeios turísticos que peguei passava pelos bunkers usados para se proteger das bombas nazistas e terminava em uma adega com uma degustação de vinhos. Como não bebo álcool, aproveitei a experiência bem menos que os demais.

Mas o lugar mais fascinante é, sem dúvidas, o museu histórico da cidade, onde se acha o mausoléu do marechal Josip Broz Tito, que governou a Iugoslávia entre 1945 e 1980. Tito converteu-se em uma das mais populares lideranças socialistas, além de ser um ícone na luta dos países não-alinhados. Nos países da ex-Iugoslávia não é diferente. Tito é venerado entre os sérvios, que ainda exibem fotos suas em estabelecimentos comerciais. Apesar do carinho e da admiração que nutrem pelo seu antigo líder, a maioria dos sérvios não parece ser favorável ao retorno do socialismo. O discurso mais recorrente é o da resignação: Tito foi e sempre será um mito, o socialismo foi bom enquanto durou, mas já não serve mais. O importante agora é abrir os mercados e ganhar dinheiro.

A cada história da guerra que nosso jovem guia turístico contava da guerra no Kosovo, eu me lembrava de mim mesmo naquela época. Daquele distante ano de 1999, quando eu, do alto dos meus onze anos, abominava os Estados Unidos em todos os sentidos e com todas as minhas forças, desde o bombardeio ao Iraque em 1998. E extravasava meu ódio de diversas maneiras – uma delas, praguejando contra as boy bands americanas que estouravam na época. Lembro-me de ler nos jornais o quanto os mísseis da OTAN erravam seus alvos. Um deles chegou mesmo a atingir a embaixada chinesa, desencadeando verdadeira crise diplomática. E a Rússia, em seus últimos e gloriosos dias de Boris Yeltsin, ameaçando retaliar. Lembrava-me de meu ódio a Bill Clinton e às potências ocidentais – isso porque eu ainda não conhecia Bush e Trump! Mas também do meu choque ao ver as atrocidades cometidas pelos sérvios contra os albaneses. Na época minha avó até achou, no jornal, uma foto de um grupo de refugiados que tinha uma criança parecida comigo quando pequeno, inclusive até com uma jaquetinha vermelha igualzinha à que eu tinha.

Em uma de minhas muitas andanças pela cidade, visitei o prédio da universidade de Belgrado. Passeei pelos corredores das humanidades, tentei desvendar, nos murais de recados, o conteúdo da grade curricular do curso de História. E foi observando esses murais de recados que eu descobri que exatamente naquela noite estava acontecendo uma palestra com o historiador britânico Albert Hourani, autor do livro “Uma História dos Povos Árabes”. Tirei uma foto do anúncio e tentei achar desesperadamente o local. Do lado de fora do prédio se formava uma fila monstruosa para assistir a algum evento. Temi que pudesse ser a palestra de Hourani. Pedi informações a uma jovem que ajudava a organizar a fila. Ela me indicou em que direção ficava o prédio da palestra que eu pretendia assistir. Infelizmente, tão logo entrei e me sentei no auditório, foram menos de cinco minutos até que a palestra se encerrasse.

Uma pena.

De volta ao hostel, minha estadia estava ficando insustentável. Não gostava das pessoas, do ambiente, muito menos da máquina de lavar que era antiquíssima, custava a lavar e parecia que ia queimar minhas meias. Uma vez até suspeitei que um pé de meia meu que eu deixei secando na cama havia sumido. Perguntei ao tunisiano da cama ao lado se sele sabia de alguma coisa e ele acusou o rapaz que dormia na parte de cima do meu beliche. Senti raiva. Parece que existe alguma força do universo que age constantemente no sentido de separar meus pés de meia, mas era a primeira vez que essa força se materializava em uma pessoa.

Posteriormente, acabei descobrindo que na verdade não faltava nenhum par – eu que havia contado errado. Ou talvez faltasse, mas o sujeito que o subtraíra resolveu devolvê-lo sabe-se lá por qual motivo.

Em uma noite, após uma longuíssima andança, cheguei exausto ao hostel. Nem bem cheguei, fomos surpreendidos por batidas na porta. O homem dizia, em inglês: “police, open up!”. Era a temida polícia sérvia. O policial entrou em nosso quarto. Era um recinto mal iluminado, com a janela fechada por causa do inverno. Por isso ele adentrou nosso quarto com uma lanterninha e um olhar inquiridor. Poucas vezes na minha vida me senti como um criminoso – essa foi uma delas.

A autoridade pediu os passaportes de todos. Fiquei tão transtornado com a situação que custei a me lembrar de onde havia deixado o documento. Demorou um pouco até eu me dar conta que o rapaz tunisiano no beliche ao lado havia se escondido sorrateiramente sob as cobertas tão logo ouviu o policial bater à porta. E escondido ele permaneceu durante toda a abordagem. O policial também não o notou e, para a sorte dele, sua cama ficava numa posição relativamente discreta do quarto que não levantou suspeitas. Quem olhasse naquela direção veria apenas lençóis e cobertas desarrumados.

Após uma breve revista pelos outros quartos, o policial trocou algumas palavras com outros hóspedes, perguntou quem era o dono do estabelecimento (o sujeito da recepção não estava naquele momento) e depois devolveu nossos passaportes com relativa simpatia.

No dia seguinte, acordei decidido a sair de lá o quanto antes. Nesse mesmo dia, havia marcado um passeio turístico a Novi Saad, cidade do norte da Sérvia, na província de Vojvodina. Fomos eu, o guia, o motorista do carro e três turistas israelenses de meia-idade com as quais ainda mantenho certo contato até hoje. No caminho passamos por um mosteiro ortodoxo em meio às montanhas, bem como por um enorme monumento em homenagem aos partizans iugoslavos que morreram na resistência contra os nazistas. Em Novi Saad, comemos uma comida deliciosa e conversamos bastante. Sentar à mesa com um sérvio e três israelenses é uma experiência fascinante. Todos eles tinham lembranças de guerras para contar. Todos eles narravam suas experiências de usar máscaras de gás e se esconder em abrigos após o soar do alarme, e isso com a naturalidade de quem conta uma visita ao museu ou uma ida ao cinema.

Na volta para Belgrado, paramos em uma cidade minúscula e adivinhem! Mais uma degustação de vinhos... Dessa vez na casa de uma família que cultivava uvas já há muitas gerações. Na frente da casa, duas crianças brincavam com pistolas de plástico. Quem nos atendeu foi uma linda jovem de 24 anos que, como descobriríamos mais tarde, era a mãe dos meninos. Pedi para o guia turístico explicar a ela que eu bebia pouco por não gostar de álcool, e não porque o vinho não me agradasse. Não quis ser descortês. Ainda tivemos tempo para passear pela cidadezinha, que mais parecia uma cidade do interior de Minas: um colégio antigo, uma pracinha com coreto e uma igreja. Depois da missa, todos se reuniam na praça.

No caminho de volta para Belgrado, as turistas israelenses me contaram mais sobre Israel. Disseram que, por ser um país ainda jovem, todo israelense tem uma ascendência estrangeira. Uma delas era descendente de russos, outra de romenos e outra de marroquinos. Quando contei a elas sobre meu trabalho de mestrado, ficaram surpresas de saber que existia antissemitismo no Brasil nos anos 1930. E também ficaram surpresas ao saber que duas das mais importantes celebridades da TV brasileira (Silvio Santos e William Boner) eram judias.

Uma vez em Belgrado, o guia turístico se compadeceu de mim e me indicou um bom hostel não longe dali. Até ajudou-me a carregar minhas coisas até lá. O ambiente era mais limpo, a equipe mais agradável e os hóspedes mais amigáveis.

Minha estadia na Sérvia durou quase uma semana. Uma das semanas mais intensas de minha vida. A Guerra do Kosovo ainda estava tão gravada na minha memória que era quase como visitar algum cenário de minha infância. À exceção da Malásia e talvez do Paraguai, não acho que criei com qualquer outro país um laço tão grande quanto o que criei com a Sérvia. E devo dizer que até hoje nutro profundo carinho por aquela terra. Imaginar aqueles prédios por onde passei, aquelas pessoas com quem conversei, aquelas praças em que descansei e aqueles restaurantes em que comi, todos debaixo de bomba, é aterrador. Acho que uma das coisas boas de viajar é isso: aprendemos a ter empatia. Acho que não teria coragem de mandar bombardear Belgrado se eu fosse um estadista.

Em meu último dia na Sérvia precisei levantar bem cedo para outra longa viagem de trem, desta vez até Sofia, na Bulgária. Antes de partir, olhei rapidamente meu celular. Uma notícia me chocou: relatos de que o avião com a equipe da Chapecoense havia caído na Colômbia. Sem maiores detalhes.

Cheguei à estação com pouquíssimos minutos de folga para pegar o trem. Passaria a viagem inteira pensando naquele desastre aéreo. No caminho até a Bulgária, paramos na estação de Niš, cidade-natal do famoso imperador romano Constantino.