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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Confissões de Augsburg

“Sete anos depois de 2004; quatro anos depois de 2007: tudo se repete?”

Alguns dias antes de partir, uma amiga havia me dito que quanto mais crescemos, mais bobos ficamos. A comprovação disso tive no primeiro voo: suei gelado quando a aeronave da TAM levantou do aeroporto de Confins para Guarulhos, mesmo já tendo viajado de avião mais de sete vezes – e nunca, nessas vezes, ter sentido medo. Acredito que a melhor explicação não foi só o fato de ter ficado mais bobo, e sim o que aconteceu entre a primeira e última vez em que estive no exterior e hoje: acidente da TAM em 2007, acidente com o Legacy, acidente com um avião no rio Hudson, acidente da Air France, acidentes na Indonésia, acidente com o time de hóquei russo... Nada nos garante que não é a nossa vez. Não quis, portanto, olhar pela janela e ver a terra se afastando; demorei a acreditar que algo tão grande e pesado pudesse ficar no ar por muito tempo sem se espatifar no chão. Acho que a explicação é bem essa: não fiquei apenas mais bobo e medroso, fiquei também mais cético.

Há sete anos atrás era um menino bobo e imaturo viajando de avião pela primeira vez, sem medo algum. Sete anos depois eu já sou um adulto, maduro e responsável, morrendo de medo de avião.

A mulher que ocupava a poltrona oposta à minha estava lendo Raízes do Brasil, do Sérgio Buarque de Holanda. Aquilo me alegrou. Cheguei em Guarulhos sem muito tempo para ficar rodando pelo aeroporto e comer: a mulher do guichê da Alitalia disse que precisava embarcar logo e assim o fiz. No voo entre Guarulhos e Roma fiquei na primeira fileira de cadeiras, de modo que podia esticar minhas pernas livremente. Porém, não fiquei na janela e por isso não pude olhar lá embaixo quando o avião sobrevoava Belo Horizonte, Recife e o Deserto do Saara. Na hora do jantar pedi um suco de laranja e a aeromoça me serviu um suco vermelho. Pensei: “ela deve ter ouvido errado”, mas não criei caso. Mas o suco tinha mesmo gosto de laranja! Na mesma hora lembrei daquele episódio do Chaves no qual ele vendo refrescos na porta da vila: “tem o refresco de limão que parece de groselha e tem gosto de tamarindo; o de groselha que parece de tamarindo e tem gosto de limão; e o de tamarindo que parece de limão e tem gosto de groselha”.

Cheguei em Roma bem cedo: nunca tinha estado na Europa antes. Um ônibus nos levou até o local de desembarque e conexões. Lá também não tive tempo para serão: a fila da imigração estava imensa; pessoas de muitos países, com destaque para várias mulheres muçulmanas. Não tive problemas para passar e logo depois fui pegar o voo de conexão: mais uma grande fila para apenas duas entradas – a terceira entrada era para portadores de passaportes da UE, EUA e Canadá. Filipinos, brasileiros, argentinos, paraguaios e colombianos tinham que esperar. O funcionário da imigração conversava alegremente com seu colega. Quando cheguei, ele carimbou meu passaporte distraidamente, na primeira página que abriu. Não havia necessidade disso.

Aí foi mais uma correria para chegar ao portão de embarque: o ônibus nos levou até o avião da Alitalia e lá meu assento era na janela. Dessa vez tive menos medo: pude ver lá embaixo todo o litoral da Itália e uma cadeia de montanhas nevadas muito bonita. Só o que me deu medo nesse voo foi o comissário de bordo falando pelo sistema de som. Ele disse, em italiano, que aquele era o voo para “Monaco”! Fiquei imaginando o que eu iria fazer se fosse parar em Mônaco: seria de pronto repatriado, sem dúvida! Foi quando abri uma revista que estava na poltrona da frente e vi um mapa da Europa em italiano. Lá descobri que “Monaco”, em italiano, significa “Munique”. Nada de pânico...

Cheguei em Munique naquela quarta, ainda pela manhã. Quase passei batido pelo fiscal da imigração, que me pediu meu passaporte. Perguntou qual era o propósito de minha visita e eu disse que era intercambista da universidade de Augsburg. Ele viu minha foto, folheou meu passaporte e me liberou. Até então tudo havia dado certo nos voos, mas era por terra que o pesadelo iria começar.

Perguntei no balcão de informações onde ficava o trem – precisava pegá-lo para chegar a Augsburg. Ela me disse que era embaixo. Desci e passei uns 20 minutos tentando decifrar o mapa e suas legendas. Finalmente descobri em que direção ficava a plataforma e – pasmem! – consegui comprar o ticket de primeira na máquina eletrônica! Não sem antes coloca-la em espanhol. Precisei de mais informação para saber onde ficava o trem e desci mais um lance de escada. Lá embaixo estava o trem, parado, de portas abertas. Não sabia se era aquele mesmo e pedi informação em alemão a um grupo de passageiros. Eles eram estrangeiros e apenas me disseram “nicht verstehen” (não entender). Tão perdidos como eu.

Pedi então informação a uma moça alemã, que me disse não haver trem direto para Augsburg: eu precisava ir pra estação central de Munique e lá pegar outro. Ela também disse que aquele trem levava pra lá. Entrei no trem meio sem coragem: a menina não parecia muito segura da informação. Foi quando chegou um estrangeiro e me pediu informações... olhei pra ele com a maior cara de perdido e ele me ignorou. Após muito analisar o mapa que havia no trem, entendi mais ou menos onde ficava a estação. No caminho, fiquei impressionado com a beleza da paisagem: várias casas de campo e sítios com cavalos e vacas pastando. Em uma das casas de campo vi um Cristo Redentor de madeira ou papelão.

Desci na estação central e lá novamente pedi informação sobre onde pegar o trem para Augsburg. Tive que subir uma escada e lá estava ele, quase partindo. No caminho, mais paisagens bonitas: fazendas, plantações de trigo; tudo plano, bem plano... Coisa comum até para o brasileiro em geral, mas que o mineiro estranha, acostumado que está a viver entre morros.

Cheguei em Augsburg e aí foi outro drama para conseguir chegar na moradia. As duas malas, muito pesadas, meu jeito desastrado de andar pelas calçadas e meus olhos confusos ao observar o quadro de horário de ônibus denunciavam a todos que eu não era de lá. Sabia que eu precisava pegar o ônibus da linha 22 ou 23, rumo a Königsplatz, mas não sabia onde parar. Por isso, pedi informação dentro do ônibus a um rapaz que mexia no celular. Quando ele olhou para mim senti vergonha: ele era deficiente visual. Fiquei sem saber o que falar: como poderia um deficiente visual me avisar a hora em que chegou meu ponto? Acabei pedindo informação para uma mulher que sentou do meu lado. Na hora que chegou meu ponto novamente senti vergonha: tanto a mulher como o deficiente visual me avisaram, ao mesmo tempo, que era ali que devia descer. Subestimei-o, mas o agradeci. A mulher desceu comigo e me mostrou o prédio da minha moradia, justamente como na foto do site. Fica perto de uma grande ponte e próximo a dois rios.

Lá entrando, esperei pelo zelador para pegar minha chave: ele havia saído. Enquanto isso, encontrei com a Cristina, uma espanhola filha de brasileiros que também morava lá e com quem havia conversado no Facebook. Nos falamos um pouco, até que o zelador chegou. Despedi-me dela, peguei minha chave e subi. O quarto é bem pequeno, menor ainda que minha quitinete em BH. Fica no segundo andar. Tem uma cama, um banheiro (chuveiro, torneira e privada), um armário e uma pia com um fogãozinho ao lado que faz as vezes de uma cozinha. Tem também uma mesa bem grande, com muitas prateleiras e até um cofre. Duas janelas grandes dão de frente para a quadra de basquete que pertence à moradia. Lá embaixo tem uma lavanderia e cada morador tem uma caixa postal, na entrada, onde recebe suas cartas.

Estava muito suado e resolvi tomar um banho. Também estava cansado pois só dormi duas horas na voo. Mas resisti e não dormi. Saí porque estava morto de fome e comi no primeiro lugar que achei: uma espécie de café chamado “Frisch wie Müller”, aqui ao lado. Pedi um sanduíche com salaminho e tomate. Para beber, peguei na geladeira algo que julguei ser parecido com um Toddynho. A única diferença era que vinha meio-litro de leite achocolatado! Mas o gosto é bem parecido.

O dono do local, Herr (senhor) Müller foi muito solícito. Perguntei onde podia achar um lugar para fazer ligação internacional e ele me indicou uma lan house que oferece esse serviço. Mais ainda: me deu um cartão telefônico com dez euros, dizendo que eu podia usá-lo em uma cabine telefônica ali na frente. Agradeci muito e ele se colocou à disposição sempre que precisasse.

Saí em busca do telefone público para avisar ao pessoal que havia chegado. Andei bastante pela Lechhauser Strasse, apenas em linha reta, com medo de me perder, e nada encontrei. Pedi informação pra duas pessoas: uma não sabia, o outro começou a falar muito rápido e não entendi nada. No caminho resolvi parar no supermercado para comprar algumas coisas que estavam faltando: levei um shampoo anti-caspa e um pacote com oito rolos de papel higiênico (mais tarde fui descobrir que na verdade eram quatro rolos de papel-toalha – um erro comum que já cometi várias vezes no Brasil). Procurei sabonete feito doido mas não encontrei.

Nessas primeiras andanças o instinto me impediu de cometer um erro crasso: atravessar a rua com o sinal de pedestre fechado. Aqui, por mais que a rua esteja deserta, raramente alguém atravessa quando o sinal está vermelho. Até mesmo um bebum que parou ao meu lado, com uma garrafona de cerveja na mão, ficou esperando até o sinal ficar verde. Foi também nessas primeiras andanças que vi uma pichação em um muro declarando “morte aos nazistas”. Em cima da pichação, porém, um monte de rabiscos, como se alguém estivesse tentando invalidá-la... Não soube o que pensar daquilo.

No caminho de volta finalmente encontrei a cabine telefônica, pertinho da minha moradia – não sei como não a enxerguei! Liguei para minha mãe com o cartão do Herr Müller, que continha 10 euros. Falei que estava tudo bem e o cartão acabou antes que terminássemos nossa conversa. Deixei as compras no quarto e novamente saí para procurar a lan house com ligações internacionais. Andei na direção oposta e a encontrei, próximo a uma grande torre – o Jakobertor. Lá usei a internet, mandei alguns e-mails, fiz algumas ligações. O dono, um turco meio gordinho de óculos, me lembrava muito um conhecido meu de Lavras, descendente de libaneses. Aliás, em Augsburg – como em toda a Alemanha – há um número muito grande de turcos. Mas turcos de verdade, vindos da Turquia. Aqueles a quem chamamos de turcos no Brasil são, na verdade, libaneses ou sírios. Por aqui existem muitos restaurantes de comida turca e também muitas lojas para fazer ligação internacional, graças a eles.

Na volta passei em outro supermercado para comprar mais coisas: o sabonete que eu não encontrara, um papel higiênico de verdade e algo para comer mais tarde. Meu primeiro “jantar” na Alemanha foi, portanto, um leite de soja, um pãozinho francês mais pálido que defunto e um queijo suíço em fatias. Tive que tomar o leite na minha garrafinha do CASU – UFMG, pois não tinha copo. Esquentei o pão e o queijo e até que ficou gostoso.

À medida que ia anoitecendo, eu me sentia mais esgotado. Estava muito cansado e caí na real: olhei para aquilo tudo, pensei no que eu havia feito naquele dia, refleti sobre tudo – desde meu primeiro dia na aula de alemão (em agosto de 2009) até então. Perguntei a mim mesmo: “o que foi que eu fiz?”, e não obtive resposta. Passar um ano na Malásia foi moleza; passar um dia na Alemanha me pareceu um suplício. Custei a dormir, pois não me acostumei ao fuso-horário. Pra piorar, altas horas da madrugada uma menina em outro apartamento começou a gritar escandalosamente, como se estivesse brigando com alguém. Ela gritava muito e ouvi barulhos de coisas caindo no chão. Ficou assim por uns cinco minutos e depois tudo se silenciou – e eu dormi. Até hoje não descobri o que foi aquilo.

No dia seguinte acordei como se nada tivesse acontecido: as dúvidas e os problemas da noite passada não mais me afligiam. Até agora não entendi exatamente o que houve comigo aquela noite. Acho que o cansaço acabou me deixando com alucinações. De toda forma, tomei meu café (mais leite de soja, pão e queijo suíço), tomei banho e saí. Fui mais uma vez na lan house do turco. Queria saber quanto tinha ficado o jogo do Cruzeiro com o São Paulo, mas esqueci de ver o resultado. Li, porém, todos os e-mails respondidos; um deles da moça da universidade que lida com intercambistas. Me disse que eu podia encontra-la no seu escritório às duas da tarde, e lá fui eu. Custei para entender como se compravam os tickets de ônibus e de uma espécie de bonde que tem aqui – até agora ainda não entendi direito como funciona a máquina que os vende. O pior de tudo é que não há ninguém para te cobrar a passagem: durante toda a viagem ninguém pediu meu ticket, ninguém barrou minha passagem. O brasileiro vê isso e estranha, mas aqui parece ser comum: todo mundo paga exatamente o valor correspondente ao lugar que quer ir. Se a pessoa quiser, pode entrar e andar de graça, mas ninguém faz isso. E se por acaso alguém te pega sem passagem, você paga uma multa de 40 euros. Óbvio que eu não me arrisquei.

Chegando na universidade, fui ao escritório da Frau (senhora) Kirchner, que trabalha no setor de apoio aos estudantes estrangeiros. Foi uma das melhores coisas que me aconteceram até aqui: ela me explicou tudo que eu precisava saber, me deu um mapinha da universidade, me indicou onde seriam as palestras de apresentação e até me inscreveu para o encontro de estudantes da faculdade de ciências humanas (o qual eu ignorava). Depois disso fui olhar meu seguro, minha conta no banco e almoçar, tudo ali mesmo, na universidade. Resolvi comer num restaurante de comida turca: pedi um kebab box, apenas 3 euros: um potinho de isopor com batata frita, carne de cordeiro e um molho meio apimentado. Uma delícia!

Voltando para casa passei novamente no supermercado para comprar mais coisas. Levei duas garrafas de água mineral (mais tarde eu tive a infelicidade de perceber que era água com gás, que eu odeio!). Também levei dois copinhos de iogurte com o único propósito de poder reaproveita-los depois de vazios (achei que não ia valer a pena comprar copos de vidro apenas para 5 meses). Por fim, levei um travesseiro e um cobertor, que não são fornecidos na moradia. Na minha primeira noite usei minha sacola com roupa suja de travesseiro e minha bandeira do Cruzeiro como coberta. Mais tarde, na hora de dormir, descobri o quanto as cobertas daqui são eficientes: elas não só impedem que o calor fuja, mas também te aquecem ainda mais! Aquecem tanto que nem aguentei dormir com ela e resolvi me deitar em cima dela.

Por fim, passei novamente na loja do Herr Müller para pedir informações: precisava comprar um adaptador para minhas tomadas, pois as tomadas daqui são horrendamente estranhas. Graças a isso, não consegui recarregar meu celular e, consequentemente, fiquei sem saber das horas. Ele me explicou onde tinha uma loja de material elétrico. Entendi mais ou menos e decidi que iria lá no dia seguinte. Fiquei sem-graça de ir no Herr Müller só pra pedir informação e levei novamente um Toddynho de meio-litro. A noite do meu segundo dia na Alemanha foi melhor que a primeira: minha ida à universidade me animara bastante e eu novamente sabia o que estava fazendo aqui.

Sexta-feira. Fui abrir uma conta no banco para pagar a taxa da universidade, necessária para fazer a matrícula. O banco fica ali na universidade mesmo. Após abrir a conta paguei o valor devido. Antes disso tudo, porém, novamente almocei no restaurante turco. O dia estava chuvoso e o vento frio quase me cortava. Fui na lan house do turco mais uma vez, fiquei feliz ao saber do empate do Cruzeiro e liguei para o Felipe, um brasileiro que mora em Augsburg e também vai estudar na Uni-Augsburg. Depois peguei o transporte para ir até a loja de materiais elétricos de que o Herr Müller tinha me falado. Parei próximo à prefeitura da cidade mas demorei a achar o lugar. Isso foi, no entanto, muito bom: enquanto caminhava via igrejas, estátuas romanas, construções medievais, prédios antigos... A prefeitura e a praça à sua frente são maravilhosas! Augsburg é uma cidade histórica exatamente do jeito como gosto, a terceira mais antiga da Alemanha. Fiquei fascinado com suas construções e enquanto isso, meio sem querer, achei a loja de materiais elétricos. Na volta descobri onde ficava um lugar que eu queria muito visitar: a Brecht-Haus, a casa onde nasceu o filósofo Bertolt Brecht e que virou um museu. Mas já estava fechada.

Voltei para casa já de posse do adaptador e antes passei no supermercado: comprei mais pães (dessa vez um pãozinho mais atraente, não aquele branco-defunto), uma garrafa de chá gelado sabor pêssego e uma barra de chocolate (vício incontrolável!). Chegando em casa carreguei meu celular, instalei a internet e terminei de escrever esse texto. Aqui no quarto não tem cadeira, por isso preciso me sentar na cama para usar a escrivaninha. Ainda estou ponderando se realmente vale a penas comprar uma cadeira, mas fico numa posição meio desconfortável – por isso esse texto escrito meio às pressas.

Esses foram meus três primeiros dias na terra de Beethoven, Marx e Bento XVI. Vejamos o que o fim de semana me reserva.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O céu é azul

Era uma vez, em um lugar muito distante, um pequeno vilarejo encravado no meio das montanhas. Todos viviam felizes e em paz entre si, sem guerras, sem atritos; a comunidade produzia todo o necessário para sua subsistência. Havia poucas leis, pois não eram necessárias, e as poucas que existiam eram rigorosamente cumpridas. Portanto, nem ao menos um tribunal era necessário.

Existia, porém, um tabu: ninguém podia dizer que o céu era azul. Por mais que o céu fosse azul e que todos soubessem que ele era azul, era terminantemente proibido dizê-lo em público e mesmo dentro de casa. Nem mesmo o casal mais íntimo ou os amigos mais próximos ousavam dizer, em uma conversa privada, que o céu era azul. E de fato, nunca, ao longo da milenar história do vilarejo, alguém havia ousado afirmar tamanha barbaridade. Todas as manhãs o céu se estendia como um tapete acima das montanhas e do vilarejo, em uma extensão a se perder de vista, em um azul forte e deslumbrante. Porém, cada um sabia, no seu âmago, que o céu era azul, e isso era mais do que o suficiente.

Em uma manhã de verão um morador abriu a janela de sua casa e, olhando para cima, declarou: "o céu é azul!".
Num piscar de olhos, toda a comunidade parou o que fazia para linchá-lo. O jovem rapaz morreu em menos de meio-minuto, seu corpo foi atirado no rio para que a correnteza o levasse e jamais voltasse. Sua família foi expulsa do vilarejo e sua casa destruída; nunca mais se falou dele. Depois desse breve interregno, a comunidade voltou a viver em paz e nunca mais foi assolada por moradores que ousassem subverter o tabu.

E o céu permaneceu azul.

sábado, 18 de junho de 2011

Jiao Pei Fang, o eunuco da Torre de Marfim

Era uma vez um eunuco de nome Jiao Pei Fang, que viveu há milhares de anos no longínquo Reino da Torre de Marfim, localizado nos confins da China. Os eunucos na China antiga eram serviçais castrados a fim de tomar conta dos haréns dos imperadores, sempre cheios de belas mulheres. Também era dever dos eunucos auxiliar os soberanos em tarefas do dia a dia, especialmente durante as refeições. Cabia aos eunucos a ingrata tarefa de experimentar tudo que o monarca comia e bebia, a fim de assegurar que seu alimento não estava envenenado.

Jiao Pei Fang era o eunuco mais antigo e também o mais fiel de toda a corte do Reino. Sua fama e experiência eram tamanhas que ele trabalhava na torre de marfim – uma torre linda, alta e brilhante, onde ficavam os principais aposentos do imperador, além de seu harém, cuja fama corria os confins da Ásia Central. Pouquíssimas pessoas podiam se aproximar da torre de marfim, e menos ainda podiam adentrá-la. Todos os súditos do rei da Torre de Marfim admiravam-na no fim da tarde, quando seu brilho era ainda mais intenso e belo. Mas Jiao Pei Fang era um serviçal competente e fiel, e por isso estava sempre lá, a encher seu monarca de cuidados: protegia suas muitas mulheres, cuidava de suas filhas e nunca permitia que sequer uma gota d’água entrasse na boca real sem antes tê-la provado.

Jiao Pei Fang gozava de todos os privilégios que sua função lhe permitia: dormia em um quarto suntuoso, comia do bom e do melhor, recebia presentes todas as semanas e sempre tinha um tempo livre. Esse tempo sagrado ele aproveitava das mais diversas formas: lendo, jogando xadrez, pescando, pintando, escrevendo poesia... O rei nunca escondeu seu orgulho de Jiao Pei Fang, seu mais fiel e antigo serviçal!

Certa manhã, o rei chamou Jiao Pei Fang em seu gabinete, ao que o eunuco prontamente atendeu. O rei estava sério. Avisou ao seu fiel serviçal que, na noite passada, duas de suas mulheres haviam desaparecido do harém. Jiao Pei Fang não soube o que dizer. Trêmulo, ele assegurou ao rei que sempre contava todas as mulheres antes de fechar o harém, e que sequer uma delas estava ausente na noite passada. O rei aceitou, mas cobrou do eunuco mais empenho, no que foi prontamente atendido.

Passadas duas semanas, mais seis mulheres sumiram. O rei ia perdendo a paciência, mas no fim, sempre declinava diante da leveza e suavidade com que Jiao Pei Fang contornava a situação. O eunuco afirmava que zelar pelo harém do rei era sua maior honra, para a qual fora destinado desde os sete anos, quando foi vendido por seus pais para ser eunuco. Afirmava ainda o nobre funcionário que nada mais o agradava tanto quanto servir ao seu rei, e que seria capaz de doar suas roupas, seu dinheiro e suas duas pernas a fim de evitar que sequer um pedaço de pano da roupa de uma de suas mulheres fosse roubado.

Um mês se passou desde o último sumiço, quando novamente o harém amanheceu reduzido. Desta vez eram quinze mulheres a menos. O rei torna a chamar seu serviçal, desta vez furioso: aquilo já estava passando dos limites! E novamente Jiao Pei Fang sai em sua defesa: jamais poderia ele, nobre serviçal, tão devotado ao rei e à sua família, permitir uma afronta daquela, pois que a propriedade do rei era sagrada! E disse que ainda que tivesse todos os reinos do mundo, de todos eles desistiria, com a única finalidade de impedir que sequer meia flor do crisântemo que orna o harém fosse roubada. O rei se sensibilizou diante dos argumentos de seu servo e logo o dispensou, não sem antes ordenar que a partir de então ele dormiria no harém, a fim de evitar novos sumiços.

Passa-se apenas um dia, e na primeira noite na qual Jiao Pei Fang dorme no harém, desaparecem outras trinta mulheres. O rei manda chamá-lo imediatamente ao seu gabinete, mas não obtém resposta. Resolve ir ter com ele no harém, onde o acha embriagado, caído ao chão, incapaz de erguer sua cabeça. O rei ordena que ele se levante, mas tudo o que o pobre eunuco consegue fazer é estender a mão com um crisântemo, oferecendo-o ao rei, que novamente se sensibiliza diante de tamanha bravura.

Jiao Pei Fang já não consegue mais cuidar das mulheres do rei. Este último decide que ele não irá mais cuidar do harém, apenas de suas filhas e de sua refeição. O rei reconhece que seu pobre súdito pode estar sobrecarregado e prefere aliviar suas funções. Agora, Jiao Pei Fang pode passar mais tempo com as filhas do rei.

E naquela tarde Jiao Pei Fang chega ao aposento das jovens meninas. Ele se debruça sobre as almofadas e dorme. A noite no harém havia sido muito difícil – muitos ladrões de mulheres para combater, muitas donzelas para salvar, muita energia para proteger as posses de seu querido rei; de alguma forma, Jiao Pei Fang sempre consegue convencer, ao rei e a si mesmo, de que ele tem sido útil. Jiao Pei Fang ronca feito um trovão. Logo vira alvo de chacota de todas as filhas do rei, que se divertem com aquela cena. Algumas montam em cima dele como um cavalo e derramam água quente no rosto para acordá-lo, enquanto outras esfregam pimenta ralada em sua boca aberta, mas de nada adianta: Jiao Pei Fang segue dormindo o justo sono dos herois.

Jiao Pei Fang desperta apenas na tarde seguinte. Sente dores nas costas. Seu rosto arde e sua boca mais ainda. As filhas mais velhas do rei não estão lá. Jiao Pei Fang é novamente chamado pelo rei: metade de suas filhas sumiu! O eunuco se enche de orgulho: “agradeça a seu fiel serviçal!”. O rei não acredita no que ouve: como pode um simples eunuco deixar sumirem as filhas do rei e ainda se divertir com isso?! “Pois graças a mim – diz Jiao Pei Fang – metade de suas filhas se foi. Se não fosse por mim, teriam sumido todas!”. O rei quase chora ao ouvir o relato do eunuco: os golpes que levou nas costas, as marcas de queimadura no rosto, o veneno maligno que o fizeram ingerir... A tudo isso se submeteu o eunuco para proteger as filhas de seu rei da ação de perversos ladrões de mulheres; e se apenas as filhas mais velhas foram levadas, era porque o eunuco se compadeceu da inocência e fragilidade das mais jovens, mostrando mais empenho em defendê-las. Jiao Pei Fang é um heroi! E o rei é o primeiro a reconhecê-lo. Já não lhe fazem falta suas filhas, afinal, o melhor serviçal de todo o Reino de Marfim está ao seu lado.

O rei nunca estimou tanto seu eunuco. E seu medo de perdê-lo é tamanho que resolve tê-lo só para si. A partir de então, Jiao Pei Fang não mais cuidará das filhas do soberano: ele irá apenas provar sua refeição a fim de que o rei não seja envenenado. Na manhã seguinte, o rei acorda para tomar sua refeição matinal, mas a comida acabou: Jiao Pei Fang comeu tudo. Irritado, indignado e prestes a sacar sua espada, o rei pergunta como ele ousa fazer aquilo, ao que é respondido por um Jiao Pei Fang empanzinado, meio dormindo, meio acordado: “ingeri toda a comida a fim de ter certeza que toda ela estava segura para consumo; é comum que metade dos alimentos esteja envenenada e a outra metade não, o que pode ser fatal para o rei, que merece ainda muitos anos de vida e que os deuses o tenham para todo o sempre!”. O rei tem fome, mas tem ainda mais orgulho de seu eunuco. Nunca viu tamanha dedicação de um serviçal ao seu senhor. Mais do que nunca, ele tem certeza de ter feito a escolha certa.

Chega a hora do almoço. Jiao Pei Fang está exausto: cuidar do rei exige uma energia e vigor únicos. Só o que ele quer é provar logo a refeição do rei para aproveitar seu tempo livre. Mas o pobre eunuco ainda está cheio do café da manhã usurpado. Não cabe mais nada naquela barriga tão inchada que já o impede de enxergar o que não há. E Jiao Pei Fang resolve não experimentar o almoço. O rei pergunta ao eunuco se ele já provou do arroz, ao que este responde positivamente, assegurando-lhe estar livre de toda e qualquer substância capaz de tirar a vida de tão majestosa figura. E o rei se comove...

De volta à cozinha, Jiao Pei Fang esbarra na vasilha de arroz e deixa cair um pouco no chão. Tenta curvar-se para limpar, mas sua barriga imensa, ainda cheia da refeição matinal, não o permite. Conclui que é melhor deixar para depois, leva a refeição para o rei e sai a perambular pela torre de marfim, compondo versos e pintando paisagens. Os dois cachorros do rei logo sentem o cheiro do arroz derrubado no chão da cozinha. Os animais não demoram a achá-lo, ao que põem-se a comê-lo com prazer, mas não por muito tempo. Em poucos segundos, ambos caem ao chão.

Não há esposas nem filhas em idade para suceder ao rei morto – foram todas seqüestradas. Diante disso, e em reconhecimento aos serviços prestados à família real, Jiao Pei Fang é sagrado o novo soberano do Reino da Torre de Marfim.

sábado, 14 de maio de 2011

Diálogos inconclusos da Malásia

(Malaysian): Where are you from?
(Me): Brazil.
(Malaysian): Oh, Brazil! Ronaldo!
(Me): ...


(Malaysian): Why isn’t Brazil taking part in Euro 2004?
(Me): Because Brazil is not in Europe.
(Malaysian): Oh...Where is it?
(Me): South America.
(Malaysian): So you speak English in Brazil?
(Me): No, Portuguese.
(Malaysian): But I thought they spoke English in America!
(Me): No, no... When I say America I mean South America, not United States.
(Malaysian): ...

(Malaysian): I thought Brazilians had curly hair. Why don’t you have curly hair?
(Me): ...


(Malaysian): All Brazilians I’ve seen have dark skin.Why do you look like an European?
(Me): ...


(Malaysian): Do you have a girlfriend?
(Me): No.
(Malaysian): Have you ever had one?
(Me): No, never.
(Malaysian): But I thought Brazilian girls were all very pretty!
(Me): ...



(Malaysian): If England has the best football in the world, why aren’t players like Ronaldo and Robinho in the English Premier League?
(Me): ...


(Malaysian): Hey, why are you eating with your hands?! You are a western... in the West they don’t use hands to eat!
(Me): ...



(Malaysian): I heard you went to a buddhist temple last weekend. You cannot do that, you are a christian!
(Me): ...



(Malaysian): If you can speak English and your friends in Brazil can speak English, why don’t you talk to each other in English?
(Me): ...



(Malaysian): Which language do they speak in Brazil?
(Me): Portuguese.
(Malaysian): There’s no Brazilian language?
(Me): Well, there are some indigenous languages.
(Malaysian): Do you know how to speak them?
(Me): Not really.
(Malaysian): Why not? You are Brazilian!
(Me): ...



(Malaysian): Do Brazilian girls like sex?!
(Me): I guess...
(Malaysian): Have you ever had sex with them?
(Me): No.
(Malaysian): Why not?
(Me): ...



(Malaysian): Marcelo, you are so shy and quiet... I thought all Brazilians were happy and party people!
(Me): ...

terça-feira, 29 de março de 2011

Montando sua chapa para o DA/DCE

Eleições para DCE e DA acontecem todo os anos, e são grandes oportunidades para você, universitário, fazer parte da festa da democracia na sua instituição. Não há melhor forma de se integrar a esse fenômeno do que reunindo seus amigos e montando uma chapa para concorrer às eleições. Não fique de fora dessa!

Seguem abaixo algumas dicas fáceis e úteis para você formar a sua chapa.

PRIMEIRO PASSO: Ajustando sua vida.

1. Se o prazo permitir, tranque metade das disciplinas nas quais estiver matriculado no semestre. Fazer parte do movimento estudantil requer sacrifícios desse tipo; e tenha sempre em mente que, na expressão “movimento estudantil”, o “estudantil” é mera figura retórica.

2. Agora que você tem metade das disciplinas do semestre trancadas, desista da outra metade. Todo o tempo é precioso e os estudos só irão comprometer o bom desempenho de sua chapa (vide artigo 1). Faça o possível apenas para não ser jubilado; qualquer esforço além disso é desnecessário.
2.1. Liberte-se de suas amarras pequeno-burguesas. Não se preocupe com sua vida acadêmica ou com seu futuro profissional. Quando a revolução for consumada, todos poderemos pescar de manhã, operar máquinas à tarde e fazer poesia à noite.

3. Se o prazo de trancamento já tiver expirado, não se preocupe. Nesse caso, ao invés de desistir de metade, desista de todas as disciplinas. No final das contas, o resultado é o mesmo.
3.1. Contudo, vale ressaltar que trancar metade das matérias sob o pretexto de se candidatar ao DA ou DCE carrega um estigma social que não pode ser desprezado; essa atitude poderá lhe render alguns pontos a mais dentro do movimento estudantil. Portanto, esteja atento!

SEGUNDO PASSO: Montando sua chapa.

1. Agora que você tem seu tempo livre, pode se dedicar à elaboração de sua chapa. Junte seus colegas, colegas de seus colegas e colegas dos colegas de seus colegas e forme seu grupo.
1.1. Prefira alunos que já tenham alguma experiência em grêmios estudantis no ensino médio. Eles poderão ser muito úteis na condução da campanha.
1.2. Prefira calouros. Diferente do que diz o jargão, calouros não são burros, mas são entusiasmados, cheios de empolgação e ideias novas para mudar o mundo. Além do mais, calouros não estudaram na universidade no ano passado, e por isso desconhecem qualquer escândalo no qual os velhos de guerra em sua chapa possam estar metidos.
1.3. Tenha sempre ao menos três alunas gostosas em sua chapa. Elas não precisam saber o que é movimento estudantil, nem tampouco ter interesse em se candidatar, mas sua presença é fundamental a fim de angariar mais pessoas para a causa. Certifique-se de que elas estejam presentes em todas as passagens em sala de aula (retomaremos esse ponto mais à frente).

2. Agora é hora de dar um nome à sua chapa. Para tanto, escolha o título, o refrão ou o trecho de alguma música do Chico Buarque: "Roda Viva", "Apesar de Você", "Amanhã Vai ser Outro Dia", "Acorda Amor" e "Cálice" são alguns dos exemplos que você pode utilizar.
2.1. Caso consiga combinar esses nomes com alguma menção ao órgão disputado, qual seja: "CAlice", "RoDA Viva" ou "AcorDA Amor", melhor ainda!
2.2. Dê também um subtítulo à sua chapa, alguma frase de efeito com a finalidade de complementar o título e de dar a impressão de que vocês não estão se resumindo a copiar o Chico: RoDA viva – por uma UFMG dinâmica e ativa; AcorDA amor – Para despertar o DA de seu sono profundo, entre outros.

TERCEIRO PASSO: Divulgando sua chapa.

1. Não economize nos panfletos. Mande fazer vários deles, distribua, cole, afixe. Depois, mande fazer mais, distribua mais, cole e afixe mais... Certifique-se de que ele seja bastante colorido, não só com a finalidade de gastar o máximo possível (como veremos a seguir, dinheiro é o de menos), mas também de se diferenciar das demais chapas. Ao fim da campanha, quando as latas de lixo, ruas e calçadas do campus estiverem abarrotadas com mais panfletos seus do que dos seus adversários, aí você poderá ter a certeza de que valeu a pena.
1.1. Mais uma vez: não economize nos panfletos. Mais importante: não pague pelos panfletos. Deixe isso para o final. Todo estudante adora ter, à frente de seu órgão, uma gestão incapaz de administrar a própria campanha. Além disso, assim que você ganhar a eleição haverá um caixa cheio à sua espera.
1.2. Caso você e seus amigos tenham participado da última eleição, nunca, jamais, usem o mesmo nome que vocês usaram para sua chapa. Por mais que as pessoas sejam as mesmas, os objetivos os mesmos e as propostas as mesmas, sempre mudem de nome. Dessa maneira, vocês terão um bom pretexto para jogar no lixo aquela pilha de panfletos que sobraram da eleição passada e gastar mais dinheiro imprimindo outros.
1.3. Critique. Faça muitas críticas. Diga que a atual gestão não está representando os estudantes, que o movimento estudantil está parado, que o DA/DCE está longe dos estudantes e que é preciso algo novo para alterar essa situação. Critique também o mundo lá fora: acuse o governo de estar torrando dinheiro com coisas inúteis, reclame 10% do PIB para a educação – a fim de que você possa passar seus oito anos na faculdade confortavelmente – e acuse a ganância capitalista de ser a responsável pelos danos ao meio ambiente. Quando a reitoria ameaçar cortar as árvores do campus, bata o pé e novamente invoque o discurso ambientalista, condenando o corte de árvores e fingindo que você nunca contribuiu para isso.
1.4. Já no tocante às propostas, a instrução é justamente o oposto do que vimos no item 1.2.: nunca mude. Guarde sempre pelo menos um panfleto da eleição passada, a fim de que você possa copiar as propostas no novo folheto. Caso já não tenha mais nenhum guardado, copie as propostas da chapa adversária, alterando a ordem em que são colocadas e substituindo palavras por seus sinônimos.

2. Passe nas salas de aula. Agora que você não está mais estudando, suas manhãs, tardes e noites devem ser dedicadas a esse importante ritual. Caso consiga convencer o professor a deixá-lo entrar, fale, fale, fale, fale bastante; faça um apanhado geral de tudo aquilo que está no seu panfleto, adicione algo mais, depois passe a palavra ao seu colega de chapa. Ele irá repetir tudo o que você disse com outras palavras. Por fim, passe a palavra ao seu colega mais tímido a fim de que ele possa falar unicamente o dia e a hora da votação.
2.1. Ninguém irá prestar atenção no que vocês disseram. Por isso, não se esqueça de trazer também a colega gostosa. A presença dela poderá render alguns membros a mais para sua chapa; estes poderão ser muito úteis posteriormente, a fim de tumultuar o corredor da faculdade distribuindo panfletos.
2.2. Quando você e seus amigos já tiverem a certeza de que passaram em todas as salas, de todos os cursos e em todos os turnos... passem de novo. Pode ser que algum aluno tenha faltado quando vocês passaram, ou que eles tenham se esquecido da eleição. Na segunda passagem, repitam tudo o que disseram na primeira, com a ressalva de que estão apenas querendo reforçar o que já foi dito.

QUARTO PASSO (A): Você ganhou!

1. Parabéns! Eu disse que ia valer a pena.
1.1. Lembre-se, porém, de que sua gestão será incapaz de cumprir sequer duas das inúmeras propostas elaboradas. Assim, caso seu grupo pretenda se reeleger, é bom começar, desde já, a levantar os bodes expiatórios a serem apresentados nas próximas eleições. Diga que sua chapa fez o possível, mas que graças a eles saiu tudo errado.
1.1.2. O sucesso nesse item poderá lhe render uma dobradinha no próximo pleito.

QUARTO PASSO (B): Você perdeu...

1. Não desista! Você tem mais oito anos para chegar lá...

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O homem doente da FAFICH

Em fins do século XIX, o Império Turco-Otomano era conhecido como o homem doente da Europa. Às voltas com rebeliões internas, problemas econômicos e um aparato burocrático que tropeçava nas próprias pernas, o velho Império ia sendo aos poucos desmembrado, fragmentado, corrompido pelo vício e pela letargia, evidenciando a iminência de sua ruína. Toda a pompa de seus sultões não passava de um verniz. Armas, símbolos, brasões, títulos, poses imponentes para fotos, somados ao orgulho de uma civilização que outrora inaugurara um novo período da História ao suplantar o Império Bizantino, eram apenas a vistosa fachada de uma mansão prestes a desmoronar. E às forças centrífugas que ameaçavam a coesão do Império, os imponentes sultões opunham cada vez mais repressão, cada vez mais força, cada vez mais intransigência. Revelavam, com isso, uma desesperada tentativa de se manterem de pé, enquanto o resto da Europa prosperava às custas do Império adoecido. A Sérvia, a Bulgária e a Grécia que o digam.

Pois o mesmo mal que acometeu o homem doente da Europa faz agora outra vítima: o curso de História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais. Tal como um físico que morre ao cair de um prédio, ou um químico que padece ao inalar gases tóxicos, os historiadores foram vítimas de seu próprio objeto. Enquanto as demais graduações da FAFICH esbanjam vitalidade com bolsas, projetos de pesquisa e oportunidades aos seus alunos, o curso de História da UFMG se mostra moribundo, cambaleante, definhando ante os próprios vícios e pouco disposto a reagir. Tal como os otomanos, a História vai aos poucos se desmembrando: perde seus herois, seus grandes nomes. No lugar dos professores que se vão ficam outros tantos, alguns dos quais acabamos desejando que também tivessem partido – ou que nunca tivessem chegado. Todo o vigor que o curso ostentava no passado começa a se desvanecer e fica cada vez mais evidente que não há máscaras para camuflar sua putrefação.

O curso de História, que a princípio deveria ser um local de aprendizado, de discussão e debate de ideias, que nos permitissem refletir de forma crítica o mundo em que vivemos, acaba se tornando um espaço vazio e medíocre. A História tem vícios que a corroem, tal como o Império Otomano: o apego, o tradicionalismo, o eterno reinado da mesmice e do enfado. Todo aquele que ousa se levantar contra esse estado de coisas, propondo algo diferente, é visto com horror pelos demais, sendo logo convidado a se calar e a voltar para seu lugar. Escravidão, barroco, Minas Setecentistas: é esse o trinômio quadrado perfeito ao qual tudo no curso de História deve se conformar; é com esse triunvirato que todo aluno deve se comprometer, caso queira seguir sua carreira acadêmica. A História rica e diversa que vimos no ensino médio é logo limitada a esse eixo; qualquer tema fora dele é uma aberração para a comunidade acadêmica, que se recusa a reconhecer nele qualquer valor. Temas cada vez mais batidos sempre voltam à tona; ano após ano são virados e revirados, e por algum motivo nunca deixam de cativar a atenção dos acadêmicos, que os fuçam incessantemente como cães fuçam o lixo, na tola esperança de achar algo novo.

Mas, na tentativa de esconder esse apego doentio aos tradicionais objetos de estudo, nossos acadêmicos fingem forjar algo novo, diferente de tudo visto até então. Aqui tem início a História-picuinha, ainda mais decrépita e horrenda do que a História-mesmice. Trata-se de construir o saber histórico como quem decora a vitrine de uma loja de brinquedos: sempre levando em conta quem está vendo de fora. Gastam-se cada vez mais tempo e recursos com pesquisas medíocres, que buscam responder a questões ainda mais medíocres por razões não menos medíocres. Emerge aqui uma História inusitada, descolada, bacaninha, quase como que uma apropriação acadêmica das curiosidades que vinham nas figurinhas de chicletes com títulos do tipo “Você sabia?”. A História que problematiza, analisa e critica, perde seu valor. Os suplementos infantis dos jornais de domingo invadem a produção acadêmica com o imperativo de “Aprender brincando!”. A História se esvazia e só passa a fazer sentido na medida em que diverte o público. Vemos surgir pesquisas engajadas em esclarecer questões de extrema relevância, do tipo: “quantas vezes D. João VI copulava por semana?”, “quantos botões havia na camisa que D. Pedro I vestia quando ele proclamou a Independência?”, “qual era o prato preferido de D. Maria I?”, “com quantos anos o Visconde de Barbacena perdeu a virgindade?”. O fazer histórico adota a metodologia do marketing e da propaganda.

E os nossos sultões, o que dizem disso?

Eles, que se arrogam o direito de nos ensinar História. Mas como podem nossos professores ter a ingênua pretensão de nos ensinar algo que são incapazes de aprender? Eles estudam, ao longo de sua vida acadêmica, todos os males que caminham com o homem em sua trajetória histórica, só para depois reproduzi-los a nível micro em sala de aula. Professores tão irresponsáveis quanto o mais ineficiente presidente da Velha República; tão autoritários quanto o mais enérgico déspota oriental; tão indiferentes ao seu trabalho quanto o mais incompetente burocrata soviético de fins dos anos 1980. Eles sabem o que ensinam, mas não sabem por que o ensinam; aprendem a História, mas não aprendem com a História.

Mas não sejamos exigentes demais com nossos sultões, afinal, eles têm outras preocupações. A comunidade acadêmica é tão cruel como a sociedade do Antigo Regime, e por isso os sultões precisam cuidar de sua aparência: posam de grandes intelectuais, competem para ver quem tem mais artigos, mais citações, mais conferências, mais orientandos, mais títulos de nobreza acadêmicos... Quase se sacrificam para turbinar seus Lattes, mas dão pouca ou quase nenhuma importância a uma frase que soa cômica em seus currículos: dedicação exclusiva. Pois nem um biscateiro trata com tanto desdém o seu ofício. Há professores que se atrasam sem o menor constrangimento; professores que faltam pois têm compromissos mais importantes; e professores que vão mas que, ao fim, acabamos desejando que nem ao menos tivessem vindo, tamanha a mediocridade de suas aulas. Aparecem na sala de aula quando querem, saem quando querem e fazem o que querem.

E nós, meros súditos? A nós, o que resta?

As ordens que partiam dos palácios deviam ser prontamente aceitas em toda a extensão do Império Otomano. Do mesmo modo, as ordens que vêm do Quarto Andar devem ser acatadas de imediato por todos os estudantes. O aluno que não consegue acordar a tempo para a aula é tachado de irresponsável; o professor que não consegue acordar a tempo para a aula reúne-se com a alta cúpula e, em uma canetada, muda o turno do curso para a tarde. O aluno que não consegue conciliar os estudos com o trabalho é visto como desinteressado; o professor que não consegue conciliar o ensino com a pesquisa novamente se reúne com a alta cúpula e, mais uma vez de forma arbitrária, institui o horário corrido em toda a semana. Pior: asseguram-nos orwellianamente que tudo foi feito de maneira democrática, que houve votação, que os estudantes puderam participar e acusam aqueles que manifestam sua insatisfação de estarem fazendo escarcéu.

História: ame-a ou deixe-a.

Mas nem tudo no Império Turco-Otomano estava perdido. Em princípios do século XX, ganha força o movimento dos “Jovens Turcos”, algo mais ou menos parecido com o nosso “tenentismo”, guardadas as devidas proporções. Os Jovens Turcos eram contra o governo corrupto e viciado dos sultões. Defendiam a modernização econômica e política do país, o revigoramento do nacionalismo turco e o fim de um Império calcado no autoritarismo e no primado dos interesses personalistas.

No entanto, nossos Jovens Turcos se mostram tão realistas quanto seus próprios sultões. A eles, pouco importa resolver os problemas que afligem seu curso. Aliás, a grande maioria nem ao menos se dá conta deles. Estão todos muito satisfeitos com o jeito como as coisas andam. Mesmo os que percebem os defeitos temem assumir uma postura mais ofensiva, pois não querem contrariar seus sultões e arriscar suas preciosas bolsas. Aqueles que entram no curso com uma mentalidade que foge ao trinômio quadrado perfeito citado anteriormente logo se conformam a ele.

Enfim, nossos Jovens Turcos estão muito mais preocupados em cortejar seus sultões do que em levantar a voz contra eles. São todos ex-cristãos que, uma vez na FAFICH, enfrentam uma crise de fé e tentam achar em seus professores tudo aquilo que não mais podem achar em Deus; com isso, temem perturbar sua ira com manifestações heréticas. O Deus que tudo controla do céu é substituído pelo professor que tudo controla do quarto andar. E quanto mais raios, tempestades e fúria os professores mandam para os andares de baixo, mais nossos estudantes os adoram e menos se dispõem a contrariá-los.

A Jovem História perpetua o legado da História-mesmice e se mostra entusiasta da História-picuinha; não propõe, não cria, não inova, não vê além. Nossos Jovens Turcos são meretrizes acadêmicas. Diferente das meretrizes comuns, que ostentam sua bolsa para depois ficarem de quatro, as meretrizes acadêmicas ficam de quatro para depois ostentarem suas bolsas. Afinal, ninguém ascende ao quarto andar se não souber seduzir seus sultões.

E enquanto a Jovem História não perceber que é súdita de um Império que agoniza narcotizado, estaremos fadados a jamais achar a cura para ela. Se optarmos por descansar diante da agonia de nosso curso, não obstante o cheiro da putrefação que insiste em nos acordar, eis que descansará em paz o homem doente da FAFICH.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Os fantasmas do professor Ernesto G.

O curso de História da Universidade Federal de Minas Gerais possui vários motivos para se orgulhar. Um dos principais deles é o professor Ernesto G. Ernesto G. é o mais conceituado e experiente professor de História do Brasil Contemporâneo em todo o departamento, e ocasionalmente leciona algumas disciplinas optativas sobre ditadura militar brasileira – seu tema preferido, não apenas por estudá-lo há muitos anos, mas também por tê-lo vivenciado.

Suas aulas sobre a Ditadura Militar têm um fino toque de sadismo. Se por um lado o tema o atrai, por outro lhe traz o horror de lembranças que jamais se apagarão. Ele se lembra, todos os dias – como se fosse ontem – do medo que sentia no tempo em que era um jovem universitário, quando ia para a aula sem saber se voltaria para casa; quando freqüentava reuniões do DCE sem saber se elas durariam até o fim; quando tinha aulas sobre marxismo e esperava, apreensivo, algum infiltrado soltar uma voz de prisão contra seu professor.

O professor Ernesto G. sabe que os tempos mudaram e que, graças à sua geração, hoje todos respiram democracia. Mas, ainda assim, os fantasmas da ditadura continuam a assombrá-lo. Quando trata de temas polêmicos em suas aulas, Ernesto G. fica assustadiço: vê uma aluna puxando o iPod de sua mochila e confunde-o com o gravador de algum agente infiltrado; um aluno acidentalmente esbarra no interruptor, e Ernesto G. acha que estão sabotando sua aula; alguém deixa um estojo pesado cair no chão, e Ernesto G. quase se abaixa, a fim de escapar do suposto tiro.

Ernesto G. vive amedrontado.

Mas nem só de sustos vive nosso grande professor. Sua vida acadêmica é bastante regrada. Corrige provas como quem resolve um problema matemático: atento ao menor e mais insignificante erro, a fim de corrigi-lo e subtrair generosos pontos do aluno. Durante a aula exige silêncio: Ernesto G. expulsa da sala uma média de três alunos por semana, alegando estarem “atrapalhando o bom andamento da aula”. Todo grupo que ousar, em um trabalho, salientar qualquer ponto positivo do Regime Militar, é rapidamente censurado pelo professor. Diz Ernesto G. que falar bem da ditadura é uma atitude “fascista”. Ernesto G. não pode permitir que haja fascistas entre seus alunos.

Ademais, Ernesto G. também exerce funções fora da sala de aula. Ele é o dirigente do Centro de Memória do Trabalhador (CMT), entidade vinculada à universidade que procura resgatar todo o passado dos trabalhadores brasileiros: suas lutas, conquistas e percalços. Aqui, mais do que nunca, Ernesto G. é enfático: não admite postergações, “prazo é prazo”, e quem não entregar o trabalho na data certa ou se atrasar para os encontros corre o sério risco de ficar de fora do Centro. Afinal de contas, Ernesto G. não pode, de forma alguma, permitir que a memória do trabalhador brasileiro seja tratada com o mínimo descaso.

O último projeto no qual o CMT esteve envolvido foi o Museu do Trabalhador Mineiro. O professor Ernesto G., obviamente, foi protagonista desse empreendimento. Ele coordenou a reunião de um vasto acervo de fotos, vídeos, objetos e textos que buscam manter vivas a dignidade, a tenacidade e a história do trabalhador mineiro – desde o escravo que morria nas minas até o operário sindicalista que era preso pelos milicos.

O professor Ernesto G. é incansável.

Quando finalmente chega o grande dia em que o Museu vai ser inaugurado, Ernesto G. está nervoso. Não, não são os militares que o assustam dessa vez; pelo contrário. Ernesto teme que algo dê errado, quer assegurar que tudo corra na mais perfeita harmonia, e que seu museu seja inaugurado em paz. Liga para a equipe de segurança, pede que reforcem o policiamento, pois sabe que na rua de trás do museu há um grande número de moradores de rua. O professor Ernesto não quer e não pode admitir que “uns catadores de papel de pé no chão e vestidos em frangalhos” entrem no museu, nem que “uns vendedores de doce e pipoca” oportunistas aproveitem o movimento para assediar os convidados com seu produtos. Mas, para a felicidade de nosso professor, tudo dá certo e o museu é inaugurado sem maiores problemas.

Feliz está Ernesto G., e mais felizes ainda seus bolsistas, pois sabem que o menor desvio iria significar a rescisão de seus estágios.

Grande Ernesto G.!