(Malaysian): Where are you from?
(Me): Brazil.
(Malaysian): Oh, Brazil! Ronaldo!
(Me): ...
(Malaysian): Why isn’t Brazil taking part in Euro 2004?
(Me): Because Brazil is not in Europe.
(Malaysian): Oh...Where is it?
(Me): South America.
(Malaysian): So you speak English in Brazil?
(Me): No, Portuguese.
(Malaysian): But I thought they spoke English in America!
(Me): No, no... When I say America I mean South America, not United States.
(Malaysian): ...
(Malaysian): I thought Brazilians had curly hair. Why don’t you have curly hair?
(Me): ...
(Malaysian): All Brazilians I’ve seen have dark skin.Why do you look like an European?
(Me): ...
(Malaysian): Do you have a girlfriend?
(Me): No.
(Malaysian): Have you ever had one?
(Me): No, never.
(Malaysian): But I thought Brazilian girls were all very pretty!
(Me): ...
(Malaysian): If England has the best football in the world, why aren’t players like Ronaldo and Robinho in the English Premier League?
(Me): ...
(Malaysian): Hey, why are you eating with your hands?! You are a western... in the West they don’t use hands to eat!
(Me): ...
(Malaysian): I heard you went to a buddhist temple last weekend. You cannot do that, you are a christian!
(Me): ...
(Malaysian): If you can speak English and your friends in Brazil can speak English, why don’t you talk to each other in English?
(Me): ...
(Malaysian): Which language do they speak in Brazil?
(Me): Portuguese.
(Malaysian): There’s no Brazilian language?
(Me): Well, there are some indigenous languages.
(Malaysian): Do you know how to speak them?
(Me): Not really.
(Malaysian): Why not? You are Brazilian!
(Me): ...
(Malaysian): Do Brazilian girls like sex?!
(Me): I guess...
(Malaysian): Have you ever had sex with them?
(Me): No.
(Malaysian): Why not?
(Me): ...
(Malaysian): Marcelo, you are so shy and quiet... I thought all Brazilians were happy and party people!
(Me): ...
"Quem quiser fale mal da literatura. Quanto a mim, direi que devo a ela minha salvação. Venho da rua oprimido, escrevo dez linhas, torno-me olímpico" (Cyro dos Anjos, "O amanuense Belmiro", 1937).
Visualizações de página do mês passado
sábado, 14 de maio de 2011
terça-feira, 29 de março de 2011
Montando sua chapa para o DA/DCE
Eleições para DCE e DA acontecem todo os anos, e são grandes oportunidades para você, universitário, fazer parte da festa da democracia na sua instituição. Não há melhor forma de se integrar a esse fenômeno do que reunindo seus amigos e montando uma chapa para concorrer às eleições. Não fique de fora dessa!
Seguem abaixo algumas dicas fáceis e úteis para você formar a sua chapa.
PRIMEIRO PASSO: Ajustando sua vida.
1. Se o prazo permitir, tranque metade das disciplinas nas quais estiver matriculado no semestre. Fazer parte do movimento estudantil requer sacrifícios desse tipo; e tenha sempre em mente que, na expressão “movimento estudantil”, o “estudantil” é mera figura retórica.
2. Agora que você tem metade das disciplinas do semestre trancadas, desista da outra metade. Todo o tempo é precioso e os estudos só irão comprometer o bom desempenho de sua chapa (vide artigo 1). Faça o possível apenas para não ser jubilado; qualquer esforço além disso é desnecessário.
2.1. Liberte-se de suas amarras pequeno-burguesas. Não se preocupe com sua vida acadêmica ou com seu futuro profissional. Quando a revolução for consumada, todos poderemos pescar de manhã, operar máquinas à tarde e fazer poesia à noite.
3. Se o prazo de trancamento já tiver expirado, não se preocupe. Nesse caso, ao invés de desistir de metade, desista de todas as disciplinas. No final das contas, o resultado é o mesmo.
3.1. Contudo, vale ressaltar que trancar metade das matérias sob o pretexto de se candidatar ao DA ou DCE carrega um estigma social que não pode ser desprezado; essa atitude poderá lhe render alguns pontos a mais dentro do movimento estudantil. Portanto, esteja atento!
SEGUNDO PASSO: Montando sua chapa.
1. Agora que você tem seu tempo livre, pode se dedicar à elaboração de sua chapa. Junte seus colegas, colegas de seus colegas e colegas dos colegas de seus colegas e forme seu grupo.
1.1. Prefira alunos que já tenham alguma experiência em grêmios estudantis no ensino médio. Eles poderão ser muito úteis na condução da campanha.
1.2. Prefira calouros. Diferente do que diz o jargão, calouros não são burros, mas são entusiasmados, cheios de empolgação e ideias novas para mudar o mundo. Além do mais, calouros não estudaram na universidade no ano passado, e por isso desconhecem qualquer escândalo no qual os velhos de guerra em sua chapa possam estar metidos.
1.3. Tenha sempre ao menos três alunas gostosas em sua chapa. Elas não precisam saber o que é movimento estudantil, nem tampouco ter interesse em se candidatar, mas sua presença é fundamental a fim de angariar mais pessoas para a causa. Certifique-se de que elas estejam presentes em todas as passagens em sala de aula (retomaremos esse ponto mais à frente).
2. Agora é hora de dar um nome à sua chapa. Para tanto, escolha o título, o refrão ou o trecho de alguma música do Chico Buarque: "Roda Viva", "Apesar de Você", "Amanhã Vai ser Outro Dia", "Acorda Amor" e "Cálice" são alguns dos exemplos que você pode utilizar.
2.1. Caso consiga combinar esses nomes com alguma menção ao órgão disputado, qual seja: "CAlice", "RoDA Viva" ou "AcorDA Amor", melhor ainda!
2.2. Dê também um subtítulo à sua chapa, alguma frase de efeito com a finalidade de complementar o título e de dar a impressão de que vocês não estão se resumindo a copiar o Chico: RoDA viva – por uma UFMG dinâmica e ativa; AcorDA amor – Para despertar o DA de seu sono profundo, entre outros.
TERCEIRO PASSO: Divulgando sua chapa.
1. Não economize nos panfletos. Mande fazer vários deles, distribua, cole, afixe. Depois, mande fazer mais, distribua mais, cole e afixe mais... Certifique-se de que ele seja bastante colorido, não só com a finalidade de gastar o máximo possível (como veremos a seguir, dinheiro é o de menos), mas também de se diferenciar das demais chapas. Ao fim da campanha, quando as latas de lixo, ruas e calçadas do campus estiverem abarrotadas com mais panfletos seus do que dos seus adversários, aí você poderá ter a certeza de que valeu a pena.
1.1. Mais uma vez: não economize nos panfletos. Mais importante: não pague pelos panfletos. Deixe isso para o final. Todo estudante adora ter, à frente de seu órgão, uma gestão incapaz de administrar a própria campanha. Além disso, assim que você ganhar a eleição haverá um caixa cheio à sua espera.
1.2. Caso você e seus amigos tenham participado da última eleição, nunca, jamais, usem o mesmo nome que vocês usaram para sua chapa. Por mais que as pessoas sejam as mesmas, os objetivos os mesmos e as propostas as mesmas, sempre mudem de nome. Dessa maneira, vocês terão um bom pretexto para jogar no lixo aquela pilha de panfletos que sobraram da eleição passada e gastar mais dinheiro imprimindo outros.
1.3. Critique. Faça muitas críticas. Diga que a atual gestão não está representando os estudantes, que o movimento estudantil está parado, que o DA/DCE está longe dos estudantes e que é preciso algo novo para alterar essa situação. Critique também o mundo lá fora: acuse o governo de estar torrando dinheiro com coisas inúteis, reclame 10% do PIB para a educação – a fim de que você possa passar seus oito anos na faculdade confortavelmente – e acuse a ganância capitalista de ser a responsável pelos danos ao meio ambiente. Quando a reitoria ameaçar cortar as árvores do campus, bata o pé e novamente invoque o discurso ambientalista, condenando o corte de árvores e fingindo que você nunca contribuiu para isso.
1.4. Já no tocante às propostas, a instrução é justamente o oposto do que vimos no item 1.2.: nunca mude. Guarde sempre pelo menos um panfleto da eleição passada, a fim de que você possa copiar as propostas no novo folheto. Caso já não tenha mais nenhum guardado, copie as propostas da chapa adversária, alterando a ordem em que são colocadas e substituindo palavras por seus sinônimos.
2. Passe nas salas de aula. Agora que você não está mais estudando, suas manhãs, tardes e noites devem ser dedicadas a esse importante ritual. Caso consiga convencer o professor a deixá-lo entrar, fale, fale, fale, fale bastante; faça um apanhado geral de tudo aquilo que está no seu panfleto, adicione algo mais, depois passe a palavra ao seu colega de chapa. Ele irá repetir tudo o que você disse com outras palavras. Por fim, passe a palavra ao seu colega mais tímido a fim de que ele possa falar unicamente o dia e a hora da votação.
2.1. Ninguém irá prestar atenção no que vocês disseram. Por isso, não se esqueça de trazer também a colega gostosa. A presença dela poderá render alguns membros a mais para sua chapa; estes poderão ser muito úteis posteriormente, a fim de tumultuar o corredor da faculdade distribuindo panfletos.
2.2. Quando você e seus amigos já tiverem a certeza de que passaram em todas as salas, de todos os cursos e em todos os turnos... passem de novo. Pode ser que algum aluno tenha faltado quando vocês passaram, ou que eles tenham se esquecido da eleição. Na segunda passagem, repitam tudo o que disseram na primeira, com a ressalva de que estão apenas querendo reforçar o que já foi dito.
QUARTO PASSO (A): Você ganhou!
1. Parabéns! Eu disse que ia valer a pena.
1.1. Lembre-se, porém, de que sua gestão será incapaz de cumprir sequer duas das inúmeras propostas elaboradas. Assim, caso seu grupo pretenda se reeleger, é bom começar, desde já, a levantar os bodes expiatórios a serem apresentados nas próximas eleições. Diga que sua chapa fez o possível, mas que graças a eles saiu tudo errado.
1.1.2. O sucesso nesse item poderá lhe render uma dobradinha no próximo pleito.
QUARTO PASSO (B): Você perdeu...
1. Não desista! Você tem mais oito anos para chegar lá...
Seguem abaixo algumas dicas fáceis e úteis para você formar a sua chapa.
PRIMEIRO PASSO: Ajustando sua vida.
1. Se o prazo permitir, tranque metade das disciplinas nas quais estiver matriculado no semestre. Fazer parte do movimento estudantil requer sacrifícios desse tipo; e tenha sempre em mente que, na expressão “movimento estudantil”, o “estudantil” é mera figura retórica.
2. Agora que você tem metade das disciplinas do semestre trancadas, desista da outra metade. Todo o tempo é precioso e os estudos só irão comprometer o bom desempenho de sua chapa (vide artigo 1). Faça o possível apenas para não ser jubilado; qualquer esforço além disso é desnecessário.
2.1. Liberte-se de suas amarras pequeno-burguesas. Não se preocupe com sua vida acadêmica ou com seu futuro profissional. Quando a revolução for consumada, todos poderemos pescar de manhã, operar máquinas à tarde e fazer poesia à noite.
3. Se o prazo de trancamento já tiver expirado, não se preocupe. Nesse caso, ao invés de desistir de metade, desista de todas as disciplinas. No final das contas, o resultado é o mesmo.
3.1. Contudo, vale ressaltar que trancar metade das matérias sob o pretexto de se candidatar ao DA ou DCE carrega um estigma social que não pode ser desprezado; essa atitude poderá lhe render alguns pontos a mais dentro do movimento estudantil. Portanto, esteja atento!
SEGUNDO PASSO: Montando sua chapa.
1. Agora que você tem seu tempo livre, pode se dedicar à elaboração de sua chapa. Junte seus colegas, colegas de seus colegas e colegas dos colegas de seus colegas e forme seu grupo.
1.1. Prefira alunos que já tenham alguma experiência em grêmios estudantis no ensino médio. Eles poderão ser muito úteis na condução da campanha.
1.2. Prefira calouros. Diferente do que diz o jargão, calouros não são burros, mas são entusiasmados, cheios de empolgação e ideias novas para mudar o mundo. Além do mais, calouros não estudaram na universidade no ano passado, e por isso desconhecem qualquer escândalo no qual os velhos de guerra em sua chapa possam estar metidos.
1.3. Tenha sempre ao menos três alunas gostosas em sua chapa. Elas não precisam saber o que é movimento estudantil, nem tampouco ter interesse em se candidatar, mas sua presença é fundamental a fim de angariar mais pessoas para a causa. Certifique-se de que elas estejam presentes em todas as passagens em sala de aula (retomaremos esse ponto mais à frente).
2. Agora é hora de dar um nome à sua chapa. Para tanto, escolha o título, o refrão ou o trecho de alguma música do Chico Buarque: "Roda Viva", "Apesar de Você", "Amanhã Vai ser Outro Dia", "Acorda Amor" e "Cálice" são alguns dos exemplos que você pode utilizar.
2.1. Caso consiga combinar esses nomes com alguma menção ao órgão disputado, qual seja: "CAlice", "RoDA Viva" ou "AcorDA Amor", melhor ainda!
2.2. Dê também um subtítulo à sua chapa, alguma frase de efeito com a finalidade de complementar o título e de dar a impressão de que vocês não estão se resumindo a copiar o Chico: RoDA viva – por uma UFMG dinâmica e ativa; AcorDA amor – Para despertar o DA de seu sono profundo, entre outros.
TERCEIRO PASSO: Divulgando sua chapa.
1. Não economize nos panfletos. Mande fazer vários deles, distribua, cole, afixe. Depois, mande fazer mais, distribua mais, cole e afixe mais... Certifique-se de que ele seja bastante colorido, não só com a finalidade de gastar o máximo possível (como veremos a seguir, dinheiro é o de menos), mas também de se diferenciar das demais chapas. Ao fim da campanha, quando as latas de lixo, ruas e calçadas do campus estiverem abarrotadas com mais panfletos seus do que dos seus adversários, aí você poderá ter a certeza de que valeu a pena.
1.1. Mais uma vez: não economize nos panfletos. Mais importante: não pague pelos panfletos. Deixe isso para o final. Todo estudante adora ter, à frente de seu órgão, uma gestão incapaz de administrar a própria campanha. Além disso, assim que você ganhar a eleição haverá um caixa cheio à sua espera.
1.2. Caso você e seus amigos tenham participado da última eleição, nunca, jamais, usem o mesmo nome que vocês usaram para sua chapa. Por mais que as pessoas sejam as mesmas, os objetivos os mesmos e as propostas as mesmas, sempre mudem de nome. Dessa maneira, vocês terão um bom pretexto para jogar no lixo aquela pilha de panfletos que sobraram da eleição passada e gastar mais dinheiro imprimindo outros.
1.3. Critique. Faça muitas críticas. Diga que a atual gestão não está representando os estudantes, que o movimento estudantil está parado, que o DA/DCE está longe dos estudantes e que é preciso algo novo para alterar essa situação. Critique também o mundo lá fora: acuse o governo de estar torrando dinheiro com coisas inúteis, reclame 10% do PIB para a educação – a fim de que você possa passar seus oito anos na faculdade confortavelmente – e acuse a ganância capitalista de ser a responsável pelos danos ao meio ambiente. Quando a reitoria ameaçar cortar as árvores do campus, bata o pé e novamente invoque o discurso ambientalista, condenando o corte de árvores e fingindo que você nunca contribuiu para isso.
1.4. Já no tocante às propostas, a instrução é justamente o oposto do que vimos no item 1.2.: nunca mude. Guarde sempre pelo menos um panfleto da eleição passada, a fim de que você possa copiar as propostas no novo folheto. Caso já não tenha mais nenhum guardado, copie as propostas da chapa adversária, alterando a ordem em que são colocadas e substituindo palavras por seus sinônimos.
2. Passe nas salas de aula. Agora que você não está mais estudando, suas manhãs, tardes e noites devem ser dedicadas a esse importante ritual. Caso consiga convencer o professor a deixá-lo entrar, fale, fale, fale, fale bastante; faça um apanhado geral de tudo aquilo que está no seu panfleto, adicione algo mais, depois passe a palavra ao seu colega de chapa. Ele irá repetir tudo o que você disse com outras palavras. Por fim, passe a palavra ao seu colega mais tímido a fim de que ele possa falar unicamente o dia e a hora da votação.
2.1. Ninguém irá prestar atenção no que vocês disseram. Por isso, não se esqueça de trazer também a colega gostosa. A presença dela poderá render alguns membros a mais para sua chapa; estes poderão ser muito úteis posteriormente, a fim de tumultuar o corredor da faculdade distribuindo panfletos.
2.2. Quando você e seus amigos já tiverem a certeza de que passaram em todas as salas, de todos os cursos e em todos os turnos... passem de novo. Pode ser que algum aluno tenha faltado quando vocês passaram, ou que eles tenham se esquecido da eleição. Na segunda passagem, repitam tudo o que disseram na primeira, com a ressalva de que estão apenas querendo reforçar o que já foi dito.
QUARTO PASSO (A): Você ganhou!
1. Parabéns! Eu disse que ia valer a pena.
1.1. Lembre-se, porém, de que sua gestão será incapaz de cumprir sequer duas das inúmeras propostas elaboradas. Assim, caso seu grupo pretenda se reeleger, é bom começar, desde já, a levantar os bodes expiatórios a serem apresentados nas próximas eleições. Diga que sua chapa fez o possível, mas que graças a eles saiu tudo errado.
1.1.2. O sucesso nesse item poderá lhe render uma dobradinha no próximo pleito.
QUARTO PASSO (B): Você perdeu...
1. Não desista! Você tem mais oito anos para chegar lá...
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
O homem doente da FAFICH
Em fins do século XIX, o Império Turco-Otomano era conhecido como o homem doente da Europa. Às voltas com rebeliões internas, problemas econômicos e um aparato burocrático que tropeçava nas próprias pernas, o velho Império ia sendo aos poucos desmembrado, fragmentado, corrompido pelo vício e pela letargia, evidenciando a iminência de sua ruína. Toda a pompa de seus sultões não passava de um verniz. Armas, símbolos, brasões, títulos, poses imponentes para fotos, somados ao orgulho de uma civilização que outrora inaugurara um novo período da História ao suplantar o Império Bizantino, eram apenas a vistosa fachada de uma mansão prestes a desmoronar. E às forças centrífugas que ameaçavam a coesão do Império, os imponentes sultões opunham cada vez mais repressão, cada vez mais força, cada vez mais intransigência. Revelavam, com isso, uma desesperada tentativa de se manterem de pé, enquanto o resto da Europa prosperava às custas do Império adoecido. A Sérvia, a Bulgária e a Grécia que o digam.
Pois o mesmo mal que acometeu o homem doente da Europa faz agora outra vítima: o curso de História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais. Tal como um físico que morre ao cair de um prédio, ou um químico que padece ao inalar gases tóxicos, os historiadores foram vítimas de seu próprio objeto. Enquanto as demais graduações da FAFICH esbanjam vitalidade com bolsas, projetos de pesquisa e oportunidades aos seus alunos, o curso de História da UFMG se mostra moribundo, cambaleante, definhando ante os próprios vícios e pouco disposto a reagir. Tal como os otomanos, a História vai aos poucos se desmembrando: perde seus herois, seus grandes nomes. No lugar dos professores que se vão ficam outros tantos, alguns dos quais acabamos desejando que também tivessem partido – ou que nunca tivessem chegado. Todo o vigor que o curso ostentava no passado começa a se desvanecer e fica cada vez mais evidente que não há máscaras para camuflar sua putrefação.
O curso de História, que a princípio deveria ser um local de aprendizado, de discussão e debate de ideias, que nos permitissem refletir de forma crítica o mundo em que vivemos, acaba se tornando um espaço vazio e medíocre. A História tem vícios que a corroem, tal como o Império Otomano: o apego, o tradicionalismo, o eterno reinado da mesmice e do enfado. Todo aquele que ousa se levantar contra esse estado de coisas, propondo algo diferente, é visto com horror pelos demais, sendo logo convidado a se calar e a voltar para seu lugar. Escravidão, barroco, Minas Setecentistas: é esse o trinômio quadrado perfeito ao qual tudo no curso de História deve se conformar; é com esse triunvirato que todo aluno deve se comprometer, caso queira seguir sua carreira acadêmica. A História rica e diversa que vimos no ensino médio é logo limitada a esse eixo; qualquer tema fora dele é uma aberração para a comunidade acadêmica, que se recusa a reconhecer nele qualquer valor. Temas cada vez mais batidos sempre voltam à tona; ano após ano são virados e revirados, e por algum motivo nunca deixam de cativar a atenção dos acadêmicos, que os fuçam incessantemente como cães fuçam o lixo, na tola esperança de achar algo novo.
Mas, na tentativa de esconder esse apego doentio aos tradicionais objetos de estudo, nossos acadêmicos fingem forjar algo novo, diferente de tudo visto até então. Aqui tem início a História-picuinha, ainda mais decrépita e horrenda do que a História-mesmice. Trata-se de construir o saber histórico como quem decora a vitrine de uma loja de brinquedos: sempre levando em conta quem está vendo de fora. Gastam-se cada vez mais tempo e recursos com pesquisas medíocres, que buscam responder a questões ainda mais medíocres por razões não menos medíocres. Emerge aqui uma História inusitada, descolada, bacaninha, quase como que uma apropriação acadêmica das curiosidades que vinham nas figurinhas de chicletes com títulos do tipo “Você sabia?”. A História que problematiza, analisa e critica, perde seu valor. Os suplementos infantis dos jornais de domingo invadem a produção acadêmica com o imperativo de “Aprender brincando!”. A História se esvazia e só passa a fazer sentido na medida em que diverte o público. Vemos surgir pesquisas engajadas em esclarecer questões de extrema relevância, do tipo: “quantas vezes D. João VI copulava por semana?”, “quantos botões havia na camisa que D. Pedro I vestia quando ele proclamou a Independência?”, “qual era o prato preferido de D. Maria I?”, “com quantos anos o Visconde de Barbacena perdeu a virgindade?”. O fazer histórico adota a metodologia do marketing e da propaganda.
E os nossos sultões, o que dizem disso?
Eles, que se arrogam o direito de nos ensinar História. Mas como podem nossos professores ter a ingênua pretensão de nos ensinar algo que são incapazes de aprender? Eles estudam, ao longo de sua vida acadêmica, todos os males que caminham com o homem em sua trajetória histórica, só para depois reproduzi-los a nível micro em sala de aula. Professores tão irresponsáveis quanto o mais ineficiente presidente da Velha República; tão autoritários quanto o mais enérgico déspota oriental; tão indiferentes ao seu trabalho quanto o mais incompetente burocrata soviético de fins dos anos 1980. Eles sabem o que ensinam, mas não sabem por que o ensinam; aprendem a História, mas não aprendem com a História.
Mas não sejamos exigentes demais com nossos sultões, afinal, eles têm outras preocupações. A comunidade acadêmica é tão cruel como a sociedade do Antigo Regime, e por isso os sultões precisam cuidar de sua aparência: posam de grandes intelectuais, competem para ver quem tem mais artigos, mais citações, mais conferências, mais orientandos, mais títulos de nobreza acadêmicos... Quase se sacrificam para turbinar seus Lattes, mas dão pouca ou quase nenhuma importância a uma frase que soa cômica em seus currículos: dedicação exclusiva. Pois nem um biscateiro trata com tanto desdém o seu ofício. Há professores que se atrasam sem o menor constrangimento; professores que faltam pois têm compromissos mais importantes; e professores que vão mas que, ao fim, acabamos desejando que nem ao menos tivessem vindo, tamanha a mediocridade de suas aulas. Aparecem na sala de aula quando querem, saem quando querem e fazem o que querem.
E nós, meros súditos? A nós, o que resta?
As ordens que partiam dos palácios deviam ser prontamente aceitas em toda a extensão do Império Otomano. Do mesmo modo, as ordens que vêm do Quarto Andar devem ser acatadas de imediato por todos os estudantes. O aluno que não consegue acordar a tempo para a aula é tachado de irresponsável; o professor que não consegue acordar a tempo para a aula reúne-se com a alta cúpula e, em uma canetada, muda o turno do curso para a tarde. O aluno que não consegue conciliar os estudos com o trabalho é visto como desinteressado; o professor que não consegue conciliar o ensino com a pesquisa novamente se reúne com a alta cúpula e, mais uma vez de forma arbitrária, institui o horário corrido em toda a semana. Pior: asseguram-nos orwellianamente que tudo foi feito de maneira democrática, que houve votação, que os estudantes puderam participar e acusam aqueles que manifestam sua insatisfação de estarem fazendo escarcéu.
História: ame-a ou deixe-a.
Mas nem tudo no Império Turco-Otomano estava perdido. Em princípios do século XX, ganha força o movimento dos “Jovens Turcos”, algo mais ou menos parecido com o nosso “tenentismo”, guardadas as devidas proporções. Os Jovens Turcos eram contra o governo corrupto e viciado dos sultões. Defendiam a modernização econômica e política do país, o revigoramento do nacionalismo turco e o fim de um Império calcado no autoritarismo e no primado dos interesses personalistas.
No entanto, nossos Jovens Turcos se mostram tão realistas quanto seus próprios sultões. A eles, pouco importa resolver os problemas que afligem seu curso. Aliás, a grande maioria nem ao menos se dá conta deles. Estão todos muito satisfeitos com o jeito como as coisas andam. Mesmo os que percebem os defeitos temem assumir uma postura mais ofensiva, pois não querem contrariar seus sultões e arriscar suas preciosas bolsas. Aqueles que entram no curso com uma mentalidade que foge ao trinômio quadrado perfeito citado anteriormente logo se conformam a ele.
Enfim, nossos Jovens Turcos estão muito mais preocupados em cortejar seus sultões do que em levantar a voz contra eles. São todos ex-cristãos que, uma vez na FAFICH, enfrentam uma crise de fé e tentam achar em seus professores tudo aquilo que não mais podem achar em Deus; com isso, temem perturbar sua ira com manifestações heréticas. O Deus que tudo controla do céu é substituído pelo professor que tudo controla do quarto andar. E quanto mais raios, tempestades e fúria os professores mandam para os andares de baixo, mais nossos estudantes os adoram e menos se dispõem a contrariá-los.
A Jovem História perpetua o legado da História-mesmice e se mostra entusiasta da História-picuinha; não propõe, não cria, não inova, não vê além. Nossos Jovens Turcos são meretrizes acadêmicas. Diferente das meretrizes comuns, que ostentam sua bolsa para depois ficarem de quatro, as meretrizes acadêmicas ficam de quatro para depois ostentarem suas bolsas. Afinal, ninguém ascende ao quarto andar se não souber seduzir seus sultões.
E enquanto a Jovem História não perceber que é súdita de um Império que agoniza narcotizado, estaremos fadados a jamais achar a cura para ela. Se optarmos por descansar diante da agonia de nosso curso, não obstante o cheiro da putrefação que insiste em nos acordar, eis que descansará em paz o homem doente da FAFICH.
Pois o mesmo mal que acometeu o homem doente da Europa faz agora outra vítima: o curso de História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais. Tal como um físico que morre ao cair de um prédio, ou um químico que padece ao inalar gases tóxicos, os historiadores foram vítimas de seu próprio objeto. Enquanto as demais graduações da FAFICH esbanjam vitalidade com bolsas, projetos de pesquisa e oportunidades aos seus alunos, o curso de História da UFMG se mostra moribundo, cambaleante, definhando ante os próprios vícios e pouco disposto a reagir. Tal como os otomanos, a História vai aos poucos se desmembrando: perde seus herois, seus grandes nomes. No lugar dos professores que se vão ficam outros tantos, alguns dos quais acabamos desejando que também tivessem partido – ou que nunca tivessem chegado. Todo o vigor que o curso ostentava no passado começa a se desvanecer e fica cada vez mais evidente que não há máscaras para camuflar sua putrefação.
O curso de História, que a princípio deveria ser um local de aprendizado, de discussão e debate de ideias, que nos permitissem refletir de forma crítica o mundo em que vivemos, acaba se tornando um espaço vazio e medíocre. A História tem vícios que a corroem, tal como o Império Otomano: o apego, o tradicionalismo, o eterno reinado da mesmice e do enfado. Todo aquele que ousa se levantar contra esse estado de coisas, propondo algo diferente, é visto com horror pelos demais, sendo logo convidado a se calar e a voltar para seu lugar. Escravidão, barroco, Minas Setecentistas: é esse o trinômio quadrado perfeito ao qual tudo no curso de História deve se conformar; é com esse triunvirato que todo aluno deve se comprometer, caso queira seguir sua carreira acadêmica. A História rica e diversa que vimos no ensino médio é logo limitada a esse eixo; qualquer tema fora dele é uma aberração para a comunidade acadêmica, que se recusa a reconhecer nele qualquer valor. Temas cada vez mais batidos sempre voltam à tona; ano após ano são virados e revirados, e por algum motivo nunca deixam de cativar a atenção dos acadêmicos, que os fuçam incessantemente como cães fuçam o lixo, na tola esperança de achar algo novo.
Mas, na tentativa de esconder esse apego doentio aos tradicionais objetos de estudo, nossos acadêmicos fingem forjar algo novo, diferente de tudo visto até então. Aqui tem início a História-picuinha, ainda mais decrépita e horrenda do que a História-mesmice. Trata-se de construir o saber histórico como quem decora a vitrine de uma loja de brinquedos: sempre levando em conta quem está vendo de fora. Gastam-se cada vez mais tempo e recursos com pesquisas medíocres, que buscam responder a questões ainda mais medíocres por razões não menos medíocres. Emerge aqui uma História inusitada, descolada, bacaninha, quase como que uma apropriação acadêmica das curiosidades que vinham nas figurinhas de chicletes com títulos do tipo “Você sabia?”. A História que problematiza, analisa e critica, perde seu valor. Os suplementos infantis dos jornais de domingo invadem a produção acadêmica com o imperativo de “Aprender brincando!”. A História se esvazia e só passa a fazer sentido na medida em que diverte o público. Vemos surgir pesquisas engajadas em esclarecer questões de extrema relevância, do tipo: “quantas vezes D. João VI copulava por semana?”, “quantos botões havia na camisa que D. Pedro I vestia quando ele proclamou a Independência?”, “qual era o prato preferido de D. Maria I?”, “com quantos anos o Visconde de Barbacena perdeu a virgindade?”. O fazer histórico adota a metodologia do marketing e da propaganda.
E os nossos sultões, o que dizem disso?
Eles, que se arrogam o direito de nos ensinar História. Mas como podem nossos professores ter a ingênua pretensão de nos ensinar algo que são incapazes de aprender? Eles estudam, ao longo de sua vida acadêmica, todos os males que caminham com o homem em sua trajetória histórica, só para depois reproduzi-los a nível micro em sala de aula. Professores tão irresponsáveis quanto o mais ineficiente presidente da Velha República; tão autoritários quanto o mais enérgico déspota oriental; tão indiferentes ao seu trabalho quanto o mais incompetente burocrata soviético de fins dos anos 1980. Eles sabem o que ensinam, mas não sabem por que o ensinam; aprendem a História, mas não aprendem com a História.
Mas não sejamos exigentes demais com nossos sultões, afinal, eles têm outras preocupações. A comunidade acadêmica é tão cruel como a sociedade do Antigo Regime, e por isso os sultões precisam cuidar de sua aparência: posam de grandes intelectuais, competem para ver quem tem mais artigos, mais citações, mais conferências, mais orientandos, mais títulos de nobreza acadêmicos... Quase se sacrificam para turbinar seus Lattes, mas dão pouca ou quase nenhuma importância a uma frase que soa cômica em seus currículos: dedicação exclusiva. Pois nem um biscateiro trata com tanto desdém o seu ofício. Há professores que se atrasam sem o menor constrangimento; professores que faltam pois têm compromissos mais importantes; e professores que vão mas que, ao fim, acabamos desejando que nem ao menos tivessem vindo, tamanha a mediocridade de suas aulas. Aparecem na sala de aula quando querem, saem quando querem e fazem o que querem.
E nós, meros súditos? A nós, o que resta?
As ordens que partiam dos palácios deviam ser prontamente aceitas em toda a extensão do Império Otomano. Do mesmo modo, as ordens que vêm do Quarto Andar devem ser acatadas de imediato por todos os estudantes. O aluno que não consegue acordar a tempo para a aula é tachado de irresponsável; o professor que não consegue acordar a tempo para a aula reúne-se com a alta cúpula e, em uma canetada, muda o turno do curso para a tarde. O aluno que não consegue conciliar os estudos com o trabalho é visto como desinteressado; o professor que não consegue conciliar o ensino com a pesquisa novamente se reúne com a alta cúpula e, mais uma vez de forma arbitrária, institui o horário corrido em toda a semana. Pior: asseguram-nos orwellianamente que tudo foi feito de maneira democrática, que houve votação, que os estudantes puderam participar e acusam aqueles que manifestam sua insatisfação de estarem fazendo escarcéu.
História: ame-a ou deixe-a.
Mas nem tudo no Império Turco-Otomano estava perdido. Em princípios do século XX, ganha força o movimento dos “Jovens Turcos”, algo mais ou menos parecido com o nosso “tenentismo”, guardadas as devidas proporções. Os Jovens Turcos eram contra o governo corrupto e viciado dos sultões. Defendiam a modernização econômica e política do país, o revigoramento do nacionalismo turco e o fim de um Império calcado no autoritarismo e no primado dos interesses personalistas.
No entanto, nossos Jovens Turcos se mostram tão realistas quanto seus próprios sultões. A eles, pouco importa resolver os problemas que afligem seu curso. Aliás, a grande maioria nem ao menos se dá conta deles. Estão todos muito satisfeitos com o jeito como as coisas andam. Mesmo os que percebem os defeitos temem assumir uma postura mais ofensiva, pois não querem contrariar seus sultões e arriscar suas preciosas bolsas. Aqueles que entram no curso com uma mentalidade que foge ao trinômio quadrado perfeito citado anteriormente logo se conformam a ele.
Enfim, nossos Jovens Turcos estão muito mais preocupados em cortejar seus sultões do que em levantar a voz contra eles. São todos ex-cristãos que, uma vez na FAFICH, enfrentam uma crise de fé e tentam achar em seus professores tudo aquilo que não mais podem achar em Deus; com isso, temem perturbar sua ira com manifestações heréticas. O Deus que tudo controla do céu é substituído pelo professor que tudo controla do quarto andar. E quanto mais raios, tempestades e fúria os professores mandam para os andares de baixo, mais nossos estudantes os adoram e menos se dispõem a contrariá-los.
A Jovem História perpetua o legado da História-mesmice e se mostra entusiasta da História-picuinha; não propõe, não cria, não inova, não vê além. Nossos Jovens Turcos são meretrizes acadêmicas. Diferente das meretrizes comuns, que ostentam sua bolsa para depois ficarem de quatro, as meretrizes acadêmicas ficam de quatro para depois ostentarem suas bolsas. Afinal, ninguém ascende ao quarto andar se não souber seduzir seus sultões.
E enquanto a Jovem História não perceber que é súdita de um Império que agoniza narcotizado, estaremos fadados a jamais achar a cura para ela. Se optarmos por descansar diante da agonia de nosso curso, não obstante o cheiro da putrefação que insiste em nos acordar, eis que descansará em paz o homem doente da FAFICH.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Os fantasmas do professor Ernesto G.
O curso de História da Universidade Federal de Minas Gerais possui vários motivos para se orgulhar. Um dos principais deles é o professor Ernesto G. Ernesto G. é o mais conceituado e experiente professor de História do Brasil Contemporâneo em todo o departamento, e ocasionalmente leciona algumas disciplinas optativas sobre ditadura militar brasileira – seu tema preferido, não apenas por estudá-lo há muitos anos, mas também por tê-lo vivenciado.
Suas aulas sobre a Ditadura Militar têm um fino toque de sadismo. Se por um lado o tema o atrai, por outro lhe traz o horror de lembranças que jamais se apagarão. Ele se lembra, todos os dias – como se fosse ontem – do medo que sentia no tempo em que era um jovem universitário, quando ia para a aula sem saber se voltaria para casa; quando freqüentava reuniões do DCE sem saber se elas durariam até o fim; quando tinha aulas sobre marxismo e esperava, apreensivo, algum infiltrado soltar uma voz de prisão contra seu professor.
O professor Ernesto G. sabe que os tempos mudaram e que, graças à sua geração, hoje todos respiram democracia. Mas, ainda assim, os fantasmas da ditadura continuam a assombrá-lo. Quando trata de temas polêmicos em suas aulas, Ernesto G. fica assustadiço: vê uma aluna puxando o iPod de sua mochila e confunde-o com o gravador de algum agente infiltrado; um aluno acidentalmente esbarra no interruptor, e Ernesto G. acha que estão sabotando sua aula; alguém deixa um estojo pesado cair no chão, e Ernesto G. quase se abaixa, a fim de escapar do suposto tiro.
Ernesto G. vive amedrontado.
Mas nem só de sustos vive nosso grande professor. Sua vida acadêmica é bastante regrada. Corrige provas como quem resolve um problema matemático: atento ao menor e mais insignificante erro, a fim de corrigi-lo e subtrair generosos pontos do aluno. Durante a aula exige silêncio: Ernesto G. expulsa da sala uma média de três alunos por semana, alegando estarem “atrapalhando o bom andamento da aula”. Todo grupo que ousar, em um trabalho, salientar qualquer ponto positivo do Regime Militar, é rapidamente censurado pelo professor. Diz Ernesto G. que falar bem da ditadura é uma atitude “fascista”. Ernesto G. não pode permitir que haja fascistas entre seus alunos.
Ademais, Ernesto G. também exerce funções fora da sala de aula. Ele é o dirigente do Centro de Memória do Trabalhador (CMT), entidade vinculada à universidade que procura resgatar todo o passado dos trabalhadores brasileiros: suas lutas, conquistas e percalços. Aqui, mais do que nunca, Ernesto G. é enfático: não admite postergações, “prazo é prazo”, e quem não entregar o trabalho na data certa ou se atrasar para os encontros corre o sério risco de ficar de fora do Centro. Afinal de contas, Ernesto G. não pode, de forma alguma, permitir que a memória do trabalhador brasileiro seja tratada com o mínimo descaso.
O último projeto no qual o CMT esteve envolvido foi o Museu do Trabalhador Mineiro. O professor Ernesto G., obviamente, foi protagonista desse empreendimento. Ele coordenou a reunião de um vasto acervo de fotos, vídeos, objetos e textos que buscam manter vivas a dignidade, a tenacidade e a história do trabalhador mineiro – desde o escravo que morria nas minas até o operário sindicalista que era preso pelos milicos.
O professor Ernesto G. é incansável.
Quando finalmente chega o grande dia em que o Museu vai ser inaugurado, Ernesto G. está nervoso. Não, não são os militares que o assustam dessa vez; pelo contrário. Ernesto teme que algo dê errado, quer assegurar que tudo corra na mais perfeita harmonia, e que seu museu seja inaugurado em paz. Liga para a equipe de segurança, pede que reforcem o policiamento, pois sabe que na rua de trás do museu há um grande número de moradores de rua. O professor Ernesto não quer e não pode admitir que “uns catadores de papel de pé no chão e vestidos em frangalhos” entrem no museu, nem que “uns vendedores de doce e pipoca” oportunistas aproveitem o movimento para assediar os convidados com seu produtos. Mas, para a felicidade de nosso professor, tudo dá certo e o museu é inaugurado sem maiores problemas.
Feliz está Ernesto G., e mais felizes ainda seus bolsistas, pois sabem que o menor desvio iria significar a rescisão de seus estágios.
Grande Ernesto G.!
Suas aulas sobre a Ditadura Militar têm um fino toque de sadismo. Se por um lado o tema o atrai, por outro lhe traz o horror de lembranças que jamais se apagarão. Ele se lembra, todos os dias – como se fosse ontem – do medo que sentia no tempo em que era um jovem universitário, quando ia para a aula sem saber se voltaria para casa; quando freqüentava reuniões do DCE sem saber se elas durariam até o fim; quando tinha aulas sobre marxismo e esperava, apreensivo, algum infiltrado soltar uma voz de prisão contra seu professor.
O professor Ernesto G. sabe que os tempos mudaram e que, graças à sua geração, hoje todos respiram democracia. Mas, ainda assim, os fantasmas da ditadura continuam a assombrá-lo. Quando trata de temas polêmicos em suas aulas, Ernesto G. fica assustadiço: vê uma aluna puxando o iPod de sua mochila e confunde-o com o gravador de algum agente infiltrado; um aluno acidentalmente esbarra no interruptor, e Ernesto G. acha que estão sabotando sua aula; alguém deixa um estojo pesado cair no chão, e Ernesto G. quase se abaixa, a fim de escapar do suposto tiro.
Ernesto G. vive amedrontado.
Mas nem só de sustos vive nosso grande professor. Sua vida acadêmica é bastante regrada. Corrige provas como quem resolve um problema matemático: atento ao menor e mais insignificante erro, a fim de corrigi-lo e subtrair generosos pontos do aluno. Durante a aula exige silêncio: Ernesto G. expulsa da sala uma média de três alunos por semana, alegando estarem “atrapalhando o bom andamento da aula”. Todo grupo que ousar, em um trabalho, salientar qualquer ponto positivo do Regime Militar, é rapidamente censurado pelo professor. Diz Ernesto G. que falar bem da ditadura é uma atitude “fascista”. Ernesto G. não pode permitir que haja fascistas entre seus alunos.
Ademais, Ernesto G. também exerce funções fora da sala de aula. Ele é o dirigente do Centro de Memória do Trabalhador (CMT), entidade vinculada à universidade que procura resgatar todo o passado dos trabalhadores brasileiros: suas lutas, conquistas e percalços. Aqui, mais do que nunca, Ernesto G. é enfático: não admite postergações, “prazo é prazo”, e quem não entregar o trabalho na data certa ou se atrasar para os encontros corre o sério risco de ficar de fora do Centro. Afinal de contas, Ernesto G. não pode, de forma alguma, permitir que a memória do trabalhador brasileiro seja tratada com o mínimo descaso.
O último projeto no qual o CMT esteve envolvido foi o Museu do Trabalhador Mineiro. O professor Ernesto G., obviamente, foi protagonista desse empreendimento. Ele coordenou a reunião de um vasto acervo de fotos, vídeos, objetos e textos que buscam manter vivas a dignidade, a tenacidade e a história do trabalhador mineiro – desde o escravo que morria nas minas até o operário sindicalista que era preso pelos milicos.
O professor Ernesto G. é incansável.
Quando finalmente chega o grande dia em que o Museu vai ser inaugurado, Ernesto G. está nervoso. Não, não são os militares que o assustam dessa vez; pelo contrário. Ernesto teme que algo dê errado, quer assegurar que tudo corra na mais perfeita harmonia, e que seu museu seja inaugurado em paz. Liga para a equipe de segurança, pede que reforcem o policiamento, pois sabe que na rua de trás do museu há um grande número de moradores de rua. O professor Ernesto não quer e não pode admitir que “uns catadores de papel de pé no chão e vestidos em frangalhos” entrem no museu, nem que “uns vendedores de doce e pipoca” oportunistas aproveitem o movimento para assediar os convidados com seu produtos. Mas, para a felicidade de nosso professor, tudo dá certo e o museu é inaugurado sem maiores problemas.
Feliz está Ernesto G., e mais felizes ainda seus bolsistas, pois sabem que o menor desvio iria significar a rescisão de seus estágios.
Grande Ernesto G.!
domingo, 23 de maio de 2010
Os dilemas do professor Reinaldo
Seu nome é Torres. Reinaldo Torres. Reinaldo Torres é um simpático, efetivo e eficiente professor do departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais. Por todos os cantos do curso de História e mesmo da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, não há quem não o conheça, não há quem não o admire. Não há quem nunca tenha tido a honra ou o desejo de embelezar seu histórico ou sua vida com uma aula dele, mesmo que apenas como ouvinte.
Grande professor Reinaldo!
O professor Reinaldo é especialista em historiografia brasileira, matéria que leciona com invejável maestria. Seus alunos ficam mudos ao seu falar. Não há quem se atreva a interrompê-lo ou passar bilhetinhos enquanto o professor Reinaldo fala. Seus alunos, quase todos ateus ou agnósticos, experimentam um raro momento de religioso silêncio durante suas aulas.
Quando fala de Sérgio Buarque de Holanda, o professor Reinaldo deixa todos boquiabertos. Ao mencionar passagens de Raízes do Brasil, corrobora a visão que o autor tem da cultura personalista que a colonização portuguesa imprimiu ao Brasil. Satiriza a cultura do brasileiro de, até hoje, favorecer as relações “clientelares” em detrimento da meritocracia. Diz ele que “lá na Europa, onde fiz o meu mestrado”, só se dá bem quem estuda com dedicação e trabalha duro, e “não é que nem no Brasil, onde só tem sucesso quem é bem relacionado, quem tem contatos”. As raízes do atraso brasileiro, na concepção do professor Reinaldo, estão justamente na falta de valor que o país dá ao mérito, ao esforço, à seleção impessoal. Porque “lá nos Estados Unidos, onde fiz meu doutorado, não basta ter uma carinha bonita para ser bem-sucedido”.
O professor Reinaldo é grande fã do inconfidente Tomás Antônio Gonzaga, o qual costuma citar com frequência em suas aulas. Diz ele que até hoje todo brasileiro tem um quê de súdito de Fanfarrão Minésio: “nesse país, quem abre a boca contra as autoridades não tem sossego”. Nosso professor não perde a pompa e, mais uma vez, cita sua experiência internacional, afirmando que na Europa há liberdade de expressão, e que não é necessário concordar com o presidente ou com o premiê para subir na vida. No Brasil, pelo contrário, prevalece a lógica de sempre agradar o poder para prosperar, independente de quem esteja por trás dele.
O professor de história moderna faltou! Sem problemas. O professor Reinaldo está lá para substituí-lo. Seus anos de estudo na França e na Inglaterra fizeram-no um exímio conhecedor da gênese do Estado Absolutista. Apesar de essa não ser sua especialidade, o professor Reinaldo não deixa por menos: ironiza o ambiente das cortes do Antigo Regime, onde a nobreza estava sempre cercando o rei, fazendo-lhe agrados, na desesperada tentativa de lhe arrancar favores. Compara a aristocracia a uma foca de circo: faz suas gracinhas para arrancar os aplausos de alguém. E conclui que, apesar da distância temporal e espacial, o Brasil de hoje não é muito diferente – a ordem continua a ser cortejar o poder, cercá-lo, fazer-se percebido, a fim de alcançar o sucesso pessoal.
Apesar de seu sucesso e satisfação profissionais, o professor Reinaldo também tem seus problemas, como todo ser humano. Recentemente ele foi contemplado com duas generosas bolsas de estudo para um projeto de pesquisa. Entre tantos alunos – todos simpáticos e agradáveis, todos solícitos em convidá-lo para “tomar uma” depois da aula, – como escolher apenas dois bolsistas?
O professor Reinaldo tem um dilema.
Chama-lhe a atenção certo aluno que se senta, todas as aulas, na primeira fileira – “um tal de Henrique, ou algo assim”. Henrique é um garoto exemplar. Todos os dias antes da aula se oferece para comprar café para o professor. Após as aulas, mostra-se igualmente solícito para ajudar a carregar seu material. Sem dúvidas, uma boa opção.
Também na primeira fileira, a poucas cadeiras de Henrique, temos a simpática Fernanda, mais conhecida como Fêzinha. Fêzinha não gosta de estudar. Também não gosta de História. Ingressou em um curso superior apenas por pressão de seus pais, e optou por História apenas porque era mais fácil passar. Seu grande sonho mesmo é casar-se com seu namorado, estudante do último ano de Engenharia Civil. Fêzinha vai às aulas de minissaia e blush e, com pouco tempo de curso, já cativou o professor Reinaldo. Outra boa opção.
Algumas carteiras atrás, bem lá no fundo, senta-se uma figura que costuma fazer importantes aparições durante as aulas do professor Reinaldo. É um rapaz de cabelo encaracolado, óculos de armação preta, que sempre se põe a discordar do que o professor Reinaldo diz. Não há uma aula sequer na qual não se note uma acirrada discussão entre ele e o professor, acerca dos mais variados temas – discussões essas que nunca chegam a um ponto final muito claro. Um bom aluno, segundo o professor Reinaldo, mas meio problemático.
O professor Reinaldo tem ainda um dia inteiro para resolver seu dilema – fará isso em sua sala particular, depois de sua aula matinal. Antes disso, porém, precisa se desvencilhar com cautela da turba de alunos que o cerca ao final da aula. Depois de ouvir alguns elogios, pedidos, mais elogios, mais pedidos, súplicas, comentários desnecessários e irrelevantes sobre a matéria e sobre seu mais recente artigo, finalmente o professor Reinaldo tem caminho livre. Senta-se em sua poltrona e, após um longo suspiro, lá fica por quase uma hora.
Está satisfeito, pessoal e profissionalmente – é querido por todos (excetuando-se talvez o cabelo encaracolado de armação preta). E seu dilema? Já resolveu. A bolsa é da menina da minissaia e do menino do café. Envia aos dois um e-mail parabenizando-os, e mais outro para a fundação de pesquisa, na esperança de obter um valor maior para a bolsa. Recolhe seus livros sob o braço enquanto fecha a janela e vai almoçar.
Grande professor Reinaldo!
O professor Reinaldo é especialista em historiografia brasileira, matéria que leciona com invejável maestria. Seus alunos ficam mudos ao seu falar. Não há quem se atreva a interrompê-lo ou passar bilhetinhos enquanto o professor Reinaldo fala. Seus alunos, quase todos ateus ou agnósticos, experimentam um raro momento de religioso silêncio durante suas aulas.
Quando fala de Sérgio Buarque de Holanda, o professor Reinaldo deixa todos boquiabertos. Ao mencionar passagens de Raízes do Brasil, corrobora a visão que o autor tem da cultura personalista que a colonização portuguesa imprimiu ao Brasil. Satiriza a cultura do brasileiro de, até hoje, favorecer as relações “clientelares” em detrimento da meritocracia. Diz ele que “lá na Europa, onde fiz o meu mestrado”, só se dá bem quem estuda com dedicação e trabalha duro, e “não é que nem no Brasil, onde só tem sucesso quem é bem relacionado, quem tem contatos”. As raízes do atraso brasileiro, na concepção do professor Reinaldo, estão justamente na falta de valor que o país dá ao mérito, ao esforço, à seleção impessoal. Porque “lá nos Estados Unidos, onde fiz meu doutorado, não basta ter uma carinha bonita para ser bem-sucedido”.
O professor Reinaldo é grande fã do inconfidente Tomás Antônio Gonzaga, o qual costuma citar com frequência em suas aulas. Diz ele que até hoje todo brasileiro tem um quê de súdito de Fanfarrão Minésio: “nesse país, quem abre a boca contra as autoridades não tem sossego”. Nosso professor não perde a pompa e, mais uma vez, cita sua experiência internacional, afirmando que na Europa há liberdade de expressão, e que não é necessário concordar com o presidente ou com o premiê para subir na vida. No Brasil, pelo contrário, prevalece a lógica de sempre agradar o poder para prosperar, independente de quem esteja por trás dele.
O professor de história moderna faltou! Sem problemas. O professor Reinaldo está lá para substituí-lo. Seus anos de estudo na França e na Inglaterra fizeram-no um exímio conhecedor da gênese do Estado Absolutista. Apesar de essa não ser sua especialidade, o professor Reinaldo não deixa por menos: ironiza o ambiente das cortes do Antigo Regime, onde a nobreza estava sempre cercando o rei, fazendo-lhe agrados, na desesperada tentativa de lhe arrancar favores. Compara a aristocracia a uma foca de circo: faz suas gracinhas para arrancar os aplausos de alguém. E conclui que, apesar da distância temporal e espacial, o Brasil de hoje não é muito diferente – a ordem continua a ser cortejar o poder, cercá-lo, fazer-se percebido, a fim de alcançar o sucesso pessoal.
Apesar de seu sucesso e satisfação profissionais, o professor Reinaldo também tem seus problemas, como todo ser humano. Recentemente ele foi contemplado com duas generosas bolsas de estudo para um projeto de pesquisa. Entre tantos alunos – todos simpáticos e agradáveis, todos solícitos em convidá-lo para “tomar uma” depois da aula, – como escolher apenas dois bolsistas?
O professor Reinaldo tem um dilema.
Chama-lhe a atenção certo aluno que se senta, todas as aulas, na primeira fileira – “um tal de Henrique, ou algo assim”. Henrique é um garoto exemplar. Todos os dias antes da aula se oferece para comprar café para o professor. Após as aulas, mostra-se igualmente solícito para ajudar a carregar seu material. Sem dúvidas, uma boa opção.
Também na primeira fileira, a poucas cadeiras de Henrique, temos a simpática Fernanda, mais conhecida como Fêzinha. Fêzinha não gosta de estudar. Também não gosta de História. Ingressou em um curso superior apenas por pressão de seus pais, e optou por História apenas porque era mais fácil passar. Seu grande sonho mesmo é casar-se com seu namorado, estudante do último ano de Engenharia Civil. Fêzinha vai às aulas de minissaia e blush e, com pouco tempo de curso, já cativou o professor Reinaldo. Outra boa opção.
Algumas carteiras atrás, bem lá no fundo, senta-se uma figura que costuma fazer importantes aparições durante as aulas do professor Reinaldo. É um rapaz de cabelo encaracolado, óculos de armação preta, que sempre se põe a discordar do que o professor Reinaldo diz. Não há uma aula sequer na qual não se note uma acirrada discussão entre ele e o professor, acerca dos mais variados temas – discussões essas que nunca chegam a um ponto final muito claro. Um bom aluno, segundo o professor Reinaldo, mas meio problemático.
O professor Reinaldo tem ainda um dia inteiro para resolver seu dilema – fará isso em sua sala particular, depois de sua aula matinal. Antes disso, porém, precisa se desvencilhar com cautela da turba de alunos que o cerca ao final da aula. Depois de ouvir alguns elogios, pedidos, mais elogios, mais pedidos, súplicas, comentários desnecessários e irrelevantes sobre a matéria e sobre seu mais recente artigo, finalmente o professor Reinaldo tem caminho livre. Senta-se em sua poltrona e, após um longo suspiro, lá fica por quase uma hora.
Está satisfeito, pessoal e profissionalmente – é querido por todos (excetuando-se talvez o cabelo encaracolado de armação preta). E seu dilema? Já resolveu. A bolsa é da menina da minissaia e do menino do café. Envia aos dois um e-mail parabenizando-os, e mais outro para a fundação de pesquisa, na esperança de obter um valor maior para a bolsa. Recolhe seus livros sob o braço enquanto fecha a janela e vai almoçar.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Mudançando de destino
Já que a moda agora é ser louco
E seguir moda significa ser igual
Resolvi ser diferente um pouco
E virar uma pessoa normal.
E seguir moda significa ser igual
Resolvi ser diferente um pouco
E virar uma pessoa normal.
domingo, 10 de janeiro de 2010
Nota de esclarecimento
Mais um ano começa, mais uma década se inicia.
Achei o momento propício para poder esclarecer possíveis dúvidas de alguns possíveis leitores que, por um motivo ou outro, resolveram acompanhar meu blog. Desde 2008, nos deparamos aqui, no hiperativo-categorico.blogspot, com toda uma gama de figuras exóticas, tipos excêntricos e personagens irreverentes, especialmente quando tratamos dos tipos ideais weberianos.
Não pude deixar de notar que por vezes essas figuras suscitaram dúvidas entre os leitores, muitos deles chegando a achar que em algum momento eu pudesse me identificar com alguma delas. Não que isso nunca tenha ocorrido, mas eu jamais me arriscaria a dizer que a elaboração dessas figuras teria qualquer propósito auto-crítico, salvo em alguns raros casos.
Sem mais delongas, proponho-me a revisar, um por um, todos os personagens analisados até aqui, deixando sempre claro quando existe - e quando não - qualquer sentimento de identidade entre criador e criatura.
O VESTIBULANDO FELIZ
É engraçado como tem gente que pensa que, só porque conseguiu marcar as bolinhas certas e escrever uma redação que agradasse a uns professores carrancudos, pode desfilar com toda pompa e orgulho, achando-se o verdadeiro escolhido de Deus. (Para maiores informações, basta ler as notas da nova Jerusalém e o comovente depoimento de Renato).
O JOVEM MOTORISTA INDEPENDENTE
Ser independente vai muito além de ter um carro. Muito mais importante é ter a capacidade de comprá-lo e não dever satisfação a ninguém quando batê-lo. Não quero uma independência ao estilo de "território autônomo" ou "departamento de ultramar"; quero uma independência ao estilo "Dien Bien Phu"!
O MISSIONÁRIO ATEU
Ele está por aí, em todo lugar ao meu redor: pode ser meu professor, meu colega de sala, meu amigo e tantos outros... Desde que não seja eu, e que não me venha salmodiar as boas-novas do ateísmo, por mim tudo bem.
O CINÉFILO
Aqui dá-se quase o mesmo que com o missionário ateu: ele me cerca por todos os lados, impossível evitá-lo. Mas tudo vai bem, desde que não me contamine.
O ESTUDANTE DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS
Como fiz questão de deixar claro no próprio texto, ele possui um caráter auto-crítico. Mas como não sou mais um estudante de R.I., suponho que tenha se tornado anacrônico.
O CHRAETINUS IGNOBILIS
Uma de minhas mais perfeitas e trágicas criações! E é justamente por lhe dever tanto mérito que faço questão de me afastar dela, e deixar que ela se chafurde sozinha em tanto glamour.
RENATO: O CALOURO FELIZ
Acredite ou não: ele existe (mas não é dono deste blog).
N.
Diria apenas que N. é a personificação daquilo que busco não ser. Diria ainda que N. é uma versão manca de mim - um Marcelo coxo, ruim das pernas. Por isso mesmo ele é N., e não M..
HENRIQUE, O HISTORIADOR CONFIANTE
A diferença entre a prostituta acadêmica e a de beira de estrada não é lá muito significativa: ambas adoram rodar a bolsinha. Acontece que a prostituta de beira de estrada o faz como descontração, ao passo que a acadêmica o faz por ostentação: adora mostrar aos outros a bolsa que conseguiu do professor com o qual manteve relações promíscuas (sejam elas morais ou quem sabe até mesmo físicas) - relações essas sem as quais jamais conseguiria a bolsa ostentada.
Achei o momento propício para poder esclarecer possíveis dúvidas de alguns possíveis leitores que, por um motivo ou outro, resolveram acompanhar meu blog. Desde 2008, nos deparamos aqui, no hiperativo-categorico.blogspot, com toda uma gama de figuras exóticas, tipos excêntricos e personagens irreverentes, especialmente quando tratamos dos tipos ideais weberianos.
Não pude deixar de notar que por vezes essas figuras suscitaram dúvidas entre os leitores, muitos deles chegando a achar que em algum momento eu pudesse me identificar com alguma delas. Não que isso nunca tenha ocorrido, mas eu jamais me arriscaria a dizer que a elaboração dessas figuras teria qualquer propósito auto-crítico, salvo em alguns raros casos.
Sem mais delongas, proponho-me a revisar, um por um, todos os personagens analisados até aqui, deixando sempre claro quando existe - e quando não - qualquer sentimento de identidade entre criador e criatura.
O VESTIBULANDO FELIZ
É engraçado como tem gente que pensa que, só porque conseguiu marcar as bolinhas certas e escrever uma redação que agradasse a uns professores carrancudos, pode desfilar com toda pompa e orgulho, achando-se o verdadeiro escolhido de Deus. (Para maiores informações, basta ler as notas da nova Jerusalém e o comovente depoimento de Renato).
O JOVEM MOTORISTA INDEPENDENTE
Ser independente vai muito além de ter um carro. Muito mais importante é ter a capacidade de comprá-lo e não dever satisfação a ninguém quando batê-lo. Não quero uma independência ao estilo de "território autônomo" ou "departamento de ultramar"; quero uma independência ao estilo "Dien Bien Phu"!
O MISSIONÁRIO ATEU
Ele está por aí, em todo lugar ao meu redor: pode ser meu professor, meu colega de sala, meu amigo e tantos outros... Desde que não seja eu, e que não me venha salmodiar as boas-novas do ateísmo, por mim tudo bem.
O CINÉFILO
Aqui dá-se quase o mesmo que com o missionário ateu: ele me cerca por todos os lados, impossível evitá-lo. Mas tudo vai bem, desde que não me contamine.
O ESTUDANTE DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS
Como fiz questão de deixar claro no próprio texto, ele possui um caráter auto-crítico. Mas como não sou mais um estudante de R.I., suponho que tenha se tornado anacrônico.
O CHRAETINUS IGNOBILIS
Uma de minhas mais perfeitas e trágicas criações! E é justamente por lhe dever tanto mérito que faço questão de me afastar dela, e deixar que ela se chafurde sozinha em tanto glamour.
RENATO: O CALOURO FELIZ
Acredite ou não: ele existe (mas não é dono deste blog).
N.
Diria apenas que N. é a personificação daquilo que busco não ser. Diria ainda que N. é uma versão manca de mim - um Marcelo coxo, ruim das pernas. Por isso mesmo ele é N., e não M..
HENRIQUE, O HISTORIADOR CONFIANTE
A diferença entre a prostituta acadêmica e a de beira de estrada não é lá muito significativa: ambas adoram rodar a bolsinha. Acontece que a prostituta de beira de estrada o faz como descontração, ao passo que a acadêmica o faz por ostentação: adora mostrar aos outros a bolsa que conseguiu do professor com o qual manteve relações promíscuas (sejam elas morais ou quem sabe até mesmo físicas) - relações essas sem as quais jamais conseguiria a bolsa ostentada.
Assinar:
Postagens (Atom)